Bem que eu disse ontem... Hoje na Folha de S.Paulo.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Com o canudo na mão
A turma que costuma acessar o Escrevinhamentos conhece, também, minha posição sobre a exigência do diploma para o exercício da profissão no Brasil. Ela continua a mesma. Continuo considerando a exigência (que permanece “derrubada”, embora haja quem queira ressuscitar o defunto) um anacronismo, uma excrescência corporativista que em nada garante a qualidade do jornalismo cometido neste país.
Dito isso, aviso que estou oficialmente diplomado. Ontem retirei meu canudo na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), finalizando uma cantilena pessoal que se arrastava por duas décadas. Portanto, agora, falo com "conhecimnento de causa".
Agradeço aos colegas pelo carinho com que me receberam na sala de aula, aos professores e funcionários da universidade. Apesar de minha posição sobre o tema, sempre fui respeitado por todos eles, assim como demonstrei a eles o meu respeito.
Para continuar na trilha, indico abaixo alguns artigos sobre o tema (de minha autoria e da autoria de outros), publicados aqui durante este ano.
- Gay Talese: "Um diploma não torna você um jornalista"
- Diploma e Jornalismo: visões inglesas e argentinas
- Ainda, o diploma
- Diploma: algumas leituras sobre o tema
- Caiu a exigência do diploma: viva o Jornalismo
- Na semana em que pedi a colação de grau o STF pode derrubar o diploma
- Ainda o diploma para jornalistas
- Sobre o diploma para jornalistas
- Diploma: lucidez em meio ao obscurantismo
- A desqualificação como argumento
- Mantido ou não o diploma, algo muda no nosso Jornalismo?
- Com ou sem diploma?
- Priscila, Greenpeace e o canudo
Fotojornalismo

Manifestante é atingido por uma bala de borracha disparada pela polícia, durante protesto perto da embaixada brasileira em Tegucigalpa, Honduras, onde o presidente deposta Manuel Zelaya se refugiou. Em discurso na ONU, o presidente Lula pediu a saída imediata dos golpistas. Foto de José Cabezzas, da France Press.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Quando é que Puccinelli fala sério?
A fanfarronice veio a público e gerou um tremendo mal estar, repercutindo nacionalmente. Minc respondeu definindo Puccinelli como "um truculento ambiental que quer destruir o Pantanal com a plantação de cana-de-açúcar”, e completou: “Essa declaração revela o seu caráter". O pedido de desculpas que se seguiu, foi patético, e põe em dúvida a veracidade de tudo quanto diz o governador daqui para adiante.
A nota do Governo do Estado afirma que as declarações de Puccinelli foram mal interpretadas como ofensivas. "[...] Lamenta a conotação de ofensa a elas atribuídas, pois foram feitas em ambiente diverso, e, antecipando-se a qualquer outra conotação, esclarece que as criticas restringem-se ao ambiente do debate técnico e político dos assuntos que dizem respeito aos interesses de Mato Grosso do Sul e ao Ministério do Meio Ambiente". Argumenta, ainda, que a declaração foi dada em tom de brincadeira. "[...] O governador André Puccinelli fez referências, em tom de brincadeira, a outras críticas recebidas pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. As referências do governador foram entendidas pelos presentes no contexto de brincadeira, sem caráter de ofensa pessoal ao ministro", diz a nota.
Ora, como saber se André Puccinelli fala sério ou apenas graceja? Sua história está recheada de momentos de agressão verbal. Eram apenas brincadeiras?
No dia 21 de novembro de 2007, por exemplo, quando, em entrevista à Rede Brasil de Televisão e à Agência Brasil, o governador disse que o aumento do tempo de planejamento de aulas para 1/3 da carga horária de trabalho do professor seria "vadiagem". Ele apenas gracejava?
Durante a desastrosa entrevista, Puccinelli sugeriu que os professores deveriam usar a internet para preparar aulas de forma mais rápida: "Há 30 anos quando não tinha internet, não tinha Google [site de buscas], não tinha tanta modernidade, os professores planejavam e tinham que pesquisar em livros. Hoje você entra no Google e o professor de Geografia passa a aula com maior tranqüilidade", disse, deixando claro que para ele um professor pode entrar na internet, copiar uma aula, e apresentá-la aos seus alunos. Ele estava brincando?
