Semana On

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Comissão da ONU acusa Israel e Hamas de crimes de guerra

Relatório da ONU divulgado na segunda-feira concluiu que há indícios de que militares israelenses e militantes de grupos armados palestinos cometeram crimes de guerra e, possivelmente, crimes contra a humanidade durante o conflito na faixa de Gaza entre dezembro e janeiro.

O documento condena o exército israelense e, também, o Hamas - por disparar foguetes contra a população civil israelense. Sim, o Hamas deve ser condenado por atacar a população civil. Ocorre que a desproporção dos ataques perpetrados pelo exército israelense e pelo Hamas é tamanha que não se pode colocar no mesmo patamar que a violência e o terror impostos aos palestinos por um exército profissional, dotado de armamento sofisticado e letal.

Segundo o texto, a operação contra Gaza foi planejada para atingir toda a população em vez de ter como foco os militantes do Hamas. Afirma ainda que declarações de militares israelenses de que o uso desproporcional da força, os ataques à população civil (veja aqui, aqui e aqui) e a destruição de propriedades poderiam ser meios legítimos de atingir objetivos políticos e militares devem ser denunciadas.

Ataques a fábricas de alimentos, sistemas de água e residências comprovam o objetivo de punir os palestinos, segundo o relatório, que cita ainda ataques a uma mesquita em horário de culto e tiros em pessoas que deixavam suas casas com bandeiras brancas nas mãos. O relatório conclui que a privação de acesso a subsistência, emprego e água pode levar a corte a entender que houve crime de perseguição, um crime contra a humanidade. A operação militar resultou na morte de cerca de 1.400 palestinos.

A conclusão da ONU não é novidade, reafirma as denúncias que têm sido feitas desde o início da ação militar promovida por Israel em janeiro: de que os palestinos foram vítimas de ataques indiscriminados que objetivaram espalhar o terror sobre a população civil de modo a "colocá-la em seu devido lugar".

A estratégia é conhecida: forçar a população da maior prisão ao ar livre do mundo ao desespero para, num segundo momento, usar suas reações como pretexto para mais um massacre. Um massacre premeditado, e que começou a ser preparado seis meses antes com vistas às eleições que ocorreram em fevereiro. Como definiu Idelber Avelar em um artigo que expõem de forma clara as verdadeiras intenções de Israel sobre os territórios palestinos ocupados, “no estado sionista, assim como nos EUA, bombardeios às terras árabes rendem votos fáceis.”.

Genocídio

Em janeiro passado, como resultado de um debate com leitores do blog, escrevi um artigo intitulado O que ocorre em Gaza é genocídio?”. Perguntava, a princípio, comod definir genocídio? O termo foi criado por Raphael Lemkin, um judeu de origem polonesa, em 1944, a partir da junção da raiz grega génos (família, tribo ou raça) e - caedere (Latim - matar). Após o assassinato em massa de judeus, ciganos, testemunhas de jeová, comunistas, homossexuais e prisioneiros de guerra eslavos pelos nazistas, Lemkin iniciou uma campanha pela criação de leis internacionais que definissem e punissem o genocídio. Esta pretensão tornou-se realidade em 1951, com a Convenção para a prevenção e a repressão do crime de genocídio, da qual o Brasil é signatário.

A Convenção define por genocídio os seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso:

a) Assassinato de membros do grupo; b) Atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo; c) Submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial; d) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; e) Transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo.

No meu entender, a política de bombardeio contínuo dos centros urbanos palestinos e de isolamento desta população em guetos é um “atentado grave à integridade física e mental” dos seus habitantes, portanto, deve ser classificado como genocídio.

O acadêmico e escritor palestino-libanês Saree Makdisi afirma que uma geração inteira de palestinos cresce com deficiências físicas e nutricionais geradas por falta de alimentos e alterações emocionais, por viver no cárcere virtual criado pelo bloqueio israelense, que se estende desde junho de 2007.

Em meio à violência, as crianças palestinas são as principais vítimas. Cerca de 50% dos 1,5 milhão de palestinos em Gaza têm até 15 anos de idade. O número de mortos no conflito que se estende desde o fim de dezembro ultrapassa os 700, entre as quais 220 crianças.

