Semana On

sábado, 15 de maio de 2010

Poesia aos sábados

Patriarca quebradiço

Me despeço consumiço
sorrateiro e rato
do patriarca quebradiço
com quem andei pimenta na primeira pedra de montanha
trilhei o derrapo da voçoroca
e dormi com ganso quando montei cabana

A ponta da sua pá que dobra
Fez barreira pra desalagar a chuva
Quebra noz de madeira
Ladeira paulistana de rolimã
Férias da manhã com mel
Palmeira de terra oca, maná
Tacho culto a sopapo, zinabre

Cachorro na bancada faz sermão de creolina
Foto bonita quadro e cuco
Ética de prataria
Gato machucado comendo tinta preta da oficina

Que me deu carro fusca
e bicicleta grande
Me ensinou responder fruta
de garfo e faca no calar de barra
Calor de tarde na calçada
da cidade velha
agradando a vizinhança velha
no portão de volante do velho

meu avô

Heyk Pimenta, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Poema

Com o mesmo furor com que
Aprisionei teu perfume em minha pele
Deixarei a brisa leve arrancá-lo de mim

Como folha de outono que o vento leva
Espuma no mar que em primavera
Anoitece o teu dia

Com o mesmo espanto
Vou calar tua presença
Criança tapando ouvidos
Ao som da madrugada

E então, repleto de alegria
Encontrarei os olhos do cão que me observa

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Um álbum às quartas


NEVER MIND THE BOLLOCKS, HERE'S THE SEX PISTOLS
SEX PISTOLS
Baixe o álbum AQUI
1. Holidays In The Sun
2. Bodies
3. No Feelings
4. Liar
5. God Save The Queen
6. Problems
7. Seventeen
8. Anarchy In The U.K
9. Submission
10. Pretty Vacant
11. New York
12. E.M.I.

“Never Mind The Bollocks, Here's The Sex Pistols” é o primeiro e único álbum de estúdio da banda inglesa Sex Pistols. Letras cruas e niilistas, aliadas a violentas performances ao vivo foram a base para que a banda revolucionasse o Rock’n’Roll na década de 70 e se firma-se como uma das principais influências do punk rock nas décadas seguintes.

Por trás de suas táticas de choque e do negativismo de sua postura anárquica, os Sex Pistols sustentavam uma consistente crítica social, cuidadosamente elaborada com o intuito de gerar altíssimo impacto sobre a sociedade inglesa. O álbum articulava com perfeição a frustração, a raiva e a insatisfação da classe trabalhadora inglesa para com o establishment.

“Never Mind The Bollocks” causou grande controvérsia na Inglaterra, processos, protestos. Parte do ultraje causado pela banda foi ocasionado pelas letras de "God Save the Queen" e "Anarchy In The U.K.", ataques diretos contra a monarquia inglesa, a sociedade civil, as instituições e a ordem social vigente. "God Save The Queen", especialmente, foi vista como uma afronta à rainha Elizabeth II.

Originalmente lançado em 1977, o disco não perdeu sua fúria ou originalidade com o passar do tempo. As músicas escritas por Johnny Rotten, Steve Jones, Glen Matlock, Paul Cook e Sid Vicious mantém-se visceralmente atuais. O vocal ácido, desarticulado, propositalmente dissonante e original de Johnny Rotten continua causando tanto espanto quanto suas letras destruidoras e sua postura freak.

O produtor Chris Thomas, que trabalhou o álbum, optou por um approach diferente do que seria escolhido pelas demais bandas de punk rock a partir do disco de debut dos Pistols, descartando na gravação a rudeza de um estilo ”ao vivo” e optando por uma sonoridade clara através de múltiplos overdubs de guitarra. Disse ele: “Anarquia é algo como doze guitarras. Eu preferi orquestrá-las, gravá-las em separado e depois juntar tudo na gravação. Foi um pouco trabalhoso. Os vocais foram trabalhados da mesma forma".

Reconhecimento

Logo após seu lançamento, “Never Mind The Bollocks, Here's The Sex Pistols” atingiu o primeiro lugar na “Official UK Albums Chart”, mas nos Estados Unidos chegou apenas a 106ª posição da “Billboard albums chart”. Apesar das fracas vendas iniciais fora da Europa, o álbum acabou ganhando força, chegando a 500 mil cópias em 1987 e 1 milhão quatro anos depois.

