Semana On

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Poesia aos sábados

Abrindo a Porta

Assim...
Inesperado e certeiro.
O imponderável se derrama
sobre a noite e eu,
na improvável alegria
do amor,
me abstenho da vida,
da lida
e de tudo o que julgava vital.

Só poderia ser assim,
aviltante e febril,
ante à minha rotina vil,
que se repetia sem limite.
E o improvável palpite
de ter-se alguém
junto às manhãs,
se faz verdade.

E meu riso
outrora tão virtuoso,
se redescobre
agora viçoso,
nas auroras da alma.
E na calma de quem
enfim se permite,
transponho meu limite
e me descubro,
assim,
te amando.

A J Lobone, esta semana, no Poema Dia

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um poema

A palavra amor é um caminho
Tortuoso para línguas cansadas
É som que se conhece muito bem
Como o contrário da morte

O caminho da palavra amor
Termina nos olhos de quem escuta
É como letra cuspida por muitas bocas
Como sufocar em orgasmo

Por muitas vozes trafega a palavra amor
Transita entre dentes, alvos, opacos
E mergulha em saliva, entre o palato e a dor

Este poema foi inspirado no livro “O contrário da morte”, de Roberto Saviano

Carnaval dos velhos tempos

Se há alguns anos alguém me dissesse que em uma cidade incrustada no pantanal sul-mato-grossense, fronteiriça à Bolívia, acontece um Carnaval que mantém viva as tradições dos carnavais de antigamente – com direito aos cordões, corsos, blocos de palhaços e marinheiros, pastoras, pierrôs e colombinas - eu acharia tratar-se de uma brincadeira.

Hoje, depois de dez anos vivendo em Mato Grosso do Sul, ainda me espanto ao verificar que este Carnaval dos velhos tempos acontece, de fato, a pouco mais de 400 km de Campo Grande. Todos os anos o estado é brindado com uma viagem no tempo, uma volta ao Rio de Janeiro das décadas de 20 a 40, uma renovação do verdadeiro Carnaval em plena Cidade Branca, Corumbá.

Apesar do carioca pouco conhecer sobre Corumbá, os corumbaenses guardam muito do jeito de ser do carioca, fruto da influência da marinha e, também, dos tempos áureos, quando as ricas famílias corumbaenses enviavam seus filhos para estudar no Rio de Janeiro. Durante o Carnaval, estas semelhanças se intensificam, a ponto de mais de um cronista já ter dito que Corumbá é um grande subúrbio carioca.

Passei neste ano meu terceiro Carnaval em Corumbá, um banho de vida para quem se acostumou à modorrenta programação carnavalesca campo-grandense – se é que existe Carnaval por aqui.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Poesia aos sábados

deita teus pés no chão dos palcos
faça arte, pinte o sete
faça parte, ria da própria sorte.

deita teus pés nas nuvens
agarre um pedaço da pele branca
encontre o suor de teus sonhos.

deita teus pés na vida
sê o impensável, o impossível
destranque a porta dos desejos.

deita teus pés no abraço dos rumos
mais que pedra sobre pedra
peito sobre peito...

(*) para os sonhos da amiga e para a amiga dos sonhos.

Cleber Camargo Rodrigues, esta semana, no Poema Dia

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

"A menina que roubava livros" - Markus Zusak

Os seres humanos me assombram”. Assim o escritor australiano Markus Zusak finaliza seu livro “A menina que roubava livros”, colocando na boca da morte um sentimento que inunda meu pensamento. Como somos capazes de fazer o que fazemos? De momentos de sublime amor, de entrega e compaixão, a eternidades de rancor, cobiça, horror?

O livro de Zusak transfere para a morte esta inquietação, este eterno questionamento sobre a condição humana, esta incompreensão do homem sobre si mesmo. “Fico impressionada com o que os seres humanos são capazes de fazer, mesmo quando há torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avançam cambaleando, tossindo e procurando, e encontrando.”, afirma a colhedora de almas na página 466, para, mais à frente (pág. 478), confessar: “Tive vontade de lhe explicar que constantemente superestimo e subestimo a raça humana – que raras vezes simplesmente a estimo.

A morte é a narradora de uma história comovente, a história de uma menina, Lisa Meminger, em meio ao caos moral e social da Alemanha nazista. O tema não é novo, mas o autor construiu uma narrativa bastante original ao estabelecer um diálogo entre o leitor e a morte, entre a fantasia e a realidade crua.

