Semana On

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Jovens são vítimas da violência. Em MS também

Mais de 33,5 mil jovens de 12 a 18 anos deverão perder a vida por homicídio entre 2006 e 2012, caso os índices de violência no país não se alterem nos próximos anos. O Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), pesquisa realizada em conjunto pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e organização não governamental Observatório de Favelas, foi divulgado na terça-feira.

Em MS, os jovens também estão na mira da violência. Entre setembro e outubro do ano passado, este blog acompanhou as editorias de polícia de dois sites de notícia de Campo Grande. Das 105 pessoas que foram assassinadas ou sobreviveram a tentativas de homicídio em Mato Grosso do Sul no mês de outubro de 2009 (e cujas histórias chegaram aos jornalistas), 87 tiveram a sua idade informada nas reportagens checadas pela pesquisa. Destas, cerca de 66% apresentavam idade variando entre 10 e 29 anos. Cerca de 46% dos casos vitimaram pessoas com idade variando entre 20 e 29 anos e 20% das ocorrências (17) foram protagonizadas por jovens entre 10 e 19 anos de idade.

Estes percentuais chocantes apontam para um problema típico dos grandes centros no País, a falta de perspectivas dos jovens, que acaba levando-os a situações extremas que colocam em risco as suas vidas e as vidas de outras pessoas.

Este fato não é novidade e tem sido confirmado por diversos estudos e pesquisas de campo nos últimos 20 anos, como o Mapa da Violência IV: os jovens do Brasil da Unesco, que analisou as causas da mortalidade juvenil na década de 1993/2002 no Brasil e concluiu que quase 30% destas mortes são causadas por armas de fogo.

Leia mais:
- Violência em MS aumentou em outubro
- A face da violência no Mato Grosso do Sul

Sionistas promovem pogroms na Cisjordânia

O termo pogrom desenvolveu-se na Europa a partir de atos de extrema violência contra judeus e outras minorias étnicas e difundiu-se internacionalmente após a onda de ataques que varreu o sul da Rússia entre 1881 e 1884, levando à emigração maciça dos judeus. Durante o período do nazismo na Alemanha e no leste europeu, assim como havia acontecido na Rússia Czarista, os pogroms continuaram sustentados por ressentimentos econômicos, sociais e políticos. Estupros, assassinatos, vandalismo e expropriações foram marcas desta prática odiosa, exacerbada pelo preconceito racial e religioso, do qual os judeus foram os principais alvos.

Seria de se esperar que os que sentiram na pele a injustiça e a violência se levantassem contra qualquer forma de pogrom moderno, alçando seu sofrimento como testemunho de que a barbárie do homem contra o homem não pode ser justificada, em especial levando em conta a fé e a raça. Ledo engano.

O ataque promovido entre segunda e terça-feira por cerca de 30 colonos sionistas contra propriedades palestinas e motoristas palestinos em Nablus foi apenas uma macabra mostra do que vem acontecendo na região. Judeus fundamentalistas, que consideram que o Velho Testamento é algo como uma escritura de propriedade sobre toda a região a que chamam Eretz Israel, têm promovido violência gratuita contra árabes-israelenses dentro do território de Israel, contra palestinos no território ocupado da Cisjordânia e até mesmo contra judeus que se opõem a ocupação.

No episódio, os vândalos - alguns deles montados em cavalos - incendiaram campos de cultivo e cerca de 1500 oliveiras (atitude que está se tornando comum por parte do governo israelense) nas vilas de Burin e Asira al-Kabaliya, na área de Yitzhar, além de apedrejaram carros de palestinos. Eles protestavam contra a remoção de um posto ilegal de um assentamento judaico situado nos arredores. Pelo menos dois palestinos ficaram feridos e um jornalista que cobria as agressões foi espancado pelos fanáticos.

Colonos linha-dura geralmente atacam propriedades palestinas como retaliação por seus assentamentos demolidos e evacuados, uma tática que eles chamam de ‘etiqueta de preço’ (price tag).”, informa a reportagem do Estadão. Vale lembrar que os “colonos linha-dura” são, na verdade, fundamentalistas que fazem diferenciação entre seres humanos. Para eles, os palestinos (e qualquer um que os contrarie) estão em uma categoria inferior. Vale lembrar também que os assentamentos demolidos ou evacuados são considerados ilegais até mesmo para o Governo de Israel.

