Semana On

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Em 2009, ignóbeis como a psicóloga Rozângela e o deputado-pastor Fonseca continuam apostando no obscurantismo

É uma doença. E uma doença que estão querendo implantar em toda sociedade. Há um grupo com finalidades políticas e econômicas que quer estabelecer a liberação sexual, inclusive o abuso sexual contra criança. Esse é o movimento que me persegue e que tem feito alianças com conselhos de psicologia para implantar a ditadura gay.”.

A análise medievalesca foi feita pela psicóloga Rozângela Alves Justino (na foto acima, exercendo seu preconceito) em entrevista ao jornalista Vinícius Queiroz Galvão, da Folha de São Paulo (aqui para assinantes da Folha). Rozângela é evangélica e participa do Movimento Pela Sexualidade Sadia (Moses), grupo ligado a igrejas evangélicas, que pretende “recuperar homossexuais” através da “palavra de Deus”. Em seu consultório, no Rio de Janeiro, ela oferece uma “cura” para os "doentes"... “Tudo que faço fora do consultório é permeado pelo religioso. Sinto-me direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais”, afirma.

Rozângela arrisca ter o registro profissional cassado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), que há dez anos proíbe que a homossexualidade seja tratada como doença e recrimina a indicação de qualquer tipo de “tratamento” ou “cura”. O julgamento acontece no próximo dia 31, a pedido de associações gays endossada por 71 psicólogos de diferentes conselhos regionais.

Em 2004, reportagem da revista Época trouxe uma entrevista com o professor de inglês Sergio Viula, um dos fundadores do Moses. Viula chegou a ser pastor da Igreja Batista, casou-se e teve dois filhos, mas pouco depois assumiu sua homossexualidade. Segundo o ex-militante evangélico, o discurso do Moses é homofóbico e cruel: “Vendem uma solução, enchendo as pessoas de culpa. Ouvia relatos de sofrimento e tentava arrumar razões para a homossexualidade, sempre ligadas à desestruturação familiar ou a traumas. Era um absurdo. O discurso do Moses é homofóbico e cruel: ‘Jesus te ama, nós também, mas você precisa deixar de ser gay’. O homossexual continua sentindo desejo, mas com um pé no prazer e o outro na dor, com sentimento de culpa, medo, auto-rejeição. Criávamos uma paranóia na cabeça deles.”.

É este o pano de fundo do “tratamento” oferecido por Rozângela Alves Justino, que afirma ter “atendido e curado centenas de pacientes gays" em 21 anos de profissão; para quem a homossexualidade “é fruto de abusos sexuais ocorridos na infância”; que se sente “direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais”.

Não é a primeira vez (e nem será a última) que pessoas ou grupos ligados à fé evangélica ou católica tentam atribuir à homossexualidade um caráter de doença. Em 2004, o deputado estadual e pastor evangélico carioca Édino Fonseca (então no PSC, hoje no PR) propôs que verbas públicas fossem usadas no “tratamento” de pessoas que "voluntariamente optarem por deixar a homossexualidade". No caso de menores, os pais poderiam escolher se a criança ou o adolescente deveria passar pelo “tratamento”. A excrescência foi rejeitada por 30 votos a 6.

Para Édino, a homossexualidade é um distúrbio psicológico. "Eu respeito o cidadão. Se ele quer ser gay, problema dele, vai acertar contas com Deus. Agora, aqueles que queiram ajuda para virar heterossexuais têm que ter tratamento psicológico garantido pelo Estado. Botaram na cabeça dele que ele é gay, o problema é psicológico, o governo tem que ajudar!", diz.

Ao comemorar – no dia 22 de março - os dez anos da resolução que orientou os psicólogos brasileiros a adotarem posturas que contribuam para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual, o presidente do CFP, Humberto Cota Verona, disse que “a resolução proíbe o psicólogo de tratar a escolha homoafetiva como um problema de saúde e muito menos oferecer tratamento e cura para isso”. Para Verona, o papel dos psicólogos não é o de reprimir esta opção, mas de fazer com que os homossexuais enfrentem o preconceito. “A psicologia tem ajudado essas pessoas a encarar esse sofrimento, a aprender a lidar com esse enfrentamento social da sua escolha.”.

