Semana On

domingo, 30 de agosto de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

Poesia aos sábados

Vento

Peguei o lampião, auscultei a alma.
Marido dormia no sofá quando o vento veio.
Perfume de homem, com canela.
Entrou pelas narinas, percorreu o ventre.
Abri porta, pernas, montei no seu cavalo de cheiros, me perdi.
Quando voltei, marido se acordou.
- Você está diferente.
- Bestagem. Dorme.
No meio das pernas latejava, borboleta negra da lembrança.

Maria Helena Bandeira, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Coluna do Capssa - "Eugénie Grandet e Thérèse Raquin"

Duas Senhoras” tem como pano de fundo a França de hoje, onde uma jovem enfermeira árabe, cansada dos comentários racistas, resolve trabalhar como enfermeira de uma judia idosa.

Apesar de interessante o tema, não falarei sobre o filme, embora tenha sentido na pele este tipo de preconceito. Em 1988, como médico, participei de um congresso em Palma de Mallorca. Éramos cinco brasileiros. Fui o único barrado no aeroporto de Orly. Na ocasião, tinha o cabelo e bigodes negros e essa inconfundível expressão árabe. Depois de muita conversação e apresentação de documentos fui liberado com um certo olhar de desconfiança, é claro.

A introdução se fez necessária, uma vez que fiquei traumatizado com os franceses. Trauma que resolvi combater neste mês de agosto, quando, entre exames médicos de rotina, preocupações com a saúde e, ainda, de férias, resolvi ler duas interessantes obras de autores franceses: uma de Honoré de Balzac, outra de Émile Zola (cujo “Germinal”, lido na juventude, me marcou profundamente como uma das mais instigantes obras com que tive contato).

Eugénie de Grandet” e “Thérèse de Raquin” são, na verdade, duas jovens que persistiram, teimosamente, em viver, embora antagônicas em sua maneira de pensar e agir. Em “Eugénie de Grandet”, Balzac faz um amplo estudo ficcional sobre a futilidade pequeno-burguesa, ressaltando o poder que o dinheiro exerce sobre a vida e o caráter das pessoas, a frustração amorosa e a índole humana, personificada pela figura do seu pai, o velho Grandet, avarento da mais perfeita repugnância.

Em “Thérèse Raquin”, Zola, por sua vez, nos mostra uma jovem - de maneira extremamente realista - que vai do adultério ao crime, sofrendo todas as conseqüências morais de seus atos. Embora Zola seja um naturalista - “cada capítulo constitui o estudo de um caso curioso de fisiologia” - parece-me que vai mais longe do que o simples retrato do fisiologismo (atuando o meio como fator preponderante sobre as ações do ser humano) na justificativa de seus atos.

Concluindo, penso que Balzac era, definitivamente, um crítico voraz da sociedade francesa. Zola subestimou-se. Assim como o grande Dostoievski, dissecou a alma humana. Nenhum outro autor teve a capacidade de explorar o ser humano na plenitude de suas mentes inquietas como eles.
Luiz Carlos Capssa Lima
25/08/09

Fotojornalismo

O caseiro Francenildo dos Santos Costa no STF, em Brasília,ontem, aguardando o julgamento da ação do MP contra o ex-ministro da Fazenda e atual deputado Antonio Palocci (PT-SP), que foi inocentado. Foto de Celso Junior/AE.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Mercenárias

As Mercenárias: Me perco neste tempo
Ouça no volume máximo!

Fotojornalismo

"Abre os olhos!!!", dizem cartazes espalhados em Bogotá. Recado ao presidente da Venezuela, Hugo Chavez. Foto da AP

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

1808 - Laurentino Gomes

“Foi o único que me enganou”
Napoleão Bonaparte, nas suas memórias escritas pouco anets de morrer no exílio da Ilha de Santa Helena, referindo-se a D. João VI, Rei do Brasil e de Portugal

Em dez anos, o jornalista Laurentino Gomes leu e pesquisou 150 livros e fontes impressas e eletrônicas sobre a fuga da família real portuguesa para o Brasil durante as convulsões sociais geradas pelo avanço das forças de Napoleão Bonaparte sobre as monarquias européias. O resultado desta extensiva pesquisa foi o best-seller 1808, publicado no ano passado pela editora Planeta.