Em 1985, “Never Mind..” foi apontado pela NME como o 13º melhor álbum de todos os tempos e, em, 1993, pelo mesmo grupo, como o 3º álbum mais importante da história. Em 1987, a revista Rolling Stone apontou-o como o 2º melhor álbum dos últimos 20 anos, atrás somente de “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, dos Beattles. A mesma revista colocou o disco dos Pistols na 41ª colocação na sua lista dos “500 Greatest Albums of All Time”, em 2003.

Em uma entrevista em 2002, Charles M. Young, jornalista da Rolling Stone, disse o seguinte: “Never Mind The Bollocks mudou tudo. Nunca havia sido feito algo igual e nunca mais foi feito. O mais próximo ao disco dos Pistols foi, provavelmente, o material do Nirvana, uma banda muito influenciada pelos Sex Pistols”.

Em seu livro “The Alternative Music Almanac”, Alan Cross colocou o álbum na 6º colocação na sua lista dos “10 Classic Alternative Albums”. Em 1997, "Never Mind The Bollocks” foi apontado como o 24º melhor álbum do milênio em uma votação promovida no Reino Unido pelo HMV Group, Channel 4. Em 1998, os leitores da Q magazine o apontaram como o 30º melhor álbum de todos os tempos e, em 2000, a mesma revista apontou-o como o 10º colocado em sua lista dos “100 Greatest British Albums Ever”.

A VH1 nomeou-o como o 17º melhor álbum de todos os tempos em 2001. O disco também ocupou a 1ª colocação na lista "Fifty Greatest Punk Albums Ever", em votação dos leitores da Kerrang! magazine. Em 2006, foi escolhido pela revista Time um dos 100 melhores álbuns de todos os tempos e, no mesmo ano, a NME apontou-o como o 4º álbum inglês mais importante de todos os tempos.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Branco no OI e no Amálgama

A entrevista que realizei com o mago das redes sociais da Dilma, Marcelo Branco, publicada aqui no dia 5, foi reproduzido ontem no Amálgama e hoje no Observatório da Imprensa . Vai lá.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Poema

Te libertar de mim
Olhar o espelho
Encontrar teus olhos
E não afundar em pavor

Voltar à gaiola
Guardar a lágrima
Agrilhoar o pássaro
Que me amanhece a alma

Te esquecer.

domingo, 9 de maio de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

Poesia aos sábados

Útero

procurando a tua cabeça: quero acordar-te, devolver-te
ao meu útero, teu colar planetário,
fazer-te regressar ao sangue de olhos fechados e incubadoras,
soterrar o teu nome no meu nome, o teu movimento
no meu santuário faminto,
a minha culpa e aguaceiros no teu desejo indeciso de
beleza e desvios. dar-me-ás o teu azul
para que o meu vermelho denso o golpeie de ocupação e pele,
para que duas solidões
se aconcheguem e tornem uma só. e depois, mais tarde,
numa meia-noite de existência avulsa, dentro de mim
dirás o sexo, o sexo
como arredores de um lugar belo.

Sylvia Beirute, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Comidinhas: Cupim Recheado

Para começar:
Provei esta receita pela primeira vez na casa dos meus amigos Fernando e Adriane Batiston. O pai deles é mestre no preparo do cupim recheado. A receita a seguir é um pouco diferente da original, mas igualmente deliciosa. Perfeita como um bilisquete com cerveja. Vamos nessa.

Ingredientes:
- 1 Cupim manteado (o açougueiro pode abrir o cupim para você)
- Queijo provolone
- Azeitonas pretas

Mão na massa:
1- Coloque o cupim (já manteado) sobre uma tábua e tenha nas proximidades os demais ingredientes. O queijo provolone e as azeitonas pretas.









2- Espalhe o queijo e as azeitonas sobre o cupim.









3- Enrole o cupim (Se você quiser, pode amarrá-lo após enrolar. Eu prefiro deixá-lo soltinho).









4- Com uma faca de ponta, faça furos na carne e introduza nos furos mais queijo e azeitonas. Repita o processo dos dois lados da carne e nas laterais.









