Semana On

domingo, 11 de julho de 2010

sábado, 10 de julho de 2010

Poesia aos sábados

dazibao

aos poucos
as almas vão se juntando para ler
uma caneta deselegante e papel de pão
fazem meu dazibao

voz do povo um dia
voz somente minha agora

notícias de vidas passadas
sincronicidade dos profetas adormecidos
sol em sagitário

lembranças coladas nas paredes de cada um
vertidas em cordel e rimas
ascendente zero grau de capricórnio
após a passagem de plutão

corações pregados nos muros
sol chuva e vento
mais corações pendendo dos postes
vaga-lumes como iluminção pública

os restos do meu dazibao são relíquias
que muitos voltam
vendo, lendo, procurando
vestígios dos meus horóscopos
e da sua lua permanente em gêmeos

Audemir Leuzinger, esta semana, no Poema Dia

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Obama, o advogado de Israel

Em seu encontro de segunda-feira com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o presidente Barack Obama desdenhou conselho de alguém que tem enorme experiência em negociações entre palestinos, israelenses e norte-americanos.

Em artigo publicado na terça-feira pelo "Los Angeles Times", Aaron David Miller sugeriu o seguinte: "Advogue pelo acordo [de paz], não apenas por um lado ou o outro".

David Miller foi conselheiro de secretários de Estado, tanto republicanos como democratas, em negociações entre árabes e israelenses. Nessa condição, tomou parte na célebre reunião de Camp David, 10 anos atrás, entre os presidentes Bill Clinton e Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense da época Ehud Barak, atualmente ministro da Defesa.

Hoje, no Centro Internacional Woodrow Wilson, David Miller cita Henry Kissinger, um dos mais badalados secretários de Estado norte-americanos, que dizia que, demasiado frequentemente, os Estados Unidos funcionaram como advogado de Israel, em vez de compreender que o seu cliente era o acordo e que deveriam advogar para ambos os lados. Bingo.

Ao receber Netanyahu, Obama esquivou-se completamente do tema que é o maior impedimento, no momento, para as negociações de paz entre palestinos e israelenses: a construção --ilegal-- de residências para colonos judeus em territórios palestinos.

Não por acaso, a Betselem, respeitada instituição israelense (atenção, israelense, não palestina) divulgava no mesmo dia do encontro Obama-Netanyahu a informação de que os assentamentos judaicos controlam 42% da Cisjordânia ocupada, embora a área construída represente apenas 1% do total.

Acontece que as fronteiras municipais dos assentamentos são dez vezes maiores que a área habitada. De acordo com a Betselem, a população de colonos quase triplicou desde 1993, de 110 mil para 301,2 mil.

A organização acusa o governo israelense de descumprir o compromisso assumido com o governo dos EUA do ex-presidente George W. Bush, em 2003, de congelar todas as construções.

Obama tampouco mencionou, pelo menos em público, três dos quatro pontos que definirão qualquer acordo de paz entre israelenses e palestinos, a saber: Jerusalém, cuja parte oriental os palestinos reivindicam como sua capital; fronteiras e refugiados. Citou apenas aquele que interessa especificamente a Israel, aliás com toda a razão: segurança, ou seja, o direito que tem o Estado judeu de existir em segurança.

Como Israel é a potência ocupante, todo o dossiê do acordo de paz depende de iniciativas de seu governo. Mas tudo o que Netanyahu se comprometeu a fazer foi, eventualmente, transferir a responsabilidade por mais áreas da Cisjordânia às forças de segurança palestinas. Nada que vá ao cerne da questão.

Enquanto escamoteava os pontos que Israel deveria atender, se quer mesmo a paz, Obama aceitava fazer cobranças aos palestinos sobre o que o jargão israelense chama de "incitamento". Netanyahu quer que a Autoridade Palestina - a única que se dispõe a negociar a paz, já que o Hamas, que governa Gaza, quer é aniquilar Israel - "prepare seu povo para a paz, nas escolas, nos livros-texto e assim por diante".

