Semana On

terça-feira, 23 de abril de 2013

Lendo Lolita em Teerã - Azar Nafisi



"O problema não é a religião, mas quando a religião se transforma em Estado, quando a religião vira lei." - Azar Nafisi

A iraniana Azar Nafisi,  tem um mundo a contar. Parte dele está em seu livro mais festejada, "Lendo Lolita em Teerã" (A Girafa, 502 páginas), cuja leitura finalizei ontem. Lançada no Brasil em 2004, a obra desvela um retrato sensível – às vezes chocante – da situação das mulheres no Irã, submetidas ao fanatismo do regime islâmico, através da experiência de Nafisi e de sete de suas alunas da época em que ela lecionava na Universidade de Teerã.

Por dois anos, desafiando a repressão do regime dos aiatolás, elas se encontraram semanalmente no apartamento de Nafisi para discutir autores proibidos no país - como Henry James, Jane Austen, Scott Fitzgerald  e Vladimir Nabokov - e exorcizar seus próprios demônios.

Nascida em Teerã, Nafisi deixou seu país aos 13 anos para estudar na Europa e nos Estados Unidos. Retornou ao Irã em 1979, logo após a Revolução Islâmica, e lá permaneceu por dezoito anos. Uma das "filhas da revolução", Nafisi era uma entre muitos intelectuais iranianos que apoiaram a derrubada do Xá  Reza Pahlavi mas que se viram enredados no totalitarismo islâmico.

Cansada de lutar contra a "atmosfera de terror", decidiu voltar para os EUA. "Para uma mulher, viver no Irã é comparável a fazer sexo com o homem que ela mais odeia, é um estupro dissimulado", diz Nafisi.

Esta tortura diária é exposta por Nafisi com maestria ao tecer, no livro, comentários trançados sobre a vida no Irã sob os aiatolás e os livros que debatia com seus alunos e alunas nas aulas de literatura inglesa que ministrou em universidades e, depois, de forma velada em sua própria casa.

Em uma recente entrevista, quando questionada sobre o motivo que a levou a elencar "Lolita" como a obra inspiradora para suas reuniões literárias e, posteriormente, como ponto de partida para seu livro, Nafisi expôs toda a força política e social que a literatura carrega e que , muitas vezes, passa ao largo de nossas percepções imediatas.

Disse ela: "Na literatura de ficção, o romance de Nabokov é uma das representações que mais se aproximam do regime totalitário em que vivíamos. Vai muito além de 1984, de George Orwell, que se tornou um símbolo do autoritarismo. Mais do que expor a dor física e a tortura das ditaduras, Nabokov transmite em Lolita como é apavorante viver num estado de terror permanente. A tragédia maior da história não é o estupro de uma menina de 12 anos por um senhor, mas o confisco de uma vida individual por outra. Lolita é uma menina que não tem para onde ir. Ela depende de Humbert, o personagem que faz de tudo para possuí-la, tenta transformá-la em sua fantasia, em seu amor, mas a destrói. Ela satisfaz os desejos dele porque não há outra saída, porque sempre é levada a crer que será recompensada. Ela é o tipo de pessoa que não pode articular a própria história. Assim é a vida numa sociedade totalitária. Um mundo de solidão, em que o Estado é o salvador e o carrasco."

A seguir, alguns trechos pinçados do livro, cuja força e relevância me cativaram:

Durante cerca de dois anos, quase todas as quintas-feiras pela manhã, com chuva ou com sol, elas vinham à minha casa e, em quase todas as vezes, eu não conseguia me recuperar do choque de vê-las tirar sua sobrigatórias túnicas e véus, e explodir em cores.

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"A curiosidade é a insubordinação em sua forma mais pura." - Nabokov

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"A docilidade do prisioneiro é um orgulho da prisão" - Nabokov em Invitation to a Beheading

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Todo conto de fadas oferece o potencial para superar os limites presentes e, assim, num certo sentido, os contos de fadas oferecem liberdades que a realidade nos nega.

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Humbert, como a maioria dos ditadores, estava interessado somente em sua própria visão das outras pessoas. - Nafisi falando do personagem de Nabokov em Lolita.

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Eles invadem todos os espaços privados e tentam moldar cada gesto para nos forçar a nos tornarmos um deles, o que em si mesmo é uma outra forma de execução.

