Semana On

sábado, 25 de julho de 2009

Poesia aos sábados

O mundo se abastece de mim
Eu, enfado de mundo...
Não convém mais saboreá-lo
tamanha a natureza das
imperfeições que se interpõe
sob tão néctar vista...

Hercília Fernandes, esta semana, no Poema Dia.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Coluna do Capssa - Tyniánov e Turguêniev: dois grandes entre os russos

A literatura russa do final do século XVIII e durante o século XIX é uma das mais belas do mundo, delicada, sensual, nos enebria com sua prosa delirante, numa mistura agridoce em que o amargo e o dócil fundem-se, e, em que, confusos, acreditamos estar levemente embriagados de vodka em uma dacha, completamente enamorados.

Não pretendo fazer desta coluna um ponto referencial de literatura, e sim de “dicas” de leitura para aqueles que apreciam a leitura, não simplesmente como fonte de informações, mas como algo que nos faz deixar levar por sonhos que, embora com vontade, nunca tivemos a coragem de viver.

Entre os inúmeros escritores russos podemos citar Puchkin, Tchekhov, Tolstoi, Dostoiévski, Gogol, Turguêniev e outros tantos que marcaram a literatura mundial.

Neste texto analisaremos, duas obras “menores” na dimensão física, mas imensas na sua abrangência e importância: “O Tenente Quetange”, de Iúri Nikoláievitch Tyniánov (95 páginas – Ed. Cosac & Naify) e “Assia” de Ivan Serguêievitch Turguêniev (119 páginas – Ed. Cosac & Naify).

Em O Tenente Quetange, temos uma narrativa curta em que, com maestria, o autor (1894 –1943) tece uma sátira à Rússia do final do século XVIII, em uma história sobre o reinado de Paulo I (1796 –1801). Tyniánov, num texto deliciosamente cômico, retrata a distração de um escrivão sonolento que acaba por “inventar” a existência de um tenente designado para o corpo da Guarda Imperial. Para que o Tenente Quetange existisse, era necessário que alguém “morresse”. O exército, então, “matou” o tenente Siniukháiev, um oficial sem importância, para dar lugar ao fruto de uma distração. O Tenente Quetange faleceu como General no mesmo ano em que foi sepultado o Imperador Paulo I. Com humor sarcástico, o autor debocha da burocracia e da autocracia de todas as Rússias.

Em Assia, surge a genialidade de Turguêniev (1818 – 1883) - considerado o terceiro russo, precedido por Tolstoi e Dostoiévski – contemporâneo e desafeto cordial dos dois maiores nomes da literatura russa do século XIX. Enquanto os dois primeiros soam como sinfonias majestosas, Turguêniev é, como um quarteto de cordas, lacônico e delicado. No texto, com sua narrativa distante, desapaixonado e levemente irônica, o autor traça um paralelo entre a fraqueza e a letargia do personagem – em franco contrataste com a energia, ação e decisão de Ássia (diminutivo de Ana) – com a força e a fraqueza dos tipos sociais capazes de encarnar o futuro revolucionário russo. Trata-se de uma história que, aparentemente, trata de um amor frustrado pelo preconceito e o medo dos sentimentos espontâneos. A beleza da prosa de Turguêniev levou, anos mais tarde, Anton Tchekhov a exclamar: “Que assombro de linguagem !”.

Luiz Carlos Capssa Lima

Fotojornalismo

A chamada marcha "Pelo Patriotismo e a Coragem", realizada ontem em Honduras, foi convocada pela organização opositora ao presidente deposto Manuel Zelaya, União Cívica Democrática (UCD). Foto da AP

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Israel tenta apagar a memória da nakba

"O que os palestinos viveram em 1948 (ano da guerra e da criação do Estado de Israel) foi uma catástrofe do ponto de vista humano, social, político e nacional. Famílias foram destruídas e expulsas ou fugiram, casas foram destruídas, pessoas foram mortas. Aqueles que acham que, apagando a narrativa e impedindo o estudo da nakba, podem apagar a memória e a história nacional dos palestinos, estão muito enganados", disse hoje o deputado Ahmed Tibi, do partido árabe-israelense Raam-Taal.

A declaração foi uma reação à decisão do ministro da Educação de Israel, Gideon Saar, de excluir a narrativa palestina sobre o conflito entre israelenses e palestinos do currículo escolar. De acordo com as instruções do ministro, a explicação sobre a nakba (catástrofe), termo usado pelos palestinos para descrever a criação do Estado de Israel, será retirada dos livros escolares.

O estudo da nakba foi introduzido nas escolas árabes de Israel em 2007, durante o governo de Ehud Olmert, pela ministra da Educação, Yuli Tamir, do Partido Trabalhista, segundo quem "os alunos árabes, que fazem parte do povo palestino, devem ter acesso às informações relevantes para a sua história".