O psicólogo Claudecy de Souza lembra que, sob o ponto de vista legal, a homossexualidade também não é classificada como doença no Brasil. “Sendo assim, os psicólogos não devem colaborar com eventos e serviços que se proponham ao tratamento e cura de homossexuais, nem tentar encaminhá-los para outros tratamentos. Quando procurados por homossexuais ou seus responsáveis para tratamento, os psicólogos não devem recusar o atendimento, mas sim aproveitar o momento para esclarecer que não se trata de doença, muito menos de desordem mental, motivo pelo qual não podem propor métodos de cura.”.

Souza reafirma o entendimento da Psicologia moderna, segundo o qual a homossexualidade é um estado psíquico. “O indivíduo homossexual não faz opção por ser homossexual. Ele apenas é e não pode, ainda que queira, mudar isso. Ele pode sim, fazer uma opção no sentido de negar esse impulso e tentar viver como heterossexual. Mas isso tem um impacto negativo para o pleno desenvolvimento emocional do indivíduo. Trata-se de uma situação muito mais comum do que se imagina. O impulso sexual que um heterossexual tem por sua parceira é o mesmo que um homossexual tem por seu parceiro do mesmo sexo. O que muda é o objeto.”, explica.

Em dezembro de 1973, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) aprovou a retirada da homossexualidade da lista de transtornos mentais, deixando de considerá-la uma doença. Em 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) retirou a homossexualidade da condição de desvio sexual. Nos anos 90, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), onde são identificados por códigos todos os distúrbios mentais - e que serve de orientador para classe médica, principalmente para os psiquiatras - também retirou a homossexualidade da condição de distúrbio mental. Em 1993, a Organização Mundial de Saúde (OMS) deixou de utilizar o termo "homossexualismo" (que da idéia de doença), adotando o termo homossexualidade. Em 22 de março de 1999 o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou nacionalmente uma resolução estabelecendo normas para que os psicólogos brasileiros contribuam, através de sua prática profissional, para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual. Em 2009, ignóbeis como a psicóloga Rozângela Alves Justino e o deputado-pastor Édino Fonseca continuam apostando no obscurantismo.

Fotojornalismo

Combustível queima durante protesto em rua de Belfast (Irlanda do Norte) em que católicos com o rosto coberto arremessaram bombas de gasolina e fogos de artifício contra policiais. Irlandeses nacionalistas em Ardoyne tentaram bloquear um desfile da Ordem de Orange, a maior irmandade protestante da Irlanda do Norte.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Maquiavel, Obama e os assentamentos que não encolhem

Em O Príncipe, Maquiavel oferece aos governantes modernos as ferramentas para impor seu domínio. Logo no início do livro, no Capítulo III, quando aborda as estratégias para controlar populações conquistadas, ele parece fornecer especificamente aos dirigentes israelenses a base de sua política de domínio sobre os palestinos a partir da guerra de 1967.

Diz Maquiavel:

Outro remédio eficaz é instalar colônias num ou dois pontos, que sejam como grilhões postos àquele Estado, eis que é necessário ou fazer tal ou aí manter muita tropa. Com as colônias não se despende muito e, sem grande custo, podem ser instaladas e mantidas, sendo que sua criação prejudica somente àqueles de quem se tomam os campos e as casas para cedê-los aos novos habitantes, os quais constituem uma parcela mínima do Estado conquistado. Ainda, os assim prejudicados, ficando dispersos e pobres, não podem causar dano algum, enquanto que os não lesados ficam à parte, amedrontados, devendo aquietar-se ao pensamento de que não poderão errar para que a eles não ocorra o mesmo que aconteceu àqueles que foram espoliados. Concluo dizendo que estas colônias não são onerosas, são mais fiéis, ofendem menos e os prejudicados não podem causar mal, tornados pobres e dispersos como já foi dito. Por onde se depreende que os homens devem ser acarinhados ou eliminados, pois se se vingam das pequenas ofensas, das graves não podem fazê-lo; daí decorre que a ofensa que se faz ao homem deve ser tal que não se possa temer vingança.”.

Ora... se o trecho não inspirou os dignitários israelenses a espalharem assentamentos pela Cisjordânia como estratégia de domínio sobre os palestinos, então, que coincidência dos diabos.

