Semana On

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Crime e Castigo - Fiódor Dostoievski

“Não foi diante de ti que me prostrei, mas diante de toda a dor humana.” Livro II Pág. 63

Finalizei recentemente “Crime e Castigo”, do escritor russo Fiódor Dostoievski (1821-1881). A edição que tive em mãos foi lançada recentemente pela editora Abril, por meio da coleção Obras Primas. Tive sorte, ao que parece. A tradução feita em 1949 pelo escritor mineiro Rosário Fusco é tida como uma das mais cuidadosas, ficando atrás apenas da tradução feita em 2001 por Paulo Bezerra, direto do original em russo, para a editora 34.

O escritor argentino Jorge Luís Borges, que leu a obra em 1915, disse, ao traçar um paralelo entre o livro e a Primeira Guerra Mundial: “Esse romance, cujos heróis são um assassino e uma prostituta, pareceu-me não menos terrível que a guerra que nos cercava”. É verdade. O romance é terrível sob vários aspectos, em especial no que se refere às barbaridades que o ser humano pode cometer quando se coloca moralmente e intelectualmente acima dos demais, ou quando assim se considera devido ao acúmulo de poder ou de riquezas.

O romance, editado em 1866 durante o que o biógrafo de Dostoievski chamou de “anos milagrosos” (1865 a 1871) - época em que o autor, só (devido à morte do irmão e da esposa) e endividado, escreveu seus romances centrais - conta a história de Rodion Românovitch Raskólnikov, um jovem estudante de direito mergulhado na pobreza na cidade de São Petesburgo.

Embriagado pelo orgulho, Raskólnikov arquiteta um assassinato sob a teoria de que aos que ele classifica como homens extraordinários, tudo é permitido, visto que seus atos têm como objetivo o bem maior ou o simples “direito” de cometer o que sua vontade exigir. Aos homens ordinários, a turba, o populacho, restaria observar como rebanho os arroubos de genialidade destes homens superiores, que guiam seus atos não por uma ética que a todos submete, mas por outra, feita sob medida para cada um mediante sua genialidade.

“Os homens ordinários devem viver na obediência e não têm o direito de transgredir a lei, uma vez que são ordinários. Os indivíduos extraordinários, por sua vez, têm o direito de cometer todos os crimes e de violar todas as leis pela única razão de serem extraordinários.” Livro I Pág. 346

Baseado nesta premissa maquiavélica, o protagonista comete um crime bárbaro, assassina duas mulheres a machadadas, para, então, mergulhar em uma bipolaridade esquizofrenia e niilista que, longe de estar relacionada a um arrependimento verdadeiro, aborda apenas a consciência de que o autor do crime, por questionar o ato sórdido que cometeu, entende não estar inserido no rol dos extraordinários, do qual julgava ser parte, e que jamais teriam qualquer dúvida, desgosto ou mesmo arrependimento sobre um ato que em teoria era de seu direito cometer.

O articulista Reinaldo Azevedo fez um interessante comentário sobre a psicologia que moveu Raskólnikov. Disse que Dostoievski situa seu protagonista na fronteira entre a racionalização que justifica o crime e a consciência que produz a culpa. “O que interessa em Raskolnikov? O sofrimento posterior ao crime não deriva da pressão social ou das dificuldades que encontra, na sociedade, por ser um assassino. O que lhe corrói a alma é sua consciência e, eu ousaria dizer, uma espécie de ancestralidade humanista que o confronta com o horror...”.

Pode-se dizer que um dos sustentáculos da obra é o confronto – tão incisivo na época – entre a moral religiosa e a razão materialista. Está nesta dicotomia a raiz de muitos momentos preciosos do livro, de muitos de seus profundos diálogos e no pensamento de seus personagens que se questionam ininterruptamente sobre a validade moral de seus atos diante de uma sociedade prestes a sucumbir sob si mesma. Ainda citando Azevedo, desta vez analisando o próprio autor: “Sua literatura só existe porque a moral religiosa sofria o assédio e o cerco da razão avassaladora, com seus instrumentos de medição científica, diante dos quais todo saber, considerado então convencional, era relativo e, para muitos, descartável.”.

