Semana On

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vinte anos depois de Berlim, outros muros ainda nos envergonham

“Terrível! Esta fronteira de pedra ergue-se… ofende
os que desejam ir para onde lhes aprouver
não para um túmulo de massa
um povo de pensadores.”
Volker Braun, 1965

Nesta segunda-feira, dia 9 de novembro, precisamente às 23h, completa-se 20 anos que um dos maiores símbolos do totalitarismo veio abaixo como um castelo de cartas soprado por uma criança. O Muro de Berlim, conseqüência direta da ilusão de que o socialismo possa ser imposto de cima para baixo, durou 28 anos (do dia 13 de agosto de 1961 ao dia 9 de novembro de 1989), custou a vida de centenas de pessoas e condenou a uma divisão forçada quatro milhões de seres humanos que, até então, dividiam uma identidade. Na prática, uma cidade que até então funcionava como um único organismo urbano foi cortada ao meio com o bloqueio de 81 pontos de cruzamento e 193 ruas, separando famílias, amigos e casais, afastando trabalhadores dos seus empregos, estudantes de suas escolas.

O propósito do Muro - acabar com o êxodo dos alemães do lado oriental para o ocidental - foi justificado como uma medida adotada para acabar com o contrabando de divisas e a atividade dos espiões ocidentais. Na verdade, assim como hoje ocorre em Cuba, o regime totalitário obrigava todo um povo a viver sob sua leitura distorcida do socialismo, um socialismo que vivia (e anda vive na ilha de Fidel e Raul) sua grande controvérsia: construir uma sociedade igualitária em detrimento de todas as liberdades individuais.

Desde os primeiros momentos daquela manhã de agosto, a máquina de moer almas trabalhou incessantemente. Sua mais cruel engrenagem, a burocracia. Para atravessar a cidade, o cidadão era obrigado a passar por 18 operações de controle alfandegário, incluindo a revista das malas e bagagem, da carteira de dinheiro, do carro, além de se submeter a um estudo minucioso do passaporte – tudo isso sob a mira de policiais armados. A imensa maioria dos alemães orientais, no entanto, não reuniam credenciais suficientes nem mesmo para passar por esta maratona. Simplesmente foram condenados a viver isolados do mundo.

Vinte anos se passaram dando um fim a esta insanidade. No entanto, estas mesmas cenas, nas quais a burocracia é usada como arma de domínio sobre todo um povo, onde direitos básicos – como o de ir e vir - se perdem no burburinho obtuso da intolerância, continuam ocorrendo neste momento, diante dos nossos olhos, sem que tomemos uma atitude concreta para detê-las.

Estas cenas acontecem agora mesmo, enquanto você lê este artigo, nas fronteiras da Cisjordânia, onde um muro tão vergonhoso quanto o que dividiu Berlim por quase três décadas condena palestinos ao ostracismo e judeus ao isolamento moral; continuam acontecendo na divisa entre os Estados Unidos e o México, onde um muro fronteiriço construído sob o argumento de impedir a entrada de imigrantes ilegais separa, na verdade, o primeiro e o terceiro mundos; continuam acontecendo em Cuba, onde um muro natural formado pelo oceano isola milhões da realidade. São muros ideológicos, como o Muro de Berlim.

Um muro no deserto

O Muro da Cisjordânia começou a ser construída em 2002, durante o governo do primeiro ministro israelense Ariel Sharon com o objetivo de evitar que terroristas suicidas palestinos entrassem em Israel. Desde o início a iniciativa suscitou críticas da comunidade internacional, que considerou o muro como um símbolo de segregação.

Uma pequena parte do Muro (cerca 20%) coincide com a antiga Linha Verde e os 80% restantes situam-se em território palestino onde adentra até 22 km em alguns lugares, para incluir as densamente povoadas colônias ilegais de Israel, tais como Ariel, Gush Etzion, Emmanuel, Karnei Shomron, Guiv'at Ze'ev, Oranit e Maale Adumim.

