O discurso do premiê israelense Benjamin Netanyahu, ontem, não causou surpresas. Pressionado pelos Estados Unidos a demonstrar um pouco de jogo de cintura sobre a questão palestina no melhor estilo “me ajuda a te ajudar”, “Bibi” falou o que Obama queria ouvir, mas, de fato, não disse absolutamente nada. Ao condicionar a criação de um Estado Palestino a imposições que dizem respeito à soberania dos palestinos, deixou o debate encalacrado no mesmo atoleiro em que sempre esteve. O mais grave não foi o que disse ou deixou de dizer Netanyahu, mas a reação de Obama que, segundo o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, celebrou o discurso do premiê israelense. É um sinal grave de que – assim como ocorreu com Guantanamo e a tortura – o presidente dos Estados Unidos joga mesmo é para a torcida.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Lula surta em declarações sobre o Irã
O presidente Lula é débil mental, ou somos nós os estúpidos? Suas declarações sobre a eleição iraniana são de envergonhar. Diante dos cada vez mais óbvios sinais de fraude, e das manifestações (reprimidas pelo governo) de gente desiludida com o que poderia ser uma demonstração de democracia, nosso presidente confundiu (mais uma vez) alhos com bugalhos e disse o seguinte: “Ele (o presidente reeleito Mahmoud Ahmadinejad) recebeu mais de 60% dos votos. Isso é algo expressivo. Essas manifestações são de quem perdeu. Eu mesmo já participei de muitas assim”. Reduzindo assunto sério a piadinhas que devem levar as gargalhadas os barnabés que o cercam, Lula disse ainda que não conhecia ninguém que contestasse a eleição iraniana, “a não ser a oposição” e foi além: “Por enquanto é apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos”. Lamentável.
Diplomacia de resultados e a arte de se equilibar sobre muros
"O Brasil não tem de ficar distribuindo certificados de bom comportamento ou de mau comportamento pelo mundo afora. Não é essa a tradição da política externa brasileira", disse ontem o assessor especial do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, ao chegar a Genebra (Suíça), onde o presidente proferiu, nesta segunda-feira, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, um discurso no qual confirma a lamentável posição brasileira de se manter sobre o muro quando tem que se posicionar sobre violações dos direitos humanos mundo afora.A estratégia brasileira, de se omitir sistematicamente, pode ser politicamente interessante, já que o país espera o apoio dos blocos africano e asiático (que abrigam a maioria dos países que desrespeitam os direitos básicos de civilidade) para conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança. No entanto, moralmente, trata-se de um posicionamento horroroso.
Em seu pronunciamento, Lula defendeu seu governo das criticas sustentadas por diversas organizações ligadas à defesa dos direitos humanos. Disse que a agenda do Conselho deve de pautar por ações positivas, “o que é muito mais eficaz na prevenção de novas violações dos direitos humanos". Segundo o presidente, "devemos promover o diálogo e não a imposição".
Ocorre que, na prática, isso significa fazer vista grossa para assassinatos, seqüestros, estupros em massa entre outras barbaridades.
Recentemente, por exemplo, o Brasil trabalhou e votou a favor de resoluções brandas sobre a situação no Sri Lanka e na Coréia do Norte. Ou seja: o país impediu a investigação sobre crimes de guerra no Sri Lanka, deixado no limbo os milhares de vítimas civis dos 26 anos de guerra entre o governo e os separatistas tâmeis. No caso da Coréia do Norte, enquanto todo o mundo se posicionava contra a expansão nuclear para fins bélicos, o Brasil preferiu se abster.
É a diplomacia de resultados brasileira mostrando o que faz melhor: barganha.
Alvo de críticas
O resultado deste posicionamento pouco nobre foi uma chuva de protestos. Em nota, a ONG Human Rights Watch (HRW) afirmou que o país apóia os algozes ao invés de apoiar as vítimas. "O Brasil parece mais preocupado em não ofender aqueles países que cometem abusos que em implementar o mandato do Conselho para tratar de violações de direitos humanos, o Brasil se alia aos violadores de direitos humanos ao invés de se aliar às vítimas", disse Julie de Rivero, diretora da HRW,
Para Rivero, a alegação brasileira de que é melhor atrair estes países para o Conselho que condená-los publicamente é recheada de equívocos: “O Brasil alega solidariedade, mas essa solidariedade acaba sendo com governos que cometem abusos contra os direitos humanos, e não com as vítimas desses abusos. O apoio do Brasil a governos notórios por seus abusos aos direitos humanos enfraquece a atuação do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Ao invés de defender as vítimas, o Brasil normalmente argumenta que os governos precisam de uma chance e que a soberania das nações é mais importante que os direitos humanos. Um dos limites à soberania são justamente as violações de direitos humanos”, afirmou.
