sábado, 11 de julho de 2009
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Coluna do Capssa - Atiq Rahimi e Fred Uhlman: duas “pequenas” narrativas, duas grandes obras-primas
A partir de hoje conto no Escrevinhamentos com a presença do amigo Luiz Carlos Capssa Lima, o Cacho. Apaixonado pela boa literatura e pela história dos povos do Oriente Médio, ele nos brindará, vez em quando, com resenhas, análises, comentários e reflexões sobre ambos os temas. Cacho é destas raras pessoas que degusta a literatura como a um bom vinho, saboreando as nuances, os aromas e delicadezas que a palavra escrita proporciona. Aproveitemos.
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Atiq Rahimi e Fred Uhlman: duas “pequenas” narrativas, duas grandes obras-primas
Na vida atribulada que levamos, tempos atuais, dispomos de pouco tempo para desfrutarmos dos pequenos prazeres que a mesma nos oferece. A leitura é um deles.
Quando falo de leitura, refiro-me a literatura na sua forma mais pura e não a simples leitura de jornais, revistas, etc. Falo do ato apaixonado de ler, da cumplicidade livro/leitor, da magia hipnótica que os livros nos tomam, inebriam e nos enternecem, quando submissos nos rendemos à sua paixão.
No Brasil, lemos pouco, seja por motivos culturais, sociais e/ou, principalmente, econômicos; os livros são caros em relação ao poder aquisitivo da maioria da população. Para termos uma idéia, os russos lêem, em média, vinte livros por ano, os brasileiros de um a dois; a cidade de Buenos Aires (Argentina) tem mais livrarias que todo o nosso país, com uma população cinco vezes menor.
Não sou literato, tampouco crítico literário, no entanto, não posso me abster de tecer comentários a respeito de duas preciosidades, pérolas que tive oportunidade de degustar nos últimos dias.
Trata-se de Terra e Cinzas (78 páginas, editora Estação Liberdade), de Atiq Rahimi, escritor afegão, radicado na França, e O Reencontro (87 páginas, editora Planet ), de Fred Uhlman, escritor alemão, de origem judaica, falecido em 1985. Duas “pequenas” narrativas, duas grandes obras-primas.
Em Terra e Cinzas, temos uma narrativa de rara beleza; um ancião (Dastaguir) num vale esquecido à beira de um rio ressecado, com seu neto ( Yassin ), que não ouve mais, aguardam uma carona para a mina onde trabalha Murad, filho de Dastaguir, pai de Yassin, com a incumbência de anunciar a ele que a família morreu num ato de guerra. A sabedoria e a piedade de Dastaguir o emudecem, não quer apunhalar o filho com a notícia. O autor nos brinda, não com um conto, mas, sim, com um verdadeiro poema. Com uma linguagem única, Atiq Rahimi - “A dor é assim, ela derrete ou escorre pelos olhos, ou ela se transforma em bomba dentro do peito, uma bomba que explode num belo dia e te faz explodir também...” - constrói uma obra- prima.
Em O Reencontro, Uhlman nos conta a história da terna amizade, intensa e inocente, entre dois jovens adolescentes no interior da Alemanha, em 1932. Hans Schwarz, judeu, e Konradin von Hohenfels, descendente da aristocracia alemã, dois jovens que o preconceito e a guerra separam. Anos mais tarde, exilado, uma revelação sobre seu amigo Konradin deixa Hans - e nós leitores - petrificado. A linguagem usada pelo autor é terna e cálida, traduzindo os sentimentos difusos de almas em formação. Ulhman vai mais longe, traça um paralelo entre a fragilidade afetiva dos dois amigos e a fragilidade da civilização, ambas atropeladas pela insanidade da história; e temos aí, mais uma obra-prima.
O ponto convergente entre as duas obras é a estupidez da guerra, que independente de seus protagonistas, destrói mais almas que vidas.
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Atiq Rahimi e Fred Uhlman: duas “pequenas” narrativas, duas grandes obras-primas
Na vida atribulada que levamos, tempos atuais, dispomos de pouco tempo para desfrutarmos dos pequenos prazeres que a mesma nos oferece. A leitura é um deles.
