Semana On

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Guerra e Paz - Leon Tolstoi

Não é possível falar sobre a obra prima de Leon Tolstoi, Guerra e Paz, sem abordar a capacidade do autor de construir com profundidade uma miríade de personagens, todos reais, únicos, vivos. Cerca de 500 deles são desfiados nas 1340 páginas que compõem a obra, todo um mundo de desejos, vontades, objetivos, intrigas, conquistas, decepções e emoções que compõem a complexidade humana.

Publicada originalmente em capítulos na revista Mensageiro Russo, entre 1865 e 1869, Guerra e Paz alterna a análise histórica de uma época - tendo como protagonistas Napoleão, o tzar Alexandre I e o general Kutuzov no período da campanha napoleônica contra a Rússia, entre 1805 e 1812 - e o enredo ficcional, cujo fio condutor tem base em três grandes famílias aristocratas: os Rostov, os Bolkonski e os Bezukhov - por sua vez protagonistas de um mundo em plena decadência.

A descrição da aristocracia russa, de seu mundo de fantasia apoiado no trabalho semi-escravo dos camponeses e servos é muito rica. Criados na suntuosidade dos salões de bailes, estes aristocratas viviam em um mundo separado da imensa maioria dos russos. Cercada de luxos, de comendas e oportunidades esta casta de “senhores” se valia das “boas relações” para perpetuar suas vantagens, seu modo de vida. A hipocrisia e a adulação faziam parte do jogo nos salões do século 19, assim como hoje são ferramentas de quem gravita o poder.

A condessa Bezukhov tinha a justa reputação de muito amável. Sabia dizer o que não pensava...” (Pág. 632)

A imensidão da obra torna difícil a missão de pinçar de seu bojo uma única linha de raciocínio, uma moral predominante, uma conclusão definitiva. O que Guerra e Paz oferece ao leitor é uma análise complexa do ser humano, de seus receios e desejos mais íntimos.

Uma passagem comovente é a relação entre o velho príncipe Bolkonski e sua filha, a princesa Maria. Imperativo e autoritário, o príncipe passa toda a narrativa espezinhando a jovem, que, dentro de sua concepção de vida voltada ao sacrifício, deseja apenas o amor do velho. Amor que só lhe é ofertado quando o príncipe se encontra diante da morte, em seus últimos momentos. A passagem é uma leitura interessante das relações doentias que podem se estabelecer no seio familiar e que podem, também, perdurar até que seja tarde demais para reverter os seus efeitos.

Outro exemplo interessante de comportamento humano vem do personagem Pedro Bezukhov (para mim o fio condutor da obra). Introspectivo, sonhador, questionador e, ao mesmo tempo, acomodado, Pedro é um personagem fascinante. Sua busca pela “verdade” é assunto que permeia a narrativa, rendendo momentos muito ricos.

É em Bezukhov que Tolstoi deposita seus questionamentos mais profundos. Vindo, ele próprio, de uma nobre família da aristocracia russa, Tolstoi foi um livre-pensador, e flertou com o anarquismo dando a ele uma leitura particular, baseada no cristianismo, na solidariedade e no amor ao próximo. O questionamento à autoridade é uma das conseqüências destas preocupações filosóficas incutidas no personagem Pedro Bezukhov.

Um pensamento não lhe saía da cabeça: quem era que o condenava a morte? Não eram aqueles primeiros homens que o tinham interrogado: nenhum deles, evidentemente, tinha o poder ou o desejo de fazê-lo. Também não era Davoust, que o olhara com uma expressão tão humana... Era a disciplina e o encadeamento das circunstâncias. Uma ordem qualquer o matava, privava-o da vida, aniquilava-o.” (Pág. 1073)

Para Tolstoi, os Estados, as igrejas, os tribunais e os dogmas eram apenas ferramentas de dominação de uns poucos homens sobre outros. Foi citado pelo escritor anarquista russo Pedro Kropotkin no artigo “Anarquismo” da Enciclopédia Britânica de 1911 e alguns pensadores o consideram como um dos nomes do Anarquismo Cristão. Outra aproximação com o anarquismo se deu em 1862, quando Tolstoi, em viagem pela Europa, visitou o pensador anarquista Proudhon. Este estava a escrever um texto chamado "La guerre et la paix", cujo título Tolstoi propositalmente utilizou em seu maior romance.

O escritor não compactuava com as vertentes anarquistas que defendiam a violência como motor de arranque para mudanças sociais. Não acreditava, também, em guerras e revoluções como solução para quaisquer problemas, mas sim em revoluções morais individuais que levariam às verdadeiras mudanças.