O livro faz um apanhado das circunstancias mais pitorescas do périplo da família real e sua corte fugitiva, de como o ocorrido influenciou Portugal - lançando o reino em anos de fome e incerteza – e sua influência na construção da nação brasileira. Laurentino lança luzes sobre este importante momento da história do Brasil e de Portugal, analisando a fraqueza de Portugal enquanto nação, a manipulação inglesa sobre o fraco aliado, a implantação de uma corte corrupta e perdulária – que daria origem aos vícios que se perpetuam hoje no Estado brasileiro.

“Era uma corte perdulária e voraz. Em 1820, ano anterior ao retorno a Portugal, consumia 513 galinhas, frangos, pombos e perus e 90 dúzias de ovos por dia. Eram quase 200 000 aves e 33 000 dúzias de ovos por ano, que custavam cerca de 900 contos de réis ou quase 50 milhões de reais em dinheiro atual”, diz o autor na página 189, mostrando que a gula de nossas excelências tem raiz histórica.

Senhores e escravos, na lida e na imprensa

O escravagismo é protagonista de alguns momentos interessantes da obra. Dados como o preço de um escravo, o custo do aluguel de um serviçal são informações que Laurentino traz e que aguçam a curiosidade. “O viajante alemão Ernst Ebel contou que, ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1824, alugou um negro por 700 réis ao dia – o equivalente a pouco menos de 30 reais atualmente.”, diz na página 248.

Os escravos rebeldes eram punidos com violência, alguns a açoite proferido por um carrasco que ganhava uma pataca (antiga moeda de prata no valor de 320 réis – menos de 15 reais atuais) por cem chibatadas.

Ainda citando o alemão Erst Ebel, o autor relata os primórdios da publicidade no país.

“Insatisfeito com o serviço, demitiu-o depois de algum tempo e colocou um anúncio no Diário Fluminense procurando ‘uma negra que soubesse lavar e passar a ferro’. Conseguiu contratar uma ‘pretinha’, segundo sua própria definição, de dezesseis anos chamada Delfina, que lhe saia por 11 000 réis mensais, sendo 6 000 em dinheiro e o restante em comida e outras necessidades diárias. Por esse valor, que hoje equivale a aproximadamente mio salário mínimo, ‘eu dispunha de alguém que não somente me lavava a roupa como a consertava e, em caso de necessidade, entendia um pouco de cozinha, ficando em casa, de mais a mais, o tempo todo, para minha maior segurança’, escreveu Ebel.” (Pág. 248)

1808 é um livro fascinante em diversos aspectos, embora repetitivo em alguns momentos e superficial em outros. Um aspecto em especial me chamou a atenção: os trechos referentes aos primeiros momentos de nossa imprensa. A seguir, alguns trechos que deixam a mostra as origens "pouco republicanas" do jornalismo brasileiro.

“Uma nova impressora, que tinha sido recentemente comprada em Londres, também foi embarcada a bordo da nau Medusa como chegara da Inglaterra, sem sair da caixa. Nesse caso, era uma carga irônica: para evitar a propagação de idéias consideradas revolucionárias na colônia, o governo português havia proibido expressamente a existência de impressoras no Brasil. Para fugir da censura, o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro criado pelo jornalista gaúcho Hipólito José da Costa, em 1808, seria impresso e distribuído em Londres.” (Pág. 75)

“Para fugir à censura, o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, era publicado em Londres. Seu fundador, o jornalista Hipólito José da Costa, nasceu no Rio Grande do Sul e deixou o Brasil quando tinha dezesseis anos. Formou-se em Coimbra e morou dois anos nos Estados Unidos. Voltou para Lisboa e foi preso em 1803 por integrar a maçonaria. Processado pela Inquisição, fugiu para a Inglaterra em 1805 onde criou o Correio três anos mais tarde.” (Pág. 135)

“O mesmo Hipólito que defendia a liberdade de expressão e idéias liberais acabaria, porém, inaugurando o sistema de relações promíscuas entre imprensa e governo no Brasil. Por um acordo secreto, D. João começou a subsidiar Hipólito na Inglaterra e a garantir a compra de um determinado número de exemplares do Correio Braziliense, com o objetivo de prevenir qualquer radicalização nas opiniões expressas no jornal. Segundo o historiador Barman, por esse acordo, negociado pelo embaixador português em Londres, D. Domingos de Souza Coutinho, a partir de 1812 Hipólito passou a receber uma pensão anual em troca de críticas mais amenas ao governo de D. João, que era um leitor assíduo dos artigos e editoriais da publicação. ‘O público nunca tomou conhecimento desse acordo’, afirma o historiador.” (Págs. 135/136).