Em “Crítica e Profecia: a filosofia da religião em Dostoievski”, Luiz Felipe Pondé analisou profundamente esta questão. “Crime e Castigo gira em torno do crime cometido por Raskólnikov. Ele comete um crime para se testar como indivíduo extraordinário. Para ele, os indivíduos extraordinários são aqueles que moldam a história da humanidade. Além disso, Aliena Ivánovna, aquela velha usurária infame, suja, que não servia para nada, que era um rato, merecia mesmo a morte. Porém, é obrigado a matar também a irmã dela, Lisavieta, que aparece no momento do crime... No final, ele acaba percebendo que matou aquela mulher porque queria e acabou; não foi por nenhuma teoria, porque ele é extremamente ordinário. Para Dostoiévski isto é fundamental: reconhecer que se pode matar pelo simples prazer de fazê-lo, ou para se livrar de uma dívida, é melhor do que afirmar que se está matando pela causa da humanidade”.

Na sombra das justificativas morais com as quais Raskólnikov tenta alicerçar seu crime pode-se trazer este debate para o mundo real, para os círculos de relacionamentos humanos construídos à nossa volta, percebendo aí os traços do comportamento de quem manipula porções variadas de poder.

Assim como o protagonista de “Crime e Castigo” almejava comparar-se a Napoleão, há em pessoas que nos cercam e que detém as rédeas de certas instâncias da coisa pública, a tendência de se considerarem acima da média, homens (e mulheres) especiais, ungidos pela natureza ou pela metafísica, a quem é permitida a tomada de decisões e a ingerência sobre a vida dos demais. O comportamento bizarro de chefetes, edis e alcaides é um exemplo rasteiro de como estamos cercados de Raskólnikovs.

domingo, 12 de dezembro de 2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

Poesia aos sábados

Missa Negra

As tachas de metal pela jaqueta
de couro são estrelas para mim,
uma constelação sobre uma preta
tintura como o sangue de Caim.

Com ares de macabra, me inquieta,
vontade de me abrir para o ruim,
os rins em polvorosa pela seta
são alvos desejosos por... enfim...

Proponho uma sessão com todo o kit,
há sordidez para qualquer fetiche.
Eu topo suas taras de tantã,

despindo da calcinha celulite,
estrias e orifícios de azeviche,
feitiços para a glória de Satã.

Henrique Pimenta, esta semana, no Poema Dia

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Queime o castelo!

Minha amiga Maíra Espíndola abre no próximo dia 14, às 19h30, sua exposição no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande (Marco). As ilustrações desta artista inquieta são pequenas obras primas. Vale a pena conferir.

domingo, 5 de dezembro de 2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

Poesia aos sábados

AMO-TE ASSIM SEM CORPO
{a um namorado}

amo-te assim sem corpo.
sem dias que sacodem lembranças.
sem últimas coisas.
sem ouvires de língua.
sem palavras que respiram pelo
nariz de outras.
sem compromissos abdominais.
sem o coração no bolso.
sem ruídos obscenos que
indiciam nudez.
sem borboletas vulgares
sobre o poema.
sem o conhecimento de toda a gente.
sem o teu conhecimento
ou existência.
amo-te assim sem corpo
com todo o meu corpo,
lembranças,
últimas coisas,
ouvires de língua,
palavras ardentes como
febres frias,
compromissos fundidos noutros,
o coração dobrado,
as braçadas da vida
nua e lenta como a borboleta
neste poema.
amo-te assim sem vida.
sem morte.
sem corpo.

Sylvia Beirute, esta semana, no Poema Dia

domingo, 21 de novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

Poesia aos sábados

Kamikazes

Entardece...
e o que me emudece
ao te ver bailar na areia,
é esse teu fingir sereia,
que norteia o sol
pelo céu abaixo,
nesse escracho
que fazes no horizonte,
e de fronte ao que eu ainda sou.

Anoitece...
e o que me enlouquece
ao te ouvir cantar pra mim,
é saber que não têm fim,
esse meu vaticínio
da solidão em eterno declínio,
e a nossa risada,
por cada onda contada,
e cada abraço vivido.