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O Partido Comunista Tudeh e a Organização Marxista Fedayin apoiavam os radicais reacionários contra os que chamavam de liberais.

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A melhor ficção sempre nos força a questionar o que não damos importância, porque damos como certo.

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Nos Estados Unidos, quando gritávamos Morte a isso ou a aquilo, essas mortes pareciam mais simbólicas, mais abstratas, como se a impossibilidade dos nossos slogans nos encorajasse a insistir neles ainda mais. Mas em Teerã, em 1979, esses slogans se tornavam realidade com uma precisão macabra. Sentia-me impotente e indefesa: todos os sonhos e todos os slogans se tornavam verdades, e não havia como escapar deles.

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A maioria dos grupos revolucionários concordava com o governo sobre a questão das liberdades individuais, que eles condescendentemente chamavam de "burguesas" e "decadentes". Isso facilitou a promulgação de algumas das leis mais reacionárias pela nova elite dominante, que chegou a ponto de criminalizar certos gestos e a expressão de emoções, como o amor... Baniu o balé e a dança, e avisou às bailarinas que elas podiam escolher entre atuar e cantar. Mais tarde, as mulheres foram proibidas até de cantar, porque a voz de uma mulher, como seu cabelo, era sexualmente provocante e deveria se manter oculta.

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Não queria discutir com Mahtab e suas amigas, cuja organização marxista havia tacitamente ficado ao lado do governo, denunciando os que protestavam como discordantes, divisores e, em última análise, como instrumentos a serviço dos imperialistas. De algum modo, acabei discutindo, não com o senhor Bahri, mas com elas, as ostensivamente progressistas. Elas afirmavam que existiam peixes maiores a fritar, que precisávamos primeiro lidar com os imperialistas e seus lacaios. Concetrar-se nos direitos das mulheres era individualista e burguês, e fazia o jogo deles.

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Sentados na sala da união dos estudantes, bebendo café ou Coca-Cola, nossos camaradas, atrapalhando o flerte que rolava na mesa vizinha, se inflamavam e defendiam os direitos das massas de torturar e eliminar fisicamente os seus opressores. Ainda lembro de um deles... argumentando que existiam dois tipos de tortura, dois tipos de assassinato - aqueles cometidos pelo inimigo, e aqueles cometidos pelos amigos do povo. Era legal assassinar os inimigos.

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Será que meus antigos camaradas previram que um dia eles seriam julgados pelo Tribunal Revolucionário, torturados e mortos como traidores e espiões? Será que eles poderiam prever, senhor Bahri? Posso lhes dizer com certeza absoluta que eles não previram. Nem em seus sonhos mais alucinados.

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... o maior pecado é ficar cego diante dos problemas e do dofrimento das outras pessoas. Não enxergar esses problemas e esses sofrimentos significa negar sua existência.

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Um grande romance eleva suas percepções e sua sensibilidade sobre as complexidades da vida e dos indivíduos, e impede que você, da sua hipocrisia, encare a moralidade através de fórmulas determinadas sobre o bem e o mal.

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Só depois que cheguei em casa que compreendi o verdadeiro sentido do exílio. Enquanto caminhava por aquelas ruas ternamente amadas, amorosamentre relembradas, senti que esmagava as memórias que jaziam no caminho.

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Pensar que as universidades seriam fechadas parecia tão artificial quanto a possibilidade de as mulheres finalmente sucumbirem a usar o véu... O comitê foi autorizado a expulsar docentes e alunos indesejáveis... Se os esquerdistas chegassem ao poder, eles fariam a mesma coisa.

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O assunto não era o véu, mas a liberdade de escolha... Pouco e mal sabia que em breve me seria dada a escolha entre usar o véu ou ser presa, açoitada e talvez morta se desobedecesse.

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Certo dia, na primavera de 1981, tornei-me irrelevante.

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Um aiatolá implacável, um filósofo-rei cego e improvável, decidira impor seu sonho sobre um país e sobre um povo, e nos recriar segundo sua própria visão míope.

