Morte anunciada?
"Eduardo Carvalho foi o terceiro homem de imprensa morto em Mato Grosso do Sul este ano"
Gravíssimo o assassinato do proprietário do jornal UH News, Eduardo Carvalho, na noite do último dia 22, em Campo Grande (MS). Além da violência inerente ao crime, Mato Grosso do Sul fica caracterizado como um dos Estados mais perigosos para o exercício do Jornalismo.
Não cabem agora argumentos sobre que tipo de Jornalismo era praticado por Carvalhinho, se ele tinha ou não DRT, se ele era ou não jornalista de fato. Estamos diante de um crime bárbaro que, em consequência, estimula os donos do poder a imporem a lei do silêncio entre jornalistas e veículos de comunicação.
Eduardo Carvalho foi o terceiro homem de imprensa assassinado em Mato Grosso do Sul neste ano. No dia 14 de fevereiro, o jornalista Paulo Roberto Cardoso Rodrigues, de 51 anos, foi morto com 12 tiros em Ponta Porã. Ele era fundador do site de notícias "Mercosulnews" e editor-chefe do diário "Jornal da Praça". No dia 5 de outubro, Luiz Henrique Georges, empresário e também diretor do Jornal da Praça, foi executado com vários tiros de fuzil em Ponta Porã.
Parafraseando o jornalista Eser Cáceres, “já passou do momento dos jornalistas, sem maniqueísmos de coloração ideológica-partidária, se manifestarem contra a facilidade dos crimes de pistolagem em Mato Grosso do Sul”. Ele tem razão.
Mato Grosso do Sul avança rumo à modernidade a passo de cágado, mas é ainda mais lento na resolução de crimes cujas autorias e motivações circulam a boca miúda nas esquinas, nas mesas de bar e mesmo dentro das redações de nossos periódicos.
Após o assassinato de Eduardo Carvalho, houve quem chegasse ao cúmulo de atribuir a culpa da morte ao próprio morto. Volto a dizer: não acabem aqui elucubrações sobre a qualidade do Jornalismo praticado por ele em seu site de notícias.
Recentemente, um levantamento do Committee to Protect Journalists (CPJ) mostrou que o Brasil é o 11º país do mundo onde os assassinatos de jornalistas mais ficam impunes. De acordo com o CPJ, cinco mortes de jornalistas nos últimos dez anos não resultaram em nenhuma condenação no país.
Duas dessas mortes aconteceram no ano passado: a do dirigente petista e editor Edinaldo Filgueira do jornal "O Serrano", que foi assassinado em Serra do Mel (252 km de Natal-RN). Também não foi solucionada a morte do apresentador de TV e radialista Luciano Leitão Pedrosa, de Pernambuco, morto em abril do ano passado na cidade de Vitória de Santo Antão (47 km de Recife-PE).
As mortes de Eduardo Carvalho, Paulo Roberto Cardoso Rodrigues e Henrique Georges irão emoldurar o próximo levantamento do CPJ?
Calar diante destes crimes é colaborar diretamente para que continuemos sepultando jornalistas. Para fazer parte desta estatística basta incomodar os donos do poder político e econômico. Tarefa do bom Jornalismo, certo?
domingo, 25 de novembro de 2012
Holocausto Palestino
Holocausto Palestino
"Novamente, a negação de Israel a um Estado Palestino leva a região a uma explosão de ódio"
Mais uma vez o medo prevalece na tênue fronteira que divide israelenses e palestinos. A fórmula é sempre a mesma. O Exército israelense iniciou os bombardeios à Gaza no dia 14 atacando vários alvos e matando o comandante militar do Hamas, Ahmed Jabari, 52. Ele foi atingido por um míssil enquanto circulava de carro. O ataque foi seguido por dezenas de outros, contra “instalações militares”, “depósitos de armas” e “plataformas de lançamento de foguetes”. Outros 15 palestinos morreram durante a operação batizada de "Pilar de Defesa", entre eles seis crianças...
Na manhã seguinte, o Hamas lançou um foguete que matou três israelenses a norte de Gaza. Horas depois, pelo menos um foguete foi lançado com direção à capital Tel Aviv, fazendo soarem os alarmes antiaéreos pela primeira vez desde a Guerra do Golfo, em 1991. Houve pânico, e a TV israelense exibiu imagens de pessoas jogadas no chão, no centro de Tel Aviv, enquanto as sirenes soavam. Informações preliminares da polícia israelense dão conta de que o projétil caiu no mar. Não houve vítimas.
Este cenário de horror é o resultado direto da política de intransigência israelense, que nos últimos 40 anos têm transformado os palestinos em estrangeiros em sua própria terra. Esta política, que tem base na construção de assentamentos - que a ONU já classificou como ilegais – e na negação da identidade palestina, cria, do outro lado, o terreno ideal para o florescimento do radicalismo islâmico, tão pernicioso quando o sionismo.
A solução para este conflito não virá enquanto Israel não abrir mão do sonho sionista de estabelecer Eretez Israel, a grande Israel bíblica. A única saída possível está na convivência entre israelenses e palestinos a partir do estabelecimento de um Estado Palestino autônomo e independente e do estabelecimento de fronteiras entre estas duas nações soberanas. Ninguém em sã consciência condenaria Israel pela violação de suas fronteiras legais. Ninguém em sã consciência pode deixar de condenar o país diante da política de esfacelamento econômico e cultural que promove contra a populações de Gaza e da Cisjordância.
Enquanto o bom senso não prevalece, o mundo, mais uma vez, assiste de sua confortável poltrona o pavoroso espetáculo da guerra. Os números traduzem o holocausto palestino. Dá última vez que o exército israelense cruzou a “fronteira”, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, deixou para trás mais de 1.300 palestinos mortos e 5.000 feridos na faixa de Gaza. Segundo o Centro Palestino para Direitos Humanos - e muitas outras instituições internacionais sólidas e confiáveis - metade destas vítimas era civil. Morreram também 13 israelenses, sendo três civis.
Estamos, agora, às portas de um novo massacre? Diante de um novo cessar-fogo? De novas declarações unilaterais? De novos apelos contra o "terrorismo islâmico"? Depois que os mortos forem enterrados e esquecidos ouviremos dos próceres do Ocidente novas exortações à paz? O ciclo se repetirá com a eterna cantilena dos vitoriosos, com o constante lamento dos derrotados?
"Novamente, a negação de Israel a um Estado Palestino leva a região a uma explosão de ódio"
Mais uma vez o medo prevalece na tênue fronteira que divide israelenses e palestinos. A fórmula é sempre a mesma. O Exército israelense iniciou os bombardeios à Gaza no dia 14 atacando vários alvos e matando o comandante militar do Hamas, Ahmed Jabari, 52. Ele foi atingido por um míssil enquanto circulava de carro. O ataque foi seguido por dezenas de outros, contra “instalações militares”, “depósitos de armas” e “plataformas de lançamento de foguetes”. Outros 15 palestinos morreram durante a operação batizada de "Pilar de Defesa", entre eles seis crianças...
Na manhã seguinte, o Hamas lançou um foguete que matou três israelenses a norte de Gaza. Horas depois, pelo menos um foguete foi lançado com direção à capital Tel Aviv, fazendo soarem os alarmes antiaéreos pela primeira vez desde a Guerra do Golfo, em 1991. Houve pânico, e a TV israelense exibiu imagens de pessoas jogadas no chão, no centro de Tel Aviv, enquanto as sirenes soavam. Informações preliminares da polícia israelense dão conta de que o projétil caiu no mar. Não houve vítimas.