Quando falo de leitura, refiro-me a literatura na sua forma mais pura e não a simples leitura de jornais, revistas, etc. Falo do ato apaixonado de ler, da cumplicidade livro/leitor, da magia hipnótica que os livros nos tomam, inebriam e nos enternecem, quando submissos nos rendemos à sua paixão.
No Brasil, lemos pouco, seja por motivos culturais, sociais e/ou, principalmente, econômicos; os livros são caros em relação ao poder aquisitivo da maioria da população. Para termos uma idéia, os russos lêem, em média, vinte livros por ano, os brasileiros de um a dois; a cidade de Buenos Aires (Argentina) tem mais livrarias que todo o nosso país, com uma população cinco vezes menor.
Não sou literato, tampouco crítico literário, no entanto, não posso me abster de tecer comentários a respeito de duas preciosidades, pérolas que tive oportunidade de degustar nos últimos dias.
Trata-se de Terra e Cinzas (78 páginas, editora Estação Liberdade), de Atiq Rahimi, escritor afegão, radicado na França, e O Reencontro (87 páginas, editora Planet ), de Fred Uhlman, escritor alemão, de origem judaica, falecido em 1985. Duas “pequenas” narrativas, duas grandes obras-primas.
Em Terra e Cinzas, temos uma narrativa de rara beleza; um ancião (Dastaguir) num vale esquecido à beira de um rio ressecado, com seu neto ( Yassin ), que não ouve mais, aguardam uma carona para a mina onde trabalha Murad, filho de Dastaguir, pai de Yassin, com a incumbência de anunciar a ele que a família morreu num ato de guerra. A sabedoria e a piedade de Dastaguir o emudecem, não quer apunhalar o filho com a notícia. O autor nos brinda, não com um conto, mas, sim, com um verdadeiro poema. Com uma linguagem única, Atiq Rahimi - “A dor é assim, ela derrete ou escorre pelos olhos, ou ela se transforma em bomba dentro do peito, uma bomba que explode num belo dia e te faz explodir também...” - constrói uma obra- prima.
Em O Reencontro, Uhlman nos conta a história da terna amizade, intensa e inocente, entre dois jovens adolescentes no interior da Alemanha, em 1932. Hans Schwarz, judeu, e Konradin von Hohenfels, descendente da aristocracia alemã, dois jovens que o preconceito e a guerra separam. Anos mais tarde, exilado, uma revelação sobre seu amigo Konradin deixa Hans - e nós leitores - petrificado. A linguagem usada pelo autor é terna e cálida, traduzindo os sentimentos difusos de almas em formação. Ulhman vai mais longe, traça um paralelo entre a fragilidade afetiva dos dois amigos e a fragilidade da civilização, ambas atropeladas pela insanidade da história; e temos aí, mais uma obra-prima.
O ponto convergente entre as duas obras é a estupidez da guerra, que independente de seus protagonistas, destrói mais almas que vidas.
Luiz Carlos Capssa Lima (2003)
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Baladas Nemurianas
Sou um apaixonado pela literatura de fantasia, ficção científica e horror. Autores com JRR Tolkien, Michael Morcoock, CS Lewis, Isaac Assimov, HP Lovecraft, Edgard Alan Poe, Robert E. Howard, Stephen King, Anne Rice, Peter Straub, Clive Barker (entre outros) me encantam há algumas décadas. Volta e meia retorno ao gênero e é sempre um prazer navegar pela imaginação destes autores maravilhosos.A paixão por estes instigantes “subgêneros” literários me levou, ano passado, a iniciar um conto que logo se transformou em algo maior. Hoje, penso que estou escrevendo um romance de fantasia medieval. Chama-se “Baladas Nemurianas”.
Resolvi publicá-lo na internet conforme escrevo os capítulos. Há três deles finalizados e disponíveis no site do projeto, além de um apêndice dedicado às raças que habitam este meu mundo imaginário e um segundo, contendo um dicionário de termos.
Bom, é isso. Se você curte o gênero, faça uma visita e me dê um feedback sobre a ambientação, a história, os personagens. Estou finalizando o quarto capítulo que, em breve, será publicado.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Para ler, refletir e lamentar
“para refletir: Se um jornalista diplomado for preso, perde o direito a sela especial?? já que o diploma não serve pra mais nada mesmo”
A pérola acima, publicada no twitter, é de autoria de um “jornalista diplomado”. Que tal?
