entre bruxos e velas
vomito veneno e vísceras
ensandecida e crédula
no meu último ato místico
e me salvo sem pudor
de seus pecados
Adriana Godoy, esta semana, no Poema Dia
sábado, 12 de setembro de 2009
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Edward Said, a filologia e o tal relativismo
Diego Vianna, do excelente Para ler sem olhar, publicou hoje um interessante artigo sobre o relativismo cultural. Ele pode servir de contraponto para três artigos que publiquei aqui recentemente: "Os descaminhos do relativismo cultural", de Harry Gensler, "Atire a primeira pedra quem apóia a burca" e "Relativizando o relativismo. Ou: no dos outros é refresco", ambos de minha autoria. Trata-se de um tema que merece ser debatido.
Turismo sexual, prostituição e a desconstrução da imagem feminina
Em dezembro passado escrevi um artigo intitulado “Toda brasileira é bunda?", no qual questionava a exposição da sexualidade feminina como ferramenta de marketing focada no turismo. O texto foi provocado por algumas situações ocorridas no exterior e no Brasil onde a mulher brasileira acaba sendo estigmatizada como uma “mulher fácil”.
Casos como o da editora Solcat (veja aqui e aqui) - que dá dicas a gringos de como “se dar bem” com uma mulher no Brasil - e o relato de uma astrônoma brasileira radicada na Inglaterra (veja mais á frente) mostram claramente o tormento que pode se abater sobre as mulheres brasileiras expostas a um estereótipo descabido, aqui e lá fora.
O assunto foi alvo de uma enquête (finalizada ontem) aqui no Escrevinhamentos, sob o seguinte questionamento: “A sexualização da mulher brasileira na mídia e na publicidade prejudica sua imagem no exterior?”. Oitenta e seis por cento dos participantes (63) disseram que sim, outros 10 internautas (13%) disseram que não.
Apesar de o artigo que deu origem a este debate ter surgido a partir de uma crítica à mídia, a questão da prostituição também tem papel preponderante na desconstrução da imagem da mulher brasileira. Não tenho nenhum preconceito em relação às mulheres que optam por vender o corpo para viver. No entanto, esta opção não pode ser estendida às demais mulheres como se fosse um padrão da brasileira. Assim como temos que respeitar quem opta por este tipo de vivência, temos que respeitar as mulheres que não optam por ela.
O desabafo da astrônoma (publicado originalmente no blog LLL e do qual reproduzo um trecho em seguida) é um resumo triste do que está acontecendo neste momento com nossas esposas, mães, irmãs e amigas, mulheres englobadas em um estereótipo de permissividade para cuja construção elas não colaboraram.
“Esse eh um desabafo meu para todas as mulheres que sujam e arrasam com a imagem da mulher brasileira que poderia ser tao glamourosa. Grito em meu nome e em nome de todas as outras mulheres que estao aqui no exterior batalhando seriamente por uma vida melhor, constituindo uma familia amorosa honesta e tentando ser feliz.
Apesar do glamour, muitas vezes tenho vergonha de dizer que sou brasileira. Principalmente quando estou sem o Edu do lado e na presenca de homens solteiros que nao me conhecem de fato. Ja passei por varias situacoes desagradaveis em minha vida e ja escutei varias piadinhas de mal gosto durante minhas viagens mundo afora, mas devo confessar que nada foi tao direto e agressivo quanto o ocorrido em Oxford. ... Obviamente que ao saberem que sou brasileira, e bombardeados que estao sendo por todas as noticias (as mais degradantes) de carnaval vinda do Brasil, alguns individuos despreziveis falaram, estimulados pelo alcool, o que todo mundo pensa mas nao tem coragem de dizer quando estao em seu estado normal de consciencia.
Tive que aguentar varias piadinhas cafajestes sobre mulher brasileria e o pior, todas vindo de pessoas com um nivel cultural alto e bem esclarecidas, ou seja, estava falando com gente teoricamente inteligente. Um babaca com uma risadinha sacana me perguntou se as mulheres andavam peladas no Brasil porque era muito quente. Um imbecil frances disse que seria bom ir participar de uma reuniao no Brasil para poder “catar” as mulheres, afinal, as mulheres no Brasil estao assim disponiveis como qualquer mercadoria barata e descartavel, bastando escolher. O outro concordou e imaginou e descreveu uma cena bizarra dele saindo do aeroporto e sendo agarrado por tres mulheres desesperadas querendo leva-lo para cama. Um teve a cara de pau de dizer que se fosse ia voltar com umas tres para casa.”
Quem não conhece alguma mulher brasileira que tenha sido alvo de piadinhas do gênero no exterior? Quase a totalidade das mulheres brasileiras que viajam para a Europa e os Estados Unidos já foram vítimas deste tipo de humilhação.
Há quem não concorde com a influência negativa do turismo sexual e da prostituição sobre a imagem da mulher brasileira. Alex Castro, do LLL, por exemplo, tem uma posição bastante definida sobre o tema e já escreveu sobre ele algumas vezes. De suas avaliações, extraio os seguintes trechos como contraponto:
“Claramente, nosso povo tem talento para o sexo e há grande demanda mundial pelos nossos serviços. Já ouvi diversos estrangeiros comentarem que não existe prostituta como a brasileira: ela é quente, gostosa, linda, sensual, calorosa, parece uma namoradinha, enquanto as européias são como frias máquinas, vapt-vupt, negócios são negócios, no relógia, nem tem graça, etc.
Ou seja, país do futebol: pode. Berçario de super-models: nosso orgulho nacional! Capital mundial da cirurgia plástica: só comprova a excelência da nossa medicina! Meca do turismo sexual: cruzes, que vergonha!, que problema!, vamos resolver essa 'questão'!
Mas a resposta à sua provocação é bastante óbvia: não, eu não gostaria que minha filha fosse prostituta, mas também não gostaria que fosse enfermeira, faxineira, engenheira, seringueira, advogada, pagodeira.”
Trecho do artigo “A questão do turismo sexual”
“Ou seja, brasileiro ir pra Europa estudar filosofia: pode. Jogar pelada ou dar voltinhas na pista: herói nacional, Ayrton Senna do Brasilll-illll-illll!! Palestrar em Harvard: que orgulho temos do nosso ex-presidente estadista poliglota! Dar o cú: meu deus, estão sujando o nosso bom-nome, o que meus amigos espanhóis vão pensar de mim?!
Oras, se existe demanda e se fazemos bem, por que não dar o cú?”