Este cenário de horror é o resultado direto da política de intransigência israelense, que nos últimos 40 anos têm transformado os palestinos em estrangeiros em sua própria terra. Esta política, que tem base na construção de assentamentos - que a ONU já classificou como ilegais – e na negação da identidade palestina, cria, do outro lado, o terreno ideal para o florescimento do radicalismo islâmico, tão pernicioso quando o sionismo.
A solução para este conflito não virá enquanto Israel não abrir mão do sonho sionista de estabelecer Eretez Israel, a grande Israel bíblica. A única saída possível está na convivência entre israelenses e palestinos a partir do estabelecimento de um Estado Palestino autônomo e independente e do estabelecimento de fronteiras entre estas duas nações soberanas. Ninguém em sã consciência condenaria Israel pela violação de suas fronteiras legais. Ninguém em sã consciência pode deixar de condenar o país diante da política de esfacelamento econômico e cultural que promove contra a populações de Gaza e da Cisjordância.
Enquanto o bom senso não prevalece, o mundo, mais uma vez, assiste de sua confortável poltrona o pavoroso espetáculo da guerra. Os números traduzem o holocausto palestino. Dá última vez que o exército israelense cruzou a “fronteira”, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, deixou para trás mais de 1.300 palestinos mortos e 5.000 feridos na faixa de Gaza. Segundo o Centro Palestino para Direitos Humanos - e muitas outras instituições internacionais sólidas e confiáveis - metade destas vítimas era civil. Morreram também 13 israelenses, sendo três civis.
Estamos, agora, às portas de um novo massacre? Diante de um novo cessar-fogo? De novas declarações unilaterais? De novos apelos contra o "terrorismo islâmico"? Depois que os mortos forem enterrados e esquecidos ouviremos dos próceres do Ocidente novas exortações à paz? O ciclo se repetirá com a eterna cantilena dos vitoriosos, com o constante lamento dos derrotados?
Controle social da mídia?
Controle social da mídia?
"Este tipo de instância reguladora é incompatível com a liberdade de expressão"
A Constituição de 1988 deixou vários artigos sem regulamentação, muitos deles na área de comunicações. No Legislativo Federal, essa regulamentação vem sendo empurrada com a barriga durante as últimas décadas, seja por covardia de encarar um tema tão complexo, seja por falta de capacidade de abordá-lo e debate-lo, ou por simples descaso.
Enquanto isso, a sociedade fica a mercê da desinformação. Quando falam em “regulação da mídia”, setores da sociedade têm colocado na mesma panela a necessidade indiscutível de um marco regulatório das comunicações e a funesta ameaça de interferência em conteúdos jornalísticos. Estes temas não são a mesma coisa. Pelo contrário, são muito diferentes.
Não se questiona em debates sérios a necessidade de combater a propriedade cruzada de meios de comunicação. Este combate é necessário e salutar para a democracia.
Nos EUA, por exemplo, uma empresa não pode ser proprietária de uma emissora de rádio ou TV e de um jornal na mesma cidade. Na França, é vedada a propriedade de mais do que duas empresas de TV com 4 milhões de telespectadores, ou de duas emissoras de rádio com audiência potencial acima de 30 milhões de ouvintes, ou ainda de jornais com mais de 20% de participação no mercado.
Estes mecanismos devem ser discutidos pela sociedade e implementados no Brasil. O problema é que, no rastro desta necessidade, mal intencionados têm tentado inserir no debate questões ideológicas como o malfadado “controle social da mídia”.
Esse tipo de instância reguladora é incompatível com a liberdade de expressão. Um conselho ou um órgão fiscalizador nos termos do que tem sido proposto por setores do Governo Federal e do PT implicará em interferência nos conteúdos jornalísticos, o que fere frontalmente o princípio da liberdade de expressão previsto na Constituição. O controle social já existe, nos termos da Constituição e de toda a legislação. Há o direito de resposta e a legislação sobre danos morais. E o Poder Judiciário para julgar questões relacionadas ao direito de resposta e à legislação sobre danos morais.
Um dos pilares da convivência democrática é o de que ninguém tem o direito de determinar aos outros o que é mais ou menos adequado para ser dito, para ser expresso. Numa democracia, todos são absolutamente livres para expressar aquilo que querem, sem nenhuma limitação prévia. Isso não significa impunidade, pois nos casos de mentira ou calúnia, sempre haverá a possibilidade da punição posterior.
Um órgão regulador da mídia pode acarretar em censura porque agirá necessariamente de acordo com o que pensam os seus integrantes, com suas convicções e ideologia. Eles terão o poder de julgar que tal ou qual informação ou opinião é mais ou menos adequada. Para evitar esse dirigismo é que existe a plena liberdade de expressão, sem nenhum controle prévio, mas com eventuais penalidades posteriores.
"Este tipo de instância reguladora é incompatível com a liberdade de expressão"
A Constituição de 1988 deixou vários artigos sem regulamentação, muitos deles na área de comunicações. No Legislativo Federal, essa regulamentação vem sendo empurrada com a barriga durante as últimas décadas, seja por covardia de encarar um tema tão complexo, seja por falta de capacidade de abordá-lo e debate-lo, ou por simples descaso.
Enquanto isso, a sociedade fica a mercê da desinformação. Quando falam em “regulação da mídia”, setores da sociedade têm colocado na mesma panela a necessidade indiscutível de um marco regulatório das comunicações e a funesta ameaça de interferência em conteúdos jornalísticos. Estes temas não são a mesma coisa. Pelo contrário, são muito diferentes.
Não se questiona em debates sérios a necessidade de combater a propriedade cruzada de meios de comunicação. Este combate é necessário e salutar para a democracia.
Nos EUA, por exemplo, uma empresa não pode ser proprietária de uma emissora de rádio ou TV e de um jornal na mesma cidade. Na França, é vedada a propriedade de mais do que duas empresas de TV com 4 milhões de telespectadores, ou de duas emissoras de rádio com audiência potencial acima de 30 milhões de ouvintes, ou ainda de jornais com mais de 20% de participação no mercado.
Estes mecanismos devem ser discutidos pela sociedade e implementados no Brasil. O problema é que, no rastro desta necessidade, mal intencionados têm tentado inserir no debate questões ideológicas como o malfadado “controle social da mídia”.
Esse tipo de instância reguladora é incompatível com a liberdade de expressão. Um conselho ou um órgão fiscalizador nos termos do que tem sido proposto por setores do Governo Federal e do PT implicará em interferência nos conteúdos jornalísticos, o que fere frontalmente o princípio da liberdade de expressão previsto na Constituição. O controle social já existe, nos termos da Constituição e de toda a legislação. Há o direito de resposta e a legislação sobre danos morais. E o Poder Judiciário para julgar questões relacionadas ao direito de resposta e à legislação sobre danos morais.
Um dos pilares da convivência democrática é o de que ninguém tem o direito de determinar aos outros o que é mais ou menos adequado para ser dito, para ser expresso. Numa democracia, todos são absolutamente livres para expressar aquilo que querem, sem nenhuma limitação prévia. Isso não significa impunidade, pois nos casos de mentira ou calúnia, sempre haverá a possibilidade da punição posterior.
Um órgão regulador da mídia pode acarretar em censura porque agirá necessariamente de acordo com o que pensam os seus integrantes, com suas convicções e ideologia. Eles terão o poder de julgar que tal ou qual informação ou opinião é mais ou menos adequada. Para evitar esse dirigismo é que existe a plena liberdade de expressão, sem nenhum controle prévio, mas com eventuais penalidades posteriores.
Recado dado?
Recado dado?
