Semana On

quarta-feira, 3 de março de 2010

Poema

Estou te olhando
Com a sinceridade
Da língua tocada.

Não me beijas
Sequer com os
Dedos.

Belíssimo poema de Athayde Nery, que acabo de ler no Arauto.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Poesia aos sábados

E se não fosse por muito,
seria por pouco.
Sem voz,
falaria rouco.
Coagido,
bancaria o louco.

Por não se conter.

Pra que menos,
se poderia ser mais?
Por que não voar,
se o fazem pardais?
Se não há para sempre,
como crer no jamais?

Por não se contentar.

Renata de Aragão Lopes, esta semana, no Poema Dia.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

"O contrário da morte: cenas da vida napolitana" - Roberto Saviano

Pronunciar a palavra amor é embaraçoso. A língua se interrompe, como cansada de um trajeto percorrido muitas vezes e que já não pretende mais refazer. Como um som que conhece muito bem. Como as cantilenas proferidas sem reparar no seu significado. Ou como as orações imersas numa sacralidade que perde qualquer conteúdo e torna-se mero ritual.
Há um momento, porém, em que uma palavra pronunciada e cuspida por muitas bocas, manipulada e abusada por muitas mãos incautas, torna-se imaculada. E ninguém sabe precisamente o motivo, não se pode percorrer o inverso do caminho para entender. Acontece, e basta.
Escutando Maria sussurrar aquele verso, pareceu-me, afinal, ter entendido tudo, como se ela me tivesse transmitido o mais precioso dos ensinamentos, aquele que eu tinha ido buscar longe, no fundo de baús de palavras, nos complexos questionamentos metafísicos, e que, no entanto, estava ali, simples e claro. Jogando os dados no tabuleiro dos pensamentos e aforismos, eu havia buscado respostas que não me satisfizeram, que nada me revelaram. E, agora, toda vez que me falta o conhecimento, que me falta a definição, toda vez que não percebo o sentido último, sei bem qual é a verdade do amor. A única que o peito ainda escuta e compreende: o contrário da morte.” (Págs. 63 e 64)

Assim o jornalista e escritor napolitano Roberto Saviano encerra seu segundo livro, “O contrário da morte: cenas da vida napolitana”, lançado no rastro do retumbante sucesso de “Gomorra” (2006), obra que vendeu quase dois milhões de exemplares em todo o mundo, inspirou uma peça de teatro homônima - que ganhou o prêmio das Olimpíadas de Teatro 2008 para Melhor Novo Escritor Italiano - e um filme que ganhou o Prémio do Júri no Festival de Cannes.

O conto que dá nome ao livro foi publicado originalmente no jornal Correio de la Sierra. Posteriormente, atendendo pedidos de seus editores, Saviano escreveu outra história, “O Anel”, e compilou ambas neste livro. “O contrário da morte” foi escrito com Saviano escondido, vigiado 24 horas por guarda-costas, proibido de circular naturalmente por sua cidade natal, sob pena de ser assassinado pela Camorra, a máfia italiana em que se infiltrou e que denunciou nas páginas de seu primeiro livro.

Não nos compete decidir quanta esmola pedir ao azar, o que nos cabe e por que nos cabe.” (Pág. 20)

“O contrário da morte” reúne dois relatos que apresentam ao leitor a dura realidade do sul da Itália, região onde os jovens, para escapar da miséria e da falta de perspectivas, são lançados ao Exército ou a Camorra. Nestes dois contos, que não ocupam mais do que 77 páginas, o jornalista descreve as conseqüências desta falta de horizontes sobre a juventude e a submissão da população à violência que domina suas vidas.

A Itália de Saviano é, em certos aspectos, muito parecida com o Brasil. É inevitável uma relação entre o submundo comandado pela máfia, seus territórios mantidos a ferro e fogo, seu domínio sobre as vidas das pessoas e a realidade das favelas brasileiras, onde grupos armados, traficantes e milícias tomam posse do território fazendo com que os cidadãos vivam sob as suas leis. Da mesma forma, é clara a relação entre a situação destes jovens italianos e os das comunidades brasileiras que enxergam nestes grupos uma saída para a total ausência de futuro.