Para a ONG brasileira Conectas, o "fracasso do Brasil em se opor ao desvio dos objetivos do Conselho e às vezes a do seu compromisso com o processo é alarmante". Em nota, a organização disse que "a posição do Brasil no Conselho está marcada por ambigüidades, particularmente em casos graves e persistentes de abusos, em países específicos.". No caso do Sri Lanka, para a Conectas, o Brasil "retrocedeu seis anos ao enaltecer o princípio de não interferência".
A entidade afirma que o Brasil usa o Conselho como um órgão para "redefinir a geopolítica mundial". Diretora internacional da ONG, Lúcia Nader disse à BBC que, “no afã de promover as relações sul-sul, o Brasil acaba apoiando resoluções brandas como um meio termo entre textos mais incisivos propostos pela União Europeia e os Estados Unidos, e textos insípidos levados adiante por aliados regionais dos países em questão”.
Outra ONG internacional que criticou a postura do governo brasileiro foi a Anistia Internacional. A entidade afirmou que "reconhece o potencial benefício do papel mediador que o Brasil deseja desempenhar entre regiões e grupos de Estados no Conselho", mas que "isto não pode vir às custas de tomar posições firmes em favor da proteção dos direitos humanos, particularmente em situação de graves e sistemáticas violações".
De olho
O próximo voto do Brasil no Conselho - ainda nesta semana - se refere à extensão do mandato do relator especial da ONU para o Sudão. Em ocasiões passadas, o país, sob a alegação de cooperação, apoiou resoluções fracas que não se comprometiam com as vítimas do Sudão.
STF deve julgar diploma nesta semana
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) devem decidir nesta semana sobre a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista. O relator do caso é o ministro Gilmar Mendes.
Lei mais sobre o tema:
- Na semana em que pedi a colação de grau o STF pode derrubar o diploma
- Diploma: lucidez em meio ao obscurantismo
- A desqualificação como argumento
- Com ou sem diploma?
- Priscila, Greenpeace e o canudo
- Os defensores do diploma e seus debates imaginários
- Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?
Lei mais sobre o tema:
- Na semana em que pedi a colação de grau o STF pode derrubar o diploma
- Diploma: lucidez em meio ao obscurantismo
- A desqualificação como argumento
- Com ou sem diploma?
- Priscila, Greenpeace e o canudo
- Os defensores do diploma e seus debates imaginários
- Debate sobre o diploma de jornalismo... que debate?
domingo, 14 de junho de 2009
sábado, 13 de junho de 2009
Legítima ou não, vitória de Ahmadinejad fortalece os que apostam no caos
O primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, fará neste domingo, 14, um pronunciamento à nação. A mensagem de “Bibi” seria feita logo após o discurso do presidente estadunidense Barack Obama ao mundo árabe, mas foi postergada para após a eleição iraniana, que, ontem, confirmou a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad.
O que o primeiro-ministro israelense dirá ao mundo ainda é uma incógnita, mas há uma grande chance de o pronunciamento se transforme em uma exortação ao maniqueísmo que impera no discurso político da região e um sinal de que um ataque israelense ao Irã será efetuado em breve.
A reeleição de Ahmadinejad – fruto ou não de manipulações – traz em seu rastro um aspecto perigoso: o fortalecimento da facção que aposta na teoria do “quanto pior, melhor”. Reeleito na sexta-feira com 62,63% dos votos (24.527.516 votos), contra pouco mais de 13 milhões (33,75%) do reformista Mir Hussein Moussavi , que ficou em segundo lugar, Ahmadinejad pode ser a desculpa que faltava para que Israel parta para o ataque sob a desculpa de uma ameaça nuclear.
“Existe uma teoria de que quanto mais radical estiver o lado inimigo, melhor para conquistar apoio internacional”, apontava o jornalista Gustavo Chacra em recente artigo. Ele tem razão. Sua leitura de que a permanencia de Ahmadinejad no poder daria argumentos para a direita israelense foi precisa.