"População rejeita vereador que legisla em causa própria e diz não ao aumento de 66% "
Vereadores não são remunerados em boa parte do mundo. Em algumas cidades, eles recebem apenas um auxílio financeiro simbólico. Em outras, no entanto, a atividade pode exigir dedicação exclusiva e remunerada. Umm vereador de Los Angeles, Estados Unidos, por exemplo, ganha em média R$ 24 mil por mês. Isso representa 116% a mais do que o salário de um vereador de São Paulo ou do Rio de Janeiro, que, hoje, recebe R$ 9 mil mensais.
Na Cidade do México, o cargo de vereador é honorário e não existe nenhum tipo de contribuição. Há cerca de 1,8 mil comitês de bairros, organizados em torno de nove vereadores nomeados para servir durante três anos. Enquanto um assalariado médio americano ganha R$ 3,9 mil por mês, um vereador nova-iorquino recebe R$ 16 mil, ou seja, 7 vezes mais. A Câmara é composta por 51 membros e o cargo não exige dedicação exclusiva.
Na capital da Suécia, Estocolmo, o salário de um vereador é apenas uma ajuda de custo, cerca de R$ 350. Se ele fizer parte de um comitê, pode subir para R$ 790. O valor representa apenas 10% da renda de um assalariado médio sueco, que ganha R$ 7,5 mil mensais. Em Paris o salário varia muito, porque depende do tamanho da área da cidade em que o vereador atua. Mesmo oscilando, o valor é próximo do salário médio de um francês, que ganha R$ 5 mil mensais.
Enquanto o salário médio de um canadense é R$ 5,2 mil por mês, um vereador de Toronto, a maior cidade do país, ganha R$ 4,3 mil. A lei não determina uma carga horária a cumprir, mas a função exige dedicação exclusiva.
Em Campo Grande (MS), onde – como em todo o país – o cargo de vereador não exige dedicação exclusiva, os parlamentares pretendem conceder-se um módico aumento salarial até dezembro. Hoje, eles ganham R$ 9,2 mil por mês. Querem passar a ganhar R$ 15 mil. Um reajuste de 66%.
Trata-se de uma afronta, quando sabemos que este reajuste será nove vezes maior do que o anunciado para o trabalhador comum, que deve ter 7% de aumento em 2013, quando o salário mínimo passará a R$ 667,75.
É preciso muita "coragem" para buscar argumentos que justifiquem um reajuste tão escandaloso. Dizer que o salário de um vereador pode ser calculado em até 75% do salário de um deputado estadual e que, por isso, o reajuste seria legal é fazer uma brincadeira perigosa com a paciência da população.
O fato é que a população rejeita o vereador que legisla em causa própria. Em uma enquete (aqui) feita entre seus leitores no Facebook - entre o dias 28 de outubro e 1º de novembro - a revista Semana Online pode mensurar isso de forma clara. Dos 1.726 leitores que responderam à enquete neste período, 1.520 (88.1%) se disseram contra o aumento. Apenas 108 participantes (6.3%) concordam com o reajuste e 97 (5.7%) disseram não ter opinião formada. Recado dado?
"População rejeita vereador que legisla em causa própria e diz não ao aumento de 66% "
Vereadores não são remunerados em boa parte do mundo. Em algumas cidades, eles recebem apenas um auxílio financeiro simbólico. Em outras, no entanto, a atividade pode exigir dedicação exclusiva e remunerada. Umm vereador de Los Angeles, Estados Unidos, por exemplo, ganha em média R$ 24 mil por mês. Isso representa 116% a mais do que o salário de um vereador de São Paulo ou do Rio de Janeiro, que, hoje, recebe R$ 9 mil mensais.
Na Cidade do México, o cargo de vereador é honorário e não existe nenhum tipo de contribuição. Há cerca de 1,8 mil comitês de bairros, organizados em torno de nove vereadores nomeados para servir durante três anos. Enquanto um assalariado médio americano ganha R$ 3,9 mil por mês, um vereador nova-iorquino recebe R$ 16 mil, ou seja, 7 vezes mais. A Câmara é composta por 51 membros e o cargo não exige dedicação exclusiva.
Na capital da Suécia, Estocolmo, o salário de um vereador é apenas uma ajuda de custo, cerca de R$ 350. Se ele fizer parte de um comitê, pode subir para R$ 790. O valor representa apenas 10% da renda de um assalariado médio sueco, que ganha R$ 7,5 mil mensais. Em Paris o salário varia muito, porque depende do tamanho da área da cidade em que o vereador atua. Mesmo oscilando, o valor é próximo do salário médio de um francês, que ganha R$ 5 mil mensais.
Enquanto o salário médio de um canadense é R$ 5,2 mil por mês, um vereador de Toronto, a maior cidade do país, ganha R$ 4,3 mil. A lei não determina uma carga horária a cumprir, mas a função exige dedicação exclusiva.
Em Campo Grande (MS), onde – como em todo o país – o cargo de vereador não exige dedicação exclusiva, os parlamentares pretendem conceder-se um módico aumento salarial até dezembro. Hoje, eles ganham R$ 9,2 mil por mês. Querem passar a ganhar R$ 15 mil. Um reajuste de 66%.
Trata-se de uma afronta, quando sabemos que este reajuste será nove vezes maior do que o anunciado para o trabalhador comum, que deve ter 7% de aumento em 2013, quando o salário mínimo passará a R$ 667,75.
É preciso muita "coragem" para buscar argumentos que justifiquem um reajuste tão escandaloso. Dizer que o salário de um vereador pode ser calculado em até 75% do salário de um deputado estadual e que, por isso, o reajuste seria legal é fazer uma brincadeira perigosa com a paciência da população.
O fato é que a população rejeita o vereador que legisla em causa própria. Em uma enquete (aqui) feita entre seus leitores no Facebook - entre o dias 28 de outubro e 1º de novembro - a revista Semana Online pode mensurar isso de forma clara. Dos 1.726 leitores que responderam à enquete neste período, 1.520 (88.1%) se disseram contra o aumento. Apenas 108 participantes (6.3%) concordam com o reajuste e 97 (5.7%) disseram não ter opinião formada. Recado dado?
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
O que ocorre em Gaza é genocídio?
Para começar, o que é genocídio? O termo foi criado por Raphael Lemkin,
um judeu de origem polonesa, em 1944, a partir da junção da raiz grega
génos (família, tribo ou raça) e - caedere (Latim - matar). Após o
assassinato em massa de judeus, ciganos, testemunhas de jeová,
comunistas, homossexuais e prisioneiros de guerra eslavos pelos
nazistas, Lemkin iniciou uma campanha pela criação de leis
internacionais que definissem e punissem o genocídio. Esta pretensão
tornou-se realidade em 1951, com a Convenção para a prevenção e a repressão do crime de genocídio, da qual o Brasil é signatário.
A Convenção define por genocídio os seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso:
a) Assassinato de membros do grupo;
b) Atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo;
c) Submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial;
d) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;
e) Transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo.
No meu entender, a política de bombardeio contínuo dos centros urbanos palestinos e de isolamento desta população em guetos é um “atentado grave à integridade física e mental” dos seus habitantes, portanto, deve ser classificado como genocídio.
O acadêmico e escritor palestino-libanês Saree Makdisi afirma que uma geração inteira de palestinos cresce com deficiências físicas e nutricionais geradas por falta de alimentos e alterações emocionais, por viver no cárcere virtual criado pelo bloqueio israelense, que se estende desde junho de 2007.
Em meio à violência, as crianças palestinas são as principais vítimas. Cerca de 50% dos 1,5 milhão de palestinos em Gaza têm até 15 anos de idade. O número de mortos nos conflitos sazonais que assolam a região é sempre recheado por um contingente expressivo de crianças e adolescentes.