O Tribunal Internacional de Justiça de Haia declarou o Muro ilegal em 2004. A ONU, por sua vez, classificou-o como uma tentativa – também ilegal - de anexar território palestino, violando o direito internacional a pretexto de razões de segurança. Ativistas de direitos humanos, incluindo organizações israelenses como a Machsom Watch (ou Checkpoint Watch), sustentam que a construção viola as fronteiras demarcadas pela ONU, com a apropriação indevida de territórios por Israel, e que os controles militares minam o desenvolvimento econômico do povo palestino, além de limitar a chegada de ajuda humanitária.

Você tem este enorme muro sendo construído bem no meio da Cisjordânia, como alguém pode acreditar que haverá um estado palestino ali? É um símbolo da opressão”, afirma o Rabbi Michael Lerner, da Tikkun Community.

Desde que a área localizada entre o Muro e a Linha Verde foi declarada restrita pelos militares israelenses para dar lugar ao labirinto de concreto, os palestinos que ali vivem ou que necessitam chegar às comunidades ali localizadas foram obrigados a portar vistos emitidos pelos israelenses.

Quinze comunidades palestinas reunindo cerca de 50 mil palestinos foram enclausuradas nestas áreas. Foram fisicamente separadas do resto da Cisjordânia e sua população obrigada a obter autorizações israelenses para continuar vivendo em suas casas e em suas terras.

Em 2006, um levantamento feito pela ONU analisou 57 comunidades palestinas impactadas pelo Muro e encontrou ali 94 cidadãos palestinos – a maioria mulheres e crianças - que nunca receberam o “visto”. Como resultado, estas pessoas vivem literalmente presas entre a Cisjordânia e Israel, apavoradas demais para arriscarem deixar o local e serem flagradas pelos soldados israelenses.

Os relatos que confirmam esta realidade recheada de violência e preconceito são vastos, alguns podem ser vistos no site da organização israelense B’Tselem, que se dedica a documentar violações dos direitos humanos nos territórios ocupados. Em março, por exemplo, Halimeh 'Abd Rabbo Muhammad a-Shawamreh, uma palestina de 56 anos, mãe de oito crianças e residente em uma fazenda em Deir al-'Asal al-Foqa, no distrito de Hebron, teve seu braço quebrado por um guarda do Muro, localizado a 50 metros da porta de sua casa.

Meu marido tem um defeito de nascença em sua perna esquerda e não pode trabalhar. Meu filho mais velho, Muhammad, 28, vive e trabalha em Ramallah. Meu filho Hussein, 22, foi ferido em 2004, enquanto estava pastoreando, por fragmentos de uma granada que o exército disparou durante um treinamento. Ele perdeu seu olho direito, e desde então vem sendo tratado no Sheikh Jarrach Hospital, em Jerusalém. Meu filho Fadi, 25, sofre de uma doença que ainda não foi diagnosticada. Ele vomita o tempo todo e não pode trabalhar. Nadi, 14, é epilética. Sou o esteio da família e faço o necessário para arranjar algum dinheiro”, explica Halimeh.

Em 11 de março, às 22h, ela tentava capturar o burro que lhe serve de instrumento de trabalho e que havia se soltado e corrido rumo ao Muro quando foi abordada pela Polícia de Fronteira. “Dois policiais saltaram de uma Toyota verde. Um deles pegou o cabresto do burro e o outro tentou arrancar a corda de minhas mãos e disse que eu deveria deixá-lo ir e que se o quisesse de volta deveria ir a Beersheva e pagar 1,000 shekels. Eu disse a ele que não tinha dinheiro e precisava do animal para trabalhar. Então, o policial que segurava o burro agarrou meu braço esquerdo enquanto o outro me golpeou no ombro com o rifle quebrando meu braço”, relatou Halimeh, que acabou sendo algemada - a despeito da fratura - e agredida até que os guardas resolveram liberá-la (Veja o relato completo aqui). Tudo isso ocorreu em território palestino, praticamente no quintal de Halimeh. Os invasores eram os soldados israelenses.

Além do isolamento humano e econômico, o Muro viabilizou o controle israelense da quase totalidade do Aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. O controle dos recursos hídricos na região é outra forma de domínio imposta pelos israelenses sobre os palestinos. Segundo Noam Chomsky, “o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Israel sobre recursos hídricos críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem”.