5- Agora coloque a criança em uma grelha, bem arrumadinha.









6- Bom churrasqueiro que és, já notou que eu ainda não coloquei sal na carne né? É assim mesmo. Faça uma salmoura (misture um pouco de água com sal grosso) e regue os dois lados da carne antes de colocá-la na brasa. Regue a carne novamente sempre que cortar um pedaço já assado.








7- A esta altura sua brasa já estará bacana. Mantenha a carne em uma altura que permita assá-la lentamente. Não tenha pressa.









8-Depois que os dois lados estiverem bem assados, retire o bichinho do fogo. Como o cupim é uma carne gordurosa, é bom deixar tostar bem. Ficará mais saboroso.









9- Agora é a hora. Fatie de forma grosseira (lembre-se, isso é um tira gosto) coloque um prato bacaninha, reserve uma boa pimenta, complete as tulipas e aproveite.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Poesia

Lisa porcelana do teu rosto
Olhos de brisa que trazes na face
Delicadeza do negro crayon
em tuas retinas graves

Tudo quanto me apavora

Doce umidez na tua boca
Língua acoitada entre lábios
Beleza deste negrume
em teus cabelos bastos

Tudo quanto me apavora

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Entrevista com Marcelo Branco: “As redes sociais estão revolucionando o Jornalismo”

Eram 15h20 de terça-feira, 4 de maio, quando me acomodei no banco traseiro do veículo que levaria Marcelo D’Elia Branco para o Aeroporto Internacional de Campo Grande (MS), após ter participado do evento “As redes sociais na campanha do PT”. Gaúcho de Porto Alegre, 49 anos, Branco é ativista do software livre e foi por três anos diretor-geral da Campus Party Brasil, maior evento de internet do país. Recentemente, assumiu a missão de comandar as estratégias de redes sociais da pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff. A entrevista, generosamente concedida durante os 20 minutos que separam a universidade sede do evento e o aeroporto da capital sul-mato-grossense girou em torno da relação entre as redes sociais, a política e o Jornalismo. (A foto acima foi gentilmente cedida pela minha colega de Jornalismo Fabiana Silvestre)


Como você analisa o momento atual da liberdade de expressão na internet brasileira?

Acho que a internet, com a mudança da legislação eleitoral, vai introduzir milhões de brasileiros na cena política. Não só como espectadores, ou como militantes, mas como voz ativa. Pessoas vão poder manifestar sua opinião através de textos, fotos e até através do áudio-visual. Acho que isso qualifica a democracia brasileira, pois coloca foco em pessoas que não teriam a oportunidade de se expressar de forma plena em uma campanha eleitoral. Acho que isso devolve aos apoiadores das campanhas políticas a direção sobre os seus rumos, pois a campanha na internet não consegue ser centralizada. O ritmo e a dinâmica da campanha vai estar muito em função do que estes apoiadores estarão fazendo na rede. As opiniões que eles colocarão na internet, nas redes sociais é o que vai direcionar os rumos da campanha. Acho que é muito importante para o aprofundamento da democracia brasileira esta possibilidade de indivíduos conectados em rede se expressarem sobre o momento político que estamos vivendo. Esta compreensão nova dos legisladores, de que a internet não é a mesma coisa que um meio de comunicação de massa por concessão pública, que precisava ser regulamentada de forma rígida, o entendimento de que a internet é um espaço de expressão individual, foi uma grande vitória para a democracia brasileira.

Você aposta, então, na força da comunicação horizontal? Acredita que as pessoas nas redes sociais terão voz com poder suficiente para fazer frente à mídia tradicional?

Sim. Acho que isso já está acontecendo, pois pela primeira vez a plataforma tecnológica do usuário, do público é a mesma que a do veículo. Se o veículo é uma rede de tevê poderosa e tem um blog, um Twitter, o público desta rede de tevê também tem um blog e um Twitter. Então, pela primeira vez, público, editores e empresas jornalísticas estão conectados na mesma matriz de mídia. Isso exige uma comunicação horizontal, um controle maior do público sobre as notícias que estão sendo publicadas. Este público vai poder intervir. Aquela soberba do jornalista ou do veículo de até mesmo destruir personalidades, atacar pessoas ou criar fatos, isso não é mais assim. Se um blogueiro, mesmo que seja de um grande veiculo, resolve atacar alguém de forma injusta, milhares de pessoas se manifestarão através de blogs e do Twitter, contestando aquela atitude. Uma noticia mal colocada poderá ser retrucada com fatos, vídeos, provas.