Um estudo da Queen"s University revelou que 90% das crianças em Gaza já foram vítimas do uso de gás lacrimogêneo, presenciaram cenas de violência em suas casas ou testemunharam tiroteios e explosões. O estudo demonstra, também, que o risco de desordem emocional em uma criança ferida nessa região se multiplica por quatro. Do mesmo modo, aquelas que presenciaram uma morte têm o risco de estresse pós-traumático multiplicado por 13. “É como se as crianças palestinas de alguma maneira não merecessem as proteções garantidas pela Convenção de Genebra e o Direito Humanitário”, conclui o estudo.
Levantamento feito pelo Gaza Community Mental Health Programme, realizado após a segunda Intifada, em 2000, indica que 70% das crianças palestinas na região não conseguem se concentrar, 96% têm medo do escuro, 35% se isolam e 45% sofrem altos níveis de ansiedade e estresse.
Da mesma forma, o bloqueio israelense construído por meio do isolamento das comunidades palestinas em Gaza e na Cisjordânia aprofundou de forma avassaladora às dificuldades econômicas, sociais e sanitárias da população, configurando-se em “submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial”.
O drama se traduz nos indicadores da região: mais de 80% dos 1,5 milhão de habitantes do território são pobres, e metade da população ativa não tem renda fixa. Dois terços dos cerca de 110 mil empregos que existiam no comércio desapareceram nos últimos anos. Com o colapso do sistema de esgoto, os dejetos acabam despejados no mar, tornando insalubres as praias mediterrâneas e aniquilando a fonte de lazer preferida da juventude local. Só há eletricidade durante metade do dia no território, que se assemelha em tamanho e população ao município de Guarulhos (SP) - na prática, duas das áreas mais densamente povoadas no mundo, com mais de 4.000 habitantes/km2.
Estas políticas de esmagamento da população palestina vêm sendo perpetradas há anos e registradas em detalhes por observadores de todo o planeta. No artigo “Genocide in Gaza” (2006), Ilan Pappe – escritor, conferencista sênior no Departamento de Ciência Política da Universidade de Haifa e Presidente do Instituto Touma para Estudos Palestinos em Haifa – esmiúça em detalhes os métodos do terror estatal israelense:
“A estratégia anterior em Gaza foi colocar os palestinos lá como se fosse um gueto, mas isso não está funcionando. A comunidade posta no gueto continua a expressar sua vontade de viver através do lançamento de mísseis primitivos para dentro de Israel. Isolar em guetos ou quarentena comunidades indesejadas, mesmo se elas forem consideradas subumanas ou perigosas, nunca funcionou na história como solução. Os judeus sabem melhor que ninguém por sua própria história. O próximo estágio contra tais comunidades no passado foram ainda mais horrendos e bárbaros. É difícil dizer o que guarda o futuro para a população de Gaza, confinada em um gueto, posta em quarentena, indesejada e demonizada. Será uma repetição de exemplos históricos funestos ou ainda é possível um destino melhor?”
Fausto Wolff, no artigo “Protejam as crianças”, coloca o dedo na ferida ao denunciar que tanto Israel quanto os Estados Unidos têm violado constantemente a Convenção de Genebra, cujos artigos 55 e 56 tratam da proteção que os invasores devem prover para a população civil do país invadido: acomodações, comida, bebida, assistência ambulatória e hospitalar.
“O artigo 56 enfatiza a obrigação do poder invasor de, em cooperação com as autoridades locais, providenciar rigorosos padrões higiênicos e fiscalizar bens perecíveis para evitar a propagação de epidemias, adotando medidas de profilaxia. E a todos os médicos e enfermeiras do país ocupado deve ser dada a liberdade de cumprir seus deveres.”
Um trecho do artigo “Israel vive paradoxo aos 60 anos”, de Daniela Kresch, é esclarecedor no que se refere a transformação de Israel em um país que trai as suas origens ao reproduzir sobre seus vizinhos os horrores que estão na origem de sua criação: “Para o cientista político Shlomo Zener, os traumas e temores nacionais não podem justificar a severidade no modo como são tratados os palestinos. Para ele, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza corrompeu o espírito libertário dos primeiros israelenses, que lutaram para criar um Estado moderno, sem perseguições, que servisse de modelo ético depois do extermínio de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra.”.
Psicanalista e professor da Universidade Estadual de Maringá (PR), Raymundo de Lima traça, no artigo “É ‘barbárie’, ‘genocídio’, ‘holocausto’, ou ‘massacre’?”, um perfil bem reconhecível dos que tentam racionalizar a prática do genocídio. Segundo ele, o genocida tende a utilizar mecanismos de defesa psíquica como a racionalização e a intelectualização para justificar o seu ato como de “legítima defesa”, proteção contra o “intruso”. Qualquer similaridade com os argumentos usados por Israel em sua política belicista contra os palestinos não é mera coincidência.
Diz ele: “...ou seja, o outro é sempre visto como ‘perigoso’, ‘inferior’, ‘estrangeiro’, ‘infiel’, ‘selvagem’, ‘coisa’ ou ‘objeto’, enfim, o ‘outro’, o ‘diferente’ é sempre considerado um problema para a existência do genocida; como é marcado na sua singularidade, o ‘outro’ não é visto como ser humano total, não é ‘humanizado’ em sua condição de ser existente.”.
Em seu artigo, Lima sustenta, ainda, que o crime de genocídio do Estado ou de qualquer ato de barbárie de grupos extremistas, embora pareçam ser irracionais, na verdade são cometidos em nome de alguma causa “justa”. Ele explica: “O ato monstruoso sempre recorre a uma moral tosca cuja razão cínica satisfaz aos irmãozinhos que compartilham com a mesma crença, que acreditam nas sombras dogmáticas projetadas por um psiquismo esclerosado. Muitas vezes quem pratica o grande massacre se coloca como vítima...”.
Encerro citando o trecho final de “Genocide in Gaza”, no qual Pappe analisa de forma cáustica (e premonitória) os caminhos e descaminhos do holocausto palestino e as alternativas que restam para conter o autoritarismo com que os israelenses conduzem a questão.
“Ainda não há outra forma de parar Israel exceto boicote, desinvestimento (NT: retirada de investimentos, participação em sociedades etc.) e sanções. Todos nós deveríamos apoiar tais medidas clara, aberta e incondicionalmente, não importando o que os gurus de nosso mundo nos digam sobre a eficiência ou razão de ser de tais ações. A ONU não interviria em Gaza como faz na África; os ganhadores do prêmio Nobel não se interessarão em defendê-la, como fazem por causas no Sudeste Asiático. O número de pessoas mortas não é estonteante se comparado com outras calamidades, e não é uma história nova - é perigosamente velha e complicada. O único ponto suave dessa máquina de matar são suas linhas de oxigênio com a civilização 'ocidental' e a opinião pública. Ainda é possível perfurá-las e, pelo menos, tornar mais difícil para os israelenses implementar sua estratégia futura de eliminação do povo palestino, ou pela limpeza deles na Cisjordânia, ou pelo genocídio na Faixa de Gaza.”
A Convenção define por genocídio os seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso:
a) Assassinato de membros do grupo;
b) Atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo;
c) Submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial;
d) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;
e) Transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo.
No meu entender, a política de bombardeio contínuo dos centros urbanos palestinos e de isolamento desta população em guetos é um “atentado grave à integridade física e mental” dos seus habitantes, portanto, deve ser classificado como genocídio.
O acadêmico e escritor palestino-libanês Saree Makdisi afirma que uma geração inteira de palestinos cresce com deficiências físicas e nutricionais geradas por falta de alimentos e alterações emocionais, por viver no cárcere virtual criado pelo bloqueio israelense, que se estende desde junho de 2007.