Durante sua recente viagem à Terra Santa, em maio, o Papa Bento XVI visitou a Cisjordânia. Em discurso pronunciado em uma escola, disse que o Muro pode ser derrubado, desde que Israel e os palestinos derrubem os muros em torno dos seus corações. "Embora muros possam ser construídos facilmente, todos sabemos que eles não duram para sempre. Eles podem ser derrubados. Primeiro, porém, é necessário remover os muros que construímos em torno dos nossos corações. Meu desejo mais sincero a vocês, o povo palestino, é que isso aconteça em breve. Dos dois lados do muro, é preciso grande coragem para que o medo e a desconfiança possam ser superados e para que seja possível resistir ao desejo de retaliar por perdas e feridas", afirmou o pontífice.

Para ir de Jerusalém a Belém, um trajeto de poucos quilômetros, o comboio do papa precisou atravessar portões de aço no meio da seqüência de muros de concreto, bloqueios (checkpoinsts) e torres de vigilância. Apenas uma rápida mostra do que os palestinos vivem diariamente.

Em 23 de fevereiro de 2004, Chomsky escreveu um artigo para o New York Times resumindo em poucas palavras as verdadeiras intenções por detrás do Muro da Cisjordânia. Disse ele: “Poucos questionariam o direito israelense de proteger seus cidadãos contra ataques terroristas ou mesmo de erguer um muro de segurança, se esse fosse um meio apropriado. Também é claro onde tal muro seria erguido se a segurança constituísse a preocupação orientadora: dentro de Israel, no interior da fronteira internacionalmente reconhecida, a Linha Verde estabelecida depois da guerra de 1948-49. O muro poderia então ser tão proibitivo quanto as autoridade quisessem: patrulhado pelo exército nos dois lados, pesadamente minado, impenetrável. Um tal muro maximizaria a segurança – e não haveria protesto internacional ou violação das leis internacionais.

Outro deserto, outro muro

Cerca de 5,6 mil pessoas já morreram tentando cruzar a fronteira do México com os Estados Unidos desde que o presidente Bill Clinton impulsionou o programa de segurança na fronteira em 1994. Cerca de 500 mortes ocorreram este ano, apesar das promessas de Barack Obama em estimular reformas na imigração. No entanto, estes são números estimados. Muita gente simplesmente desaparece no deserto. Morrem de sede, perdidos, são assassinados pelos “coiotes” ou por fazendeiros estadunidenses que tomam para si o patrulhamento da região.

Nos primeiros cinco meses deste ano, 160 mexicanos morreram tentando a travessia, em conflitos com fazendeiros, de sede ou desnutrição ao cruzar zonas desérticas, ou afogados ao tentar cruzar o Rio Grande, que separa o Texas do México. Na falta de guardas de fronteira e irritados com os imigrantes ilegais, fazendeiros da região, assumiram o policiamento. Neste ano três mexicanos que tentavam entrar no país pelo Arizona foram mortos por patrulhas civis e outros sete ficaram feridos.

O muro fronteiriço Estados Unidos–México, hoje com cerca de 965 km, inclui barreiras de contenção, iluminação de alta intensidade, detectores antipessoais de movimento, sensores eletrônicos e equipamentos de visão noturna, bem como vigilância permanente com veículos e helicópteros. Além de separar geograficamente a fronteira San Diego-Tijuana, o Muro é ideológico, impede a integração dos "subdesenvolvidos" com os “desenvolvidos”.

Recentemente, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton afirmou que o Muro "não resolve o problema" do fluxo ilegal de pessoas, drogas e armas entre os dois países. Em 94, ao comentar a decisão de Clinton, o presidente mexicano, Felipe Calderón, já antecipava esta conclusão. "O muro não vai resolver nenhum problema. A humanidade cometeu um tremendo erro ao construir o muro de Berlim, e creio que hoje em dia os Estados Unidos estão cometendo um grave erro ao construir esta barreira na nossa fronteira comum".