Ponta do iceberg

Este não foi um incidente isolado. O radicalismo religioso e o sionismo têm promovido nos últimos anos posturas de extrema agressividade. Em setembro passado, Zeev Sternhell, professor da Universidade Judaica, sentiu na pele os resultados deste pogrom às avessas quando uma bomba caseira explodiu de fronte a sua casa, em Jerusalém, ferindo-o levemente.

Sternhell é conhecido por suas críticas veementes aos assentamentos israelenses na Cisjordânia. As autoridades encontraram folhetos nas proximidades da casa nos quais eram oferecidos US$ 300 mil a quem matasse um integrante do Peace Now, grupo israelense que condena a ocupação dos territórios palestinos.

As ações dos sionistas parecem estar se adensando nos últimos meses. Em março, um grupo de colonos extremistas atacou dezenas de casas e lojas palestinas em Jerusalém Leste. Os colonos marcharam pela cidade gritando palavras de ordem contra árabes e palestinos, pedindo sua expulsão da Cidade Santa. No dia 2 de junho, a ação da polícia israelense contra um pequeno assentamento ilegal localizado próximo à cidade palestina de Nablus e do assentamento de Elon Moreh, um dos primeiros fundados na Cisjordânia, causou reação imediata. Veículos com placas da Palestina foram apedrejados, estradas de acesso a Jerusalém e Tel Aviv foram bloqueadas com pneus queimados e campos de cultivo palestinos foram incendiados. Ao menos seis pessoas ficaram feridas, uma delas gravemente.

Uma simples busca no google revela a banalização destes ataques que, na maioria das vezes, é acompanhada de longe pela polícia e pelo exército de Israel.

O fascismo religioso

Gabriel Paciornik, blogueiro e estudante de desenho industrial que vive em Israel há 12 anos, explica quem são os radicais de direita que patrocinam a violência contra os palestinos e os ativistas que lutam pela paz entre os dois povos.

Existem vários tipos de radicais de direita. Na base da pirâmide estão os colonos radicais. São os que sustentam com ações toda a gama de pensamento teórico e teológico a respeito da relação com os palestinos, povos árabes e a terra. Eles se baseiam em duas importantes mentalidades. A primeira é a do ‘Halutz’, ou pioneirismo dos velhos tempos de Ben-Gurion. É uma forma de nostalgia num mundo já tão menos radical e romântico do que naquela época. A outra é de base teológica: esta terra pertence aos judeus. Por motivos religiosos, históricos e, por que não? Por usucapião (seguindo o chavão ‘quando aqui chegamos não havia nada, vocês não cuidaram dessa terra, nós viemos e fizemos milagres’). Consideram qualquer um que não pense desta maneira como traidores e anti-sionistas. Acreditam num estilo de vida preso à terra e são a grande maioria, se não todos, profundamente religiosos e místicos. Servem exército e são normalmente os mais disciplinados soldados.

Para Paciornik, os mais perigosos representantes da direita israelense são as lideranças politico-religiosas dos colonos. “São, a maioria deles, adeptos da expulsão dos palestinos de tudo que foi um dia historicamente pertencente a Israel. Isso inclui parte da Jordânia, Egito, Síria e Líbano. Para eles não existe política internacional, acordos e o inimigo é qualquer um e qualquer coisa que se oponha a sua ideologia. E, recentemente, incluem aqui outros judeus também (a quem chamam não de inimigos, mas de traidores, o que, pela Torá, é tão ruim ou pior que um inimigo). Não escondem esses objetivos e recentemente não escondem tampouco seus métodos.”.

No artigo “O fascismo? Pode, sim, acontecer em Israel” (aqui em inglês), o jornalista israelense Uri Avnery aponta o destino a que os israelenses, subjugados pelos radicais sionistas, estarão sujeitos.

No plano das idéias, há duas visões em confronto, em Israel, dois modos de ver, tão distantes um do outro quanto o Oriente é distante do Ocidente. Por um lado, há uma Israel culta, moderna, secular, liberal e democrática, que vive em paz e em parceria com a Palestina, vendo-a como parte integrante e integral da Região. Por outro lado, há uma Israel fanática, religiosa, fascista, que se auto-exclui, tanto quanto se auto-exclui da humanidade civilizada, gente que ‘duela sozinha e não será reconhecida entre as nações’ (Números, 23:9), onde a ‘espada devorará para sempre’ (2, Samuel 2:26)."

