“É uma doença. E uma doença que estão querendo implantar em toda sociedade. Há um grupo com finalidades políticas e econômicas que quer estabelecer a liberação sexual, inclusive o abuso sexual contra criança. Esse é o movimento que me persegue e que tem feito alianças com conselhos de psicologia para implantar a ditadura gay.”.A análise medievalesca foi feita pela psicóloga Rozângela Alves Justino (na foto acima, exercendo seu preconceito) em entrevista ao jornalista Vinícius Queiroz Galvão, da Folha de São Paulo (aqui para assinantes da Folha). Rozângela é evangélica e participa do Movimento Pela Sexualidade Sadia (Moses), grupo ligado a igrejas evangélicas, que pretende “recuperar homossexuais” através da “palavra de Deus”. Em seu consultório, no Rio de Janeiro, ela oferece uma “cura” para os "doentes"... “Tudo que faço fora do consultório é permeado pelo religioso. Sinto-me direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais”, afirma.
Rozângela arrisca ter o registro profissional cassado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), que há dez anos proíbe que a homossexualidade seja tratada como doença e recrimina a indicação de qualquer tipo de “tratamento” ou “cura”. O julgamento acontece no próximo dia 31, a pedido de associações gays endossada por 71 psicólogos de diferentes conselhos regionais.
Em 2004, reportagem da revista Época trouxe uma entrevista com o professor de inglês Sergio Viula, um dos fundadores do Moses. Viula chegou a ser pastor da Igreja Batista, casou-se e teve dois filhos, mas pouco depois assumiu sua homossexualidade. Segundo o ex-militante evangélico, o discurso do Moses é homofóbico e cruel: “Vendem uma solução, enchendo as pessoas de culpa. Ouvia relatos de sofrimento e tentava arrumar razões para a homossexualidade, sempre ligadas à desestruturação familiar ou a traumas. Era um absurdo. O discurso do Moses é homofóbico e cruel: ‘Jesus te ama, nós também, mas você precisa deixar de ser gay’. O homossexual continua sentindo desejo, mas com um pé no prazer e o outro na dor, com sentimento de culpa, medo, auto-rejeição. Criávamos uma paranóia na cabeça deles.”.
É este o pano de fundo do “tratamento” oferecido por Rozângela Alves Justino, que afirma ter “atendido e curado centenas de pacientes gays" em 21 anos de profissão; para quem a homossexualidade “é fruto de abusos sexuais ocorridos na infância”; que se sente “direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais”.
Não é a primeira vez (e nem será a última) que pessoas ou grupos ligados à fé evangélica ou católica tentam atribuir à homossexualidade um caráter de doença. Em 2004, o deputado estadual e pastor evangélico carioca Édino Fonseca (então no PSC, hoje no PR) propôs que verbas públicas fossem usadas no “tratamento” de pessoas que "voluntariamente optarem por deixar a homossexualidade". No caso de menores, os pais poderiam escolher se a criança ou o adolescente deveria passar pelo “tratamento”. A excrescência foi rejeitada por 30 votos a 6.
Para Édino, a homossexualidade é um distúrbio psicológico. "Eu respeito o cidadão. Se ele quer ser gay, problema dele, vai acertar contas com Deus. Agora, aqueles que queiram ajuda para virar heterossexuais têm que ter tratamento psicológico garantido pelo Estado. Botaram na cabeça dele que ele é gay, o problema é psicológico, o governo tem que ajudar!", diz.
Ao comemorar – no dia 22 de março - os dez anos da resolução que orientou os psicólogos brasileiros a adotarem posturas que contribuam para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual, o presidente do CFP, Humberto Cota Verona, disse que “a resolução proíbe o psicólogo de tratar a escolha homoafetiva como um problema de saúde e muito menos oferecer tratamento e cura para isso”. Para Verona, o papel dos psicólogos não é o de reprimir esta opção, mas de fazer com que os homossexuais enfrentem o preconceito. “A psicologia tem ajudado essas pessoas a encarar esse sofrimento, a aprender a lidar com esse enfrentamento social da sua escolha.”.
O psicólogo Claudecy de Souza lembra que, sob o ponto de vista legal, a homossexualidade também não é classificada como doença no Brasil. “Sendo assim, os psicólogos não devem colaborar com eventos e serviços que se proponham ao tratamento e cura de homossexuais, nem tentar encaminhá-los para outros tratamentos. Quando procurados por homossexuais ou seus responsáveis para tratamento, os psicólogos não devem recusar o atendimento, mas sim aproveitar o momento para esclarecer que não se trata de doença, muito menos de desordem mental, motivo pelo qual não podem propor métodos de cura.”.
Souza reafirma o entendimento da Psicologia moderna, segundo o qual a homossexualidade é um estado psíquico. “O indivíduo homossexual não faz opção por ser homossexual. Ele apenas é e não pode, ainda que queira, mudar isso. Ele pode sim, fazer uma opção no sentido de negar esse impulso e tentar viver como heterossexual. Mas isso tem um impacto negativo para o pleno desenvolvimento emocional do indivíduo. Trata-se de uma situação muito mais comum do que se imagina. O impulso sexual que um heterossexual tem por sua parceira é o mesmo que um homossexual tem por seu parceiro do mesmo sexo. O que muda é o objeto.”, explica.
Em dezembro de 1973, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) aprovou a retirada da homossexualidade da lista de transtornos mentais, deixando de considerá-la uma doença. Em 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) retirou a homossexualidade da condição de desvio sexual. Nos anos 90, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), onde são identificados por códigos todos os distúrbios mentais - e que serve de orientador para classe médica, principalmente para os psiquiatras - também retirou a homossexualidade da condição de distúrbio mental. Em 1993, a Organização Mundial de Saúde (OMS) deixou de utilizar o termo "homossexualismo" (que da idéia de doença), adotando o termo homossexualidade. Em 22 de março de 1999 o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou nacionalmente uma resolução estabelecendo normas para que os psicólogos brasileiros contribuam, através de sua prática profissional, para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual. Em 2009, ignóbeis como a psicóloga Rozângela Alves Justino e o deputado-pastor Édino Fonseca continuam apostando no obscurantismo.