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Por causa da esmagadora objeção das mulheres às novas leis, o governo impôs os novos regulamentos nos locais de trabalho e depois nas lojas, que ficaram proibidas de atender mulheres sem véu. A desobediência era punida com multas em dinheiro, com até setenta e cinco chibatadas e com a prisão. Mais tarde, o governo criou os notórios esquadrões da moralidade: quatro homens armados e uma mulher, em carros toyota de patrulha, monitoravam as ruas e asseguravam o cumprimento  das leis.

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Não tinha compreendido o quanto as rotinas da vida criam uma ilusão de estabilidade.

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Desta vez abrimos os portões, não para os invasores estrangeiros, mas para os domésticos, aqueles que voltaram para nós em nome de nosso próprio passado, mas que distorceram cada milímetro dele e nos roubaram Ferdowsi e Hafez.

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Era um lugar pequeno, um bar em seus dias pré-revolucionários, agora encarnado num café. Pertencia a um armênio, e verei para sempre ao lado do nome do restaurante, em letras miúdas na porta de vidro, o aviso compulsório em grandes letras pretas: MINORIA RELIGIOSA. Todos os restaurantes administrados por não-muçulmanos tinham que exibir esse aviso em suas portas para que  os bons muçulmanos, que consideravam sujos todos os não-muçulmanos, e que não comiam nos mesmos pratos ou bebiam nos mesmos copos ou xícaras, pudessem ser advertidos com antecedência.

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"Quem quer que lute com monstros", Nietzsche dissera, "deve cuidar para que no processo não se torne um monstro. E quando você olha longamente para o abismo, o abismo também olha dentro de você."

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"Graças a Deus que você é um fracasso - foi o motivo pelo qual o distingui! Qualquer outra coisa atualmente é muito abominável. Olhe ao seu redor - veja os sucessos. Você seria um deles sobre a sua honra?" - Henry James em Os Embaixadores.

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Essas são pessoas que conscientemente escolheram o fracasso para preservar seu próprio senso de integridade... Eles se isolaram em si mesmos, e fervilharam em seus sonhos destroçados.

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Aqueles nas associações islâmicas haviam provado o gosto e o poder das coisas ocidentais: eles usaram seu poder, sobretudo, para usufruir privilégios negados a outros.

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De fato, às vezes me parecia que nossa época era mais ficcional do que a própria ficção.

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Como todos os fazedores de mitos, ele tentara moldar a realidade pelo seu sonho e, no final, como Humbert, conseguira destruir tanto a realidade quanto o sonho. Adicionada aos crimes, aos assassinatos e às torturas, naquele momento tivemos que enfrentar essa última indignidade - o assassinato dos nossos sonhos. Ainda assim, ele o fizera com a nossa completa aquiescência, o nosso total assentimento e cumplicidade.

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Meus anos de juventude testemunharam a chegada de duas mulheres ao ministério. Depois da revolução, essas mesmas duas mulheres foram sentenciadas à morte, pelos pecados de antagonizar a Deus e disseminar a prostituição. Uma delas, a ministra para os assuntos das mulheres, estava no exterior na época da revolução, e permaneceu no exílio, onde se tornou uma importante porta-voz dos direitos das mulheres e dos direitos humanos. A outra, a ministra da educação e antiga diretora da minha escola secundária, foi colocada num saco e apedrejada até morrer.

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Todos precisamos criar um paraíso  para escapar

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Mais do que qualquer outra coisa, sinto falta da esperança.

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Tenho uma fantasia recorrente de que mais um artigo foi acrescido à Declaração de Direitos Humanos: o direito ao acesso livre à imaginação. Cheguei à conclusão e agora acredito que a genuína democracia não pode existir sem a liberdade de imaginar e sem o direito de usar obras ficcionais sem quaisquer restrições. Para possuir a totalidade de uma vida, precisamos ter a possibilidade de modelar e de expressar publicamente mundos, sonhos, pnsamentos e desejos privados, de ter constantemente acesso a um diálogo entre  omundo público e o mundo privado. De que outra maneira nós saberemos que existimos, sentimos, desejamos, odiamos e tivemos medo?