Para atingir esse objetivo é necessário tornar a virtude mais forte; é necessário que o homem honesto receba, ainda neste mundo, a recompensa eterna de suas virtudes. Mas um grande número de instituições políticas atuais dificultam esses grandes desígnios... Que fazer diante de tal estado de coisas? Favorecer as revoluções, derrubar tudo, vencer a força pela força? Não. Estamos muito longe disso. Toda reforma feita pela força merece censura, porque não corrigirá o mal enquanto os homens continuarem como são e porque a sabedoria não carece de violência.” (Pág. 494)

Tolstoi afirmava que suas teses se baseavam na vida simples e próxima à natureza dos camponeses e no evangelho e não nas teorias sociais de seu tempo. É o que confirma o escritor George Woodcock que, em "A História das idéias e movimentos anarquistas", disse que em todos os romances que escreveu quando mais novo, Tolstoi "considera a vida tanto mais verdadeira quanto mais próxima da natureza".

A critica à violência, ao desperdício de vidas humanas nas guerras também permeia a epopéia, aliada a uma leitura ácida do militarismo e da hierarquia, como mostram os três trechos a seguir

Se a finalidade das guerras européias no começo do século XX era a grandeza da Rússia, essa finalidade poderia ter sido alcançada sem as guerras precedentes e sem a invasão. Se a finalidade era a grandeza da França, poderia ter sido alcançada sem a revolução e sem o império. Se a finalidade tivesse sido a expansão das idéias, a imprensa as teria propagado muito melhor que os soldados. Se fosse o progresso da civilização, seria muito fácil descobrir caminhos mais diretos que o da destruição dos homens e das riquezas.” (Pág. 1255)

É o destino imutável de todos os atores ativos que, quanto mais altamente colocados estiverem na hierarquia humana, menos livres serão.” (Pág. 755)

A base da ordem na classe militar é a disciplina – isto é, a ausência de liberdade -, a ociosidade, a ignorância, a crueldade, a devassidão, a embriaguez.” (Pág. 858)

É também Pedro Bezukhov quem faz um interessante questionamento à maçonaria, conforme os trechos que seguem.

Ao entrar para a maçonaria, tivera a sensação de um homem que pisa confiante na superfície lisa de um atoladouro. Posto o pé, ele cede. Para convencer-se inteiramente da solidez do terreno em que se achava, coloca o outro pé e se enterrara ainda mais, e agora, contra sua vontade, caminhava com o lodo até os joelhos”. (Pág. 492)

Era difícil a Pedro só ver irmãos em todos os membros da loja, que encontrara na sociedade, homens, por exemplo, como o príncipe B... e Ivan Vassilievitch D..., que sabia serem homens tíbios e nulos. Debaixo dos aventais e símbolos maçônicos via-lhes os uniformes e condecorações, que eram a meta de seus desejos na vida comum.” (Pág. 492)

Meus irmãos maçons juram pelo próprio sangue que estão prontos a sacrificar tudo pelo próximo, mas não pagam sua quota aos pobres, e fazem intrigas e usam toda a sorte de expedientes a fim de obter o verdadeiro avental escocês em um ato cujo sentido nem mesmo seu redator compreende e que não é necessário a ninguém”. (Pág. 605)

Guerra e Paz é uma obra a ser degustada lentamente, a ser descoberta a cada página. O estofo moral que permeia as relações que ligam as centenas de personagens que compõem esta imensa tapeçaria humana pode ser alvo de inúmeros debates e reflexões pessoais. A mim, a obra tocou em um aspecto particular de minha personalidade o que, tenho certeza, acontece com cada pessoa que resolve aventurar-se por suas páginas.

Sobre Guerra e Paz, Romain Rolland, autor da biografia La Vie de Tolstoi, escreveu: "A maior parte dos leitores franceses, um tanto míopes, vê apenas milhares de detalhes, cuja profusão lhes maravilha e desconcerta. Eles se perdem nessa floresta de vida. É preciso se elevar acima dela e alcançar com o olhar o horizonte livre, o conjunto de bosques e campos: então se perceberá o espírito homérico da obra, a serenidade das leis eternas, o ritmo imponente do sopro do destino, o sentimento de união aos quais todos os detalhes estão ligados, e, dominando a obra, o gênio do artista, como o Deus do Gênese que flutua sobre as águas."

