Semana On

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A sombra do fascismo

Os partidos de centro-direita obtiveram bons resultados nas eleições para o Parlamento Europeu, fortalecendo sua posição como o maior bloco da casa, em contraste com o mau desempenho da esquerda. Partidos de extrema-direita e com políticas anti-imigração também obtiveram ganhos preocupantes.

A exemplo do que ocorreu com Partido Nacional Britânico (BNP) na Grã-Bretanha - que obteve duas cadeiras no Parlamento pela primeira vez na história - outros partidos de extrema direita tiveram um bom desempenho em vários países, como a Holanda, Áustria, Dinamarca, Eslováquia e Hungria.

Na Holanda, o partido euro-cético e anti-imigração do neo-fascisa Geert Wilders ficou em segundo lugar.Na Áustria, o partido de extrema-direita Freedom Party recebeu o dobro da porcentagem de votos em comparação com as eleições de 2009.

A expectativa é de que o Partido do Povo Europeu (EPP, na sigla em inglês), mantenha o controle do Parlamento, tendo conquistado 265 das 736 cadeiras. O bloco de centro-esquerda deve ficar com 159 cadeiras, enquanto o bloco liberal deve obter 81 cadeiras.

O Parlamento Europeu é o único órgão da União Europeia eleito diretamente. Seu trabalho é debater, apresentar emendas, rejeitar ou aprovar as leis propostas pelo órgão executivo da EU, a Comissão Europeia. Sua aprovação, no entanto, não é necessária para todas as leis europeias.

Esta foi a maior eleição trans-nacional já realizada. Ao todo, 375 milhões de eleitores estavam habilitados a votar em 27 países. O comparecimento às urnas foi de apenas 43%, o mais baixo desde que as primeiras eleições diretas para o Parlamento, há 30 anos.

A sombra do fascismo

O resultado da eleição para o Parlamento Eurupeu mostra que o renascimento do fascismo está ocorrendo sem que se tome qualquer iniciativa para esmagá-lo no berço. No artigo “O fantasma do fascismo”, publicado em fevereiro, no Observatório da Imprensa, o jornalista Luciano Martins Costa já expressava seu temor de que o monstro que assolou o mundo por décadas no século passado, inspirou ditadores de esquerda e de direita e levou a morte de milhões de seres humanos esteja novamente escancarando suas mandíbulas.

A Suíça, por exemplo, está desenvolvendo fama de país perigoso para estrangeiros. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, uma pesquisa divulgada em junho de 2006 mostrou que um terço dos suíços é declaradamente xenófobo. “Doudou Diène, relator especial da ONU para o racismo, afirmou recentemente que o racismo é uma grave questão na Suíça, principalmente porque as autoridades locais não acreditam que o problema seja sério”, afirma a reportagem.

Também em entrevista ao Estadão, a diretora da Comissão Federal Suíça contra o Racismo, Doris Angst, comentou o comportamento da polícia suiça em seu trato com casos de racismo: "A polícia suíça é parcialmente cega quando se trata de casos de extremistas e de neonazistas”. Segundo ela, há de fato um mal-estar no país em relação à xenofobia: “O comportamento de jovens extremistas contra os estrangeiros é um reflexo dos sentimentos que vive a sociedade suíça".

Irene Zwentsch, brasileira que trabalha para o Conselho Brasil-Suíça - entidade com sede na Suiça e que ajuda a integração dos brasileiros vai além: "O público em geral não se importa com as vítimas dos extremistas. Qualquer um que se pareça estrangeiro ou que tenha pele escura tem razão de ter medo da violência. Racismo, antissemitismo, islamofobia são inerentes às ideologias de extrema direita".

Além dos Alpes

Levantamento feito por duas juntas de Direitos Humanos da Comissão Europeia, em Viena e Estrasburgo, baseando-se em dados recentes, apontou que o número de denúncias de violência racial aumentou drasticamente em oito dos 11 países-membros da União Européia desde os atentados de 11 de Setembro e o início da chamada "Guerra ao Terror".

Os relatórios revelam que o número de crimes anti-semitas cresceu no Reino Unido e na França, enquanto outras manifestações de violência de extrema direita são cada vez mais freqüentes na Alemanha. A Agência de Direitos Fundamentais da União Européia, com sede em Viena, na Áustria, apontou – por meio de dados atualizados até 2006 – que as denúncias, investigações e crimes raciais e xenófobos aumentaram na Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Áustria, Irlanda, Reino Unido, França e Eslováquia.

