“Não foi diante de ti que me prostrei, mas diante de toda a dor humana.” Livro II Pág. 63
Finalizei recentemente “Crime e Castigo”, do escritor russo Fiódor Dostoievski (1821-1881). A edição que tive em mãos foi lançada recentemente pela editora Abril, por meio da coleção Obras Primas. Tive sorte, ao que parece. A tradução feita em 1949 pelo escritor mineiro Rosário Fusco é tida como uma das mais cuidadosas, ficando atrás apenas da tradução feita em 2001 por Paulo Bezerra, direto do original em russo, para a editora 34.
O escritor argentino Jorge Luís Borges, que leu a obra em 1915, disse, ao traçar um paralelo entre o livro e a Primeira Guerra Mundial: “Esse romance, cujos heróis são um assassino e uma prostituta, pareceu-me não menos terrível que a guerra que nos cercava”. É verdade. O romance é terrível sob vários aspectos, em especial no que se refere às barbaridades que o ser humano pode cometer quando se coloca moralmente e intelectualmente acima dos demais, ou quando assim se considera devido ao acúmulo de poder ou de riquezas.
O romance, editado em 1866 durante o que o biógrafo de Dostoievski chamou de “anos milagrosos” (1865 a 1871) - época em que o autor, só (devido à morte do irmão e da esposa) e endividado, escreveu seus romances centrais - conta a história de Rodion Românovitch Raskólnikov, um jovem estudante de direito mergulhado na pobreza na cidade de São Petesburgo.
Embriagado pelo orgulho, Raskólnikov arquiteta um assassinato sob a teoria de que aos que ele classifica como homens extraordinários, tudo é permitido, visto que seus atos têm como objetivo o bem maior ou o simples “direito” de cometer o que sua vontade exigir. Aos homens ordinários, a turba, o populacho, restaria observar como rebanho os arroubos de genialidade destes homens superiores, que guiam seus atos não por uma ética que a todos submete, mas por outra, feita sob medida para cada um mediante sua genialidade.
“Os homens ordinários devem viver na obediência e não têm o direito de transgredir a lei, uma vez que são ordinários. Os indivíduos extraordinários, por sua vez, têm o direito de cometer todos os crimes e de violar todas as leis pela única razão de serem extraordinários.” Livro I Pág. 346
Baseado nesta premissa maquiavélica, o protagonista comete um crime bárbaro, assassina duas mulheres a machadadas, para, então, mergulhar em uma bipolaridade esquizofrenia e niilista que, longe de estar relacionada a um arrependimento verdadeiro, aborda apenas a consciência de que o autor do crime, por questionar o ato sórdido que cometeu, entende não estar inserido no rol dos extraordinários, do qual julgava ser parte, e que jamais teriam qualquer dúvida, desgosto ou mesmo arrependimento sobre um ato que em teoria era de seu direito cometer.
O articulista Reinaldo Azevedo fez um interessante comentário sobre a psicologia que moveu Raskólnikov. Disse que Dostoievski situa seu protagonista na fronteira entre a racionalização que justifica o crime e a consciência que produz a culpa. “O que interessa em Raskolnikov? O sofrimento posterior ao crime não deriva da pressão social ou das dificuldades que encontra, na sociedade, por ser um assassino. O que lhe corrói a alma é sua consciência e, eu ousaria dizer, uma espécie de ancestralidade humanista que o confronta com o horror...”.
Pode-se dizer que um dos sustentáculos da obra é o confronto – tão incisivo na época – entre a moral religiosa e a razão materialista. Está nesta dicotomia a raiz de muitos momentos preciosos do livro, de muitos de seus profundos diálogos e no pensamento de seus personagens que se questionam ininterruptamente sobre a validade moral de seus atos diante de uma sociedade prestes a sucumbir sob si mesma. Ainda citando Azevedo, desta vez analisando o próprio autor: “Sua literatura só existe porque a moral religiosa sofria o assédio e o cerco da razão avassaladora, com seus instrumentos de medição científica, diante dos quais todo saber, considerado então convencional, era relativo e, para muitos, descartável.”.
Em “Crítica e Profecia: a filosofia da religião em Dostoievski”, Luiz Felipe Pondé analisou profundamente esta questão. “Crime e Castigo gira em torno do crime cometido por Raskólnikov. Ele comete um crime para se testar como indivíduo extraordinário. Para ele, os indivíduos extraordinários são aqueles que moldam a história da humanidade. Além disso, Aliena Ivánovna, aquela velha usurária infame, suja, que não servia para nada, que era um rato, merecia mesmo a morte. Porém, é obrigado a matar também a irmã dela, Lisavieta, que aparece no momento do crime... No final, ele acaba percebendo que matou aquela mulher porque queria e acabou; não foi por nenhuma teoria, porque ele é extremamente ordinário. Para Dostoiévski isto é fundamental: reconhecer que se pode matar pelo simples prazer de fazê-lo, ou para se livrar de uma dívida, é melhor do que afirmar que se está matando pela causa da humanidade”.
Na sombra das justificativas morais com as quais Raskólnikov tenta alicerçar seu crime pode-se trazer este debate para o mundo real, para os círculos de relacionamentos humanos construídos à nossa volta, percebendo aí os traços do comportamento de quem manipula porções variadas de poder.
Assim como o protagonista de “Crime e Castigo” almejava comparar-se a Napoleão, há em pessoas que nos cercam e que detém as rédeas de certas instâncias da coisa pública, a tendência de se considerarem acima da média, homens (e mulheres) especiais, ungidos pela natureza ou pela metafísica, a quem é permitida a tomada de decisões e a ingerência sobre a vida dos demais. O comportamento bizarro de chefetes, edis e alcaides é um exemplo rasteiro de como estamos cercados de Raskólnikovs.

