Semana On

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Imprensa precisa ajustar o foco ao tratar da homossexualidade

Amanhã - sábado, 27 - acontece em Campo Grande (MS) a abertura do V Encontro Regional das Travestis e Transexuais da Região Centro-Oeste. Parte do Programa Nacional de DST e Aids (PN), o evento vai tratar de assistência social, emprego, trabalho e previdência social. Vem em boa hora, já que Campo Grande foi marcada no ano passado por um lamentável episódio de intolerância em plena Câmara Municipal, quando, devido à atuação da bancada católica e evangélica da Casa, foi negada à Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS) a concessão do título municipal de utilidade pública.

O brasileiro cultiva o germe da intolerância. Por mais que rejeitemos o rótulo, ele está estampado em nossa sociedade e é visto com mais clareza em pesquisas, como a que foi encomendada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (do MEC), segundo a qual 99,9% dos entrevistados têm algum tipo de preconceito e mais de 90% gostariam de manter algum nível de distanciamento social dos portadores de necessidades especiais, homossexuais, pobres e negros. Em maio, outra pesquisa apontou que um em cada quatro brasileiros tem preconceito contra pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneras (LGBT) e assume sua rejeição às identidades que compõem esta população.

São números alarmantes, que podem ser inflados com uma postura dúbia sobre o tema por parte da mídia – como apontou a jornalista Ligia Martins Almeida no artigo “A mídia e o preconceito contra os homossexuais”. No episódio que envolveu a ATMS e o legislativo municipal campo-grandense, a abordagem da imprensa foi morna, não esmiuçou o tema sob o ponto de vista da homofobia – mesmo diante do fato de a Câmara ter negado a concessão do título sem base ou argumento técnico que corroborasse a decisão.

O jornalista Irineu Ramos, que desde 2003 estuda a sexualidade e o gênero na mídia, desenvolveu em sua tese de mestrado uma análise do telejornalismo na cobertura da 11ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em 2007. Ele concluiu que das 48 reportagens sobre o evento, mais de 30 usavam abordagens pouco apropriadas sobre os homossexuais. Em entrevista ao site A Capa, ele fez a seguinte análise sobre a Parada Gay deste ano: “Como nos anos anteriores a mídia se prendeu em questões concretas, como o aumento nas vendas no comércio, lotação de hotéis, violência e nada mais. Há uma dificuldade significativa da grande imprensa em abordar as questões subjetivas das sexualidades. A grande imprensa reproduz um discurso heterocentrado e não deixa nenhum espaço para as diferenças de gênero.”.

Para ele, “a grande imprensa não se permite ir um pouco mais a fundo nas questões envolvendo a homossexualidade”.

Referindo-se as duas ocorrências de violência durante o evento neste ano, Irineu afirmou que a imprensa insiste em navegar por águas rasas quando aborda temas relacionados aos homossexuais: “A grande imprensa poderia pegar o gancho da bomba e explorar a questão da homofobia, com se forma isso no indivíduo, o que está por trás desta agressão, a conseqüência disso nas pessoas vítimas de homofobia etc. Mas não, restringiu tudo a uma questão policial.”. A mesma relação pode ser feita com a reação da imprensa sul-mato-grossense frente a flagrante homofobia patrocinada pela Câmara Municipal de Campo Grande contra a ATMS.

O jornalista carioca André Fischer, dono da marca Mix Brasil, vê melhoras nesta relação entre mídia e o universo LGBT, mas considera que há ainda um longo caminho a ser trilhado. Em janeiro, em entrevista ao Escrevinhamentos, citou a abordagem sobre o tema nas novelas: “É lá que esta discussão aparece de forma mais clara. Talvez, o melhor exemplo do tratamento dado pela mídia à questão esteja no tabu do beijo gay na tevê. A Globo é uma emissora comercial que é simpática aos gays, sempre retrata personagens gays em novelas de maneira positiva, mas tem um receio de ir além disso.”.