Em meio à violência, as crianças palestinas são as principais vítimas. Cerca de 50% dos 1,5 milhão de palestinos em Gaza têm até 15 anos de idade. O número de mortos nos conflitos sazonais que assolam a região é sempre recheado por um contingente expressivo de crianças e adolescentes.
Um estudo da Queen"s University revelou que 90% das crianças em Gaza já foram vítimas do uso de gás lacrimogêneo, presenciaram cenas de violência em suas casas ou testemunharam tiroteios e explosões. O estudo demonstra, também, que o risco de desordem emocional em uma criança ferida nessa região se multiplica por quatro. Do mesmo modo, aquelas que presenciaram uma morte têm o risco de estresse pós-traumático multiplicado por 13. “É como se as crianças palestinas de alguma maneira não merecessem as proteções garantidas pela Convenção de Genebra e o Direito Humanitário”, conclui o estudo.
Levantamento feito pelo Gaza Community Mental Health Programme, realizado após a segunda Intifada, em 2000, indica que 70% das crianças palestinas na região não conseguem se concentrar, 96% têm medo do escuro, 35% se isolam e 45% sofrem altos níveis de ansiedade e estresse.
Da mesma forma, o bloqueio israelense construído por meio do isolamento das comunidades palestinas em Gaza e na Cisjordânia aprofundou de forma avassaladora às dificuldades econômicas, sociais e sanitárias da população, configurando-se em “submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial”.
O drama se traduz nos indicadores da região: mais de 80% dos 1,5 milhão de habitantes do território são pobres, e metade da população ativa não tem renda fixa. Dois terços dos cerca de 110 mil empregos que existiam no comércio desapareceram nos últimos anos. Com o colapso do sistema de esgoto, os dejetos acabam despejados no mar, tornando insalubres as praias mediterrâneas e aniquilando a fonte de lazer preferida da juventude local. Só há eletricidade durante metade do dia no território, que se assemelha em tamanho e população ao município de Guarulhos (SP) - na prática, duas das áreas mais densamente povoadas no mundo, com mais de 4.000 habitantes/km2.
Estas políticas de esmagamento da população palestina vêm sendo perpetradas há anos e registradas em detalhes por observadores de todo o planeta. No artigo “Genocide in Gaza” (2006), Ilan Pappe – escritor, conferencista sênior no Departamento de Ciência Política da Universidade de Haifa e Presidente do Instituto Touma para Estudos Palestinos em Haifa – esmiúça em detalhes os métodos do terror estatal israelense:
“A estratégia anterior em Gaza foi colocar os palestinos lá como se fosse um gueto, mas isso não está funcionando. A comunidade posta no gueto continua a expressar sua vontade de viver através do lançamento de mísseis primitivos para dentro de Israel. Isolar em guetos ou quarentena comunidades indesejadas, mesmo se elas forem consideradas subumanas ou perigosas, nunca funcionou na história como solução. Os judeus sabem melhor que ninguém por sua própria história. O próximo estágio contra tais comunidades no passado foram ainda mais horrendos e bárbaros. É difícil dizer o que guarda o futuro para a população de Gaza, confinada em um gueto, posta em quarentena, indesejada e demonizada. Será uma repetição de exemplos históricos funestos ou ainda é possível um destino melhor?”
Fausto Wolff, no artigo “Protejam as crianças”, coloca o dedo na ferida ao denunciar que tanto Israel quanto os Estados Unidos têm violado constantemente a Convenção de Genebra, cujos artigos 55 e 56 tratam da proteção que os invasores devem prover para a população civil do país invadido: acomodações, comida, bebida, assistência ambulatória e hospitalar.
“O artigo 56 enfatiza a obrigação do poder invasor de, em cooperação com as autoridades locais, providenciar rigorosos padrões higiênicos e fiscalizar bens perecíveis para evitar a propagação de epidemias, adotando medidas de profilaxia. E a todos os médicos e enfermeiras do país ocupado deve ser dada a liberdade de cumprir seus deveres.”
Um trecho do artigo “Israel vive paradoxo aos 60 anos”, de Daniela Kresch, é esclarecedor no que se refere a transformação de Israel em um país que trai as suas origens ao reproduzir sobre seus vizinhos os horrores que estão na origem de sua criação: “Para o cientista político Shlomo Zener, os traumas e temores nacionais não podem justificar a severidade no modo como são tratados os palestinos. Para ele, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza corrompeu o espírito libertário dos primeiros israelenses, que lutaram para criar um Estado moderno, sem perseguições, que servisse de modelo ético depois do extermínio de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra.”.
Psicanalista e professor da Universidade Estadual de Maringá (PR), Raymundo de Lima traça, no artigo “É ‘barbárie’, ‘genocídio’, ‘holocausto’, ou ‘massacre’?”, um perfil bem reconhecível dos que tentam racionalizar a prática do genocídio. Segundo ele, o genocida tende a utilizar mecanismos de defesa psíquica como a racionalização e a intelectualização para justificar o seu ato como de “legítima defesa”, proteção contra o “intruso”. Qualquer similaridade com os argumentos usados por Israel em sua política belicista contra os palestinos não é mera coincidência.
Diz ele: “...ou seja, o outro é sempre visto como ‘perigoso’, ‘inferior’, ‘estrangeiro’, ‘infiel’, ‘selvagem’, ‘coisa’ ou ‘objeto’, enfim, o ‘outro’, o ‘diferente’ é sempre considerado um problema para a existência do genocida; como é marcado na sua singularidade, o ‘outro’ não é visto como ser humano total, não é ‘humanizado’ em sua condição de ser existente.”.
Em seu artigo, Lima sustenta, ainda, que o crime de genocídio do Estado ou de qualquer ato de barbárie de grupos extremistas, embora pareçam ser irracionais, na verdade são cometidos em nome de alguma causa “justa”. Ele explica: “O ato monstruoso sempre recorre a uma moral tosca cuja razão cínica satisfaz aos irmãozinhos que compartilham com a mesma crença, que acreditam nas sombras dogmáticas projetadas por um psiquismo esclerosado. Muitas vezes quem pratica o grande massacre se coloca como vítima...”.
Encerro citando o trecho final de “Genocide in Gaza”, no qual Pappe analisa de forma cáustica (e premonitória) os caminhos e descaminhos do holocausto palestino e as alternativas que restam para conter o autoritarismo com que os israelenses conduzem a questão.
“Ainda não há outra forma de parar Israel exceto boicote, desinvestimento (NT: retirada de investimentos, participação em sociedades etc.) e sanções. Todos nós deveríamos apoiar tais medidas clara, aberta e incondicionalmente, não importando o que os gurus de nosso mundo nos digam sobre a eficiência ou razão de ser de tais ações. A ONU não interviria em Gaza como faz na África; os ganhadores do prêmio Nobel não se interessarão em defendê-la, como fazem por causas no Sudeste Asiático. O número de pessoas mortas não é estonteante se comparado com outras calamidades, e não é uma história nova - é perigosamente velha e complicada. O único ponto suave dessa máquina de matar são suas linhas de oxigênio com a civilização 'ocidental' e a opinião pública. Ainda é possível perfurá-las e, pelo menos, tornar mais difícil para os israelenses implementar sua estratégia futura de eliminação do povo palestino, ou pela limpeza deles na Cisjordânia, ou pelo genocídio na Faixa de Gaza.”
