Semana On

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Bucci e os defensores do diploma

Coleguinhas que lecionam na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) surtaram grande na noite de ontem, durante a Aula Inaugural do curso de Jornalismo da instituição, na qual o professor Eugenio Bucci, coerente que é, negou-se a corroborar a tese estapafúrdia segundo a qual diploma de jornalismo é essencial para o exercício da profissão. Gente que presenciou a palestra disse que tinha professor, sindicalista e aluno fazendo cara feia e burburinhando palavras de baixo calão na platéia.

Esperavam o quê? Um dos mais respeitados profissionais de imprensa do país, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP), Bucci nunca escondeu sua opinião sobre o tema.

No ano passado, em entrevista ao Portal Imprensa, afirmou o seguinte: "Embora a exigência (do diploma) seja uma excentricidade brasileira, já que outros países não a tem, ela ajudou a elevar os padrões da profissão no país. No entanto, nos tempos atuais, a manutenção do diploma deixou de ser prioritária para o atendimento das necessidades do cidadão relativas à informação".

Também em 2009, logo após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que derrubou a exigência do diploma, disparou: “A exigência do diploma não existe em vários países do mundo e nem por isso a imprensa nesses lugares é ruim. Os Estados Unidos são um exemplo. De lá, vêm algumas das lições básicas do exercício desse ofício, e não se exige diploma. A discussão salutar, porém, é a do modo como a profissão se enxerga e o modo como a sociedade a enxerga”.

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sem diploma, mas jornalista porreta

Fiquei muito feliz ao saber que meu amigo Silvio de Andrade venceu o Prêmio Famasul de Jornalismo na categoria Impresso/Revista, recebendo, ainda, o Prêmio Master do concurso. Silvio, que hoje mora em Corumbá, é jornalista porreta, daqueles que estão rareando nas redações. Modesto por detrás dos seus 39 anos de profissão, atribuiu a conquista ao critério da “idade”. Boa praça, sempre pronto a um sorriso, de bobo Silvio não tem nada, absolutamente nada, e resumiu o motivo da premiação dizendo o seguinte: “A contribuição que o prêmio traz é estimular a reportagem, algo que está morrendo no Estado”.

Apesar da conquista, de possuir um dos melhores textos jornalísticos entre os profissionais de imprensa no Estado, de ter um faro aguçado para a notícia, de não se envolver em episódios que diminuem a nossa profissão, enfim, de ser um jornalista de fato, Silvio, assim como muitos outros jornalistas Brasil afora, é visto por alguns coleguinhas iluminados – em especial na academia – como, digamos assim, um jornalista de segunda categoria.

Explico.

O problema não está na sua capacidade comprovada, na sua competência inequívoca e no seu amor por esta maltratada profissão. Não, isso não se questiona. O problema que alguns elencam é que Silvio não cursou a universidade, não estudou jornalismo, não é diplomado.

A síntese deste pensamento equivocado está no artigo “Jornalista profissional diplomado”, publicado no jornal O Estado de Mato Grosso do Sul nesta quinta-feira (29 de julho), de autoria do jornalista Gerson Luiz Martins, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

No artigo, ele enumera o que considera ser o cabedal de conhecimentos que o jornalista obtém no curso superior de jornalismo e que seria a condição primordial para o exercício da profissão: “Para que todos saibam, o jornalista profissional diplomado, ou seja, aquele que fez o curso universitário de jornalismo aprende sociologia, psicologia, filosofia, economia, semiótica, fotografia, artes, estética, ética, as mais diversas teorias da comunicação e do jornalismo”.

Ufa! Talvez fosse o caso de extinguirmos os cursos de sociologia, psicologia, filosofia, história, letras e belas artes. Afinal, o jornalista, este iluminado, domina todos estes campos do conhecimento, graças ao curso de jornalismo.

Peço perdão pela ironia. O tema é sério, não permite leviandades.