Trecho do artigo “A questão das prostitutas brasileiras no exterior”
Como já deixei claro, não condeno de forma alguma quem vende o corpo como profissão. Disse e repito, acho que cada um tem o direito de fazer o que quiser da própria vida. No entanto, o fato de eu respeitar este direito não significa que eu acredite que ele é bom (para quem opta por ele e para os demais) ou correto. Da mesma forma, defendo a descriminalização das drogas - quem quiser usar que use - mas não considero que o consumo de muitos delas sejam uma escolha inteligente e que beneficie a alguém.
Sim, faço um paralelo entre prostituição e uso de drogas (aqui me refiro as drogas realmente impactantes como cocaína, crack, heroína etc). Tanto a droga quanto a prostituição destroem uma parcela do ser humano. A droga arrebenta aquele tino que nos leva a discernir entre o que é ou não passível de ser limitado em nosso convívio com o outro. Penso nisso sempre que me deparo com relatos de gente que agrediu parentes, que vendeu tudo para saciar o vício etc. A prostituição, por outro lado, banaliza o afeto, coloca no mesmo nível amor (seja com conotação sentimental ou sexual) e comércio, duas coisas incompatíveis.
Não concordo de forma alguma com o argumento de que a questão social é o motor de arranque da prostituição. Fosse assim estaríamos dizendo que não há opções, quando há. Quem escolhe sair do Brasil para se prostituir na Europa passa longe de ser um “excluído”. Trata-se de uma opção, que eu respeito, mas não compactuo. Sobre quem opta por se prostituir aqui no Brasil a questão é mais além. É claro que o fator social incentiva uma opção pela prostituição, mas não pode ser apontado como o fator preponderante para esta escolha.
Ao invés de olharmos a prostituição e pensarmos “ok, temos que ganhar dinheiro, vamos então incentivar nossas mães, irmãs, filhas e mulheres a fazer fila nos aeroportos para caçar gringos”, seria mais produtivo cobrar dos governantes o que eles deveriam fazer para que o País crescesse e gerasse mais empregos.
Sim, acho péssimo que o Brasil seja visto como paraíso para o turismo sexual, sim, acho péssima a opção pela prostituição.
O turismo sexual é uma praga que deve ser combatida com rigor e execrada pela sociedade. Faz com que a mulher se transforme em uma mercadoria (barata), cria profundos obstáculos para o entendimento e a vivência do afeto, cria a falsa imagem de que tudo é permissível na busca pelo sustento e, pior, cria um modelo a ser seguido por crianças e adolescentes.
O fato de a prostituição ser legal e liberada no Brasil não a exime de crítica e nem significa que seja algo bom. Na verdade o fato de ser legal ou liberado pouco importa. Não me atenho ao que é permitido pela sociedade, ou ao que o Estado julga melhor para quem quer que seja. Mas sim de respeito para consigo mesmo.
Voltando ao ponto principal do artigo e da enquête - o reflexo da prostituição e do uso da imagem da mulher com fins turísticos sobre a forma como a mulher brasileira é vista no exterior - os casos de brasileiras que passaram por constrangimentos são muitos. De forma alguma considero o sentimento destas mulheres como o reflexo de um moralismo pequeno-burguês ou retrógrado. Trata-se de uma reação legítima de quem não quer ser tratada como objeto de consumo, de quem quer ser respeitada pelo que é e não pelo que carrega no meio das pernas.
Casos como o da editora Solcat (veja aqui e aqui) - que dá dicas a gringos de como “se dar bem” com uma mulher no Brasil - e o relato de uma astrônoma brasileira radicada na Inglaterra (veja mais á frente) mostram claramente o tormento que pode se abater sobre as mulheres brasileiras expostas a um estereótipo descabido, aqui e lá fora.
O assunto foi alvo de uma enquête (finalizada ontem) aqui no Escrevinhamentos, sob o seguinte questionamento: “A sexualização da mulher brasileira na mídia e na publicidade prejudica sua imagem no exterior?”. Oitenta e seis por cento dos participantes (63) disseram que sim, outros 10 internautas (13%) disseram que não.
Apesar de o artigo que deu origem a este debate ter surgido a partir de uma crítica à mídia, a questão da prostituição também tem papel preponderante na desconstrução da imagem da mulher brasileira. Não tenho nenhum preconceito em relação às mulheres que optam por vender o corpo para viver. No entanto, esta opção não pode ser estendida às demais mulheres como se fosse um padrão da brasileira. Assim como temos que respeitar quem opta por este tipo de vivência, temos que respeitar as mulheres que não optam por ela.
O desabafo da astrônoma (publicado originalmente no blog LLL e do qual reproduzo um trecho em seguida) é um resumo triste do que está acontecendo neste momento com nossas esposas, mães, irmãs e amigas, mulheres englobadas em um estereótipo de permissividade para cuja construção elas não colaboraram.
“Esse eh um desabafo meu para todas as mulheres que sujam e arrasam com a imagem da mulher brasileira que poderia ser tao glamourosa. Grito em meu nome e em nome de todas as outras mulheres que estao aqui no exterior batalhando seriamente por uma vida melhor, constituindo uma familia amorosa honesta e tentando ser feliz.
Apesar do glamour, muitas vezes tenho vergonha de dizer que sou brasileira. Principalmente quando estou sem o Edu do lado e na presenca de homens solteiros que nao me conhecem de fato. Ja passei por varias situacoes desagradaveis em minha vida e ja escutei varias piadinhas de mal gosto durante minhas viagens mundo afora, mas devo confessar que nada foi tao direto e agressivo quanto o ocorrido em Oxford. ... Obviamente que ao saberem que sou brasileira, e bombardeados que estao sendo por todas as noticias (as mais degradantes) de carnaval vinda do Brasil, alguns individuos despreziveis falaram, estimulados pelo alcool, o que todo mundo pensa mas nao tem coragem de dizer quando estao em seu estado normal de consciencia.
Tive que aguentar varias piadinhas cafajestes sobre mulher brasileria e o pior, todas vindo de pessoas com um nivel cultural alto e bem esclarecidas, ou seja, estava falando com gente teoricamente inteligente. Um babaca com uma risadinha sacana me perguntou se as mulheres andavam peladas no Brasil porque era muito quente. Um imbecil frances disse que seria bom ir participar de uma reuniao no Brasil para poder “catar” as mulheres, afinal, as mulheres no Brasil estao assim disponiveis como qualquer mercadoria barata e descartavel, bastando escolher. O outro concordou e imaginou e descreveu uma cena bizarra dele saindo do aeroporto e sendo agarrado por tres mulheres desesperadas querendo leva-lo para cama. Um teve a cara de pau de dizer que se fosse ia voltar com umas tres para casa.”