“No começo do século XIX, havia 278 jornais em circulação em Londres. Esse número incluía periódicos ingleses, como o já venerável The Times, e também uma infinidade de jornais em língua estrangeira, ali publicados para fugir à censura e à perseguição em seus países de origem, caso do brasileiro Correio Brazliense, de Hipólito da Costa.” (Pág 206)

“A Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal publicado em território acional, começou a circular no dia 10 de setembro de 1808, impresso em máquinas trazidas ainda encaixotadas da Inglaterra. Com uma ressalva: só imprimia notícias favoráveis ao governo: ‘A julgar-se o Brasil pelo seu único periódico, seria um paraíso terrestre, onde nunca se tinha expressado uma só crítica ou reclamação’, observou o historiador John Armitage. Hipólito da Costa, que lançou o seu Correio Braziliense em Londres três meses antes da estréia da Gazeta no Rio de Janeiro, reclamava de se ‘gastar tão boa qualidade de papel para imprimir tão ruim material’ e que ‘melhor se empregaria se fosse usado para embrulhar manteiga’”. (Págs 217/218)

“O primeiro viajante-repórter da época de D. João VI foi o mineralogista inglês John Mawe. Seu livro, Viagens ao interior do Brasil, publicado em Londres em 1812, foi um sucesso instantâneo”. (Pág 261)

“’O Brasil não é lugar de literatura’, afirmou James Henderson. ‘Na verdade, a sua total ausência é marcada pela proibição geral de livros e a falta dos mais elementares meios pelos quais seus habitantes possam tomar conhecimento do mundo e do que se passa nele. Os habitantes estão mergulhados em grande ignorância e sua conseqüência natural: o orgulho’”. (Pág 269).

“Por fim, proclamaram a liberdade de imprensa – uma grande novidade no Brasil, onde as idéias, o direito de opinião e a publicação de livro haviam sido controlados com rigor nos três séculos desde o Descobrimento”. (Pág. 289)

“Na Inglaterra, os revolucionários tentaram obter o apoio do jornalista Hipólito José da Costa, fundador do Correio Braziliense, oferecendo-lhe o cargo de ministro plenipotenciário da nova república. Hipólito recusou. Como já foi visto, sem que os pernambucanos soubessem, a Coroa portuguesa havia feito um acordo secreto com o dono do Correio em 1812, que previa a compra de um determinado número de exemplares do jornal e um subsídio para o próprio jornalista, em troca de moderação nas suas críticas contra a monarquia. Num despacho oficial de Londres, o embaixador português, D. Domingos de Souza Coutinho, avaliava os resultados do acordo: ‘Eu tenho-o contido em parte até aqui com a esperança da subscrição que pede. Eu não sei outro modo de o fazer calar’. O historiador Oliveira Lima, ao avaliar essa relação secreta, dizia que Hipólito José da Costa, ‘se não foi propriamente venal, não foi todavia incorruptível, pois se prestava a moderar seus arrancos de linguagem a troco de considerações, de distinções e mesmo de patrocínio oficial’”. (Págs 290/291)

Fotojornalismo

Antes tarde do que nunca. O senador petista Eduardo Suplicy (SP) defendeu ontem, em discurso no Plenário do Senado, a renúncia de José Sarney (PMDB-AP) da presidência da Casa. Suplicy subiu o tom e, como um juiz de futebol, puxou um cartão vermelho do bolso. Antes, Suplicy e a bancada do PT defendiam apenas que Sarney se licenciasse do cargo. Para lembrar isso, o senador Heráclito Fortes (PI) sugeriu que Suplicy puxasse o cartão vermelho para o presidente Lula, que pressionou a bancada petista a salvar Sarney. Foto de Ed Ferreira.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Eu e Interney no OI

A entrevista com o blogueiro Edney Souza, publicada aqui no Escrevinhamentos ontem, foi reproduzida hoje no Observatório da Imprensa. AQUI.

O dono do PT

Excelente a matéria de Otávio Cabral na Veja desta semana sobre a crise de identidade do PT e o domínio de Lula sobre a legenda. Resume com maestria a triste redução de um partido. Reproduzo a seguir:



