Semana On

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Gods and Generals - Jeff Shaara


“Se você acredita que algo é verdadeiramente importante, você tem a obrigação de lutar por isso.”
Pág. 205 (Tradução livre do original em inglês)
Joshua Lawrence Chamberlain

Entre 1861 e 1865 os Estados Unidos protagonizaram um conflito que colocou em trincheiras opostas amigos, irmãos, pais e filhos. A Guerra Civil Americana tirou a vida de 970 mil pessoas - dos quais 618 mil eram soldados - cerca de 3% da população americana à época. Os motivos que levaram à guerra são controversos e alvos de debate até os dias de hoje. Há quem defenda que os 11 Estados Confederados do Sul sublevaram-se após a eleição de Abraham Lincoln para manter o regime escravocrata que sustentava o plantio de algodão (grande propulsor da economia local à época). Há, também, quem diga que a escravidão não foi o motivo central do conflito, mas sim o direito de cada estado em auto-determinar sua legislação. Fato é que o Sul latifundiário e aristocrata levantou-se contra os estados industrializados do Norte, cujo desenvolvimento estava ligado à necessidade de crescimento do mercado interno e do estabelecimento de barreiras protecionistas. O crescimento Sulista, por sua vez, era baseado precisamente no oposto, ou seja: o liberalismo econômico que abria todo o Mundo as agro-exportações, com mão-de-obra escrava como base da produção.

Ao longo das primeiras décadas do século XIX, a imigração em massa e a intensa industrialização fizeram com que o poderio dos estados do Norte crescesse economicamente e ampliasse politicamente sua participação no governo. Grandes tensões políticas e sociais desenvolveram-se entre o Norte e o Sul. Em 1860, Lincoln, um republicano contra a escravidão, venceu as eleições presidenciais, assumindo a liderança de um país dividido. Em 1861, ano do início da guerra, o país consistia em 19 estados livres, onde a escravidão era proibida, e 15 estados onde a escravidão era permitida. Em 4 de março, antes que Lincoln assumisse a presidência, 11 Estados escravagistas declararam secessão da União e criaram um novo país, os Estados Confederados da América. A guerra começou quando forças confederadas atacaram o Fort Summer, um posto militar da União, encravado na Carolina do Sul, em 12 de abril de 1861, e terminaria somente em 28 de junho de 1865, com a rendição das últimas tropas remanescentes da Confederação.

Esta saga fenomenal, o mais épico confronto bélico ocorrido nas Américas, foi narrada com maestria em três romances de autoria de Michael Shaara e seu filho, Jeff Shaara. Em 1974, Michael publicou “The Killer Angels”, uma novela sobre os homens que lideraram a Batalha de Gettysburg (a mais sangrenta batalha da Guerra Civil). Não foi uma tentativa de documentar a história do evento, nem uma biografia dos personagens que dele participaram. Ambos já haviam sido feitos muitas vezes, anteriormente, por outros autores. O que Michael Shaara fez foi contar a história da batalha a partir da história dos homens, por meio de seus pontos de vista, seus pensamentos e sentimentos. Foi uma abordagem muito diferente, que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de 1975. “The Killer Angels” é, primordialmente, a história de quatro homens: Robert E. Lee, Thomas “Stonewall” Jackson, Winfield Scott Hancoock e Joshua Lawrence Chamberlain. Mas, é também a história de outras pessoas, suas esposas e familiares, dos homens que com eles serviram no campo de batalha.

Gods andGenerals” (Deuses e Generais), o livro que aqui resenhamos, narra os acontecimentos anteriores a Batalha de Gettysburg. A obra, de autoria de Jeff Shaara, dá continuidade à saga iniciada por seu pai (que faleceu em 1988) com “The Killer Angels”. A história por detrás do surgimento da obra é, por si só, digna de nota.  Jeff Shaara, um criminologista graduado pela Universidade Estadual da Flórida, geria um negócio de moedas raras em Tampa (Flórida) quando... “O pessoal de Ted Turner me procurou (Ted Turner foi o produtor executivo da adaptação de “The Killer Angels” para o cinema – “Gettiysburg”). Ele queria filmar uma introdução e uma seqüência de Gettysburg”, diz Jeff. Resumindo a ópera: Ted sugeriu que Jeff assumisse a tarefa de escrever duas histórias que complementassem a obra de seu pai. Ele topou e, posteriormente, representando seu pai em uma reunião com a editora Random House, mencionou estar escrevendo uma introdução e uma seqüência de “The Killer Angels”. Os executivos da editora pediram para ver os manuscritos. Então, em 1995, Jeff recebeu uma ligação de Nova Iorque. “Era o pessoal da editora. Eles disseram que não queriam saber se aquilo era para um filme ou não, mas queriam o livro. Ofereceram um contrato. Aquilo mudou minha vida”. A introdução transformou-se em “God and Generals” (lançado em 1996, e também adaptado ao cinema alguns anos depois) e a seqüência foi “The Last Full Measure” (lançado em 1998).

A obra tem início nos primeiros meses de 1861, durante a campanha presidencial. Robert Lee, cuja vida serve como fio condutor da obra, é um veterano da guerra contra o México, um aristocrata e cavalheiro do estado da Virginia, casado com uma mulher cuja família remonta a George Washington. Graduado em West Point em 1829, o segundo em sua classe com o inigualável recorde de nunca ter recebido um demérito por sua conduta nos quatro anos como cadete, ele volta a sua terra natal após longos anos de serviço junto ao Exército dos Estados Unidos para uma licença de dois anos para administrar a propriedade da família. Mal sabia que se veria enredado no maior conflito armado já ocorrido nas Américas.

Nas primeiras páginas Shaara constrói uma imagem de Lee na qual o velho coronel encara a escravidão como um desígnio de Deus a ser superado quando da vontade divina. Lee, que já possuía alguns escravos, tomou posse de 196 negros ao retornar para a fazenda de sua família. O testamento de seu sogro, recém falecido, estipulava que os escravos deveriam ser emancipados tão logo quanto possível, mas Lee optou por retê-los por cinco anos, o máximo tempo que lhe era permitido por lei. A imagem de Lee construída por Shaara contrasta com outra, menos condescendente, que o retrata como um senhor de escravos cruel. Para compreender o modo como pensavam os aristocratas sulistas na época é preciso emergir na realidade do século XIX. Alguns, como Lee, adotavam uma atitude paternalista para com os Negros. Eram seres humanos, sim, mas em uma fase de desenvolvimento inferior a do homem branco. Outros, no entanto, nivelavam o Negro aos animais de carga. Ambas as noções eram fundamentadas com base na religião. Não se pode dizer, no entanto, que a relação entre brancos e negros fosse radicalmente diferente no Norte. A grande diferença estava no fato de que os estados do norte haviam incorporado a mão de obra negra às suas industrias, tornando a participação dos ex-escravos na sociedade – inclusive em patamares sociais que ultrapassavam a base da pirâmide - um fato irreversível. O preconceito, no entanto, existia em todo o país, em níveis diferenciados.