Um estudo da Queen"s University revelou que 90% das crianças em Gaza já foram vítimas do uso de gás lacrimogêneo, presenciaram cenas de violência em suas casas ou testemunharam tiroteios e explosões. O estudo demonstra, também, que o risco de desordem emocional em uma criança ferida nessa região se multiplica por quatro. Do mesmo modo, aquelas que presenciaram uma morte têm o risco de estresse pós-traumático multiplicado por 13. “É como se as crianças palestinas de alguma maneira não merecessem as proteções garantidas pela Convenção de Genebra e o Direito Humanitário”, conclui o estudo.

Levantamento feito pelo Gaza Community Mental Health Programme, realizado após a segunda Intifada, em 2000, indica que 70% das crianças palestinas na região não conseguem se concentrar, 96% têm medo do escuro, 35% se isolam e 45% sofrem altos níveis de ansiedade e estresse. Da mesma forma, o bloqueio israelense que se estende há quase dois anos, iniciado quando o grupo islâmico Hamas tomou o controle da área, aprofundou de forma avassaladora às dificuldades econômicas, sociais e sanitárias da população palestina, configurando-se em “submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial”.

É o que retrata reportagem publicada no jornal Folha de S.Paulo, citando o chefe da ONU para assuntos humanitários, John Holmes, segundo quem em março do ano passado, dez meses antes do início dos ataques, a situação do território palestino já era grave. Após percorrer a região, ele relatou "uma miséria que priva os moradores das mais elementares condições de dignidade.".

A reportagem faz um levantamento sombrio das condições de vida na Faixa: “O drama se traduz nos indicadores da região: mais de 80% dos 1,5 milhão de habitantes do território são pobres, e metade da população ativa não tem renda fixa. Dois terços dos cerca de 110 mil empregos que existiam no comércio desapareceram nos últimos anos. O bloqueio de 2007 acirrou a crise. Das 3.900 empresas locais de três anos atrás, sobraram menos de 200... Com o colapso do sistema de esgoto, os dejetos acabam despejados no mar, tornando insalubres as praias mediterrâneas e aniquilando a fonte de lazer preferida da juventude local. Só há eletricidade durante metade do dia no território, que se assemelha em tamanho e população ao município de Guarulhos (SP) - na prática, duas das áreas mais densamente povoadas no mundo, com mais de 4.000 habitantes/km2.

Estas políticas de esmagamento da população palestina vêm sendo perpetradas há anos e registradas em detalhes por observadores de todo o planeta. No artigo “Genocide in Gaza” (2006), Ilan Pappe – escritor, conferencista sênior no Departamento de Ciência Política da Universidade de Haifa e Presidente do Instituto Touma para Estudos Palestinos em Haifa –esmiúça em detalhes os métodos do terror estatal israelense:

A estratégia anterior em Gaza foi colocar os palestinos lá como se fosse um gueto, mas isso não está funcionando. A comunidade posta no gueto continua a expressar sua vontade de viver através do lançamento de mísseis primitivos para dentro de Israel. Isolar em guetos ou quarentena comunidades indesejadas, mesmo se elas forem consideradas subumanas ou perigosas, nunca funcionou na história como solução. Os judeus sabem melhor que ninguém por sua própria história. O próximo estágio contra tais comunidades no passado foram ainda mais horrendos e bárbaros. É difícil dizer o que guarda o futuro para a população de Gaza, confinada em um gueto, posta em quarentena, indesejada e demonizada. Será uma repetição de exemplos históricos funestos ou ainda é possível um destino melhor?

Fausto Wolff, no artigo “Protejam as crianças”, coloca o dedo na ferida ao denunciar que tanto Israel quanto os Estados Unidos têm violado constantemente a Convenção de Genebra, cujos artigos 55 e 56 tratam da proteção que os invasores devem prover para a população civil do país invadido: acomodações, comida, bebida, assistência ambulatória e hospitalar.

O artigo 56 enfatiza a obrigação do poder invasor de, em cooperação com as autoridades locais, providenciar rigorosos padrões higiênicos e fiscalizar bens perecíveis para evitar a propagação de epidemias, adotando medidas de profilaxia. E a todos os médicos e enfermeiras do país ocupado deve ser dada a liberdade de cumprir seus deveres.

Um trecho do artigo “Israel vive paradoxo aos 60 anos”, de Daniela Kresch, é esclarecedor no que se refere a transformação de Israel em um país que trai as suas origens ao reproduzir sobre seus vizinhos os horrores que estão na origem de sua criação: “Para o cientista político Shlomo Zener, os traumas e temores nacionais não podem justificar a severidade no modo como são tratados os palestinos. Para ele, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza corrompeu o espírito libertário dos primeiros israelenses, que lutaram para criar um Estado moderno, sem perseguições, que servisse de modelo ético depois do extermínio de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra.”.