Diz Avnery: “Durante os últimos meses, aumentou muitíssimo o número de incidentes nos quais colonos atacam soldados, policiais e ‘esquerdistas’ palestinos. São atos cometidos abertamente, para aterrorizar e intimidar. Colonos vandalizam as vilas palestinas cujas terras cobiçam ou invadem; ou agem por vingança. São pogroms no sentido clássico da palavra: atos de vandalismo, executados por grupos armados, intoxicados de ódio contra população civil desarmada; e o exército e a polícia apenas observam. Os Pogromchiks destroem, ferem e matam.”.

Tudo isso ocorre sem que o Estado tome atitudes concretas. Sob o nazismo, os agentes da lei na República de Weimar passavam a mão na cabeça de criminosos nazistas a quem classificavam como “patriotas equivocados”. Em Israel o mesmo fenômeno ocorre hoje.

Frases

Fim da história, não. Fim do besteirol, talvez. Fim da ingenuidade que imaginava a salvação do Brasil pelo Lula, pelo PT e pela esquerda, certamente. Quem tem de nos salvar de nossos problemas somos nós.
Do o antropólogo e professor Roberto DaMatta, respondendo, em entrevista à Luciano Trigo, a seguinte pergunta: "Considera que é possível um renascimento das ideologias de esquerda e direita? Ou, ao contrário, estamos mesmo vivendo o que se chamou de 'fim da História'?"

Fotojornalismo

Eclipse visto do topo de uma montanha na região autônoma de Guangxi Zhuang, na China. Foto da China Daily/Reuters

terça-feira, 21 de julho de 2009

Solcat desrespeita mulher brasileira, mais uma vez

Mais uma vez a Editora Solcat Ltda colabora para reproduzir no exterior uma imagem estereotipada da mulher brasileira, desta vez com a ajuda da justiça. A Justiça Federal negou pedido da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur) para tirar de circulação a revista Rio For Partiers (Rio para festeiros). O “guia turístico” se refere às brasileiras como "máquinas de sexo" e "popozudas" e classifica os bailes de carnaval como "atividades de semi-orgia".

A publicação diz ainda que as brasileiras podem ser classificadas em quatro tipos: "Britney Spears", "Popozuda", "Hippie/Raver" e "Balzac". As primeiras seriam as "filhinhas de papai", avessas a cantadas. As segundas, as "máquinas de sexo", com as quais, de acordo com a revista, "ir ao motel é sempre uma boa possibilidade". As "Hippies/Ravers" são definidas como garotas "difíceis de beijar", mas "fáceis de ir para a balada", enquanto as "Balzac" como as que, tratadas "como uma dama", retribuirá o companheiro tratando-o "como um rei, talvez não hoje à noite, mas amanhã com certeza".

A Embratur afirmou no pedido que a publicação usou de má fé o símbolo Marca Brasil, de promoção do turismo, e disse que o guia promove a exploração do turismo sexual, ao classificar as mulheres, além de violar a Política Nacional de Turismo. O juiz José Luis Castro Rodriguez, no entanto, negou o pedido, afirmando ainda que classificar as mulheres não afronta os "princípios norteadores da Política Nacional de Turismo ou violação à dignidade da pessoa humana" e não promove o turismo sexual.

Talvez o nobre juiz mude de idéia no dia que sua mãe, esposa ou filha for abordada por um turista com os adjetivos sugeridos pela Solcat.

Esta não é a primeira vez que a Solcat reduz a mulher brasileira a uma caricatura sexualizada. Já havia feito o mesmo em janeiro, em uma edição na qual recomenda que o turista não “tente pegar sua brasileira na praia", principalmente no fim de semana, além de aconselhá-lo a não tentar a abordagem na rua: “Tente derretê-la com uma aproximação suave. Tente começar a beijar o mais rápido possível”. Outra recomendação: o turista não deve insistir para ir a casa dela, e sim sugerir um passeio por onde estão os melhores motéis.