É uma alusão à suposta ou real pregação do ódio em livros escolares e, por extensão, nas escolas palestinas. Obama comprou a tese, ao dizer que "é muito importante que os palestinos não busquem desculpas para o incitamento e não se engajem em linguagem provocativa".

Dificilmente, haveria demonstração mais contundente de advocacia de um lado só, exatamente o contrário do que sugere o experiente Aaron David Miller, que é judeu, como o nome indica, mas não é dogmático.

Publicado quarta-feira por Clóvis Rossi na Folha Online. Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

Pouco tempo

Tenho tido pouco tempo, por isso as lacunas maiores entre as postagens.

domingo, 27 de junho de 2010

sábado, 26 de junho de 2010

Poesia aos sábados

São Pedro da Serra

o enterro descia a rua
um homem carregava uma coroa de flores:
...Saudades: esposa, filhos e netos...

a chuva não incomodava o morto
as colinas não vigiavam o cortejo
ocupavam - se com o flerte frenético das nuvens

os carros parados na contramão
a vida seguia indiferente sem se importar com
o morto

os homens bebiam no bar
as mulheres arrumavam as vitrines
os meninos jogavam bola

o morto
não interrompia o curso das horas
não percebia - se nenhuma diferença no vento
ou na correnteza das águas pelas pedras

o morto era o único ausente
ninguém compartilhava da absoluta solidão que sentia.

Flávio Machado, esta semana, no Poema Dia

domingo, 20 de junho de 2010

sábado, 19 de junho de 2010

Poesia aos sábados

Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.

Este poema/letra de Oswaldo Montenegro tem muito de mim. Por isso o escolho hoje, dia do meu aniversário, para ilustrar o sábado com poesia.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Liberdade e responsabilidade: uma breve e desimportante reflexão sobre o Jornalismo

A liberdade e a responsabilidade na imprensa devem caminhar lado a lado. Somente com liberdade a imprensa pode cumprir seu papel fiscalizador dentro de uma democracia. Somente com responsabilidade a imprensa pode cumprir este mesmo papel sem agredir direitos alheios. A liberdade se apóia sobre a responsabilidade e a última justifica a primeira. Sem uma ou outra o jornalismo fica manco, incompleto.

Nós, jornalistas, nos habituamos a exigir liberdade e este é um hábito benéfico ao apontar para uma compreensão dos profissionais da área sobre o papel do jornalismo. É muito bom, também, quando não só jornalistas, mas pessoas oriundas das mais variadas áreas de atividade se manifestam quando a liberdade de imprensa é ameaçada, como parece ter ocorrido recentemente com o site de notícias MidiamaxNews (veja aqui as explicações do dono do site sobre o caso), de Mato Grosso do Sul.

Assim como estamos sempre prontos a gritar, escrever e teclar por liberdade, nos esquecemos, muitas vezes, nós jornalistas, da responsabilidade para com a notícia. Não gostamos nem um pouco que nos digam isso, mas é a verdade. A verdade: tão subjetivo conceito, alvo constante de nossa labuta diária.

Não há verdade menos importante ou mais importante, assim como responsabilidade não pode ser mensurada de acordo com o objeto sobre o qual se aplica. Ou se fala a verdade ou não. Ou se é responsável ou não.

Faço esta reflexão diante de um fato ocorrido comigo hoje. Acompanhei pelo Twitter as muitas manifestações de apoio ao MidiamaxNews. Solidarizei-me com o veículo, com os profissionais que lá atuam, com seu proprietário, segundo quem o site foi alvo do ataque de hackers.

Como muitos outros, fui ao MidiamaxNews ler as novidades quanto o site voltou ao ar. Entre as muitas notícias deparei-me com uma inverdade publicada na coluna Bastidores. Uma nota intitulada “Craque Metido”, que reproduzo a seguir:

“O atacante Denilson, ex-Palmeiras, ex-seleção brasileira, recebeu R$ 11 mil para vir em Campo Grande para inaugurar a Cidade da Copa, nos altos da Afonso Pena, ponto de concentração dos torcedores em dias dos jogos do Brasil. Ele ficou uns 15 minutos no evento, afastado da imprensa, dos fãs, enfim, longe da “galera”. Ninguém conseguiu ao menos um autógrafo do craque, que foi logo alegando compromissos.”

