Semana On

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Fotojornalismo

Bombeiros, seputados e senadores tentaram conter as chamas em Brasília. Um incêndio próximo ao Congresso deu trabalho. Foto da AFP.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Os descaminhos do relativismo cultural

Harry Gensler
Tradução de Paulo Ruas
Extraído de “
Ethics: A contemporary introduction”, (Routledge, 1998)

-

O relativismo cultural (RC) defende que o bem e o mal são relativos a cada cultura. O "bem" coincide com o que é "socialmente aprovado" numa dada cultura. Os princípios morais descrevem convenções sociais e devem ser baseados nas normas da nossa sociedade.

Começaremos por ouvir uma figura ficcional, a que chamarei Ana Relativista, que nos explicará a sua crença no relativismo cultural. Ao ler o que se segue, ou explicações semelhantes, proponho-lhe que reflita até que ponto esta é uma perspectiva plausível e se ela se harmoniza com o seu ponto de vista. Depois de ouvirmos o que Ana tem para dizer, consideraremos várias objeções ao RC.

1. Ana Relativista

O meu nome é Ana Relativista. Aderi ao relativismo cultural ao compreender a profunda base cultural que suporta a moralidade.

Fui educada para acreditar que a moral se refere a fatos objetivos. Tal como a neve é branca, também o infanticídio é um mal. Mas as atitudes variam em função do espaço e do tempo. As normas que aprendi são as normas da minha própria sociedade; outras sociedades possuem diferentes normas. A moral é uma construção social. Tal como as sociedades criam diversos estilos culinários e de vestuário, também criam códigos morais distintos.

Considere a minha crença de que o infanticídio é um mal. Ensinaram-me isto como se tratasse de um padrão objetivo. Mas não é; é apenas aquilo que defende a sociedade a que pertenço. Quando afirmo "O infanticídio é um mal" quero dizer que a minha sociedade desaprova essa prática e nada mais. Para os antigos romanos, por exemplo, o infanticídio era um bem. Não tem sentido perguntar qual das perspectivas é "correta". Cada um dos pontos de vista é relativo à sua cultura, e o nosso é relativo à nossa. Não existem verdades objetivas acerca do bem ou do mal. Quando dizemos o contrário, limitamo-nos a impor a nossas atitudes culturalmente adquiridas como se tratassem de "verdades objetivas".

"Mal" é um termo relativo. Deixem-me explicar o que isto significa. Quero dizer que nada está absolutamente "à esquerda", mas apenas "à esquerda deste ou daquele" objeto. Do mesmo modo, nada é um mal em absoluto, mas apenas um mal nesta ou naquela sociedade particular. O infanticídio pode ser um mal numa sociedade e um bem noutra.

Podemos expressar esta perspectiva claramente através de uma definição: "X é um bem" significa "a maioria (na sociedade em questão) aprova X". Outros conceitos morais como "mal" ou "correto", podem ser definidos da mesma forma. Note-se ainda a referência a uma sociedade específica. A menos que o contrário seja especificado, a sociedade em questão é aquela a que pertence a pessoa que formula o juízo. Quando afirmo "Hitler agiu erradamente" quero de fato dizer "de acordo com os padrões da minha sociedade".

O mito da objetividade afirma que as coisas podem ser um bem ou um mal de uma forma absoluta — e não relativamente a esta ou àquela cultura. Mas como poderemos saber o que é o bem ou o mal em termos absolutos? Como poderíamos argumentar a favor desta idéia sem pressupor os padrões da nossa própria sociedade? As pessoas que falam do bem e do mal de forma absoluta limitam-se a absolutizar as normas que vigoram na sua própria sociedade. Consideram as normas que lhes foram ensinadas como fatos objetivos. Essas pessoas necessitam estudar antropologia, ou viver algum tempo numa cultura diferente.

Quando adotei o relativismo cultural tornei-me mais receptiva a aceitar outras culturas. Como muitos outros estudantes, eu partilhava a típica atitude "nós estamos certos e eles errados". Lutei arduamente contra isto. Apercebi-me de que o outro lado não está "errado", mas que é apenas "diferente". Temos, por isso, que considerar os outros a partir do seu próprio ponto de vista; ao criticá-los, limitamo-nos a impor-lhes padrões que a nossa própria sociedade construiu. Nós, os relativistas culturais, somos mais tolerantes.