Segundo os levantamentos, o País com maior número de crimes raciais e ligados à xenofobia é a Alemanha, com 18,1 mil crimes cometidos em 2006, alta de 5,3% na década. É a Dinamarca, país que acolhe grandes contingentes de novos imigrantes, que apresenta, no entanto, os maiores índices percentuais. Lá, incidentes do gênero tornaram-se 59,1% mais comuns entre 2000 e 2006. Entre as nações mais populosas do bloco, a França, com aumento de 27,7%, e o Reino Unido, de 27,3%, também foram destaques negativos.

Na Itália do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, estratégias do governo muito se assemelham ao que as milícias fascistas que perseguiam opositores, judeus, homossexuais e outros desafetos do regime de Mussolini faziam nos anos 30 e 40.

Palco de intensos protestos no início do ano, o Reino Unido também demonstrou tendências xenófobas quando centenas de trabalhadores britânicos protestaram carregando placas cujos dizeres pediam “empregos do Reino Unido para trabalhadores britânicos”. Uma greve envolvendo trabalhadores em uma refinaria, cujos postos eram ocupados por italianos e portugueses, foi o estopim da crise. Sindicatos protestaram contra o governo, dizendo que trabalhadores nativos estavam sendo minados por estrangeiros com salários mais baixos. O primeiro ministro inglês, Gordon Brown, reforçou o grito de guerra dos grevistas, acirrando inda mais o clima de confronto.

Na Espanha, onde o desemprego chega a quase 16%, os estrangeiros também têm sofrido. Segundo Ivan Briscoe, do Centro de Pesquisa para a Paz, Fundação para as Relações Internacionais e o Diálogo Externo, no país, por trabalharem com menos garantias, os estrangeiros ficam no front do desemprego.

Paralelos

Em reportagem publicada no JB Online, Antônio Inácio Andrioli, professor do Instituto de Sociologia da Universidade Johannes Kepler, de Linz, na Áustria, considerou que há paralelos entre o que ocorre hoje na Europa e a crise de 1929, que possibilitou a ascensão do nazismo.

O aumento da desigualdade social e do desemprego, as principais conseqüências visíveis do desmonte das políticas de privatização das últimas décadas, contribuiu para produzir um antigo fenômeno social: a xenofobia. Em períodos marcados pela recessão e pela ausência de movimentos e utopias revolucionários, abre-se o espaço para a interpretação simplista e populista da realidade, que culpa os estrangeiros pelos problemas sociais. A ausência de alternativas políticas e o conseqüente sentimento de impotência e desesperança social são um terreno fértil para o aumento da xenofobia”, afirmou.

O primeiro ministro espanhol, José Luís Rodríguez Zapatero, fez um recente apelo para que a Europa esteja “unida e forte para combater sintomas inquietantes de nacionalismo, xenofobia e tentações protecionistas”. No entanto, de forma geral, esta não parece ser uma preocupação dos dirigentes europeus que, em junho de 2008, por meio do Parlamento Europeu, aprovaram uma diretiva de retorno de imigrantes ilegais, que entrará em vigor em 2010 e que pode gerar a expulsão de cerca de oito milhões de imigrantes irregulares da Europa, grande parte deles latino-americanos.

Tempestade em copo d´água?

Este tipo de política pode parecer sem importância. Há quem possa argumentar que é legítima e que os governantes devem defender os interesses de seus cidadãos. Ocorre que estamos falando de algo mais completo, que tem origem na intolerância gerada pela crise e que não é coisa nova. A história já viu situações similares no passado e os resultados são sempre funestos: para dar vazão à insatisfação causada por crises econômicas, populações nativas atacam gente de cor, convicção ou credo diverso dos seus como se isso fosse solucionar o problema.

A xenofobia e o racismo são primos indissociáveis e as reações que suscitam atingem o seio das sociedades onde proliferam. É o caso dos Estados Unidos, por exemplo, onde o anúncio feito pela Microsoft no início do ano, de que demitiria mais de cinco mil funcionários por causa da crise, fez com que o senador republicano Chuck Grassley, de Iowa, escrevesse uma carta à empresa pedindo que seu executivo-chefe dispensasse primeiro trabalhadores estrangeiros com visto H-1B (de trabalho qualificado temporário): "A Microsoft tem uma obrigação moral de proteger os trabalhadores americanos ao priorizar seus empregos durante esses tempos difíceis", disse.