Truculência
Em novembro de 2007, Puccinelli foi alvo de uma representação no Ministério Público Estadual (MPE) apresentada pelo presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (Fetems), Jaime Teixeira, por ter determinado que a PM-2 (serviço reservado de inteligência da Polícia Militar) espionasse uma assembléia de professores em Campo Grande.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Grande mídia de MS ignora falta de transparência da AL, do TCE e do MPE
O jornal O Estado de Mato Grosso do Sul foi o único veículo da “grande imprensa” a publicar o material na sexta-feira, 18, abrindo a página 5A com reportagem assinada pelo jornalista Humberto Marques. O maior jornal de MS, o Correio do Estado, o jornal Folha do Povo, assim como os dois maiores portais de notícias sul-mato-grossenses, o Midiamax e o Campo Grande News calaram.No sábado, 19, o portal MS Notícias reproduziu na íntegra uma notícia publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na sexta, 18, sobre tema similar, esquecendo de citar o principal, o relatório da Transparência Brasil, contextualizando o material para a realidade do Estado. Finalmente, na segunda-feira, 21, a Folha do Povo manchetou o mesmo material da Folha de S.Paulo.

Apenas o jornal O Estado continuou no tema. Com suíte de Humberto Marques, dedicou o abre da página 3A de sábado ao assunto, repercutindo o gancho central da notícia – a sonegação de informação por parte da Assembléia, do Tribunal de Contas e do Ministério Público – com o presidente da Associação Sul-mato-grossense do Ministério Público, Humberto Lapa Ferri, para quem “a divulgação de informações referentes ao custeio de instituições públicas é um direito do cidadão, e deve ser seguida pelos órgãos responsáveis por tais gastos”.
Para refrescar a memória
A Transparência Brasil concluiu que os integrantes da grande maioria das Assembléias Legislativas brasileiras não são submetidos a qualquer tipo de controle demonstrável quanto à forma como gastam os recursos que têm à disposição.
Para analisar o controle sobre os gastos do legislativo estadual em todo o País, a ONG enviou aos Ministérios Públicos, aos Tribunais de Contas e às Casas legislativas das 27 unidades federativas brasileiras um ofício com indagações a respeito dos salários e benefícios diretos e indiretos recebidos pelos deputados estaduais. No ofício, solicitava-se que os dados fossem discriminados segundo diversas categorias. No caso das Assembléias (mas não dos TCEs e dos MPs) foi feito um segundo contato, vinte dias após o envio dos ofícios. Como resultado do exercício, obtiveram-se informações (completas ou incompletas) de apenas 8 das 27 Casas.
A Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul e o Tribunal de Contas do Estado simplesmente não responderam aos ofícios. Já o Ministério Público Estadual afirmou absurdamente ter havido “equívoco” por parte da Transparência Brasil “quanto ao destinatário” do ofício e argumentou que os dados solicitados são “sigilosos”, mas sugeriu que se solicitasse a informação à própria Assembléia, cujo site não disponibiliza qualquer informação sobre salários, verba indenizatória ou qualquer outra despesa incorrida pelos deputados estaduais.
Cobertura fraca
A rasa cobertura da imprensa sul-mato-grossense sobre pauta tão cheia de possibilidades e de significados pode sugerir três situações: 1) os jornalistas que compõem as redações destes veículos estão desligados do que ocorre à sua volta; 2) estão impregnados pelo câncer da autocensura – que como disse o jornalista Carlos Castilho, recentemente, no artigo “Auto-regulação, autocensura e autonomia”, limita a nossa capacidade de pensar e anula a diversidade na troca de informações, uniformiza conteúdos a pretexto de preservar interesses e conveniências e, ao fazer isso, agride o jornalismo porque priva o público de dados, fatos e processos necessários para a formação de opiniões e tomada de decisões, ou 3) o editorial de nossos jornais e portais está agrilhoado pelos interesses do patrão.
Se a última hipótese for a correta, menos mal. É como eu disse ano passado no artigo “Quarenta anos após AI-5, ainda a censura”: em meio à censura econômica, “a questão que se coloca aos que querem debater de fato o futuro da profissão se resume em como podemos fazer frente, nós, simples mortais, às exigências do poder midiático enclausurado nas mãos do patrão, mantendo, ao mesmo tempo, padrões éticos que nos permitam desenvolver um trabalho digno e enquadrado no que se define como missão do jornalismo: a busca exaustiva da verdade, com independência e fidelidade ao leitor.”.