Algum exemplo?

Acho que isso aconteceu já nessa campanha, quando a Dilma esteve no ABC, falou sobre quem tinha fugido da luta e o jornal Folha de S.Paulo inventou uma frase dizendo que ela se referia aos exilados políticos. Isso foi contestado pela própria Dilma no Twitter. Ela foi lá e disse: “eu não falei isso”. Eles não levaram em conta, não deram bola. Aí, quando ela mostrou o vídeo do discurso, dando provas concretas, com fatos, de que ela não tinha falado nada em relação aos exilados políticos, pelo contrário, isso obrigou o jornal a reescrever aquele fato dizendo que a Dilma não havia dito aquilo que eles tinham publicado. Então, isso vai acontecer centenas de vezes durante a campanha eleitoral. A necessidade de que a verdade, os fatos desmintam possíveis noticias que interpretem mal uma realidade.

Por outro lado, esta fragmentação da informação também esbarra na audiência. O microcosmo deste ambiente virtual terá voz ativa?

Acho que o somatório destes microblogueiros sim. Mas é óbvio que audiência e credibilidade são coisas que se constroem ao longo do tempo. Então, quem tem ao seu lado uma coluna em um jornal diário tem mais chance de ter audiência na internet do que quem não tem. A internet não acaba com as desigualdades, mas acho que ela estabelece uma possibilidade de pessoas ganharem esta credibilidade na rede, influírem e muitas vezes pautarem os meios de comunicação. Isso tem acontecido nos últimos tempos. Vários fatos comprovam que a simples manifestação de pessoas nas redes sociais tem feito os veículos de comunicação corrigirem informações, em alguns casos até pautando estes veículos.

Até que ponto é válido para o Jornalismo ser pautado pelas redes sociais?

É um aprendizado importante. Que os jornalistas estejam sintonizados com a opinião dos leitores e não só com a opinião do dono do jornal. As redes sociais possibilitam esta relação na qual o jornalista precisa, cada vez mais, estar sintonizado com o público. Se o cara escreve num jornal, tem um programa na tevê, penso que ele não precisa se importar com o que o público está pensando dele. Ele se importa mais com o que o dono do veículo pensa dele, pois é desta forma que ele vai continuar trabalhando no veiculo. No caso da interação com as redes sociais é diferente. Se o cara começa a falar muita coisa que desagrada o público e esse público começa a se manifestar nas redes sociais, isso pode impactar na audiência do programa, da coluna, do espaço que ele tenha na mídia tradicional. Acho saudável para a comunicação essa possibilidade do jornalista ter a crítica e saber que nem sempre o profissional de comunicação é dono da razão. Muitas vezes, o público tem razão em relação à forma como está sendo feita uma cobertura e ele pode dizer: “olha, isso não está certo”. E isso tem acontecido. Os próprios veículos têm estimulado que o público faça a cobertura mandando informações, fotos.

Você considera positivo o chamado “jornalismo cidadão”?

Claro, acho positivo. A internet está questionando o papel do intermediário e não é só no jornalismo. Na indústria fonográfica foi assim. Ela fazia a intermediação entre o artista e o público. Toda a intermediação está sendo questionada. O jornalista intermediava a relação entre o fato e o veículo; e o veículo intermediava a relação entre o público e o fato. Então, tinha a intermediação do jornalista, que chegava com o fato no veículo, e do veículo, que intermediava este fato junto ao público. Hoje não. Hoje qualquer indivíduo em uma esquina com um smart phone nas mãos pode publicar algo. Se vai ter muita ou pouca audiência é outra discussão. Mas existe esta possibilidade. Então, o papel do intermediário, todo intermediário, tem que ser rediscutido. Acho que o papel do jornalismo pós internet, precisa ser rediscutido também.

E como fica a qualidade, a precisão da informação?