Para mais resenhas e minhas últimas leituras clique AQUI.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ditadura de esquerda é lindo

Mais um "debate" no Facebook com gente que acha linda a ditadura de Fidel Castro em Cuba.
Tudo por causa de Yoani Sánchez.
Para não perder no timeline, posto o link AQUI.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poema



Deixa deitar meu cansaço
No teu colo de espinhos
Enxaguar teus lábios
Com o orvalho da minha ira

Deixa o mel das palavras
Azedar na minha língua

Deixa abraçar teu olhar
Como um velho menino
Inundar tua pele
Com a aspereza da minha vida

Deixa escorrer teu sal em mim

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Nosso novo, velho jornalismo

Nosso novo, velho jornalismo...

Relendo o primeiro volume do “Teorias do Jornalismo”, do Nelson Traquina, me deparei com duas passagens curiosas sob o ponto de vista do jornalismo que se pratica hoje no Brasil, especialmente nos grotões onde os poucos leitores e anunciantes são disputados no tapa por jornais com tiragem indigente e emissoras de TV e rádio onde a notícia é mera coadjuvante na programação.

A primeira passagem é uma reflexão sobre “The image of the Journalists in France, Germany, and England, 1845-1848”, de Leonor O’Boyle, segundo a qual a nova classe média inglesa no século 19 formou um público que queria notícias políticas e econômicas, de modo que foi possível a um jornal diário atrair leitores e anunciantes suficientes para se auto-sustentarem, sem qualquer dependência de subsídios políticos.

Na segunda passagem, Traquina cita estudos segundo os quais havia, na França do século 19, pouca publicidade paga e escasso público leitor. Como consequência, os jornais franceses não conseguiam se transformar em negócio lucrativos e auto-suficientes. “Permaneciam dependentes financeiramente dos vários partidos políticos, e assim altamente politizados e partidários”, afirma o acadêmico português.

Ora, substituindo a geografia de ambas as citações pelo Mato Grosso do Sul da atualidade chego a conclusão de que ainda praticamos um jornalismo ao etilo do século 19.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Humanos de índole torta

Humanos de índole torta

"O que fazer com um cidadão que dispara uma arma de fogo no rosto de uma mulher grávida?"

O corpo da secretária Daniela Oliveira, de 25 anos, que morreu após ser baleada durante uma tentativa de assalto, foi enterrado ontem (11) em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Daniela, que estava grávida de nove meses, foi atingida por um disparo de arma de fogo no rosto logo após descer de um Ford Fiesta na frente do condomínio em que morava. Ela foi abordada por dois criminosos em uma moto, que atiraram nela e fugiram sem levar nada. 

Seis minutos após a entrada de Daniela no Hospital do Campo Limpo, os médicos decidiram pela realização da cesariana, para salvar o bebê. A criança, chamada Gabriela, nasceu com 2,2 quilos e saudável. A família decidiu doar os órgãos de Daniela.

Assunto encerrado.

Daniela Oliveira em breve sairá dos noticiários, se transformará em apenas uma fração dos índices que medem a violência desenfreada que assola o país. 

Recente relatório sobre o Peso Mundial da Violência Armada aponta que, entre os anos de 2004 e 2007, os doze maiores conflitos armados, provocados por disputas territoriais, guerras civis e movimentos libertários, em diferentes partes do mundo, mataram 169.574 pessoas. No mesmo período, 192.804 pessoas foram assassinadas no Brasil. 

Entre 1992 e 2009, de acordo com o IBGE, a taxa de homicídios no Brasil cresceu 41%, com a média de assassinatos saltando de 19,2 para 27,1 mortes em cada cem mil habitantes. Nos últimos trinta anos, houve aumento de 83,1% na taxa de homicídios no Brasil.

Em 2010 ocorreram quase 50 mil assassinatos no Brasil, ao ritmo de 137 homicídios por dia, número superior ao de “um massacre do Carandiru por dia”, como assevera o pesquisador Julio Jacobo Waisefisz, do Instituto Sangari.

Estes números assustadores têm causas diversas, em especial a desigualdade social, o absurdo desequilíbrio na distribuição de renda, a educação de qualidade indigente oferecida aos jovens, o naufrágio da cidadania diante da cultura de consumo desenfreado entre outras mazelas de cunho social.

Podemos atribuir uma parcela de responsabilidade sobre a escalada da violência a todos estes tristes aspectos da sociedade brasileira. Há um, no entanto, que costuma ficar de fora das análises, dos programas de governo, dos discursos políticos: a maldade.