Em meio à fome na África, aos conflitos sangrentos no Oriente Médio, a situação precária dos indígenas brasileiros ou a política indigente de nossos políticos, a simpatia ou antipatia de um ex-craque de futebol pode parecer assunto de pouca importância. É verdade. Não se trata de um tema central. No entanto, jornalista que sou, tenho ainda a urticária da verdade e da responsabilidade entranhada na epiderme.

Diante disso, não pude deixar de identificar que a nota, como disse anteriormente, era inverídica. Afinal, eu estava lá, com o sol batendo no cocuruto no momento em que o Denilson adentrou a Cidade da Copa até o instante em que ele de lá saiu. Testemunha ocular da história, deparei-me com uma incongruência entre a informação e o fato. É que o ex-craque, durante todo o tempo que esteve no circo armado pela Prefeitura de Campo Grande para o primeiro jogo do Brasil na Copa, atendeu à todos com presteza. Deu autógrafos adoidado, concedeu entrevistas a torto e a direita. Sempre com um sorriso estampado no rosto. O fato, então, não batia de forma alguma com a notícia publicada no site.

Em um primeiro momento, cogitei fazer um comentário no Twitter apontando este desacerto. Mas pensei: “ora, é assunto de pouca importância. A quem interessa se o Denilson foi ou não foi simpático, se deu ou não entrevistas. Embora ele tenha sido simpático com todos e tenha concedido entrevistas a tantos quanto assim solicitaram. Embora o que havia sido publicado fosse uma inverdade”. Pensei, também: “ora, hoje atuo na assessoria de imprensa da Prefeitura. Se eu tocar no assunto, já já aparece um espírito de porco dizendo que estou falando em causa própria”. Desisti, então.

Mas continuei com aquela coceirinha, incomodando. É que sou jornalista, sabe? As joças da verdade e da responsabilidade me perseguem.

Então, para me livrar do incômodo, liguei para uma querida amiga que atua lá no Mídia. Comentei minha inquietação, mas como resposta ouvi o seguinte: “Não fomos só nós que dissemos isso...”. É aquela velha história: uma mentira dita muitas vezes pode se transformar em verdade. Não era importante, em um primeiro momento, se o que dizia a nota “Craque Metido” fosse ou não verdade. O que importava é que a verdade ou a mentira dita ali não havia sido proferida em solidão, apenas pelo Mídia.

Como a amiga me é muito querida e a loucura da redação se fazia ouvir nos bastidores da ligação, preferi não estender a conversa – embora adorasse fazê-lo em uma mesa de bar se ela topar.

Assim, mais uma vez, tentei deixar de lado o desimportante comportamento de Denilson.

Não por muito tempo. Coceira desgraçada.

Peguei o telefone e liguei para o proprietário do site. Minha idéia era dizer a ele que uma inverdade havia sido publicada no seu veículo de comunicação, com a certeza de que, assim como para mim, para ele a liberdade de imprensa é tão importante quanto a responsabilidade sobre a notícia.

Assim como ouvi ao fundo a loucura da redação ao conversar com minha amiga, identifiquei no tom de voz de meu interlocutor e no atropelo com que fui atendido, a mesma loucura, a roda viva do mundo da comunicação online, onde não há tempo para detalhes, em especial os pouco importantes.

Então, antes mesmo que eu pudesse dizer o motivo de minha ligação, ouvi a seguinte pergunta (em um tom de quem está louquinho para desligar): “É importante o que você tem a me dizer agora? Estou bastante ocupado”.

Lembrei-me, então, do que era importante para mim, como jornalista – verdade, responsabilidade e liberdade (a mesma que o Midia, justamente, defende)-, mas calei-me diante da pressa, torcendo do fundo do meu coração para que o que eu tinha a dizer a ele fosse, sim, algo importante.