Organizações civis como a Coalizão para o Futuro do Trabalhador Americano (CFAW) - que reúne grupos anti-imigração – seguem na mesma linha. A CFAW iniciou neste ano uma campanha de TV associando o desemprego aos trabalhadores estrangeiros, como os com o visto H-1B.

Do outro lado do mundo, em Israel, o fortalecimento do partido neo-fascista Yisrael Beiteinu, liderado por Avigdor Lieberman, e seus mantras de "morte aos árabes", é outro exemplo de como a intolerância pode proliferar diante de nossos olhos. Contraposta aos radicais islâmicos que, da mesma forma entoam cânticos pela destruição de Israel, a recente guinada política israelense à direita foi igualmente temerosa.

Até nas redes sociais o fenômeno é identificável. As denúncias de xenofobia no site de relacionamentos Orkut, por exemplo, cresceram mais de 150% no segundo semestre de 2008 na comparação com os seis primeiros meses do ano, segundo a ONG SaferNet Brasil, que defende os direitos humanos na web.

No primeiro semestre do ano passado, a ONG recebeu 706 denúncias de crimes relacionados à xenofobia, contra 1.876 recebidas no segundo semestre, o que corresponde a um crescimento de 165,7%. O segundo maior aumento foi nos casos de homofobia, com 47,3% - passou de 567 denúncias (primeiro semestre de 2008) para 835 (segundo semestre). Na mesma comparação, as denúncias de neonazismo cresceram 28,2% e as de apologia e incitação a crimes contra a vida, 18,5%.

São as sementes do fascismo germinando, devagar, mas ininterruptamente.

Finalmente, vale dizer que a história caminha sem que estejamos dando a real importância aos fatos. Olhando o passado, nos chocamos hoje com o que este tipo de atitude permitiu: os holocaustos armênio e judeu, as grandes guerras (e as pequenas), os campos da fome de Stalin e as genocidas ditaduras comunistas do Oriente, as barbáries no continente africano etc. Olhando para trás nos perguntamos como foi possível às massas terem seguido Mussolini, Hitler, Stalin. Como permitiram?

Assim como aquelas pessoas deixaram a irracionalidade guiar seus desatinos, nada impede que, hoje, outros povos façam o mesmo. É fácil esquecermos os precedentes abertos, imaginando que estamos livres de tais barbaridades no futuro, mas o fato é que os crimes do passado tiveram início com os mesmos argumentos que hoje vemos proferidos por líderes mundiais: intolerância, ódio, xenofobia.

Todas as barbaridades começam com uma idéia que a muitos parece aceitável.

Frases

“Se você escreve, aparece um pouco, uma hora esbarra em Caetano Veloso, mesmo sem querer. Ou ele esbarra em você, já que gosta de falar sobre qualquer assunto, e o faz com especial graça quando comenta coisas sobre as quais não entende nada, como aquela personagem de uma música de Adoniran Barbosa.”

Reinaldo Azevedo, espetando Caetano Veloso, mas parecendo dar início a uma autobiografia (basta trocar Caetano por Tio Rei na citação acima).

Fotojornalismo

Húnngaras vestidas com roupas tradicionais depositam os votos em uma seção de votação em Veresegyhaz, cerca de 30 km da capital Budapeste. Foto da agência 3 de 6.

domingo, 7 de junho de 2009

sábado, 6 de junho de 2009

Fotojornalismo

Ontem, Dia Mundial do Meio Ambiente, um menino pula em um rio tomado pelo lixo, na cidade de Jacarta (Indonésia). Foto da Reuters.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Obama e o nó no Oriente Médio

O discurso que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez ontem no Cairo, no qual se dirigiu ao mundo islâmico em um tom de aproximação e de união de esforços na busca por relações mais fraternas, causou reações diversas mundo afora. No Brasil, a maioria dos articulistas que se debruçam sobre o Oriente Médio, considerou o pronunciamento positivo, dentro do possível.

Obama foi Obama e ocupou o centro, criando uma nova dinâmica política. Mas onde estão os outros Obamas capazes de superarem os ‘ciclos da suspeita e da discórdia’? O líder supremo do Irã, o aiatolá Khamenei, criticou o discurso antes mesmo que fosse feito. Está duro convocar mais gente para o meio de campo: o expansionista Netanyahu, os negacionistas do Hamas e Hezbollah, autocratas octogenários como o egípcio Mubarak e o rei saudita Abdullah ou mais jovens como o sírio Assad”, disse Caio Blinder argumentando que é preciso mais que palavras para solucionar o conflito na região.