Um muro de água

Enquanto escrevo estas linhas nesta quente noite de sexta-feira, dia 6 de novembro, acontece em São Paulo o debate “Liberdade de Expressão em Cuba”. Presentes, o senador Eduardo Suplicy, o jornalista Eugênio Bucci e o historiador e professor Jaime Pinsky (mediador). A terceira convidada, no entanto, foi impedida de participar do encontro. Trata-se de Yoani Sánchez, autora do livro “De Cuba, com carinho”, publicado pela editora Contexto, e de um dos blogs mais lidos do mundo, o Generación Y.

Yoani foi convidada a vir ao Brasil para o lançamento de sua obra, mas foi impedida de deixar o país pelas autoridades cubanas. Esbarrou, mais uma vez, nas muralhas ideológicas que mantém Cuba nas trevas. Não é a primeira vez que isso ocorre. A blogueira já teve negados diversos pedidos para sair de Cuba para receber prêmios e participar de palestras.

Essa inclinação infantil à traquinagem me permitiu suportar as negativas da viagem, o círculo radiativo em que tentam me envolver, os insultos, as campanhas de difamação, o controle da polícia política e até a neurose de possíveis microfones na minha casa. Tenho tratado de celebrar inclusive o que me tiraram, como a possibilidade de viajar, assistir as cerimônias de diversos prêmios, acessar Geração Y das redes cubanas, contatar com muitos amigos, entrar em eventos culturais no meu próprio país e presenciar o lançamento dos meus livros.

Precisamente hoje estou ébria de satisfação porque uma compilação dos meus textos, intitulada ‘De Cuba, com carinho’, será apresentada esta tarde no Brasil. Atenta às três horas de diferença que me separam do Rio de Janeiro, vou festejar as cinco da tarde a bela edição dos meus posts em português. Meus dentes serão vistos a vários metros de distância, não só porque os tenho grandes e separados, senão pela gargalhada permanente que levarei pendurada na cara. Uma risada corrosiva não compreendida pelos rostos carrancudos dos que me impediram de chegar até lá; punhalada de regozijo que corta e atravessa os que não sabem lidar com a inesperada alegria do cativo.

O trecho acima é de um post publicado no Generacion Y em 29 de outubro, dia em que “De Cuba, com carinho” foi lançado no Rio de Janeiro. Me faz crer que nenhum tipo de muro, seja ele físico ou psicológico, pode conter o espírito humano ou restringir totalmente o nosso impulso pela liberdade de pensar, questionar e ser.

Fotojornalismo

Peças de dominó giganets foram colocadas no trajeto do Muro de Berlim simbolizando a divisão da cidade, cuja queda completa hoje 20 anos. Foto de Tobias Schwarz/Reuters.

domingo, 8 de novembro de 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

Poesia aos sábados

henry escreve para anais

anais,

quando você chegou
parecia que algumas batalhas
sempre seriam perdidas
ganhei a percussão do teu inglês
quando me restavam somente palavras

quando nada importa mais
podemos fazer bom uso
de um baralho
de uma adaga doméstica
e de um pombo-correio
somos, de verdade, da família da Lua
corações vestindo trapos

te estendo minha mão mais cuidadosa
já que meu maior medo
é o ruído de porcelana se partindo em mil pedaços

love, henry

Audemir Leuzinger, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Fotojornalismo

Nove de novembro de 1989. Queda do Muro de Berlim. Na segunda-feira o mundo comemora 20 anos da derrocada de um dos grandes símbolos do totalitarismo de esquerda. Foto de autor desconhecido.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O show de horrores de Bogie

Por Uri Avnery
Publicado originalmente em Kaos en la Red


"Os judeus têm o direito de residir em qualquer lugar por todo o Eretz Israel". Se isso perturba os americanos, Moshe Ya’alon (ministro israelense) responde: "Não tenho medo dos americanos!"

O meu primeiro pensamento foi: Meu Deus, esse homem foi responsável pela vida dos nossos soldados!

O segundo pensamento foi: Qual é a grande surpresa? Sempre soubeste o tipo de pessoa que ele era! Afinal de contas, durante os seus anos como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, apoiou discretamente a criação de postos avançados “ilegais" de colônias por toda a Cisjordânia!