“Coronel, a razão pela qual eu voltei aqui... Eu levantei algum dinheiro. Eles me pagam bem. Nunca fui... bom em gastar muito dinheiro... eu apenas juntei este valor. Então, eu voltei aqui para lhe perguntar sobre meu irmão, Bo. Fiquei imaginando, senhor, se concordaria em me vender ele.”
Lee escutava a profunda voz do homem, reparando em suas roupas, um terno rude mas bem feito. Ele olhou para aquela face escura, marcada, sua voz sumindo dentro dele, uma sensação de mal estar.
“Você quer... comprar seu irmão?”
“Sim senhor, ele não serve para muita coisa. É aleijado desde muito cedo, não tem muita serventia para o senhor aqui”.
Lee compreendeu então quem era Bo, o homem sem um pé, um grave acidente na fazenda, muito tempo atrás. Ele se apoiava com uma bengala, fazia trabalhos que não requeriam muita mobilidade.
“Nate, as pessoas que ainda estão aqui não estão à venda. Eu ficaria satisfeito, muito satisfeito de deixar que qualquer um deles partisse, os que quisessem partir. O problema é que a maioria deles não tem para onde ir. É... fácil para você achar um emprego, você é... bem qualificado. Homens como Bo e mulheres como Rebecca, eles não têm muita esperança de achar trabalho.”
“Mas senhor. Bo não precisará trabalhar. Eu posso cuidar dele agora. Eu já conversei sobre isso com o senhor Van Dyke, ele disse que tudo bem.”
Lee sentou-se, alcançou um pedaço de papel, pegou a caneta e começou a escrever, então parou, olhou-o por um momento e perguntou. “Nate, perdoe-me. Não me recordo do seu sobrenome.”
O homem sorriu, um sorriso repleto de dentes. “Eles me deram um nome. Quando me viu pela primeira vez o senhor Van Dyke disse que eu era preto como carvão (n.t. Coal), então ele me chamou de Nate Cole. Eu até ouvi algumas pessoas me chamando de sinhô Cole.”
“Bem, senhor Cole, acho então que seu irmão deve ter o mesmo sobrenome... aqui.” Lee preencheu o documento, assinou-o com uma forte canetada. “Aqui estão os papéis. Ele é um homem livre.”
Págs. 73 e 74 (Tradução livre do original em inglês)

Lee refletiu, passou a mão em seus cabelos e disse, “Eu acredito... que os Negros são o que Deus quer que eles sejam, e quando Deus quiser que os Negros sejam livres, então ele os libertará. Deus o libertou, através das minhas mãos. Ele libertou seu irmão através de suas mãos. A hora chegará.”
“Coronel, o senhor é um bom homem, um homem decente, e eu agradeço pelo que o senhor fez por mim e por Bo. Mas perdoe-me Coronel, não quero desrespeitá-lo. Aqui está o seu nome, neste papel, não o de Deus. Se nós esperarmos que Deus nos liberte, esperaremos por muito tempo.”
Pág. 75 (Tradução livre do original em inglês)

Com a eleição de Lincoln, a tensão política alastrou-se e o presidente decretou a convocação de recrutas em todo o país, inclusive nos estados sulistas, para fazer frente a possíveis enfrentamentos. A convocação dividiu o exército. A quase totalidade dos oficiais e soldados provenientes dos estados sulistas se recusou a levantar armas contra seus estados de origem e muitos voltaram para suas casas, sabendo que um confronto seria iminente. À Lee foi oferecido o comando geral dos exércitos do Norte, mas ele declinou, deixando claro que jamais poderia levantar a mão contra seus parentes e vizinhos. Pouco depois, seu estado, a Virgínia, votou a favor da secessão, unindo-se à Confederação e Lee foi empossado como Comandante do Exército da Virgínia como general. A partir daí, sua carreira ascende até o comando geral das forças rebeldes cuja atuação transformou-o em um ícone das forças armadas norte-americanas e em um dos mais admirados militares de todos os tempos.

“Estou embaraçado em lhe dizer que estou entre os que nunca acreditaram que este país estaria nesta situação. Sempre tive a sensação de que éramos uma nação muito diferente... única, talvez. Fomos fundados por pensadores, homens brilhantes que construíram um sistema onde os conflitos seriam resolvidos pelo debate, onde as decisões da maioria prevaleceriam. Estes homens tinham confiança nesta maioria , eles tinham fé em que o sistema poderia, por definição, assegurar que homens razoáveis chegariam a conclusões razoáveis, e então governaríamos a nós mesmos, todos nós, a partir deste novo sistema, um sistema onde nossos conflitos e diferenças pudessem ser resolvidos por meios civilizados. Não há um sistema como esse, em parte alguma. E se a guerra for perdida... se a rebelião for bem sucedida, é possível que nunca surja outro.”
Chamberlain - Pág. 204 (Tradução livre do original em inglês)

Assim como o ardor nacionalista dominava os soldados sulistas, no Norte milhares de voluntários se apresentavam para manter intacta a União. Um deles, um professor com nenhuma experiência militar, se tornaria um dos maiores heróis da guerra: Joshua Lawrence Chamberlain. “Gods and Generals” também destaca a atuação de Winfield Scott Hancock, general da União cuja amizade com o general confederado Lewis Armistead é um dos momentos mais marcantes da história da Guerra Civil Americana. Outro protagonista da obra é o general Thomas Jonathan “Stonewall” Jackson, o grande herói da Confederação, oficial que inspirava os soldados do sul devido a sua inabalável fé e coragem no campo de batalha. Jackson é um dos maiores nomes da história militar norte-americana e a forma como é retratado em “Gods and Generals” é fascinante.

A religiosidade e a moralidade dos homens do século XIX são retratadas na obra de forma convincente. Muitos dos homens e mulheres retratados no livro possuem a convicção de estarem cumprindo a vontade de Deus ao cumprirem suas obrigações seculares, seja como esposas e maridos ou como soldados. Alguns, como Stonewall Jackson, têm sua relação com o divino trabalhada de forma magistral no livro. A história de vida de Jackson é forte. Ao perder a primeira esposa e o filho, mortos durante o parto, o general confederado passa a temer a felicidade, como se ela pudesse ofender a Deus e o fizesse tirar dele as pessoas a quem ele mais amava. A morte da pequena Jane, uma criança a quem Jackson se afeiçoara durante a estadia do exército nas proximidades de uma fazenda, contribui para esta sensação. Jackson é o protótipo do crente, presbiteriano, sua vida é entregue a Deus e a seus desígnios, o que não o impede de ser um dos mais temidos e implacáveis generais de sua época.