“Direitistas em Israel, nos Estados Unidos e – acreditem – mesmo ditaduras travestidas de monarquias e repúblicas no mundo árabe torcem pela vitória de Mahmoud Ahmedinejad. Os israelenses porque manteriam o argumento de que o Irã é perigoso, usando os discursos anti-semitas e as ameaças contra Israel do atual presidente iraniano. Os republicanos para atacar a política de aproximação de Obama com o mundo islâmico. E os regimes árabes para que os Estados Unidos não normalizem os laços com o Irã (persa), reduzindo a ajuda militar para estes Estados.”, afirmou Chacra na quinta-feira passada (11).
Neste sábado, a confirmação deste raciocínio – e uma prévia do que pode ocorrer amanhã - veio em declarações veladas de integrantes do Governo de Israel. O ministro das Relações Exteriores, Danny Ayalon, e o vice-primeiro ministro do país, Silvan Shalom, pediram alerta máximo para a “crescente ameaça nuclear do Irã”. Shalom aproveitou a deixa do resultado eleitoral iraniano dizendo ao Jerusalem Post que: “O resultado da eleição iraniana é uma bofetada na cara daqueles que acreditaram que o Irã estava pronto para um diálogo real com o mundo livre e interromperia o seu programa nuclear”.
Segundo o ministro, Ahmadinejad “vai conduzir o seu país a uma confrontação com o mundo ocidental”, e finaliza dizendo que “Se havia esperança de uma mudança no Irã, a reeleição de Ahmadinejad mostra que a ameaça iraniana é ainda mais grave. A comunidade internacional deve travar um Irã nuclear e o terror iraniano imediatamente.”.
Deu para sentir o clima?
Mahmoud Ahmadinejad não é santo – assim como não o é “Bibi” – mas a reação israelense teria sido muito diferente caso Moussavi tivesse sido eleito? Duvido.
O que o primeiro-ministro israelense dirá ao mundo ainda é uma incógnita, mas há uma grande chance de o pronunciamento se transforme em uma exortação ao maniqueísmo que impera no discurso político da região e um sinal de que um ataque israelense ao Irã será efetuado em breve.
A reeleição de Ahmadinejad – fruto ou não de manipulações – traz em seu rastro um aspecto perigoso: o fortalecimento da facção que aposta na teoria do “quanto pior, melhor”. Reeleito na sexta-feira com 62,63% dos votos (24.527.516 votos), contra pouco mais de 13 milhões (33,75%) do reformista Mir Hussein Moussavi , que ficou em segundo lugar, Ahmadinejad pode ser a desculpa que faltava para que Israel parta para o ataque sob a desculpa de uma ameaça nuclear.
“Existe uma teoria de que quanto mais radical estiver o lado inimigo, melhor para conquistar apoio internacional”, apontava o jornalista Gustavo Chacra em recente artigo. Ele tem razão. Sua leitura de que a permanencia de Ahmadinejad no poder daria argumentos para a direita israelense foi precisa.
“Direitistas em Israel, nos Estados Unidos e – acreditem – mesmo ditaduras travestidas de monarquias e repúblicas no mundo árabe torcem pela vitória de Mahmoud Ahmedinejad. Os israelenses porque manteriam o argumento de que o Irã é perigoso, usando os discursos anti-semitas e as ameaças contra Israel do atual presidente iraniano. Os republicanos para atacar a política de aproximação de Obama com o mundo islâmico. E os regimes árabes para que os Estados Unidos não normalizem os laços com o Irã (persa), reduzindo a ajuda militar para estes Estados.”, afirmou Chacra na quinta-feira passada (11).
Neste sábado, a confirmação deste raciocínio – e uma prévia do que pode ocorrer amanhã - veio em declarações veladas de integrantes do Governo de Israel. O ministro das Relações Exteriores, Danny Ayalon, e o vice-primeiro ministro do país, Silvan Shalom, pediram alerta máximo para a “crescente ameaça nuclear do Irã”. Shalom aproveitou a deixa do resultado eleitoral iraniano dizendo ao Jerusalem Post que: “O resultado da eleição iraniana é uma bofetada na cara daqueles que acreditaram que o Irã estava pronto para um diálogo real com o mundo livre e interromperia o seu programa nuclear”.
Segundo o ministro, Ahmadinejad “vai conduzir o seu país a uma confrontação com o mundo ocidental”, e finaliza dizendo que “Se havia esperança de uma mudança no Irã, a reeleição de Ahmadinejad mostra que a ameaça iraniana é ainda mais grave. A comunidade internacional deve travar um Irã nuclear e o terror iraniano imediatamente.”.
Deu para sentir o clima?
Mahmoud Ahmadinejad não é santo – assim como não o é “Bibi” – mas a reação israelense teria sido muito diferente caso Moussavi tivesse sido eleito? Duvido.