Um aspecto importante do livro é o estabelecimento do contraditório na sociedade alemã sob o advento do nazismo. O autor não foge à regra ao atribuir a população alemã responsabilidade sobre os rumos que o país tomou a partir de 1938, mas aponta rupturas no impenetrável granito do nacional-socialismo. Estas rupturas são apresentadas por personagens que não conseguem fazer seu instinto de sobrevivência se sobrepujar a sua humanidade.

Não se deixe enganar, a mulher tinha coração. Um coração maior do que as pessoas suporiam. Havia muita coisa armazenada nele, em quilômetros de prateleiras altas e ocultas." (Página 463)

É o caso de Hans e Rosa Hubermann, os pais adotivos de Lisa. Hans, veterano da Primeira Grande Guerra, é o elo entre a menina que roubava livros e Max Vandenburg, judeu, filho de um companheiro de armas de Hans a quem este prometera proteger sua família em caso de necessidade. Esta promessa teve de ser cumprida quando Max, fugindo dos nazistas, encontrou abrigo no porão de Hans e Rosa.

O mesmo Hans, que arrisca a sua vida – e a da sua família – ao abrigar um judeu em seu porão, cede à humanidade ao oferecer pão a outro judeu moribundo em sua marcha para o campo de concentração de Dachau. Sua esposa, Rosa, também esconde sob uma grossa carapaça mais humanidade do que aparenta. É ela quem cuida do judeu foragido como se fosse um membro da família, como um ser humano.

Da mesma forma, há muita humanidade em Alex Steiner, pai de Rudy, amigo de Lisa. É ele quem nega a ida do filho adolescente para o exército e acaba tomando seu lugar. Há muito amor em Rudy Steiner, que desafia o racismo ao comparar-se a Jesse Owens, o velocista negro norte-americano que encantou o mundo nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.

Outra fissura no monólito nazista está em Ilsa Hermann, mulher do prefeito de Molching e dona de uma imensa biblioteca na qual Lisa exercita seu amor pelas palavras e pela leitura, o fio condutor do romance.

O fato é que os alemães não são monstros desalmados no livro de Markus Zusak. Se podem ser condenados por sua passividade bovina sob o tacão de Hitler, não são caracterizados como uma massa homogênea guiada pela loucura nazista, o que por si só faz de "A menina que roubava livros” uma leitura interessante.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Um poema

Os seres humanos me assombram
E mesmo quando há estrelas queimando meus olhos
Sinto este segredo sentado em minha boca
Mesmo quando tento escapar das garras das palavras
Sinto-o acomodado sobre minha língua
Os seres humanos me apavoram

Este poema foi inspirado em trechos do livro " A menina que roubava livros"

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Israel se sente sob cerco. Como uma vítima. Um viralatas

Estupendo artigo do jornalista inglês Robert Fisk, publicado no The Independent, no último dia 2, relatando o que tratei aqui quarta-feira no artigo "Israel assume uso de fósforo branco em Gaza e inicia guerrilha de informação": a estratégia israelense de negar o inegável e seu pavor de ser deslegitimada perante a comunidade internacional.

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Israel se sente sob cerco. Como uma vítima. Um viralatas
Por Robert Fisk (tradução: Caia Fittipaldi)

E prossegue a guerra de propaganda. Esqueçam que Israel invadiu o Líbano em 1982. Esqueçam os 15 mil libaneses e palestinos mortos. Esqueçam o massacre de Sabra e Shatila no mesmo ano, por milícias aliadas de Israel, enquanto os soldados israelenses assistiam ao massacre. Apague-se para sempre da história o massacre de Qana em 1996 – 106 libaneses mortos sob fogo israelense, mais da metade dos quais, crianças. Apaguem-se, claro, também, os 1.500 mortos por Israel na guerra do Líbano em 2006. E, sim, esqueçam, claro, os mais de 1.300 palestinos massacrados por Israel em Gaza, ano passado (e os 13 israelenses mortos pelo Hamás), como resposta aos foguetes que Hamás lançava contra Sderot. Israel – para quem acreditar no que a elite do setor de segurança da direita de Israel anda dizendo aqui em Herzliya – está sob ataque, o mais perigoso, ataque de violência jamais vista.

A Grã-Bretanha – e essa foi contada por ninguém menos que o embaixador de Israel em Londres! – é “um campo de batalha” no qual os inimigos de Israel tentam “des-legitimar” o Estado judeu aos 62 anos de existência.

