Semana On

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Por la carretera


Paula Bueno e Mary Saldanha estão desenvolvendo um belíssimo projeto que reúne fotografia e pé na estrada. Trata-se do Por la carretera, resultado das andanças que as duas fazem pela América do Sul.

São mais de 300 quadrinhos tamanho 12x14cm de momentos captados na Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai, Chile e Peru.
"Este projeto teve início em um susto: como era possível que a Bolívia, país vizinho ao nosso Estado, Mato Grosso do Sul, tivesse tamanha exuberância sem que a gente tivesse a menor idéia disso? Vinícius foi o grande motivador das viagens, quem propôs uma vez e embarcou duas, três vezes de bota e mochila, com a Paula, que foi junto e levou de testemunha sua máquina fotográfica. O terceiro espanto veio de Mary, ao olhar as fotos e reforçar esse sentimento de que a gente conhece muito pouco esses países - e que vale a pena ver mais. Logo, logo vai fazer suas viagens neste rumo. O que apresentamos aqui são pequenos quadros com imagens diversas dos sete países citados, que retratam as paisagens, o cotidiano, os detalhes do que descobrimos nestas viagens. São mais de 300 fotos selecionadas com o intuito não só de comercializar um produto decorativo, mas de evocar o mesmo espanto que tivemos e a vontade de estar mais atento às nossas raízes sul-americanas."

Para conhecer o trabalho e mais informações, visite o blog da Paula.

Fotojornalismo

Os colégios eleitorais iranianos abriram as portas nesta sexta-feira para o pleito que decidirá quem é o novo presidente do país. Eleitora iraniana deposita seu voto. Foto da AP.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Cabeça de Marujo

Ressaqueado demais para escrever nesta quinta...

Fotojornalismo

Trânsito bate recorde do ano em São Paulo com 253 km de congestionamento. Ontem. Foto de Raphael Falavigna/Terra.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Blog da Petrobras: o Jornalismo precisa se reinventar

O blog da Petrobras continua sendo foco de um interessante debate. Um dos pontos mais quentes é a forma como a atitude da empresa (de publicar perguntas feitas por jornalistas à sua assessoria de imprensa e suas respectivas respostas, mesmo antes de as reportagens serem publicada) está se transformando em uma marretada nos pilares da já combalida práxis jornalística.

Independente de que haja ou não irregularidades na empresa, ou que ela tenha respondido as perguntas a contento ou não, a reação da imprensa merece uma análise mais específica.

Ao se antecipar aos veículos de comunicação, divulgando as perguntas feitas pelos jornalistas e as respectivas respostas a elas, a Petrobras demole uma instituição que move grande parte do Jornalismo: o furo de reportagem. Sem o sigilo por parte da empresa, fica impossível averiguar assuntos sem alertar a concorrência. Terror nas redações...

A reação dos jornalões foi imediata. O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão – apoiados pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) – sustentaram que a estratégia da Petrobras atenta contra a liberdade de imprensa, fere o que chamam de direito autoral sobre as perguntas dos jornalistas e rompe um suposto compromisso de confidencialidade entre a fonte e o veículo de imprensa.

O matemático e filósofo Claudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil, desmontou algumas destas premissas ao dizer que este compromisso de confidencialidade “nunca existiu” e que “o que existe é o princípio de resguardo da fonte por parte de jornalistas.”. “Não existe dever subjetivo da fonte de resguardar o jornalista.”, completa. A partir deste raciocínio simples, caem por terra as demais suposições dos jornalões e da ANJ.

Gente séria - como os jornalistas Marcelo Soares e Sergio Leo, além do próprio Abramo - apontou para os perigos que a prática da Petrobras trará ao Jornalismo, em especial no que se refere à apuração do contraditório. O que farão os jornalistas que apuram um tema espinhoso e que precisam ouvir os alvos de acusações periclitantes se estes alvos resolverem divulgar as suas perguntas e as respectivas respostas antes de as matérias serem publicadas? O consenso é que jornalistas e jornais serão desencorajados a escarafunchar assuntos polêmicos.

