Quando a tarde desabar
olharei seu olhos
sendo apenas vontade
Buscarei o poema
como quem suspira
Esquecerei de mim
Fecharei minha boca
concentrado
na imensa noite que vai
Então minhas mãos
livres de ti
entregarão palavras ao ar
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
"A Torre Negra" - Stephen King
“Longos dias e belas noites!”Stephen King é um autor especial. Sua imaginação flutua por mundos paralelos, vaga por realidades múltiplas, nos leva a imaginarmos se o que se depara a nossa frente é, de fato, aquilo que nossos sentidos nos indicam. Ler Stephen King é mergulhar em um mundo onde não há certezas, onde o inesperado é a regra. Nenhum de seus romances caracteriza isso tão bem quanto os sete livros da série “A Torre Negra” (no original The Dark Tower), cuja leitura finalizei na noite de ontem.
A obra (com mais de cinco mil páginas) é inspirada no universo imaginário de J.R.R. Tolkien (não em seus personagens, raças ou reinos, mas na construção de um mundo mítico), no poema épico do século XIX "Childe Roland à Torre Negra Chegou", de Robert Browning, nas Lendas Arturianas, no faroeste e na cultura pop. Misturando ficção científica, fantasia e terror numa narrativa que forma um verdadeiro mosaico da cultura popular contemporânea norte-americana, a série é um épico de tirar o fôlego.
A história gira em torno de Roland de Gilead - o último pistoleiro, príncipe e representante derradeiro de um mundo que se desfez – e seu Ka-Tet (termo da língua superior de Gilead que significa literalmente "um que é composto de muitos". Ka: destino / Tet: grupo de pessoas que compartilham o mesmo destino) na busca pela Torre Negra, principal eixo de sustentação do tempo, do espaço e dos muitos universos que são por eles sustentados.
Devido à ação de forças maléficas, os feixes que sustentam a Torre estão prestes a ruir. Esse é o principal motivo da decadência em que o mundo de Roland se encontra, é o motivo pelo qual seu mundo “seguiu adiante”. Roland pretende chegar à torre, e de alguma forma parar ou reverter esse processo, salvando assim seu mundo e muitos outros da destruição total.
King começou a escrever os primeiros esboços de “A Torre Negra” na universidade, na década de 70, com 22 anos, e só finalizou a obra em 2003. Foram 33 anos entre o primeiro e o último livro da série. O primeiro volume, “O Pistoleiro” (The Gunslinger), foi publicado inicialmente em capítulos na revista de ficção científica “The Magazine of Fantasy and Science Fiction”. Relançado em 1982 em forma de livro, foi seguido por “A Escolha dos Três” (The Drawing of the Three, 1987), “As Terras Devastadas” (The Waste Lands, 1991), “Mago e Vidro” (Wizard and Glass, 1997), “Lobos de Calla” (Wolves of the Calla, 2003), “Canção de Susannah” (Song of Susannah, 2004), e finalmente “A Torre Negra” (The Dark Tower, 2004).
As referências ao enredo de “A Torre Negra” estão espalhadas por toda a obra de Stephen King, como se o tema estivesse sempre povoando os mais profundos recintos de sua mente. Não é à tôa que o próprio autor é retratado no último livro da série, uma das ferramentas do Ka e dos Feixes colocado no caminho de Roland.
Além de personagens que voltam à tona, como o Padre Callahan, de “A Hora do Vampiro” e Randall Flagg, de “A Dança da Morte”; lugares que ressurgem, como as cidades de Garlan (de “Os Olhos do Dragão”) e Lud (“Rose Madder”) há um elo fundamental entre “A Torre Negra” e muitas outras obras de King: o conceito de mundos paralelos.
O tema é abordado, por exemplo, em “O Talismã” e em “Insônia”, onde pela primeira vez surge o personagem Rei Rubro, a encarnação do mal, vilão principal da saga “A Torre Negra”. Também é o primeiro livro em que King aborda a natureza metafísica da Torre Negra. O conceito volta à tona em “Pesadelos e Paisagens Noturnas”, onde o autor retoma o tema e aborda as regiões onde a divisão entre estes muitos universos paralelos esmaeceu, criando portais e abismos temporais.