“Como é fácil esquecer... tudo o que temos feito... todos os horrores que temos visto... simplesmente olhando o rosto de uma criancinha. Há Providência aqui... nisso. As crianças são abençoadas.”
Jackson - Pág. 381 (Tradução livre do original em inglês)

Longstreet mascou seu charuto e disse. “Não estou certo se Deus está em todos os lugares em que gostaríamos que ele estivesse.”
Pág. 318 (Tradução livre do original em inglês)

Uma característica da Guerra Civil Americana - pelo menos em seus primeiros momentos - é que esta foi uma guerra travada por idealismo. Nos dois primeiros anos do conflito ambos os exércitos eram formados esmagadoramente por voluntários – embora seu número diminui-se com o passar dos anos – gente que lutava por um modo de vida que queriam preservar. Em especial o exército Confederado, um corpo armado composto por gente que considerava estar lutando por sua liberdade, pelo seu modo de enxergar o mundo. Era um exército homogêneo, formado por americanos brancos e protestantes, que combatia em busca da secessão do país. O exército da União, por sua vez, era heterogêneo, composto por imigrantes das mais variadas nacionalidades – irlandeses, holandeses, escoceses etc (muitos sequer falavam inglês fluentemente), gente que havia escolhido os Estados Unidos como seu lar. Este exército tão diferente, tão mesclado de raças e idiomas, lutava pela união do país. Estes milhares de homens lutaram por quatro anos defendendo o modo pelo qual consideravam correto ser governados. Trata-se de um feito político de magnitude sem precedentes nas Américas.

O Horror

A Guerra Civil Americana é considerada a fronteira entre o passado e o futuro das guerras. Até então, as tropas defrontavam-se caminhando diretamente sobre o inimigo, disparando salvas de mosquetes cuja precisão era péssima e o alcance limitado. Os soldados na era napoleônica agiam como grupos coesos para otimizar o uso das armas de fogo e a cavalaria tinha, ainda, papel crucial no campo de batalha. Com o desenvolvimento dos rifles, cuja precisão e alcance eram muito superiores aos dos mosquetes, e de artilharia de campo, mais poderosa e precisa, a mortandade no campo de batalha tornou-se terrível. Isso modificou totalmente a forma pela qual os exércitos se defrontavam. No entanto, estas mudanças se deram paulatinamente, de acordo com as experiências adquiridas em combate. Por isso, a Guerra Civil Americana é tida como um prelúdio à 1ª Guerra Mundial no que se refere aos horrores do campo de batalha. Centenas de milhares perderam a vida, outras centenas de milhares tornaram-se inválidos diante desta nova realidade apresentada pela ciência da morte. Apenas em Gettysburg, as baixas de ambos os lados somaram mais de 50 mil homens em apenas três dias de combate.

Taylor estava ao seu lado e Lee, olhando para o jovem, disse, “lembre-se disso, Major. Não há muitos dias como esse... quando você varre seu inimigo do campo de batalha e pode vê-lo correndo. Não há necessidade de relatórios oficiais, ou jornais, ou fofocas... você não precisa que ninguém lhe diga o que aconteceu.”
Pág. 235 (Tradução livre do original em inglês)
Lee, sobre a segunda batalha de Manassas

Longstreet aproximou-se ao seu lado e Lee continuava olhando para baixo, seus olhos fechados, e Longstreet tentou pensar em algo, disse, “É uma guerra real. Isso é o que a guerra pode fazer.”
Lee não olhou para ele, disse, “Não, General. Isso não é trabalho de soldados. Os homens estão certos... É o demônio em pessoa. Isso é o estupro da inocência.” Ele levantou a cabeça, olhou a volta novamente, e Longstreet viu lágrimas, olhos marejados e vermelhos.
Pág. 358 (Tradução livre do original em inglês)

“Impressionante, não é Coronel? Vê-los formarem linhas e caminharem direto sobre o fogo inimigo.”
Pág. 261 (Tradução livre do original em inglês)
Sargento Kilrain, conversando com o Coronel Chamberlain

“O que eu acho? O que isso importa, General? Você tem apenas um dever, apenas uma opinião a lhe guiar, àquela de seu comandante. Nós, civis, temos pouca influência sobre suas ações ou seus pensamentos. Meus leitores estão interessados em ouvir um ponto de vista que não venha dos quartéis generais, que não seja censurado pela lógica de um oficial. Guerra é um mal necessário e portanto qualquer tragédia, qualquer estupidez é apenas uma pequena parte desta grande maldição, que é claro todos vocês deploram. A população tem ouvido tudo isso, General. O que eles ainda não ouviram é alguma honestidade, a visão sem censura de alguém de fora de sua pequena e sangrenta fraternidade.”
Pág. 363 (Tradução livre do original em inglês)
O jornalista Cyrus Bolander, do Cincinnati Commercial, conversando com o General Winfield Hancock após a batalha de Fredericksburg.

O trecho a seguir é o relato do Coronel Joshua Lawrence Chamberlain que comandou seus homens na Batalha de Fredericksburg. Trata-se de uma mostra horripilante do que deve ter sido um combate durante o conflito.

13 de dezembro de 1862. Fim da tarde.

As reservas de Hooker finalmente cruzaram o rio, marchando, trêmulas, sobre os pontões desequilibrados, através da cidade destruída e queimada, formando suas linhas na borda do campo aberto. Era fim de tarde e o ataque de Sumner já havia sido realizado. Constantes fluxos de homens ensangüentados e alquebrados vinham pelo campo em sua direção, muitos passando calados através de suas linhas, outros amaldiçoando a própria sorte, ou alertando as novas tropas sobre o que as aguardava após a baixa elevação. Chamberlain não os olhou, manteve seus olhos à frente, encarando através da planície esfumaçada as pequenas colinas ocultas, o constante troar dos mosquetes, o constante trovejar dos grandes canhões.

Não houve uma ordem oficial, nenhum informe havia chegado, mas eles sabiam que o dia não seria bom. Do outro lado do rio eles não podiam ver o que acontecia em frente ao muro de pedra, mas agora, enquanto as unidades rompidas surgiam no terreno de fronte a eles e homens destruídos tomavam o campo, Chamberlain compreendeu. Seus homens eram a reserva, e seriam enviados pelo mesmo caminho.

O 20º Maine era parte da Terceira Brigada da Divisão de Griffin, Quinto Corpo. As outras brigadas de Griffin já haviam se movimentado e Chamberlain as observara partindo, diminuindo e desaparecendo na fumaça que pairava no ar. Agora ele ouvia novos clarins, e Ames, atrás das linhas, a voz familiar, “Avancem!” e a linha começou a se mover lentamente à frente.

Eles marchavam em três linhas. Chamberlaim olhou para o lado, para as curtas colunas, pensando, Não somos muitos e este campo é danado de grande. A sua esquerda ele viu os outros regimentos, homens de Nova Iorque, Pensilvânia, Michigan. Homens como esses, ele pensou, apenas fazendeiros e comerciantes, e agora éramos soldados, e agora estávamos prestes a morrer. O pensamento atingiu-o certeiramente, ele ficou chocado. Não sentiu medo, emoção alguma, apenas o lento ritmo dos seus passos chutando tufos de grama, pequenos e duros bocados de neve.