Nossa cultura de classe média culpada, propensa a paternalismos e ao acalanto do mito do bom selvagem, tende a “passar a mão na cabeça” do criminoso, a exigir direitos humanos para humanos de índole torta, deformada. 

Ao iniciar este artigo, apenas uma questão se colocava em minha mente, insistente... O que fazer com um cidadão que dispara uma arma de fogo contra o rosto de uma mulher grávida?

domingo, 23 de dezembro de 2012

Poema

Como uma tarde indo embora
Me calo
Enrubesço
Me encho de azul

Como uma tarde indo embora
Me visto de nuvens
Amanheço pássaros
Transbordo em lilás

Procuro teus olhos

No céu que desmonta
Na tarde que vai

Marco Maia: o alcoviteiro

Marco Maia: o alcoviteiro
Ao cogitar acoitar deputados condenados presidente da Câmara expõe seu lado totalitário

O presidente da Câmara Federal, deputado Marco Maia (PT-RS), pirou de vez. Em um típico arroubo de quem enxerga no estado democrático de direito apenas uma janela de oportunidade para exercer interesses privados ou político-partidários, afirmou que não descartava a possibilidade de oferecer “abrigo” no prédio da Casa aos parlamentares condenados no mensalão, caso a prisão imediata deles fosse decretada pelo ministro Joaquim Barbosa.

Sim, ele poderia fazer isso, já que o pedido de prisão só poderia ser cumprido no prédio com autorização da Polícia Legislativa.

Marco Maia parece enxergar a coisa pública como esfera particular ao cogitar tamanho absurdo. Pior, em um jogo de palavras obsceno, tentou construir um argumento segundo o qual a possibilidade de a Câmara abrigar criminosos condenados pela mais alta corte de justiça do País seria um ato democrático. "Em regimes totalitários e autoritários, a primeira coisa que se faz é atacar o Parlamento”, disse, distorcendo a questão.

Nos pensamentos estapafúrdios, na mente confusa de integrantes de um setor da esquerda, ainda viceja a teoria de que os mensaleiros condenados foram vítimas de uma grande armação coordenada pela “mídia golpista”, pela CIA e pelo Tio Sam. Vivem em um mundo de ilusão no qual toda e qualquer ignomínia contra o erário público lhes é permitida diante do “bem maior” (suas contas bancárias, certamente), imaginam-se acima do bem e do mal. Não percebem que a aura de "santidade" que os envolvia e que emcobria seus muitos descalabros esmaeceu.

Dos três deputados condenados, apenas João Paulo Cunha deve ir para o regime fechado, já que foi condenado a 9 anos e 4 meses de prisão. Pedro Henry (PP), que foi sentenciado a 7 anos e 2 meses, e Valdemar da Costa Neto (PR-SP), condenado a 7 anos e 10 meses, devem cumprir a pena em regime semiaberto.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel – uma ilha de lucidez em meio à tormenta obscurantista que tenta tragar o Governo Dilma – pediu a prisão imediata dos três, e dos demais réus condenados no processo do mensalão, entre eles o de José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil e homem forte do primeiro governo Lula.

Enquanto este artigo era escrito, o ministro Joaquim Barbosa optava por negar o pedido de Gurgel. O assunto seria letra morta nesta página. No entanto, a simples cogitação por parte do presidente da Câmara Federal da possibilidade de patrolar a decisão do Supremo Tribunal Federal mostra até que ponto a banda podre da esquerda brasileira é capaz de ir para defender seus próprios interesses.

Não se enganem, estes que maculam a bandeira de um partido construído sobre as esperanças de uma nação, são capazes de incitar os mais humildes e desinformados a demonstrações de força em prol de seus mais sórdidos interesses privados, em apoio a um projeto político que de republicano tem bem pouco, ou quase nada.

Eles não queriam matar... mas mataram



Eles não queriam matar... mas mataram

Enquanto a lei não for draconiana, combinação álcool e direção continuará matando no Brasil

Clarice da Costa, 56 anos, e sua filha, Camila Turolla, 27 anos, aguardavam um táxi na madrugada do último dia 8, em um dos portões de saída do aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, quando se transformaram em estatísticas da guerra do trânsito no Brasil. Foram atropeladas pelo assistente técnico Wagner Gomes Alvarenga, 23 anos, que voltava de uma confraternização no serviço.