Isso é outra coisa que eu discuto. Quem garante que a qualidade de informação nos grandes veículos, nos grandes jornais, é boa? Quem sabe se a construção colaborativa de conteúdos não pode garantir uma qualidade melhor? Há o exemplo do próprio software livre. Os softwares feitos de forma comercial por grandes corporações são, sob o ponto de vista da qualidade técnica, muito inferiores aos softwares feitos por milhares de mãos, de forma colaborativa. Portanto, acho a notícia colaborativa interessante também. E o profissional não perde seu espaço. Ele terá a capacidade de elaborar textos mais articulados, artigos mais densos, que uma pessoa que não é profissional, que não tem formação nem experiência não conseguiria fazer. Esta cobertura do dia a dia será feita cada vez mais por pessoas que não tem a formação profissional em Jornalismo.

Você tem posição formada quanto à obrigatoriedade do diploma específico para o exercício do Jornalismo?

Acho que não há necessidade. Respeito a posição dos sindicatos dos jornalistas. Mas, como rato de internet que sou não posso concordar que o diploma seja um elemento chave para o Jornalismo, assim como não concordo que o diploma de analista de sistemas seja essencial para alguém exercer esta profissão. Fosse assim eu não poderia exercê-la, pois não tenho o diploma de ciência da computação e trabalho há 31 anos com isso.

Como você se informa?

Há 25 anos que eu não tenho tevê em casa. Então, nos últimos 25 anos não me informei pela tevê. Só assisto em quarto de hotel, em aeroporto. Eu lia jornais impressos até uns 10 anos atrás, mas tem quase isso que não assino nenhum jornal. Jornal eu pego por aí, mas não assino. Minha informação se dava, então, a partir da internet, dos portais, até três anos atrás. Foi quando passei a me informar exclusivamente pelo Twitter. Não que eu não leia informações da Folha Online, do G1, do Estadão Online. Eu leio o que eles publicam, mas a partir da minha rede de relacionamentos na internet. Pois as pessoas que a integram são relevantes, elas me mandam informações relevantes. Eu sigo jornalistas da grande imprensa, sigo amigos que não são jornalistas, mas que lêem muito o quê está sendo publicado nos portais. Mas, não busco informações diretamente nos portais. Acho que a era dos portais está acabando.

O Twitter é uma boa base de dados para filtrar informações?

O Twitter é o filtro perfeito. No twitter, se alguém me manda informação que eu não concordo eu paro de seguir. Então, se eu seguir 100 pessoas relevantes no Twitter – e hoje estou seguindo mais em função da campanha – estarei informado sobre tudo. E não significa seguir só aqueles com quem a gente concorda politicamente, isso é um erro. Tem fontes de informações que para mim são extremamente relevantes, mas que não concordam comigo em vários aspectos da política e da vida. Mesmo assim, são pessoas que trazem informação de qualidade. No Twitter eu não sou obrigado, como em um jornal ou um portal, a ver tanta coisa mal escrita, tanta coisa que eu não quero ler, mas que sou obrigado para chegar à informação que eu quero. O Twitter está fazendo uma revolução na comunicação, no Jornalismo, exatamente por ser o filtro perfeito. Eu só vou ler aquilo que as minhas fontes de informação, as fontes que eu considero relevantes estão publicando. Acho que isso é muito importante. Tem três anos que minha única fonte de informação é o Twitter. Se não vier pelo Twitter muitas vezes eu não fico sabendo.

Como você analisa o uso das redes sociais pela política partidária? Muita gente desconfia da presença do político nestas ferramentas.