Através do relativismo cultural tornei-me também mais receptiva às normas da minha própria sociedade. O RC dá-nos uma base para uma moral comum no interior da cada cultura — uma base democrática que abrange as idéias de todos e assegura que as normas tenham um amplo suporte. Assim, posso sentir-me solidária com pessoas que partilham comigo uma mesma comunidade, ainda que outros grupos possuam diferentes valores.

2. Objeções ao RC

Ana deu-nos uma formulação clara de um ponto de vista acerca da moral que muitas pessoas consideram atrativa. Refletiu bastante acerca da moral e isto permite-nos aprender com ela. Contudo, estou convencido de que a sua perspectiva básica neste domínio está errada. Suponho que Ana acabará por concordar à medida que as suas idéias ficarem mais claras.

Deixem-me indicar o principal problema. RC força-nos a conformar-nos com as normas sociais — ou contradizemo-nos. Se "bem" e "socialmente aprovado" significam a mesma coisa, seja o que for ao qual o primeiro termo se aplique também o segundo lhe é aplicável.

Assim, o seguinte raciocínio seria válido:

Isto e aquilo são socialmente aprovados. Logo, isto e aquilo são bens.

Se o relativismo cultural fosse verdadeiro, não poderíamos consistentemente discordar dos valores da nossa sociedade. Mas este resultado é absurdo. Claro que é possível consistentemente discordar dos valores da nossa sociedade. Podemos afirmar consistentemente que algo é socialmente aprovado e negar que seja um "bem". Isto não é possível se o RC for verdadeiro.

Ana poderia aceitar esta conseqüência implausível e dizer que é contraditório discordar moralmente da maioria. Mas esta seria uma conseqüência especialmente difícil de ser aceita. Ana teria de aceitar que os defensores dos direitos civis estariam se contradizendo ao discordarem da perspectiva aceita pelos segregacionistas. E teria de aceitar a perspectiva da maioria em todas as questões morais — mesmo que perceba que a maioria é ignorante.

Suponha que Ana tinha aprendido que a maioria das pessoas da sua cultura aprovam a intolerância e também a idéia de ridicularizar pessoas de outras culturas. Teria ainda assim de concluir que a intolerância é um bem (apesar de esta atitude contrariar as suas próprias intuições).

A intolerância é socialmente aprovada. Logo, a intolerância é um bem.

Ana teria que aceitar a conclusão (aceitar que a intolerância é boa) ou rejeitar o relativismo cultural. Se quiser ser consistente é necessário modificar pelo menos uma destas perspectivas.

Eis uma dificuldade ainda mais grave. Imaginemos que Ana encontrasse alguém chamada Rita Rebelde, oriunda de um país nazista. Na terra natal de Rita, os judeus e os críticos do governo são colocados em campos de concentração. Sucede que a maioria das pessoas, mal informadas sobre o que se passa, aprovam esta política. Rita é uma dissidente. Defende que esta política, apesar do apoio da maioria das pessoas, está errada. Se Ana quisesse aplicar o RC a esta situação particular teria que dizer a Rita algo do género:

Rita, a palavra "bem" refere-se ao que é aprovado pela tua cultura. Como essa cultura aprova o racismo e a opressão, deves aceitar esta atitude como um bem. Não podes pensar diferentemente. A perspectiva minoritária está sempre errada — o "bem" é, por definição, aquilo que socialmente é aprovado.

A perspectiva do RC é intolerante para com as minorias (que automaticamente estão erradas) e forçaria Rita a aceitar o racismo e a opressão como sendo bons. Isto decorre da definição de "bem" como algo "socialmente aprovado". Ao compreendê-lo, talvez abandone o RC.