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Tropeços na net
O candidato do PP a Prefeitura de Campo Grande (MS), Alcides
Bernal, tornou-se um ícone regional na internet. Não tanto pelas suas
qualidades políticas quanto pelo fenômeno gerado por meio da campanha de seu
adversário, o peemedebista Edson Giroto (PMDB), cujos marqueteiros resolveram
comparar o currículo de “feitos” dos dois. Como resultado, uma paródia da
campanha de Giroto virou meme (Não sabe o que é? Pergunte ao Google) no
Facebook transformando o que seria uma estratégia infalível num tremendo tiro pela
culatra com dezenas de peças nas quais se atribui a Giroto desde a construção
das pirâmides do Egito até uma foto ao lado do palhaço Bozo.
Também em Campo Grande, o vereador Marcos Alex (PT) pode
atribuir – ainda que parcialmente - ao mal uso das mídias sociais sua derrota
nas eleições deste ano. Alex deixou de ser eleito por apenas oito votos,
cedendo a vaga a um colega de partido calouro e com desenvoltura eleitoral
muito menor que a sua.
Vice-presidente da Câmara de Vereadores, Alex protagonizou
nas mídias sociais um debate acalorado com a equipe da revista Semana Online
após a reportagem publicada na nossa edição de número 25, na qual mostrávamos o
custo e a produção de cada vereador campo-grandense.
Em certo momento do debate, Marcos Alex deu a entender que
não deveria responder a reportagem pois, segundo a assessoria de imprensa da
Casa, a revista não tinha leitores... Não é preciso dizer que a lambança gerou
dezenas de respostas indignadas de nossos leitores que, é óbvio, se julgam
dignos de serem ouvidos e de terem suas dúvidas sanadas pelos vereadores. Quem
sabe estes oito votos não foram perdidos ali, entre nossos leitores?
Estes dois casos, recentes, mostram o quanto os políticos –
e parte dos assessores que os cercam – estão despreparados para lidar com a
selva da internet. Hoje, uma palavra equivocada, uma postura condenável, pode
ser a diferença entre ser festejado ou execrado, entre ser eleito ou não.
O eleitor, por sua vez, está mais exigente, mais ciente de
seu poder. Não considera um favor ou uma benesse ter uma pergunta respondida
por um político que se arrisca nas mídias sociais. O espaço virtual arrebentou
as “barreiras protocolares” que separavam político e eleitor. É como se
fossemos todos habitantes de uma cidadezinha do interior onde o prefeito
esbarra com o barbeiro na praça, onde o vereador senta-se no banco da praça com
o taxista.
Não há mais espaço para amadorismo na internet. Resta aos
políticos encararem este novo ambiente com seriedade. Aos seus assessores cabe
o dever de estarem preparados para fazer frente a uma guerra diária contra a
omissão. Em um ambiente como este qualquer tropeço pode ser fatal.
Mais uma edição da Semana Online. No destaque, uma reportagem sobre a Aids no Brasil e uma entrevista com o prefeito de Campo Grande (MS) - e pré-candidato ao governo do Estado - Nelson Trad Filho.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Che Guevara: uma biografia - Jon Lee Anderson
O anjo e o
demônio
“Ali, onde o
amor desperta, morre o eu, déspota sombrio”
O ser humano
é multifacetado e esta é a beleza da humanidade Não somos nem anjos e nem
demônios, mas um amálgama de desejos, sonhos e ações. Ainda assim, tendemos a
cair na armadilha do maniqueísmo. A forma como analisamos a vida e a morte do
revolucionário argentino Ernesto “Che” Guevara é um exemplo disso.
Quarenta e
cinco anos após sua execução na Bolívia, sua imagem ainda divide opiniões,
apaixonadamente. Endeusado por setores da esquerda como exemplo da pureza
socialista, de homem de bem. Execrado por setores da direita como um assassino
sanguinário, personificação do mal. Ambas as leituras deixam de lado o ser
humano Ernesto. Menino, adolescente, homem repleto de virtudes e de defeitos,
desejos e esperanças.
A maioria das
obras sobre sua vida é formada por hagiografias oficiais cubanas ou
demonizações montadas por inimigos políticos. É fato que Che encarnou todo o
horror proveniente da cegueira ideológica que justifica os atos mais
monstruosos em nome de uma causa superior, de uma verdade absoluta. É fato,
também, que abriu mão de tudo o que estimava para lutar e morrer em um campo de
batalha estrangeiro tendo em mente a construção de um mundo melhor.
Fruto de um
trabalho hercúleo do escritor Jon Lee Anderson, o livro “Che Guevara: uma
biografia” – cuja edição revisada foi lançada recentemente e cuja leitura
finalizei esta semana – aborda com maestria esta dicotomia em uma viagem fascinante
pela vida e pensamento de Che.
O livro de
Anderson nos leva a uma jornada que aponta os caminhos que concretizaram a
formação de seu caráter e, posteriormente, a construção de sua base
político-ideológica que desagua em uma série de acontecimentos que
transformaram um jovem argentino de classe privilegiada em um revolucionário
internacional, revelando, ainda, como, no choque entre a bigorna e o martelo, surgiu um
homem apaixonado por uma ideia e disposto a matar e morrer por ela.
Confrontado
pelas marcantes diferenças sociais com que se deparou em suas andanças pelas
Américas do Sul e Central na década de 50, e pela constante e despótica
ingerência norte-americana na região durante o início da Guerra Fria, Che alimentou
pouco a pouco uma concepção de mundo na qual o enfrentamento entre as massas
exploradas do continente e o imperialismo norte-americano seria inevitável.
Posteriormente, esta concepção encontrou o respaldo teórico no marxismo e, em
última instância, na luta armada.
Para Che, a
política era um mecanismo para as mudanças sociais e eram elas, e não o poder
em si, que o impeliam. Mas é exatamente na manipulação prática do poder, em uma opção ideológica focada no
marxismo, que repousa o principal equivoco de Che (e dos demais movimentos revolucionários
de esquerda que irromperam no entre as décadas de 60 e 70): a supressão do
indivíduo e da individualidade pela força e pela coerção, a adoção da “fé
socialista” em detrimento das mais básicas noções de humanidade. Em suas
próprias palavras: “Não lhe posso dizer, nem aproximadamente, em que momento
deixei o caminho da razão e adotei algo parecido com a fé, porque o caminho foi
muito longo e com muitos passos para trás.”.
Este caminho,
cujo início é marcado por “Nota al Margen”, texto escrito por Che em Buenos
Aires retratando suas experiências na Guatemala, levou-o a uma encruzilhada
que, alguns anos depois, culminou em sua morte.
“O futuro
pertence ao povo e, pouco a pouco, ou de um só golpe, ele vai tomar o poder,
aqui e no mundo inteiro. O ruim é que eles têm de se civilizar e isso não pode
acontecer antes, mas só depois que tomarem o poder. Eles se tornarão
civilizados somente aprendendo às custas de seus próprios erros, que serão
graves, e que custarão muitas vidas inocentes. Ou talvez não, talvez não sejam
inocentes, porque terão cometido o imenso crime contra natura, que significa
sua falta de capacidade de se adaptar. Todos eles, todos os que não forem
adaptáveis, você e eu, por exemplo, morrerão amaldiçoando o poder que nós, com
enorme sacrifício, ajudamos a criar”.
O texto acima
é a primeira expressão de Che da abstração do “eu”
em prol do “nós”. Ocorre que não existe “nós” sem o “eu”.
“Quando a
sociedade chega a certo estágio de desenvolvimento e é capaz de iniciar a dura
luta de destruir o poder opressor, de destruir seu braço forte, o Exército, e
de tomar o poder, então o homem recupera uma vez mais a antiga sensação de
felicidade no trabalho, a felicidade de cumprir com um dever, de se sentir
importante dentro do mecanismo social. Torna-se feliz por se sentir um dente na
engrenagem, um dente que tem suas próprias características e é necessário,
embora não indispensável, para o processo produtivo, um dente consciente, um
dente que tem seu motor próprio, e que tenta conscientemente esforçar-se mais e
mais a fim de levar a um feliz desfecho uma das premissas da construção do
socialismo: a criação de uma quantidade suficiente de bens de consumo para toda
a população.”