A Solcat segue uma tradição pouco honrosa da indústria do turismo brasileira que ainda responde pelas estratégias equivocadas das décadas de 70 e 80, quando o material oficial do turismo brasileiro – cartazes, folders, filmes publicitários e até a participação em congressos mundiais – passou a explorar a imagem da mulher, sempre em trajes sumários, expondo sua sensualidade inerente como um produto a ser consumido.

Falei a fundo sobre este tema no artigo “Toda brasileira é bunda?”.

Leiamais:
- Editora Solcat desrespeita mulheres brasileiras
- Toda brasileira é bunda?

Racista convicto, Lierberman inicia hoje visita ao Brasil

Chega ao Brasil nesta terça-feira (21) o chanceler de Israel Avigdor Lieberman. Representante do que há de mais retrógrado no atual prisma político israelense, ele prega um Israel apenas para judeus, expatriação de árabes-israelenses, juras de fidelidade ao “Estado Judeu” entre outras barbaridades baseadas na intolerância racial e religiosa.

Em março de 2008, um relatório da ONG israelense Mossawa já o apontava como um dos ícones do racismo judeu. No documento, onde eram citados ministros e parlamentares que "baseiam sua força em posições de ódio e incitam ao racismo", o nome que mais aparece é o do chanceler israelense.

E o que defende o ministro das Relações Exteriores de Israel?

Em suas próprias palavras: "Os árabes israelenses são um problema ainda maior do que os palestinos e a separação entre os dois povos deverá incluir também os árabes de Israel... por mim eles podem pegar a baklawa (doce árabe típico) deles e ir para o inferno", afirmou.

Para Lieberman, Israel deve "trocar" as aldeias árabes israelenses pelos assentamentos nos territórios ocupados, ou seja, as aldeias árabes passariam a fazer parte de um estado palestino e os assentamentos seriam anexados a Israel. Importante dizer que os árabes israelenses a que se refere o ministro são cidadãos israelenses, da mesma forma que eram cidadãos alemães os judeus expulsos de suas casas por Hitler e enviados para o exílio forçado e para os campos da morte.

O jornalista Paulo Moreira Leite, no artigo “Ministro israelense tem ideias que lembram nazismo”, fez, recentemente, uma brilhante relação entre o que está ocorrendo em Israel e um passado tenebroso. “Em 1935, dois anos depois da ascensão de Hitler ao poder, foram aprovadas as primeiras leis de Nuremberg. Elas não criaram campos de concentração nem câmaras de gás, mas dividiam a população alemã em duas categorias. A dos cidadãos de ‘puro sangue alemão’, que tinham todos os seus direitos assegurados. Os outros, que não tinha a mesma origem, eram considerados ‘súditos do Estado’.”. Qualquer semelhança com as políticas de "purificação relisiosa" do estado de Israel não são mera coincidência.

Líder dos racistas xenófobos do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu, Lieberman advoga abertamente o banimento dos árabes-israelenses de Israel. O partido declara em sua plataforma a intenção de fazer de Israel um Estado puramente judeu e, ao mesmo tempo, “aumentar a Presença Judia em Yehuda, Shomron, (Cijordânia em outras palavras), Golan (Colinas de Golas, território sírio ocupado) e Jerusalém Leste, assim como trabalhar para a separação entre Gaza e Cisjordânia".

Ele é conhecido por suas constantes incitações racistas contra palestinos com ou sem nacionalidade israelense. Em uma recente coletiva de imprensa organizada pelo seu partido em Haifa, ele impediu a participação de jornalistas árabes. Como o jornal israelense Haaretz noticiou em 6 de fevereiro, ao visitar escolas no norte de Israel, Lieberman foi saudado com gritos de “morte aos árabes” e propostas de “revocar a nacionalidade israelense dos árabes”. O Haaretz revelou também que Lieberman foi seguidor do movimento Kahane Kach, de extrema-direita, banido em 1988.

O chanceler israelense não está sozinho nesta sanha fascista. Yehiel Hazan, do partido Likud, referiu-se aos árabes como "vermes". O atual ministro da Habitação e Construção, Zeev Boim, do partido Kadima, disse que o "terrorismo islâmico poderia ter razões genéticas". O deputado do partido de direita Ihud Leumi, Efi Eitam, defendeu a expulsão dos palestinos da Cisjordânia e a exclusão dos cidadãos árabes israelenses da política do país. "Eles (os cidadãos árabes) são uma quinta coluna, traidores, não podemos permitir a permanência dessa presença hostil nas instituições de Israel", declarou. O rabino Dov Lior, líder dos assentamentos ilegais de Hebron e Kiriat Arba, proibiu seus seguidores de alugar casas a árabes ou de empregar funcionários árabes.