A desvalorização da vida humana, a estratégia do terror como arma de dominação é também um paralelo a ser traçado entre a massa de italianos do sul, expostos ao domínio da Camorra e a uma economia dilacerada, e os brasileiros que inflam os bolsões de pobreza de nossas grandes cidades e alimentam as estatísticas da violência gratuita.

Quando morre um sexagenário, quando se morre de doença, o luto se restringe aos parentes mais próximos. Quando morre um jovem, ele deve ser de todos. Como um peso a ser compartilhado ou um infortúnio do qual não se pode escapar.” (Pág. 33)

Os dois contos

No primeiro conto, que dá nome ao livro, Saviano conta a história de Maria, uma jovem de 17 anos, cujo noivo, Enzo, alistou-se voluntariamente no exército para integrar as forças italianas no Afeganistão, com a esperança de conseguir o dinheiro necessário para o casamento. Enzo morre carbonizado dentro de um tanque, após a explosão de uma mina, adiando para sempre os planos de felicidade de Maria. Com este pano de fundo, Saviano expõem a falta de opções dos jovens italianos, que, expostos a subempregos, se submetem às forças armadas como alternativa à miséria.

O segundo conto do livro, “O Anel”, torna ainda mais próximo o drama de italianos e brasileiros que vivem sob a sombra da impunidade e dos poderes paralelos. O conto tem como ponto de partida o desconforto de Saviano ao receber em sua cidade uma amiga do norte e, mais tarde, sua revolta ao deparar-se com o preconceito em relação às jovens vítimas da violência, que, diante de uma visão hipócrita e estereotipada, têm, obrigatoriamente, que ter uma parcela de culpa para terem sido alvos da barbárie engendrada pela Camorra.

"O Anel" conta a história do pedreiro Vincenzo e do marceneiro Giuseppe, de uma reunião de amigos em um domingo, em numa praça de Nápoles, e da violência da Camorra que ceifa vidas como quem despreza um dejeto qualquer. Qualquer relação com o recente assassinato do jovem Alcides do Nascimento, no Recife, não é mera coincidência.

A mãe de Giuseppe, desde então, passa os dias na rua. Sentada numa cadeira, perto do tal bar. A qualquer um com que cruza o olhar, ela pergunta: ‘Você aí, vai chamar o Giuseppe pra mim. Ele sempre chega tarde da noite... Amanhã tem que ir trabalhar.’ Todos respondem: ‘Já estou indo', e aí apertam o passo. A mulher observa até onde a miopia lhe permite, ou até que os vultos desaparecem dobrando a esquina, e, então, lentamente, se vira, baixa a cabeça e continua a esperar.” (pág. 91)

Para quem não conhece a história de Saviano, vale uma explicação.

Roberto Saviano nasceu em Nápoles, em 22 de setembro de 1979. Formou-se em Filosofia na Universidade de Nápoles Federico II e, como jornalista, colaborou com veículos como o L'Espresso, La Repubblica e outras revistas incluindo Nuovi Argomenti, Lo Straniero, Nazione Indiana, Sud, além de ter participado de várias antologias como Best Off. Il meglio delle riviste letterarie italiane (2005) e Napoli comincia a Scampia (2005).

Em 2006 lançou Gomorra, uma denúncia contundente do crime organizado na Itália. A partir daí, começou a receber ameaças de morte, o que obrigou as autoridades italianas a fornecer-lhe proteção policial 24 horas por dia. Desde 13 de outubro de 2006 ele vive na clandestinidade e tem de mudar continuamente os seus movimentos por razões de segurança.

A justiça italiana revelou planos contra a vida do escritor arquitetados pelo clan Casalesi, família ligada a Camorra, que teria escalado Giuseppe Setola para a missão. O ministro dos Assuntos do Interior, Giuliano Amato, designou que Saviano saísse de Nápoles e passasse a contar com um grupo de guarda-costas. No outono de 2008, Carmine Schiavone, primo do chefe do clan Casalesi, Francesco Schiavone – que se encontra preso – revelou às autoridades que o grupo planejava matar Saviano e sua escolta no Natal, nas proximidades da auto-estrada entre Roma e Nápoles, em um atentado à bomba. No mesmo período, o escritor anunciou que iria deixar a Itália para não ter que viver como um refém.