Ele esteve ouvindo os sons constantes por todo o dia, e nada havia mudado, e por isso não o afetavam agora. Os sons estavam próximos, talvez mais altos, mas eram os mesmos sons. Ele ficou curioso, pensando, Vamos ver agora, não vamos? Vamos aprender alguma coisa, do que isso se trata, do que se trata para os homens que estão diante de nós, os homens que estiveram diante de nós em Antietam, que já fizeram isso antes.

Na brigada em frente ele viu um homem sucumbir, virar-se e correr em sua direção, bem perto, e ele viu sua face, os olhos animalescos, o puro terror. Linha abaixo seus homens começaram a gritar e subitamente ele soube que era seu trabalho fazer... algo.

Ele tateou seu cinto, agarrou a pistola, puxou-a do coldre e apontou-a para a cabeça do homem. O homem olhou para ele, os olhos limpos por alguns segundos, e ele parou de correr, parando alguns metros a sua frente. Chamberlain continuava a avançar, seus pés em um ritmo próprio, o homem encarou a pistola, virou-se subitamente e começou a caminhar para frente novamente para frente do regimento.

Chamberlain baixou a pistola, impressionado, ouviu a comemoração de seus homens e olhou fixamente paras as costas do soldado solitário pensando, Tudo bem, está tudo bem.  O instinto de auto-preservação está em todos nós. Ma o que aconteceu àquele homem, o que fez com que ele voltasse subitamente?

Ele começou a temer agora, uma súbita onda de mal estar dominando-o. E se eu correr? Não, não fará isso. Você pensa muito. Não se trata de pensar, é apenas... instinto, um instinto diferente do que o de sobrevivência. Ele tentou pensar na causa, sim, foco nisso... a razão pela qual... tudo isso. Tentou imaginar, escravatura, os direitos de todos os homens... porque eles estão fazendo isso? Não, não está funcionando.Sua mente está entorpecida, ele não sente nenhum grande fogo, nenhuma paixão por causa alguma. Para onde ele se foi, a emoção e o entusiasmo por fazer algo tão... necessário, sua viagem à capital, seu encontro com o governador. Estava tudo vago, memória fraca... e à sua frente as nuvens de fumaça e os pequenos clarões eram toda a realidade.

Os projéteis começaram a alcançá-los e o ritmo de seus passos era um rangido, o terreno tremendo, jogando-o à frente, e sujeira lançada sobre ele, sugando-o para o lado como um bafo de vento quente. Mas ele não caiu, olhou para trás, na direção da explosão, viu... nada, uma fenda na linha. Ele virou para frente, o ritmo retornando, pensou, Devia haver um homem ali... muitos. Mas sua mente não permitia que ele se prendesse a isso, e ele olhou para frente, viu as costas de seus homens, viu o soldado solitário marchando por conta própria. O barulho crescia agora, fortes silvos, gritos lancinantes. O terreno começou a inclinar novamente e agora ele podia ouvir algo mais, o som dos homens, e ainda assim olhava para frente, via as linhas unidas a sua frente, os homens avançando juntos, cruzando o canal, e pela primeira vez ele disse algo, emitiu um som, chamando seus homens.

“Mantenham a linha, parem!” Eles o olhavam, iriam fazer o que ele os ordenasse, e ele pensou nisso, em estar no comando, sentiu a força, um novo impulso de energia.

Ele os deixou para trás, movendo-se por conta própria até a beira do canal. Olhou para as pequenas e frágeis pranchas, o resto da Segunda Brigada cruzando-as e entrando em formação novamente do outro lado. Ele se virou, levantou sua espada, olhou por toda a linha, e então viu a sua esquerda, na direção do flanco direito do regimento, além, viu... nada. Havia outras unidades no flanco direito, dois regimentos, e eles não estavam lá. Ele sentiu um pânico gelado, caminhou naquela direção, olhou para trás, viu as linhas a cerca de cem metros atrás, e Ames com eles, na frente deles, gritando com irritação, trazendo-os com ele, e sentiu uma súbita raiva, impaciência. Este não é o momento para erro, para estupidez.

Ele gritou alto, sobre a cabeça de seus homens, “Venham para cá, para o flanco direito! Marchem!” e seus homens estavam virando, olhando para ele, e então ele viu: Ames estava guiando-os. Outros oficiais, seus próprios oficiais estavam gritando e movendo-se rapidamente pelas linhas, fechando a brigada.

Ele virou-se para o canal, sentiu suas mãos tremendo, o ritmo quebrando-se agora. Caminhou para frente, pisou em uma pequena ponte. Ele acenou com a espada para frente e eles começaram a formar uma linha, começaram a se mover pelas pranchas. No outro lado, no flanco esquerdo, ele viu os outros regimentos, viu que não havia pontes e os homens se moviam pelo canal em sua direção, para uma travessia seca. Não, ele pensou, não vai funcionar, e ele viu outros oficiais sacudindo suas espadas e os homens começaram a pular na água, atravessando-a onde não havia pontes. Olhou para baixo, para o canal, espessas massas azuis como pedras estriadas, os homens estavam contornando-as cuidadosamente, e ele viu que as pedras tinham braços, o fundo do canal estava cheio de corpos trajando uniforme azul. Ele parou, olhou para cima, para frente, lutando para manter o controle.

Houve um ruído contínuo, estridente, o som de algo chocando-se com a água e ele viu-se coberto por água fria. Olhou para baixo novamente e lá estavam mais corpos, corpos frescos. No fim do canal viu um clarão, uma bateria rebelde disparando diretamente sobre o canal. Outro grande impacto sobre a água e os pontões e outros homens foram subitamente varridos. Seus homens começaram a atravessar com mais rapidez, os que estavam abaixo forçando o ritmo, escalando rapidamente, cônscios de que aquele não era um lugar para se perder tempo, não havia cobertura. Agora ele foi pego por um fluxo de homens, empurrado através do campo, avançando com sua espada erguida. Eles começaram a se espalhar novamente, formando linhas e novamente marcharam adiante.

Não havia ritmo agora, cada passo, deliberado. Tentou enxergar os homens a sua frente, não havia nada, um campo de espessa névoa cinza. Então uma mão pousou em seu braço. Era Ames.

“Você está no comando do regimento! Tenho que assumir o lado direito da linha. Os comandantes caíram... Deus nos ajude!” e ele se foi.

Chamberlain sentiu-se desperto. Pôs-se sobre seus pensamentos, viu as faces que o olhavam, aguardando que ele as liderasse. Ele apontou a espada adiante, para a névoa desconhecida, gritou, “Homens! Adiante! Continuem!”

Os sons chegavam a ele um de cada vez, o solitário zumbir de uma bala de mosquete, o quente zunido de estilhaços, o ar atingindo-lhe em rápidas e quentes lufadas. Ainda não podia enxergar, movia-se a frente pela densa névoa, não olhava para os corpos pelos quais passava, o vermelho e o azul espalhados em grandes pilhas sobre a neve branca. Olhou para trás, para seus homens, novamente. Ainda estavam com ele, segurou o cabo da espada com firmeza, enterrando os dedos no aço, mas não era o suficiente. Alcançou a pistola, empunhou-a com a outra mão, segundo adiante.