Para onde caminha este tal Jornalismo?
“Mais importante do que o bate boca sobre o direito ou não da Petrobras publicar as perguntas de jornais em entrevistas solicitadas à empresa é a questão da quebra de rotinas vigentes há décadas no relacionamento da imprensa com fontes oficiais e corporativas. Isto altera radicalmente uma questão chave que é a do acesso privilegiado à informação. Os blogs criaram um novo espaço público para interatividade entre cidadãos, empresas, governos e associações civis, tirando da imprensa escrita a exclusividade na mediação entre os diferentes protagonistas. Trata-se de uma ruptura com o modelo tradicional, cujos efeitos provocam perplexidade, especialmente entre os jornalistas.”.
O raciocínio é do jornalista Carlos Castilho, em artigo publicado quarta-feira no Observatório da Imprensa. O caminho é o mesmo traçado por Luiz Carlos Azenha, para quem os veículos de comunicação tradicionais não encontraram ainda formas de interagir com esta ruptura causada pelas novas ferramentas de informação. "Posso especular que os jornais se sentem incomodados com uma nova dinâmica que não os favorece. Os jornais já chegam claramente envelhecidos às bancas. Como contornar isso? Com notícias exclusivas. Denúncias extraordinárias. Isso pressupõe, no entanto, que todos os atores sociais continuem aceitando o jornalismo como era: o monopólio da informação controlado por algumas empresas que vendem informação. A internet rompe essa lógica.”.
Também é o que sustenta Mariana Martins em texto publicado no Observatório do Direito à Comunicação (dia 10). “As novas ferramentas propiciadas pelo desenvolvimento tecnológico, como portais eletrônicos, blogs e redes sociais, vêm mudando também ao longo dos anos o próprio caráter da informação jornalística, da função dos veículos tradicionais e da relação entre a fonte primária da informação e o público, como no caso da Petrobras.”.
No artigo “Nova descoberta da empresa abala mídia”, o jornalista Marcelo Salles diz o seguinte: “Se milhares de pessoas passam a ter acesso aos argumentos da Petrobras diretamente da fonte, e os comparam com o que foi publicado pela imprensa, então esta imprensa é quem será julgada pelos leitores. A nova descoberta da Petrobras abalou a tática da mídia grande, que consiste em dizer sem permitir o contraponto.”.
Estas leituras apontam para a necessidade de o Jornalismo reconstruir paradigmas muito arraigados que, em parte, são responsáveis pela sensação de superação que hoje permeia a prática jornalística tradicional. Diante do turbilhão provocado pelas ferramentas de informação interativa que se proliferam pela rede, o Jornalismo se agarra a velhas fórmulas e, para manter-se à tona, opta por um confronto ao qual já entra derrotado. O episódio Petroblog é um sinal do que está por vir.
Luiz Nassif, no artigo Avanço no jornalismo: “Hoje em dia, não há transparência na forma como são tratadas as notícias, especialmente aquelas com viés partidário. O jornalista detém uma informação e se julga no direito de dar o tratamento que bem entender, o enfoque que desejar, selecionar as informações que melhor se adaptem à sua tese. A possibilidade do leitor ter acesso a todas as informações fornecidas é um ganho excepcional no direito constitucional de ser bem informado.”.
O jornalista Leandro Fortes sustenta que: “As reações ‘conspirativas’ – neologismo cunhado pelo jornalista Luiz Carlos Azenha para unir conspiração com mídia corporativa – ao blog da Petrobras são, em tudo, emblemáticas. E não têm nada a ver com ‘vazamento’ das perguntas e informações enviadas por e-mail à empresa. Têm a ver com a perda de poder das redações e com a necessidade de se estabelecer outros paradigmas para o jornalismo. Isso inclui o conceito de ‘furo’, que a vaidade dos jornalistas transformou em coisa mais importante do que o dever de bem informar – de maneira mais ampla e correta possível – a sociedade na qual está inserido.”.
Parece que, ao olharmos a profissão diante dos novos panoramas aos quais ela tenta se adaptar, nos deparamos com este limiar, esta sensação de que algo está para mudar radicalmente na prática jornalística. No artigo “Blog da Petrobras: o Jornalismo precisa se reinventar” – que também foi disponibilizado na quarta - apontei as mesmas armadilhas que os demais jornalistas citados anteriormente: “Dizer que este novo cenário colabora para inibir os jornalistas e jornalões a desenvolverem e bancarem material de qualidade é dizer que eles se importam mais com o furo do que com a própria informação (reflexão propositalmente ingênua de minha parte) e se for assim (mantendo a ingenuidade), trata-se de mais um sinal de que o Jornalismo precisa se reinventar.”.