No conto "Low Men in Yellow Coats", incluído no livro “Heart in Atlantis” (inédito no Brasil), são revelados os planos do Rei Rubro para a Torre Negra: há anos ele vem reunindo pessoas dotadas de poderes psíquicos, os Sapadores, com o intuito de destruir os Feixes que sustentam a Torre e, em conseqüência, por abaixo todos os universos. Na continuação de “O Talismã”, “A Casa Negra”, King continua desenvolvendo o enredo iniciado em "Low Men in Yellow Coats".
Mais referências podem ser encontradas em “A Coisa” (que fala sobre A Tartaruga, o mais importante dos Guardiões dos Feixes de Luz que conduzem à Torre Negra), em “Os Justiceiros” (no quinto volume de “A Torre Negra”, “Lobos de Calla”, quando Eddie e Jake estão em Nova York descobrem que a versão atual do livro Charlie Chu-Chu é assinada por Claudia y Inez Bachman, mulher de Richard Bachman – pseudônimo de King - que assina “Os Justiceiros”), em “Saco de Ossos” (recorrência ao número 19, simbólico em “A Torre Negra”; os títulos dos três livros de sucesso escritos pelo personagem Mike Noonan fazem referência à natureza do Rei Rubro, personagem da série), em “Tripulação de Esqueletos" (novamente o número 19, no conto “O Nevoeiro”) e em “Tudo é Eventual” (o personagem Dinky Evershaw é um Sapador e o conto "As Irmãzinhas de Eluria" faz referência direta à série A Torre Negra).
Apesar de estar presente consciente e inconscientemente em boa parte da obra de King, de beber em fontes muito diversas e particulares, “A Torre Negra” é uma obra única, particular. Os personagens que povoam os sonhos de King são cheios de vida, palpáveis, mesmo diante do contexto fantástico no qual estão inseridos. Seus mundos são reais, ainda que repletos de fantasia.
Ontem fechei os olhos e pude ver a torre negra fincada, imponente, em um mar de rosas vermelhas.
O autor
Stephen Edwin King nasceu em 21 de setembro de 1947, em Portland, Maine, segundo filho de uma família modesta. Começou a escrever ainda nos tempos de colégio e no segundo ano da universidade passou a assinar uma coluna no jornal do campus. Seu primeiro conto vendido foi "The Glass Floor" (O Chão de Vidro), de 1967, para uma revista de histórias de mistério. Pacifista e ativo em política estudantil, King formou-se em Língua Inglesa, em 1970, na Universidade do Maine, e em 1971 casou-se com Tabitha Spruce, que conheceu entre as prateleiras da biblioteca da universidade.
Durante o início da década de 1970, King escreveu diversos contos, que foram publicados em revistas e mais tarde reunidos na coletânea Sombras da Noite e em outras antologias, além de romances, ao mesmo tempo em que trabalhava como professor do ensino médio. Em 1974, o sucesso na venda de seu romance Carrie, a Estranha para uma edição de bolso lhe permitiu se dedicar à escrita em tempo integral. Seguiram-se novos sucessos, como A Dança dos Vampiros (1978), A Hora da Zona Morta (1979), Christine (1983), Desespero (1987), Insônia (1994) e O Apanhador de Sonhos (2001), entre muitos outros, além de contribuições para jornais e revistas. Sua obra foi adaptada para o cinema inúmeras vezes, dando origem a clássicos como O Iluminado (1976), Carrie, a Estranha (1980), Um Sonho de Liberdade (1992), À Espera de um Milagre (1999).
Em 1999, King sofreu um grave acidente, que quase lhe custou a vida. Na tarde de 19 de junho, enquanto caminhava por uma estrada do Maine, um carro desgovernado atropelou-o. King ficou muito ferido — teve um pulmão perfurado, fraturas múltiplas na perna direita, além do couro cabeludo lacerado e a bacia fraturada. Após cinco cirurgias em dez dias, King voltou a escrever, apesar de a fratura na bacia o obrigar a trabalhar por no máximo quarenta minutos, antes que a dor se tornasse intolerável. Ele ainda guarda seqüelas do acidente — não é mais capaz de permanecer sentado por longos períodos e sua resistência física ficou afetada.
