Os seres humanos me assombram
E mesmo quando há estrelas queimando meus olhos
Sinto este segredo sentado em minha boca
Mesmo quando tento escapar das garras das palavras
Sinto-o acomodado sobre minha língua
Os seres humanos me apavoram
Este poema foi inspirado em trechos do livro " A menina que roubava livros"
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Israel se sente sob cerco. Como uma vítima. Um viralatas
Estupendo artigo do jornalista inglês Robert Fisk, publicado no The Independent, no último dia 2, relatando o que tratei aqui quarta-feira no artigo "Israel assume uso de fósforo branco em Gaza e inicia guerrilha de informação": a estratégia israelense de negar o inegável e seu pavor de ser deslegitimada perante a comunidade internacional.
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Israel se sente sob cerco. Como uma vítima. Um viralatas
Por Robert Fisk (tradução: Caia Fittipaldi)
E prossegue a guerra de propaganda. Esqueçam que Israel invadiu o Líbano em 1982. Esqueçam os 15 mil libaneses e palestinos mortos. Esqueçam o massacre de Sabra e Shatila no mesmo ano, por milícias aliadas de Israel, enquanto os soldados israelenses assistiam ao massacre. Apague-se para sempre da história o massacre de Qana em 1996 – 106 libaneses mortos sob fogo israelense, mais da metade dos quais, crianças. Apaguem-se, claro, também, os 1.500 mortos por Israel na guerra do Líbano em 2006. E, sim, esqueçam, claro, os mais de 1.300 palestinos massacrados por Israel em Gaza, ano passado (e os 13 israelenses mortos pelo Hamás), como resposta aos foguetes que Hamás lançava contra Sderot. Israel – para quem acreditar no que a elite do setor de segurança da direita de Israel anda dizendo aqui em Herzliya – está sob ataque, o mais perigoso, ataque de violência jamais vista.
A Grã-Bretanha – e essa foi contada por ninguém menos que o embaixador de Israel em Londres! – é “um campo de batalha” no qual os inimigos de Israel tentam “des-legitimar” o Estado judeu aos 62 anos de existência.
Até o conhecido amigo de Israel, e grande juiz judeu, Richard Goldstone, já está reduzido, nas palavras de um dos mais destacados judeu-americanos apoiadores de Israel, Al Dershowitz, à condição de “traidor absoluto do povo judeu” e “homem mau, do mal” (frases que, claro, já foram manchetes nos jornais israelenses de ontem).
Israel sitiada. Esse o tema assustador, velho, incansavelmente repetido e irremediavelmente jamais compreendido da 10ª conferência anual de diplomatas, funcionários, militares cobertos de medalhas e galões e membros do governo israelense, ontem, em Herzliya.
Israel a excluída. Israel a vítima. Israel, a do exército mais perfeitíssimo, exemplo de moralidade a ser copiado por todos os exércitos do mundo... estaria sob sítio, porque há risco de seus generais serem acusados de prática de crimes de guerra, se puserem o pé na Europa.
Deus impeça que oficiais israelenses jamais sejam acusados por aquelas atrocidades! O Jerusalem Post publicou ontem foto da líder do partido Kadima, Tzipi Livni, olhando para um pôster polonês em que é mostrada como “procurada por crimes de guerra em Gaza”. Esqueçam que Livni nada fez, quando os israelenses fizeram chover bombas de fósforo sobre Gaza; e era ministra. Tudo, só, uma mesma campanha de perseguição a Israel, de uso deliberado de leis internacionais para des-legitimar o Estado de Israel – como sempre que Israel foi condenada. Assim seria, se fosse! Mas não é. A atual crise de identidade é, sim, uma tragédia para Israel – mas não pelas razões que o atual governo d e extrema direita tanto se esforça para disseminar para a opinião pública.
Lembro perfeitamente, depois da desastrada invasão israelense contra o Líbano, em 1982, que se organizou enorme conferência em Londres, para descobrir por que a “propaganda” israelense fracassara. O massacre de libaneses e o número crescente de baixas no exército de Israel? Esqueçam! O que interessava era entender o grande mistério: como podia ter acontecido de a propaganda israelense ter fracassado? Como podia ter acontecido de a imprensa antissemita ter conseguido publicar calúnias contra Israel? Foi conferência idêntica à que está reunida essa semana em Herzliya.
Hoje, se trata de fazer esquecer a Operação Chumbo Derretido contra Gaza e a selvageria e os muitos mortos. É necessário condenar o Relatório Goldstone e aquelas inadmissíveis mentiras – de que o exército dos bons israelenses teria cometido crimes de guerra contra terroristas do mal – e todos têm de convencer-se de que Israel só deseja a paz.
A verdade é mais simples. De fato, Israel cometeu uma série de terríveis erros diplomáticos. Não falo da humilhação imposta ao embaixador turco por Danny Ayalon, do ministério dos Negócios Exteriores – o qual também estava presente à conferência em Herzliya. Não falo tampouco do patético protesto apresentado por Ron Prossor, embaixador de Israel em Londres, segundo o qual haveria “uma cacofonia de vozes vindas de Israel”, em vez de uma única voz.
Nada disso. O mais grave erro que Israel cometeu em anos recentes foi ter-se recusado a contribuir para as investigações propostas no Relatório Goldstone sobre o massacre de Gaza em 2008-09. “Boicote tolo”, como o chamou o diário Haaretz. Completo desastre, na avaliação da esquerda liberal israelense, que percebeu, acertadamente, que o boicote às investigações pôs Israel no mesmo nível do Hamás.
Passei horas assistindo à conferência em Herzliya – que terminará amanhã à noite, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fazendo-se de líder de torcida organizada –, e o Relatório Goldstone e o medo da “des-legitimação” percorria praticamente todas as discussões, como fio de costura.
Ontem, sentei-me ao lado de um estudante israelense de pós-graduação e vi-o balançar a cabeça, em desespero. “Eu e meus amigos estamos terrivelmente frustrados, ao ouvir nosso governo dizer o que dizem aí. O que podemos dizer? O que podemos fazer?” Foi comentário muito lúcido. Foi exatamente o que milhões de britânicos sentimos quando Tony Blair nos arrastou para a guerra, sob uma catarata de mentiras, em 2003.