Houve uma brecha, uma pequena fenda na névoa, e ele pode ver uma tênue depressão no terreno e uma leve elevação a seguir. Homens de azul agachados, alguns com mosquetes, disparando, recarregando, um grande número deles apenas... corpos. Além, ele viu um muro de pedra, levantou a pistola, sua mão tremendo com uma raiva fervente. Não estava pensando, sua mente não lhe dizia o que fazer. Começou a gritar, berrar para os mosquetes apontados para ele por detrás do muro, a face do inimigo e sua voz se mesclavam com o grande tumulto a sua volta. Houve uma explosão de chamas no muro e a sua volta homens tombaram, ele mirou a pistola, disparou e disparou novamente.

Págs. 341 a 344 (Tradução livre do original em inglês)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Cidades da Planície - Cormac McCarthy

Os homens têm na cabeça uma imagem de como o mundo vai ser. De como eles vão ser nesse mundo. O mundo pode ser diferente de muitas maneiras para eles mas tem um mundo que nunca vai ser e esse é o mundo que eles sonham.
Pág. 158

“Cidades da Planície” é o último livro da Trilogia da Fronteira, do escritor norte-americano Cormac McCarthy. A obra finaliza a saga de John Grady Cole e Billy Parham, protagonistas dos dois primeiros livros, “Todos os belos cavalos” e “A Travessia”.

A história tem início em 1952. John e Billy trabalham juntos em um rancho de gado ao sul de Alamogordo, no Novo México, próximo as cidades mexicanas de El Passo e Ciudad Juarez, no estado de Chihuahua. A história gira em torno da vida dos vaqueiros em meio a um modo de vida prestes a desaparecer e é construída sobre o amor de Cole a uma jovem prostituta mexicana, Magdalena.  John Cole está determinado a se casar com ela, a levá-la para viverem juntos na fazenda de seu patrão.

"Passamos boa parte do livro torcendo muito pelo amor entre os dois", escreve o jornalista Matthew Shirts na orelha do livro, mas, como sempre em McCarthy, finais felizes não são algo a que o leitor possa aguardar como certeza. Novamente, a obra transpira solidão, uma sensação de abandono, de incerteza, como se algo ruim estivesse sempre prestes a cruzar o caminho dos personagens que a habitam.

Um cavalo tem dois lados e conforme a minha experiência a gente tem que lidar com um lado e deixar o outro pra lá.
Conheci gente que era a mesma coisa. Várias pessoas, na verdade.
Pág. 178

Alguns críticos dizem que A Trilogia da Fronteira é um amontoado de clichês, um pastiche arrogante dos faroestes italianos como sugeriu certa vez Diogo Mainardi, segundo quem McCarthy “está mais para anúncio de cigarro” do que para William Faulkner e Herman Melville, autores a quem Mccarthy é bastante comparado. Para Mainardi, o oeste de McCarthy “tem a autenticidade da terra de Marlboro”. 

Penso que – além dos litros de café degustados e das muitas tortillas com feijão consumidas pelos personagens - o que alguns apontam como clichê são, na verdade, as reminiscências da construção de um mito do oeste tal qual os norte-americanos pensam este “período geográfico” tão importante de sua história. Há na Trilogia, a construção de uma moral, de um modo de vida e até de uma filosofia vaqueira na qual os personagens estão imersos até a boca. Esta moral, modo de vida e filosofia esbarram em um novo Estados Unidos que os negam. Uma nova realidade que não comporta mais John Coles e Billy Parhams. Estas reminiscências são o apoio que os personagens da obra encontram para justificarem as próprias vidas. O resultado é a sensação de imprevisibilidade, de falta de rumo e de projeto de futuro que todos eles possuem.

Quem era o viajante?
Não sei.
Era você?
Acho que não. Mas também se não nos conhecemos no mundo mesmo despertos que dirá nos sonhos?
Pág. 316

O grande momento de “Cidades da planície” é o epílogo, no qual Parham, um velho errante beirando os 80 anos, dormindo sob imensos viadutos no Arizona, trava um diálogo com outro errante que alguns acreditam ser o próprio McCarthy. A conversa ocorre 50 anos depois dos acontecimentos do romance. Em um diálogo lírico, intrincado, o homem conta a Billy uma história sobre um sonho envolvendo sacrifícios pagãos no deserto do México. A conversa flutua entre a realidade e o mundo dos sonhos enquanto Billy Parham luta para compreender o sentido de tudo aquilo, ou o sentido de sua própria vida.

Mais tarde, de volta a terra onde cresceu, Billy é acolhido por uma família.  Ali, dormindo em um barracão próximo a cozinha, “muito parecido com o local onde ele dormia quando criança”, ele sonha com o irmão, Boyd. Então, desperta de seu sono agitado para se deparar com Betty, a rancheira que o acolheu, ao seu lado. O último diálogo da obra dá vazão a muitas interpretações e tem sido alvo de muitos debates entre leitores e críticos. Para mim, é a redenção para solidão e o abandono que permeiam toda a obra.

“Ela lhe afagou a mão. Enodada, marcada pelo uso da corda, manchada do sol e dos anos. As veias feito cordas que as atava ao coração. Nela havia um mapa suficiente para orientar um homem. Nela a plenitude de sinais e assombros de Deus para criar uma paisagem. Criar o mundo. Ela se levantou para sair.
Betty, ele disse.
Sim.
Eu não sou o que a senhora pensa que eu sou. Eu não sou ninguém. Não sei por que me tolera.
Bem, senhor Parham, eu sei quem o senhor é. E eu sei por quê. Vê se dorme agora. Até amanhã.
Até amanhã dona.”
Pág. 341

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A Travessia - Cormac McCarthy

O senhor acredita que os cavalos entendem o que as pessoas falam?
Não tenho nem certeza se a maioria das pessoas entende.
Pág. 344

“Caminhou. Um vento frio soprava das montanhas. Aparava os taludes ocidentais do continente onde a neve estival jazia acima dos terrenos onde árvores não cresciam e atravessava as elevadas florestas de pinheiros e se infiltrava entre os troncos dos álamos e se precipitava sobre a planície desértica abaixo. Parara de chover durante a noite e ele caminhou pela estrada e chamou o cão. E chamou e chamou. De pé naquelas trevas inexplicáveis. Nas quais não havia rumor em parte alguma exceto o do vento. Pouco depois se sentou na estrada. Tirou o chapéu e o depositou no asfalto diante dele e curvou a cabeça e pôs o rosto entre as mãos e chorou. Ali ficou por um longo tempo e depois o sol bom e feito por Deus nasceu, uma vez mais, para todos sem distinção.”

A desesperança do último parágrafo de “A Travessia”, segundo livro da Trilogia da Fronteira, do escritor estadunidense Cormac McCarthy, cuja leitura finalizei esta semana é o perfeito epílogo para um livro que, ao narrar a peregrinação de um jovem vaqueiro americano pela fronteira entre Estados Unidos e México no eclodir da segunda guerra mundial, nos coloca diante de toda a miséria da condição humana, esmagada pela solidão.