Curiosamente, no mesmo ano do acidente King já havia escrito Buick 8, livro no qual um personagem morre atropelado. Em diversos de seus livros há cenas de atropelamento. Outra coincidência foi a morte de Bryan Smith, que dirigia a van que atropelou o escritor, ter acontecido no dia 21 de setembro de 2000 – aniversário do autor. O acidente de certo modo pressionou King a terminar a série A Torre Negra – a morte pode chegar a qualquer hora, e sua obra-prima precisava de uma conclusão. O atropelamento é um ponto-chave de A Torre Negra, o último volume da série.
Desde 1977, King dá aulas de criação literária na mesma Universidade do Maine em que estudou. Em 2003, o escritor recebeu uma medalha da National Book Foundation, a fundação norte-americana do livro, por sua contribuição à literatura de seu país. Stephen e Tabitha King têm três filhos – Naomi Rachel, Joe Hill e Owen Phillip – e três netos. O casal se divide entre os estados do Maine e da Flórida.
Para mais informações sobre a obra, vale checar o site Projeto19.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Últimas leituras
2010
- Crime e Castigo - Fiódor Dostoievski
- O concorrente - Stephen King
- Meridiano de sangue - Cormac McCarthy
- Onde os velhos não têm vez - Cormac McCarthy
- Deuses, espaçonaves e terra: Provas de Dänichen - Erich Von Dänichen
- Uma vida - Guy de Maupassant
- Crime e Castigo - Fiódor Dostoievski
- O concorrente - Stephen King
- Meridiano de sangue - Cormac McCarthy
- Onde os velhos não têm vez - Cormac McCarthy
- Deuses, espaçonaves e terra: Provas de Dänichen - Erich Von Dänichen
- Uma vida - Guy de Maupassant
- Dänichen em julgamento - Erich Von Dänichen
- De volta às estrelas - Erich Von Däniken
- Eram os deuses astronautas? - Erich Von Däniken
- A Estrada – Cormac McCarthy
- Pobre Nação – Robert Fisk
- História da Palestina moderna – Ilan Pappe
- A menina que roubava livros – Markus Zusak
- O Tradutor – Daoud Hari
- Numa fria – Charles Bukowski
- Crônica de um amor louco – Charles Bukowski
- A Estrada – Cormac McCarthy
- Pobre Nação – Robert Fisk
- História da Palestina moderna – Ilan Pappe
- A menina que roubava livros – Markus Zusak
- O Tradutor – Daoud Hari
- Numa fria – Charles Bukowski
- Crônica de um amor louco – Charles Bukowski
2009
- O Caçador de Pipas – Khaled Hosseini
- Guerra e Paz – Leon Tolstoi
- Vidas Secas - Graciliano Ramos
- Adeus Robinson e outras peças curtas - Júlio Cortazar
- Leoa ou gazela – Flávia Perez
- As ruínas - Scott Smith
- O Chamado de Cthulhu e outros contos - H.P. Lovecraft
- 1808 - Laurentino Gomes
- Confissões de um assassino econômico - John Perkins
- O mundo sem nós - Alan Weisman
- Vigiar e Punir - Michel Foucault
- O Silmarillion - JRR Tolkien
- A grande guerra pela civilização: a conquista do Oriente Médio - Robert Fisk
- 29 Fragmentos - Alyne Costa
- Drácula - Bram Stoker
- Tarás Bulba - Nikolai Gógol
- O Caçador de Pipas – Khaled Hosseini
- Guerra e Paz – Leon Tolstoi
- Vidas Secas - Graciliano Ramos
- Adeus Robinson e outras peças curtas - Júlio Cortazar
- Leoa ou gazela – Flávia Perez
- As ruínas - Scott Smith
- O Chamado de Cthulhu e outros contos - H.P. Lovecraft
- 1808 - Laurentino Gomes
- Confissões de um assassino econômico - John Perkins
- O mundo sem nós - Alan Weisman
- Vigiar e Punir - Michel Foucault
- O Silmarillion - JRR Tolkien
- A grande guerra pela civilização: a conquista do Oriente Médio - Robert Fisk
- 29 Fragmentos - Alyne Costa
- Drácula - Bram Stoker
- Tarás Bulba - Nikolai Gógol
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Bucci e os defensores do diploma
Coleguinhas que lecionam na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) surtaram grande na noite de ontem, durante a Aula Inaugural do curso de Jornalismo da instituição, na qual o professor Eugenio Bucci, coerente que é, negou-se a corroborar a tese estapafúrdia segundo a qual diploma de jornalismo é essencial para o exercício da profissão. Gente que presenciou a palestra disse que tinha professor, sindicalista e aluno fazendo cara feia e burburinhando palavras de baixo calão na platéia.