Um dos momentos mais constrangedores em Herzliya aconteceu quando Lorna Fitzsimons, ex-deputada do partido Labour e hoje presidente do Bicom, think-tank britânico pró-Israel, disse que “a opinião pública não tem qualquer influência na política externa britânica. Política externa é tema para as elites.” A implicação? Negocie com a elite, e tudo dará sempre certo. “Nossos inimigos estão buscando cortes internacionais nas quais não temos voz”, disse ela.
Em certo sentido, aí está dito tudo. O que Israel busca é legitimidade internacional. E como Estado, Israel é legítima. Israel foi criada pela ONU. E, como disse Avi Shlaim, historiador israelense, a criação de Israel pode não ter sido justa – mas é legítima. Pois é. Só que, quando uma equipe de juízes internacionais convidou Israel a participar das investigações, Netanyahu pomposamente rejeitou o convite.
Nesse sentido, a guerra de Gaza expôs o que há de mais profundamente inconsistente e contraditório no atual corpo político que governa Israel. Desejam que o mundo reconheça a democracia israelense – por mais cheia de falhas que seja –, mas não dão ouvidos ao mundo quando o mundo pede contas a Israel sobre o que fez em Gaza. Israel quer ser um farol para as nações do mundo, mas impede que o mundo examine de perto o tal farol, que analise o combustível que mantém acesa a luz e que conheça de perto o mundo que o tal farol ilumina.
Goldstone, Goldstone, Goldstone. O nome do eminente juiz e jurista que tão valentemente buscou justiça para as vítimas assassinadas e violadas pelos sérvios na guerra da Bósnia – e cuja coragem, daquela vez, tanto inspirou o mundo, inclusive Israel – esteve na boca de todos os apologistas do atual governo de Israel, na conferência de Herzliya.
Tzipi Livni falou sobre ele. Yossi Gal, diretor geral do ministério de Negócios Exteriores de Israel, também falou. Referiu-se à “tentativa de usar o Relatório Goldstone para empurrar Israel até a margem da legitimidade”. Malcolm Hoenlein, da Conferência de Presidentes das Organizações Judeu-norte-americanas” também falou. Observou que o governo dos EUA havia sido “extraordinariamente sensível” – quer dizer: ignorou completamente – o Relatório Goldstone. E até o embaixador dos EUA em Israel, James Cunningham, cara-de-rato, sugeriu que o Relatório Goldstone poderia estar sendo usado como tentativa para des-legitimar Israel.
Que loucurada é essa? Depois do massacre em 1982 dos palestinos em Sabra e Shatila, o governo de Israel nomeou uma comissão governamental de inquérito. O relatório da Comissão Kahan não foi perfeito – mas que outra nação do Oriente Médio examinaria tão corajosamente os próprios pecados? O relatório denunciava diretamente a “responsabilidade pessoal” do ministro da Defesa, Ariel Sharon – que autorizou o ataque pelas milícias libanesas. Esse relatório não purgou todas as culpas de Israel, mas provou que aquela Israel era Estado respeitável, Estado, então, preparado para enfrentar aqueles crimes com seriedade, sem fugir das investigações.
Desgraçadamente para Israel, não há comissões Kahan para julgar a Israel de hoje. Nenhum tribunal para julgar Gaza. Apenas um tapinha na mão de uns poucos oficiais que usaram bombas de fósforo e acusação formal contra um soldado que roubou cartões de crédito.
Estive com o juiz Goldstone depois de ele ter sido designado para presidir o tribunal para crimes de guerra na ex-Yugoslávia em Haia. Homem palpavelmente decente, honesto; disse que o mundo acabou por cansar-se de admitir que governos pratiquem impunemente crimes de guerra. Falava, é claro, sobre Milosevic. Escreveu um livro sobre isso, que Israel elogiou calorosamente. Pois hoje o juiz Goldstone é o terremoto que ameaça a legitimidade de Israel.
Encontrei ontem à tarde em Telavive o coronel da reserva israelense Shaul Arieli, homem excepcionalmente sensível, no escritório de sua ONG, e discutimos a situação atual, em que militares e políticos israelenses estão ameaçados de serem presos, acusados de prática de crimes de guerra, no instante em que pisem em território britânico e em alguns outros países europeus.
“Essa questão nos preocupa muito mais hoje, do que há alguns anos” – disse-me ele. “Temos medo dessa tendência, depois da Operação Chumbo Derretido. Compromete a imagem de Israel em todo o mundo; não diz respeito exclusivamente aos militares e políticos. Se forem formalmente acusados em Israel, será como Israel declarar que não pode proteger seus soldados. O Relatório Goldstone afeta campos profundos.”
Tudo isso sugere que o verdadeiro terremoto que sacode Israel, o que realmente ameaça sua imagem, posição e legitimidade, o verdadeiro perigo, hoje, é uma nação chamada Israel.
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Israel se sente sob cerco. Como uma vítima. Um viralatas
Por Robert Fisk (tradução: Caia Fittipaldi)
E prossegue a guerra de propaganda. Esqueçam que Israel invadiu o Líbano em 1982. Esqueçam os 15 mil libaneses e palestinos mortos. Esqueçam o massacre de Sabra e Shatila no mesmo ano, por milícias aliadas de Israel, enquanto os soldados israelenses assistiam ao massacre. Apague-se para sempre da história o massacre de Qana em 1996 – 106 libaneses mortos sob fogo israelense, mais da metade dos quais, crianças. Apaguem-se, claro, também, os 1.500 mortos por Israel na guerra do Líbano em 2006. E, sim, esqueçam, claro, os mais de 1.300 palestinos massacrados por Israel em Gaza, ano passado (e os 13 israelenses mortos pelo Hamás), como resposta aos foguetes que Hamás lançava contra Sderot. Israel – para quem acreditar no que a elite do setor de segurança da direita de Israel anda dizendo aqui em Herzliya – está sob ataque, o mais perigoso, ataque de violência jamais vista.