O jovem Billy Parham, protagonista da obra, é colocado diante de todo este peso nas quatrocentas e poucas páginas da obra, onde é confrontado por encontros inesperados que mesclam poesia, violência e filosofia na convivência, perda e busca por seu irmão mais novo, Boyd. Apesar de todas as experiências de vida que lhe são impostas durante a longa trajetória, iniciada com um arroubo que o leva a cruzar a fronteira com o México para colocar em segurança uma loba apanhada em uma armadilha, Billy é incapaz de se livrar desta solidão que o aparta dos homens e cuja ameaça foi apresentada a ele em um dos muitos encontros que lhe são imputados pelo destino.

Disse ao rapaz que apesar de ser huérfano deveria parar com as perambulações e encontrar para si mesmo um lugar no mundo porque a perambulação se tornaria uma paixão e por essa paixão se apartaria dos homens e por fim de si mesmo. Disse que o mundo só poderia ser conhecido tal como existe no coração dos homens Pois embora parecesse um lugar que contivesse os homens era na realidade um lugar contido dentro deles e por esse motivo para conhecê-lo era preciso olhar para dentro de si e conhecer o coração e para isso era preciso viver com os homens e não simplesmente passar entre eles.
Págs. 131 e 132

Em “A Travessia”, assim como em “Todos os belos cavalos” – primeiro livro da trilogia - o México surge como metáfora para um mundo selvagem e corrupto que McCarthy contrapõe à própria corrupção dos homens. É nessa natureza que ele faz seus personagens buscarem os valores e os sentimentos mais dignos e é também no elogio dessa vida crua que ele procura uma literatura mais autêntica e original. O animal ganha dentro dessa perspectiva um peso simbólico fundamental. É ao se tornarem um pouco animais, também, que seus personagens conquistam uma existência mais verdadeira. A sabedoria e a violência do mundo selvagem e da luta pela sobrevivência surgem como alternativa contra a selvageria de uma civilização corrompida pela violência gratuita, a injustiça, a ganância e a maldade.

O mundo não tem nome, disse. O nome dos cerros e das serras e dos desertos existem apenas nos mapas. Damos nomes a eles para não nos perdermos no caminho. No entanto porque já tínhamos nos perdido no caminho é que pusemos esses nomes. O mundo não pode se perder. Nós é que o perdemos. E porque esses nomes e essas coordenadas são nomeações nossas é que eles não podem nos salvar. Não podem encontrar de novo para nós o caminho.
Pág. 377

O encantamento de McCarthy e seus personagens por este mundo natural, para sempre perdido dentro de uma nova ordem social que surge, é apresentado por meio de uma prosa poética que muitas vezes flerta com o fantástico. De forma mais incisiva do que em “Todos os belos cavalos”, “A Travessia” nos traz o doloroso estoicismo de personagens sem guarida no mundo, que se movem contra uma paisagem indiferente ao seu sofrimento ou projetos pessoais, onde a morte parece a única disciplina capaz de unir a dura substância do mundo e a condição humana.

Ele olhou dentro dos olhos do garoto. O garoto dentro dos dele. Olhos tão negros que pareciam ser só pupila. Olhos nos quais o sol se punha. Nos quais a criança estava ao lado do sol. Ele não sabia que a gente podia ver a gente mesma nos olhos de uma outra pessoa nem ver dentro deles coisas assim como sóis. Ficou irmanado naqueles poços escuros com o cabelo muito descorado, muito fino e estranho, à mesmíssima criança.
Págs. 9 e 10

O Livro

Não tinha fé no poder dos homens de agirem sensatamente em benefício  de si mesmos.
Pág. 145

O livro é construído a partir de três incursões de Billy ao México. A primeira parte da obra, na qual o jovem submerge no mundo natural a partir de sua busca obsessiva por compreender o comportamento de uma loba que busca capturar, pode ser comparada a “O Urso” de Willian Faulkner ou a “Moby-Dick” de Herman Melville. Magistral a construção desta relação entre menino-homem e loba. Ao capturar o animal, Billy toma uma decisão que muda sua vida para sempre levando-o a uma jornada por montanhas primitivas e desertos inclementes. O motivo que o leva a assumir esta missão, deixando para trás a família, não é totalmente esclarecido. É um impulso, uma compulsão, uma resposta inconsciente ao chamado da natureza que o leva à frente sem medir conseqüências.

Ele segue seu caminho construindo uma relação de confiança com o animal e protegendo-o da selvageria humana até onde suas forças lhe permitem. Quando isso não é mais possível, Billy opta por libertar a loba do destino cruel que lhe é reservado nas mãos de homens embrutecidos. O momento em que Billy mata sua companheira de viagem, ferida em uma rinha de briga de cães, nos remete a uma busca pela dignidade, pela nobreza animal diante da selvageria do homem.

Billy, então, inicia uma viagem hipnótica pelas montanhas até as fronteiras do Novo México, onde o jovem cavaleiro nos é apresentado como um fantasma de si mesmo, meio enlouquecido pela dor e pela fome, em busca de terras conhecidas. Ele volta ao seu lar, apenas para descobrir que seus pais foram assassinados por ladrões de cavalo. Então, resgata o irmão mais novo, Boyd e parte novamente para o México em busca dos cavalos roubados.

Encontros e desencontros, violência e solidariedade os colocam frente a frente com alguns dos animais roubados e com uma jovem mexicana que junta seu destino ao deles. Mas a brutalidade prevalece e eles se transformam em fugitivos. Boyd é gravemente ferido e fica sob os cuidados de camponeses. Recuperado, parte com a jovem, deixando Billy para trás.

Billy, então, volta para os Estados Unidos onde tenta se alistar no exército. Por três vezes é recusado devido a uma falha cardíaca. Três anos se passam e Billy volta ao México em busca de seu irmão. Ele encontra apenas seu corpo, sepultado em um antigo cemitério, e as lendas que povoam o imaginário dos mais humildes, histórias que cantam as desventuras do jovem que luta contra a opressão dos fazendeiros mas acaba morto.

Levar o corpo de Boyd de volta para casa é a nova razão que Billy encontra para sua vida. E mesmo então não há caminho fácil para ele. Atacado por bandoleiros, roubado, perdendo um cavalo e tendo seu companheiro de viagens, o cavalo Niño, esfaqueado, ele insiste em cumprir a missão que impôs a si mesmo. Finalmente, já nos Estados Unidos, sepulta os restos do irmão ao lado da loba.

Este é o fio condutor de “A Travessia”, um resumo dos acontecimentos fantásticos que ocupam alguns anos da vida do vaqueiro Billy. Mas é o fim do livro, poucos anos depois, que nos dá o desenlace perfeito para a sensação de solidão que acompanha todas as páginas da obra.
 