No último dia 12, durante um evento que reuniu profissionais de imprensa em São Paulo, a abordagem da homossexualidade nas redações foi um dos temas discutidos. Apesar de a maioria dos integrantes da mesa ter garantido que não há preconceito nas redações em relação ao enfoque de temas que envolvem o mundo LGBT, Ivan Martins - editor executivo da revista Época – afirmou: "Dizer que não há preconceito na redação é mentira. Existe uma pressão por parte de quem edita a revista para que abordemos pautas mais 'normais'. A grande imprensa ainda não sabe lidar com o tema".

Totalitarismo?

Esta postura negligente da mídia em relação ao preconceito de gênero e de opção sexual não é novidade, como aponta Victor Barroco no artigo “Mídia brasileira ignorou rebelião de Stonewall”, e surgiu novamente no dia 1º de junho, quando os jornais A Tarde, O Globo, Estado de S. Paulo e Gazeta do Povo publicaram o artigo Totalitarismo e Intolerância, do jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco, que ataca as políticas públicas para o combate à homofobia no Brasil.

Di Franco critica medidas que integram o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), documento firmado por representantes de 18 ministérios do governo Lula, entre elas a inclusão nos livros didáticos de temáticas relacionadas a famílias compostas por lésbicas, gays, travestis e transexuais; a recomendação da implantação de cursos de capacitação para evitar a homofobia nas escolas e pesquisas sobre comportamento de professores e alunos em relação ao tema.

Sustenta Di Franco: “os governos, num espasmo de totalitarismo, querem impor à sociedade um modo único de pensar, de ver e de sentir. Uma coisa é o combate à discriminação, urgente e necessário. Outra, totalmente diferente, é o proselitismo de uma opção de vida. Não cabe ao governo, com manuais, cartilhas e material didático, formatar a cabeça dos brasileiros.”. Segundo ele, “tal estratégia tem nome: totalitarismo”, e vai além: “O governo deve impedir os abusos da homofobia, mas não pode impor um modelo de família que não bate com as raízes culturais do Brasil e sequer está em sintonia com o sentir da imensa maioria da população.”.

É verdade, o governo não pode impor um modelo de família. No entanto, dizer que é isso o que ocorre a partir das diretrizes propostas pelo Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT seria um contra-senso caso a afirmação viesse como simples opinião em um artigo. Mas é apavorante vindo de uma pessoa que – como aponta Leandro Colling no artigo “Opus Dei ataca homossexuais e os jornais dizem amém“ – “presta ou prestou assessoria a vários jornais brasileiros, inclusive para aqueles que publicaram seu texto claramente homofóbico”.

Colling lembra, ainda, que – segundo a revista Época – Di Franco já treinou mais de 200 editores brasileiros. “Talvez por isso não devamos estranhar a qualidade de nossos periódicos na atualidade”, espeta, e lembra: “Também fico a imaginar o que esse professor de ética está ensinando aos seus alunos. Seria ele mais ético se assinasse seus textos como representante da Opus Dei no Brasil.”.

Ora, um membro ativo da Opus Dei criticando a imposição de modelos de família é, no mínimo, muito estranho.

Leia mais sobre este tema:
- Orientação sexual em MS
- Entrevista: André Fischer fala da mídia e da comunidade gay
- Eles eram mais livres
- Preconceito e cidadania
- Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado

Uma ótima análise sobre o Jornalismo

O que faz a indústria jornalística é, na verdade, centenas ou milhares de pessoas dizendo a mesma coisa como se fosse novidade. A diferença é que tudo indica que, cada vez mais, isso vai ser feito pela própria sociedade, dona de seus próprios meios de produção e distribuição da informação. Na ausência da grande indústria jornalística, a notícia procurará outros canais de distribuição. Podem ser blogs de jornalistas independentes. Podem ser sites de organizações não governamentais dedicadas a um ou outro assunto. Podem ser sites de jornalistas que, com estrutura reduzida, farão exatamente o mesmo papel que um grande jornal hoje faz.”