Psicanalista e professor da Universidade Estadual de Maringá (PR), Raymundo de Lima traça, no artigo “É ‘barbárie’, ‘genocídio’, ‘holocausto’, ou ‘massacre’?”, um perfil bem reconhecível dos que tentam racionalizar a prática do genocídio. Segundo ele, o genocida tende a utilizar mecanismos de defesa psíquica como a racionalização e a intelectualização para justificar o seu ato como de “legítima defesa”, proteção contra o “intruso”. Qualquer similaridade com os argumentos usados por Israel em sua política belicista contra os palestinos não é mera coincidência.

Diz ele: “...ou seja, o outro é sempre visto como ‘perigoso’, ‘inferior’, ‘estrangeiro’, ‘infiel’, ‘selvagem’, ‘coisa’ ou ‘objeto, enfim, o ‘outro’, o ‘diferente’ é sempre considerado um problema para a existência do genocida; como é marcado na sua singularidade, o ‘outro’ não é visto como ser humano total, não é ‘humanizado’ em sua condição de ser existente.”.

Em seu artigo, Lima sustenta, ainda, que o crime de genocídio do Estado ou de qualquer ato de barbárie de grupos extremistas, embora pareçam ser irracionais, na verdade são cometidos em nome de alguma causa “justa”. Ele explica: “O ato monstruoso sempre recorre a uma moral tosca cuja razão cínica satisfaz aos irmãozinhos que compartilham com a mesma crença, que acreditam nas sombras dogmáticas projetadas por um psiquismo esclerosado. Muitas vezes quem pratica o grande massacre se coloca como vítima...”.

Vale também citar o trecho final de “Genocide in Gaza”, no qual Pappe analisa de forma cáustica (e premonitória) os caminhos e descaminhos do holocausto palestino e as alternativas que restam para conter o autoritarismo com que os israelenses conduzem a questão.

Ainda não há outra forma de parar Israel exceto boicote, desinvestimento (NT: retirada de investimentos, participação em sociedades etc.) e sanções. Todos nós deveríamos apoiar tais medidas clara, aberta e incondicionalmente, não importando o que os gurus de nosso mundo nos digam sobre a eficiência ou razão de ser de tais ações. A ONU não interviria em Gaza como faz na África; os ganhadores do prêmio Nobel não se interessarão em defendê-la, como fazem por causas no Sudeste Asiático. O número de pessoas mortas não é estonteante se comparado com outras calamidades, e não é uma história nova - é perigosamente velha e complicada. O único ponto suave dessa máquina de matar são suas linhas de oxigênio com a civilização 'ocidental' e a opinião pública. Ainda é possível perfurá-las e, pelo menos, tornar mais difícil para os israelenses implementar sua estratégia futura de eliminação do povo palestino, ou pela limpeza deles na Cisjordânia, ou pelo genocídio na Faixa de Gaza.

Investigações

Em entrevista em Nova York, o líder da comissão responsável pelo relatório da ONU, o juiz sul-africano Richard Goldstone, disse estar otimista quanto à possibilidade de que as recomendações do documento sejam seguidas. A comissão recomenda que o Conselho de Segurança da ONU conceda um prazo de seis meses para que Israel faça uma investigação de possíveis crimes cometidos pelos militares e para que as autoridades palestinas façam o mesmo em relação a ações praticadas por grupos armados.

As investigações dos dois lados devem ser acompanhadas por uma comissão de especialistas em direitos humanos. Caso as partes não realizem a investigação, o relatório afirma que o assunto deve ser levado para o Tribunal Penal Internacional, onde são julgados crimes de guerra e contra a humanidade -Israel, porém, não é signatário do tratado constitutivo do tribunal, o que limitaria a efetividade de suas decisões.

Segundo Goldstone, Israel não cooperou com o relatório e as investigações já conduzidas pelo país não são válidas. "A investigação israelense tem sido conduzida em separado por militares com base nas informações dos seus próprios soldados. É preciso falar com as vítimas e ter transparência." Goldstone disse que, como judeu, ficou "desapontado" com a atuação do país.