Sergio Leo resumiu o temor em seu blog: “Um dos produtos fundamentais para a imprensa é a informação exclusiva, o furo de reportagem. Em geral, exige investimento, de tempo, experiência, dinheiro, expectativas. O furo atrai leitores, e dá prêmios jornalísticos. Muitas vezes esse furo é resultado de jornalismo investigativo, e, do outro lado, há um acusado, alguém sob suspeita. E, ao lado, um monte de concorrentes atrás da mesma informação que você. Evidentemente, muitos furos partem de interesses escusos, gente com interesses contrariados; por isso você tem sempre de checar a informação que recebe. De preferência, com o acusado.”.

Na reflexão “O blog da Petrobras e o desespero da mídia”, no entanto, Idelber Avelar arranhou a ferida, expondo a crítica à grande imprensa, que está por trás da estratégia da Petrobras: “É óbvio que não há nada ilegal no que fez a Petrobras. Ela simplesmente revelou quais eram as perguntas feitas e apresentou as suas respostas. Isso, no Brasil de hoje, é motivo de compreensível júbilo para a maioria e desespero agônico para os últimos defensores que montam guarda às portas da moribunda fábrica de linguiças.”.

Dizer que este novo cenário colabora para inibir os jornalistas e jornalões a desenvolverem e bancarem material de qualidade é dizer que eles se importam mais com o furo do que com a própria informação (reflexão propositalmente ingênua de minha parte) e se for assim (mantendo a ingenuidade), trata-se de mais um sinal de que o Jornalismo precisa se reinventar.

As jornalistas e pesquisadoras Cremilda Medina e Marcia Blasques apontaram a necessidade de explorar estas novas fronteiras: “A publicação das entrevistas pelo petroblog antes da finalização da reportagem não diminui, dificulta ou altera o trabalho e a responsabilidade do jornalista. É só lembrar que a identidade do repórter – seja ele do meio impresso, eletrônico ou digital – vai muito além da mera divulgação dos fatos: o fazer jornalístico passa pela questão da autoria da reportagem, ou seja, pela capacidade de criar narrativas que articulam os significados da realidade vocalizados por fontes diversas. O papel intransferível do jornalismo se consagra quando os profissionais são capazes de apurar informações, muitas vezes ocultadas, colher interpretações e só então compor a reportagem digna da autoria.”.

O fato é que, diante da possibilidade que a internet oferece de comunicação imediata entre a “fonte” e o “público”, o próprio processo de criação no Jornalismo está se transformando. A postura adotada pela Petrobras atinge diretamente o modus operandi do Jornalismo e isso é problema nosso (dos jornalistas), não da Petrobras. Da mesma forma, a relação entre jornalistas e assessores de imprensa deveria ser melhor esclarecida. A mistura entre os dois ofícios faz com que se espere de ambos posturas éticas idênticas similares, o que é impossível.

De nada adianta apelar para argumentos estapafúrdios - como o conceito de que a fonte deve sigilo ao entrevistador - ou acusar a empresa de ameaçar a liberdade de imprensa. Se esta mudança de postura vai gerar situações constrangedoras e inesperadas, cabe ao Jornalismo encontrar novas fórmulas de atuação.



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OBS: A Petrobras decidiu nesta tarde que não vai mais publicar em seu blog as perguntas feitas por jornalistas, e as respostas dadas pela empresa, um dia antes de as reportagens serem publicadas. O material passará a ser publicado no blog à meia-noite, para evitar que publicações que concorrem entre si tomem conhecimento antecipado das reportagens que serão publicadas por outros veículos.

Fotojornalismo

Manifestante chuta uma das diversas bombas de efeito moral lançadas ontem pela PM contra professores e estudantes na USP. Foto de Márcio Fernandes/Agência Estado.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Tem alguma mentira no blog da Petrobras?