De Rafael Galvão no artigo “De jornalistas e ascensoristas”, a melhor análise que li sobre o Jornalismo e o diploma.

Fotojornalismo

Envolto por acusações de irregularidades no Senado, José Sarney fez ontem o que fazem melhor os poderosos quando são acossados: culpou a imprensa. Foto de Geraldo Magela/Agência Senado.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Silmarillion - JRR Tolkien

Havia Eru, o Único, que em Arda se chama Ilúvatar; ele fez primeiro os Ainur, os Sagrados, que eram filhos do seu pensamento e que estiveram com ele antes de alguma coisa mais ser feita. E falava-lhes, propondo-lhes temas de música; e eles cantavam perante ele, que ficava satisfeito. Mas, durante muito tempo, cantavam só um de cada vez, ou poucos juntos, enquanto os restantes escutavam, pois cada um compreendia apenas aquela parte da mente de Ilúvatar donde proviera e só lentamente ia compreendendo os seus irmãos. No entanto, todas as vezes que escutavam, adquiriam uma compreensão mais profunda, e a sua unissonância e harmonia aumentavam.

E veio a acontecer um dia que Ilúvatar reuniu todos os Ainur e lhes comunicou um tema portentoso, mostrando-lhes coisas maiores e mais maravilhosas do que até então lhes revelara; e a glória do seu começo e o esplendor de seu fim de tal modo maravilharam os Ainur que eles se curvaram diante de Ilúvatar e ficaram silenciosos.

Então, Ilúvatar disse-lhes: "Do tema que vos anunciei quero agora que façais juntos, em harmonia, uma grande música. E, como acendi em vós a chama imperecível, demonstrareis os vossos poderes no adorno deste tema, cada um com os seus próprios pensamentos e engenho, se assim quiser. Mas eu ficarei sentado e escutarei e feliz me sentirei por, através de vós, grande beleza ter despertado num canto."

Então as vozes dos Ainur, traduzidas por harpas e alaúdes, flautas e trompas, violas e órgãos e por incontáveis coros cantando com palavras, começaram a moldar o tema de Ilúvatar numa grande música; e ergueu-se um som de intermináveis e intermutáveis melodias entretecidas em harmonia, um som que, ultrapassando o ouvido, se propagou às profundidades e às alturas, e os lugares de habitação de Ilúvatar encheram-se a transbordar, e a música e o eco da música chegaram ao vazio, que deixou de ser vazio. Jamais desde então fizeram os Ainur qualquer música como essa, embora tenha sido dito que outra ainda mais grandiosa será ouvida perante Ilúvatar pelos coros dos Ainur e pelos filhos de Ilúvatar depois do fim dos dias. Então, os temas de Ilúvatar serão tocados corretamente e assumirão um ser no momento da sua expressão, pois todos compreenderão totalmente a intenção dele na sua parte e cada um terá a compreensão de cada qual, e Ilúvatar, satisfeito, dará aos pensamentos deles o fogo secreto.

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Assim começa O Silmarillion, uma maravilhosa obra de fantasia na qual o lingüista britânico JRR Tolkien nos oferece a cosmologia de um mundo que abriga seres tirados da mitologia européia, mas cuja saga fala tão profundamente ao nosso espírito moderno. Acabo de reler minha estimada edição portuguesa, da editora Europa-América, cuja tradução – de Fernanda Pinto Rodrigues – acho deliciosamente pitoresca em comparação à edição brasileira da Martins Fontes.

Dividido em quatro livros (Ainulindalë, Valaquenta, Quenta Silmarillion e Akallabêth), o livro é uma mostra da magnífica imaginação de Tolkien, uma construção mitológica densa, costurada pelos relatos heróicos de deuses, elfos, homens e criaturas tiradas do imaginário europeu que, unidos, transformam-se em uma intrincada história do nosso próprio mundo em um passado remoto.