O relatório afirma que não há mais espaço para a impunidade. Os representantes da comissão designada para apurar os fatos foram surpreendidos com declarações por parte de vítimas de que, cada vez que um relatório é publicado e nada acontece posteriormente, isso "fortalece Israel e sua convicção de ser intocável".

Da mesma forma, o relatório afirma que os militantes do Hamas cometeram crimes de guerra e possivelmente crimes contra a humanidade ao lançar mísseis contra Israel, sem preocupação de distinguir alvos civis e militares. Os ataques deixaram quatro mortos. "Isso causou terror na população civil israelense, como mostrado pelas altas taxas de traumas psicológicos em comunidades afetadas. Os ataques também levaram a uma erosão das vidas social, cultural e econômica nas comunidades localizadas no sul de Israel.", afirma Goldstone.

Leia mais sobre este tema
- O que ocorre em Gaza é genocídio?

O mundo ideal dos políticos

"O mundo ideal de um candidato é aquele no qual ele possa dizer o que bem entende sem ter de recear o contraditório. Na impossibilidade de calar a crítica, vale pelo menos submetê-la a regras tão draconianas quanto possível, a fim de que expor eventuais disparates do pretendente a cargo público se torne uma aventura juridicamente incerta, à qual poucos estarão dispostos a arriscar-se. É nesse espírito que nossos parlamentares votam a nova Lei Eleitoral."
Hélio Schwastsman, hoje, na Folha de S.Paulo.

Fotojornalismo

Para o presidente do Seado, José Sarney, o legislativo é vítima da imprensa. Não seria outra a situação? Não seria a população vítima de um legislativo corrupto e corporativista? Foto da Folha de S.Paulo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Véu islâmico, laicidade e liberdade religiosa

Interessante o artigo "Véu islâmico, laicidade e liberdade religiosa", de Paulo Gustavo Guedes Fontes - mestre em direito público pela Universidade de Toulouse (França) e procurador da República em Sergipe - publicado hoje no jornal Folha de S.Paulo.

Fontes defende a laicidade do Estado, mas, também a liberdade religiosa, condenando ações que possam restringi-la. Referindo-se a recentes decisões do governo francês de coibir o uso da burca no país, ele aponta a necessidade de critérios em decisões do gênero.

"Contudo, tais medidas podem, sim, ferir gravemente a liberdade de crença e de religião. É compreensível que se proíba o uso de signos religiosos pelos representantes do Estado, como juízes, policiais ou mesmo professores de escolas públicas. Mas que tal proibição atinja o próprio cidadão na sua vida privada, isso constitui uma deturpação do princípio da laicidade.

Não se pode entender a laicidade do Estado sem referência à liberdade religiosa. É a outra face da moeda. Por que razão o Estado deve ser laico? Porque, representando todos os cidadãos, não poderia abraçar uma opção religiosa sem alienar dessa representação os cidadãos de outra crença ou mesmo os que não professem religião alguma. Assim, a liberdade de religião, aliada a uma nova concepção do Estado e da igualdade, está na origem da laicidade.

De qualquer forma, é aos agentes e funcionários do Estado que o princípio da laicidade se dirige, vedando que expressem, no exercício da função pública, suas preferências religiosas. Os edifícios públicos, da mesma maneira, deveriam manifestar essa neutralidade diante da religião.

A laicidade é exigida sempre do Estado, nunca do cidadão, do particular, para o qual vale a liberdade de professar qualquer crença ou religião. A menina que vai à escola francesa não representa o Estado. É para que os cidadãos possam usar crucifixos, véus ou quaisquer signos religiosos que o Estado se laicizou, que se tornou neutro diante da opção religiosa.
"

Falando especificamente do uso da burca por estudantes francesas de fé islâmica, Fontes aponta os limites do Estado: "Vedar à jovem o uso do véu islâmico, mesmo na escola pública, é violentar sua liberdade religiosa, mormente pela importância que essa questão tem para as mulheres muçulmanas. Vedar o seu uso no território de um país é medida que remete às guerras de religião. O que tem sido professado na França é uma deturpação da laicidade, o laicismo, versão militante daquela. Ele perde de vista a liberdade religiosa e quer impor à população uma forma de secularização."