O assunto do momento é o blog da Petrobras. A estratégia da empresa, de revelar as perguntas feitas por jornalistas - e as respectivas respostas - antes das reportagens serem publicadas despertou a ira de alguns e o aplauso de muitos. Em resposta ao jornal O Globo, dia 5, a assessoria de imprensa da Petrobras disse que sua intenção é de “tornar públicas as respostas enviadas pela Companhia, de forma completa e sem edição dos dados, sobre todos os questionamentos feitos pela imprensa.”.

Mais claro impossível. A empresa não confia na edição das respostas dada aos jornalistas e posteriormente publicadas e se resguarda publicando a íntegra das perguntas e das respostas em seu blog assim que elas (as perguntas) são enviadas aos jornalistas.

Os jornalões alopraram.

O Estadão quis saber se a medida era ilegal, O Globo esperneou, a Folha bateu o pé e a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) fez beicinho. Acontece que, argumento que é bom, necas.

Entre as sandices elencadas para tentar transformar a estratégia da Petrobras em um atentado contra a liberdade de imprensa algumas se destacam pela criatividade. Uma delas é o conceito de pergunta jornalística em off, “a fonte que deve sigilo ao entrevistador”, como resumiu Idelber Avelar lá no Biscoito.

É a cara-de-pau e a cretinice dos oligopólios de mídia elevadas à última potência. As instituições enxovalhadas pela sua manipulação lhes devem, além do mais, sigilo sobre quais foram as perguntas feitas. Já não basta acusá-las de ‘censoras’ quando elas se insurgem contra a mentirada. Elas devem, agora, aceitar falar só pelas paráfrases criminosamente mentirosas dos jornalões. Ou pelo menos silenciar até que estas tenham aparecido.”, espeta Avelar.

Outra parvalhice - emitida pelo Globo – é a idéia de que, ao divulgar as perguntas e respostas antes da publicação das reportagens, o blog “viola o sigilo dos órgãos de imprensa”.

É a comprovação de que está se encerrando a era das informações seletivas para compor reportagens. Não restará outra alternativa senão fazer reportagens tecnicamente bem feitas, baseadas em fatos não questionáveis. Em suma, praticar jornalismo. E isso é terrível!”, aguilhoa Luis Nassif.

O editorial publicado hoje por O Globo foi especialmente obtuso. Com o título “Ataque à imprensa”, o diário carioca afirma que a Petrobras tenta “acuar O GLOBO, a ‘Folha de S. Paulo’ e ‘O Estado de S. Paulo’, jornais que, por dever de ofício, acompanham com a atenção devida as evidências de desmandos na administração da companhia” usando a terrível estratégia de “publicar em um blog da empresa as perguntas encaminhadas por repórteres dos jornais e respectivas respostas”. Para piorar a emenda, afirma que “as perguntas, encaminhadas por escrito, são de propriedade do jornalista e do veículo a que ele representa”.

E não para por aí. O editorial diz ainda que, por meio do blog, a Petrobras “desrespeita profissionais e atenta contra a liberdade de imprensa, ao violar o direito da sociedade de ser informada, sem limitações”.

Ora bolas... A Petrobras atenta contra a liberdade de imprensa ao divulgar as perguntas a ela endereçadas e as respectivas respostas?

Pedro Doria coloca um freio na fanfarronice dizendo que “antes de tudo: não, não existe sigilo de pergunta. A Petrobras, ou qualquer empresa, tem o direito de tornar públicas todas as perguntas que recebe de repórteres. Não é nem ilegal, nem antiético”. Azenha, por sua vez, enumera os motivos que levaram os jornalões a um clima de histeria coletiva.

Mas é Túlio Vianna que resume a ópera: “Se o jornalista quer confidencialidade em suas conversas, melhor procurar um psicoterapeuta. Exigir confidencialidade das suas fontes é, não só paradoxal, mas um claro manifesto de sua incompetência”.

Eu, no meio desta tempestade, quero saber apenas o seguinte: tem alguma mentira nas respostas que a Petrobras publica em seu blog?