Quem não conhece alguma mulher brasileira que tenha sido alvo de piadinhas do gênero no exterior? Quase a totalidade das mulheres brasileiras que viajam para a Europa e os Estados Unidos já foram vítimas deste tipo de humilhação.
Há quem não concorde com a influência negativa do turismo sexual e da prostituição sobre a imagem da mulher brasileira. Alex Castro, do LLL, por exemplo, tem uma posição bastante definida sobre o tema e já escreveu sobre ele algumas vezes. De suas avaliações, extraio os seguintes trechos como contraponto:
“Claramente, nosso povo tem talento para o sexo e há grande demanda mundial pelos nossos serviços. Já ouvi diversos estrangeiros comentarem que não existe prostituta como a brasileira: ela é quente, gostosa, linda, sensual, calorosa, parece uma namoradinha, enquanto as européias são como frias máquinas, vapt-vupt, negócios são negócios, no relógia, nem tem graça, etc.
Ou seja, país do futebol: pode. Berçario de super-models: nosso orgulho nacional! Capital mundial da cirurgia plástica: só comprova a excelência da nossa medicina! Meca do turismo sexual: cruzes, que vergonha!, que problema!, vamos resolver essa 'questão'!
Mas a resposta à sua provocação é bastante óbvia: não, eu não gostaria que minha filha fosse prostituta, mas também não gostaria que fosse enfermeira, faxineira, engenheira, seringueira, advogada, pagodeira.”
Trecho do artigo “A questão do turismo sexual”
“Ou seja, brasileiro ir pra Europa estudar filosofia: pode. Jogar pelada ou dar voltinhas na pista: herói nacional, Ayrton Senna do Brasilll-illll-illll!! Palestrar em Harvard: que orgulho temos do nosso ex-presidente estadista poliglota! Dar o cú: meu deus, estão sujando o nosso bom-nome, o que meus amigos espanhóis vão pensar de mim?!
Oras, se existe demanda e se fazemos bem, por que não dar o cú?”
Trecho do artigo “A questão das prostitutas brasileiras no exterior”
Como já deixei claro, não condeno de forma alguma quem vende o corpo como profissão. Disse e repito, acho que cada um tem o direito de fazer o que quiser da própria vida. No entanto, o fato de eu respeitar este direito não significa que eu acredite que ele é bom (para quem opta por ele e para os demais) ou correto. Da mesma forma, defendo a descriminalização das drogas - quem quiser usar que use - mas não considero que o consumo de muitos delas sejam uma escolha inteligente e que beneficie a alguém.
Sim, faço um paralelo entre prostituição e uso de drogas (aqui me refiro as drogas realmente impactantes como cocaína, crack, heroína etc). Tanto a droga quanto a prostituição destroem uma parcela do ser humano. A droga arrebenta aquele tino que nos leva a discernir entre o que é ou não passível de ser limitado em nosso convívio com o outro. Penso nisso sempre que me deparo com relatos de gente que agrediu parentes, que vendeu tudo para saciar o vício etc. A prostituição, por outro lado, banaliza o afeto, coloca no mesmo nível amor (seja com conotação sentimental ou sexual) e comércio, duas coisas incompatíveis.
Não concordo de forma alguma com o argumento de que a questão social é o motor de arranque da prostituição. Fosse assim estaríamos dizendo que não há opções, quando há. Quem escolhe sair do Brasil para se prostituir na Europa passa longe de ser um “excluído”. Trata-se de uma opção, que eu respeito, mas não compactuo. Sobre quem opta por se prostituir aqui no Brasil a questão é mais além. É claro que o fator social incentiva uma opção pela prostituição, mas não pode ser apontado como o fator preponderante para esta escolha.
Ao invés de olharmos a prostituição e pensarmos “ok, temos que ganhar dinheiro, vamos então incentivar nossas mães, irmãs, filhas e mulheres a fazer fila nos aeroportos para caçar gringos”, seria mais produtivo cobrar dos governantes o que eles deveriam fazer para que o País crescesse e gerasse mais empregos.
Sim, acho péssimo que o Brasil seja visto como paraíso para o turismo sexual, sim, acho péssima a opção pela prostituição.
O turismo sexual é uma praga que deve ser combatida com rigor e execrada pela sociedade. Faz com que a mulher se transforme em uma mercadoria (barata), cria profundos obstáculos para o entendimento e a vivência do afeto, cria a falsa imagem de que tudo é permissível na busca pelo sustento e, pior, cria um modelo a ser seguido por crianças e adolescentes.
O fato de a prostituição ser legal e liberada no Brasil não a exime de crítica e nem significa que seja algo bom. Na verdade o fato de ser legal ou liberado pouco importa. Não me atenho ao que é permitido pela sociedade, ou ao que o Estado julga melhor para quem quer que seja. Mas sim de respeito para consigo mesmo.
Voltando ao ponto principal do artigo e da enquête - o reflexo da prostituição e do uso da imagem da mulher com fins turísticos sobre a forma como a mulher brasileira é vista no exterior - os casos de brasileiras que passaram por constrangimentos são muitos. De forma alguma considero o sentimento destas mulheres como o reflexo de um moralismo pequeno-burguês ou retrógrado. Trata-se de uma reação legítima de quem não quer ser tratada como objeto de consumo, de quem quer ser respeitada pelo que é e não pelo que carrega no meio das pernas.
Fotojornalismo
Vista das torres gêmeas do World Trade Center após os atentados de 11 de setembro de 2001. Apesar do horror e das vidas inocentes que se perderam naquele dia, é preciso, para compreender o que de fato há por trás desta ignomínia, olhar para o Oriente Médio e suas contradições, para a posição dúbia que o Ocidente mantém com a região desde o início do século passado. Se hoje o Oriente Médio é um território fértil para as ditaduras e para o extremismo religioso (de todas as vertentes) boa parte da responsabilidade é nossa. Foto: Reprodução/Creative Commons.quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Congresso decide hoje se apóia liberdade de expressão na internet
O Senado adiou para as 13h (de MS) desta quinta-feira a votação dos pontos polêmicos da reforma eleitoral, como as restrições para os sites jornalísticos atuarem no período das eleições. A votação estava prevista para a manhã de hoje, mas, por falta de quorum, o plenário vai analisar somente à tarde mais de 80 emendas ao texto principal da reforma eleitoral - que foi aprovado ontem pelos senadores. Para valer já para as eleições em 2010, o projeto precisa de sanção presidencial e publicação no Diário Oficial até o dia 3 de outubro.