Esperavam o quê? Um dos mais respeitados profissionais de imprensa do país, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP), Bucci nunca escondeu sua opinião sobre o tema.
No ano passado, em entrevista ao Portal Imprensa, afirmou o seguinte: "Embora a exigência (do diploma) seja uma excentricidade brasileira, já que outros países não a tem, ela ajudou a elevar os padrões da profissão no país. No entanto, nos tempos atuais, a manutenção do diploma deixou de ser prioritária para o atendimento das necessidades do cidadão relativas à informação".
Também em 2009, logo após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que derrubou a exigência do diploma, disparou: “A exigência do diploma não existe em vários países do mundo e nem por isso a imprensa nesses lugares é ruim. Os Estados Unidos são um exemplo. De lá, vêm algumas das lições básicas do exercício desse ofício, e não se exige diploma. A discussão salutar, porém, é a do modo como a profissão se enxerga e o modo como a sociedade a enxerga”.
Leia mais sobre Jornalismo e diploma AQUI
Esperavam o quê? Um dos mais respeitados profissionais de imprensa do país, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP), Bucci nunca escondeu sua opinião sobre o tema.
No ano passado, em entrevista ao Portal Imprensa, afirmou o seguinte: "Embora a exigência (do diploma) seja uma excentricidade brasileira, já que outros países não a tem, ela ajudou a elevar os padrões da profissão no país. No entanto, nos tempos atuais, a manutenção do diploma deixou de ser prioritária para o atendimento das necessidades do cidadão relativas à informação".
Também em 2009, logo após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que derrubou a exigência do diploma, disparou: “A exigência do diploma não existe em vários países do mundo e nem por isso a imprensa nesses lugares é ruim. Os Estados Unidos são um exemplo. De lá, vêm algumas das lições básicas do exercício desse ofício, e não se exige diploma. A discussão salutar, porém, é a do modo como a profissão se enxerga e o modo como a sociedade a enxerga”.
Leia mais sobre Jornalismo e diploma AQUI
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Jornalista Porreta no Observatório
Meu artigo "Sem diploma, mas jornalista porreta", publicado aqui na semana passada, foi reproduzido hoje no Observatório da Imprensa.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Sem diploma, mas jornalista porreta
Fiquei muito feliz ao saber que meu amigo Silvio de Andrade venceu o Prêmio Famasul de Jornalismo na categoria Impresso/Revista, recebendo, ainda, o Prêmio Master do concurso. Silvio, que hoje mora em Corumbá, é jornalista porreta, daqueles que estão rareando nas redações. Modesto por detrás dos seus 39 anos de profissão, atribuiu a conquista ao critério da “idade”. Boa praça, sempre pronto a um sorriso, de bobo Silvio não tem nada, absolutamente nada, e resumiu o motivo da premiação dizendo o seguinte: “A contribuição que o prêmio traz é estimular a reportagem, algo que está morrendo no Estado”.
Apesar da conquista, de possuir um dos melhores textos jornalísticos entre os profissionais de imprensa no Estado, de ter um faro aguçado para a notícia, de não se envolver em episódios que diminuem a nossa profissão, enfim, de ser um jornalista de fato, Silvio, assim como muitos outros jornalistas Brasil afora, é visto por alguns coleguinhas iluminados – em especial na academia – como, digamos assim, um jornalista de segunda categoria.
Explico.
O problema não está na sua capacidade comprovada, na sua competência inequívoca e no seu amor por esta maltratada profissão. Não, isso não se questiona. O problema que alguns elencam é que Silvio não cursou a universidade, não estudou jornalismo, não é diplomado.