A obra, cujos primeiros traços datam do início de 1925, quando Tolkien escreveu um esboço da mitologia, teve o conceito dos personagens, temas e histórias específicas desenvolvidos em 1917 quando Tolkien, então um oficial britâncio que retornou da França durante a Primeira Guerra Mundial, estava numa cama sofrendo de Febre das Trincheiras. Àquela época, ele chamou seus escritos de The Book of Lost Tales.

Muitos anos depois da guerra, encorajado pelo sucesso de O Hobbit, Tolkien enviou uma versão incompleta, porém mais desenvolvida de O Silmarillion para seu editor, George Allen & Unwin, que rejeitou o trabalho por ser muito obscuro e "demasiadamente celta". Ele então pediu a Tolkien que ao invés de O Silmarillion, trabalha-se em uma continuação para O Hobbit, idéia que se transformaria na mais famosa, mas não mais importante, obra: O Senhor dos Anéis.

No fim dos anos 50 ele começou novamente a trabalhar no Silmarillion, mas seu trabalho era mais relacionado a assuntos teológicos e filosóficos que com a narrativa propriamente dita. Durante esse tempo ele escreveu muito sobre estes tópicos, como o surgimento do mal em Arda, a origem dos Orcs, o costume dos Elfos e sua imortalidade, o Mundo Plano, a história do Sol e da Lua. Por esses tempos, sérias dúvidas o acometeram sobre alguns aspectos fundamentais do trabalho e ele voltou às versões mais antigas das histórias e parece ter sentido que devia solucionar esses problemas antes de publicar a versão final. Mas não pode concluir este trabalho em vida.

Depois de sua morte, em 1973, seu filho, Christopher Tolkien, compilou a narrativa de O Silmarillion de modo a mantê-la consistente com O Senhor dos Anéis. O livro foi então publicado no ano de 1977.

O Silmarillion não relata apenas os eventos de uma época muito anterior àquela de O Senhor dos Anéis; em todos os pontos essenciais de sua concepção, ele também é, de longe, a obra mais antiga. Na realidade, embora na época não se chamasse O Silmarillion, ele já existia meio século atrás. Em cadernos velhíssimos, que remontam a 1917, podem ser lidas as versões iniciais das histórias mais importantes da mitologia, muitas vezes escritas às pressas, a lápis. Ele nunca foi publicado (ainda que alguma indicação de seu conteúdo pudesse ser depreendida de O Senhor dos Anéis), mas meu pai, durante sua longa vida, jamais o deixou de lado, nem parou de trabalhar nele, mesmo em seus últimos anos. Durante todo esse tempo, O Silmarillion, se considerado meramente como uma grande estrutura narrativa, sofreu relativamente poucas mudanças radicais: há muito, tornou-se uma tradição estabelecida e uma fonte de referência para textos posteriores.”, diz Christopher Tolkien na introdução do livro.

O fato é que O Silmarillion é recheado por trechos de extrema beleza, como o capítulo IV do Quenta Silmarillion, “De Thingol e Melian”, que narra o encontro entre o alto-elfo Elwë (Thingol) e a maia Melian, na floresta de Noldoreth, em Beleriand;

Ela não proferiu nenhuma palavra, mas cheio de amor, Elwë aproximou-se e pegou-lhe na mão, e, acto contínuo, caiu sobre ele um encantamento, de modo que ficaram assim enquanto longos anos eram medidos pelas irrequietas estrelas que os cobriam; as árvores de Nam Elmoth tornaram-se altas e escuras antes de eles proferirem qualquer palavra.

ou o capítulo XII, “Do Regresso dos Noldor”, que trata da volta dos altos-elfos da família dos Noldor para a Terra Média:

Mas quando o exército de Fingolfin entrou em Mithrim, o Sol ergueu-se flamejante no Ocidente; e Fingolfin desfraldou as suas bandeiras, azuis e prateadas, e tocou as suas trompas, e irromperam flores sob os seus pés em marcha e as eras das estrelas terminaram.

