Semana On

sábado, 11 de dezembro de 2010

Poesia aos sábados

Missa Negra

As tachas de metal pela jaqueta
de couro são estrelas para mim,
uma constelação sobre uma preta
tintura como o sangue de Caim.

Com ares de macabra, me inquieta,
vontade de me abrir para o ruim,
os rins em polvorosa pela seta
são alvos desejosos por... enfim...

Proponho uma sessão com todo o kit,
há sordidez para qualquer fetiche.
Eu topo suas taras de tantã,

despindo da calcinha celulite,
estrias e orifícios de azeviche,
feitiços para a glória de Satã.

Henrique Pimenta, esta semana, no Poema Dia

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Queime o castelo!

Minha amiga Maíra Espíndola abre no próximo dia 14, às 19h30, sua exposição no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande (Marco). As ilustrações desta artista inquieta são pequenas obras primas. Vale a pena conferir.

domingo, 5 de dezembro de 2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

Poesia aos sábados

AMO-TE ASSIM SEM CORPO
{a um namorado}

amo-te assim sem corpo.
sem dias que sacodem lembranças.
sem últimas coisas.
sem ouvires de língua.
sem palavras que respiram pelo
nariz de outras.
sem compromissos abdominais.
sem o coração no bolso.
sem ruídos obscenos que
indiciam nudez.
sem borboletas vulgares
sobre o poema.
sem o conhecimento de toda a gente.
sem o teu conhecimento
ou existência.
amo-te assim sem corpo
com todo o meu corpo,
lembranças,
últimas coisas,
ouvires de língua,
palavras ardentes como
febres frias,
compromissos fundidos noutros,
o coração dobrado,
as braçadas da vida
nua e lenta como a borboleta
neste poema.
amo-te assim sem vida.
sem morte.
sem corpo.

Sylvia Beirute, esta semana, no Poema Dia

domingo, 21 de novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

Poesia aos sábados

Kamikazes

Entardece...
e o que me emudece
ao te ver bailar na areia,
é esse teu fingir sereia,
que norteia o sol
pelo céu abaixo,
nesse escracho
que fazes no horizonte,
e de fronte ao que eu ainda sou.

Anoitece...
e o que me enlouquece
ao te ouvir cantar pra mim,
é saber que não têm fim,
esse meu vaticínio
da solidão em eterno declínio,
e a nossa risada,
por cada onda contada,
e cada abraço vivido.

Amanhece...
e o que me entorpece
ao ver teu corpo ao meu alcance,
é o suor desse romance,
escorrendo licoroso,
junto ao tempo nervoso
que devora cada hora
e nos torna kamikazes
e loucamente capazes
de entardecer...

A J Lobone, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Israel não respeita direitos do povo palestino

Artigo de Arlene Clemesha* e Bernadette Siqueira Abrão** publicado hoje no jornal Folha de S.Paulo.

Em artigo nesta Folha ("Direitos humanos em mãos erradas", "Tendências/Debates", 10/10), o embaixador israelense queixou-se do Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU, em que relatórios têm sido aprovados, denunciando graves violações de direitos humanos por parte do governo israelense nos territórios palestinos ocupados da Cisjordânia e da faixa de Gaza.

De fato, apenas nos primeiros seis meses de 2010, foram registradas na Cisjordânia a demolição de 223 edifícios e a expulsão de 338 palestinos de suas casas.

Quinhentas e cinco barreiras violam o direito de ir e vir, impedindo o acesso da população a escolas, a locais de trabalho e a hospitais, para procedimentos vitais como diálise, cirurgias do coração e cuidado neonatal intensivo.

Seguindo a lógica de anexar o máximo de terras com o mínimo de palestinos, o trajeto tortuoso do muro enclausurou Belém e Qalqilia, expulsou 50 mil palestinos de Jerusalém Oriental e anexou 10% das terras mais férteis da Cisjordânia. As colônias israelenses, também ilegais, expandem-se a todo vapor sobre territórios palestinos.

A justificativa de Israel para a violação de direitos humanos -zelar pela "segurança" de seus cidadãos- não se sustenta, sendo tais atos a própria origem da revolta palestina.

Os "mísseis" citados pelo artigo do embaixador são armas de fabricação caseira, usadas em desespero por um povo sem Estado, que sofre a mais longa ocupação militar da história moderna, submetido a bombardeios, a incursões militares, a assassinatos dirigidos e a toques de recolher.

O artigo também cita um prisioneiro militar israelense, omitindo o fato de que Israel tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal, processo judicial ou direito de defesa.

Alega-se que Israel estaria sendo alvo de injustiças por parte do CDH em consequência do relatório do juiz Richard Goldstone sobre os crimes de guerra cometidos durante o bombardeio que massacrou 1.397 pessoas em Gaza (incluindo 320 crianças e 109 mulheres).

Assim, deturpa-se o caráter heroico da flotilha de ativistas humanitários do mundo todo, incluindo israelenses e uma mulher sobrevivente do Holocausto, que arriscaram suas vidas para quebrar o bloqueio ilegal a Gaza.

O objetivo da flotilha era chamar a atenção do mundo para o problema? Sim. Era e continuará sendo uma provocação? Apenas se considerarmos o termo um desafio aberto, para que a humanidade impeça a continuidade do cerco a Gaza, onde 80% da população sofre de má nutrição crônica, as crianças apresentam estresse e distúrbios psicológicos causados pelos ataques, pelo sofrimento e pelas constantes bombas sonoras lançadas por Israel sobre a pequena faixa costeira.

O mesmo governo israelense que se queixa do CDH emitiu, no dia 10/ 10, um projeto de lei que, se aprovado, exigirá de todo não judeu de Israel um juramento de "lealdade ao caráter judeu do Estado".

Cerca de 20% da população, de origem palestina cristã, muçulmana ou outra, terá de aceitar o caráter judeu do Estado de Israel ou emigrar, aumentando o número de refugiados, que ultrapassa 9 milhões. As consequências disso, para a Palestina e para o mundo, não valem um debate no Conselho de Direitos Humanos da ONU?

* Arlene Clemesha é professora de história árabe na USP e diretora do Centro de Estudos Árabes da mesma universidade, é representante da sociedade civil do Brasil no Comitê da ONU pelos Direitos do Povo Palestino.

** Bernadette Siqueira Abrão é jornalista, formada em filosofia pela USP, é pesquisadora da questão palestina, ativista de direitos humanos e autora, entre outros livros, de "História da Filosofia" editora Moderna).

domingo, 14 de novembro de 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

Poesia aos sábados

Plague

Seus poemas:
centopéias subindo em minhas pernas
quando os leio.

Seus poemas me ateiam
e a palavra-taturana dói
tamborilando os pés de azeite quente
em meus seios.

Seus poemas:
caranguejos caminhando pelas minhas costas,
soletrando vértebras
entre suas patas,
pinicando medo sob suas pinças,

seus poemas mordem
minhas omoplatas...

Seus poemas-praga:
devastação que não se aplaca
nem com o gelo
dos meus dedos de queimada.

Flávia Peres, eta semana, no Poema Dia.