Em 20 de outubro de 2008, seis intelectuais e autores premiados com o Nobel (Orhan Pamuk, Dario Fo, Rita Levi Montalcini, Desmond Tutu, Günter Grass e Mikhail Gorbachev) publicaram um artigo no qual declararam seu apoio a Saviano em seu confronto com a Camorra, e declararam que a organização criminosa não é apenas um problema de segurança pública, mas também uma ameaça a democracia. Eles disseram, ainda, que o governo italiano deveria garantir a vida de Saviano e ajudá-lo a retomar sua vida com normalidade. Em apoio a carta, o jornal La Repubblica iniciou uma coleta de assinaturas em apoio ao autor.

Em 10 de dezembro de 2009, na presença do Prêmio Nobel Dario Fo, Saviano recebeu o título de Membro Honorário da Academy of Fine Arts of Brera e o Second Level Academic Diploma in Communication and Art Teaching Honoris Causa, o mais alto reconhecimento oferecido pela Brera Academy.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Poesia aos sábados

Abrindo a Porta

Assim...
Inesperado e certeiro.
O imponderável se derrama
sobre a noite e eu,
na improvável alegria
do amor,
me abstenho da vida,
da lida
e de tudo o que julgava vital.

Só poderia ser assim,
aviltante e febril,
ante à minha rotina vil,
que se repetia sem limite.
E o improvável palpite
de ter-se alguém
junto às manhãs,
se faz verdade.

E meu riso
outrora tão virtuoso,
se redescobre
agora viçoso,
nas auroras da alma.
E na calma de quem
enfim se permite,
transponho meu limite
e me descubro,
assim,
te amando.

A J Lobone, esta semana, no Poema Dia

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um poema

A palavra amor é um caminho
Tortuoso para línguas cansadas
É som que se conhece muito bem
Como o contrário da morte

O caminho da palavra amor
Termina nos olhos de quem escuta
É como letra cuspida por muitas bocas
Como sufocar em orgasmo

Por muitas vozes trafega a palavra amor
Transita entre dentes, alvos, opacos
E mergulha em saliva, entre o palato e a dor

Este poema foi inspirado no livro “O contrário da morte”, de Roberto Saviano

Carnaval dos velhos tempos

Se há alguns anos alguém me dissesse que em uma cidade incrustada no pantanal sul-mato-grossense, fronteiriça à Bolívia, acontece um Carnaval que mantém viva as tradições dos carnavais de antigamente – com direito aos cordões, corsos, blocos de palhaços e marinheiros, pastoras, pierrôs e colombinas - eu acharia tratar-se de uma brincadeira.

Hoje, depois de dez anos vivendo em Mato Grosso do Sul, ainda me espanto ao verificar que este Carnaval dos velhos tempos acontece, de fato, a pouco mais de 400 km de Campo Grande. Todos os anos o estado é brindado com uma viagem no tempo, uma volta ao Rio de Janeiro das décadas de 20 a 40, uma renovação do verdadeiro Carnaval em plena Cidade Branca, Corumbá.

Apesar do carioca pouco conhecer sobre Corumbá, os corumbaenses guardam muito do jeito de ser do carioca, fruto da influência da marinha e, também, dos tempos áureos, quando as ricas famílias corumbaenses enviavam seus filhos para estudar no Rio de Janeiro. Durante o Carnaval, estas semelhanças se intensificam, a ponto de mais de um cronista já ter dito que Corumbá é um grande subúrbio carioca.

Passei neste ano meu terceiro Carnaval em Corumbá, um banho de vida para quem se acostumou à modorrenta programação carnavalesca campo-grandense – se é que existe Carnaval por aqui.

domingo, 14 de fevereiro de 2010