O livro é composto, ainda, de uma poesia épica de rara consistência. O capítulo XIX do Quenta Silmarillion, “De Beren e Lúthien” é um exemplo deste estilo - que se estende à prosa - recheado de heroísmo e beleza, do qual o poema Balada de Leithian é um exemplo delicioso.

“Ele cantou um canto de feitiçaria,
de traspassar, abrir, de atraiçoar,
revelar, descobrir, denunciar.
Então, de súbito, Felagund, vacilante,
cantou em resposta um canto de ficar,
resistir, batalhar contra grande poder,
de segredos guardados, força de torre,
e confiança incólume, liberdade, fuga;
de mudar e de forma mutável,
de ciladas eludidas, armadilhas quebradas,
da prisão a abrir-se, da corrente que quebra.
De cá para lá andava o canto deles.
Cambaleante e soçobrante, quando, cada vez mais forte,
o canto se dilatava, Felagund lutava,
e toda a magia e poder concentrava
da elficidade de suas palavras.
Docemente no escuro cantavam as aves,
cantavam longe de Nargothrond
o suspiro do mar, para além,
para além do mundo ocidental, sobre areia,
sobre areia de pérolas na terra élfica.
Depois adensaram-se as trevas, a escuridão cresceu
em Valinor, o sangue vermelho correu
ao lado do mar, onde os Noldor chacinaram
os viajantes da espuma e roubando levaram
os seus barcos brancos com as suas velas brancas
dos portos iluminados. O vento assobia,
o lobo uiva. Os corvos fogem.
O gelo murmura nas bocas do mar.
Os cativos tristes de Angband choram.
O trovão atroa, as fogueiras ardem...
E Finrod caiu diante do trono.

O Silmarillion traz, também, passagens que podem ser relacionadas à época em que Tolkien viveu - apesar de o autor sempre ter negado qualquer veiculação ideológica ou política em sua obra. Ainda assim, certas passagens ressoam o espírito de uma época, como os trechos a seguir, do Quenta Silmarillion, Capítulo XX, “Da quinta batalha: Nirnaeth Arnoediad”.

Então, quando Fingon ouviu ao longe a grande trompa de Turgon, seu irmão, a sombra passou, o seu coração animou-se e ele gritou alto: “Utúlie’n aurë! Aiya Eldalië ar Atanatári, utúlie’n aurë!” (O dia chegou! Olhai, povo dos Eldar e pais dos Homens, o dia chegou!). E todos aqueles que ouviram a sua grande voz ecoar nos montes gritaram em resposta: “Auta i lómë!” (a noite está a passar!).

Ou

Por fim, Húrin encontrava-se sozinho. Então lançou fora o escudo e empunhou um machado com as duas mãos; e canta-se que o machado fumegou no sangue preto do guarda troll de Gothmog até o sangue secar e que, cada vez que o brandia, Húrin gritava: “Aurë entuluva!” (O dia voltará a nascer!).

No capítulo XXIV, outro trecho avassalador, quando Eönwë, arauto de Manwë, saúda Eärendil entre Tirion e o mar de Valinor.

“Salve Eärendil, dos marinheiros o mais famoso, o esperado que chega inesperadamente, o desejado que chega quando perdida é a esperança! Salve Eärendil, portador de luz perante o Sol e a Lua! Esplendor dos filhos da Terra, estrela na escuridão, pedra preciosa no crepúsculo, radiante na manhã”

Para os que se deliciam com a fantasia (gênero tão pouco respeitado e conhecido no Brasil) e conseguem pinçar elementos de beleza profunda e poesia destas construções literárias recheadas de analogias com o nosso tempo, O Silmarillion é uma parada obrigatória.