A pérola acima, publicada no twitter, é de autoria de um “jornalista diplomado”. Que tal?
Apesar do golpe, quem apóia Zelaya?
Um golpe que põe abaixo um governo eleito democraticamente não pode ser legitimado. Ponto pacífico. O que segue é apenas uma curiosidade: quem apóia Manuel Zelaya em Honduras?
Segundo o jornalista Gustavo Chacra, que está cobrindo os eventos em Tegucigalpa, “os participantes das manifestações pró-Zelaya são integrantes de sindicatos, movimentos estudantis, professores e simpatizantes de diferentes classes sociais”. Estas manifestações, segundo o jornalista, não reúnem mais participantes do que reúnem as manifestações pró-governo. Ou seja: não se pode dizer que há uma mobilização popular majoritariamente anti-golpista. Na imprensa local, o presidente deposto conta apenas com o “apoio de algumas rádios”.
Por outro lado, o presidente empossado pelos golpistas, Roberto Micheletti, conta com o apoio “da Suprema Corte, das Forças Armadas, do Congresso, da Igreja Católica, da Evangélica, de empresários e da maior parte da imprensa... Os parlamentares, incluindo os integrantes do Partido Liberal, ao qual pertencia Zelaya, permanecem leais a Micheletti, que faz parte da mesma legenda. O Partido Nacional, outra força política em Honduras, tampouco se solidariza com a posição do presidente”, diz Chacra.
Afinal - independente da ilegitimidade do golpe – será que a sociedade hondurenha (e aí falo da sociedade enquanto conjunto, não de setores) quer mesmo a volta de Zelaya? E se ela não quiser? Quem somos nós para impor isso a ela?
Segundo o jornalista Gustavo Chacra, que está cobrindo os eventos em Tegucigalpa, “os participantes das manifestações pró-Zelaya são integrantes de sindicatos, movimentos estudantis, professores e simpatizantes de diferentes classes sociais”. Estas manifestações, segundo o jornalista, não reúnem mais participantes do que reúnem as manifestações pró-governo. Ou seja: não se pode dizer que há uma mobilização popular majoritariamente anti-golpista. Na imprensa local, o presidente deposto conta apenas com o “apoio de algumas rádios”.
Por outro lado, o presidente empossado pelos golpistas, Roberto Micheletti, conta com o apoio “da Suprema Corte, das Forças Armadas, do Congresso, da Igreja Católica, da Evangélica, de empresários e da maior parte da imprensa... Os parlamentares, incluindo os integrantes do Partido Liberal, ao qual pertencia Zelaya, permanecem leais a Micheletti, que faz parte da mesma legenda. O Partido Nacional, outra força política em Honduras, tampouco se solidariza com a posição do presidente”, diz Chacra.
Afinal - independente da ilegitimidade do golpe – será que a sociedade hondurenha (e aí falo da sociedade enquanto conjunto, não de setores) quer mesmo a volta de Zelaya? E se ela não quiser? Quem somos nós para impor isso a ela?
Feras-humanas do RPG
EXTRA! EXTRA! EXTRA! Jogadores de RPG são, mesmo, maníacos assassinos. Confira as fotos das feras-humanas em plena sessão demoníaca. AQUI.
O Jornalismo não pode ser dispensável
"O desafio do jornalismo tradicional, portanto, é se fazer indispensável não porque seja o primeiro com as últimas, o que é página virada na sua história, mas porque seja capaz de dizer, convincentemente, o que elas significam.
A captura da informação exclusiva – esse superpoderoso estimulante que corre na veia das redações – deve cada vez menos dar conta do recado. O destino da imprensa organizada depende da sua aptidão para persuadir as novas gerações de potenciais leitores de que, no dia a dia, ela é imbatível em destrinchar o funcionamento do mundo."
Do jornalista Luis Weiss, em recente artigo no qual analisa o futuro do Jornalismo.
A captura da informação exclusiva – esse superpoderoso estimulante que corre na veia das redações – deve cada vez menos dar conta do recado. O destino da imprensa organizada depende da sua aptidão para persuadir as novas gerações de potenciais leitores de que, no dia a dia, ela é imbatível em destrinchar o funcionamento do mundo."