É este o pano de fundo ideológico de Avigdor Lieberman, que em sua passagem pelo Brasil deve ser recebido pelo presidente Lula e pelo chanceler Celso Amorim.

Ele é melhor que Ahmadinejad?

Em maio, quando o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ensaiava sua vinda ao Brasil, setores da mídia e da sociedade civil fizeram um tremendo burburinho. O Brasil deveria repudiar a vinda do facínora, do anti-semita, do persa louco, do “anão de jardim”. Afinal, ele era um racista convicto, um defensor da “destruição de Israel”. O professor e blogueiro Idelber Avelar fez em seu blog um belo resumo desta ópera bufa, no artigo “A histeria da direita com a visita de Ahmadinejad”.

Certo... Ahmadinejad não é exemplo a ser seguido por ninguém. No entanto, quem é Avigdor Lieberman para acusar quem quer que seja de racista? Ele, que em seu currículo ostenta a segregação racial em Israel como bandeira, entre outras ignomínias.

Leia mais:
- Quem é Avigdor Lieberman, Ministro
- Quem vaia Ahmadinejad aplaudiria Lieberman?
- O roto e o maltrapilho
- Israel volta a negar compromisso com criação de Estado palestino
- As similaridades entre Sionismo e Nazismo
- É lícito aos israelenses apoiarem o racismo e a intolerância?
- A transformação autoritária de Israel
- Somos obrigados a aceitar o catolicismo como religião oficial?
- Chomsky: Terrorismo de Estado ameaça a segurança de Israel
- Sob a sombra do fascismo
- Racistas podem comandar o governo em Israel
- Israelenses mantém o caminho da direita
- O que ocorre em Gaza é genocídio?
- Terrorismo de Estado

Fotojornalismo

O chanceler israelense Avigdor Lieberman inicia hoje sua visita ao Brasil. Defensor de um estado "puramente Judeu", ele representa o que há de mais lamentável e retógrado no prisma político israelense: a idéia de que o país deve "se livrar" de seus cidadãos árabes.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A “fúria virtuosa” de Israel e suas vítimas em Gaza

Por Ilan Pappe (Site oficial http://ilanpappe.com/)
Tradução de Vinicius Valentin Raduan Miguel

Nota do tradutor

O presente texto foi originalmente publicado em inglês como editorial do site Electronic Intifada (
http://electronicintifada.net) no dia 2 de janeiro de 2009. Ilan Pappé nasceu em 1954, Haifa, Israel. É filho de judeu-alemães que escaparam da perseguição nazista nos anos 1930 e é um dos mais renomados especialistas do conflito Israelo-Palestino tendo publicado 9 livros, sido co-autor em outros 3 e escrito centenas de artigos para jornais acadêmicos.

O mais famoso de seus livros, A Limpeza Étnica da Palestina (The Ethnic Cleansing of Palestine. Oneworld Publications, 2006; sem tradução para o português) denuncia que a guerra de 1948 foi uma sistemática e elaborada estratégia para expulsão dos palestinos, destruição das áreas construídas, objetivando a eliminação de não-judeus para a criação de Israel - um Estado para um só grupo étnico-religioso e/ou cultural-lingüístico. Um processo racista e colonial, eliminando a população tradicional para a instalação de grupos estrangeiros.

Em 1999, foi candidato ao parlamento israelense em uma aliança entre os partidos comunistas Maki e Hadash e apóia a criação de um só Estado não-étnico/confessional como solução do conflito. Em 2007, depois de dar aulas de Ciência Política por 23 anos, foi obrigado a pedir demissão da Universidade de Haifa por apoiar publicamente o boicote acadêmico contra Israel em razão de suas políticas opressivas e discriminatórias.

Este texto é uma tentativa de preencher o vazio editorial sobre o Oriente Médio na língua portuguesa e, desta forma combater a injustiça que é o apagamento e marginalização desta tragédia em curso contra o povo palestino.