Amanhece...
e o que me entorpece
ao ver teu corpo ao meu alcance,
é o suor desse romance,
escorrendo licoroso,
junto ao tempo nervoso
que devora cada hora
e nos torna kamikazes
e loucamente capazes
de entardecer...

A J Lobone, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Israel não respeita direitos do povo palestino

Artigo de Arlene Clemesha* e Bernadette Siqueira Abrão** publicado hoje no jornal Folha de S.Paulo.

Em artigo nesta Folha ("Direitos humanos em mãos erradas", "Tendências/Debates", 10/10), o embaixador israelense queixou-se do Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU, em que relatórios têm sido aprovados, denunciando graves violações de direitos humanos por parte do governo israelense nos territórios palestinos ocupados da Cisjordânia e da faixa de Gaza.

De fato, apenas nos primeiros seis meses de 2010, foram registradas na Cisjordânia a demolição de 223 edifícios e a expulsão de 338 palestinos de suas casas.

Quinhentas e cinco barreiras violam o direito de ir e vir, impedindo o acesso da população a escolas, a locais de trabalho e a hospitais, para procedimentos vitais como diálise, cirurgias do coração e cuidado neonatal intensivo.

Seguindo a lógica de anexar o máximo de terras com o mínimo de palestinos, o trajeto tortuoso do muro enclausurou Belém e Qalqilia, expulsou 50 mil palestinos de Jerusalém Oriental e anexou 10% das terras mais férteis da Cisjordânia. As colônias israelenses, também ilegais, expandem-se a todo vapor sobre territórios palestinos.

A justificativa de Israel para a violação de direitos humanos -zelar pela "segurança" de seus cidadãos- não se sustenta, sendo tais atos a própria origem da revolta palestina.

Os "mísseis" citados pelo artigo do embaixador são armas de fabricação caseira, usadas em desespero por um povo sem Estado, que sofre a mais longa ocupação militar da história moderna, submetido a bombardeios, a incursões militares, a assassinatos dirigidos e a toques de recolher.

O artigo também cita um prisioneiro militar israelense, omitindo o fato de que Israel tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal, processo judicial ou direito de defesa.

Alega-se que Israel estaria sendo alvo de injustiças por parte do CDH em consequência do relatório do juiz Richard Goldstone sobre os crimes de guerra cometidos durante o bombardeio que massacrou 1.397 pessoas em Gaza (incluindo 320 crianças e 109 mulheres).

Assim, deturpa-se o caráter heroico da flotilha de ativistas humanitários do mundo todo, incluindo israelenses e uma mulher sobrevivente do Holocausto, que arriscaram suas vidas para quebrar o bloqueio ilegal a Gaza.

O objetivo da flotilha era chamar a atenção do mundo para o problema? Sim. Era e continuará sendo uma provocação? Apenas se considerarmos o termo um desafio aberto, para que a humanidade impeça a continuidade do cerco a Gaza, onde 80% da população sofre de má nutrição crônica, as crianças apresentam estresse e distúrbios psicológicos causados pelos ataques, pelo sofrimento e pelas constantes bombas sonoras lançadas por Israel sobre a pequena faixa costeira.

O mesmo governo israelense que se queixa do CDH emitiu, no dia 10/ 10, um projeto de lei que, se aprovado, exigirá de todo não judeu de Israel um juramento de "lealdade ao caráter judeu do Estado".

Cerca de 20% da população, de origem palestina cristã, muçulmana ou outra, terá de aceitar o caráter judeu do Estado de Israel ou emigrar, aumentando o número de refugiados, que ultrapassa 9 milhões. As consequências disso, para a Palestina e para o mundo, não valem um debate no Conselho de Direitos Humanos da ONU?

* Arlene Clemesha é professora de história árabe na USP e diretora do Centro de Estudos Árabes da mesma universidade, é representante da sociedade civil do Brasil no Comitê da ONU pelos Direitos do Povo Palestino.

** Bernadette Siqueira Abrão é jornalista, formada em filosofia pela USP, é pesquisadora da questão palestina, ativista de direitos humanos e autora, entre outros livros, de "História da Filosofia" editora Moderna).