OBS: Apesar das tentativas de destruir a grandiosidade do texto, a editora Ediouro (através do selo Prestígio) não foi bem sucedida em seu intento. Infelizmente não tive sorte com esta edição de Guerra e Paz. A revisão, de péssima qualidade, está recheada de erros. Não posso fazer julgamento quanto à qualidade da tradução (de Gustavo Nonnenberg, com base na versão francesa), mas duvido que seja de primeira, visto o que fizeram na revisão.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Até

Pessoal, devido a algumas intercorrências não atualizarei o blog nas próximas semanas. Que todos tenham um Natal de muita paz e um gostoso ano novo. Um abraço e até 2010.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Boas leituras no Amálgama

O blog Amálgama publicou ontem algumas dicas de seus colaboradores (entre eles eu) sobre as boas leituras realizadas pelos mesmos em 2009 e que servem como dicas para 2010. Vale dar uma checada nas micro-resenhas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Tuitando sem parar

Para dar espaço ao Twitter, que atividades você sacrificou? Fiz esta pergunta aos meus companheiros de microblog entre os dias 13 de novembro e 13 de dezembro. Sessenta e um tuiteiros responderam, lançando um pouco de luz sobre uma curiosidade que me espicaçava. Durante este período, acompanhei alguns perfis e descobri que há gente que fica, literalmente, o dia todo conectada.

O que será que toda esta gente está deixando de fazer para dedicar seu tempo aos 140 caracteres? Uma pesquisa realizada pelo departamento de mídia digital da Bullet, concluiu que 46,2% dos tuiteiros deixaram de atualizar outras redes sociais por conseqüência do tempo dedicado ao Twitter.

Mas será só isso? Minha micro-pesquisa revelou que 36% dos tuiteiros ouvidos sacrificaram alguma atividade para tuitar. Destes, 21% (13) disseram ter diminuído as visitas a outros sites da internet; 9% (6) passaram a assistir menos tevê e a ouvir menos rádio e 6% (4) diminuíram o ritmo da leitura de livros, revistas e jornais. A maioria, no entanto, 62% (32), afirmou não ter sacrificado atividades em detrimento do Twitter.

Apesar disso, considerei interessante o espaço ocupado pelo microblog na vida dos seus usuários. A instantaneidade da ferramenta pode ser algo tentador para quem já usa a internet com assiduidade. Segundo uma pesquisa recente feita pela E.Life em parceria com a InPress Porter Novelli, 38,5% dos entrevistados consideram o Twitter como seu principal serviço de mídias sociais; 63% desses tuiteiros ficam mais de 41 horas por semana online e 81,7% acessa o Twitter em cinco ou mais dias por semana.

Será vício?

Para o psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, uma pessoa só é considerada “viciada em internet” quando não consegue ter controle de seu hábito online. Segundo ele, o vício não pode ser medido por horas online, e sim, por comportamento fora dos computadores: “O indivíduo dependente não consegue aplicar as lições do mundo da internet, que é mais moldável, no real. É uma conexão quebrada. Quando não consegue manipular a realidade a seu favor, a internet vira escape”.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O jogo do bicho e o silêncio da imprensa em MS

A reportagem exibida pelo Fantástico neste domingo (13 de dezembro), mostrando o jogo do bicho em Mato Grosso do Sul, causou surpresa apenas ao presidente do legislativo estadual sul-mato-grossense, deputado Jerson Domingos (PMDB), que, interpelado pelo repórter Maurício Ferraz sobre a existência de uma banca de jogo dentro da Assembléia Legislativa, gaguejou o seguinte: “Para mim isso é desconhecido. Banca de jogo do bicho aqui dentro da Assembléia Legislativa? Eu acho que é alguma informação... para mim isso aí, além de ser um absurdo e eu não ter conhecimento disso... eu vou solicitar a nossa segurança da Assembléia Legislativa... a presidência vai tomar medidas em relação a isso...”.

A pasmaceira tem razão de ser. O fato é que nada do que foi dito ali é novidade. É público que o deputado Jerson Domingos comanda o jogo do bicho no estado. É daquelas coisas que todo mundo sabe, mas ninguém fala. Daí, a presença do anotador “guguzinho” na Casa, devidamente munido de uma credencial de visitante ostentando o nome do deputado, ser apenas um detalhe do conjunto.