Hoje, cerca de 500 mil colonos judeus vivem em mais de 500 assentamentos (segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU – OCHA) espalhados pela Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Alguns são verdadeiras cidades, como Maaleh Adumim e Ariel. Outros são menores, com centenas de moradores. Ainda há os "postos avançados" - trailers estacionados em pontos isolados.

Israel exerce um controle total sobre mais de 40% da Cisjordânia, além de 87% do aqüífero local - deixando 2,5 milhões de palestinos sobrevivendo com o restante, o que representa uma ameaça para a saúde das duas nações.. Trata-se de uma ocupação mesclada e não linear. Isso significa que os assentamentos salpicam a Cisjordânia de modo que os territórios palestinos que se espremem entre eles são inviabilizados economicamente. Esta estratégia, construída nos últimos 40 anos, fez com que a possibilidade de devolução destes territórios aos seus verdadeiros donos seja vista como uma utopia que não deve ser mais considerada nas mesas de negociação, mesmo os assentamentos sendo considerados ilegais pela comunidade internacional.

Para os israelenses, há dois tipos de assentamentos: os ilegais e os autorizados pelo Estado. Nos últimos anos surgiram mais de duas dúzias de novos núcleos habitacionais não reconhecidos pelo Estado de Israel. Os assentamentos autorizados pelo governo israelense, por sua vez, também são ilegais perante o direito internacional, porque foram erigidos no território palestino com objetivo de perpetuar a presença israelense em terras que foram tomadas após o conflito de 1967.

Mesmo nos assentamentos “legais”, há abusos. Cerca de 75% das construções nos assentamentos judaicos na Cisjordânia foram erguidas sem licença ou em desacordo com as permissões emitidas pelas autoridades israelenses, segundo um relatório do Ministério da Defesa de Israel publicado pelo jornal Haaretz. De acordo com o estudo, em 30 colônias a construção de "prédios e infraestrutura, incluindo estradas, escolas e delegacias, foram realizadas em terras privadas de palestinos".

O pensador Noam Chomski, assim define a situação: “Os assentamentos ilegais na Margem Ocidental são construídos para a criação dos batustan (‘guetos’ para os palestinos, a exemplo do modelo da África do Sul, durante o período do apartheid), de acordo com o termo utilizado por Ariel Sharon, arquiteto da política colonialista. Isso significa que Israel toma o que quer, tornando o que sobrou da Palestina em regiões não viáveis.”.

O jornalista Gustavo Chacra fez o seguinte comentário sobre a atual situação dos assentamentos: “Os Estados Unidos exigem, abertamente, que Israel congele a expansão dos assentamentos já existentes. O governo israelense defende construções dentro das colônias erguidas como forma de permitir o crescimento natural da população. Os palestinos pedem o desmantelamento de todos os assentamentos.”.

Desde que proferiu seu discurso no Cairo (em 4 de junho), o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, elegeu uma trincheira confortável de onde pode observar o desenrolar do drama palestino. Ele pede a paralisação total da colonização, a que Israel se opõe, defendendo a "expansão natural" das implantações existentes, tendo em vista à demografia. Certo, mas ainda é possível acreditar que os israelenses pretendem interromper o “crescimento natural” dos assentamentos já existentes? Como, se os Estados Unidos não conseguem firmar terreno nem mesmo nesta questão? Obama está jogando para a torcida?

Enquanto o presidente dos Estados Unidos garante que seu país e Israel estão fazendo progressos em diminuir suas diferenças sobre a questão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada, os israelenses continuam autorizando a expansão dos assentamentos já existentes.

Na verdade, o que Obama deseja (mesmo que sinceramente), nem de perto se aproxima do que os palestinos reivindicam. Apesar disso, muitos analistas concordam que a postura estadunidense de exigir o “congelamento” dos assentamentos e não seu “desmantelamento” aponta para uma saída mais factível para o imbróglio. “Indiretamente, ele pede concessões dos dois lados”, diz Gustavo Chacra, e complementa: “Os palestinos abdicariam do pedido de desmantelamento de todos os assentamentos e Israel concordaria em não construir mais nenhuma nova colônia. Assim, os palestinos poderiam manter a maior parte da Cisjordânia e os israelenses ficariam com a maioria dos assentamentos. Em troca, os palestinos receberiam terras em outras áreas. E os israelenses teriam menos dificuldades para combater a oposição interna a um acordo, já que muitos colonos não precisariam ser removidos.”.