O hábito de
Che de se referir ao povo, aos trabalhadores, como peças de maquinaria permite
vislumbrar seu distanciamento emocional da realidade individual. Ele tinha a mentalidade
friamente analítica do pesquisador médico e do jogador de xadrez. Os termos que
empregava para os indivíduos eram redutores, enquanto o valor do trabalho no
contexto social era idealizado, apresentado liricamente.
Em carta a
mãe, disse: “A noção do ‘eu’ desapareceu inteiramente, para dar lugar a noção
do ‘nós’. Era um ponto da moral comunista e, naturalmente, pode parecer um
exagero doutrinário, porém realmente foi (e é) maravilhoso ser capaz de sentir
a remoção do ‘eu’”.
“Che Guevara
agora estava em guerra, tentando criar uma revolução. Fizera um salto
consciente de fé e entrara em um domínio no qual se podiam tomar vidas por um
ideal e os fins de fato justificavam os meios. As pessoas não eram mais apenas
pessoas. Cada uma representava um lugar dentro de um esquema global das coisas
e poderia ser vista, na maioria das vezes, como amiga ou inimiga”, reflete
Anderson.
Che abraçara
a revolução como a encarnação definitiva das lições da história e como o
caminho correto para o futuro. Agora, convencido de que estava certo, olhava em
volta com os olhos de um inquisidor em busca daqueles que poderiam pôr em
perigo sua sobrevivência.
É exatamente este ponto da personalidade de Che, a capacidade abstrair-se do indivíduo, da micro-humanidade, em prol de uma visão macro do homem é que mais me fascina, de uma forma negativa, porém. Seu pai, geralmente tão míope em relação ao filho, escreveu: “Ernesto tinha brutalizado sua própria sensibilidade” para se tornar um revolucionário.
Alberto
Granado – que percorreu a América Latina com Che em 1952 - recordou uma
conversa em que assinalou o que, na sua opinião, era a diferença fundamental
entre os dois. Che era capaz de olhar pela luneta de um fuzil para um soldado e
puxar o gatilho, sabendo que, ao mata-lo, estava “salvando 30 mil futuras
crianças de viver na fome”, enquanto ele, Granado, veria um homem com esposa e
filhos.
Este afastamento
da realidade – mesmo que em prol de um ilusório bem maior – é o grande símbolo
dos totalitarismos de esquerda, a vala na qual todas as experiências do
socialismo real atolaram e sucumbiram.
O trecho a
seguir é um exemplo da frieza cortante do revolucionário.
-
Alguns dias
depois, os irmãos testemunharam um exemplo da justiça sumária de Che. Enrique
Acevedo relembrou essa ocasião de forma vívida: “De madrugada, trouxeram um
homem grande, com uma farda verde, cabeça raspada como os militares, bigodes
grandes: é [René] Cuervo, que anda causando encrencas na zona de San Pablo de
Yao e de Veja la Yua. Cometeu abusos sob a bandeira do 26 de Julho (...). Che o
recebe deitado na rede. O prisioneiro lhe estende a mão, mas não encontra
resposta. O que dizem não chega aos nossos ouvidos, embora se perceba que o tom
é duro. Parece ser um julgamento sumário. No final, [Che] o manda embora com um
gesto de desprezo com a mão. Levam-no para uma ravina e o executam com um rifle
de calibre 22, tendo que dar três tiros. [Finalmente] Che salta da rede e
berra: Basta!
-
A banalização
da vida também é marcada por este trecho do
diário de Che no qual ele se admoesta por uma “fraqueza” durante os combates. “Houve
um pequeno combate e recuamos com muita rapidez. A posição era ruim e eles nos
cercavam, mas oferecemos uma pequena resistência. Pessoalmente, notei algo que
nunca sentira antes: a necessidade de viver. Isso precisa ser corrigido na
próxima oportunidade.”.
Ora, nada mais
amedrontador. Um homem capaz de suprimir sua própria necessidade de viver,
fatalmente ampliará esta exigência aos demais. Não seria incorreto imaginar que
Fidel Castro usou esta faceta de Che para que o argentino fizesse o trabalho sujo enquanto Castro tratava de assegurar
sua liderança frente aos muitos grupos políticos envolvidos na vitória da
revolução sob a bandeira do Movimento 26 de Julho.
Para
Anderson, Fidel precisava de Che para a indispensável tarefa de expurgo do
antigo Exército, para consolidar a vitória aplicando a justiça revolucionária
contra os traidores, os chivatos (informantes do regime) e os criminosos de
guerra de Batista. Che se transformou no promotor supremo, aquele que tomava a
decisão final sobre o destino dos homens. E, pela revolução, não se furtou
desta incumbência.
Em Janeiro de
1960 o arquiteto Nicolás Quintana teve um encontro marcante com Che – já um
prócere da revolução. “Ele me disse: ‘Olhe, as revoluções são feias, porém
necessárias, e parte desse processo revolucionário é a injustiça a serviço da
justiça futura’”, recordou Quintana. “Jamais conseguirei esquecer essa frase.
Repliquei que isso era a Utopia de Thomas Moore. Disse que nós tínhamos ficado
na merda por causa dessa história durante muito tempo, por acreditarmos que conseguiríamos
alguma coisa, não agora, mas no futuro.
Che ficou olhando para mim por um tempo
e falou: ‘Bem. Você não acredita no futuro da revolução.’ Eu lhe disse que não
acreditava em nada que fosse baseado na injustiça."
Che então lhe
perguntou: “Mesmo que a injustiça seja salutar?”
Ao que Quintana
retrucou: “Não creio que, para os que morrem, você possa falar em injustiça
salutar.”
A resposta de
Che foi imediata: “Você tem que deixar Cuba. Tem três opções: vai embora de
Cuba e não há problema nenhum comigo, ou trinta anos [na prisão] no futuro
próximo, ou o pelotão de fuzilamento.”
É fascinante
perceber que por detrás desta frieza havia também um homem amoroso, ainda que este
amor estivesse profundamente contaminado pela ideologia.
Em sua carta
de despedida aos cubanos ao embarcar secretamente a Bolívia, Che diz: “Deixem-me
dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é
guiado por fortes sentimentos de amor. É impossível pensar em um revolucionário
autêntico sem essa característica. Este é, talvez, um dos maiores dramas de um
líder: ele precisa combinar um espírito apaixonado com uma mente fria, e tomar
decisões dolorosas sem mexer um músculo. Nossos revolucionários de vanguarda
precisam idealizar seu amor pelo povo, pelas causas mais sagradas, e torna-lo
uno e indivisível. Eles não podem se rebaixar, com pequenas doses de afeto
diário, aos lugares onde os homens comuns põem seu amor em prática”.
Em Che, a
nossa dicotomia humana está presente, à flor da pele, escancarada. Eles estão
ali, visíveis, o anjo ao lado do demônio.
“O que o levou
a resolver operar em nosso país?”, perguntou o Coronel Andrés Selich ao seu
prisioneiro, Che Guevara, em La Higuera, na Bolívia, sete anos depois do
encontro com Quintana.
“O senhor não
vê o estado em que vivem os camponeses?”, perguntou Che. “São quase como
selvagens, vivendo em um estado de pobreza que deprime o coração, tendo apenas
um aposento no qual dormem e comem, sem roupas para vestir, abandonados como
animais (...).”