Até o conhecido amigo de Israel, e grande juiz judeu, Richard Goldstone, já está reduzido, nas palavras de um dos mais destacados judeu-americanos apoiadores de Israel, Al Dershowitz, à condição de “traidor absoluto do povo judeu” e “homem mau, do mal” (frases que, claro, já foram manchetes nos jornais israelenses de ontem).

Israel sitiada. Esse o tema assustador, velho, incansavelmente repetido e irremediavelmente jamais compreendido da 10ª conferência anual de diplomatas, funcionários, militares cobertos de medalhas e galões e membros do governo israelense, ontem, em Herzliya.

Israel a excluída. Israel a vítima. Israel, a do exército mais perfeitíssimo, exemplo de moralidade a ser copiado por todos os exércitos do mundo... estaria sob sítio, porque há risco de seus generais serem acusados de prática de crimes de guerra, se puserem o pé na Europa.

Deus impeça que oficiais israelenses jamais sejam acusados por aquelas atrocidades! O Jerusalem Post publicou ontem foto da líder do partido Kadima, Tzipi Livni, olhando para um pôster polonês em que é mostrada como “procurada por crimes de guerra em Gaza”. Esqueçam que Livni nada fez, quando os israelenses fizeram chover bombas de fósforo sobre Gaza; e era ministra. Tudo, só, uma mesma campanha de perseguição a Israel, de uso deliberado de leis internacionais para des-legitimar o Estado de Israel – como sempre que Israel foi condenada. Assim seria, se fosse! Mas não é. A atual crise de identidade é, sim, uma tragédia para Israel – mas não pelas razões que o atual governo d e extrema direita tanto se esforça para disseminar para a opinião pública.

Lembro perfeitamente, depois da desastrada invasão israelense contra o Líbano, em 1982, que se organizou enorme conferência em Londres, para descobrir por que a “propaganda” israelense fracassara. O massacre de libaneses e o número crescente de baixas no exército de Israel? Esqueçam! O que interessava era entender o grande mistério: como podia ter acontecido de a propaganda israelense ter fracassado? Como podia ter acontecido de a imprensa antissemita ter conseguido publicar calúnias contra Israel? Foi conferência idêntica à que está reunida essa semana em Herzliya.

Hoje, se trata de fazer esquecer a Operação Chumbo Derretido contra Gaza e a selvageria e os muitos mortos. É necessário condenar o Relatório Goldstone e aquelas inadmissíveis mentiras – de que o exército dos bons israelenses teria cometido crimes de guerra contra terroristas do mal – e todos têm de convencer-se de que Israel só deseja a paz.

A verdade é mais simples. De fato, Israel cometeu uma série de terríveis erros diplomáticos. Não falo da humilhação imposta ao embaixador turco por Danny Ayalon, do ministério dos Negócios Exteriores – o qual também estava presente à conferência em Herzliya. Não falo tampouco do patético protesto apresentado por Ron Prossor, embaixador de Israel em Londres, segundo o qual haveria “uma cacofonia de vozes vindas de Israel”, em vez de uma única voz.

Nada disso. O mais grave erro que Israel cometeu em anos recentes foi ter-se recusado a contribuir para as investigações propostas no Relatório Goldstone sobre o massacre de Gaza em 2008-09. “Boicote tolo”, como o chamou o diário Haaretz. Completo desastre, na avaliação da esquerda liberal israelense, que percebeu, acertadamente, que o boicote às investigações pôs Israel no mesmo nível do Hamás.

Passei horas assistindo à conferência em Herzliya – que terminará amanhã à noite, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fazendo-se de líder de torcida organizada –, e o Relatório Goldstone e o medo da “des-legitimação” percorria praticamente todas as discussões, como fio de costura.

Ontem, sentei-me ao lado de um estudante israelense de pós-graduação e vi-o balançar a cabeça, em desespero. “Eu e meus amigos estamos terrivelmente frustrados, ao ouvir nosso governo dizer o que dizem aí. O que podemos dizer? O que podemos fazer?” Foi comentário muito lúcido. Foi exatamente o que milhões de britânicos sentimos quando Tony Blair nos arrastou para a guerra, sob uma catarata de mentiras, em 2003.

Um dos momentos mais constrangedores em Herzliya aconteceu quando Lorna Fitzsimons, ex-deputada do partido Labour e hoje presidente do Bicom, think-tank britânico pró-Israel, disse que “a opinião pública não tem qualquer influência na política externa britânica. Política externa é tema para as elites.” A implicação? Negocie com a elite, e tudo dará sempre certo. “Nossos inimigos estão buscando cortes internacionais nas quais não temos voz”, disse ela.