É como disse certa vez o jornalista Cláudio Abramo, 40 anos de profissão sem diploma de jornalismo e autor de um livro que está no currículo de 9 entre 10 cursos de jornalismo no país (Mas como? Ele não tinha diploma!) : "Para ser jornalista, é preciso ter uma formação cultural sólida, científica ou humanística. Mas as escolas são precárias. Como dar um curso sobre algo que nem eu consigo definir direito?".

Gerson, no entanto, parece crer que formação cultural sólida, científica ou humanística é algo que só se pode obter no curso de jornalismo.

O fato é que, deixadas de lado honrosas exceções, a esmagadora maioria da massa de jornalistas formada nas nossas universidades sequer arranha estes conhecimentos. A garotada não sai da universidade dominando sociologia, psicologia, filosofia, história ou o que quer que garanta um diferencial no exercício da profissão. Isso é uma falácia sem tamanho.

No finalzinho de seu texto, Gerson diz que passará a assinar seus artigos referindo-se a si mesmo como “jornalista profissional diplomado”. Esta seria, segundo ele, uma forma de se distinguir dos que “se autoproclamam e assinam como jornalistas sem passarem pelo menos um dia numa faculdade de jornalismo”. Ele vai além, e garante que sua atitude ocorre “em defesa da formação universitária em jornalismo”.

Penso que mais importante que defender a formação universitária em jornalismo seja defender o jornalismo. O último não está atrelado ao primeiro.

Mais importante que exigir diploma de jornalismo seja, talvez, exigir que os jornalistas que estão ensinando a profissão nas universidades tenham um mínimo de experiência prática no ofício. Muitos deles, mestres e doutores, jamais passaram um dia dentro de uma redação.

Não me alongarei nem transformarei esta reflexão em um emaranhado de citações. Fico apenas com Benjamin Bradlee, (vice-presidente do jornal The Washington Post, onde foi editor-chefe de 1968 a 1991 e responsável pela cobertura do Caso Watergate) que em entrevista a Paulo Sotero (O homem que derrubou o presidente dos EUA - O Estado de S. Paulo, 30/10/1999, Caderno 2) disse o seguinte:

Não gosto disso [a obrigatoriedade do diploma de jornalismo no Brasil]. Menos da metade dos jornalistas do Post estudaram em escola de jornalismo. Se você me perguntar quem eu contrataria para trabalhar aqui, entre um jovem saído de Amherst College, com uma boa formação humanística e geral, ou uma pessoa com um diploma da escola de jornalismo da Universidade de Arizona, escolherei sempre o candidato de Amherst College, mesmo que ele ou ela não saiba muito sobre jornalismo. Isso, eu ensinarei a eles, na redação”.

Victor Barone é jornalista, formado (embora isso não o faça melhor do que o Silvio)

terça-feira, 20 de julho de 2010

"A Estrada" - Cormac McCarthy

Um evento cataclísmico se abateu sobre o planeta terra, devastando-o completamente. Milhões de pessoas morreram em incêndios, inundações e violência enquanto outras sucumbiram de fome e desespero. O planeta encontra-se totalmente devastado, as cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis. Com o sol coberto pela nuvem de detritos, o mundo perdeu suas cores. As plantações desapareceram e todos os animais foram devorados pelos poucos sobreviventes que vagam em bandos em busca de alimentos. A lei do mais forte prevalece e a luta pela sobrevivência leva muitos ao canibalismo.

Em meio ao caos, um homem e seu filho insistem em manter aceso o fogo interno da humanidade. Os protagonistas não têm nome. A catástrofe lhes tirou tudo, até mesmo suas identidades. São apenas O Homem e O Menino. Pai e filho. Não possuem praticamente nada, apenas uns cobertores puídos, um carrinho de compras onde amontoam latas de alimentos garimpados de casas abandonadas, e um revólver com algumas balas, com o qual procuram se defender dos bandos de assassinos que vagam em busca de alimento e roupas. Estão em farrapos, os rostos cobertos por panos para se protegerem da fuligem que cobre toda a paisagem. Eles tentam escapar do frio avassalador, sem saber, no entanto, o que encontrarão no final da viagem. O destino, na verdade, pouco importa. O cerne de suas vidas é a jornada propriamente dita, única coisa que pode mantê-los unidos, que pode lhes dar um pouco de força para continuar a sobreviver.