É terrível
observar uma de suas últimas fotos,
na qual Che aparece como uma fera selvagem subjugada, o rosto magro voltado
sombriamente para baixo, os cabelos compridos emaranhados, os braços amarrados
na frente do corpo, ao lado do agente cubano-norte americano Félix Rodriguez,
da CIA, logo após a execução de Willy (Simeón
Cuba Sarabia).
Seus últimos momentos, narrados por Anderson, são de uma força emocional
estupenda e nos fazem conjecturar se no fim ele pensou em si mesmo como um
homem, um indivíduo real em meio à coletividade subjetiva.
-
Rodriguez
levou Che de volta para dentro da escola e retomaram a conversa, mas foram
interrompidos por mais disparos. Dessa vez o executado foi, ao que consta, Juan
Pablo Chang, que fora capturado, ferido, e trazido com vida naquela manhã. A
essa altura, os corpos de Aniceto e Pancho, que tinham sido abatidos na ravina,
também estavam ali. “Che parou de falar”, recordou Rodriguez. “Não disse nada
sobre os tiros, mas seu rosto espelhava tristeza e ele sacudiu a cabeça várias
vezes, lentamente, de um lado para o outro. Talvez tenha sido nessa instante
que se deu conta de que ele também estava condenado, embora eu não lhe tenha
dito nada até pouco antes de uma da tarde”.
Rodriguez viu
que não podia retardar mais e voltou para dentro da escola. Entrou na sala de
Che e disse que estava triste, que fizera tudo que podia, mas as ordens tinham
vindo do alto-comando boliviano. Ele não terminou a frase, mas Che entendeu.
Seguindo Rodríguez, o rosto de Che ficou momentaneamente pálido, e ele disse: “É
melhor assim (...). Eu nunca deveria ter sido capturado vivo”.
Rodriguez
perguntou se ele tinha alguma mensagem para sua família, e Che lhe pediu para “dizer
a Fidel que ele logo verá uma revolução triunfante na América (...) E diga à
minha mulher que se case de novo e tente ser feliz”.
Diante disso,
Rodríguez contou, ele deu um passo à frente para abraçar Che. “Foi um momento
tremendamente emocionante para mim. Não o odiava mais. Sua hora da verdade
tinha chegado e ele estava se portando como homem. Estava encarando sua morte
com coragem e elegância.”
Pouco depois
Che foi fuzilado pelo sargento Mario Terán, era uma e dez da tarde do dia 9 de
outubro de 1967. Ele tinha 39 anos.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Política, partidos e voto
A democracia costuma nos levar a crer que a política é uma atividade de massas. No entanto, o voto que cometemos a cada eleição não é um indicador confiável da participação efetiva na política, mas, isso sim, apenas o exercício de um dever, posto que é obrigatório. Enquanto isso, a maior parte da população brasileira não incorpora a política institucionalizada. Para ela, política é “coisa de político” e, a ela, cabe apenas o ato de votar.
A consequência é o crescente descrédito em relação à política e aos políticos. No fim das contas, o que o eleitor espera é apenas que os políticos não atrapalhem sua vida. A política passa desapercebida de suas vidas, quase como parte do mundo da ficção, mais uma telenovela em que há capítulos mais emocionantes e outros mais xoxos. No fundo, ele não se sente pertencente aquele mundo. Os políticos estão em outro nível de existência.
Classificado como alienado, analfabeto político, este eleitor se encaixa perfeitamente nas fatias do conservadorismo, são a delícia dos políticos profissionais, tão dependentes do voto desqualificado.
Mas espere aí... Há uma diferença entre ser apolítico e anti-político (contra os políticos e a política partidária). Não participar da política institucional não significa não fazer política: a negação é também uma ação política.
É fato que o ser humano age por interesse. Somos cãezinhos a espera de uma recompensa. É exatamente a expectativa deste afago que gira as engrenagens da política partidária. Até mesmo aqueles militantes idealistas esperam alcançar algo, mesmo que seja apenas o simples reconhecimento de que são timoneiros de uma nova sociedade.
De origem latina, a palavra interesse significa “estar entre”, “no meio”, “participar”. Nada mais inerente a um partido político, organizações cuja essência é exatamente a construção de mecanismos que viabilizem a conquista de interesses, e de um lugar entre os que têm acesso a determinados bens simbólicos e materiais inacessíveis à maioria dos representados e governados.
O objetivo principal de um partido político é chegar ao poder, o que acaba significando a conquista do governo e de espaços dentro da máquina pública. É exatamente aí que a mula empaca. Neste momento ocorre uma inversão na qual são as instituições do Estado que acabam por conquistar os partidos. Projetos e propostas caem por terra e o objetivo primal se reduz simplesmente à garantia dos cargos conquistados e, em consequência, na construção de uma estrutura que transfira estes espaços a membros do mesmo grupo nos governos seguintes.
É exatamente por isso que todos os partidos soam iguais. Os discursos pré-eleitorais e as ações pós-eleições não são diferentes para PT, PMDB, PSDB, PP ou seja lá que sigla for. A única forma de quebrar este paradigma obsceno é entender que política não se limita a partido. Ela se faz diariamente, em cada decisão que tomamos.
A consequência é o crescente descrédito em relação à política e aos políticos. No fim das contas, o que o eleitor espera é apenas que os políticos não atrapalhem sua vida. A política passa desapercebida de suas vidas, quase como parte do mundo da ficção, mais uma telenovela em que há capítulos mais emocionantes e outros mais xoxos. No fundo, ele não se sente pertencente aquele mundo. Os políticos estão em outro nível de existência.
Classificado como alienado, analfabeto político, este eleitor se encaixa perfeitamente nas fatias do conservadorismo, são a delícia dos políticos profissionais, tão dependentes do voto desqualificado.
Mas espere aí... Há uma diferença entre ser apolítico e anti-político (contra os políticos e a política partidária). Não participar da política institucional não significa não fazer política: a negação é também uma ação política.
É fato que o ser humano age por interesse. Somos cãezinhos a espera de uma recompensa. É exatamente a expectativa deste afago que gira as engrenagens da política partidária. Até mesmo aqueles militantes idealistas esperam alcançar algo, mesmo que seja apenas o simples reconhecimento de que são timoneiros de uma nova sociedade.
De origem latina, a palavra interesse significa “estar entre”, “no meio”, “participar”. Nada mais inerente a um partido político, organizações cuja essência é exatamente a construção de mecanismos que viabilizem a conquista de interesses, e de um lugar entre os que têm acesso a determinados bens simbólicos e materiais inacessíveis à maioria dos representados e governados.
O objetivo principal de um partido político é chegar ao poder, o que acaba significando a conquista do governo e de espaços dentro da máquina pública. É exatamente aí que a mula empaca. Neste momento ocorre uma inversão na qual são as instituições do Estado que acabam por conquistar os partidos. Projetos e propostas caem por terra e o objetivo primal se reduz simplesmente à garantia dos cargos conquistados e, em consequência, na construção de uma estrutura que transfira estes espaços a membros do mesmo grupo nos governos seguintes.
É exatamente por isso que todos os partidos soam iguais. Os discursos pré-eleitorais e as ações pós-eleições não são diferentes para PT, PMDB, PSDB, PP ou seja lá que sigla for. A única forma de quebrar este paradigma obsceno é entender que política não se limita a partido. Ela se faz diariamente, em cada decisão que tomamos.
Ainda não conferiu esta edição da Semana Online?
No destaque: o terror do bullying cibernético e uma entrevista com o advogado e ex-juiz eleitoral André Borges.
Confira na SEMANA ONLINE - www.semanaonline.com.br
No destaque: o terror do bullying cibernético e uma entrevista com o advogado e ex-juiz eleitoral André Borges.
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