O racismo é um bom teste para a ética. Uma perspectiva ética satisfatória deve fornecer-nos os meios para combater atos racistas. O RC falha neste aspecto, dado estar comprometido com a tese segundo a qual as ações racialmente motivadas são boas numa dada sociedade se essa sociedade as aprova. Se Rita seguisse o RC, teria que concordar com a atitude racista da maioria, ainda que as pessoas estivessem mal informadas ou fossem ignorantes. O relativismo cultural parece bastante insatisfatório neste ponto.

A educação moral é também um bom teste ético. Se aceitássemos o RC, como educaríamos os nossos filhos em questões de ordem moral? Ensinar-lhes-íamos que pensassem e agissem de acordo com as normas da sua sociedade, qualquer que esta fosse. Estaríamos a ensiná-los a serem conformistas. Ensinar-lhes-íamos, por exemplo, que os seguintes raciocínios são corretos:

"A minha sociedade aprova A; logo, A é bom."

"O meu grupo aprova que nos embebedemos às sextas-feiras à noite e dirijamos nossos carros no regresso a casa; logo, esta é uma boa atitude."

"A minha sociedade é nazista e aprova o racismo; logo, o racismo é um bem."

Aceitar o RC priva-nos de exercer qualquer sentido crítico acerca das normas da nossa sociedade. Estas normas não podem estar erradas — ainda que resultem da estupidez e da ignorância.

Do mesmo modo, as normas de outras sociedades (mesmo as da terra natal de Rita) não podem estar erradas ou serem criticadas. O RC contraria o espírito crítico que é próprio da filosofia.

3. Diversidade moral

O relativismo cultural considera o mundo como algo que está dividido de uma forma nítida em sociedades distintas. Em cada uma delas não existe desacordo em questões morais ou apenas em pequena escala, dado que a perspectiva majoritária determina o que é considerado um bem ou um mal nessa sociedade. Mas o mundo não é assim. Pelo contrário, o mundo é uma mistura confusa de sociedades e grupos sobrepostos; e os indivíduos não seguem necessariamente o ponto de vista da maioria.

O relativismo cultural ignora o problema dos subgrupos. Todos nós fazemos parte de grupos sobrepostos. Cada um de nós, por exemplo, faz parte de uma nação, de um estado, de uma cidade, de um bairro. Além disso, cada um de nós pertence a várias comunidades, profissionais, religiosas, grupos de amigos, etc. É freqüente estes grupos terem valores que estão em conflito. De acordo com o RC, quando afirmo "O racismo é um mal" pretendo dizer "A minha sociedade desaprova o racismo". Mas a que sociedade nos referimos? Talvez a maioria das pessoas que pertencem à minha comunidade religiosa e ao meu país desaprove o racismo, enquanto a maioria dos que fazem parte do meu grupo profissional e familiar o aprovem. O relativismo cultural poderia dar-nos meios para nos conduzirmos corretamente no plano moral apenas se cada um de nós pertencesse a uma única sociedade. Mas o mundo é muito mais complicado do que este quadro sugere. Até certo ponto, todos nós somos indivíduos multi-culturalizados.

O RC não tenta estabelecer normas comuns entre sociedades. À medida que a tecnologia invade o planeta, as disputas morais entre diferentes sociedades têm tendência para se tornarem mais importantes. O país A aprova a existência de direitos iguais para as mulheres (ou outras raças e religiões), mas o país B desaprova-o. Que deve fazer uma companhia multinacional que opera nos dois países? Ou as sociedades A e B têm conflitos de valores que conduzem à guerra. Dado que o relativismo cultural pouco nos ajuda acerca destes problemas, oferece-nos uma base muito pobre para responder às exigências da vida no século XXI.

Como responder à diversidade cultural entre sociedades? Ana rejeita a atitude dogmática do gênero "Nós estamos certos e eles errados". Percebe a necessidade de compreender as sociedades e culturas diferentes da sua própria a partir do ponto de vista dessas culturas e sociedades. Estas são idéias positivas. Mas, em seguida, afirma também que nenhum dos lados pode estar errado. Isto limita a nossa capacidade para aprender. Se a nossa cultura não pode estar errada, não pode aprender com os seus próprios erros. Compreender as normas de outras culturas não permitirá ajudar-nos a corrigir os erros das nossas próprias sociedades.