Pedro Doria destacou a força da mensagem junto aos jovens muçulmanos: “É via Internet, com discursos gravados em áudio e em vídeo, que a al-Qaeda seduz mentes. É neste mercado que Obama decidiu entrar. Sua aposta é de que conseguirá plantar uma dúvida na mente de incontáveis jovens muçulmanos de 13, 16 ou 19 anos. Ele só precisa disso: plantar a dúvida”, afirmou.

Embora tenha se comprometido em “falar a verdade da melhor forma possível” o presidente deixou muita coisa fora do seu pronunciamento, como lembrou Gustavo Chacra, que sentiu falta de temas mais áridos: “Talvez Obama tenha deixado a desejar quando discutiu a importância da democracia. O presidente não teve coragem de bater de frente com as ditaduras travestidas de repúblicas ou de monarquias no Oriente Médio. Por que não falar que Hosni Mubarak deve deixar de reprimir a oposição no Egito e respeitar a Justiça? Ou que o rei Abdullah, da Arábia Saudita, deveria pelo menos permitir que as mulheres dirijam? Se israelenses e palestinos recebem recados diretos, os governos árabes também deveriam ser advertidos”. Ele também lembrou da omissão do presidente estadunidense sobre a Síria, a perseguição dos curdos na Turquia e dos Bahá’í no Irã.

Todos estes articulistas fizeram leituras corretas e apuradas sobre a fala de Obama. Mas foi Marcos Guterman quem levantou uma lebre importante ao questionar o alvo da mensagem do presidente. “A questão, primeiro, é deixar claro que não existe um ‘mundo islâmico’, mas vários, com divergências profundas entre si, maiores até do que as hostilidades em relação ao Ocidente...”.

De fato, o cerne do discurso proferido ontem por Obama indica que há, realmente, algumas tênues mudanças na estratégia da política americana para o Oriente Médio. Ele foi sincero em suas palavras. No entanto, suas análises e pré-suposições dão pistas de que as falhas desta política estão longe de serem sanadas. Obama falou da tensão entre a “América e o Islam” – o primeiro, um lugar concreto e identificável, o último, um grupo de povos, costumes, histórias e países que possuem menos em comum do que supõe o ocidente.

Rotulando estes povos como Islam (mesmo tendo feito isso com respeito e admitindo erros do passado), Obama deixa de compreender o que, de fato, tem mobilizado as pessoas em muitos países majoritariamente islâmicos: a esmagadora oposição popular ao aumento da intervenção militar, política e econômica que os estadunidenses têm patrocinado em muitos destes países. Esta oposição – e a resistência gerada por ela – é o que os que apóiam estas intervenções têm definido como Islam.

É desapontador que Obama tenha mantido a mesma noção que seu antecessor, George W. Bush, segundo a qual o “extremismo violento” surge do nada, sem nenhuma ligação com a violência aplicada na região pelos Estados Únicos e seus aliados antes e depois de 11 de Setembro de 2001.

Obama falou sobre o “enorme trauma” infringido aos Estados Unidos, quando cerca de três mil pessoas foram mortas naquele dia, mas não disse uma palavra sobre as centenas de milhares de órfãos e viúvas deixadas no Iraque – gente lembrada à força, ainda que por alguns segundos, pelo sapato voador do jornalista Muntazer al-Zaidi, ano passado. Obama ignorou as dúzias de civis que morrem a cada semana na “guerra necessária” que ocorre no Afeganistão, ou os milhões de refugiados criados pela escalada da violência no Paquistão.

Palestina

A leitura que Obama faz da questão palestino-israelense também tem deixado muitas lacunas importantes. Ontem, o presidente dos Estados Unidos propiciou a audiência uma detalhada aula sobre o holocausto e usou explicitamente este fato histórico para justificar a criação de Israel. “É também inegável”, disse o presidente, “que o povo palestino – muçulmanos e cristãos – tem sofrido na busca por sua pátria. Por mais de 60 anos eles têm sofrido a dor do desalojamento”.