Os senadores vão analisar hoje emenda dos senadores Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e Marco Maciel (DEM-PE) que restringe a atuação de sites jornalísticos durante o período eleitoral. A emenda proíbe sites e portais de jornalismo de "fazer propaganda eleitoral de candidato, partido político ou coligação". Pela emenda, fica vedado aos sites "dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação, sem motivo jornalístico que justifique". Proíbe, também, que sites divulguem pesquisas eleitorais com "manipulação de dados, ainda que sob a forma de entrevista jornalística". A multa para quem desrespeitar a regra varia de R$ 5.000 a R$ 30 mil.
A emenda não explica, porém, como será realizada a propaganda eleitoral ou tratamento privilegiado na internet. Também não diz o que seria motivo jornalístico justificável para privilegiar numa reportagem ou entrevista um determinado candidato. Isso poderá dar margem a que a Justiça Eleitoral restrinja a cobertura jornalística na rede. O texto concede ampla liberdade aos blogs e sites de relacionamento, como o Twitter, para a livre expressão de pensamento durante as campanhas.
Uma emenda apresentada pelo líder do PT, Aloízio Mercadante (SP), retira do texto qualquer restrição à web. “Na democracia, a internet é como a praça, a rua. Não temos que tentar controlar o que não se pode e o que não se deve controlar. A nova proposta (dos relatores) continua tentando controlar, restringir. Eu prefiro acreditar na liberdade da informação”, disse o petista.
Mercadante comparou a votação sobre a internet às Diretas Já, quando se discutiu, em plena ditadura militar, a eleição direta para presidente da República. “Assim como nas Diretas Já se dizia que o povo não estava preparado para votar, agora o argumento é que o eleitor não está preparado para ter acesso à informação”.
O líder do PT argumenta ainda que as restrições aos portais proposta pelos relatores não atende nem aos objetivos deles. “O problema da internet não são os grandes portais. As questões de calúnia, injúrias e difamações vão acontecer em blogs, em outros sites, como é próprio da rua, da praça. Temos que ter tolerância e fazer o debate. O homem público que não aprender a conviver com as críticas da internet é como um guarda noturno que não quer trabalhar à noite. Tem que procurar outra coisa para fazer”.
Romero Jucá (PMDB-RR), Arthur Virgílio (PSDB-AM) e Marina Silva (PV-AC) são alguns dos senadores que já declararam posições semelhantes à de Mercadante. “É irreal é inexequível querer cercear a internet. Não adianta tentar proibir. Eu defendo a liberação total da internet”, disse Jucá.
O texto-base dá liberdade total aos candidatos na internet. Fica permitido a eles utilizar todas as ferramentas, como blogs, mensagens instantâneas e redes sociais. Será permitido também que os candidatos à Presidência da República comprem espaço em portais de conteúdo jornalístico.
A proposta permite também a doação eleitoral por meio da internet e do telefone. Os candidatos poderão receber recursos por cartões de crédito e débito, transferências on-line, boletos bancários e até pode desconto em conta telefônica. As doações poderão ser feitas diretamente aos candidatos ou de forma indireta, por meio dos comitês partidários.
Em julho, quando a possibilidade de restrição à liberdade de expressão na internet já dava seus primeiros sinas, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Ayres Britto, definiu a situação. “Entendo que não há como regulamentar o uso da internet... A imprensa regula o Estado, e a internet se contrapõe à própria versão da imprensa sobre as coisas. A internet é o espaço da liberdade absoluta, para além da liberdade de imprensa”.
Leia mais sobre este tema:
- Ele fala, mas não ouve
- O poder e seu pesado olhar sobre a internet
- Rede de espionagem do Irã na internet conta com tecnologia ocidental
- A internet é o espaço da liberdade absoluta, para além da liberdade de imprensa
- Ahmadinejad sucumbe ao pavor da internet
- Iranianos apelam para a internet
Os senadores vão analisar hoje emenda dos senadores Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e Marco Maciel (DEM-PE) que restringe a atuação de sites jornalísticos durante o período eleitoral. A emenda proíbe sites e portais de jornalismo de "fazer propaganda eleitoral de candidato, partido político ou coligação". Pela emenda, fica vedado aos sites "dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação, sem motivo jornalístico que justifique". Proíbe, também, que sites divulguem pesquisas eleitorais com "manipulação de dados, ainda que sob a forma de entrevista jornalística". A multa para quem desrespeitar a regra varia de R$ 5.000 a R$ 30 mil.
A emenda não explica, porém, como será realizada a propaganda eleitoral ou tratamento privilegiado na internet. Também não diz o que seria motivo jornalístico justificável para privilegiar numa reportagem ou entrevista um determinado candidato. Isso poderá dar margem a que a Justiça Eleitoral restrinja a cobertura jornalística na rede. O texto concede ampla liberdade aos blogs e sites de relacionamento, como o Twitter, para a livre expressão de pensamento durante as campanhas.
Uma emenda apresentada pelo líder do PT, Aloízio Mercadante (SP), retira do texto qualquer restrição à web. “Na democracia, a internet é como a praça, a rua. Não temos que tentar controlar o que não se pode e o que não se deve controlar. A nova proposta (dos relatores) continua tentando controlar, restringir. Eu prefiro acreditar na liberdade da informação”, disse o petista.
Mercadante comparou a votação sobre a internet às Diretas Já, quando se discutiu, em plena ditadura militar, a eleição direta para presidente da República. “Assim como nas Diretas Já se dizia que o povo não estava preparado para votar, agora o argumento é que o eleitor não está preparado para ter acesso à informação”.
O líder do PT argumenta ainda que as restrições aos portais proposta pelos relatores não atende nem aos objetivos deles. “O problema da internet não são os grandes portais. As questões de calúnia, injúrias e difamações vão acontecer em blogs, em outros sites, como é próprio da rua, da praça. Temos que ter tolerância e fazer o debate. O homem público que não aprender a conviver com as críticas da internet é como um guarda noturno que não quer trabalhar à noite. Tem que procurar outra coisa para fazer”.
Romero Jucá (PMDB-RR), Arthur Virgílio (PSDB-AM) e Marina Silva (PV-AC) são alguns dos senadores que já declararam posições semelhantes à de Mercadante. “É irreal é inexequível querer cercear a internet. Não adianta tentar proibir. Eu defendo a liberação total da internet”, disse Jucá.