Aqueles que acreditam em valores objetivos vêem estes assuntos de um modo diferente. Poderiam defender algo como isto:

Existem verdades para descobrir no domínio moral, mas nenhuma cultura possui o monopólio destas verdades. As diferentes culturas necessitam de aprender umas com as outras. Para que tomemos consciência dos erros e dos nossos valores, é necessário conhecer como procedem as outras culturas, e de que forma reagem ao que nós fazemos. Aprender com diferentes culturas pode ajudar-nos a corrigir os nossos valores e a aproximar-nos da verdade acerca do modo como devemos viver.

4. Valores objetivos

É necessário falar um pouco mais acerca da objetividade dos valores. Este é um tópico bastante vasto e importante.

A perspectiva objetivista (também designada realismo moral) defende que certas coisas são objetivamente um bem ou objetivamente um mal, independentemente do que possamos sentir ou pensar. Martin Luther King, por exemplo, defendia que o racismo está objetivamente errado. Que o racismo esteja errado era para ele um fato. Qualquer pessoa e cultura que aprovasse o racismo estariam erradas. Ao dizer isto, King não estava absolutizando as normas da nossa sociedade; discordava, pelo contrário, das normas amplamente aceites. Fazia apelo a uma verdade mais elevada acerca do bem e do mal, uma verdade que não estava dependente do modo de pensar ou sentir das pessoas neste ou naquele momento. Fazia apelo a valores objetivos.

Ana rejeita a crença em valores objetivos e chama-lhe "o mito da objetividade". Nesta perspectiva, as coisas são um bem ou um mal apenas relativamente a esta ou àquela cultura. Não são objetivamente boas ou más, como King pensava. Mas serão os valores objetivos realmente um "mito"? Para responder a isto convém examinar o raciocínio de Ana.

Ana tinha três argumentos contra a objetividade dos valores. Não existem verdades morais objetivas porque:

- A moral é um produto da cultura;

- As sociedades discordam amplamente acerca da moralidade;

- Não existe uma maneira clara de resolver diferenças morais.

De fato, qualquer destes argumentos cede com facilidade se o examinarmos cuidadosamente.

"Dado que a moral é um produto da cultura, não podem existir verdades morais objetivas". O problema deste raciocínio é que um produto da cultura pode expressar uma verdade objetiva. Qualquer livro é um produto cultural; no entanto, muitos livros exprimem verdades objetivas. Da mesma forma, um código moral pode ser um produto cultural e expressar verdades objetivas acerca da maneira como as pessoas devem viver.

"Visto as diferentes culturas discordarem amplamente sobre a moral, não podem existir verdades morais objetivas." O simples fato de existir desacordo não mostra, no entanto, que não existe verdade neste domínio e que nenhum dos lados está certo ou errado. O extenso desacordo entre diferentes culturas acerca de antropologia, religião, e até em física, não impede a existência de verdades objetivas nestes domínios. Logo, o desacordo em questões morais não mostra que não exista verdade nestes assuntos.

Podemos igualmente questionar-nos se as diferentes culturas divergem assim tão profundamente sobre a moral. Na maior parte das culturas existem normas muito semelhantes quanto a matar, roubar e mentir. E muitas das diferenças podem ser explicadas em resultado da aplicação dos mesmos valores básicos a diferentes situações. A Regra de Ouro "Trata os outros como queres ser tratado" é quase universalmente aceite em todo o mundo. E as diferentes culturas que constituem as Nações Unidas concordaram em larga medida a respeito dos direitos humanos mais elementares.

"Como não existe uma maneira clara de resolver diferenças morais, não é possível que existam verdades morais objetivas." Mas podem existir maneiras claras de resolver pelo menos um grande número de diferenças morais. Precisamos de uma forma de raciocinar em ética que faça apelo às pessoas inteligentes e com suficiente abertura de espírito de todas as culturas — isto faria pela ética o que se obteve em ciência com o método experimental.