Só, em uma casa abandonada onde se protege da chuva, Billy prepara-se para dormir sob palhas quando o dono do abrigo surge. Um cão velho, esquálido, deformado, que em realidade é um reflexo da alma de Billy. O jovem o escorraça das ruínas em uma convulsão de loucura, como se a própria presença do animal desvalido fosse para ele uma lembrança terrível de sua própria condição, da própria condição humana diante da inevitável solidão que nos esmigalha. Então, caindo em si, ele protagoniza o último parágrafo, que é o início desta breve resenha, concedendo a si próprio um momento de entrega e fraqueza, um momento de frágil humanidade.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Todos os belos cavalos - Cormac McCarthy


Ele o olhou, não sem bondade. Sorriu. As cicatrizes têm o estranho poder de nos lembrar de que nosso passado é real.
Pág. 125

Assim como o jazz pode ser apontado como arquétipo da música americana, o western é o gênero original da literatura do país. Para os norte-americanos, e também para nós, que crescemos com uma dieta de filmes de bangue-bangue, o tema evoca um tempo de bruta nobreza onde cada suspiro precede um confronto entre o “bem” e o “mal”. A realidade, é claro, é um pouco diferente, um ambiente existencial onde vida e morte compartilham estranhas danças ao pôr do sol. Esta realidade nos é apresentada com indescritível elegância em “Todos os belos cavalos”, o primeiro volume da Trilogia da Fronteira, do escritor Cormac McCarthy.

A paisagem é o sudoeste do Texas, fronteira com o México, entre as duas grandes guerras, um tempo de transição para as sociedades da América do Norte, quando cavalos e veículos motorizados compartilhavam as estradas e ranchos de gado e vaqueiros começavam a desaparecer lentamente do cenário rural. “Eu sempre tive interesse no sudoeste. Não há lugar no mundo onde não se tenha ouvido falar de indos e cowboys ou sobre o mito do Oeste”, afirma o autor.

Cavalgou com o sol acobreando-lhe o rosto e o vento rubro soprando do oeste a terra noturna e os passarinhos do deserto voaram chilreando entre as samambaias secas e cavalo e cavaleiro seguiam em frente e suas longas sombras passavam engatadas como a sombra de um único ser. Passavam e empalideciam na terra a escurecer, do mundo a vir.
Pág. 271

A obra acompanha John Grady Cole, um rapaz de 16 anos, apaixonado por cavalos e dono de uma empatia profunda por estes animais, que se vê diante de um conhecimento aterrador: a certeza de que o modo de vida que ele ama - cavalos e ranchos de gado – estava chegando ao fim.

Após a morte do avô e a venda da fazenda de sua família, desestruturada com a separação dos pais, ele e seu melhor amigo, Lacey Rawlins, cavalgam para o México em busca de nada mais do que a promessa de um longo período sobre seus cavalos e sob as estrelas. Em sua jornada eles encontram o jovem e enigmático Jimmy Blevins, que se torna o pivô dos acontecimentos que colocarão Cole a Rawlins em uma série de eventos doces e violentos em uma terra sem leis.

Ah, eles disseram. Qué Bueno. E depois disso e por muito tempo ele teve motivo para evocar a lembrança daqueles sorrisos e refletir sobre a boa vontade que os causara pois tinha o poder de proteger e conferir honra e fortalecer a vontade e também de curar homens e levá-los à segurança muito depois de exauridos os outros recursos.
Pág. 199

O tema principal de “Todos os belos cavalos” é o conflito - entre homens e mulheres, liberdade e autoridade, riqueza e pobreza, pais e filhos, natureza e o homem – descrito com uma voz poética, mas rude, que é característica de McCarthy. Apesar da violência – outra característica da sua obra – em “Todos os belos cavalos” ser subida e imprevisível, ela nunca é gratuita. Serve como um contrapeso para o avassalador romance entre a filha de um fazendeiro mexicano, Alejandra, e Cole. Uma história de amor que o leitor espera ser bem-sucedida, mas que desde o início é fadada ao fracasso.

Não olhou para trás mas podia vê-la nas janelas do Edifício Federal do outro lado da rua ali parada e continuava parada quando ele chegou à esquina e saiu do vidro para sempre.
Pág. 28

Talvez o mais significativo na obra seja o fato de McCarthy ter conseguido construir uma história tão forte e ao mesmo tempo poética sem cair nas armadilhas do lugar comum.

McCarthy já foi resenhado aqui em outras oportunidades. Sua obra é marcada por uma intensa observação da natureza, um tipo de realismo mórbido. Seus personagens são sempre desgarrados, destituídos, criminosos, ou tudo isso de uma vez. Desabrigados ou vivendo sobre o teto que a providência lhes provê, eles se arrastam pelos bosques do Tenessee ou cavalgam pelas imensidões secas dos desertos. A morte surge abrupta sob céu aberto como um talho na garganta ou um tiro na cara. Em McCarthy, o abismo está sempre a um passo de distância.

Os nomes das entidades que nos reprimem mudam com o tempo. A convenção e a autoridade são substituídas pela doença. Mas minha atitude para com elas não mudou. Não mudou.
Pág. 125

O estilo de McCarthy's deve muito a Faulkner – no seu vocabulário recôndito, sua pontuação e retórica portentosa, no uso do dialeto e em um senso muito concreto do mundo a sua volta. “A verdade crua é que livros são feitos de livros. A vida de um romance depende dos romances que já foram escritos”, afirma, deixando claro que para construir uma obra de peso é preciso sentir sobre si a tonelagem maciça da boa literatura.

O AUTOR

Cormac McCarthy nasceu em Rhode Island em 20 de julho de 1933. Na juventude serviu à Força Aérea dos Estados Unidos durante quatro anos e estudou Artes na Universidade do Tennessee. É vencedor do National Book Award, do National Book Critics Circle Award e do Pulitzer 2007.

Em 40 anos de carreira literária, produziu nove romances, entre eles “Todos os Belos Cavalos”, “A Travessia” e “Cidade das Planícies”, que o autor batizou de Trilogia da Fronteira, “Meridiano de sangue” e “A Estrada”. “Onde os Velhos Não Têm Vez”, lançado nos Estados Unidos em 2005, foi adaptado para o cinema pelos irmãos Coen, em 2007. Receberam o Oscar de melhor filme, em 2008. “Todos os belos cavalos” também recebeu uma adaptação para a telona em 2000 (direção de Billy Bob Thornton).

Bom, disse Pérez. Geralmente eu posso avaliar a inteligência de um homem pelo quanto ele me acha estúpido.
Pág. 176

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O emblema vermelho da coragem - Stephen Crane

Era espantoso que a natureza seguisse tranquilamente em seu dourado processo em meio a tanta maldade.
Pág. 85

Apesar de Stephen Crane ter nascido após a Guerra Civil Americana e não ter tido nenhuma experiência de combate, sua novela, “O emblema vermelho da coragem” é apontada como um dos relatos de guerra mais verdadeiros e crus de que se tem notícia na literatura. Apesar de ele mesmo ter dito que “não se pode dizer nada... a menos que você tenha vivido aquilo”, seu romance é impregnado de um realismo que leva o leitor para dentro da cabeça do recruta Henry Fleming, seu protagonista.