Fotojornalismo

Marinha brasileira prossegue busca por destroços e corpos do acidente com o vôo 447 da AirFrance. Foto da Força Aérea Brasileira.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A sombra do fascismo

Os partidos de centro-direita obtiveram bons resultados nas eleições para o Parlamento Europeu, fortalecendo sua posição como o maior bloco da casa, em contraste com o mau desempenho da esquerda. Partidos de extrema-direita e com políticas anti-imigração também obtiveram ganhos preocupantes.

A exemplo do que ocorreu com Partido Nacional Britânico (BNP) na Grã-Bretanha - que obteve duas cadeiras no Parlamento pela primeira vez na história - outros partidos de extrema direita tiveram um bom desempenho em vários países, como a Holanda, Áustria, Dinamarca, Eslováquia e Hungria.

Na Holanda, o partido euro-cético e anti-imigração do neo-fascisa Geert Wilders ficou em segundo lugar.Na Áustria, o partido de extrema-direita Freedom Party recebeu o dobro da porcentagem de votos em comparação com as eleições de 2009.

A expectativa é de que o Partido do Povo Europeu (EPP, na sigla em inglês), mantenha o controle do Parlamento, tendo conquistado 265 das 736 cadeiras. O bloco de centro-esquerda deve ficar com 159 cadeiras, enquanto o bloco liberal deve obter 81 cadeiras.

O Parlamento Europeu é o único órgão da União Europeia eleito diretamente. Seu trabalho é debater, apresentar emendas, rejeitar ou aprovar as leis propostas pelo órgão executivo da EU, a Comissão Europeia. Sua aprovação, no entanto, não é necessária para todas as leis europeias.

Esta foi a maior eleição trans-nacional já realizada. Ao todo, 375 milhões de eleitores estavam habilitados a votar em 27 países. O comparecimento às urnas foi de apenas 43%, o mais baixo desde que as primeiras eleições diretas para o Parlamento, há 30 anos.

A sombra do fascismo

O resultado da eleição para o Parlamento Eurupeu mostra que o renascimento do fascismo está ocorrendo sem que se tome qualquer iniciativa para esmagá-lo no berço. No artigo “O fantasma do fascismo”, publicado em fevereiro, no Observatório da Imprensa, o jornalista Luciano Martins Costa já expressava seu temor de que o monstro que assolou o mundo por décadas no século passado, inspirou ditadores de esquerda e de direita e levou a morte de milhões de seres humanos esteja novamente escancarando suas mandíbulas.

A Suíça, por exemplo, está desenvolvendo fama de país perigoso para estrangeiros. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, uma pesquisa divulgada em junho de 2006 mostrou que um terço dos suíços é declaradamente xenófobo. “Doudou Diène, relator especial da ONU para o racismo, afirmou recentemente que o racismo é uma grave questão na Suíça, principalmente porque as autoridades locais não acreditam que o problema seja sério”, afirma a reportagem.

Também em entrevista ao Estadão, a diretora da Comissão Federal Suíça contra o Racismo, Doris Angst, comentou o comportamento da polícia suiça em seu trato com casos de racismo: "A polícia suíça é parcialmente cega quando se trata de casos de extremistas e de neonazistas”. Segundo ela, há de fato um mal-estar no país em relação à xenofobia: “O comportamento de jovens extremistas contra os estrangeiros é um reflexo dos sentimentos que vive a sociedade suíça".

Irene Zwentsch, brasileira que trabalha para o Conselho Brasil-Suíça - entidade com sede na Suiça e que ajuda a integração dos brasileiros vai além: "O público em geral não se importa com as vítimas dos extremistas. Qualquer um que se pareça estrangeiro ou que tenha pele escura tem razão de ter medo da violência. Racismo, antissemitismo, islamofobia são inerentes às ideologias de extrema direita".

Além dos Alpes

Levantamento feito por duas juntas de Direitos Humanos da Comissão Europeia, em Viena e Estrasburgo, baseando-se em dados recentes, apontou que o número de denúncias de violência racial aumentou drasticamente em oito dos 11 países-membros da União Européia desde os atentados de 11 de Setembro e o início da chamada "Guerra ao Terror".