Eleito presidente da República em 2002, Lula acrescentou a sua magnífica história de vida, personalidade e insuperável carisma um balaio com 50 milhões de votos. Levou para o graal da política seus correligionários do Partido dos Trabalhadores (PT), cujos integrantes mais ativos foram acomodados em cargos executivos, ocupando os postos mais cobiçados da hierarquia política do país. Começava então o governo do PT. Internamente, a militância discutia que transformações o partido sofreria com a experiência de governar o Brasil. Depois de tanto sucesso como pedra, como reagiria o PT sendo vidraça por quatro, oito ou... vinte anos? Tornando ainda mais curta uma curta história, a ideia de que o PT governaria o Brasil começou a ruir, como se sabe, quando o economista da agremiação, Guido Mantega, foi preterido para o posto de presidente do Banco Central, entregue a um banqueiro internacional e, ainda por cima, tucano, Henrique Meirelles. O choque seguinte foi a queda em desgraça do herdeiro aparente de Lula, José Dirceu. As outras cabeças rolariam em 2005, no vórtice do escândalo do mensalão. De lá para cá, o petismo sobreviveu mantendo as aparências mas já sem bandeiras e vitalmente dependente do oxigênio político instilado por Lula. Na semana passada, Lula ameaçou cortar o oxigênio e o PT viu, pela primeira vez com clareza, que a experiência de governar foi sem nunca ter sido e serviu apenas para que o presidente desse andamento a suas prioridades, que são, pela ordem: Luiz Inácio da Silva, Lula e Lula.

Os senhores acima empalhados são a imagem desse quadro. Eles foram obrigados a encenar o teatro de salvar a pele de um inimigo histórico do partido, o senador José Sarney, fazendo o mesmo papel de guarda-costas desempenhado por Fernando Collor e Renan Calheiros, que dispensam apresentação. A missão foi cumprida com sucesso. No escândalo do mensalão, em 2005, o PT que subornava deputados, comprava partidos e desviava dinheiro público obedecia apenas ao ex-ministro José Dirceu, pelo menos segundo as conclusões oficiais. Agora, o PT que não se incomoda mais com o nepotismo, o fisiologismo e a corrupção tem um novo e inquestionável comandante em chefe: o próprio presidente Lula. Partiu dele a ordem para poupar Sarney a qualquer custo no Conselho de Ética do Senado, mesmo que esse custo fosse a implosão do que ainda restava de pudor nas fileiras petistas. Como recompensa, o chefe promete limpar a biografia de todos eles usando sua popularidade quando chegar a hora do voto.

Ao reduzir moralmente seu partido e abrir mão de aliados históricos, como foi o caso da ex-ministra Marina Silva, que deixou o PT por discordar dos caminhos trilhados, o presidente Lula certamente tem em mente um plano auspicioso. Difícil talvez seja convencer as pessoas de como algo que se imagina virtuoso possa passar pela salvação do senador José Sarney. Lula acredita que fez o melhor governo da história do Brasil e quer provar isso elegendo o sucessor. Apesar da resistência do PT, o presidente escolheu a ministra Dilma Rousseff para o papel de candidata, e está empenhando sua imensa popularidade numa pré-campanha que começou há meses. O governo precisa do PMDB para viabilizar seu projeto de poder. É nessa hora que aparece a fatura pesada. Se para quitá-la for preciso fazer alguns sacrifícios, como defender corruptos ou enfraquecer o partido que levou Lula ao poder, segue-se em frente, sem nenhum constrangimento.

O presidente acredita que seu carisma, combinado com uma dose de sagacidade política, é capaz de reduzir a nada qualquer crise que se apresente. Na semana passada, por exemplo, houve um encontro de contas. O governo queria – e conseguiu – evitar a convocação da ministra Dilma para falar do caso envolvendo uma suposta interferência na Receita Federal (veja reportagem), e o PMDB queria – e também conseguiu – arquivar as denúncias contra José Sarney. É nisso que o presidente aposta. Se sua imagem e a do seu governo forem preservadas, tanto faz se o partido do governo é o PT, o PMDB ou o PSL. O que move Lula é o pragmatismo, a tranquilidade de colher frutos da parte positiva do governo e, ao mesmo tempo, transferir ao PT o ônus por defender figuras como Fernando Collor, Renan Calheiros e José Sarney. O PT percebe claramente esse desgaste, mas não pode nem tem condições de reagir à estratégia do criador. Na semana passada, lideranças do partido tiveram acesso aos dados de uma pesquisa qualitativa feita nas principais capitais do país. O objetivo: avaliar as consequências para a legenda do mensalão, do dossiê dos aloprados, da salvação de Renan Calheiros e, agora, de Sarney – todos escândalos que contaram com o envolvimento direto dos petistas. A maior parte dos entrevistados apoia e admira Lula, não vincula o nome do presidente a nenhum dos escândalos, mas tem sérias restrições em votar no PT. Sendo assim, ao empalhar as cabeças do partido, Lula pode alegar que está apenas protegendo-as de si mesmas.