O texto-base dá liberdade total aos candidatos na internet. Fica permitido a eles utilizar todas as ferramentas, como blogs, mensagens instantâneas e redes sociais. Será permitido também que os candidatos à Presidência da República comprem espaço em portais de conteúdo jornalístico.
A proposta permite também a doação eleitoral por meio da internet e do telefone. Os candidatos poderão receber recursos por cartões de crédito e débito, transferências on-line, boletos bancários e até pode desconto em conta telefônica. As doações poderão ser feitas diretamente aos candidatos ou de forma indireta, por meio dos comitês partidários.
Em julho, quando a possibilidade de restrição à liberdade de expressão na internet já dava seus primeiros sinas, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Ayres Britto, definiu a situação. “Entendo que não há como regulamentar o uso da internet... A imprensa regula o Estado, e a internet se contrapõe à própria versão da imprensa sobre as coisas. A internet é o espaço da liberdade absoluta, para além da liberdade de imprensa”.
Leia mais sobre este tema:
- Ele fala, mas não ouve
- O poder e seu pesado olhar sobre a internet
- Rede de espionagem do Irã na internet conta com tecnologia ocidental
- A internet é o espaço da liberdade absoluta, para além da liberdade de imprensa
- Ahmadinejad sucumbe ao pavor da internet
- Iranianos apelam para a internet
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Relativizando o relativismo. Ou: no dos outros é refresco
No dia 31 de agosto publiquei no Amálgama o artigo "Atire a primeira pedra quem apóia a burca". O tema, como o título deixa claro, trata de padrões culturais que, sob o manto da diversidade, estabelecem condições de exclusão para determinados setores da sociedade. O artigo gerou comentários interessantes, que mostram o quanto o tema da diversidade cultural precisa ser posto em discussão, assim como a existência ou não de valores morais absolutos.
Minha posição é de que sim, valores morais absolutos existem, e eles devem ser o limite para o relativismo cultural.
Para além das elocubrações filosóficas, o fato é que - cono disse a jornalista e escritora norueguesa Asne Seierstad: "A dor de uma mulher que apanha do marido não é menor só porque a cultura local aprova esse ato… Um tapa dói do mesmo jeito em uma mulher afegã, norueguesa ou brasileira.".
O leitor Leopoldo, que deixou um comentário lá no Amálgama, pergunta: "Devemos ser tolerantes com os intolerantes? Onde está o limite da tolerância? Quem é responsável por dizer qual é esse limite?".
Penso que os responsáveis por estabelecer estes limites somos nós mesmos. A omissão calcada em uma visão de mundo permissiva pode ser uma grande alavanca para comportamentos repressores.
"Em nome da convivência multicultural, do respeito às tradições de outrem, intelectuais do Ocidente hesitam em colocar em evidência a situação subjugada da mulher dentro do Islã. Eles têm receio de ofender, de suscitar cólera, e assim ajudam a perpetuar o sofrimento e a injustiça. Ora, aqui não cabem relativismos. Abuso e mutilação sexual são crimes, e ponto final", diz a ex-parlamentar holandesa de origem somali Ayaan Hirsi Ali. Ela conhe bem o tema. Aos cinco anos de idade teve o clitóris extirpado a tesoura em um ritual afro-muçulmano e vive sob ameaça de morte por parte de fundamentalistas.
Também comentando no Amálgama, Nina Hentzy diz que as relações de poder devem ser consideradas na análise do relativismo cultural: "Para quem tem o poder, é muito cômodo deixar as coisas como estão e combater violentamente quem discorda de suas ações e pensamentos.", afirma.
Eu concordo e citando o artigo, repito aqui:
"O fato é que, tomando o conceito do relativismo cultural podemos criar fórmulas que justifiquem todos os tipos de atrocidades. O infanticídio na Roma antiga, o escravagismo, o nazismo, a discriminação racial, o apartheid, o preconceito contra a homossexualidade. Todas estas manifestações contaram, em algum lugar no tempo e no espaço (e ainda hoje em alguns lugares), com apoio de “maiorias”. Ainda assim, foram combatidas, reformadas, colocadas em seu devido lugar no rol das falhas de caráter, de formação e de direcionamento político (algumas engatinham, neste objetivo).
Deveriam os que lutaram pelos direitos civis nos Estados Unidos terem aceitado passivamente sua condição de inferioridade visto que, para grande parte da população estadunidense da época, a segregação era algo moralmente correto? Deveriam os negros sul-africanos aceitar sua condição sob o apartheid? Devem os homossexuais residentes nos países que lhes imputam a pena de morte aceitar passivamente este “descalabro cultural”? Devem os que olham estas manifestações sob a ótica de outra cultura simplesmente validá-las como moralmente corretas?"
É como disse o Taiguara: "O respeito ao que nos é estranho é essencial mas ele é estúpido se tolera cerceamentos de direitos. Não há relativismo cultural que me conveça a aceitar subserviência, inferiorização, opressão."
Minha posição é de que sim, valores morais absolutos existem, e eles devem ser o limite para o relativismo cultural.
Para além das elocubrações filosóficas, o fato é que - cono disse a jornalista e escritora norueguesa Asne Seierstad: "A dor de uma mulher que apanha do marido não é menor só porque a cultura local aprova esse ato… Um tapa dói do mesmo jeito em uma mulher afegã, norueguesa ou brasileira.".
O leitor Leopoldo, que deixou um comentário lá no Amálgama, pergunta: "Devemos ser tolerantes com os intolerantes? Onde está o limite da tolerância? Quem é responsável por dizer qual é esse limite?".
Penso que os responsáveis por estabelecer estes limites somos nós mesmos. A omissão calcada em uma visão de mundo permissiva pode ser uma grande alavanca para comportamentos repressores.
"Em nome da convivência multicultural, do respeito às tradições de outrem, intelectuais do Ocidente hesitam em colocar em evidência a situação subjugada da mulher dentro do Islã. Eles têm receio de ofender, de suscitar cólera, e assim ajudam a perpetuar o sofrimento e a injustiça. Ora, aqui não cabem relativismos. Abuso e mutilação sexual são crimes, e ponto final", diz a ex-parlamentar holandesa de origem somali Ayaan Hirsi Ali. Ela conhe bem o tema. Aos cinco anos de idade teve o clitóris extirpado a tesoura em um ritual afro-muçulmano e vive sob ameaça de morte por parte de fundamentalistas.