A forma como a reportagem foi recebida pela sociedade sul-mato-grossense se reflete na cobertura da grande imprensa do estado. Os dois principais sites de notícia de MS, o Midiamax e o Campo Grande News simplesmente ignoraram a pauta. O maior jornal de MS, o Correio do Estado, sequer deu uma linha sobre o assunto nesta segunda-feira (14), embora tenha divulgado a presença da equipe do Fantástico na Assembléia em sua edição do dia 9. O jornal Folha do Povo veio com uma tímida reportagem na página A4, reproduzindo apenas o óbvio. Entre os impressos o dia foi salvo (em parte) pelo jornal O Estado, que estampou o assunto na capa e na página 2 do primeiro caderno. As emissoras de tevê não deram espaço ao assunto em sua produção local.

O ponto comum na cobertura foi a falta de profundidade. Os poucos que entraram na questão se limitaram a reproduzir o material da reportagem do Fantástico, embora não faltem informações disponíveis que possibilitem um ponto de partida para investigar o envolvimento de graúdos do estado na jogatina.

O assunto foi levantado hoje (14) no twitter. Houve quem questionasse a mudez reinante (aqui, ali, por lá e acolá) e até quem apontasse seus motivos (aqui, ali e acolá). O fato é que, independente da preguiça que se instalou no nosso Jornalismo (salvo honrosas exceções), a pauta dificilmente seria encaixada nos veículos de comunicação que dominam a mídia no estado dado que quase todos dependem de dinheiro público para sobreviver, inclusive da mesada da Assembléia.

Trata-se de censura político-econômica, este sim um tema que mereceria ser alvo de combate por parte dos sindicatos que representam os jornalistas. Mas este é um assunto em que poucos se dispõem a meter a colher. Há pouco mais de um ano publiquei no Observatório da Imprensa o artigo “Quarenta anos depois do AI-5 continuamos sob censura”, no qual levantava esta mesma lebre. Disse na época que “os detentores do poder político e econômico sempre usaram e continuam usando todas as ferramentas disponíveis para estabelecerem mecanismos de controle sobre a liberdade de expressão...”. Continua valendo.

Hoje, em especial no interior do País, longe dos ‘jornalões’ e das cabeças de rede, o que impera é a censura econômica, por meio da qual os donos do poder definem o rumo das pautas de acordo com seus interesses. A fórmula é simples: divulga-se o que é do agrado dos poderosos e omiti-se o que vai contra seus interesses. Em contrapartida, jornais, rádios e emissoras de tevê locais passam a integrar o trem da alegria dos repasses de verbas publicitárias públicas (sem licitação, diga-se de passagem) e privadas (provenientes de empresas ligadas ao poder).

A censura econômica leva ao fortalecimento de uma prática sutil que sempre existiu e continua comandando o fazer jornalístico: trata-se da censura exercida pelo patrão sobre o profissional em seu próprio ambiente de trabalho. Esta censura, representada muitas vezes por um direcionamento editorial, tem colaborado mais para o apodrecimento do Jornalismo e de sua credibilidade do que qualquer outro tipo de manipulação externa.


Mas, se há culpa nas salas envidraçadas dos baronetes da comunicação, também somos todos culpados por nos mantermos inertes, passivos.

A jornalista Adriana Santana desenvolve como tese de doutorado uma pesquisa sobre o que classifica como “Jornalismo Cordial”. O termo, como ela explica em seu blog, remete ao conceito de “homem cordial” do historiador Sérgio Buarque de Holanda, e quer retratar “aquele profissional que, relegando apuração e compromisso com a busca dos fatos, numa postura de agradar a todos (ou não desagradar a ninguém), acaba por não cumprir sua função social de investigador e responsável por levantar e disseminar informações do interesse dos cidadãos”.

Em Mato Grosso do Sul estes dois cânceres – o do controle político-econômico da informação e o da auto-censura - se manifestam diariamente. A seguir cito dois exemplos recentes da omissão vergonhosa de nosso jornalismo que, somados ao silêncio que dominou nossas redações entre ontem e hoje mostram a qualidade do Jornalismo que praticamos.

Silêncio contra a homofobia

No dia 17 de dezembro de 2008, a Câmara Municipal de Campo Grande negou a concessão do título de Utilidade Pública à Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS), apesar de a entidade preencher os preceitos legais para receber o título. O motivo, implícito: homofobia.

Nossos veículos de comunicação poderiam, por exemplo, aproveitando o gancho dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ter questionado os motivos que levaram a obstrução da aprovação do projeto. Uma leitura rápida da Declaração mostra, inequivocamente, que pelo menos seus Artigos I, II, VI e VIII foram violados.