A Grã-Bretanha – e essa foi contada por ninguém menos que o embaixador de Israel em Londres! – é “um campo de batalha” no qual os inimigos de Israel tentam “des-legitimar” o Estado judeu aos 62 anos de existência.
Até o conhecido amigo de Israel, e grande juiz judeu, Richard Goldstone, já está reduzido, nas palavras de um dos mais destacados judeu-americanos apoiadores de Israel, Al Dershowitz, à condição de “traidor absoluto do povo judeu” e “homem mau, do mal” (frases que, claro, já foram manchetes nos jornais israelenses de ontem).
Israel sitiada. Esse o tema assustador, velho, incansavelmente repetido e irremediavelmente jamais compreendido da 10ª conferência anual de diplomatas, funcionários, militares cobertos de medalhas e galões e membros do governo israelense, ontem, em Herzliya.
Israel a excluída. Israel a vítima. Israel, a do exército mais perfeitíssimo, exemplo de moralidade a ser copiado por todos os exércitos do mundo... estaria sob sítio, porque há risco de seus generais serem acusados de prática de crimes de guerra, se puserem o pé na Europa.
Deus impeça que oficiais israelenses jamais sejam acusados por aquelas atrocidades! O Jerusalem Post publicou ontem foto da líder do partido Kadima, Tzipi Livni, olhando para um pôster polonês em que é mostrada como “procurada por crimes de guerra em Gaza”. Esqueçam que Livni nada fez, quando os israelenses fizeram chover bombas de fósforo sobre Gaza; e era ministra. Tudo, só, uma mesma campanha de perseguição a Israel, de uso deliberado de leis internacionais para des-legitimar o Estado de Israel – como sempre que Israel foi condenada. Assim seria, se fosse! Mas não é. A atual crise de identidade é, sim, uma tragédia para Israel – mas não pelas razões que o atual governo d e extrema direita tanto se esforça para disseminar para a opinião pública.
Lembro perfeitamente, depois da desastrada invasão israelense contra o Líbano, em 1982, que se organizou enorme conferência em Londres, para descobrir por que a “propaganda” israelense fracassara. O massacre de libaneses e o número crescente de baixas no exército de Israel? Esqueçam! O que interessava era entender o grande mistério: como podia ter acontecido de a propaganda israelense ter fracassado? Como podia ter acontecido de a imprensa antissemita ter conseguido publicar calúnias contra Israel? Foi conferência idêntica à que está reunida essa semana em Herzliya.
Hoje, se trata de fazer esquecer a Operação Chumbo Derretido contra Gaza e a selvageria e os muitos mortos. É necessário condenar o Relatório Goldstone e aquelas inadmissíveis mentiras – de que o exército dos bons israelenses teria cometido crimes de guerra contra terroristas do mal – e todos têm de convencer-se de que Israel só deseja a paz.
A verdade é mais simples. De fato, Israel cometeu uma série de terríveis erros diplomáticos. Não falo da humilhação imposta ao embaixador turco por Danny Ayalon, do ministério dos Negócios Exteriores – o qual também estava presente à conferência em Herzliya. Não falo tampouco do patético protesto apresentado por Ron Prossor, embaixador de Israel em Londres, segundo o qual haveria “uma cacofonia de vozes vindas de Israel”, em vez de uma única voz.
Nada disso. O mais grave erro que Israel cometeu em anos recentes foi ter-se recusado a contribuir para as investigações propostas no Relatório Goldstone sobre o massacre de Gaza em 2008-09. “Boicote tolo”, como o chamou o diário Haaretz. Completo desastre, na avaliação da esquerda liberal israelense, que percebeu, acertadamente, que o boicote às investigações pôs Israel no mesmo nível do Hamás.
Passei horas assistindo à conferência em Herzliya – que terminará amanhã à noite, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fazendo-se de líder de torcida organizada –, e o Relatório Goldstone e o medo da “des-legitimação” percorria praticamente todas as discussões, como fio de costura.
Ontem, sentei-me ao lado de um estudante israelense de pós-graduação e vi-o balançar a cabeça, em desespero. “Eu e meus amigos estamos terrivelmente frustrados, ao ouvir nosso governo dizer o que dizem aí. O que podemos dizer? O que podemos fazer?” Foi comentário muito lúcido. Foi exatamente o que milhões de britânicos sentimos quando Tony Blair nos arrastou para a guerra, sob uma catarata de mentiras, em 2003.
Um dos momentos mais constrangedores em Herzliya aconteceu quando Lorna Fitzsimons, ex-deputada do partido Labour e hoje presidente do Bicom, think-tank britânico pró-Israel, disse que “a opinião pública não tem qualquer influência na política externa britânica. Política externa é tema para as elites.” A implicação? Negocie com a elite, e tudo dará sempre certo. “Nossos inimigos estão buscando cortes internacionais nas quais não temos voz”, disse ela.
Em certo sentido, aí está dito tudo. O que Israel busca é legitimidade internacional. E como Estado, Israel é legítima. Israel foi criada pela ONU. E, como disse Avi Shlaim, historiador israelense, a criação de Israel pode não ter sido justa – mas é legítima. Pois é. Só que, quando uma equipe de juízes internacionais convidou Israel a participar das investigações, Netanyahu pomposamente rejeitou o convite.
Nesse sentido, a guerra de Gaza expôs o que há de mais profundamente inconsistente e contraditório no atual corpo político que governa Israel. Desejam que o mundo reconheça a democracia israelense – por mais cheia de falhas que seja –, mas não dão ouvidos ao mundo quando o mundo pede contas a Israel sobre o que fez em Gaza. Israel quer ser um farol para as nações do mundo, mas impede que o mundo examine de perto o tal farol, que analise o combustível que mantém acesa a luz e que conheça de perto o mundo que o tal farol ilumina.