Poesia

"Meu coração de pernas curtas insiste em passos largos"
Pinçada de um poema de Vinícios Paes

Fotojornalismo

Meninas se vestem como noivinhas em celebração de tradição ortodoxa em Sofia, na Bulgária. Ontem. Foto de Petar Petrov/AP.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Diploma e Jornalismo: visões inglesas e argentinas

A não exigência do diploma de nível superior específico para o exercício da profissão de jornalista – decidida pelo Supremo Tribunal Federal na quarta-feira (17/6) foi o assunto do programa Observatório da Imprensa exibido ao vivo ontem, 23, pela TV Brasil.

O programa exibiu participações gravadas via internet dos correspondentes Sílio Boccanera, baseado em Londres, e Ariel Palácios, que reside em Buenos Aires. Boccanera explicou que não existe a exigência do diploma para a prática jornalística na Inglaterra, na Escócia, no País de Gales, nas duas Irlandas e na maior parte dos países da Europa continental. "Na verdade, eu ousaria dizer que os editores aqui ficariam espantados se soubessem que poderiam contratar apenas quem fosse formado em jornalismo. Eles consideram que o essencial é a formação da pessoa. Talvez até uma qualificação universitária que pode ser, inclusive, em Jornalismo, mas que na maioria das vezes não é".

Sílio Boccanera disse que as universidades oferecem um curso chamado Estudos de Mídia, mas que esta formação não é "muito bem-vista" porque enfatiza mais a teoria do que a prática. Na Inglaterra, o recrutamento de jornalistas é feito "com base no potencial que o editor acredita que ele vá oferecer". A maioria das empresas oferece treinamento através de um curso específico de jornalismo. De uma maneira geral, os editores que contratam não levam em conta a formação acadêmica em jornalismo. "Como experiência pessoal de alguém conhece jornalismo aqui na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil – e eu sou formado em jornalismo – eu diria que a exigência do diploma não faz muito sentido. Não é um diploma inútil, mas não deve ser uma exigência, um requerimento oficial para que alguém possa exercer uma profissão", avaliou.

Na Argentina, nunca existiu a obrigatoriedade de diploma para exercício da profissão de jornalista. Ariel Palacios explicou que os profissionais argentinos têm uma ampla variedade de formação. A geração de veteranos é composta quase que integralmente por pessoas que cursaram um amplo leque de cadeiras de ciências humanas, sociais e econômicas ou não têm grau superior. Poucos desta geração são formados em comunicação social. A geração intermediária, formada nos anos de 1980, é mista. Já os profissionais que entraram no mercado a partir de meados da década de 1990 são, em sua maioria, formados em comunicação social.

A tendência da contratação de pessoal formado em jornalismo na Argentina ocorreu de forma natural nos últimos anos apesar da ausência da obrigatoriedade do diploma. Ao longo dos anos 1970 existiam poucas faculdades de jornalismo, mas a volta da democracia em 1983 e o fim da censura começaram a expandir o mercado. O boom ocorreu no início dos anos 1990, com o crescimento dos canais a cabo, além do crescimento do prestígio do jornalismo por conta de reportagens investigativas sobre corrupção. "Isso aumentou a demanda e gerou um boom de faculdades pequenas", explicou Palacios. Além disso, surgiram diversos cursos técnicos, principalmente na área de jornalismo esportivo.

Traduções iranianas

A Translation and Interpretation Initiative for Iranian Protesters (TIIIP) – Iniciativa pela Tradução e Interpretação para os Manifestantes Iranianos – tem o objetivo de traduzir do persa para o inglês a maior quantidade possível de documentos, cartas e textos diversos sendo produzidos pelos manifestantes no país. O grupo tem um blog e um wiki. Pinçado no blog do Pedro Doria.

Qual é o Valor do Conhecimento?

Stephen Kanitz

O ESTADO DE SÃO PAULO publica anúncio de página inteira, com os seguintes dizeres:

"Qual É O Valor Do Conhecimento?
A Informação Está Em Todo Lugar. Se Hoje Em Dia A Informação É De Graça: Qual É O Valor Do Conhecimento?"