A síntese deste pensamento equivocado está no artigo “Jornalista profissional diplomado”, publicado no jornal O Estado de Mato Grosso do Sul nesta quinta-feira (29 de julho), de autoria do jornalista Gerson Luiz Martins, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
No artigo, ele enumera o que considera ser o cabedal de conhecimentos que o jornalista obtém no curso superior de jornalismo e que seria a condição primordial para o exercício da profissão: “Para que todos saibam, o jornalista profissional diplomado, ou seja, aquele que fez o curso universitário de jornalismo aprende sociologia, psicologia, filosofia, economia, semiótica, fotografia, artes, estética, ética, as mais diversas teorias da comunicação e do jornalismo”.
Ufa! Talvez fosse o caso de extinguirmos os cursos de sociologia, psicologia, filosofia, história, letras e belas artes. Afinal, o jornalista, este iluminado, domina todos estes campos do conhecimento, graças ao curso de jornalismo.
Peço perdão pela ironia. O tema é sério, não permite leviandades.
É como disse certa vez o jornalista Cláudio Abramo, 40 anos de profissão sem diploma de jornalismo e autor de um livro que está no currículo de 9 entre 10 cursos de jornalismo no país (Mas como? Ele não tinha diploma!) : "Para ser jornalista, é preciso ter uma formação cultural sólida, científica ou humanística. Mas as escolas são precárias. Como dar um curso sobre algo que nem eu consigo definir direito?".
Gerson, no entanto, parece crer que formação cultural sólida, científica ou humanística é algo que só se pode obter no curso de jornalismo.
O fato é que, deixadas de lado honrosas exceções, a esmagadora maioria da massa de jornalistas formada nas nossas universidades sequer arranha estes conhecimentos. A garotada não sai da universidade dominando sociologia, psicologia, filosofia, história ou o que quer que garanta um diferencial no exercício da profissão. Isso é uma falácia sem tamanho.
No finalzinho de seu texto, Gerson diz que passará a assinar seus artigos referindo-se a si mesmo como “jornalista profissional diplomado”. Esta seria, segundo ele, uma forma de se distinguir dos que “se autoproclamam e assinam como jornalistas sem passarem pelo menos um dia numa faculdade de jornalismo”. Ele vai além, e garante que sua atitude ocorre “em defesa da formação universitária em jornalismo”.
Penso que mais importante que defender a formação universitária em jornalismo seja defender o jornalismo. O último não está atrelado ao primeiro.
Mais importante que exigir diploma de jornalismo seja, talvez, exigir que os jornalistas que estão ensinando a profissão nas universidades tenham um mínimo de experiência prática no ofício. Muitos deles, mestres e doutores, jamais passaram um dia dentro de uma redação.
Não me alongarei nem transformarei esta reflexão em um emaranhado de citações. Fico apenas com Benjamin Bradlee, (vice-presidente do jornal The Washington Post, onde foi editor-chefe de 1968 a 1991 e responsável pela cobertura do Caso Watergate) que em entrevista a Paulo Sotero (O homem que derrubou o presidente dos EUA - O Estado de S. Paulo, 30/10/1999, Caderno 2) disse o seguinte:
“Não gosto disso [a obrigatoriedade do diploma de jornalismo no Brasil]. Menos da metade dos jornalistas do Post estudaram em escola de jornalismo. Se você me perguntar quem eu contrataria para trabalhar aqui, entre um jovem saído de Amherst College, com uma boa formação humanística e geral, ou uma pessoa com um diploma da escola de jornalismo da Universidade de Arizona, escolherei sempre o candidato de Amherst College, mesmo que ele ou ela não saiba muito sobre jornalismo. Isso, eu ensinarei a eles, na redação”.
Victor Barone é jornalista, formado (embora isso não o faça melhor do que o Silvio)
Apesar da conquista, de possuir um dos melhores textos jornalísticos entre os profissionais de imprensa no Estado, de ter um faro aguçado para a notícia, de não se envolver em episódios que diminuem a nossa profissão, enfim, de ser um jornalista de fato, Silvio, assim como muitos outros jornalistas Brasil afora, é visto por alguns coleguinhas iluminados – em especial na academia – como, digamos assim, um jornalista de segunda categoria.
Explico.
O problema não está na sua capacidade comprovada, na sua competência inequívoca e no seu amor por esta maltratada profissão. Não, isso não se questiona. O problema que alguns elencam é que Silvio não cursou a universidade, não estudou jornalismo, não é diplomado.