No sábado (11), o representante de Política Externa da União Européia, Javier Solana, defendeu o retorno às fronteiras de Israel de antes da guerra de 1967. Ele também pediu ao Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) que reconheça o Estado palestino dentro de um prazo determinado mesmo que israelenses e palestinos não cheguem a um acordo. Não seria esta a saída mais razoável do ponto de visa da justiça? Alguém quer fazer justiça?

Fotojornalismo


Pai ajuda filho em campo de refugiados do vale do Swat, em Mardan, Paquistão. Foto de Tyler Hicks/The New York Times.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A internet é o espaço da liberdade absoluta, para além da liberdade de imprensa

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Ayres Britto, criticou hoje, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, alguns pontos da reforma eleitoral aprovada pela Câmara dos Deputados na última semana. O ministro abordou em especial a tentativa de regulamentar a internet chamando a regra de “provinciana”. “Entendo que não há como regulamentar o uso da internet... A imprensa regula o Estado, e a internet se contrapõe à própria versão da imprensa sobre as coisas. A internet é o espaço da liberdade absoluta, para além da liberdade de imprensa”, afirmou Ayres Britto.

De acordo com o ministro, a reforma beneficia em alguns pontos a cúpula partidária e diminui a transparência. Para ele, no caso da internet, a capacidade que a rede mundial de computadores possui de mobilizar a sociedade de forma interativa deve ser aproveitada durante o período eleitoral, e não intimidada.

Em seu editorial de ontem, o Estadão também condenava um aspecto da reforma que equiparou a internet - “com sua inesgotável profusão de sites, blogs, comunidades de relacionamento e ferramentas para a transmissão de micromensagens a telefones celulares” - às emissoras de rádio e televisão. Entre os nós apontados pelo jornal está a regra que obrigará portais, sites e blogs a reunir pelo menos 2/3 dos candidatos para a realização de debates eleitorais (da mesma forma como será feito em rádios e tevês); a proibição de os provedores de conteúdo apoiarem ou oporem-se explicitamente a este ou àquele candidato; e os mecanismos que limitarão a livre expressão na rede.

O projeto cria ainda condições para que um candidato se considere injuriado – e exija reparação pela presumível ofensa – por críticas recebidas nesse meio que se caracteriza pela mais desinibida expressão do pensamento, humor e irreverência (não raro, além dos limites da civilidade). O político que se sentir atingido por palavras ou imagens terá direito de resposta e à remoção do material que o desagradou, tudo como se o sistema já não embutisse naturalmente espaços para o contraditório.”, alerta o editorial.

No mesmo tom, Cláudio Weber Abramo também criticou a equiparação de regras. “Se, num rasgo de ingenuidade, o eventual visitante imagina que a intervenção dos deputados no assunto veio para melhorar o estado de coisas, pense de novo. Conforme é de seu feitio, os políticos intervieram na legislação não para tornar o processo mais visível e para melhorar o fluxo de informação política para o eleitor, mas para torná-lo mais impenetrável.”.

Manifestações como estas pupularam na internet neste final de semana. Ao tentar amarrar a rede, vinculando-a nas mesmas características que regem as demais mídias eletrônicas, tenta-se, de alguma forma, controlar esta ferramenta que, de forma alguma, tem vocação para a regulamentação. É como tentar conter um tsunami com castelos de areia. Como regulamentar o que será feito na rede durante as eleições de 2010 se, por exemplo, uma rápida busca no Google sobre o nome José Serra apresenta quase 285 mil citações – apenas em blogs... Como controlar esta tempestade de informações que circula livremente na internet? Espero que as cabeças coroadas nunca descubram...