Goldstone, Goldstone, Goldstone. O nome do eminente juiz e jurista que tão valentemente buscou justiça para as vítimas assassinadas e violadas pelos sérvios na guerra da Bósnia – e cuja coragem, daquela vez, tanto inspirou o mundo, inclusive Israel – esteve na boca de todos os apologistas do atual governo de Israel, na conferência de Herzliya.
Tzipi Livni falou sobre ele. Yossi Gal, diretor geral do ministério de Negócios Exteriores de Israel, também falou. Referiu-se à “tentativa de usar o Relatório Goldstone para empurrar Israel até a margem da legitimidade”. Malcolm Hoenlein, da Conferência de Presidentes das Organizações Judeu-norte-americanas” também falou. Observou que o governo dos EUA havia sido “extraordinariamente sensível” – quer dizer: ignorou completamente – o Relatório Goldstone. E até o embaixador dos EUA em Israel, James Cunningham, cara-de-rato, sugeriu que o Relatório Goldstone poderia estar sendo usado como tentativa para des-legitimar Israel.
Que loucurada é essa? Depois do massacre em 1982 dos palestinos em Sabra e Shatila, o governo de Israel nomeou uma comissão governamental de inquérito. O relatório da Comissão Kahan não foi perfeito – mas que outra nação do Oriente Médio examinaria tão corajosamente os próprios pecados? O relatório denunciava diretamente a “responsabilidade pessoal” do ministro da Defesa, Ariel Sharon – que autorizou o ataque pelas milícias libanesas. Esse relatório não purgou todas as culpas de Israel, mas provou que aquela Israel era Estado respeitável, Estado, então, preparado para enfrentar aqueles crimes com seriedade, sem fugir das investigações.
Desgraçadamente para Israel, não há comissões Kahan para julgar a Israel de hoje. Nenhum tribunal para julgar Gaza. Apenas um tapinha na mão de uns poucos oficiais que usaram bombas de fósforo e acusação formal contra um soldado que roubou cartões de crédito.
Estive com o juiz Goldstone depois de ele ter sido designado para presidir o tribunal para crimes de guerra na ex-Yugoslávia em Haia. Homem palpavelmente decente, honesto; disse que o mundo acabou por cansar-se de admitir que governos pratiquem impunemente crimes de guerra. Falava, é claro, sobre Milosevic. Escreveu um livro sobre isso, que Israel elogiou calorosamente. Pois hoje o juiz Goldstone é o terremoto que ameaça a legitimidade de Israel.
Encontrei ontem à tarde em Telavive o coronel da reserva israelense Shaul Arieli, homem excepcionalmente sensível, no escritório de sua ONG, e discutimos a situação atual, em que militares e políticos israelenses estão ameaçados de serem presos, acusados de prática de crimes de guerra, no instante em que pisem em território britânico e em alguns outros países europeus.
“Essa questão nos preocupa muito mais hoje, do que há alguns anos” – disse-me ele. “Temos medo dessa tendência, depois da Operação Chumbo Derretido. Compromete a imagem de Israel em todo o mundo; não diz respeito exclusivamente aos militares e políticos. Se forem formalmente acusados em Israel, será como Israel declarar que não pode proteger seus soldados. O Relatório Goldstone afeta campos profundos.”
Tudo isso sugere que o verdadeiro terremoto que sacode Israel, o que realmente ameaça sua imagem, posição e legitimidade, o verdadeiro perigo, hoje, é uma nação chamada Israel.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Poesia aos sábados
AVISO
se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo,
des-frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.
Sylvia Beirute, esta semana, no Poema Dia
se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo,
des-frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.
Sylvia Beirute, esta semana, no Poema Dia
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
A laicidae e o livre arbítrio
Meu amigo Luiz Felipe (do blog O Mal Humorado) fez hoje uma interessante reflexão sobre a zona de atrito entre a necessidade de estabelecer critérios laicos para o Estado e, ao mesmo tempo, garantir as liberdades individuais que se estendam à religiosidade. O gancho foi a suspensão do visto de um muçulmano pelo governo francês, porque ele impunha a burka à esposa. Para os franceses, a imposição fere dois dos princípios da República: igualdade entre os sexos e o laicismo.
Falei sobre este tema, ano passado, no artigo “Atire a primeira pedra quem apóia a burca”, onde meu foco principal foi diversidade cultural como justificativa para a manutenção de hábitos opressivos.
No artigo "Véu islâmico, laicidade e liberdade religiosa", Paulo Gustavo Guedes Fontes - mestre em direito público pela Universidade de Toulouse (França) e procurador da República em Sergipe – esmiúça esta questão (indico a leitura).
Fontes defende a laicidade do Estado, mas, também a liberdade religiosa, condenando ações que possam restringi-la. Referindo-se as recentes decisões do governo francês de coibir o uso da burca no país, ele aponta a necessidade de critérios em decisões do gênero.
"Contudo, tais medidas podem, sim, ferir gravemente a liberdade de crença e de religião. É compreensível que se proíba o uso de signos religiosos pelos representantes do Estado, como juízes, policiais ou mesmo professores de escolas públicas. Mas que tal proibição atinja o próprio cidadão na sua vida privada, isso constitui uma deturpação do princípio da laicidade.
Não se pode entender a laicidade do Estado sem referência à liberdade religiosa. É a outra face da moeda. Por que razão o Estado deve ser laico? Porque, representando todos os cidadãos, não poderia abraçar uma opção religiosa sem alienar dessa representação os cidadãos de outra crença ou mesmo os que não professem religião alguma. Assim, a liberdade de religião, aliada a uma nova concepção do Estado e da igualdade, está na origem da laicidade.
De qualquer forma, é aos agentes e funcionários do Estado que o princípio da laicidade se dirige, vedando que expressem, no exercício da função pública, suas preferências religiosas. Os edifícios públicos, da mesma maneira, deveriam manifestar essa neutralidade diante da religião.
A laicidade é exigida sempre do Estado, nunca do cidadão, do particular, para o qual vale a liberdade de professar qualquer crença ou religião. A menina que vai à escola francesa não representa o Estado. É para que os cidadãos possam usar crucifixos, véus ou quaisquer signos religiosos que o Estado se laicizou, que se tornou neutro diante da opção religiosa."