Também seria possível analisar o fato de a Câmara ter aprovado inúmeros títulos de Utilidade Pública no mesmo período em que o negou à ATMS. Se a Associação tinha requisitos legais para requerer a utilidade pública municipal, por que motivo este benefício lhe foi negado, quando foi garantido a inúmeras outras associações?

Indo mais longe, os veículos de comunicação de Mato Grosso do Sul poderiam ligar a recusa dos vereadores em reconhecer a importância da entidade com os movimentos nacionais e internacionais de combate ao preconceito e pela discriminação aos homossexuais.

Nada disso ocorreu. O tratamento dado ao tema foi superficial. Os poucos veículos que o abordaram o fizeram sob um ponto de vista oficialesco, morno, sem contextualização.

Silêncio contra os poderosos

Recentemente, no dia 22 de setembro, outro assunto passou ao largo das pautas da imprensa sul-mato-grossense: a passividade bovina da Assembléia Legislativa, do Tribunal de Contas e do Ministério Público Estadual na disponibilização de informações para a população sobre os gastos do legislativo estadual. A denúncia, formalizada pela organização não-governamental Transparência Brasil (no estudo “Assembléias Legislativas sem controle") foi engavetada pelos nossos jornais, sites e tevês.

A rasa cobertura da imprensa sul-mato-grossense de uma pauta tão cheia de possibilidades e de significados pode sugerir três situações: 1) os jornalistas que compõem as redações destes veículos estão desligados do que ocorre à sua volta; 2) estão impregnados pelo câncer da auto-censura – que como disse o jornalista Carlos Castilho, recentemente, no artigo “Auto-regulação, autocensura e autonomia”, limita a nossa capacidade de pensar e anula a diversidade na troca de informações, uniformiza conteúdos a pretexto de preservar interesses e conveniências e, ao fazer isso, agride o jornalismo porque priva o público de dados, fatos e processos necessários para a formação de opiniões e tomada de decisões, ou 3) o editorial de nossos jornais, tevês e portais está agrilhoado pelos interesses do patrão.

O fato é que os três temas poderiam ter sido abordados de muitas formas, todas elas fugindo do que o jornalista Luis Weiss, no artigo “Desafio ao leitor - e ao jornalista”, classifica como “a saída pelo facilitário”, isto é, a abordagem óbvia e pouco desafiadora do fato.

domingo, 13 de dezembro de 2009

sábado, 12 de dezembro de 2009

Poesia aos sábados

dois poeminhas

quando acordei

peguei a noite com as mãos
de manhã
meus olhos eram duas estrelas


ano novo

nenhum segundo a mais
espero
para explodir os dias
que estão em mim.

Adriana Godoy, esta semana, no Poema Dia

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Fuscaneios em Curitiba

Meu camarada Danilo, que se mandou para as bandas do sul atrás do seu sonho de trabalhar com cinema, estréia amanhã o curta-metragem "Fuscaneios". Boa pedida para quem está em Curitiba. A entrada é gratuita e o filme será exibido às 20h na Cinemateca de Curitiba (Rua Carlos Cavalcanti,1174, telefone 3321-3252). Para saber mais sobre o proejto, adicione no twitter ou visite o blog.

Resenhas para todos os gostos

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Vidas Secas - Graciliano Ramos

Na construção do cotidiano de uma família sertaneja das primeiras décadas do século XX, no romance “Vidas Secas”, Graciliano Ramos expôs o embrutecimento humano e a conseqüente impossibilidade de ultrapassar as barreiras do pensar. Exatamente por estas características a obra é tão atual, especialmente no que se refere à dificuldade que – expostos a necessidade de sobreviver matando um leão por dia – os milhões de brasileiros imersos na miséria que ainda se espalha pelos rincões deste país têm de abstraírem-se das estratégias que lhes possibilitem as necessidades mais primárias para, efetivamente, pensar.

É este o principal legado de “Vidas Secas”, um alerta contra o embrutecimento do ser humano, um aviso sobre o que ele pode causar de pior aos homens: o conformismo e a submissão.

Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.” (Pág. 57)

Esta falta de horizontes marca toda a obra e permeia a trajetória dos personagens. Incapazes de argüir além do óbvio, se limitam a sonhos de curto alcance como uma cama de verdade, objetivo de vida de Sinhá Vitória. Ainda assim, há, no íntimo de cada um deles, uma chama que recusa apagar. É a chama que faz com que Fabiano deseje ser “homem” ao invés de “cabra”, que faz com que Sinhá Vitória acredite que logo ali, depois da próxima légua, haverá um mundo melhor, que incute nos meninos os sonhos mais loucos, a coceira das indagações sem resposta.