Ainda que não existisse uma maneira sólida de conhecer verdades morais, daí não se segue que tais verdades não existam. Existem verdades que não conhecemos inequivocamente. Terá chovido neste lugar 500 anos atrás? Há seguramente uma verdade acerca disto que nunca conheceremos. Apenas uma pequena percentagem de verdades é conhecida. Logo, podem existir verdades morais objetivas mesmo que não possamos sabê-lo.

O ataque de Ana aos valores morais objetivos falhou. Mas isto não encerra o tema porque há mais argumentos. O debate sobre a objetividade dos valores é importante. Antes de terminar gostaria de clarificar alguns aspectos.

O ponto de vista objetivista afirma que algumas coisas são objetivamente um bem ou um mal, independentemente do que possamos pensar ou sentir; contudo, esta perspectiva está preparada para aceitar algum relativismo noutras áreas. Muitas regras sociais são claramente determinadas por padrões locais:

Regra local: "É proibido virar à direita com a luz vermelha."

Regra de etiqueta local: "Use o garfo apenas com a mão esquerda."

É necessário respeitar este gênero de regras locais; ao proceder de outra maneira podemos ferir as pessoas, quer porque chocamos contra os seus carros quer porque ferimos os seus sentimentos. Na concepção objetivista, a exigência de não magoar as outras pessoas é uma regra de um gênero diferente — uma regra moral — não determinada por costumes locais. Considera-se que as regras morais possuem mais autoridade que as leis governamentais ou as regras de etiqueta; são regras que qualquer sociedade deve respeitar se quiser sobreviver e prosperar. Se visitamos um lugar cujos padrões permitem magoar as pessoas por razões triviais, então esses padrões estão errados. O relativismo cultural disputa esta afirmação. A idéia é que os padrões locais são determinantes ainda que se trate de princípios morais básicos; assim, ferir outras pessoas por motivos triviais é um bem se esta atitude for socialmente aprovada.

Respeitar as diferenças culturais não nos transforma em relativistas culturais. Este é um falso estereótipo. O que caracteriza o relativismo cultural é a afirmação de que tudo o que é socialmente aprovado é um bem.

5. Ciências sociais

Há um estereótipo bastante divulgado que afirma que todos os especialistas em ciências sociais são relativistas culturais. Na verdade, os especialistas em ciências sociais defendem um âmbito variado de perspectivas sobre os fundamentos da ética. Muitos rejeitam este gênero de relativismo. O psicólogo moral Lawrence Kohlberg, por exemplo, considerava o relativismo cultural uma abordagem relativamente imatura da moralidade, típica de adolescentes e de adultos jovens.

Kohlberg afirmava que todos nós, independentemente da nossa cultura, desenvolvemos o pensamento moral através de uma série de estádios. Os primeiros quatro são os seguintes:

Punição/obediência: o "mal" é o que implica punição.

Recompensas: o "bem" é aquilo que nos dá o que desejamos.

Aprovação familiar: o "bem" é o que agrada à mamãe e ao papai.

Aprovação social: o "bem" é aquilo que é socialmente aprovado.

Quando são muito novas, as crianças pensam na moral em termos de punições e obediência. Mais tarde, começam a pensar em termos de recompensa e, em seguida, em termos de aprovação familiar. Mais tarde ainda, na adolescência ou quando são adultos jovens, atingem a fase do relativismo cultural. Nesta fase, o "bem" coincide com o que é socialmente aprovado, o grupo de amigos em primeiro lugar, e depois a sociedade como um todo. É dada importância ao tipo de vestuário que se usa e ao gênero certo de música que se ouve — onde "gênero certo" significa o que é socialmente aprovado. São muitos os jovens que se debatem com estas questões. Talvez por isso levem a sério o relativismo cultural — mesmo que o ponto de vista seja implausível quando o analisamos cuidadosamente.

Segundo Kohlberg, que fase sucede ao relativismo cultural? Por vezes, confusão e ceticismo; de fato, um curso de ética pode promover esta atitude. A seguir, passamos para o estádio 5 (semelhante ao utilitarismo das regras) ou para o estádio 6 (próximo da Regra de Ouro). Ambos procuram avaliar as normas convencionais racionalmente.