Este é o cenário de “A Estrada” (2006), romance de Cormac McCarthy, vencedor do Prêmio Pulitzer de 2007 (que ganhou versão cinematográfica homônima pelas mãos do diretor John Hillcoat e do roteirista Joe Penhall). Para quem não está ligando o nome a pessoa, vale dizer que McCarthy é o autor do livro “No Country For Old Men”, levado às telas pelos irmãos Coen com o seguinte título em português: “Onde os Fracos Não Tem Vez”.

A primeira pergunta que vem a mente do leitor é a origem daquilo tudo? Como a humanidade chegou àquele ponto? Guerra nuclear? Aquecimento global? Efeito estufa? Um meteoro? O livro não se preocupa em responder a estas questões. Pouco importa. O fato é que a civilização, tal qual a conhecemos, não existe mais.

Mas, enganam-se os que imaginam que o livro é “mais um subproduto na onda das profecias apocalípticas”. A única coisa que liga “A Estrada” a outras obras com tema pós-apocalíptico como “The last man on earth” (clássico de Richard Matheson que serviu de base a filmes como “Eu sou a lenda”, entre outros), “O livro de Eli”, “O dia depois de amanhã” ou “2012” é o caráter físico da destruição da civilização. A obra de McCarthy não gira em torno da catástrofe física, mas da catástrofe moral a que estão imersos os sobreviventes.

É, principalmente, uma história de amor entre um pai e seu filho e como o primeiro representa a segurança e o segundo a consciência que prende o primeiro ao que lhe resta de humanidade. Mais que um relato apocalíptico, “A Estrada” é uma comovente história sobre esperança. Seu verdadeiro tema está na relação entre um pai e seu filho, e o quão forte, íntima e profunda ela pode ser para ambos. É, também, uma história de perseverança, uma aposta nos valores humanos diante da selvageria.

O Escritor e crítico Roberto de Sousa Causo faz um paralelo interessante entre McCarthy e William Faulkner (1897 - 1962), o grande escritor do regionalismo (e do alto modernismo) americano, ao analisar a obra. Diz ele que “A Estrada” pode ter tido como gérmen o trecho final do discurso de aceitação de Faulkner, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura:

"O escritor escreverá como se ele estivesse entre os homens a observar o fim do homem. Eu me recuso a aceitar o fim do homem. É fácil o bastante dizer que o homem é imortal porque ele resistirá: que, quando o último ding-dong do juízo final tiver soado e ecoado sobre a última pedra sem valor pairando imóvel no último anoitecer rubro e moribundo, que mesmo então ainda haverá mais um som: o som de uma voz fraca e inexaurível, ainda a falar. Eu me recuso a aceitar isso. Acredito que o homem não apenas resistirá: ele prevalecerá. É imortal não porque apenas ele entre as criaturas tem uma voz inexaurível, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e de sacrifício e de resistência."

Não é um livro fácil. A viagem de pai e filho é penosa, dura e, acima de tudo, triste. O livro termina com um toque poético de esperança, mas o retrato do apocalipse nos coloca diante de um espelho no qual o único reflexo é nossa irresponsabilidade diante do planeta em que vivemos.

domingo, 11 de julho de 2010

sábado, 10 de julho de 2010

Poesia aos sábados

dazibao

aos poucos
as almas vão se juntando para ler
uma caneta deselegante e papel de pão
fazem meu dazibao

voz do povo um dia
voz somente minha agora

notícias de vidas passadas
sincronicidade dos profetas adormecidos
sol em sagitário

lembranças coladas nas paredes de cada um
vertidas em cordel e rimas
ascendente zero grau de capricórnio
após a passagem de plutão

corações pregados nos muros
sol chuva e vento
mais corações pendendo dos postes
vaga-lumes como iluminção pública

os restos do meu dazibao são relíquias
que muitos voltam
vendo, lendo, procurando
vestígios dos meus horóscopos
e da sua lua permanente em gêmeos

Audemir Leuzinger, esta semana, no Poema Dia

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Obama, o advogado de Israel

Em seu encontro de segunda-feira com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o presidente Barack Obama desdenhou conselho de alguém que tem enorme experiência em negociações entre palestinos, israelenses e norte-americanos.