Hoje não, amanhã, acho...
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Participo hoje, em SP, do seminário Info: Twitter, Orkut e Flickr
O Chamado de Cthulhu e outros contos - H.P. Lovecraft
“Sou um sujeito assim – um cético materialista com gostos clássicos e tradicionais; afeito ao passado e a suas relíquias e tradições, convicto de que a única busca de sentido digna de um homem neste universo caótico é a busca dos prazeres requintados e inteligentes que se obtêm mediante uma vívida existência mental e imaginativa”. Este é Howard Philips Lovecraft, ou H.P. Lovecraft, autor cuja coletânea de contos “O Chamado de Cthulhu e outros contos” (Editora Hedra) acabo de degustar neste domingo, em sampa. Trata-se de um maravilhoso mergulho nas profundezas da mente de um dos autores fantásticos mais originais da literatura estadunidense.Nascido em 20 de agosto de 1890, em Providence, Rhode Island, Lovecraft foi uma criança precoce. Aos dois anos já recitava poesia, aos três, aprendeu a ler, aos cinco, teve contato com as Fábulas dos Irmãos Grimm e com as Mil e uma Noites. Entre seis e sete anos de idade, aventurou-se em seu primeiro conto.
O valor literário da obra de H.P. Lovecraft não foi reconhecido durante sua vida. Após sua morte, em março de 1937, seus correspondentes (Lovecraft deixou uma vasta correspondência) August Derleth e Donald Wandrei, movidos pelo desejo de perpetuar a obra o amigo, ofereceram seus contos a vários editores. Acabaram fundando, eles mesmos, a editora Arkhan House, com o intuito de publicar as obras do autor. Mas, o reconhecimento definitivo só veio a partir da década de 60, com a publicação do primeiro volume de sua correspondência em Selected Letters 1 (Archan House, 1965). Em 2005, a coleção Library of America publicou Tales, um volume inteiramente dedicado a Lovecraft, alçando-o definitivamente ao panteão dos maiores representantes do fantástico e do terror.
“O Chamado de Cthulhu e outros contos” oferece um passeio pela produção literária de Lovecraft tendo início em 1917, com o conto Dagon, passando pela década de 20 e 30 com histórias que nos arrebatam do sofá, fazendo com que nossa mente percorra o universo, as profundezas da terra e, em meio a isso, imaginemos o que há entre estas duas dimensões. Contos como “Ar frio” (1926), “A música de Erich Zann” (1922), “O modelo de Pickman” (1926), “O assombro nas trevas” (?) e “O chamado de Cthulhu” (1926) são exemplos do que se convencionou chamar – referindo-se a obra de Lovecraft - de horror ancestral ou horror cósmico.
“O mundo e todos os seus habitantes parecem-me imensuravelmente insignificantes, de modo que sempre anseio por insinuar simetrias mais vastas e mais sutis do que aquelas relativas à humanidade”.
Os contos combinam a antiga tradição do horror com pinceladas de ficção científica e avanços da ciência, resultando em um tratamento literário e filosófico dos preceitos científicos de então. “A emoção mais antiga e mais forte do homem é o medo, e o medo mais antigo e mais forte é o medo do desconhecido”.
Inspirado por autores que construíram uma reputação sobre a literatura fantástica como Edgard Alan Poe, Villiers de L´Isle Adam, Willian Beckford, Ambrose Bierce, S.T. Coleridge, Nathaniel Hawthorne, Wasghington Irving, Henry James, Guy de Maupassant e R.L Stevenson, Lovecraft é um personagem tão interessante quanto os que ele criou para habitar suas histórias. “Meu gosto por coisas estranhas começou muito cedo, pois sempre tive uma imaginação absolutamente descontrolada”, afirma em carta a R. Michael (em 20 de julho de 1929), cujo encerramento nos dá pistas de sua mente fulgurante e imaginativa: “Mas o ocidente fulgura com o sol que parte, e acima das copas ancestrais a alongada foice prateada da jovem lua perturba. Preciso ir para casa...”.