Fotojornalismo

Folião é pisoteado por touros da casa Fuente Ymbro nesta segunda-feira (13) na Festa de São Firmino, em Pamplona, norte da Espanha. Na sexta-feira, um homem de 27 anos morreu durante esta sadia brincadeira. Foto da AFP.

domingo, 12 de julho de 2009

sábado, 11 de julho de 2009

Fotojornalismo

Manifestantes usam pneus em chamas para construir barricadas durante protestos em Tegucigalpa (Honduras). Ontem. Foto de Orlando Sierra/AFP

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Coluna do Capssa - Atiq Rahimi e Fred Uhlman: duas “pequenas” narrativas, duas grandes obras-primas

A partir de hoje conto no Escrevinhamentos com a presença do amigo Luiz Carlos Capssa Lima, o Cacho. Apaixonado pela boa literatura e pela história dos povos do Oriente Médio, ele nos brindará, vez em quando, com resenhas, análises, comentários e reflexões sobre ambos os temas. Cacho é destas raras pessoas que degusta a literatura como a um bom vinho, saboreando as nuances, os aromas e delicadezas que a palavra escrita proporciona. Aproveitemos.

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Atiq Rahimi e Fred Uhlman: duas “pequenas” narrativas, duas grandes obras-primas

Na vida atribulada que levamos, tempos atuais, dispomos de pouco tempo para desfrutarmos dos pequenos prazeres que a mesma nos oferece. A leitura é um deles.

Quando falo de leitura, refiro-me a literatura na sua forma mais pura e não a simples leitura de jornais, revistas, etc. Falo do ato apaixonado de ler, da cumplicidade livro/leitor, da magia hipnótica que os livros nos tomam, inebriam e nos enternecem, quando submissos nos rendemos à sua paixão.

No Brasil, lemos pouco, seja por motivos culturais, sociais e/ou, principalmente, econômicos; os livros são caros em relação ao poder aquisitivo da maioria da população. Para termos uma idéia, os russos lêem, em média, vinte livros por ano, os brasileiros de um a dois; a cidade de Buenos Aires (Argentina) tem mais livrarias que todo o nosso país, com uma população cinco vezes menor.

Não sou literato, tampouco crítico literário, no entanto, não posso me abster de tecer comentários a respeito de duas preciosidades, pérolas que tive oportunidade de degustar nos últimos dias.

Trata-se de Terra e Cinzas (78 páginas, editora Estação Liberdade), de Atiq Rahimi, escritor afegão, radicado na França, e O Reencontro (87 páginas, editora Planet ), de Fred Uhlman, escritor alemão, de origem judaica, falecido em 1985. Duas “pequenas” narrativas, duas grandes obras-primas.

Em Terra e Cinzas, temos uma narrativa de rara beleza; um ancião (Dastaguir) num vale esquecido à beira de um rio ressecado, com seu neto ( Yassin ), que não ouve mais, aguardam uma carona para a mina onde trabalha Murad, filho de Dastaguir, pai de Yassin, com a incumbência de anunciar a ele que a família morreu num ato de guerra. A sabedoria e a piedade de Dastaguir o emudecem, não quer apunhalar o filho com a notícia. O autor nos brinda, não com um conto, mas, sim, com um verdadeiro poema. Com uma linguagem única, Atiq Rahimi - “A dor é assim, ela derrete ou escorre pelos olhos, ou ela se transforma em bomba dentro do peito, uma bomba que explode num belo dia e te faz explodir também...” - constrói uma obra- prima.

Em O Reencontro, Uhlman nos conta a história da terna amizade, intensa e inocente, entre dois jovens adolescentes no interior da Alemanha, em 1932. Hans Schwarz, judeu, e Konradin von Hohenfels, descendente da aristocracia alemã, dois jovens que o preconceito e a guerra separam. Anos mais tarde, exilado, uma revelação sobre seu amigo Konradin deixa Hans - e nós leitores - petrificado. A linguagem usada pelo autor é terna e cálida, traduzindo os sentimentos difusos de almas em formação. Ulhman vai mais longe, traça um paralelo entre a fragilidade afetiva dos dois amigos e a fragilidade da civilização, ambas atropeladas pela insanidade da história; e temos aí, mais uma obra-prima.

O ponto convergente entre as duas obras é a estupidez da guerra, que independente de seus protagonistas, destrói mais almas que vidas.

Luiz Carlos Capssa Lima (2003)

Fotojornalismo

Vítimas de "democracia" e da "pujança" chinesa. Agora os fascistas (sim, pois não há diferenças brutais entre os capito-comunistas chineses e os fascistas) acusam os separatistas Urumqi de terrorismos patrocinado pela al-Qaeda. Aprenderam, direitinho com os israelenses.