Em artigo publicado na terça-feira pelo "Los Angeles Times", Aaron David Miller sugeriu o seguinte: "Advogue pelo acordo [de paz], não apenas por um lado ou o outro".

David Miller foi conselheiro de secretários de Estado, tanto republicanos como democratas, em negociações entre árabes e israelenses. Nessa condição, tomou parte na célebre reunião de Camp David, 10 anos atrás, entre os presidentes Bill Clinton e Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense da época Ehud Barak, atualmente ministro da Defesa.

Hoje, no Centro Internacional Woodrow Wilson, David Miller cita Henry Kissinger, um dos mais badalados secretários de Estado norte-americanos, que dizia que, demasiado frequentemente, os Estados Unidos funcionaram como advogado de Israel, em vez de compreender que o seu cliente era o acordo e que deveriam advogar para ambos os lados. Bingo.

Ao receber Netanyahu, Obama esquivou-se completamente do tema que é o maior impedimento, no momento, para as negociações de paz entre palestinos e israelenses: a construção --ilegal-- de residências para colonos judeus em territórios palestinos.

Não por acaso, a Betselem, respeitada instituição israelense (atenção, israelense, não palestina) divulgava no mesmo dia do encontro Obama-Netanyahu a informação de que os assentamentos judaicos controlam 42% da Cisjordânia ocupada, embora a área construída represente apenas 1% do total.

Acontece que as fronteiras municipais dos assentamentos são dez vezes maiores que a área habitada. De acordo com a Betselem, a população de colonos quase triplicou desde 1993, de 110 mil para 301,2 mil.

A organização acusa o governo israelense de descumprir o compromisso assumido com o governo dos EUA do ex-presidente George W. Bush, em 2003, de congelar todas as construções.

Obama tampouco mencionou, pelo menos em público, três dos quatro pontos que definirão qualquer acordo de paz entre israelenses e palestinos, a saber: Jerusalém, cuja parte oriental os palestinos reivindicam como sua capital; fronteiras e refugiados. Citou apenas aquele que interessa especificamente a Israel, aliás com toda a razão: segurança, ou seja, o direito que tem o Estado judeu de existir em segurança.

Como Israel é a potência ocupante, todo o dossiê do acordo de paz depende de iniciativas de seu governo. Mas tudo o que Netanyahu se comprometeu a fazer foi, eventualmente, transferir a responsabilidade por mais áreas da Cisjordânia às forças de segurança palestinas. Nada que vá ao cerne da questão.

Enquanto escamoteava os pontos que Israel deveria atender, se quer mesmo a paz, Obama aceitava fazer cobranças aos palestinos sobre o que o jargão israelense chama de "incitamento". Netanyahu quer que a Autoridade Palestina - a única que se dispõe a negociar a paz, já que o Hamas, que governa Gaza, quer é aniquilar Israel - "prepare seu povo para a paz, nas escolas, nos livros-texto e assim por diante".

É uma alusão à suposta ou real pregação do ódio em livros escolares e, por extensão, nas escolas palestinas. Obama comprou a tese, ao dizer que "é muito importante que os palestinos não busquem desculpas para o incitamento e não se engajem em linguagem provocativa".

Dificilmente, haveria demonstração mais contundente de advocacia de um lado só, exatamente o contrário do que sugere o experiente Aaron David Miller, que é judeu, como o nome indica, mas não é dogmático.

Publicado quarta-feira por Clóvis Rossi na Folha Online. Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

Pouco tempo

Tenho tido pouco tempo, por isso as lacunas maiores entre as postagens.