Clarice morreu e Camila encontra-se hospitalizada em estado grave. Wagner cotizou R$ 12 mil com a família e foi posto em liberdade.  Ao se preparar para ir para casa, disse à imprensa que não teve intenção de cometer o crime, alegou que teve um "mal súbito" após "beber um pouco", pediu perdão.

Também não teve intenção de cometer crime algum o estudante de Direito Richard Ildvan Gomides Lima, 22 anos, que na madrugada do dia 31 de maio ultrapassou em alta velocidade um sinal vermelho na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande (MS), matando na hora o segurança David Del Vale Antunes, 31 anos, que voltava para casa após um dia de trabalho. Assim como Alvarenga, Ildvan já está em casa. Foi posto em liberdade esta semana.

Ildvan se negou a realizar o teste do bafômetro na delegacia, apesar das evidências de estar alcoolizado. Os exames toxicológicos mostraram que Wagner tinha uma concentração de 0,28 miligramas de álcool por litro de ar expelido (mg/l), índice pouco abaixo do limite para imputar a ele uma sanção criminal (0,3 mg/l), mas que ainda o impedia legalmente de dirigir. Ambos aguardarão julgamento e, até lá, suas defesas farão o possível para transformar crimes em fatalidades.

Nenhum deles pretendia cometer crime algum dizem os advogados. Ocorre que as coisas não são assim tão simples. O fato é que quem bebe – seja lá que quantidade for – e dirige assume o risco de colocar em perigo a vida de terceiros. Deveria, a priori, ser encarado pela justiça como um criminoso.

De nada adianta o pedido de perdão feito por Wagner diante das câmeras de TV. Perdão não vai trazer Clarice de volta, não vai amenizar o choque de Camila. Nenhum pedido de perdão feito por gente que mistura álcool e direção pode ser levado a sério. Nenhum argumento hipócrita de advogados vai amenizar a dor da família do segurança David.

O Senado brasileiro perdeu uma oportunidade no último dia 12, ao aprovar a lei complementar que aumenta a multa, além da apreensão da carteira de habilitação, como punição para quem for flagrado dirigindo sob o efeito de álcool. O texto aprovado representa quase nada em comparação ao relatório original do senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), que estipulava "tolerância zero" para associação entre álcool e direção e detenção mínima de seis meses a três anos.

Enquanto a lei não for draconiana contra os que fazem pouco da vida alheia, Clarices, Camilas e Davids continuarão engrossando as tristes estatísticas e confirmando a nossa irresponsabilidade diante da vida.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Ridículos tiranos

Ridículos tiranos
Não se enganem, não há bons moços na política partidária. Ela se transformou em um lodaçal

Não há outro tema nesta semana que mereça mais figurar neste espaço do que a sordidez com que os 21 vereadores da Câmara Municipal de Campo Grande aprovaram, no apagar das luzes, na surdina, o aumento de seus próprios salários em 61,9%.

O presidente da Casa, vereador Paulo Siufi (PMDB) havia garantido aos cidadãos que foram à Câmara protestar contra este reajuste imoral que a votação seria divulgada previamente. Mentiu.

Incrível perceber que apesar de milhares de manifestações indignadas que pulularam pelo Facebook (apenas uma postagem da Semana Online – veja aqui – foi compartilhada quase 1700 vezes), nenhum vereador se dignou a dar uma resposta à população.

Estes, que usam as mídias sociais para fazer proselitismo de suas parcas ações parlamentares e de suas vastas papagaiadas assistencialistas, não se dignaram a escrever uma linha sequer como resposta aos eleitores. São estes os que têm a certeza absoluta de que o eleitor esquecerá este acinte em poucos dias.

Infelizmente eles têm razão. A imensa maioria das pessoas terá esquecido nas próximas semanas tudo o que ocorreu. Restará apenas uma vaga sensação de impotência, um tênue desgosto que se revelará sempre que a palavra política for proferida.

É deste esquecimento, desta inércia, que sobrevivem os políticos profissionais que se apossaram de nossas instâncias políticas. É dela, desta pasmaceira, desta quase tristeza cívica, que eles tiram o sustento para solapar a cada dia a nossa cidadania.