Não estou me referindo a Kohlberg com o objetivo de argumentar que, sendo correta a sua perspectiva, o relativismo cultural está errado. Esta perspectiva é controversa. São vários os psicólogos que propõem uma seqüência diferente dos estádios morais ou que rejeitam a idéia de que existem estádios. Além disso, o relativismo cultural já foi adequadamente demolido; não é necessária a ajuda da psicologia. Mencionei Kohlberg porque muitas pessoas se sentem pressionadas a aceitar o relativismo cultural em virtude do mito de que todos os especialistas em ciências sociais são relativistas culturais. Mas este gênero de consenso não existe. Kohlberg e muitos outros especialistas em ciências sociais rejeitam enfaticamente o relativismo cultural. Vêem nele um estádio imaturo do pensamento moral que nos faz conformar com a nossa sociedade.

A abordagem de Kohlberg coloca, no entanto, um problema acerca do significado de "bem". As pessoas podem querer dizer com esta palavra diferentes coisas em estádios diferentes; numa criança, "bem" pode significar "o que agrada à mamã e ao papá". Logo, devemos dirigir a nossa atenção para aquilo que as pessoas com maturidade moral têm em vista com esta palavra. Se o nosso argumento estiver correto, uma pessoa com maturidade moral, quando utiliza este termo, não pretende afirmar que "bem" significa "socialmente aprovado".

6. Sumário

O relativismo cultural afirma que "bem" significa o que é "socialmente aprovado" pela maioria de uma dada cultura. O infantícidio não é objetivamente um bem ou um mal; pelo contrário, é um bem numa sociedade que o aprove e um mal numa sociedade onde não obtenha aprovação.

O relativismo cultural considera que a moral é um produto da cultura. Afirma que as diferentes sociedades discordam amplamente sobre a moral e que não temos meios claros para resolver as diferenças. Os relativistas culturais consideram-se pessoas tolerantes; olham para as outras culturas não como estando "erradas", mas como "diferentes".

Apesar de inicialmente plausível, o relativismo cultural tem vários problemas. Por exemplo, torna impossível discordar dos valores da nossa sociedade. Acontece, por vezes, afirmarmos que, apesar de socialmente aprovada, uma certa atitude não é boa. E isto está em contradição com o RC.

Além disso, o relativismo cultural implica que a intolerância e o racismo sejam um "bem" se a sociedade o aprovar. Leva-nos ainda a aceitar as normas da nossa sociedade de forma acritica.

O relativismo cultural combate a idèia de que existem valores objetivos. O ataque pode ser desmontado com facilidade se o examinarmos cuidadosamente.

São muitos os especialistas em ciências sociais que se opõem ao relativismo cultural.

O psicólogo Lawrence Kohlberg, por exemplo, defende que as pessoas de todas as culturas passam pelos mesmos estádios de desenvolvimento moral. O relativismo cultural representa um estádio relativamente baixo no qual simplesmente nos conformamos com os valores da sociedade em que vivemos. Em estágios mais avançados, o relativismo cultural é rejeitado; consideramos criticamente as normas aceites e pensamos pela nossa cabeça em questões de ordem moral.

Fotojornalismo

Calçada no porto de Yaizu, no Japão. O país foi atingido por um terremoto de 6,4 pontos na escala Richter na semana passada. Foto da AP.

sábado, 15 de agosto de 2009

Poesia aos sábados

de sol a cio

amo você
pelo avesso
e [confesso]
pelo verso:
o torto
e reto
afora
adentro

amo você
a quilo
a metro
a quilômetros
e perto
s e p a r a d o
bemjuntodopeito

amo você
água & vento
de fato
de feito
mundo & átomo
fogo-fátuo
astro

por você:
léu & cardo
chuva & chama
brando & árduo

eu ardo

Valéria Tarelho , esta semana, no Poema Dia

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ezra Nawi será sentenciado neste domingo

No próximo domingo, dia 16, o ativista israelense Ezra Nawi será sentenciado por ter sido considerado culpado de agredir dois policiais em 2007, enquanto lutava contra a demolição de casas palestinas em Um El Hir, na parte sudoeste da Cisjordânia. Uma campanha internacional já reuniu mais de 150 mil cartas de repúdio à decisão da justiça de Israel. Entre os signatários, gente do porte de Naomi Klein, Neve Gordon e Noam Chomsky.