Falando especificamente do uso da burca por estudantes francesas de fé islâmica, Fontes aponta os limites do Estado: "Vedar à jovem o uso do véu islâmico, mesmo na escola pública, é violentar sua liberdade religiosa, mormente pela importância que essa questão tem para as mulheres muçulmanas. Vedar o seu uso no território de um país é medida que remete às guerras de religião. O que tem sido professado na França é uma deturpação da laicidade, o laicismo, versão militante daquela. Ele perde de vista a liberdade religiosa e quer impor à população uma forma de secularização."
Acho que estas ponderações são fortes e têm fundamento. Além disso, é preciso estabelecer critérios baseados no livre arbítrio. Se uma jovem opta por usar a burca em sua casa ou em espaços públicos ela deve ser respeitada. Da mesma forma, deve ser respeitada a opção de uma jovem católica que opte por passar a vida enclausurada em um hábito. O que não se pode admitir, penso eu, é que estes padrões sejam impostos às pessoas por grupos religiosos.
Falei sobre este tema, ano passado, no artigo “Atire a primeira pedra quem apóia a burca”, onde meu foco principal foi diversidade cultural como justificativa para a manutenção de hábitos opressivos.
No artigo "Véu islâmico, laicidade e liberdade religiosa", Paulo Gustavo Guedes Fontes - mestre em direito público pela Universidade de Toulouse (França) e procurador da República em Sergipe – esmiúça esta questão (indico a leitura).
Fontes defende a laicidade do Estado, mas, também a liberdade religiosa, condenando ações que possam restringi-la. Referindo-se as recentes decisões do governo francês de coibir o uso da burca no país, ele aponta a necessidade de critérios em decisões do gênero.
"Contudo, tais medidas podem, sim, ferir gravemente a liberdade de crença e de religião. É compreensível que se proíba o uso de signos religiosos pelos representantes do Estado, como juízes, policiais ou mesmo professores de escolas públicas. Mas que tal proibição atinja o próprio cidadão na sua vida privada, isso constitui uma deturpação do princípio da laicidade.
Não se pode entender a laicidade do Estado sem referência à liberdade religiosa. É a outra face da moeda. Por que razão o Estado deve ser laico? Porque, representando todos os cidadãos, não poderia abraçar uma opção religiosa sem alienar dessa representação os cidadãos de outra crença ou mesmo os que não professem religião alguma. Assim, a liberdade de religião, aliada a uma nova concepção do Estado e da igualdade, está na origem da laicidade.
De qualquer forma, é aos agentes e funcionários do Estado que o princípio da laicidade se dirige, vedando que expressem, no exercício da função pública, suas preferências religiosas. Os edifícios públicos, da mesma maneira, deveriam manifestar essa neutralidade diante da religião.
A laicidade é exigida sempre do Estado, nunca do cidadão, do particular, para o qual vale a liberdade de professar qualquer crença ou religião. A menina que vai à escola francesa não representa o Estado. É para que os cidadãos possam usar crucifixos, véus ou quaisquer signos religiosos que o Estado se laicizou, que se tornou neutro diante da opção religiosa."
Falando especificamente do uso da burca por estudantes francesas de fé islâmica, Fontes aponta os limites do Estado: "Vedar à jovem o uso do véu islâmico, mesmo na escola pública, é violentar sua liberdade religiosa, mormente pela importância que essa questão tem para as mulheres muçulmanas. Vedar o seu uso no território de um país é medida que remete às guerras de religião. O que tem sido professado na França é uma deturpação da laicidade, o laicismo, versão militante daquela. Ele perde de vista a liberdade religiosa e quer impor à população uma forma de secularização."
Acho que estas ponderações são fortes e têm fundamento. Além disso, é preciso estabelecer critérios baseados no livre arbítrio. Se uma jovem opta por usar a burca em sua casa ou em espaços públicos ela deve ser respeitada. Da mesma forma, deve ser respeitada a opção de uma jovem católica que opte por passar a vida enclausurada em um hábito. O que não se pode admitir, penso eu, é que estes padrões sejam impostos às pessoas por grupos religiosos.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Israel assume uso de fósforo branco em Gaza e inicia guerrilha de informação
“Ela estava brincando com seu telefone celular e então, de repente, um foguete veio por cima dela e a queimou. Um pedaço de estilhaço grudou no rosto dela e a queimou até o osso. E daqui até aqui todo seu estômago foi queimado. Não havia mais nada nela. Ela não chorou em nenhum momento, nem uma lágrima caiu dos seus olhos. Ela nem gritou. Eles a trouxeram para o hospital, mas ela morreu. Estávamos sentados em um círculo quando a bomba veio e nos atingiu. Meu avô foi partido ao meio. A bomba de fósforo começou a cair sobre a casa. Um pedaço acertou minha irmã e a matou. Meu primo estava sentado na porta. Uma bomba o atingiu nos olhos e o queimou também.”
O relato acima é de Ayman al Najar, 13 anos. Ele perdeu a irmã, o avô e um primo em um bombardeio com fósforo branco no dia 14 de janeiro de 2009, em Khoza'a, sudoeste de Gaza.
O relato acima é de Ayman al Najar, 13 anos. Ele perdeu a irmã, o avô e um primo em um bombardeio com fósforo branco no dia 14 de janeiro de 2009, em Khoza'a, sudoeste de Gaza.
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O Exército israelense submeteu dois oficiais a punição disciplinar por terem autorizado a utilização de fósforo branco no bombardeio ao bairro de Tel El Hawa, no dia 15 de janeiro de 2009, durante a ofensiva contra o Hamas na qual morreram 13 israelenses e 1400 palestinos (960 civis – boa parte crianças e adolescentes, 239 policiais e 235 militantes) e que deixou outras 6 mil pessoas feridas. Segundo o documento enviado à ONU pelo Exército israelense, um general de brigada e um comandante de divisão sofreram “punição disciplinar” por terem "arriscado vidas humanas".