Não se enganem, não há bons moços na política partidária. No Brasil, ela se transformou em um lamaçal no qual chafurdam os imorais de caráter, no qual os bem intencionados desmoronam num piscar de olhos. Esqueçam os bons moços, esqueçam as promessas de oportunidade.

Enquanto a reforma política mofa nas gavetas e se transfigura em arremedos que vão sendo acordados entre os poderosos de modo a que tudo continue como é, vai surgindo um novo campo para a práxis política. Esta nova ágora é digital, anárquica, uma babel.

As redes sociais vão propiciar uma transformação no modo como o cidadão se relacionará com seus representantes. Não, esta revolução ainda não está acontecendo de fato. Estamos arranhando a superfície.

Mas chegará o dia em que a sociedade civil organizada irá aplicar, por meio da rede, ao menos em parte, a democracia direta que alguns trazem na ponta da língua mas que temem aplicar, temerosos por perder suas benesses. É inevitável.

Neste dia, iremos olhar para trás e ficaremos estupefatos com o passado, quando permitiamos que um grupo de cidadãos apontados por nós mesmos para representar-nos nas instâncias políticas se transformassem em ridículos tiranos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Eles merecem 66% de aumento?

Eles merecem 66% de aumento?

"Na fantasia em que vivem os vereadores, reajuste salarial deve ser decidido sem o aval do eleitor"

No mundo real, os trabalhadores tem todo o direito de reivindicar reajustes salariais. Para isso, organizam-se em sindicatos com o fim de fortalecer suas demandas frente às entidades patronais. Trazendo para o microcosmo das relações interpessoais, um aumento salarial é algo a ser negociado diretamente com o patrão, com base em argumentos vários, em especial a excelência do trabalho de quem pleiteia o aumento.

No mundo de fantasia em que vive o grosso dos vereadores de Campo Grande (MS), reajuste salarial é algo a ser definido de acordo com seu próprio interesse, em reuniões fechadas, sem o aval de quem por direito deveria ser tratado como patrão: o povo. Acontece que a contribuição que a maior parte deste pessoal dá à comunidade é rasteira. Eles não merecem aumento salarial. Recente reportagem da Semana Online mostrou isso claramente (veja aqui).

Entre janeiro de 2011 e maio 2012 a engrenagem que faz funcionar o legislativo municipal consumiu R$ 55.936 milhões. Em média, os vereadores campo-grandenses custam R$ 1.942.857,00 por ano aos cofres públicos, incluindo a ajuda de custo nas férias - de R$ 9.288,00 para cada vereador - por recesso. Seguindo a metodologia do site “Excelências.org”, que mapeia o custo individual por parlamentar, no período citado cada um dos 786.797 campo-grandenses gastou R$ 71,09 para custear o trabalho dos seus vereadores.

Toda vez que um vereador resolve homenagear fulano, dar o nome de uma rua a sicrano ou conceder uma honraria a beltrano, esta ação custa ao bolso do trabalhador campo-grandense uma pequena fortuna que, somada ao custo de manutenção dos nobres vereadores, acaba levantando dúvidas sobre se eles realmente valem o salário que recebem.

De janeiro de 2011 até o início de maio de 2012, os vereadores de Campo Grande fizeram o que de melhor fazem: apresentaram projetos que distribuíram 117 medalhas de mérito advocatício, títulos de visitante ilustre e de cidadão campo-grandense. Cada um destes mimos custou aos cofres públicos R$ 111.872,00.

Isso ocorre, pois, para estes vereadores, a população é mera coadjuvante. Um apêndice, um incômodo a ser tolerado nas parcas audiências públicas; claque a ser explorada nas muitas sessões solenes, homenagens e distribuições de medalhas que, como ninguém, eles sabem organizar e divulgar.

Por isso, quando a sociedade se organiza e levanta sua voz contra absurdos como o aumento salarial de 66% que os vereadores campo-grandenses pretendem votar em dezembro, nossos representantes se sentem acuados, atacam ao invés de ouvirem a voz das ruas.

Foi o que aconteceu no último dia 29, quando integrantes do grupo Movimento Voluntário foram tratados com desdém na Câmara. O movimento - formado por cidadãos indignados com o aumento proposto pelos vereadores a si próprios - representa uma imensa massa silenciosa que refuta este reajuste absurdo que, embora legal, é imoral.