Em certo sentido, aí está dito tudo. O que Israel busca é legitimidade internacional. E como Estado, Israel é legítima. Israel foi criada pela ONU. E, como disse Avi Shlaim, historiador israelense, a criação de Israel pode não ter sido justa – mas é legítima. Pois é. Só que, quando uma equipe de juízes internacionais convidou Israel a participar das investigações, Netanyahu pomposamente rejeitou o convite.

Nesse sentido, a guerra de Gaza expôs o que há de mais profundamente inconsistente e contraditório no atual corpo político que governa Israel. Desejam que o mundo reconheça a democracia israelense – por mais cheia de falhas que seja –, mas não dão ouvidos ao mundo quando o mundo pede contas a Israel sobre o que fez em Gaza. Israel quer ser um farol para as nações do mundo, mas impede que o mundo examine de perto o tal farol, que analise o combustível que mantém acesa a luz e que conheça de perto o mundo que o tal farol ilumina.

Goldstone, Goldstone, Goldstone. O nome do eminente juiz e jurista que tão valentemente buscou justiça para as vítimas assassinadas e violadas pelos sérvios na guerra da Bósnia – e cuja coragem, daquela vez, tanto inspirou o mundo, inclusive Israel – esteve na boca de todos os apologistas do atual governo de Israel, na conferência de Herzliya.

Tzipi Livni falou sobre ele. Yossi Gal, diretor geral do ministério de Negócios Exteriores de Israel, também falou. Referiu-se à “tentativa de usar o Relatório Goldstone para empurrar Israel até a margem da legitimidade”. Malcolm Hoenlein, da Conferência de Presidentes das Organizações Judeu-norte-americanas” também falou. Observou que o governo dos EUA havia sido “extraordinariamente sensível” – quer dizer: ignorou completamente – o Relatório Goldstone. E até o embaixador dos EUA em Israel, James Cunningham, cara-de-rato, sugeriu que o Relatório Goldstone poderia estar sendo usado como tentativa para des-legitimar Israel.

Que loucurada é essa? Depois do massacre em 1982 dos palestinos em Sabra e Shatila, o governo de Israel nomeou uma comissão governamental de inquérito. O relatório da Comissão Kahan não foi perfeito – mas que outra nação do Oriente Médio examinaria tão corajosamente os próprios pecados? O relatório denunciava diretamente a “responsabilidade pessoal” do ministro da Defesa, Ariel Sharon – que autorizou o ataque pelas milícias libanesas. Esse relatório não purgou todas as culpas de Israel, mas provou que aquela Israel era Estado respeitável, Estado, então, preparado para enfrentar aqueles crimes com seriedade, sem fugir das investigações.

Desgraçadamente para Israel, não há comissões Kahan para julgar a Israel de hoje. Nenhum tribunal para julgar Gaza. Apenas um tapinha na mão de uns poucos oficiais que usaram bombas de fósforo e acusação formal contra um soldado que roubou cartões de crédito.

Estive com o juiz Goldstone depois de ele ter sido designado para presidir o tribunal para crimes de guerra na ex-Yugoslávia em Haia. Homem palpavelmente decente, honesto; disse que o mundo acabou por cansar-se de admitir que governos pratiquem impunemente crimes de guerra. Falava, é claro, sobre Milosevic. Escreveu um livro sobre isso, que Israel elogiou calorosamente. Pois hoje o juiz Goldstone é o terremoto que ameaça a legitimidade de Israel.

Encontrei ontem à tarde em Telavive o coronel da reserva israelense Shaul Arieli, homem excepcionalmente sensível, no escritório de sua ONG, e discutimos a situação atual, em que militares e políticos israelenses estão ameaçados de serem presos, acusados de prática de crimes de guerra, no instante em que pisem em território britânico e em alguns outros países europeus.

“Essa questão nos preocupa muito mais hoje, do que há alguns anos” – disse-me ele. “Temos medo dessa tendência, depois da Operação Chumbo Derretido. Compromete a imagem de Israel em todo o mundo; não diz respeito exclusivamente aos militares e políticos. Se forem formalmente acusados em Israel, será como Israel declarar que não pode proteger seus soldados. O Relatório Goldstone afeta campos profundos.”

Tudo isso sugere que o verdadeiro terremoto que sacode Israel, o que realmente ameaça sua imagem, posição e legitimidade, o verdadeiro perigo, hoje, é uma nação chamada Israel.