Os relatórios revelam que o número de crimes anti-semitas cresceu no Reino Unido e na França, enquanto outras manifestações de violência de extrema direita são cada vez mais freqüentes na Alemanha. A Agência de Direitos Fundamentais da União Européia, com sede em Viena, na Áustria, apontou – por meio de dados atualizados até 2006 – que as denúncias, investigações e crimes raciais e xenófobos aumentaram na Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Áustria, Irlanda, Reino Unido, França e Eslováquia.

Segundo os levantamentos, o País com maior número de crimes raciais e ligados à xenofobia é a Alemanha, com 18,1 mil crimes cometidos em 2006, alta de 5,3% na década. É a Dinamarca, país que acolhe grandes contingentes de novos imigrantes, que apresenta, no entanto, os maiores índices percentuais. Lá, incidentes do gênero tornaram-se 59,1% mais comuns entre 2000 e 2006. Entre as nações mais populosas do bloco, a França, com aumento de 27,7%, e o Reino Unido, de 27,3%, também foram destaques negativos.

Na Itália do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, estratégias do governo muito se assemelham ao que as milícias fascistas que perseguiam opositores, judeus, homossexuais e outros desafetos do regime de Mussolini faziam nos anos 30 e 40.

Palco de intensos protestos no início do ano, o Reino Unido também demonstrou tendências xenófobas quando centenas de trabalhadores britânicos protestaram carregando placas cujos dizeres pediam “empregos do Reino Unido para trabalhadores britânicos”. Uma greve envolvendo trabalhadores em uma refinaria, cujos postos eram ocupados por italianos e portugueses, foi o estopim da crise. Sindicatos protestaram contra o governo, dizendo que trabalhadores nativos estavam sendo minados por estrangeiros com salários mais baixos. O primeiro ministro inglês, Gordon Brown, reforçou o grito de guerra dos grevistas, acirrando inda mais o clima de confronto.

Na Espanha, onde o desemprego chega a quase 16%, os estrangeiros também têm sofrido. Segundo Ivan Briscoe, do Centro de Pesquisa para a Paz, Fundação para as Relações Internacionais e o Diálogo Externo, no país, por trabalharem com menos garantias, os estrangeiros ficam no front do desemprego.

Paralelos

Em reportagem publicada no JB Online, Antônio Inácio Andrioli, professor do Instituto de Sociologia da Universidade Johannes Kepler, de Linz, na Áustria, considerou que há paralelos entre o que ocorre hoje na Europa e a crise de 1929, que possibilitou a ascensão do nazismo.

O aumento da desigualdade social e do desemprego, as principais conseqüências visíveis do desmonte das políticas de privatização das últimas décadas, contribuiu para produzir um antigo fenômeno social: a xenofobia. Em períodos marcados pela recessão e pela ausência de movimentos e utopias revolucionários, abre-se o espaço para a interpretação simplista e populista da realidade, que culpa os estrangeiros pelos problemas sociais. A ausência de alternativas políticas e o conseqüente sentimento de impotência e desesperança social são um terreno fértil para o aumento da xenofobia”, afirmou.

O primeiro ministro espanhol, José Luís Rodríguez Zapatero, fez um recente apelo para que a Europa esteja “unida e forte para combater sintomas inquietantes de nacionalismo, xenofobia e tentações protecionistas”. No entanto, de forma geral, esta não parece ser uma preocupação dos dirigentes europeus que, em junho de 2008, por meio do Parlamento Europeu, aprovaram uma diretiva de retorno de imigrantes ilegais, que entrará em vigor em 2010 e que pode gerar a expulsão de cerca de oito milhões de imigrantes irregulares da Europa, grande parte deles latino-americanos.

Tempestade em copo d´água?