Crane começou a escrever a obra em 1893, inspirado em relatos da guerra, em voga na época. Para compor a novela, ele também entrevistou veteranos do 124º Regimento Voluntário de Infantaria de Nova Iorque, conhecido como os Orange Blossoms. Inicialmente publicada de forma resumida em jornais, em dezembro de 1894, a novela foi publicada na íntegra em outubro de 1895. Uma versão mais longa, baseada nos manuscritos originais de Crane, foi publicada em 1982. Os especialistas na Guerra Civil Americana acreditam que o cenário escolhido pelo autor para descrever a experiência de Fleming foi a batalha de Chancellorsville.

Tentando explicar sua habilidade para escrever sobre a guerra de forma tão realista, Crane afirmou: “É claro que eu nunca estive em uma batalha, mas acredito que adquiri o senso do conflito nos campos de futebol americano; ou esta familiariedade com o combate é um instinto hereditário,e eu escrevi intuitivamente, já que os Cranes foram uma família de guerreiros no passado”.

De fato, a obra parece ter sido retirada da mente de quem testemunhou o calor do combate em primeira pessoa. Desde as primeiras páginas, quando o jovem romântico alista-se como voluntário no exército da União, contrariando os conselhos de sua mãe, em uma busca cega por glória e reconhecimento, Crane nos convida a um passeio pela psique de um jovem atordoado pela necessidade de “ser alguém” por meio e uma hipotética glória dos combates. Uma glória que cai por terra no seu batismo de fogo, quando a delicadeza da humanidade, o pavor diante da morte, prevalece.

Nos olhos do jovem apareceu uma expressão que se pode ver nas órbitas de um cavalo de perna quebrada.
Pág. 88

A desumanização dos soldados, sua transformação em meras peças em um imenso tabuleiro, é uma marca de “O emblema vermelho da coragem”, onde o exército e a guerra são coerentemente descritos com metáforas animais – como “duas serpentes rastejando para fora da gruta da noite”, o “animal vermelho”, “um enxame feroaz de criaturas escorregadias”, “o monstro verde e escarlate” – e o soldado individual não passa de uma engrenagem impessoal na máquina da guerra.

Esta proximidade entre ficção literária e a realidade dos campos de batalha faz com que a obra de Crane seja freqüentemente comparada a “Derrocada” de Zola e a “Guerra e paz” de Tolstói. No entanto, em “O emblema vermelho da coragem”, a guerra e as sensações que ela produz são protagonistas, não detalhes em um contexto maior.

A morte que enfia uma faca nas costas é muito mais aterrorizante do que a morte que pica entre os olhos. Pensando no assunto mais tarde, ele concluiria que é melhor enxergar o que nos aterroriza do que apenas ouvi-lo à distância.
Pág. 90

Não era recomendável encurralar homens em becos sem saída; nessas horas, qualquer um pode criar garras e dentes.
Pág. 158

Apesar de a guerra, o fragor do combate ser o ponto chave da obra, é na luta interna de Fleming entre a covardia e a bravura que reside o fio condutor da novela. Com maestria, Crane nos coloca diante de um jovem, recém saído da adolescência, lançado em meio a carnificina de uma guerra onde, pela primeira vez, a indústria serviu aos caprichos da mortandade com inovações tecnológicas que transformariam para sempre os campos de batalha. O pavor da morte andava lado a lado com o medo da ignomínia da covardia.

Era uma carreira cega e desesperada do bando de homens azuis de roupa enlameada e rota, sobre o gramado verde e sob um céu de safira na direção de uma cerca vagamente esboçada na fumaça, atrás da qual pipocavam fervorosamente os rifles inimigos.
Pág. 197

Fleming, antes de ser um herói aos olhos do leitor  é uma figura patética, uma sombra de todos nós, um arquétipo humano em busca de justificativas para a própria covardia e, posteriormente, um espelho das reações humanas quando a própria humanidade é reduzida a nada e a morte transforma-se em uma solução prática de modo que o temor dela se reduz diante da exaustão e da compreensão de nossa inutilidade enquanto protagonistas de nossas próprias vidas.

Lembrou-se do modo como alguns tinham corrido da batalha. Recordando suas expressões contorcidas de terror, sentiu desprezo. Era evidente que se tinham portado de modo muito mais espaventado e frenético do que o absolutamente necessário. Eram frágeis mortais. Quanto a ele, soubera fugir com dignidade e descrição.
Pág. 148

A luta de Fleming, sua covardia, a preocupação quanto a imagem que os outros teriam dele, transforma-se em um xadrez mental, um jogo de gato e rato no qual, inicialmente falsa, a sua bravura acaba por ser despertada em meio as engrenagens de uma máquina impessoal e terrível sobre a qual estava equilibrado.

Dentro dele, à medida que avançava, foi nascendo um amor, um afeto desesperado pela bandeira que seguia ao seu lado. A bandeira, uma criação de rara beleza, era invulnerável, uma deusa radiante que, num gesto imperioso, curvava seu corpo sobre o dele. Uma mulher vermelha e branca, cheia de ódio e amor, a chamá-lo com a voz de suas esperanças. Nenhum mal podia ser feito a ela, e isso levava o jovem a lhe atribuir um grande poder. Mantinha-se por perto, como se ela fosse capaz de salvar vidas. Em pensamento, implorou-lhe que o fizesse.
Pág. 175

Imortalizado no cinema por John Huston em “A glória de um covarde”, “O emblema vermelho da coragem” é um clássico do modernismo norte-americano. Uma obra que, passados 116 anos de sua primeira publicação, pode ser lida hoje com os olhos da contemporaneidade.

O autor

Jornalista e escritor naturalista americano nascido em Newark, Nova Jersey, Stephen Crane deixou uma obra literária de tal qualidade que foi considerado um dos principais escritores dos Estados Unidos no século XIX e o impulsionador do naturalismo que caracterizaria grande parte da narrativa daquele país no século seguinte. Filho de um pastor metodista, formou-se na Universidade de Siracusa, onde escreveu o rascunho de seu primeiro romance: “Maggie: A Girl of the Streets” (1893).

Posteriormente mudou-se para Nova York, onde se dedicou ao jornalismo e publicou contos. Escreveu sua obra mais conhecida, “The Red Badge of Courage” (1895), um romance ambientado na guerra de secessão, transformada em filme por John Huston (1951). Cobriu como jornalista a guerra greco-turca (1897) e, um ano depois, a guerra hispano-americana. Nessa época publicou uma de suas mais célebres coleções de contos, “The Open Boat, and Other Tales of Adventure” (1898). 

Após voltar de Cuba, viajou para a Inglaterra, onde conheceu escritores como Joseph Conrad e H. G. Wells. A saudade de seu país ficou refletida em “Whilomville Stories” (1900). Empobrecido foi internado no sanatório de Badenweiler, na Alemanha, onde morreu prematuramente de tuberculose, complicada por malária, em 1900.