A síntese deste pensamento equivocado está no artigo “Jornalista profissional diplomado”, publicado no jornal O Estado de Mato Grosso do Sul nesta quinta-feira (29 de julho), de autoria do jornalista Gerson Luiz Martins, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
No artigo, ele enumera o que considera ser o cabedal de conhecimentos que o jornalista obtém no curso superior de jornalismo e que seria a condição primordial para o exercício da profissão: “Para que todos saibam, o jornalista profissional diplomado, ou seja, aquele que fez o curso universitário de jornalismo aprende sociologia, psicologia, filosofia, economia, semiótica, fotografia, artes, estética, ética, as mais diversas teorias da comunicação e do jornalismo”.
Ufa! Talvez fosse o caso de extinguirmos os cursos de sociologia, psicologia, filosofia, história, letras e belas artes. Afinal, o jornalista, este iluminado, domina todos estes campos do conhecimento, graças ao curso de jornalismo.
Peço perdão pela ironia. O tema é sério, não permite leviandades.
É como disse certa vez o jornalista Cláudio Abramo, 40 anos de profissão sem diploma de jornalismo e autor de um livro que está no currículo de 9 entre 10 cursos de jornalismo no país (Mas como? Ele não tinha diploma!) : "Para ser jornalista, é preciso ter uma formação cultural sólida, científica ou humanística. Mas as escolas são precárias. Como dar um curso sobre algo que nem eu consigo definir direito?".
Gerson, no entanto, parece crer que formação cultural sólida, científica ou humanística é algo que só se pode obter no curso de jornalismo.
O fato é que, deixadas de lado honrosas exceções, a esmagadora maioria da massa de jornalistas formada nas nossas universidades sequer arranha estes conhecimentos. A garotada não sai da universidade dominando sociologia, psicologia, filosofia, história ou o que quer que garanta um diferencial no exercício da profissão. Isso é uma falácia sem tamanho.
No finalzinho de seu texto, Gerson diz que passará a assinar seus artigos referindo-se a si mesmo como “jornalista profissional diplomado”. Esta seria, segundo ele, uma forma de se distinguir dos que “se autoproclamam e assinam como jornalistas sem passarem pelo menos um dia numa faculdade de jornalismo”. Ele vai além, e garante que sua atitude ocorre “em defesa da formação universitária em jornalismo”.
Penso que mais importante que defender a formação universitária em jornalismo seja defender o jornalismo. O último não está atrelado ao primeiro.
Mais importante que exigir diploma de jornalismo seja, talvez, exigir que os jornalistas que estão ensinando a profissão nas universidades tenham um mínimo de experiência prática no ofício. Muitos deles, mestres e doutores, jamais passaram um dia dentro de uma redação.
Não me alongarei nem transformarei esta reflexão em um emaranhado de citações. Fico apenas com Benjamin Bradlee, (vice-presidente do jornal The Washington Post, onde foi editor-chefe de 1968 a 1991 e responsável pela cobertura do Caso Watergate) que em entrevista a Paulo Sotero (O homem que derrubou o presidente dos EUA - O Estado de S. Paulo, 30/10/1999, Caderno 2) disse o seguinte:
“Não gosto disso [a obrigatoriedade do diploma de jornalismo no Brasil]. Menos da metade dos jornalistas do Post estudaram em escola de jornalismo. Se você me perguntar quem eu contrataria para trabalhar aqui, entre um jovem saído de Amherst College, com uma boa formação humanística e geral, ou uma pessoa com um diploma da escola de jornalismo da Universidade de Arizona, escolherei sempre o candidato de Amherst College, mesmo que ele ou ela não saiba muito sobre jornalismo. Isso, eu ensinarei a eles, na redação”.