Também comentando no Amálgama, Nina Hentzy diz que as relações de poder devem ser consideradas na análise do relativismo cultural: "Para quem tem o poder, é muito cômodo deixar as coisas como estão e combater violentamente quem discorda de suas ações e pensamentos.", afirma.
Eu concordo e citando o artigo, repito aqui:
"O fato é que, tomando o conceito do relativismo cultural podemos criar fórmulas que justifiquem todos os tipos de atrocidades. O infanticídio na Roma antiga, o escravagismo, o nazismo, a discriminação racial, o apartheid, o preconceito contra a homossexualidade. Todas estas manifestações contaram, em algum lugar no tempo e no espaço (e ainda hoje em alguns lugares), com apoio de “maiorias”. Ainda assim, foram combatidas, reformadas, colocadas em seu devido lugar no rol das falhas de caráter, de formação e de direcionamento político (algumas engatinham, neste objetivo).
Deveriam os que lutaram pelos direitos civis nos Estados Unidos terem aceitado passivamente sua condição de inferioridade visto que, para grande parte da população estadunidense da época, a segregação era algo moralmente correto? Deveriam os negros sul-africanos aceitar sua condição sob o apartheid? Devem os homossexuais residentes nos países que lhes imputam a pena de morte aceitar passivamente este “descalabro cultural”? Devem os que olham estas manifestações sob a ótica de outra cultura simplesmente validá-las como moralmente corretas?"
É como disse o Taiguara: "O respeito ao que nos é estranho é essencial mas ele é estúpido se tolera cerceamentos de direitos. Não há relativismo cultural que me conveça a aceitar subserviência, inferiorização, opressão."
Fotojornalismo
O Senado vota nesta quarta-feira (9) o projeto da reforma eleitoral, que regulamenta o uso da internet durante as eleições. Pelo texto aprovado nas comissões, os veículos de internet e todas as pessoas que possuem páginas na web teriam de se submeter às regras aplicadas à televisão e ao rádio. Trata-se de um violento atentado contra a liberdade de expressão. Fique de olho nos seus representantes no Congresso.terça-feira, 8 de setembro de 2009
Terroristas e guerrilheiros
Recebi um e-mail recentemente, que começava com a seguinte citação de Olavo de Carvalho: "Todo comunista, sem exceção, é cúmplice de genocídio, é um criminoso, um celerado, tanto mais desprovido de consciência moral quanto mais imbuído da ilusão satânica da sua própria santidade. Nenhum comunista merece consideração, nenhum comunista é pessoa decente, nenhum comunista é digno de crédito. São todos, junto com os nazistas e os terroristas islâmicos, a escória da espécie humana".
Não sou comunista, pelo menos não me enquadro no que se convencionou classificar como comunista: adepto do centralismo democrático e de uma visão na qual o Estado deve regular todas as nuances sociais. Mas sou de esquerda desde menino, um socialista libertário e me reconheço em muitos conceitos que Mino Carta expressa ao separar eticamente direita e esquerda. Por isso, muito me incomodou o referido e-mail, cujo conteúdo que se seguiu à citação trazia noções ainda mais generalistas e preconceituosas.
Não me sinto bem ao lado de fascistas, xenófobos ou gente que discrimina por questões raciais, sexuais ou religiosas. Mas, não ouso classificar todas as pessoas que se enquadram nestas linhas de conduta como cúmplices de genocídio, criminosos, celerados, desprovidos de consciência moral, imbuídos da ilusão satânica, indignos de consideração ou crédito, indecentes, ou que sejam “a escória da espécie humana".
O contexto da missiva era o de uma comparação entre os guerrilheiros que se opuseram ao regime militar nos anos 60 e 70 no Brasil e os torturadores que foram (assim como estes guerrilheiros) beneficiados pela anistia.
Diz um trecho do e-mail: “...na verdade o Sr Franklin Martins, Ministro do Governo da República Federativa do Brasil - embora tenha força para evitar que se publiquem matérias nos jornais escritos ou falados em nosso País - não tem permissão para entrar nos Estados Unidos, pois ali continua arrolado como TERRORISTA! Não adianta o fato de nós os termos anistiado.”. E questiona: “Se o mundo não concede anistia a Bin Laden, por que concederia a Franklin Martins?”.
Discorrendo nesta linha de raciocínio o texto tenta colocar no mesmo saco os conceitos de guerrilha e terrorismo: “Os dois grupos não estavam lutando por uma causa política, usando os mesmos meios para chegar aos seus objetivos? Os dois não estavam praticando terrorismo em nome de ideologias? Os dois não se intitulavam como ‘revolucionários’? Qual a diferença entre o Franklin Martins que escreve uma carta ao país ameaçando um embaixador de morte e Osama Bin Laden que manda um vídeo para o mundo, ameaçando com novos atentados terroristas? Já inventaram o terrorismo seletivo? Pode existir ‘ex-terrorista’, mas não pode existir "ex-torturador"? As vidas são diferentes? Existem categorias de vidas humanas?”.
Será que é tão simples assim?
No dia 11 de setembro de 2001, radicais islâmicos utilizaram aviões comerciais para atingir as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Por trás do ataque estava uma organização islâmica, a Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. O que eles fizeram pode ser classificado como terrorismo? Não conheço quem dissesse que não. Os militantes da Al-Qaeda raptaram aviões civis e atacaram pessoas inocentes com o simples intento de causar o máximo número possível de vítimas espalhando a insegurança e disseminando o terror.
Diz o Aurélio que terrorismo é o “modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas ou de impor-lhes a vontade pelo uso sistemático do terror” ou uma “forma de ação política que combate o poder estabelecido mediante o emprego da violência”. O Wikepedia, por sua vez, diz que o terrorismo “é um método que consiste no uso de violência, física ou psicológica, por indivíduos, ou grupos políticos, contra a ordem estabelecida através de um ataque a um governo ou à população que o legitimou, de modo que os estragos psicológicos ultrapassem largamente o círculo das vítimas para incluir o resto do território.”.
Durante o recente conflito entre o exército israelense e palestinos, na Faixa de Gaza, militantes do grupo islâmico Hamas dispararam foguetes contra cidades israelenses. Da mesma forma, o exército israelense matou centenas de civis na tentativa de atingir o Hamas. Qual a diferença entre as duas ações? De um lado militantes palestinos atacam o invasor com a única arma que possuem, de outro um exército moderno tenta conter estes ataques causando centenas de vítimas entre a população civil. Diferente dos ataques de 11 de setembro, baseados em um conceito de guerra santa mantido por uma leitura equivocada do Alcoorão, os militantes palestinos na Faixa de Gaza respondem a uma ocupação ilegal (condenada dezenas de vezes pela ONU e simplesmente ignorada por Israel e seus aliados).