Sofrido em busca de sua pátria? A dor do desalojamento? Eles já possuem uma pátria. Eles sofreram por terem sido vítimas de uma limpeza étnica, seguida da proibição de voltarem para as suas terras. Por que isso é algo tão difícil de ser dito? Obama disse aos palestinos que a ‘resistência por meio da violência e das mortes é errada e não pode ser bem sucedida’. Ele alertou-os de que ‘não é sinal de coragem ou poder atirar foguetes contra crianças adormecidas, ou explodir idosos em ônibus. Não é desta forma que a autoridade moral de fortalece, é desta forma que ela se enfraquece’. É verdade, mas será que Obama realmente imagina que estas palavras irão impressionar um público árabe que assistiu horrorizado Israel massacrar – com o uso de armamento estadunidense - 1400 pessoas em Gaza, em janeiro passado, incluindo aí centenas crianças que dormiam, gritavam ou corriam apavoradas?”, questionou Ali Abunimah, um dos fundadores da revista eletrônica The Electronic Intifada em artigo publicado no The Guardian.

Ontem, no Cairo, Obama disse: “Os Estados Unidos não aceitam a legitimidade da continuação dos assentamentos israelenses. Estas construções violam os acordos anteriores e minam os esforços de paz. É hora de colocar um fim nestes assentamentos”. São palavras cuidadosamente escolhidas, mas focam apenas a ampliação dos assentamentos, não a sua existência propriamente dita. Trata-se de um posicionamento compatível com o consenso da “indústria do processo de paz”, segundo o qual os assentamentos existentes permanecerão onde estão para sempre. “Isso levanta a questão sobre para onde Obama pensa que está indo”, opinou Abunimah.

As intenções de Obama podem ser boas, mas há necessidade de mais ação que palavras para se encontrar uma saída para as questões que se interpõem a paz na região. A questão palestina pode ser a chave para descobrirmos se Obama tem, de fato, intenção de encontrar a saída para este túnel escuro. Se depender de suas palavras, apenas, há muito a questionar.

Fotojornalismo

Resultado das comemorações do jogo Vasco e Corinthians, ontem, em São Paulo, cuja "confraternização" terminou com um torcedor morto a pauladas. Foto da Agência Lance.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O próspero e macabro sorriso chinês

Hoje faz 20 anos que o totalitarismo chinês assassinou cerca de 2600 jovens que protestavam por liberdades civis e pelo direito de expor livremente suas opiniões e sentimentos. Este sonho juvenil foi esmagado pela intolerância comandada por anacronismos humanos liderados por Deng Xiaoping. Hoje, a China continua um país repressor, onde os direitos civis e liberdades primordiais são negados aos seus cidadãos, embrutecidos por uma tênue visão de progresso econômico (nas cidades) e pela mão pesada do Estado (no campo).

Passadas duas décadas, a China é apontada como exemplo de desenvolvimento. Não é difícil nos depararmos com reportagens prontas a enaltecer o regime chinês e as benesses econômicas que ele propiciou para milhões de pessoas, retirando-as da linha de pobreza e inserindo-as em patamares sociais mais aceitáveis. Mas qual o preço deste avanço econômico?

Um dos jovens que liderou os protestos de 1989 – e que encabeçou a grave de fome que chamou a atenção do mundo para o movimento - Wuer Kaixi (que hoje vive em Taiwan) foi entrevistado pela revista eletrônica Guernica. Ele considera que o movimento ocorrido vinte anos atrás foi o pontapé inicial para a liberdade econômica que hoje permeia a sociedade chinesa, uma liberdade que, segundo ele, foi fruto de uma barganha feita pelo Governo Chinês junto à população do país.

Depois de 1989, o Partido Comunista Chinês decidiu fazer um acordo com o povo – de ter sua cooperação política em troca de liberdade econômica. E esse foi um péssimo negócio, pois estas liberdades, política e econômica, já eram um direito do povo. Mesmo assim o acordo funcionou. Os chineses toparam e o Partido Comunista se retirou da vida diária da população. Assim, não há mais um estado ideológico e esta é a única maneira de manter o povo chinês diante de alguma liberdade, ainda que seja apenas econômica”, afirmou Kaixi.

O que se esconde por detrás do “espetáculo chinês”, é uma face amedrontadora que muitas vezes nos recusamos a encarar.

Nos recusamos a questionar os motivos pelos quais dos 3.220 cidadãos chineses com um patrimônio pessoal de mais de US$ 13 milhões, 2.932 são filhos de funcionários de alto escalão do Partido Comunista. Não perguntamos por que de todas as posições-chave nos cinco ramos da economia chinesa - finanças, comércio exterior, grandes projetos imobiliários, grandes projetos de engenharia e ações -, de 85% a 90% estão nas mãos de filhos de membros importantes do PC. Nos calamos sobre os campos de trabalho forçado em que as pessoas desaparecem sem julgamento e sobre a tortura perpetrada pelo pessoal dos órgãos de segurança. Baixamos a cabeça e seguimos rumo ao brilho do ouro ignorando que o sistema político chinês é responsável por 30 milhões de mortes por fome durante o Grande Salto Adiante e por 750 mil a 1 milhão de assassinatos políticos durante a Revolução Cultural.