16.07.2009

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Minha visita à minha casa, na Galiléia (Israel) coincidiu com o genocida ataque israelense contra Gaza. O Estado de Israel, através de sua imprensa e com a ajuda de suas universidades, transmitiu uma voz unânime – desta vez, ainda mais alta que aquela ouvida durante o ataque criminoso contra o Líbano, no verão de 2006. Israel é mais uma vez engolido por sua “virtuosa fúria” que se traduz nas políticas destrutivas contra a Faixa de Gaza. Esta terrível auto-justificação para práticas desumanas e sua impunidade, não é apenas irritante; é um assunto que devemos explicar melhor para entendermos a imunidade internacional para com o furioso massacre que arrasa Gaza.

É baseado, antes e acima de tudo, em mentiras absolutas transmitidas em uma ambígua linguagem remanescente dos negros dias da década de 1930 na Europa. A cada meia hora os noticiários no rádio e na televisão descrevem as vítimas de Gaza como “terroristas” e o assassinato em massa promovido por Israel é chamado de “ato de legítima defesa”. Israel apresenta a si mesmo para seu povo como uma virtuosa vítima que se defende contra um terrível mal. Acadêmicos do mundo inteiro são recrutados para explicar como a luta palestina, quando liderada pelo Hamas, é demoníaca e monstruosa. Estes mesmos acadêmicos que demonizaram o líder palestino Yasser Arafat em tempos precedentes e atacavam a legitimidade do Fatah durante a segunda intifada palestina.

Mas as mentiras e representações distorcidas não são a pior parte disso. O pior e ainda mais revoltante é o direto ataque contra os últimos vestígios de humanidade e dignidade do povo palestino. Os palestinos em Israel que demonstraram sua solidariedade com o povo de Gaza e agora são rotulados de quinta coluna no Estado Judeu; o direito destes em sua terra natal é transmitido como duvidoso em decorrência da falta de seu apoio à agressão israelense. Aqueles entre eles que concordam – erradamente em minha opinião – em aparecer na mídia local são interrogados ao invés de entrevistados, como se fossem prisioneiros nas prisões do Shin Bet, o serviço secreto israelense. Sua aparição é antes antecedida e seguida por humilhantes comentários racistas e eles enfrentam acusações de ser uma quinta coluna, irracionais e fanáticos. E isto não é tudo. Existem poucas crianças palestinas dos territórios ocupados tratadas de câncer em hospitais israelenses, por exemplo. E só Deus sabe o preço que essas famílias pagaram para serem admitidas aqui! E a rádio de Israel vai diariamente ao hospital para exigir que os pobres pais dessas crianças declarem para a audiência israelense o quão correto e justo é o ataque de Israel e o quão terrível é o Hamas, embora se defendendo.

Não há limites para a hipocrisia produzida pela virtuosa fúria. O discurso de generais e políticos transcorre entre erráticos auto-elogios à humanidade do exército israelense e seus ataques “cirúrgicos” e, ao mesmo tempo, para a necessidade de destruir Gaza de uma vez por todas, de uma maneira “humana” é claro.

A virtuosa fúria é um fenômeno constante na antiga sionista e hoje israelense prática de expulsão da Palestina. Todo ato, seja limpeza étnica, ocupação, massacre ou destruição sempre foi apresentado como moralmente justo e puramente um ato de legítima defesa relutante perpetrada por Israel em uma guerra contra o pior tipo de seres humanos.

No excelente volume The Returns of Zionism: Myths, Politics and Scholarship in Israel (O retorno do sionismo: mitos, política e academia, 2008), Gabi Piterberg explora as origens ideológicas e a progressão histórica desta fúria virtuosa. Hoje, em Israel, da esquerda à direita, do Likud ao Kadima, da academia à imprensa, todos podem ouvir a fúria virtuosa do Estado mais engajado em destruir e expulsar a população tradicional do que qualquer outra nação neste mundo.

É crucial explorar as origens ideológicas desta atitude e obter as necessárias conclusões políticas da sua persistência. A fúria virtuosa protege a sociedade e políticos israelenses de qualquer censura ou criticismo externo. Ainda pior é que isto é sempre traduzido em destrutivas políticas contra os palestinos. Sem mecanismos internos de crítica e sem pressão exterior, cada palestino se torna um potencial alvo desta fúria israelense. Dado o poder de fogo do Estado Judeu, é inevitável que isto só possa causar ainda mais assassinatos em massa, massacres e limpeza étnica.