É natural. As pessoas desconfiam dos políticos em todos os âmbitos. Na internet também, nas redes sociais também. É um novo espaço de convivência. Assim como as pessoas desconfiam das marcas e dos produtos, as agências de publicidade estão lá, presentes comercialmente no Twitter, no Orkut, no Facebook tentando posicionar seu produto. Com os políticos é o mesmo. É natural que eles queiram ocupar seu espaço nas redes sociais. Vai ter quem apóie isso e quem fique contrariado. Mas, nas redes sociais a gente segue e é amigo de quem a gente quer seguir e ser amigo. Essa é a diferença. Há pessoas que vão querer ser amigos no Orkut de políticos para ver o que eles estão fazendo. Há pessoas que vão querer seguir políticos no Twitter, pois consideram relevante acompanhar o dia a dia destes políticos. E há pessoas que não querem isso. As redes sociais são assim. É diferente do e-mail, onde você recebe um monte de informações indesejadas. As redes sociais são uma nova forma de relacionamento. Rede social não é só Twitter, Orkut ou Facebook. São novas formas de relacionamento que a humanidade está experimentando desde o surgimento da internet. É um novo espaço de convivência e cidadania. Então, é natural que a política partidária também se manifeste nele. Respeito e acho válido.

Que tipo de postura um político pode adotar nas redes sociais visando às eleições que se aproximam e que pode condená-lo perante os usuários?

Em primeiro lugar, ele vai ter que ter muita humildade. A humildade será muito importante. Esta comunicação horizontal exige uma mudança de postura por parte do político, pois ele vai ter que dialogar na mesma linguagem de quem o está abordando em uma rede social. Tem dois ministros, o Paulo Bernardo e o Padilha, que são tuiteiros inveterados. É muito normal a gente falar duas ou três vezes com eles por dia e ver que pessoas anônimas dão uma tuitada e eles respondem também. Imagine! Quando um brasileiro iria falar com um ministro? Quando um brasileiro falava com um senador, um deputado? Isso aproximou as pessoas e acho que a postura do político deve ser de interação e diálogo e não de soberba. Se ele ficar sempre com a razão, não estará interagindo, por isso a humildade é importante. Ouvir muito e levar em conta o que está sendo dito na internet.

Sabemos que é impossível para uma pessoa pública responder a toda a demanda gerada em uma ferramenta de rede social. Como você analisa o papel das assessorias que ajudam estas pessoas a selecionar perguntas, respondê-las etc.?

Acho que é uma nova área de atuação para os profissionais de comunicação. Tem o assessor que tuita pelo político - coisa que eu não condeno, desde que fique clara a participação da equipe, que ele não finja ser uma coisa quando é outra. Tem a assessoria que ajuda a organizar respostas, mas que conta com a participação direta do assessorado, que define o assunto e o que será dito. Um exemplo é a Dilma. Pelo menos até este momento em que estamos gravando, é ela quem está tuitando. O Twitter da campanha é outra coisa, mas o Twitter pessoal dela é uma reivindicação que ela tinha desde o ano passado e que teve a oportunidade de fazer agora. Mas é dela. Ela está decidindo durante a manhã o que ela vai tuitar. É obvio que a Dilma não é igual a mim, igual a nós que estamos o dia todo na internet. Ela tem um tempo limitado na rede. Ela não vai poder responder e interagir da forma que seria o ideal do manual do marketing social. Mas, ela expressa o que ela é na internet. Então, é natural que a Dilma não de tantas tuitadas por dia, mas ela está conseguindo ser ela mesma na internet. Foi uma opção dela, de não delegar à assessoria as suas tuitadas. É óbvio que a gente está pensando agora em ajudar a organizar esta demanda de interação, para que ela possa decidir o que vai responder, o que vai tuitar. Mas, até este momento, por incrível que pareça, é ela quem lê seus tweets e decide o que é relevante, o que vai postar.

Apesar de ser um novo campo para a saturada área da comunicação social, apesar de gerar oportunidades de trabalho para muita gente, a assessoria em redes sociais ainda é vista com desconfiança no meio jornalístico. O jornalista é conservador quando se fala em novas tecnologias?

Não posso generalizar, mas sim. Lembro que antes das redes sociais, da internet, o próprio uso do computador foi dificilmente assimilado pelos jornalistas. Usavam a máquina de escrever e, de repente, chega o computador. “Vou ter que aprender esta coisa nova!”. No início, nos anos 80, havia grande resistência dos jornalistas em usar micro-computadores. Eu tinha amigos jornalistas que se negavam. É a mesma coisa. Existe também uma questão geracional. Os jornalistas mais novos acham isso normal, vibram com a possibilidade das redes sociais. Os jornalistas mais antigos ainda têm uma resistência muito grande, uma desconfiança em relação às possibilidades geradas por elas.