Escrevi recentemente sobre este tema nos artigos e comentários abaixo:
- Relativizando o relativismo. Ou: no dos outros é refresco
- Atire a primeira pedra quem apóia a burca

'Mídia passou a ser inimiga das instituições representativas', diz Sarney

Para ele o presidente do Senado, José sarney, o Legislativo é mais criticado pela imprensa porque toma decisões 'às claras'. A afirmação foi feita hoje, durante seu discurso sobre Dia Internacional da Democracia.

"A tecnologia, hoje, levou os instrumentos de comunicação a tal nível que, a grande discussão que se trava é justamente esta: quem representa o povo? Diz a mídia: somos nós, e dizemos nós representantes do povo: somos nós. É dessa contradição que existe hoje, um contra o outro, que, de certo modo, a mídia passou a ser uma inimiga das instituições representativas", analisou Sarney.

Provavelmente o faraó maranhense projeta em seus sonhos de sociedade ideal um país sem imprensa livre, onde os desmandos, a malandragem e a roubalheira possam ocorrer sem que ninguém as aponte. Até quando a população vai se curvar para estes entulhos políticos?

Senado retoma votação de projeto da reforma eleitoral - assista AO VIVO

Senado retoma votação de projeto da reforma eleitoral
Restrições à internet e realização de eleições diretas em caso de cassação são analisadas
Assista ao vivo e descubra quem defende e quem quer acabar com a liberdade de expressão na internet.

Fotojornalismo

Violência urbana: acusada de roubo, menina de 16 anos é dominada por policiais militares em São Paulo. Depois de alguns socos e chutes desferidos pelos policiais, e de um jato de pimenta no rosto, ela foi levada para a Fundação Casa. Foto do jornal Folha de S.Paulo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Obama para inglês ver

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, prorrogou hoje por um ano as medidas de embargo comercial imposto a Cuba, previstas na Lei contra o Comércio com o Inimigo. 0O embargo vem sendo prorrogado anualmente desde que entrou em vigor, em 1963.

Neste caso, no entanto, adquire caráter simbólico, já que representa a primeira renovação durante o mandato de Obama, que em seus primeiros meses no poder eliminou as restrições de viagens e envio de remessas dos americanos a seus familiares na ilha. Com esta determinação, Obama mantém a política de seus antecessores sobre o embargo à ilha.

A lei, que proíbe que empresas americanas possam manter relações comerciais com países hostis, data originalmente de 1917, mas entrou em vigor somente em 1963, depois da Revolução Cubana e da chegada de Fidel Castro ao poder. Desde então, o embargo foi reforçado e ampliado através de outras leis, como a Helms-Burton, de 1996.

Trata-se da reafirmação da hipocrisia estadunidense que, "em nome dos direitos humanos", isola Cuba do mundo mas mantém as portas abertas para regimes tão ou mais totalitários quanto o de Castro, como a China ou a Arábia Saudita. Mais uma mostra de que a "mudança" proposta por Obama foi apenas para inglês ver. Ainda assim, é de se compreender. Um presidente que tem que enfrentar manifestações públicas contra a criação de um sistema público de saúde, não tem mesmo muito espaço para manobras humanistas.

Leia mais sobre este tema:
- Hotel em ruínas mostra fosso entre discursos de Obama e Israel
- Obama e o biocombustível II
- Maquiavel, Obama e os assentamentos que não encolhem
- Obama joga para a torcida
- Obama fala sério ou endurecimento com Israel é para "palestino ver"?
- Obama e o etanol
- Obama e o biocombustível

Para pesquisador, iniciativa de fiscalizar a internet é "caricata"

Publicado na edição de hoje do jornal Folha de S.Paulo

A iniciativa de congressistas para regulamentar o uso da internet em período eleitoral "chega a ser caricata", na avaliação de Camilo Aggio, pesquisador da UFBA (Universidade Federal da Bahia). Com pesquisa sobre o uso da internet na política de países como EUA e Japão, Aggio diz que não é possível fiscalizar conteúdos políticos na internet como pretendem os legisladores. Mas ele avalia que a lei discutida no Congresso amplia a possibilidade de uso da rede, comparada à lei aplicada nas últimas eleições municipais. (ITALO NOGUEIRA)

FOLHA - Qual a sua avaliação do projeto discutido no Congresso?
CAMILO AGGIO - O que mais me preocupa é a expansão do uso de ferramentas de compartilhamento de conteúdo, mídias sociais, para que candidatos possam ter contato com o eleitor. Estão tentando adaptar, depois da pressão popular. Nas eleições passadas, políticos podiam estruturar campanhas apenas em websites. Isso sufocava ferramentas valiosas para fortalecer princípios democráticos. [O presidente dos EUA, Barack] Obama utilizou largamente essas ferramentas. Agora há essa possibilidade.