O terceiro pensamento: E essa pessoa é agora vice-primeiro-ministro e membro do “Sexteto” – os seis ministros que constituem o verdadeiro governo de Israel.

A ocasião para estes pensamentos assustadores foi a afirmação de que “Os judeus têm o direito de residir em qualquer lugar por todo o Eretz Israel”. E se isso perturba os americanos, Ya’alon tem uma resposta pronta: “Não tenho medo dos americanos!”, disse em uma reunião da Facção Liderança Judaica. “A Paz Agora é um vírus”, afirmou na reunião. E não só eles. “Todos os meios de comunicação social” são também um vírus. Eles influenciam o discurso público “de uma forma distorcida, de uma forma enganadora”. O vírus também inclui “a elite” em geral.

Além disso, os “políticos” são culpados. “De cada vez que os políticos trazem a pomba da paz, nós, o exército, temos que limpar depois”.

O seu resumo: “Os judeus têm o direito de residir em qualquer lugar por todo o Eretz Israel”. E se isso perturba os americanos, Ya’alon tem uma resposta pronta: “Não tenho medo dos americanos!

Tudo isto foi dito alguns dias depois de Ya’alon ter feito uma visita bem divulgada aos territórios ocupados, acompanhado pelo líder do Shas, Eli Yishai, e vários outros ministros da extrema-direita. Este grupo visitou os postos avançados das colônias, que há muito o governo israelense prometeu aos norte-americanos desmantelar, e manifestou total oposição à sua evacuação. Concluíram a sua visita em Homesh, a colônia da Cisjordânia evacuado por Ariel Sharon no decurso da “desocupação”. Ya’alon exigiu a recolonização do lugar.

Estes tons compõem uma melodia assustadora, uma melodia que todos conhecemos muito bem. É o hino do fascismo.

Primeiro: o termo “elite”. No jargão da extrema-direita israelense, isso inclui todos aqueles que odeiam: os intelectuais, as universidades, os políticos liberais, o Supremo Tribunal, os meios de comunicação.

O termo tem suas raízes no verbo latino “eligere”, escolher, o que significa o melhor, o seleto. Como este é um corpo indefinido, o termo pode ser aplicado a diferentes alvos. Quando os demagogos se dirigem às massas judaicas orientais, “a elite” claramente consiste nos que governam o país. Quando se dirigirem à comunidade religiosa, “a elite” consiste no secular, no ateu, que são estranhos à Tradição Judaica. Quando se dirigirem aos imigrantes russos, “a elite” consiste nos velhos israelenses já estabelecidos, os nativos, que obstruem o caminho dos novos imigrantes.

Quando alguém junta tudo isto, surge uma imagem de “eles” e “nós”. “Eles” – o punhado de arrogantes veteranos, que ocupam todas as posições-chave no estado, e “nós” – as pessoas simples, honestas, os patriotas, os guardiões da tradição, os discriminados, os oprimidos. Cada grupo fascista no mundo cultiva tal visão da “elite”. (Não importa que Ya’alon, como a maioria dos outros demagogos, pertença ele próprio à elite. Ele nasceu no país, um asquenaze de ascendência ucraniana. O seu nome original era Smilansky. Ainda é oficialmente membro de um kibutz “elitista” e pertence ao super-privilegiado corpo dos oficiais superiores.)

Segundo: Os traidores. Existe um inimigo interno. Este não é menos perigoso do que o inimigo estrangeiro, na verdade, muito mais perigoso. Quando Ya’alon fala sobre a “Paz Agora”, ele abrange todo o campo da paz, a parte liberal e secular da sociedade. Essa é a Quinta Coluna, o cavalo de Tróia dentro dos muros. Eles têm de ser eliminados, antes que se possa lutar contra o inimigo estrangeiro.

Terceiro: Os “políticos”. Os demagogos são, evidentemente, eles próprios políticos, mas aqui excluem-se a si mesmos. Ya’alon pinta um retrato dos “políticos” que trazem uma nojenta pomba da paz, cujos excrementos o exército tem que limpar.