A exaltação da própria moralidade é um poderoso recurso de autonegação e justificação. Isto explica as razoes da sociedade judaico-israelense não se mover por palavras de sabedoria, lógica, persuasão ou diálogo diplomático. E se alguém não quer endossar esta violência de tal modo a se opor à ela, há apenas uma solução: desafiar abertamente esta ideologia maligna da virtuosidade israelense objetivando acobertar atrocidades. Outro nome para esta ideologia é sionismo e, uma condenação internacional ao sionismo e não apenas à políticas particulares de Israel, é a única maneira de enfrentar esta fúria virtuosa. Nós temos tentado explicar não apenas para o mundo, mas também para os próprios israelenses que o sionismo é uma ideologia que apóia a limpeza étnica, ocupação e agora, enormes carnificinas. O que é preciso agora é não apenas uma condenação do presente massacre, mas também tirar a legitimidade da ideologia que produziu estas práticas e que as justifica moralmente e politicamente. Vamos manter a esperança de que vozes significativas no mundo irão dizer ao Estado Judeu que esta ideologia e sua conduta geral é intolerável e inaceitável e enquanto persistir, Israel será alvo de boicotes e sujeito à sanções.

E mais, nós não podemos permitir que 2009 se torne um ano menos significante que 2008, o ano comemorativo da Nakba, que não preencheu nossas grandes esperanças de uma transformação dramática na atitude do Ocidente em relação à Palestina e palestinos.

Aparentemente, mesmo o mais horrendo dos crimes, como o genocídio em Gaza, é tratado como um evento discreto, desconectado de tudo que aconteceu no passado e não associado a uma ideologia ou sistêmico processo. Neste novo ano, temos que tentar realinhar a opinião pública à história da Palestina e os males da ideologia sionista como o melhor método para explicar as operações de genocídio (como as que ocorreram em Gaza) e como uma forma de impedir que coisas ainda piores ocorram.

Academicamente, isto já foi feito. Os maiores desafios são como encontrar formas eficientes de explicar a conexão entre a ideologia sionista e as políticas de destruição do passado para assim, explicar a presente crise. Pode ser que seja mais fácil fazê-lo durante as mais terríveis circunstancias, quando a atenção mundial se volta para a Palestina mais uma vez. Talvez seja mais difícil em momentos em que a situação aparenta “calma” e menos dramática. Em momentos de “tranqüilidade”, a pouca atenção da mídia ocidental dedicada só serve para marginalizar ainda mais a tragédia palestina e desprezá-la em parte por causa dos horríveis genocídios na áfrica, crise econômica ou apocalípticos cenários para o meio ambiente. Apesar de a mídia ocidental não estar interessada em nenhuma leitura do passado, é apenas através de avaliação histórica da magnitude dos crimes cometidos contra o povo palestino ao longo dos últimos 60 anos que é possível entender a questão palestina. Deste modo, é papel da academia militante e imprensa alternativa em insistir no contexto histórico.

Estes agentes não deveriam ignorar a importância de educar a opinião pública e influenciar atores políticos conscientes a encararem eventos em uma ampla perspectiva histórica.

Similarmente, nós devemos achar uma forma popular – distinta dos templos acadêmicos – de explicar claramente que as políticas israelenses nos últimos 60 anos partem de uma ideologia hegemônica racista chamada sionismo, ideologia esta que se acoberta sob intermináveis camadas de fúria pretensamente justa. Apesar da previsível acusação de anti-semitismo e argumentos do tipo “o que você fez”, já é tempo de associar à mentalidade pública que a ideologia sionista está vinculada a importantes marcos históricos: a limpeza étnica de 1948, a opressão dos palestinos em Israel durante os dias de governança militar, a brutal ocupação da Cisjordânia e, agora, o massacre de Gaza. Muito da ideologia da apartheid pôde explicar as opressivas práticas do governo sul-africano. Esta ideologia (da apartheid) em uma forma mais consensual e simplista variedade permitiu que os governos israelenses do passado e do presente desumanizassem os palestinos não importando onde eles estivessem e então, tentar todos os esforços necessários para destruí-los. Os métodos empregados se alteraram de período em período, de local em local, como se alteraram as narrativas para acobertarem estas atrocidades. Mas há um claro padrão, este padrão não pode ficar restrito ao mundo acadêmico, mas deve se tornar parte do discurso político na realidade contemporânea sobre a Palestina hoje.