Indispensável os meninos entrarem no bom caminho, saberem cortar mandacaru para o gado, consertar cercas, amansar brabos. Precisavam ser duros, virar tatus. Se não calejassem, teriam o fim de Seu Tomás da bolandeira. Coitado. Para que lhe servira tanto livro, tanto jornal?” (Pág. 60)

Aspecto interessante da obra é a submissão. Fabiano, pai de família, trabalhador, se submete ao que for necessário para manter-se na condição de sobrevivente. Aceita os juros do patrão, as trapaças dos comerciantes, as desfeitas do soldado amarelo, as agruras da vida. Reclamar é algo que se faz a boca pequena, no escuro do casebre, sob a névoa da cachaça. Esta opressão sufocante é maestralmente conduzida no capítulo “Festa”. Fabiano, embalado pelo álcool, espalha impropérios a adversários imaginários. Chinga, pragueja, desafia o mundo na penumbra, sob a sombra da festa interiorana, “por detrás das barracas, para lá dos tabuleiros de doce”.

O trecho a seguir é, para mim, a apoteose da leitura de submissão que Graciliano Ramos incute em Fabiano. Incapaz de enfrentar o mundo a sua volta, ele sublima sua vingança em si mesmo.

Ali podia irritar-se, dirigir ameaças, desaforos a inimigos invisíveis. Impelido por forças opostas, expunha-se e acautelava-se. Sabia que aquela explosão era perigosa, temia que o soldado amarelo surgisse de repente, viesse plantar-lhe no pé a reiúna. O soldado amarelo, falto de substância, ganhava fumaça na companhia dos parceiros. Era bom evitá-lo. Mas a lembrança dele tornava-se ás vezes horrível. E Fabiano estava tirando uma desforra. Estimulado pela cachaça, fortalecia-se:

- Cadê o valente? Quem é que tem coragem de dizer que eu sou feio? Apareça um homem.

Lançava o desafio numa fala atrapalhada, com o vago receio de ser ouvido. Ninguém apareceu. E Fabiano roncou alto, gritou que eram todos uns frouxos, uns capados, sim senhor. Depois de muitos berros, supôs que havia ali perto homens escondidos, com medo dele. Insultou-os:

Ora, esta explosão de Fabiano não tem endereço. Não é contra o patrão, contra os comerciantes ou o soldado amarelo, mas contra tudo o que eles representam, as forças que o fazem ser “cabra” e não “homem”, as forças que o mantém submetido, bruto. O mais assustador, talvez, seja a possibilidade que cada um de nós temos de nos enxergarmos em Fabiano. Amarrado, amordaçado na roda vida, incapaz de espanar as engrenagens nas quais está inserido, o homem moderno – nós – pragueja na penumbra.

Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo.” (Pág. 75)

Publicada em 1938, “Vidas Secas” é a primeira ficção de Graciliano Ramos em que a pessoa encarregada de narrar a história não é um dos personagens, mas o próprio romancista. Talvez por isso seja este o “mais humano” dos seus romances. Aliás, o único, arriscaria, em que ele expressa simpatia por um personagem. No caso, Baleia, a cadelinha.

Em meio a um cenário onde os personagens vagueiam entre o humano e o animalesco, no qual as conversas se dão por grunhidos, meias palavras, acenos de mãos e cabeças, onde as crianças são vistas como “bicho miúdo que não pensa”, onde o máximo que se pode almejar é sobreviver a mais um dia, Baleia surge como um contraponto. São dela os momentos de maior humanidade no romance. Apesar de sua passividade canina, era a ela que os meninos procuravam na tristeza, era ela que dividia com toda a família uma unanimidade afetiva.

Tão forte é o fator humano em Baleia que, mesmo baleada por Fabiano, recusa-se a morder a mão de seu companheiro. Da mesma forma que Fabiano se recusa a revoltar-se contra seus infortúnios, a cadela não pode ir contra a sua natureza. Eis aí um laço entre os dois principais personagens do romance. Fabiano, de humanidade embrutecida pela pobreza, guarda sua revolta, aceita o inaceitável, precisa sobreviver. Baleia, cujo caráter animal se vê impregnado de humanidade, não pode ir contra sua natureza de lealdade.

Esqueceu-se e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.”. (Pág. 132)

Esta relação de submissão é o que une Fabiano e Baleia, e é, em minha leitura, a amarra principal deste belíssimo romance.