Os políticos velhacos, urdidores, covardes de um lado, o exército límpido, heróico, leal do outro – essa é uma imagem muito familiar. O exemplo mais conhecido era Alemanha corrente após a Primeira Guerra Mundial. A lenda da “facada nas costas” foi um trampolim para o poder para Adolf Hitler: o exército alemão enfrentava o inimigo e tinha a vitória à vista, quando “os políticos”, os judeus, os socialistas e os outros “criminosos de Novembro” enterraram uma faca nas costas dos heróicos combatentes.

A pomba da paz deixa suas fezes e os soldados são obrigados a limpar a sujeira da paz.

E também: “Todos os meios de comunicação”. Essa é uma das marcas do fascismo em Israel e por todo o mundo. Os meios de comunicação são sempre “de esquerda”, “anti-nacionalistas”, são os “meios de comunicação hostis”. Os jornalistas e emissores são uma liga secreta de detratores de Israel, que espalham mentiras e distorcem a realidade a fim de minar o moral nacional, difamar o exército, denegrir os nossos valores nacionais e dar conforto ao inimigo.

A realidade é, evidentemente, muito, muito diferente. Os meios de comunicação israelenses repetem servilmente a propaganda oficial em todas as questões nacionais e de segurança. São conformistas ao mais elevado grau e mobilizados de uma à outra ponta. Não há um único jornal de esquerda no país. A maioria dos correspondentes políticos repete como papagaios as declarações de “fontes oficiais”; quase todos os correspondentes de assuntos árabes são ex-agentes dos serviços de informação do exército; e quase todos os correspondentes militares servem como porta-vozes não-oficiais do exército. Nas páginas de notícias e nos programas de notícias, a terminologia de direita reina suprema. Mas porque em questões menos importantes os meios de comunicação criticam o governo, como têm o dever de fazer numa sociedade democrática, é fácil retratá-los como “de esquerda” e subversivos. O mesmo é verdade para a universidade.

E finalmente: O “vírus”. A descrição dos adversários políticos como agentes infecciosos ou parasitas nojentos é uma das características mais distintivas da extrema-direita. É suficiente lembrar o filme do Dr. Joseph Goebbels, O judeu eterno, no qual os judeus eram mostrados como ratos propagando doença.

Se juntarmos todas estas características – o ódio à “elite”, a glorificação do exército, o desprezo para com “os políticos”, a demonização do campo da paz, o incitamento contra os meios de comunicação – é a feia cara do fascismo que emerge. Aqui em Israel e por todo o mundo.

Não menos importantes são o contexto e a audiência.

Ya’alon falou numa reunião da “Facção Liderança Judaica”. Este é um grupo de ultra-ultra-direitistas, que entraram no Likud com o objetivo declarado de o conquistar a partir de dentro. É dirigido por Moshe Feiglin, por isso os seus seguidores são geralmente chamados “os Feiglins”.

Na véspera das últimas eleições, Binyamin Netanyahu fez um esforço final, utilizando meios legítimos e não tão legítimos, para remover Feiglin da lista de candidatos do Likud. Ele estava determinado em evitar que o Likud fosse apresentado como um partido de extrema-direita. O principal concorrente do Likud, o Kadima, definiu-se como um partido do centro ou da direita moderada e tentou a todo o custo empurrar Netanyahu para a direita. Netanyahu pensou que expulsando os Feiglins poderia neutralizar este ataque.

A questão é se este era o seu único objetivo. Se assim for, por que elevou ele Benny Begin, uma pessoa que personifica a extrema-direita, a um lugar de destaque na lista? E por que inscreveu e abraçou Moshe Ya’alon, que já era conhecido como uma pessoa com uma visão de extrema-direita? Esse abraço custou muito caro, uma vez que no final o Kadima, contra todas as expectativas, ganhou mais um lugar do que o Likud.

Mas Netanyahu, um político nato, tinha mais do que um objetivo em mente. Ele tinha medo que Feiglin pudesse, um dia, ameaçar a manutenção da sua liderança do Likud. Para evitar esta possibilidade, ele negou a Feiglin um assento no Knesset.