Por guerrilha o Aurélio entende a “luta armada realizada por pequenos grupos constituídos irregularmente, sem obediências as normas estabelecidas nas convenções internacionais...”. Não é isso o que ocorre naquela região do Oriente Médio?
Vou além. Dentro do contexto da ocupação israelense há diferença entre um homem-bomba palestino que ataca uma instalação militar e outro que explode o próprio corpo em meio a civis inocentes? Apesar de ambas as situações serem igualmente horrendas, penso que sim. Qualquer resposta frente a uma ocupação ilegal, se dirigida às forças de ocupação, é legítima. Se dirigida à população civil, no entanto, deve ser tratada como terrorismo.
Nos últimos anos foi comum acompanharmos o seqüestro de ocidentais (e de seus aliados no oriente) em diversos paises do Oriente Médio. Em muitos casos estes seqüestros foram finalizados com covardes e cruéis assassinatos, cujas vítimas tiveram seus últimos momentos filmados por seus algozes e exibidos na internet como um show grotesco. Isso é terrorismo ou guerrilha? É terrorismo da pior espécie e deve combatido sem descanso. Comum também foram os atentados a bomba contra comboios militares, muitos também filmados como propaganda. Terrorismo ou guerrilha? Guerrilha. Trata-se de alvos militares escolhidos por grupos cujo país encontra-se sob ocupação.
Na década de 70 grupos de guerrilha combateram a ditadura militar no Brasil. O Congresso Nacional foi fechado, os jornais censurados, os direitos básicos da civilidade negados. Portanto, estes grupos combateram a ilegalidade. No entanto, nem mesmo o combate à ilegalidade pode ser usado para legitimar o terror, o seqüestro e o assassinato de civis. Da mesma forma, as forças armadas que combateram a guerrilha não podem ser acusadas de nada além de terem tentado legitimar um regime ilegítimo. Mas o que dizer dos que torturaram e assassinaram em nome da “ordem”?.
Podemos concordar ou não com os motivos que levam um grupo de pessoas a se organizarem militarmente para fazer frente a um Estado apoiado por um exército regular, mas não podemos condenar seus métodos quando aplicados contra estas mesmas forças. O argumento de que os guerrilheiros brasileiros combatiam a ditadura de direita para substituí-la por uma ditadura de esquerda, ou de que o Hamas é um grupo radical islâmico não interessa, de fato, visto que esta seria uma crítica do porvir. Ambas as lutas tentam contrapor uma situação de ilegalidade e de opressão.A possibilidade desta luta, vitoriosa, descambar para opressão (com viés ideológico diverso) deve ser alvo de outro debate. Foi o que ocorreu em Cuba. Os guerrilheiros da Sierra Maestra lutavam, sim, por uma causa justa. Combatiam o poder da oligarquia comandada por um ditador que transformou o país em um bordel estadunidense onde a Máfia e a corrupção comandavam. No entanto, ao derrubarem o regime de Fulgêncio Batista, conseguiram apenas substituir uma ditadura por outra. Este fato não desabona, no entanto, a guerrilha propriamente dita. Da mesma forma, os objetivos questionáveis do Hamas não podem ser usados para condenar a luta do povo palestino.
É preciso um distanciamento para olhar os fatos com os olhos da coerência e não com o ponto de vista dos vencedores ou dos derrotados. Como seriam classificados os partisans que combateram os nazistas na França caso estes tivessem vencido a guerra? Certamente seriam apontados como terroristas. Basta observar como são tratados os grupos armados que lutaram pelo estabelecimento do Estado de Israel na década de 40. Muitos utilizaram o terrorismo puro e simples contra civis árabes, mas não se houve dizer isso abertamente, afinal, eles foram os vencedores.
O que deve diferenciar terrorismo e guerrilha não é o lado do campo de batalha, mas uma combinação entre o que motiva estas ações e os métodos que estes grupos utilizam.
Veja mais sobre este tema:
- Um guerrilheiro vale a vida de 10 civis?
Não sou comunista, pelo menos não me enquadro no que se convencionou classificar como comunista: adepto do centralismo democrático e de uma visão na qual o Estado deve regular todas as nuances sociais. Mas sou de esquerda desde menino, um socialista libertário e me reconheço em muitos conceitos que Mino Carta expressa ao separar eticamente direita e esquerda. Por isso, muito me incomodou o referido e-mail, cujo conteúdo que se seguiu à citação trazia noções ainda mais generalistas e preconceituosas.
Não me sinto bem ao lado de fascistas, xenófobos ou gente que discrimina por questões raciais, sexuais ou religiosas. Mas, não ouso classificar todas as pessoas que se enquadram nestas linhas de conduta como cúmplices de genocídio, criminosos, celerados, desprovidos de consciência moral, imbuídos da ilusão satânica, indignos de consideração ou crédito, indecentes, ou que sejam “a escória da espécie humana".
O contexto da missiva era o de uma comparação entre os guerrilheiros que se opuseram ao regime militar nos anos 60 e 70 no Brasil e os torturadores que foram (assim como estes guerrilheiros) beneficiados pela anistia.
Diz um trecho do e-mail: “...na verdade o Sr Franklin Martins, Ministro do Governo da República Federativa do Brasil - embora tenha força para evitar que se publiquem matérias nos jornais escritos ou falados em nosso País - não tem permissão para entrar nos Estados Unidos, pois ali continua arrolado como TERRORISTA! Não adianta o fato de nós os termos anistiado.”. E questiona: “Se o mundo não concede anistia a Bin Laden, por que concederia a Franklin Martins?”.
Discorrendo nesta linha de raciocínio o texto tenta colocar no mesmo saco os conceitos de guerrilha e terrorismo: “Os dois grupos não estavam lutando por uma causa política, usando os mesmos meios para chegar aos seus objetivos? Os dois não estavam praticando terrorismo em nome de ideologias? Os dois não se intitulavam como ‘revolucionários’? Qual a diferença entre o Franklin Martins que escreve uma carta ao país ameaçando um embaixador de morte e Osama Bin Laden que manda um vídeo para o mundo, ameaçando com novos atentados terroristas? Já inventaram o terrorismo seletivo? Pode existir ‘ex-terrorista’, mas não pode existir "ex-torturador"? As vidas são diferentes? Existem categorias de vidas humanas?”.