FOLHA - O projeto melhora o uso da internet na campanha?
AGGIO - Ao criar canais para os candidatos debaterem ou exporem com mais detalhe seus projetos, é um ganho democrático extremo. Principalmente se for pensar na campanha de candidatos de partidos pequenos, com menos recursos.

FOLHA - É possível fiscalizar a campanha na internet?
AGGIO - A ideia de fazer uma lei sobre internet é tida como caduca e restritiva. Não se sabe como vai fiscalizar, com tantos sites de compartilhamento de conteúdo, de relacionamento.
Chega a ser caricato que algum representante do Legislativo pense em fiscalizar. Usar seis, sete funcionários do gabinete para ver o que alguém falou ou deixou de falar. O princípio da internet é a liberdade.

FOLHA - Por que os políticos sentem necessidade de lei sobre isso?
AGGIO - É uma questão de preservação. Só acho que é caricato aplicar isso à internet como um todo porque é impossível.
Quantos blogs são mantidos por brasileiros? Não há sistema possível para fiscalizar todos os blogs pessoais.

FOLHA - Há o risco de campanha negativa?
AGGIO - Se pegar toda a literatura de campanhas online desde 1996, há mais conteúdo de autopromoção do que referência a outro candidato.

FOLHA - Como é a lei em outros países?
AGGIO - Nos EUA e na Inglaterra, é livre para partidos e candidatos. Cingapura e Japão têm mais restrições, mas tinham em todos os meios de comunicação na campanha, foi transferido para a internet. Ainda assim, a web no Japão permitiu que políticos de partidos menores entrassem em contato com eleitores e divulgassem inclusive sua existência.

Eleição, internet e borboletas

Por Marina Silva
Publicado hoje no jornal Folha de S.Paulo

Eleição é sempre uma grande oportunidade de reafirmar a democracia. E as regras eleitorais são o primeiro passo para garantir que os processos democráticos sejam transparentes, precisos, confiáveis, informados e coerentes com a vontade popular. Alterá-las deveria significar, sempre, torná-las mais modernas, inteligentes e aptas a realizar o objetivo de chegar a uma sociedade democrática avançada, regida por regras universais e avessa ao patrimonialismo.

O Congresso brasileiro está hoje às voltas com a apressada análise -em consequência dos prazos constitucionais- de uma reforma na legislação eleitoral que poderá valer já em 2010. O texto básico foi aprovado, mas o Senado terá que votar nesta semana as emendas para depois remetê-lo de volta à Câmara dos Deputados, que o enviará à sanção do presidente Lula. Tudo até o dia 3 de outubro.

São muitos os pontos polêmicos. Além de não exigir divulgação dos nomes de todos os doadores e valores doados, a reforma, até agora, mantém a “doação oculta”, em que recursos vão para os partidos, que os repassam a candidatos sem a necessária identificação do vínculo entre doador e beneficiário.

Ainda é possível aprovar a emenda do senador Aloizio Mercadante que garante internet totalmente livre, antes, durante e depois das eleições. Nada de amarras, de tentativas de tolher a revolução na comunicação que a internet representa, com ampla liberdade e espaço para a conscientização, a mobilização e a pressão da sociedade.

Restringir a internet, como se fosse só mais um canal de comunicação nas relações entre mídia e sistema político, é desconsiderar que ela é estruturalmente diferente. É a maior ferramenta daquilo que o sociólogo espanhol Manuel Castells chamou de sociedade em rede, tornada possível pela expansão das tecnologias de informação.

Essa estrutura de redes tem sido decisiva para potencializar ações coletivas, que podem ganhar maior espaço nas eleições, interferindo diretamente na qualidade das escolhas políticas, por meio de iniciativas autônomas da sociedade.

Na internet, o fazer político é multicêntrico, não há senhores. Nela, a expansão política se dá no sentido oposto ao de um modelo autoritário ou dirigido, pois fica longe de controles, monopólios e centralização.

Uma reforma política democrática não pode, sob nenhum pretexto, tentar tolher essa livre manifestação. Insistir nisso é retrocesso grave -além de ser, provavelmente, tarefa impossível. Como tentar capturar num único puçá uma revoada de milhões de borboletas.