Para as potencias ocidentais, cada vez mais interdependentes do que a China lhe provê e consome, o melhor é fazer vista grossa para uma realidade funesta que nos mostra que cada novo elemento de reforma ou transição na sociedade chinesa faz com que os membros do partido enriquecem ainda mais, que nos aponta que a transformação de propriedade rural em urbana na China bem poderia ser classificada como "pilhagem sistemática" já que os membros regionais do partido investem pesadamente nas minas de carvão - pequenas e inseguras - que deveriam estar fechando, sem que se saiba ao menos como adquiriram sua participação nessas operações.

Falamos de ‘governo’ chinês sem nenhuma qualificação, quando mais de 95% dos ‘líderes’ são membros do partido, decisões fundamentais são tomadas por membros de comitês do partido e o pessoal da Comissão Militar Central é 100% igual ao da Comissão Militar Central do Partido Comunista. O governo chinês governa ou apenas aplica as decisões tomadas pelo partido? É correto aproximar o ‘governo’ chinês de outros, especialmente dos ocidentais, pelo simples uso da palavra ‘governo’, ou seria mais exato chamá-lo de ‘governo com características chinesas’ ou a ‘chefia da Máfia’?”, questionou o economista americano Carsten Holz, professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, em artigo publicado em 2007 no Far Eastern Economic Review (aqui em português).

Nos próximos anos a economia da China vai ultrapassar a dos EUA em termos de paridade de poder de compra. “Mas o Ocidente entende esse país e seus governantes? Em que ponto, e por que canais, a liderança do Partido Comunista, com sua visão diferente sobre direitos humanos e dos cidadãos, vai afetar nossas escolhas sobre organizações políticas e liberdades políticas no Ocidente, como já afetou a pesquisa e o ensino acadêmicos?”, volta a questionar Holz.

O fato é que, para as grandes potências ocidentais, a China é um totalitarismo aceitável, assim como o é a Arábia Saudita. Hipocrisia bem exemplificada durante as Olimpíadas de Pequim (2008), um show de aparências que, ainda assim, não conseguiu esconder a verdadeira face de uma nação que por detrás dos avanços econômicos esconde repressão e desigualdade.

A mesma China que sorriu para o mundo através das belas imagens do esporte mantém fábricas onde se trabalha 100 horas semanais por salários ínfimos, patrocina o crescimento econômico em troca de um “socialismo de mercado” com características fascistas (onde as liberdades individuais são apenas idéias vagas), insiste em censurar a imprensa e impõe a países vizinhos, como o Tibet, sua vontade através da baioneta.

Fotojornalismo

O espanhol Miguel Ángel Perera foi atingido ontem durante tourada na arena Monumental de Las Ventas, em Madri. Apesar do susto, o toureiro não ficou ferido. Não sei quanto a vocês, mas eu sempre torço pelo touro. Foto da EFE.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Churnalismo e o desastre da AirFrance

Alertado no twitter pelo jornalista Marcelo Soares fui verificar uma notícia do JB Online intitulada “Ambientalista baiana diz que buraco negro engoliu o avião”. Trata-se de um excelente exemplo de “churnalismo”.

O termo, criado pelo jornalista Nick Davies a partir da expressão "churn out" (algo como "fazer nas coxas"), define um jornalismo feito sem apuração, baseado na reprodução de notícias produzidas, também, com pouco compromisso (leia o artigo “Churnalism has taken the place of what we should be doing: Telling the truth” para se aprofundar no tema).

A seguir, a “notícia” publicada no portal do JB às 15h56 do dia 1º de junho:

A “reportagem”, publicada sem assinatura, é uma mostra das besteiras que circulam pelo ambiente virtual. O mais grave, porém, é que neste caso a besteira foi mal escrita e, pior, publicada em um site jornalístico que, entre outras coisas, deveria primar pelo respeito à inteligência de seus leitores.

Marcelo Soares já falou algumas vezes sobre o “churnalismo”. Um post seu (O churnalismo e o submercado), de 2008, assinala muito bem o fenômeno no que ele tem de mais estúpido, a prática do ctrl c x ctrl v.