Leia mais sobre o tema:
- Blog da Petrobras: o Jornalismo precisa se reinventar
- Tem alguma mentira no blog da Petrobras?
O raciocínio é do jornalista Carlos Castilho, em artigo publicado quarta-feira no Observatório da Imprensa. O caminho é o mesmo traçado por Luiz Carlos Azenha, para quem os veículos de comunicação tradicionais não encontraram ainda formas de interagir com esta ruptura causada pelas novas ferramentas de informação. "Posso especular que os jornais se sentem incomodados com uma nova dinâmica que não os favorece. Os jornais já chegam claramente envelhecidos às bancas. Como contornar isso? Com notícias exclusivas. Denúncias extraordinárias. Isso pressupõe, no entanto, que todos os atores sociais continuem aceitando o jornalismo como era: o monopólio da informação controlado por algumas empresas que vendem informação. A internet rompe essa lógica.”.
Também é o que sustenta Mariana Martins em texto publicado no Observatório do Direito à Comunicação (dia 10). “As novas ferramentas propiciadas pelo desenvolvimento tecnológico, como portais eletrônicos, blogs e redes sociais, vêm mudando também ao longo dos anos o próprio caráter da informação jornalística, da função dos veículos tradicionais e da relação entre a fonte primária da informação e o público, como no caso da Petrobras.”.
No artigo “Nova descoberta da empresa abala mídia”, o jornalista Marcelo Salles diz o seguinte: “Se milhares de pessoas passam a ter acesso aos argumentos da Petrobras diretamente da fonte, e os comparam com o que foi publicado pela imprensa, então esta imprensa é quem será julgada pelos leitores. A nova descoberta da Petrobras abalou a tática da mídia grande, que consiste em dizer sem permitir o contraponto.”.
Estas leituras apontam para a necessidade de o Jornalismo reconstruir paradigmas muito arraigados que, em parte, são responsáveis pela sensação de superação que hoje permeia a prática jornalística tradicional. Diante do turbilhão provocado pelas ferramentas de informação interativa que se proliferam pela rede, o Jornalismo se agarra a velhas fórmulas e, para manter-se à tona, opta por um confronto ao qual já entra derrotado. O episódio Petroblog é um sinal do que está por vir.
Luiz Nassif, no artigo Avanço no jornalismo: “Hoje em dia, não há transparência na forma como são tratadas as notícias, especialmente aquelas com viés partidário. O jornalista detém uma informação e se julga no direito de dar o tratamento que bem entender, o enfoque que desejar, selecionar as informações que melhor se adaptem à sua tese. A possibilidade do leitor ter acesso a todas as informações fornecidas é um ganho excepcional no direito constitucional de ser bem informado.”.
O jornalista Leandro Fortes sustenta que: “As reações ‘conspirativas’ – neologismo cunhado pelo jornalista Luiz Carlos Azenha para unir conspiração com mídia corporativa – ao blog da Petrobras são, em tudo, emblemáticas. E não têm nada a ver com ‘vazamento’ das perguntas e informações enviadas por e-mail à empresa. Têm a ver com a perda de poder das redações e com a necessidade de se estabelecer outros paradigmas para o jornalismo. Isso inclui o conceito de ‘furo’, que a vaidade dos jornalistas transformou em coisa mais importante do que o dever de bem informar – de maneira mais ampla e correta possível – a sociedade na qual está inserido.”.
Parece que, ao olharmos a profissão diante dos novos panoramas aos quais ela tenta se adaptar, nos deparamos com este limiar, esta sensação de que algo está para mudar radicalmente na prática jornalística. No artigo “Blog da Petrobras: o Jornalismo precisa se reinventar” – que também foi disponibilizado na quarta - apontei as mesmas armadilhas que os demais jornalistas citados anteriormente: “Dizer que este novo cenário colabora para inibir os jornalistas e jornalões a desenvolverem e bancarem material de qualidade é dizer que eles se importam mais com o furo do que com a própria informação (reflexão propositalmente ingênua de minha parte) e se for assim (mantendo a ingenuidade), trata-se de mais um sinal de que o Jornalismo precisa se reinventar.”.
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- Blog da Petrobras: o Jornalismo precisa se reinventar
- Tem alguma mentira no blog da Petrobras?
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