Três coisas que você pode fazer por Ezra Nawi:

1. Cartas de protesto
Escreva uma carta ou email para a embaixada israelense e envie uma cópia para o seguinte endereço eletrônico: support.ezra@gmail.com

2. Divulgação
Divulgue o site http://www.blogger.com/www.supportezra.net, postando-o no facebook, orkut, twitter, blogs e outros lugares do gênero e peça aos amigos para escreverem cartas para o Support Ezra Facebook Group

3. Donativos
Considere fazer uma doação para pagar os custos legais e para custear as atividades de Ezra Nawi em prol dos direitos humanos. Aqui

Leia mais sobre este tema:
- Ezra Nawi enfrenta os sionistas pela união entre judeus e palestinos
- Ezra Nawi e o totalitarismo israelense

Fotojornalismo

Bonecos feitos por manifestantes favoráveis ao presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, representam o presidente interino do país, Roberto Micheletti (à direita), e o general Romeo Vásquez Velásquez, comandante do Estado-Maior do Exército, nesta quinta-feira.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Mídias Sociais no MS

O Sebrae-MS sedia entre os dias 20 e 21 de agosto o primeiro evento sobre as Mídias Sociais realizado no Mato do Grosso do Sul. O objetivo é reforçar um debate que já está posto nos grandes centros: a utilização das mídias sociais em favor dos micro e pequenos empreendimentos.

Hoje, ferramentas como blog, twitter e newsletter têm contribuído para a comunicação de empresas, associações, entidades e políticos, aproximando-os da população por meio de plataformas de comunicação e de interação que já não podem mais ser deixadas de lado por quem quer estar integrado com o mundo.

Gente interessante vai participar do evento com palestras e workshops (Confira quem vai palestrar na imagem ao lado). Estarei lá.

Fotojornalismo

Palestina aproveita o mar da praia de Bat Yam, próxima à Tel Aviv, em Israel. Moradores da cidade de Tulkarem, localizada em território palestino, tiveram permissão do exército israelense para entrar no país por um dia e ir à praia pela primeira vez. Foto da AFP.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Confissões de um assassino econômico - John Perkins

Confissões de um assassino econômico” (Confessions of an Economic Hit Man) é aquele tipo de livro que se lê questionado o tempo todo se é mesmo possível que o que está ali descrito tenha acontecido de fato. O relato de John Perkins, mostrando como os Estados Unidos, por meio da Corporatocracia - nome que ele criou para se referir a rede de interesses empresariais e governamentais - utilizam a globalização para defraudar os países pobres em bilhões de dólares, é chocante.

Autobiografia de um homem cujo trabalho era convencer líderes de países sub-desenvolvidos a aceitarem empréstimos do FMI, do Banco Mundial e da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID), sob o argumento de que o dinheiro seria usado para expandir a infra-estrutura das estradas, ferrovias, centrais de geração de energia elétrica, as telecomunicações, a obra expõe a faceta maquiavélica do poder econômico mundial.

"A sutileza da construção desse império moderno faria os centuriões romanos, os conquistadores espanhóis e as forças colonizadoras européias dos séculos XVII e XIX se envergonharem. Nós, os Assassinos Econômicos, somos astutos; aprendemos com a história. Hoje nós não usamos espadas. Não envergamos armaduras ou roupas especiais para nos proteger. Em países como o Equador, a Nigéria e a Indonésia, nós nos vestimos como professores e donos de lojas. Em Washington e Paris, parecemos burocratas do governo e banqueiros. Parecemos humildes, normais. Visitamos os locais do projeto e passeamos pelas aldeias empobrecidas. Professamos o altruísmo, falamos oficialmente sobre as maravilhosas coisas humanitárias que estamos fazendo. Cobrimos as mesas de conferências das comissões dos governos com as nossas planilhas eletrônicas e projeções financeiras, e proferimos palestras na Harvard Business School sobre os milagres da macroeconomia. Somos conhecidos, acessíveis. Ou nos apresentamos como tais e somos aceitos. É assim que o sistema funciona. Raramente recorremos a alguma coisa ilegal porque o próprio sistema é construído sobre subterfúgios, e o sistema por definição é legítimo."