Alguns de nós, principalmente aqueles comprometidos com a justiça e paz na Palestina, inconscientemente evadem do debate histórico – e isto é compreensível – e se concentram nos territórios ocupados (Cisjordânia e Gaza). Lutar contra políticas criminosas é uma missão urgente. Mas isto não deve transmitir o equivocado sinal – como com sucesso fez Israel - de que a Palestina é apenas os territórios da Cisjordânia e Gaza e palestinos são apenas aqueles que vivem nestes locais. Nós devemos expandir a representação geográfica e demográfica da Palestina apresentando a narrativa histórica dos eventos de 1948 e desde então demandar direitos humanos iguais para todos os povos que vivam ou viveram no que hoje é Israel e os territórios palestinos ocupados.

Vinculando a ideologia sionista às políticas do passado e às presentes atrocidades, nós seremos capazes de apresentar uma clara explicação lógica para a campanha de boicote, não-investimento e sanções contra Israel. Um Estado que apoiado por um mundo silencioso permitirá em si mesmo, ajudar à expulsão e destruição do povo nativo da Palestina. Mas desafiá-lo por meios não-violentos e mesmo na esfera ideológica é uma causa justa e ética. É ainda uma forma efetiva de difundir à opinião pública não apenas contra a presente política genocida em Gaza, mas também prevenir futuras atrocidades. E mais importante que tudo isso, é perfurar o balão da retórica da “justificada fúria” israelense que sufoca os palestinos toda vez que é inflado. Este processo de desmonte da ideologia sionista ajudará a terminar com a imunidade e impunidade de Israel garantida pelo ocidente. Sem esta imunidade, espero que mais e mais pessoas em Israel começarão a reconhecer a verdadeira natureza dos crimes cometidos em seus nomes e a ira destes começará a ser direcionada contra aqueles que os prendeu juntamente com os palestinos nesta armadilha desnecessária provocando ciclos de violência e atrocidades.

- Ilan Pappe é doutor em História pela Universidade de Oxford, 1984. Atualmente detém uma cadeira no Departamento de História na Universidade de Exeter, Inglaterra, onde é co-diretor do Centro para Estudos Etno-Políticos. O presente texto foi originalmente publicado em inglês como editorial do site Electronic Intifada (http://electronicintifada.net) no dia 2 de janeiro de 2009.

Ilan Pappé nasceu em 1954, Haifa, Israel. É filho de judeu-alemães que escaparam da perseguição nazista nos anos 1930 e é um dos mais renomados especialistas do conflito Israelo-Palestino tendo publicado 9 livros, sido co-autor em outros 3 e escrito centenas de artigos para jornais acadêmicos.

O mais famoso de seus livros, A Limpeza Étnica da Palestina (The Ethnic Cleansing of Palestine. Oneworld Publications, 2006; sem tradução para o português) denuncia que a guerra de 1948 foi uma sistemática e elaborada estratégia para expulsão dos palestinos, destruição das áreas construídas, objetivando a eliminação de não-judeus para a criação de Israel – um Estado para um só grupo étnico-religioso e/ou cultural-lingüístico. Um processo racista e colonial, eliminando a população tradicional para a instalação de grupos estrangeiros.

Em 1999, foi candidato ao parlamento israelense em uma aliança entre os partidos comunistas Maki e Hadash e apóia a criação de um só Estado não-étnico/confessional como solução do conflito. Em 2007, depois de dar aulas de Ciência Política por 23 anos, foi obrigado a pedir demissão da Universidade de Haifa por apoiar publicamente o boicote acadêmico contra Israel em razão de suas políticas opressivas e discriminatórias.

Jesus e os Dinossauros

Impagável... pincei lá do Capeta.

Fotojornalismo

O presidente deposto de Honduras Manuel Zelaya disse nesta segunda-feira que está esgotado o diálogo para resolver a crise no país, e anunciou o início de uma "insurreição". Foto da Efe.