Será que é tão simples assim?
No dia 11 de setembro de 2001, radicais islâmicos utilizaram aviões comerciais para atingir as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Por trás do ataque estava uma organização islâmica, a Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. O que eles fizeram pode ser classificado como terrorismo? Não conheço quem dissesse que não. Os militantes da Al-Qaeda raptaram aviões civis e atacaram pessoas inocentes com o simples intento de causar o máximo número possível de vítimas espalhando a insegurança e disseminando o terror.
Diz o Aurélio que terrorismo é o “modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas ou de impor-lhes a vontade pelo uso sistemático do terror” ou uma “forma de ação política que combate o poder estabelecido mediante o emprego da violência”. O Wikepedia, por sua vez, diz que o terrorismo “é um método que consiste no uso de violência, física ou psicológica, por indivíduos, ou grupos políticos, contra a ordem estabelecida através de um ataque a um governo ou à população que o legitimou, de modo que os estragos psicológicos ultrapassem largamente o círculo das vítimas para incluir o resto do território.”.
Durante o recente conflito entre o exército israelense e palestinos, na Faixa de Gaza, militantes do grupo islâmico Hamas dispararam foguetes contra cidades israelenses. Da mesma forma, o exército israelense matou centenas de civis na tentativa de atingir o Hamas. Qual a diferença entre as duas ações? De um lado militantes palestinos atacam o invasor com a única arma que possuem, de outro um exército moderno tenta conter estes ataques causando centenas de vítimas entre a população civil. Diferente dos ataques de 11 de setembro, baseados em um conceito de guerra santa mantido por uma leitura equivocada do Alcoorão, os militantes palestinos na Faixa de Gaza respondem a uma ocupação ilegal (condenada dezenas de vezes pela ONU e simplesmente ignorada por Israel e seus aliados).
Por guerrilha o Aurélio entende a “luta armada realizada por pequenos grupos constituídos irregularmente, sem obediências as normas estabelecidas nas convenções internacionais...”. Não é isso o que ocorre naquela região do Oriente Médio?
Vou além. Dentro do contexto da ocupação israelense há diferença entre um homem-bomba palestino que ataca uma instalação militar e outro que explode o próprio corpo em meio a civis inocentes? Apesar de ambas as situações serem igualmente horrendas, penso que sim. Qualquer resposta frente a uma ocupação ilegal, se dirigida às forças de ocupação, é legítima. Se dirigida à população civil, no entanto, deve ser tratada como terrorismo.
Nos últimos anos foi comum acompanharmos o seqüestro de ocidentais (e de seus aliados no oriente) em diversos paises do Oriente Médio. Em muitos casos estes seqüestros foram finalizados com covardes e cruéis assassinatos, cujas vítimas tiveram seus últimos momentos filmados por seus algozes e exibidos na internet como um show grotesco. Isso é terrorismo ou guerrilha? É terrorismo da pior espécie e deve combatido sem descanso. Comum também foram os atentados a bomba contra comboios militares, muitos também filmados como propaganda. Terrorismo ou guerrilha? Guerrilha. Trata-se de alvos militares escolhidos por grupos cujo país encontra-se sob ocupação.
Na década de 70 grupos de guerrilha combateram a ditadura militar no Brasil. O Congresso Nacional foi fechado, os jornais censurados, os direitos básicos da civilidade negados. Portanto, estes grupos combateram a ilegalidade. No entanto, nem mesmo o combate à ilegalidade pode ser usado para legitimar o terror, o seqüestro e o assassinato de civis. Da mesma forma, as forças armadas que combateram a guerrilha não podem ser acusadas de nada além de terem tentado legitimar um regime ilegítimo. Mas o que dizer dos que torturaram e assassinaram em nome da “ordem”?.
Podemos concordar ou não com os motivos que levam um grupo de pessoas a se organizarem militarmente para fazer frente a um Estado apoiado por um exército regular, mas não podemos condenar seus métodos quando aplicados contra estas mesmas forças. O argumento de que os guerrilheiros brasileiros combatiam a ditadura de direita para substituí-la por uma ditadura de esquerda, ou de que o Hamas é um grupo radical islâmico não interessa, de fato, visto que esta seria uma crítica do porvir. Ambas as lutas tentam contrapor uma situação de ilegalidade e de opressão.A possibilidade desta luta, vitoriosa, descambar para opressão (com viés ideológico diverso) deve ser alvo de outro debate. Foi o que ocorreu em Cuba. Os guerrilheiros da Sierra Maestra lutavam, sim, por uma causa justa. Combatiam o poder da oligarquia comandada por um ditador que transformou o país em um bordel estadunidense onde a Máfia e a corrupção comandavam. No entanto, ao derrubarem o regime de Fulgêncio Batista, conseguiram apenas substituir uma ditadura por outra. Este fato não desabona, no entanto, a guerrilha propriamente dita. Da mesma forma, os objetivos questionáveis do Hamas não podem ser usados para condenar a luta do povo palestino.
É preciso um distanciamento para olhar os fatos com os olhos da coerência e não com o ponto de vista dos vencedores ou dos derrotados. Como seriam classificados os partisans que combateram os nazistas na França caso estes tivessem vencido a guerra? Certamente seriam apontados como terroristas. Basta observar como são tratados os grupos armados que lutaram pelo estabelecimento do Estado de Israel na década de 40. Muitos utilizaram o terrorismo puro e simples contra civis árabes, mas não se houve dizer isso abertamente, afinal, eles foram os vencedores.
O que deve diferenciar terrorismo e guerrilha não é o lado do campo de batalha, mas uma combinação entre o que motiva estas ações e os métodos que estes grupos utilizam.
Veja mais sobre este tema:
- Um guerrilheiro vale a vida de 10 civis?
Fotojornalismo
Abdullah Ahmed Ali, Assad Sarwar e Tanvir Hussain, todos cidadãos britânicos ligados à al-Qaeda foram condenados na segunda-feira (7) por planejar explodir aviões de passageiros com destino aos EUA e ao Canadá. O complô, que tinha ramificações espalhadas pelo mundo, foi descoberto pelas autoridades dias antes de ser colocado em prática, em 2006. Segundo as autoridades, eles pretendiam detonar explosivos líquidos durante os voos. É inconcebível que inocentes paguem com suas vidas por esta ou aquela concepção de mundo. Há uma tremenda diferença entre um homem-bomba que ataca um alvo militar e outro que derruba um avião, explode um ônibus ou manda aos ares um restaurante. Foto da Efe.
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