Perkins descreve com minúcias a estratégia dos Assassinos Econômicos, baseada no exagero do potencial de retorno econômico dos investimentos. Embora seus projetos sempre fossem descritos como humanitários, os objetivos reais eram obter contratos lucrativos para as firmas multinacionais de construção e atrair os países a contrair empréstimos que eles nunca conseguiriam pagar. Ele sabia que alguns políticos e famílias bem conectadas dentro desses países se tornariam muito ricos enquanto o padrão de vida da maior parte da população declinaria. Quando o pagamento dos empréstimos se tornava impossível, as agências de empréstimos e as grandes empresas então agiam para tomar o controle dos recursos e do governo do país, o que também era parte do plano.

"O aspecto velado de cada um desses projetos era que eles pretendiam criar grandes lucros para os contratantes, e fazer a felicidade de um punhado de famílias ricas e influentes nos países recebedores, enquanto assegurava a dependência financeira a longo prazo e, portanto, a lealdade política de governos ao redor do mundo. Quanto maior o empréstimo, melhor. O fato de que a carga da dívida colocada sobre um país privaria os seus cidadãos mais pobres da saúde, educação e de outros serviços sociais por décadas no futuro não era levado em consideração."

John Perkins trabalhou como economista-chefe da empresa Chas. T. Main, em Boston, entre 1971 a 1981. É considerado um especialista internacional no que se convencionou chamar de “macroeconomia”. Em entrevista ao programa “Democracy Now” (veja AQUI o vídeo), declarou acerca de seu livro: “Por várias fui convencido a deixar de escrever este livro. Recomecei-o mais de quatro vezes durante vinte anos. Em todas as ocasiões, a minha decisão de voltar a começar foi influenciada pelos acontecimentos mundiais da época; a invasão do Panamá em 1980, a primeira guerra do Golfo, a Somália e a revolta de Osama Bin Laden. No entanto, as ameaças ou os subornos acabaram sempre por me convencer a parar”.

Os relatos de Perkins nos levam a eventos históricos dos últimos 60 anos como a deposição do dirigente constitucional eleito democraticamente do Irã (e substituído pelo Xá Reza Pahlevi), Mohammed Mossadegh, na década de 50; o acordo político-econômico que garantiu a aliança entre Estados Unidos e Arábia Saudita; e as misteriosas mortes (ambas em acidentes aeronáuticos em 1981) dos presidentes do Equador - Jaime Roldós Aguilera – e do Panamá - Omar Torrijos – em um momento em que ambos representavam sérias ameaças aos interesses estadunidenses na América Central.

"Entretanto — e esse é um grande empecilho — se falharmos, uns tipos ainda mais sinistros entram em ação, os quais nós, os Assassinos Econômicos, chamamos de chacais, homens cuja linhagem remonta diretamente aos impérios primitivos. Os chacais estão sempre presentes, espreitando nas sombras. Quando eles aparecem, os chefes de Estado são derrubados ou mortos em violentos 'acidentes'. Se por acaso os chacais falham, como falharam no Afeganistão e no Iraque, então os antigos modelos ressurgem. Quando os chacais falham, jovens americanos são enviados para matar e morrer."

Trata-se de um livro, repito, chocante, dada a clareza com que são explicitados os meandros nos quais a cobiça e a sede de poder traçam rumos a um único objetivo: dinheiro. Perkins esteve no olho deste furacão e observa a cavaleiro suas conseqüências ainda hoje – em especial nos milionários contratos firmados por empresas estadunidenses (e aliadas) para a reconstrução do Iraque. O mesmo país que destruiu a infra-estrutura iraquiana lucra agora em sua reconstrução. Este fato é uma das muitas conseqüências da política exposta em “Confissões de um assassino econômico”.