E eis que chega Ya’alon, o protegido mimado de Netanyahu, e junta-se precisamente a Feiglin. Como diz o ditado hebraico, a andorinha foi visitar o corvo. Mas não está bem claro quem é a andorinha e quem é o corvo. Está Feiglin a usar Ya’alon - ou é Ya’alon que pretende usar Feiglin, a fim de se posicionar como o líder de um grande campo da extrema-direita?

É preciso também prestar atenção à declaração de Ya’alon de que “eu não tenho medo dos americanos”. Os americanos exigem o congelamento das colônias? Para o inferno com eles! Quem eles pensam que são? Como, esses goyim estão nos dando ordens? Barack Obama quer nos dizer onde podemos estabelecer-nos e onde não podemos?

Essa é outra característica do fascismo israelense emergente: a disponibilidade para encetar um confronto aberto com os Estados Unidos e, especialmente, com o presidente Obama.

Já está em pleno andamento uma campanha israelense contra “Barack Saddam Hussein”, o Novo Hitler. A direita americana e a direita israelense facilmente encontram uma linguagem comum. Uma mulher israelense nos EUA está coordenando o esforço para provar que Obama não nasceu nos EUA, que o seu pai nunca foi um cidadão dos EUA, e que deve, portanto, ser expulso da Casa Branca.

Tudo isto roça a loucura. Israel está dependente dos EUA para praticamente tudo: assistência econômica, armamento, cooperação nos serviços de informação, apoio diplomático, como o de veto no Conselho de Segurança. Netanyahu está tentando evitar um confronto, usando todos os truques para enganar e desviar as atenções. E eis que chega Ya’alon & Cia. e apelam a uma revolta aberta contra os EUA!

Há método nesta loucura. O sistema educacional israelense glorifica os zelotes, que há cerca de 1940 anos atrás declararam guerra ao Império Romano. Os zelotes tornaram-se os líderes da comunidade judaica na Palestina e iniciaram uma revolta que não tinha nenhuma chance de sucesso. Os rebeldes foram derrotados, Jerusalém foi destruída, o Templo foi queimado até às fundações.

O show de horrores de Bogie tem ramificações mais amplas.

Apresenta uma imagem de um grupo de extremistas loucos desafiando o moderado e responsável Netanyahu. Netanyahu acena a Obama e ao seu povo: Socorro! Se me pressionarem sobre o congelamento das colônias e o desmantelamento dos postos avançados, será o meu fim! O meu governo cairá, e terão de lidar com os malucos!

Isto seria mais convincente, se Netanyahu tivesse usado a sua prerrogativa legal e demitido Ya’alon do governo, ainda que isso represente um risco político. Em vez disso, “Bibi” convocou “Bogie”, como um diretor que chama um menino e lhe ordena que escreva uma centena de vezes “Eu vou ser um bom menino”. Assim, Ya’alon permanece vice-primeiro-ministro, Ministro Encarregado dos Assuntos Estratégicos e membro do sexteto de ministros governantes (os outros são Avigdor Lieberman, Benny Begin, Eli Yishai, Dan Meridor e o próprio Binyamin Netanyahu).

Sendo assim, Netanyahu não pode fugir à responsabilidade por tudo o que Ya’alon faça e diga.

Fotojornalismo

Na semana em que a queda do Muro de Berlim completa 20 anos, outros muros continuam dividindo povos e reforçando o totalitarismo. O muro da Cisjordânia é um deles.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Fotojornalismo

Turistas visitam trecho do Muro de Berlim. Esta semana completam-se 20 anos da derrubada de um dos maiores símbolos da guerra fria e da luta contra o totalitarismo. Foto da AFP.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Lula e a imprensa

Sem mais delongas - falei sobre o tema em algumas oportunidades (e recentemente no artigo “Para Lula, imprensa boa é imprensa domesticada”) – quem não leu na Veja desta semana o artigo “Más notícias, presidente”, pode fazê-lo a seguir. Uma boa análise da visão distorcida de Lula sobre a imprensa.