Do jornalista Luis Weiss, em recente artigo no qual analisa o futuro do Jornalismo.
Vigiar e Punir - Michel Foucault
Terminei ontem Vigiar e Punir de Michel Foucault. Publicada em 1975, a obra alterou o modo de pensar e fazer política social no mundo ocidental por meio de um aprofundado exame dos mecanismos sociais e teóricos que desembocaram nas mudanças promovidas sobre os sistemas penais ocidentais durante a era moderna.Foucault elabora, nas 280 páginas que compõem o livro, uma análise sobre os mecanismos de vigilância e punição adotados pelos vários níveis de poder, investiga os meandros do direito penal nos regimes absolutistas europeus, comparando-os com suas aplicação nos regimes democráticos que surgem a partir do século XVIII e, finalmente, fazendo uma análise sobre a maneira pela qual os delitos penais são assimilados.
O objetivo de Foucault é expor o exercício do poder sob a ótica do direito penal e compará-las. A primeira análise se refere aos regimes absolutistas, onde o poder, centralizado na figura do rei, se afirmava por meio de uma dinâmica de punição violenta, na qual o corpo era supliciado para afirmar e referendar este poder. A barbaridade da tortura, do espetáculo público do suplício, da afirmação da autoridade e do poder por meio da destruição do corpo como ente político é uma característica deste momento. O objetivo era punir o crime e dar aos demais um aviso claro sobre o que ocorreria caso o poder fosse questionado.
Esta estratégia, segundo Foucault, começa a ser questionada no século XVIII, quando juristas e filósofos repudiam sua desumanidade, ao mesmo tempo em que uma nova filosofia de punição começa a ser construída com base no seu abrandamento. Foucault se refere a este momento como o nascimento da “sociedade disciplinar” e considera que, a partir daí, o poder passa a se manifestar por meio do controle estrito do tempo e do indivíduo por meio da organização do espaço. É o “poder panóptico”, no qual o individuo é permanentemente controlado, vigiado, corrigido, prática que se estende para diversas instâncias sociais.
Em Vigiar e Punir, este momento é apresentado como uma mudança na prática do poder na qual a punição é substituída por uma vigilância e controle permanente e pela definição para cidadão do que é ou não é aceitável socialmente. Esta “orientação”, esta “correção” dos indivíduos se daria a partir de modelos que seguem o padrão do “panóptico” como a fábrica, a prisão, o hospital, a escola, instâncias sociais que se apossariam do indivíduo, adaptando-o às necessidades do sistema de produção.
Seqüestrando os indivíduos e subtraindo-lhes o tempo de suas vidas, o poder “panóptico” possibilita que à sociedade se aposse dos corpos de seus integrantes, reforçando o poder econômico e produzindo um conjunto de saberes (pedagogia, psicologia, psiquiatria – que definem, qualificam e classificam o indivíduo).
Portanto, em Foucault, o conhecimento se transforma em uma ferramenta para a legitimização de um poder construído a partir das práticas sociais. O conhecimento não seria uma referência, um objetivo, mas um mecanismo para auxiliar o homem em sua busca pelo poder, pelo domínio, um mecanismo essencial para a manutenção desta modalidade de poder.
Pode-se, então, traçar uma oposição entre o pensamento de Foucault - para quem as instâncias das práticas sociais, como, por exemplo, a religião, são as incubadoras de nossas noções de sujeito, de verdade, de conhecimento – e Marx, para quem o conhecimento é travado por estas mesmas instâncias. Entre estas práticas sociais, Foucault destaca – em Vigiar e Punir - o direito penal, mostrando, ainda, que a forma com que uma sociedade se posiciona diante de determinados temas é conseqüência direta do exercício de poder que incide sobre ela.
Vigiar e Punir não é um livro facilmente digerível. Sua leitura exige reflexões constantes, nos incita uma análise crítica sobre o mundo em que estamos inseridos, aponta pistas que nos fazem concluir que qualquer postura adotada por um indivíduo, no tecido social em que está imerso, pode ser o resultado direto de um conjunto de mecanismos de poder que opera em todos os âmbitos de nossa vida. E isso é assustador.
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