Apesar de ONGs de defesa dos direitos humanos exigirem que Israel nomeie uma comissão independente para investigar os atos do Exército e não considerarem suficientes as investigações internas, esta foi a primeira vez que Israel admitiu a utilização de fósforo branco sobre alvos civis na Faixa de Gaza. Mas, não se iluda o leitor, este não é um ponto de inflexão na política de Israel para com os territórios palestinos ocupados, não é um mea culpa pelas atrocidades contra a população civil. Trata-se apenas, como aponta o jornalista Alastair Macdonald, da Reuters, de uma nova política para fazer frente ao enorme desgaste sobre a imagem do país após o Conselho de Direitos Humanos da ONU ter aprovado o Relatório Goldstone.
O documento, assinado pelo ex-promotor do tribunal internacional de crimes de guerra, o juiz sul-africano Richard Goldstone – e por 14 juristas – concluiu que, sob o pretexto de retaliar o Hamas pelo lançamento de foguetes contra o seu território, Israel fez uso desproporcional da força e violou o direito humanitário internacional. As investigações mostraram que os numerosos ataques letais contra civis ou contra alvos civis foram intencionais e que alguns tinham o propósito de disseminar o terror no seio da população civil, sem qualquer objetivo militar.
O relatório disse também que as forças israelenses cometeram graves violações à Quarta Convenção de Genebra, como homicídio intencional, tortura e tratamento desumano, “causando intencionalmente grande sofrimento ou danos graves ao corpo ou à saúde, além da destruição de bens, não justificada por necessidades militares e executada de forma ilegal e arbitrária”.
Negativas
Vale lembrar que antes do envio do documento à ONU, a versão do Exército israelense era de que o fósforo branco teria sido utilizado apenas para "dificultar a visibilidade das tropas pelo inimigo" e não diretamente contra civis.
Quando as primeiras denúncias sobre o uso do armamento atingiram o exército israelense, gente do naipe de Reinaldo Azevedo saiu em defesa de Israel com tiradas como a que segue.
“Todas, rigorosamente todas as ditas ‘atrocidades’ cometidas por Israel têm origem no, como direi?, Departamento de Propaganda do Hamas: do grande número de crianças e civis mortos ao uso de bombas de fragmentação e fósforo branco para atacar pessoas. Este segundo caso, então, pode dar pano para manga. A tal substância não é considerada arma química. É empregada para iluminar alvos noturnos e criar cortina de fumaça para ação da infantaria. Israel nega que tenha feito qualquer coisa fora das leis internacionais. ”
Reinaldo tinha razão... O fósforo branco não é considerado uma arma química e seu uso primário pretende iluminar alvos noturnos (embora haja opções melhores para isso) e criar cortinas de fumaça para a ação da infantaria (apesar deste ter sido o menor problema da infantaria israelense em Gaza). Ocorre que – e aí Azevedo perde a razão, para variar - armas de fósforo são proibidas pelo protocolo III da Convenção da ONU sobre armas convencionais. Este tipo de armamento, independente do objetivo de sua utilização, é considerado arma incendiária e não pode ser usado pelos signatários da convenção, da qual (convenientemente) Israel não é signatário.
O fósforo branco
Ao entrar em contato com a pele, o fósforo branco causa extensas, dolorosas e profundas queimaduras (de segundo e terceiro graus) que não atingem somente a pele, mas também os ossos e os órgãos internos. A substância continua a queimar (a não ser em ambiente privado de oxigênio) até que seja completamente consumida, de forma que as pessoas atingidas, ainda que mergulhem na água, continuarão a queimar ao emergirem para respirar. Uma exposição prolongada, sob qualquer forma, pode ser fatal (veja aqui algumas fotos e vídeos chocantes sobre o poder de destruição do fósforo branco sobre o corpo humana). Segundo a GlobalSecurity.org, as “queimaduras por fósforo carregam um maior risco de mortalidade do que outras formas de queimaduras devido à absorção de fósforo pelo organismo, através da área queimada, resultando em danos ao fígado, coração, rins e, em alguns casos, falência múltipla de órgãos" (veja mais aqui).
A Human Rights Watch é uma organização não-governamental, independente que se dedica há 30 anos à defesa e à proteção dos direitos humanos. Marc Garlasco é o seu analista militar sênior. Veja nesta entrevista o que ele fala sobre o fósforo branco e seu uso pelos israelenses em Gaza.
É público que a densidade populacional na Faixa de Gaza está entre as maiores do mundo. A Faixa inteira compreende não mais de 376 Km quadrados (40 Km de comprimento e cerca de 6 Km a 12 Km de largura). Em Mato Grosso do Sul há fazendas que ultrapassam em muito esta área. Nesse pedaço mínimo de terra se apinham mais de um milhão e meio de pessoas, uma população cuja taxa de crescimento é a mais alta do mundo, cerca de 4,5 % ao ano. A cada 17 ou 20 anos a população de Gaza dobra. Em 2020, por exemplo, sua densidade populacional irá alcançar algo em torno de 6.650 pessoas por quilômetro quadrado.
Foi sobre este formigueiro humano que o Exército israelense lançou bombas recheadas de fósforo branco em janeiro de 2009,
Guerra de informação
Devido a esta e outras violações é que o Relatório Goldstone recomendou que o Conselho de Direitos Humanos da ONU exigisse que o Exército israelense (e também o Hamas) investigasse suas atuações, sob a ameaça de transferir o caso ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Foi sob esta pressão que Israel anunciou a branda punição aos dois oficiais.
Na conferência "Vencendo a Batalha da Narrativa", realizada nesta semana, membros do governo israelense deixaram claro que o país pretende realizar uma ofensiva na guerra de propaganda contra os palestinos e seus apoiadores. Querem evitar que o país se transforme em uma espécie de África do Sul nos tempos do apartheid, um país pária.
Em dezembro, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já havia citado o que classificou como "efeito Goldstone" - processos em tribunais internacionais que poderiam neutralizar a superioridade militar israelense. O medo é que os governos europeus limitem seu apoio a Israel se a opinião pública nesses países se inclinar ainda mais contra as políticas do país para com os palestinos.