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Más notícias, presidente

Fora a tentativa de expulsar o correspondente do New York Times, Lula nunca levantou a mão contra a liberdade de expressão. Mas a língua não perde chance de atacar a imprensa

Por que Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e o casal Kirchner tratam a imprensa como inimiga? Porque na Venezuela, na Bolívia, no Equador e na Argentina de seus sonhos não há lugar para jornais, revistas e redes de televisão independentes. Para essa gente, notícia é só aquilo que seus ministros da propaganda dizem que é notícia. Todos eles suprimiram a liberdade de imprensa ou estão em via de fazê-lo.

Esperam um dia atingir o controle total da informação obtido pelas grandes ditaduras do século passado, prática que é mantida ainda por seus irrelevantes sobreviventes atuais: Cuba e Coreia do Norte. Nesses países não existe imprensa. Não existem repórteres. Não existem jornais. Não existe democracia. Não existe liberdade. Portanto, não existe notícia. Cubanos e norte-coreanos vivem vidas miseráveis, privados das mínimas exigências da subsistência civilizada, mas os papéis pintados periódicos daqueles países não relatam a triste realidade.

Por onde se olha na América Latina, há um governante com a ideia fixa de que seus fracassos seriam menos gritantes se só existisse a imprensa oficial. O Brasil vinha sendo a excepcionalidade na região. Agora o próprio presidente Lula está desenhando o que ele imagina ser a imprensa ideal. "Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. É informar", disse Lula há duas semanas. Na quinta-feira passada, ele voltou à carga com o seguinte discurso, direcionado a repórteres que cobriam uma cerimônia que reunia catadores de papel, em São Paulo: "Hoje vocês têm a oportunidade de fazer a matéria da vida de vocês. Se vocês esquecerem a pauta do editor de vocês e se embrenharem no meio dessa gente (…) Publiquem apenas o que eles falarem. Não tentem interpretar".

É espantoso. Lula não lê jornais. Mas quer ensinar como editar jornais. Má notícia, senhor presidente. Ter 80% de popularidade não credencia ninguém a ser repórter ou editor. Não existe jornalismo a favor. Não existe jornalismo feito pelo estado. Não é atributo do Poder Executivo traçar limites para o exercício da imprensa. A liberdade de expressão não pertence ao universo oficial dos gabinetes executivos, não tangencia os planos de governo e não obedece às orientações dos ministérios da propaganda. Seus limites estão estabelecidos na Constituição e eternizados na cultura dos países democráticos. Os próprios leitores e a Justiça punem os jornalistas que ultrapassam os limites éticos.

A imprensa tem sido vilanizada no Brasil por duas razões principais. A primeira decorre da noção primitiva que alguns ideólogos do petismo têm do Brasil, que para eles é uma grande e simplória terra ideal: a "PTópolis", habitada por pessoas que têm papéis claramente definidos, como a Patópolis, de Walt Disney. Os habitantes de PTópolis também são divididos em classificações rígidas. Existem os que ocupam o andar de cima e os do andar de baixo; os pretos e os brancos; os ricos e os pobres; os bons e os maus; os produtores e os usurários; os amigos e os inimigos do rei... A segunda razão é o fato de que, quando a cúpula de PTópolis e seus corruptos do coração produzem escândalos – e eles os produzem aos montes –, a culpa nunca pode ser do líder ou de seus próximos. A imprensa livre é um estorvo em PTópolis. Ela insiste em investigar, fiscalizar e dar nome aos bois. Em PTópolis, idealmente, só deveriam exercer o jornalismo as pessoas designadas para isso pelo estado. No mundo perfeito de PTópolis não há lugar para algo imperfeito, barulhento, enxerido, investigativo, teimoso, livre, falível e, algumas vezes, até irresponsável como é a imprensa. PTópolis: ame-a ou deixe-a!

Fotojornalismo

Paquistanês ao lado do corpo do irmão, morto em atentado em Rawalpindi (perto da capital , Islamabad) que matou 35 e feriu mais de 60 pessoas. Ataques atribuídos ao Taleban mataram mais de 300 este mês. Foto de Faisal Mahmood/Reuters, publicada na capa do jornal Folha de S.Paulo nesta terça-feira.