Este tipo de política pode parecer sem importância. Há quem possa argumentar que é legítima e que os governantes devem defender os interesses de seus cidadãos. Ocorre que estamos falando de algo mais completo, que tem origem na intolerância gerada pela crise e que não é coisa nova. A história já viu situações similares no passado e os resultados são sempre funestos: para dar vazão à insatisfação causada por crises econômicas, populações nativas atacam gente de cor, convicção ou credo diverso dos seus como se isso fosse solucionar o problema.

A xenofobia e o racismo são primos indissociáveis e as reações que suscitam atingem o seio das sociedades onde proliferam. É o caso dos Estados Unidos, por exemplo, onde o anúncio feito pela Microsoft no início do ano, de que demitiria mais de cinco mil funcionários por causa da crise, fez com que o senador republicano Chuck Grassley, de Iowa, escrevesse uma carta à empresa pedindo que seu executivo-chefe dispensasse primeiro trabalhadores estrangeiros com visto H-1B (de trabalho qualificado temporário): "A Microsoft tem uma obrigação moral de proteger os trabalhadores americanos ao priorizar seus empregos durante esses tempos difíceis", disse.

Organizações civis como a Coalizão para o Futuro do Trabalhador Americano (CFAW) - que reúne grupos anti-imigração – seguem na mesma linha. A CFAW iniciou neste ano uma campanha de TV associando o desemprego aos trabalhadores estrangeiros, como os com o visto H-1B.

Do outro lado do mundo, em Israel, o fortalecimento do partido neo-fascista Yisrael Beiteinu, liderado por Avigdor Lieberman, e seus mantras de "morte aos árabes", é outro exemplo de como a intolerância pode proliferar diante de nossos olhos. Contraposta aos radicais islâmicos que, da mesma forma entoam cânticos pela destruição de Israel, a recente guinada política israelense à direita foi igualmente temerosa.

Até nas redes sociais o fenômeno é identificável. As denúncias de xenofobia no site de relacionamentos Orkut, por exemplo, cresceram mais de 150% no segundo semestre de 2008 na comparação com os seis primeiros meses do ano, segundo a ONG SaferNet Brasil, que defende os direitos humanos na web.

No primeiro semestre do ano passado, a ONG recebeu 706 denúncias de crimes relacionados à xenofobia, contra 1.876 recebidas no segundo semestre, o que corresponde a um crescimento de 165,7%. O segundo maior aumento foi nos casos de homofobia, com 47,3% - passou de 567 denúncias (primeiro semestre de 2008) para 835 (segundo semestre). Na mesma comparação, as denúncias de neonazismo cresceram 28,2% e as de apologia e incitação a crimes contra a vida, 18,5%.

São as sementes do fascismo germinando, devagar, mas ininterruptamente.

Finalmente, vale dizer que a história caminha sem que estejamos dando a real importância aos fatos. Olhando o passado, nos chocamos hoje com o que este tipo de atitude permitiu: os holocaustos armênio e judeu, as grandes guerras (e as pequenas), os campos da fome de Stalin e as genocidas ditaduras comunistas do Oriente, as barbáries no continente africano etc. Olhando para trás nos perguntamos como foi possível às massas terem seguido Mussolini, Hitler, Stalin. Como permitiram?

Assim como aquelas pessoas deixaram a irracionalidade guiar seus desatinos, nada impede que, hoje, outros povos façam o mesmo. É fácil esquecermos os precedentes abertos, imaginando que estamos livres de tais barbaridades no futuro, mas o fato é que os crimes do passado tiveram início com os mesmos argumentos que hoje vemos proferidos por líderes mundiais: intolerância, ódio, xenofobia.

Todas as barbaridades começam com uma idéia que a muitos parece aceitável.

Frases

“Se você escreve, aparece um pouco, uma hora esbarra em Caetano Veloso, mesmo sem querer. Ou ele esbarra em você, já que gosta de falar sobre qualquer assunto, e o faz com especial graça quando comenta coisas sobre as quais não entende nada, como aquela personagem de uma música de Adoniran Barbosa.”

Reinaldo Azevedo, espetando Caetano Veloso, mas parecendo dar início a uma autobiografia (basta trocar Caetano por Tio Rei na citação acima).