É uma excelente discussão, especialmente para quem pretende escolher a profissão de jornalista no próximo vestibular.

De fato, a informação está em todo lugar. Está em blogs de economistas, advogados, professores, de empresas como a Petrobras, nas associações de classe.

Obama fez uma campanha em que as informações de seu Twitter passavam diretamente dele para os seus eleitores, sem ter a imprensa como intermediária. Tal fato reduziu, e muito, o poder da imprensa sobre os políticos americanos.

Políticos brasileiros há uns 25 anos descobriram este poder de intermediação (e de distorção) que a imprensa fazia das propostas do candidatos, e passaram a ter veículos de imprensa próprios, como rádios e TVs. Assim, Sarney governou dando concessões de rádios e TVs aos políticos em troca da aprovação de leis necessárias. ACM, Collor de Melo etc. e etc. eram (e são) donos de TV e jornais.

A imprensa escrita sofre há 20 anos a concorrência do jornalismo de TV, que é mais rápido e grátis.

Como pode O Estado de São Paulo concorrer com os telejornais, que oferecem a mesma informação grátis (basta ligar a televisão)?

Como os jornalistas podem concorrer com prêmios Nobel como Paul Krugman, que supostamente entendem muito mais de economia do que qualquer jornalista?
É um problema sério para qualquer futuro jornalista.

Aqueles que geram conhecimento não precisam mais da imprensa para transmitir tal conhecimento à sociedade. Basta abrir um blog e colocar as palavras-chave ou assunto. Depois, o Google te acha.

Melhor: se você der uma entrevista a um jornalista (e ele nem sempre escreve o que você disse), você pode preservar para sempre tal entrevista no seu blog, enquanto o jornal só fica nas bancas por um único dia.

Ainda existe uma saída para o jornalista, e eu até participei de uma mudança positiva no jornalismo brasileiro, algo inédito até então, e que acredito seja a solução.
Criei na revista Exame o banco de dados das 1000 maiores empresas brasileiras. Criamos conhecimento, publicávamos as melhores empresas, os benchmarks, as fórmulas de sucesso. Criávamos nós mesmos o conhecimento que estávamos publicando. A Exame pagou pelo conhecimento gerado, em vez de obtê-lo de graça dos entrevistados.

A Folha criou depois o Datafolha, com o mesmo objetivo: criar conhecimento.

A saída, como insinua o Estadão, é você pagar pelo conhecimento. E, provavelmente, terá de pagar caro. Terá de criar no jornal um conhecimento que ninguém mais tem, como fiz por 25 anos na Revista Exame, criando análises exclusivas sobre a economia brasileira, sob o ângulo do administrador. Tais análises eram aguardadas todo ano: sucesso de banca por 25 anos.

Assim sendo, talvez a escola de jornalismo não seja a melhor opção, mas sim uma escola que ensine conteúdo: seja de sociologia, política, economia ou administração -- uma das várias ciências ou assuntos que seu futuro jornal cobrirá. E criar um núcleo de pesquisas, como fizeram a Folha e a Revista Exame.

É algo para se pensar.

Morin e a internet

A internet hoje dá uma possibilidade de multiplicação de informação e comentários, que é muito útil, por que a vida de uma democracia é a pluralidade das opiniões, visões, sem a homogeneidade da imprensa. Não há muitas diferenças na grande imprensa. É muito útil a internet, o que não significa que não há coisas falsas que venham dessas redes. Mas é a educação que dá à pessoa condição de ver e confrontar o que vê na internet e na televisão. Penso que hoje a internet dá uma possibilidade de mudança muito grande, por exemplo, pela complexidade. No México, há um curso de complexidade da educação virtual, com 25 países.

Do filósofo francês Edgar Morin, que está no Brasil para uma série de palestras e seminários, em entrevista ao jornalista Lincoln Macário.