Victor Barone é jornalista, formado (embora isso não o faça melhor do que o Silvio)
terça-feira, 20 de julho de 2010
"A Estrada" - Cormac McCarthy
Um evento cataclísmico se abateu sobre o planeta terra, devastando-o completamente. Milhões de pessoas morreram em incêndios, inundações e violência enquanto outras sucumbiram de fome e desespero. O planeta encontra-se totalmente devastado, as cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis. Com o sol coberto pela nuvem de detritos, o mundo perdeu suas cores. As plantações desapareceram e todos os animais foram devorados pelos poucos sobreviventes que vagam em bandos em busca de alimentos. A lei do mais forte prevalece e a luta pela sobrevivência leva muitos ao canibalismo.Em meio ao caos, um homem e seu filho insistem em manter aceso o fogo interno da humanidade. Os protagonistas não têm nome. A catástrofe lhes tirou tudo, até mesmo suas identidades. São apenas O Homem e O Menino. Pai e filho. Não possuem praticamente nada, apenas uns cobertores puídos, um carrinho de compras onde amontoam latas de alimentos garimpados de casas abandonadas, e um revólver com algumas balas, com o qual procuram se defender dos bandos de assassinos que vagam em busca de alimento e roupas. Estão em farrapos, os rostos cobertos por panos para se protegerem da fuligem que cobre toda a paisagem. Eles tentam escapar do frio avassalador, sem saber, no entanto, o que encontrarão no final da viagem. O destino, na verdade, pouco importa. O cerne de suas vidas é a jornada propriamente dita, única coisa que pode mantê-los unidos, que pode lhes dar um pouco de força para continuar a sobreviver.
Este é o cenário de “A Estrada” (2006), romance de Cormac McCarthy, vencedor do Prêmio Pulitzer de 2007 (que ganhou versão cinematográfica homônima pelas mãos do diretor John Hillcoat e do roteirista Joe Penhall). Para quem não está ligando o nome a pessoa, vale dizer que McCarthy é o autor do livro “No Country For Old Men”, levado às telas pelos irmãos Coen com o seguinte título em português: “Onde os Fracos Não Tem Vez”.
A primeira pergunta que vem a mente do leitor é a origem daquilo tudo? Como a humanidade chegou àquele ponto? Guerra nuclear? Aquecimento global? Efeito estufa? Um meteoro? O livro não se preocupa em responder a estas questões. Pouco importa. O fato é que a civilização, tal qual a conhecemos, não existe mais.
Mas, enganam-se os que imaginam que o livro é “mais um subproduto na onda das profecias apocalípticas”. A única coisa que liga “A Estrada” a outras obras com tema pós-apocalíptico como “The last man on earth” (clássico de Richard Matheson que serviu de base a filmes como “Eu sou a lenda”, entre outros), “O livro de Eli”, “O dia depois de amanhã” ou “2012” é o caráter físico da destruição da civilização. A obra de McCarthy não gira em torno da catástrofe física, mas da catástrofe moral a que estão imersos os sobreviventes.
É, principalmente, uma história de amor entre um pai e seu filho e como o primeiro representa a segurança e o segundo a consciência que prende o primeiro ao que lhe resta de humanidade. Mais que um relato apocalíptico, “A Estrada” é uma comovente história sobre esperança. Seu verdadeiro tema está na relação entre um pai e seu filho, e o quão forte, íntima e profunda ela pode ser para ambos. É, também, uma história de perseverança, uma aposta nos valores humanos diante da selvageria.
O Escritor e crítico Roberto de Sousa Causo faz um paralelo interessante entre McCarthy e William Faulkner (1897 - 1962), o grande escritor do regionalismo (e do alto modernismo) americano, ao analisar a obra. Diz ele que “A Estrada” pode ter tido como gérmen o trecho final do discurso de aceitação de Faulkner, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura:
"O escritor escreverá como se ele estivesse entre os homens a observar o fim do homem. Eu me recuso a aceitar o fim do homem. É fácil o bastante dizer que o homem é imortal porque ele resistirá: que, quando o último ding-dong do juízo final tiver soado e ecoado sobre a última pedra sem valor pairando imóvel no último anoitecer rubro e moribundo, que mesmo então ainda haverá mais um som: o som de uma voz fraca e inexaurível, ainda a falar. Eu me recuso a aceitar isso. Acredito que o homem não apenas resistirá: ele prevalecerá. É imortal não porque apenas ele entre as criaturas tem uma voz inexaurível, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e de sacrifício e de resistência."
Não é um livro fácil. A viagem de pai e filho é penosa, dura e, acima de tudo, triste. O livro termina com um toque poético de esperança, mas o retrato do apocalipse nos coloca diante de um espelho no qual o único reflexo é nossa irresponsabilidade diante do planeta em que vivemos.
domingo, 11 de julho de 2010
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