A decisão do ministro da Educação ocorre 10 dias depois da decisão do ministro dos Transportes, Israel Katz de alterar a grafia dos nomes das cidades do país em todas as placas de trânsito. As placas, que eram escritas em três idiomas - hebraico, árabe e inglês - passarão a mostrar apenas os nomes hebraicos das cidades, escritos em caracteres hebraicos, árabes e latinos.

Sionismo não é judaísmo

Ontem publiquei um artigo sobre os pogroms patrocinados por sionistas na Cisjordânia e em Jerusalém. Fiz um paralelo entre a covardia perpetrada contra os judeus europeus no início do século passado e o que ocorre hoje no Oriente Médio. Recebi o seguinte comentário de um leitor anônimo.

Pogrom só com 2 feridos???? Cade as mulheres estupradas??????/Cade os mortos??????//Cade os enforcados e jogados na fogueira??????Cade os arrastados pelos cavalos???Cade a política de estado por trás???Fala sério, pra pogrom ainda falta MUITO, ou voce pensa que sabe o que é pogrom. Além disso, voce é racista e sensacionalista, pois generalizar "sionistas" em geral, quando se trata de um grupo de malucos isolados... A sua mente não está cheia de sonhos. Está cheia de meldas. E na melda voce ficará, por mais que escrevinha. coitado

Respondo. Desde a década de 40 o SIONISMO vem implantando o terror no Oriente Médio. No seu rastro, houve agressões, torturas, estupros, assassinatos, massacres, expropriações. Quem quiser os números desta covardia pode relembrar a história do Haganah, do Irgún, do grupo Stern, da política de limpeza étnica patrocinada pelos sionistas. Pode-se encontrar ali muitos atos de terrorismo no seu sentido estrito.

Agora, um detalhe... SIONISMO não pode ser confundido com judaísmo.

O sionismo é uma política que defende que Israel seja um Estado majoritariamente judeu, tendo na religião e na raça – e não no conceito de nação democrática – seus pilares. Dentro desta concepção, as fronteiras de Israel se estenderiam sobre diversos países árabes. É isso - entre outras barbaridades de teor racista - que defendem os sionistas. O judaísmo, por sua vez, é uma religião, que como todas as demais deve ser respeitada. O anti-semitismo, portanto, assim como qualquer outro preconceito de credo, raça e opção sexual deve, em minha modesta opinião, ser combatido sem trégua.

Ocorre que a confusão entre judaísmo e sionismo está no cerne dos debates evolvendo Israel. Alguns querem mesclar ambos os conceitos, de modo que qualquer crítica ao sionismo seja imediatamente identificada como racismo (assim, como o "anônimo" tentou fazer aqui) ou preconceito. Trata-se de uma estratégia baseada em uma falácia. Sionismo não é o mesmo que semitismo ou judaismo. Pode-se ser judeu sem ser sionista e isso é confirmado pelas diversas críticas feitas por judeus a este pensamento político que defende a segregação racial e religiosa e o expansionismo territorial.

Para informação do “anônimo” e outros sionistas de plantão, sugiro alguns artigos e textos:

- A “fúria virtuosa” de Israel e suas vítimas em Gaza
- As similaridades entre Sionismo e Nazismo
- Vitimização judaica
- Quem é Lieberman, Ministro das Relações Exteriores de Israel?
- É lícito aos israelenses apoiarem o racismo e a intolerância?
- A transformação autoritária de Israel
- Chomsky: Terrorismo de Estado ameaça a segurança de Israel
- O holocausto como propaganda
- Historiador de origem judaica faz crítica ao movimento sionista

Fotojornalismo

Manifestantes favoráveis ao presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, protestam nesta quarta-feira (22) nas ruas de Tegucigalpa. Foto da AFP.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Jovens são vítimas da violência. Em MS também

Mais de 33,5 mil jovens de 12 a 18 anos deverão perder a vida por homicídio entre 2006 e 2012, caso os índices de violência no país não se alterem nos próximos anos. O Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), pesquisa realizada em conjunto pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e organização não governamental Observatório de Favelas, foi divulgado na terça-feira.

Em MS, os jovens também estão na mira da violência. Entre setembro e outubro do ano passado, este blog acompanhou as editorias de polícia de dois sites de notícia de Campo Grande. Das 105 pessoas que foram assassinadas ou sobreviveram a tentativas de homicídio em Mato Grosso do Sul no mês de outubro de 2009 (e cujas histórias chegaram aos jornalistas), 87 tiveram a sua idade informada nas reportagens checadas pela pesquisa. Destas, cerca de 66% apresentavam idade variando entre 10 e 29 anos. Cerca de 46% dos casos vitimaram pessoas com idade variando entre 20 e 29 anos e 20% das ocorrências (17) foram protagonizadas por jovens entre 10 e 19 anos de idade.