Entre as propostas está um significativo aumento dos gastos nas embaixadas, promover a diplomacia "de base" em redes sociais da Internet ou mesmo "relançar a marca" de Israel totalmente.
Trata-se de um equívoco, mas não de um equívoco inesperado. A estratégia segue apenas o que a política israelense para os territórios ocupados sempre preconizou: empurrar a questão com a barriga, aumentar a presença israelense na Cisjordânia, isolar os palestinos na Faixa de Gaza e manter o apoio ocidental. Em nenhum momento debateu-se o mais importante: condições que possibilitem uma paz verdadeira e duradoura. Em nenhum momento houve preocupação com os excessos cometidos pelo Exército israelense sob ordens do Governo daquele país.
Apesar dos pesares há entre os israelenses quem defenda ações propositivas ao invés de maquiagem publicitária. A solução não é uma campanha de relações públicas, mas sim a paz com os palestinos.
-
Algumas fotos, publicadas em janeiro de 2009 pelo Prof. Idelber Avelar em seu blog, mostram claramente o terror da população em meio a um ataque de fósforo branco. em Gaza As fotos foram enviadas por um professor da Universidade Islâmica de Gaza, Ameen Hammad, via Prof. Ricardo Berbara, do Rio de Janeiro.
Os links abaixo levam a reportagens sobre o uso do fósforo branco em Gaza.
http://www.youtube.com/watch?v=ZbxTK1ZC-hw
http://www.youtube.com/watch?v=qfsHeXGVPVw
http://www.youtube.com/watch?v=LhylsQ_pLVg
Apesar de ONGs de defesa dos direitos humanos exigirem que Israel nomeie uma comissão independente para investigar os atos do Exército e não considerarem suficientes as investigações internas, esta foi a primeira vez que Israel admitiu a utilização de fósforo branco sobre alvos civis na Faixa de Gaza. Mas, não se iluda o leitor, este não é um ponto de inflexão na política de Israel para com os territórios palestinos ocupados, não é um mea culpa pelas atrocidades contra a população civil. Trata-se apenas, como aponta o jornalista Alastair Macdonald, da Reuters, de uma nova política para fazer frente ao enorme desgaste sobre a imagem do país após o Conselho de Direitos Humanos da ONU ter aprovado o Relatório Goldstone.
O documento, assinado pelo ex-promotor do tribunal internacional de crimes de guerra, o juiz sul-africano Richard Goldstone – e por 14 juristas – concluiu que, sob o pretexto de retaliar o Hamas pelo lançamento de foguetes contra o seu território, Israel fez uso desproporcional da força e violou o direito humanitário internacional. As investigações mostraram que os numerosos ataques letais contra civis ou contra alvos civis foram intencionais e que alguns tinham o propósito de disseminar o terror no seio da população civil, sem qualquer objetivo militar.
O relatório disse também que as forças israelenses cometeram graves violações à Quarta Convenção de Genebra, como homicídio intencional, tortura e tratamento desumano, “causando intencionalmente grande sofrimento ou danos graves ao corpo ou à saúde, além da destruição de bens, não justificada por necessidades militares e executada de forma ilegal e arbitrária”.
Negativas
Vale lembrar que antes do envio do documento à ONU, a versão do Exército israelense era de que o fósforo branco teria sido utilizado apenas para "dificultar a visibilidade das tropas pelo inimigo" e não diretamente contra civis.
Quando as primeiras denúncias sobre o uso do armamento atingiram o exército israelense, gente do naipe de Reinaldo Azevedo saiu em defesa de Israel com tiradas como a que segue.
“Todas, rigorosamente todas as ditas ‘atrocidades’ cometidas por Israel têm origem no, como direi?, Departamento de Propaganda do Hamas: do grande número de crianças e civis mortos ao uso de bombas de fragmentação e fósforo branco para atacar pessoas. Este segundo caso, então, pode dar pano para manga. A tal substância não é considerada arma química. É empregada para iluminar alvos noturnos e criar cortina de fumaça para ação da infantaria. Israel nega que tenha feito qualquer coisa fora das leis internacionais. ”
Reinaldo tinha razão... O fósforo branco não é considerado uma arma química e seu uso primário pretende iluminar alvos noturnos (embora haja opções melhores para isso) e criar cortinas de fumaça para a ação da infantaria (apesar deste ter sido o menor problema da infantaria israelense em Gaza). Ocorre que – e aí Azevedo perde a razão, para variar - armas de fósforo são proibidas pelo protocolo III da Convenção da ONU sobre armas convencionais. Este tipo de armamento, independente do objetivo de sua utilização, é considerado arma incendiária e não pode ser usado pelos signatários da convenção, da qual (convenientemente) Israel não é signatário.
O fósforo branco
Ao entrar em contato com a pele, o fósforo branco causa extensas, dolorosas e profundas queimaduras (de segundo e terceiro graus) que não atingem somente a pele, mas também os ossos e os órgãos internos. A substância continua a queimar (a não ser em ambiente privado de oxigênio) até que seja completamente consumida, de forma que as pessoas atingidas, ainda que mergulhem na água, continuarão a queimar ao emergirem para respirar. Uma exposição prolongada, sob qualquer forma, pode ser fatal (veja aqui algumas fotos e vídeos chocantes sobre o poder de destruição do fósforo branco sobre o corpo humana). Segundo a GlobalSecurity.org, as “queimaduras por fósforo carregam um maior risco de mortalidade do que outras formas de queimaduras devido à absorção de fósforo pelo organismo, através da área queimada, resultando em danos ao fígado, coração, rins e, em alguns casos, falência múltipla de órgãos" (veja mais aqui).
A Human Rights Watch é uma organização não-governamental, independente que se dedica há 30 anos à defesa e à proteção dos direitos humanos. Marc Garlasco é o seu analista militar sênior. Veja nesta entrevista o que ele fala sobre o fósforo branco e seu uso pelos israelenses em Gaza.