Estes percentuais chocantes apontam para um problema típico dos grandes centros no País, a falta de perspectivas dos jovens, que acaba levando-os a situações extremas que colocam em risco as suas vidas e as vidas de outras pessoas.

Este fato não é novidade e tem sido confirmado por diversos estudos e pesquisas de campo nos últimos 20 anos, como o Mapa da Violência IV: os jovens do Brasil da Unesco, que analisou as causas da mortalidade juvenil na década de 1993/2002 no Brasil e concluiu que quase 30% destas mortes são causadas por armas de fogo.

Leia mais:
- Violência em MS aumentou em outubro
- A face da violência no Mato Grosso do Sul

Sionistas promovem pogroms na Cisjordânia

O termo pogrom desenvolveu-se na Europa a partir de atos de extrema violência contra judeus e outras minorias étnicas e difundiu-se internacionalmente após a onda de ataques que varreu o sul da Rússia entre 1881 e 1884, levando à emigração maciça dos judeus. Durante o período do nazismo na Alemanha e no leste europeu, assim como havia acontecido na Rússia Czarista, os pogroms continuaram sustentados por ressentimentos econômicos, sociais e políticos. Estupros, assassinatos, vandalismo e expropriações foram marcas desta prática odiosa, exacerbada pelo preconceito racial e religioso, do qual os judeus foram os principais alvos.

Seria de se esperar que os que sentiram na pele a injustiça e a violência se levantassem contra qualquer forma de pogrom moderno, alçando seu sofrimento como testemunho de que a barbárie do homem contra o homem não pode ser justificada, em especial levando em conta a fé e a raça. Ledo engano.

O ataque promovido entre segunda e terça-feira por cerca de 30 colonos sionistas contra propriedades palestinas e motoristas palestinos em Nablus foi apenas uma macabra mostra do que vem acontecendo na região. Judeus fundamentalistas, que consideram que o Velho Testamento é algo como uma escritura de propriedade sobre toda a região a que chamam Eretz Israel, têm promovido violência gratuita contra árabes-israelenses dentro do território de Israel, contra palestinos no território ocupado da Cisjordânia e até mesmo contra judeus que se opõem a ocupação.

No episódio, os vândalos - alguns deles montados em cavalos - incendiaram campos de cultivo e cerca de 1500 oliveiras (atitude que está se tornando comum por parte do governo israelense) nas vilas de Burin e Asira al-Kabaliya, na área de Yitzhar, além de apedrejaram carros de palestinos. Eles protestavam contra a remoção de um posto ilegal de um assentamento judaico situado nos arredores. Pelo menos dois palestinos ficaram feridos e um jornalista que cobria as agressões foi espancado pelos fanáticos.

Colonos linha-dura geralmente atacam propriedades palestinas como retaliação por seus assentamentos demolidos e evacuados, uma tática que eles chamam de ‘etiqueta de preço’ (price tag).”, informa a reportagem do Estadão. Vale lembrar que os “colonos linha-dura” são, na verdade, fundamentalistas que fazem diferenciação entre seres humanos. Para eles, os palestinos (e qualquer um que os contrarie) estão em uma categoria inferior. Vale lembrar também que os assentamentos demolidos ou evacuados são considerados ilegais até mesmo para o Governo de Israel.

Ponta do iceberg

Este não foi um incidente isolado. O radicalismo religioso e o sionismo têm promovido nos últimos anos posturas de extrema agressividade. Em setembro passado, Zeev Sternhell, professor da Universidade Judaica, sentiu na pele os resultados deste pogrom às avessas quando uma bomba caseira explodiu de fronte a sua casa, em Jerusalém, ferindo-o levemente.

Sternhell é conhecido por suas críticas veementes aos assentamentos israelenses na Cisjordânia. As autoridades encontraram folhetos nas proximidades da casa nos quais eram oferecidos US$ 300 mil a quem matasse um integrante do Peace Now, grupo israelense que condena a ocupação dos territórios palestinos.

As ações dos sionistas parecem estar se adensando nos últimos meses. Em março, um grupo de colonos extremistas atacou dezenas de casas e lojas palestinas em Jerusalém Leste. Os colonos marcharam pela cidade gritando palavras de ordem contra árabes e palestinos, pedindo sua expulsão da Cidade Santa. No dia 2 de junho, a ação da polícia israelense contra um pequeno assentamento ilegal localizado próximo à cidade palestina de Nablus e do assentamento de Elon Moreh, um dos primeiros fundados na Cisjordânia, causou reação imediata. Veículos com placas da Palestina foram apedrejados, estradas de acesso a Jerusalém e Tel Aviv foram bloqueadas com pneus queimados e campos de cultivo palestinos foram incendiados. Ao menos seis pessoas ficaram feridas, uma delas gravemente.

Uma simples busca no google revela a banalização destes ataques que, na maioria das vezes, é acompanhada de longe pela polícia e pelo exército de Israel.

O fascismo religioso

Gabriel Paciornik, blogueiro e estudante de desenho industrial que vive em Israel há 12 anos, explica quem são os radicais de direita que patrocinam a violência contra os palestinos e os ativistas que lutam pela paz entre os dois povos.

Existem vários tipos de radicais de direita. Na base da pirâmide estão os colonos radicais. São os que sustentam com ações toda a gama de pensamento teórico e teológico a respeito da relação com os palestinos, povos árabes e a terra. Eles se baseiam em duas importantes mentalidades. A primeira é a do ‘Halutz’, ou pioneirismo dos velhos tempos de Ben-Gurion. É uma forma de nostalgia num mundo já tão menos radical e romântico do que naquela época. A outra é de base teológica: esta terra pertence aos judeus. Por motivos religiosos, históricos e, por que não? Por usucapião (seguindo o chavão ‘quando aqui chegamos não havia nada, vocês não cuidaram dessa terra, nós viemos e fizemos milagres’). Consideram qualquer um que não pense desta maneira como traidores e anti-sionistas. Acreditam num estilo de vida preso à terra e são a grande maioria, se não todos, profundamente religiosos e místicos. Servem exército e são normalmente os mais disciplinados soldados.

Para Paciornik, os mais perigosos representantes da direita israelense são as lideranças politico-religiosas dos colonos. “São, a maioria deles, adeptos da expulsão dos palestinos de tudo que foi um dia historicamente pertencente a Israel. Isso inclui parte da Jordânia, Egito, Síria e Líbano. Para eles não existe política internacional, acordos e o inimigo é qualquer um e qualquer coisa que se oponha a sua ideologia. E, recentemente, incluem aqui outros judeus também (a quem chamam não de inimigos, mas de traidores, o que, pela Torá, é tão ruim ou pior que um inimigo). Não escondem esses objetivos e recentemente não escondem tampouco seus métodos.”.

No artigo “O fascismo? Pode, sim, acontecer em Israel” (aqui em inglês), o jornalista israelense Uri Avnery aponta o destino a que os israelenses, subjugados pelos radicais sionistas, estarão sujeitos.

No plano das idéias, há duas visões em confronto, em Israel, dois modos de ver, tão distantes um do outro quanto o Oriente é distante do Ocidente. Por um lado, há uma Israel culta, moderna, secular, liberal e democrática, que vive em paz e em parceria com a Palestina, vendo-a como parte integrante e integral da Região. Por outro lado, há uma Israel fanática, religiosa, fascista, que se auto-exclui, tanto quanto se auto-exclui da humanidade civilizada, gente que ‘duela sozinha e não será reconhecida entre as nações’ (Números, 23:9), onde a ‘espada devorará para sempre’ (2, Samuel 2:26)."

Diz Avnery: “Durante os últimos meses, aumentou muitíssimo o número de incidentes nos quais colonos atacam soldados, policiais e ‘esquerdistas’ palestinos. São atos cometidos abertamente, para aterrorizar e intimidar. Colonos vandalizam as vilas palestinas cujas terras cobiçam ou invadem; ou agem por vingança. São pogroms no sentido clássico da palavra: atos de vandalismo, executados por grupos armados, intoxicados de ódio contra população civil desarmada; e o exército e a polícia apenas observam. Os Pogromchiks destroem, ferem e matam.”.

Tudo isso ocorre sem que o Estado tome atitudes concretas. Sob o nazismo, os agentes da lei na República de Weimar passavam a mão na cabeça de criminosos nazistas a quem classificavam como “patriotas equivocados”. Em Israel o mesmo fenômeno ocorre hoje.

Frases

Fim da história, não. Fim do besteirol, talvez. Fim da ingenuidade que imaginava a salvação do Brasil pelo Lula, pelo PT e pela esquerda, certamente. Quem tem de nos salvar de nossos problemas somos nós.
Do o antropólogo e professor Roberto DaMatta, respondendo, em entrevista à Luciano Trigo, a seguinte pergunta: "Considera que é possível um renascimento das ideologias de esquerda e direita? Ou, ao contrário, estamos mesmo vivendo o que se chamou de 'fim da História'?"

Fotojornalismo

Eclipse visto do topo de uma montanha na região autônoma de Guangxi Zhuang, na China. Foto da China Daily/Reuters