É público que a densidade populacional na Faixa de Gaza está entre as maiores do mundo. A Faixa inteira compreende não mais de 376 Km quadrados (40 Km de comprimento e cerca de 6 Km a 12 Km de largura). Em Mato Grosso do Sul há fazendas que ultrapassam em muito esta área. Nesse pedaço mínimo de terra se apinham mais de um milhão e meio de pessoas, uma população cuja taxa de crescimento é a mais alta do mundo, cerca de 4,5 % ao ano. A cada 17 ou 20 anos a população de Gaza dobra. Em 2020, por exemplo, sua densidade populacional irá alcançar algo em torno de 6.650 pessoas por quilômetro quadrado.
Foi sobre este formigueiro humano que o Exército israelense lançou bombas recheadas de fósforo branco em janeiro de 2009,
Guerra de informação
Devido a esta e outras violações é que o Relatório Goldstone recomendou que o Conselho de Direitos Humanos da ONU exigisse que o Exército israelense (e também o Hamas) investigasse suas atuações, sob a ameaça de transferir o caso ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Foi sob esta pressão que Israel anunciou a branda punição aos dois oficiais.
Na conferência "Vencendo a Batalha da Narrativa", realizada nesta semana, membros do governo israelense deixaram claro que o país pretende realizar uma ofensiva na guerra de propaganda contra os palestinos e seus apoiadores. Querem evitar que o país se transforme em uma espécie de África do Sul nos tempos do apartheid, um país pária.
Em dezembro, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já havia citado o que classificou como "efeito Goldstone" - processos em tribunais internacionais que poderiam neutralizar a superioridade militar israelense. O medo é que os governos europeus limitem seu apoio a Israel se a opinião pública nesses países se inclinar ainda mais contra as políticas do país para com os palestinos.
Entre as propostas está um significativo aumento dos gastos nas embaixadas, promover a diplomacia "de base" em redes sociais da Internet ou mesmo "relançar a marca" de Israel totalmente.
Trata-se de um equívoco, mas não de um equívoco inesperado. A estratégia segue apenas o que a política israelense para os territórios ocupados sempre preconizou: empurrar a questão com a barriga, aumentar a presença israelense na Cisjordânia, isolar os palestinos na Faixa de Gaza e manter o apoio ocidental. Em nenhum momento debateu-se o mais importante: condições que possibilitem uma paz verdadeira e duradoura. Em nenhum momento houve preocupação com os excessos cometidos pelo Exército israelense sob ordens do Governo daquele país.
Apesar dos pesares há entre os israelenses quem defenda ações propositivas ao invés de maquiagem publicitária. A solução não é uma campanha de relações públicas, mas sim a paz com os palestinos.
-
Algumas fotos, publicadas em janeiro de 2009 pelo Prof. Idelber Avelar em seu blog, mostram claramente o terror da população em meio a um ataque de fósforo branco. em Gaza As fotos foram enviadas por um professor da Universidade Islâmica de Gaza, Ameen Hammad, via Prof. Ricardo Berbara, do Rio de Janeiro.
Os links abaixo levam a reportagens sobre o uso do fósforo branco em Gaza.
http://www.youtube.com/watch?v=ZbxTK1ZC-hw
http://www.youtube.com/watch?v=qfsHeXGVPVw
http://www.youtube.com/watch?v=LhylsQ_pLVg
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Um poema e uma música
UM POEMA
A Casa
Dos homens que a ergueram
não restam sequer testemunhas:
um pó de memória que seca a garganta.
De como retiraram o barro das distâncias
e o emularam em célula não restou a sujeira
nas roupas ou o câncer que os consumiu.
De como em fornos cozinharam os miolos
e o caldo das montanhas, nada sobrou:
talvez uma ficha em arquivo de manicômio
ou uma cratera que junte água salobra.
De como chegavam a seus lares –
felizes por ainda terem os dentes na boca –
nada se sabe. Se há quem o recorde,
não há de dizer algo que valha.
De como suportavam as horas
– tendo um copo de lágrima e
um cão para lamber as feridas das mãos
– coisa alguma se relata:
ninguém anotou nada em lugar nenhum.
Por certo, os filhos dos que a ergueram
virão derrubá-la.
Disso, todos são testemunhas.
Rafael Nolli, esta semana, no Poema Dia
UMA MÚSICA
Bem melhor que você - Bezerra da Silva
Ouça no volúme máximo!
A Casa
Dos homens que a ergueram
não restam sequer testemunhas:
um pó de memória que seca a garganta.
De como retiraram o barro das distâncias
e o emularam em célula não restou a sujeira
nas roupas ou o câncer que os consumiu.
De como em fornos cozinharam os miolos
e o caldo das montanhas, nada sobrou:
talvez uma ficha em arquivo de manicômio
ou uma cratera que junte água salobra.
De como chegavam a seus lares –
felizes por ainda terem os dentes na boca –
nada se sabe. Se há quem o recorde,
não há de dizer algo que valha.
De como suportavam as horas
– tendo um copo de lágrima e
um cão para lamber as feridas das mãos
– coisa alguma se relata:
ninguém anotou nada em lugar nenhum.
Por certo, os filhos dos que a ergueram
virão derrubá-la.
Disso, todos são testemunhas.
Rafael Nolli, esta semana, no Poema Dia
UMA MÚSICA
Bem melhor que você - Bezerra da Silva
Ouça no volúme máximo!
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
O perigo da história única
Semana corridíssima. Não tive tempo de cuidar do blog. Mas, deixo uma dica que serve especialmente para os colegas jornalistas, mas que também é essencial para qualquer pessoa. Trata-se do seminário "O perigo da história única", proferido pela romancista nigeriana Chimamanda Adichie. Em pouco mais de 15 minutos, ela mostra como as nossas vidas e as nossas culturas são compostas por muitas histórias sobrepostas, e adverte que se ouvirmos apenas uma história sobre determinada pessoa ou país, arriscamos dar início a um desentendimento crítico que colocará em risco nosso entendimento sobre o outro. Vale a pena.
domingo, 24 de janeiro de 2010
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