No último dia 26 publiquei aqui o artigo "Assessoria de imprensa é uma coisa, Jornalismo é outra", relatando uma conversa que tive com os alunos do quarto ano de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) a respeito de assessoria de imprensa. O artigo foi reproduzido ontem no Observatório da Imprensa. Para ler por lá, clique aqui.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Frases
“É impossível alguém apoiar a ditadura cubana e gostar da internet ao mesmo tempo”
Gravataí Merengue
Gravataí Merengue
terça-feira, 2 de junho de 2009
Microsoft, Google e AOL ajudam ditadores
As grandes empresas que dominam a internet deram uma grande colaboração aos regimes ditatoriais mundo afora. Na semana passada, a Microsoft anunciou o bloqueio do MSN em países embargados economicamente pelos Estados Unidos. Hoje, empresas como Google e AOL afirmarem que também vão restringir o acesso aos seus produtos para a Síria, Irã, Cuba, Sudão e Coréia do Norte, países que estão na lista negra estadunidense.
Há duas questões interessantes a serem analisadas. A primeira é o caráter ideológico da rede, uma pá de cal sobre os que imaginam inocentemente que o poder político-econômico (seja da matiz ideológica que for) não pode cercear a liberdade - ainda anárquica - que permeia o mundo virtual. Eles podem, sim, e farão isso.
O jornal cubano Juventud Rebelde, do órgão oficial cubano para a Juventude, levantou uma questão interessante ao dizer que "o mais paradoxal é que a medida seja tomada precisamente por uma empresa como a Microsoft". Afinal, ao lançar o MSN uma década atrás, a empresa “espalhou aos quatro ventos que este se dedicaria a fomentar a troca 'livre' entre as pessoas, sem distinção de raça, credo, crenças políticas ou qualquer outro elemento discriminatório". Balela.
Mas, incoerência maior é que o embargo digital tem por objetivo enfraquecer as estruturas de países considerados pelos estadunidenses como ameaças a democracia e ao bem estar entre os países. Ora, ao bloquear o serviço, Washington faz exatamente o contrário, visto que a internet, ainda que controlada nestas ditaduras, é o grande campo para a livre circulação de informações dos que enfrentam o totalitarismo.
A blogeira cubana Yoani Sánchez resumiu a ópera.
“Há cerca de três anos uma amiga me infiltrou no escritório governamental em que trabalhava para que eu pudesse me contatar a internet. Queria escrever um artigo e me faltavam alguns dados, motivo pelo qual lhe pedi alguns minutos no obsoleto computador da empresa. Eram os tempos em que eu fingia ser turista para acessar a rede nos hotéis, mas naquela semana me faltavam os pesos com que pagar uma hora de acesso. Minha amiga me mostrou uma lista de acessos proibidos nesta conexão institucional e alertou que o MSN estava entre eles... Agora a proibição vem de outro lado, exatamente da parte de quem construiu um programa que nos ajudava a escapar do controle. Sinto que com ele (o embargo) saímos perdendo nós, cidadãos, já que nossos governantes têm seus próprios canais de comunicação com o resto do mundo. Trata-se, claramente, de um golpe contra os internautas, contra os ‘foragidos da rede’, nós que acessamos a internet em Cuba. Com certeza, na empresa em que trabalha minha amiga, o censor que monitora as conexões deve estar de férias: a Microsoft acaba de fazer o trabalho por ele”.
Há duas questões interessantes a serem analisadas. A primeira é o caráter ideológico da rede, uma pá de cal sobre os que imaginam inocentemente que o poder político-econômico (seja da matiz ideológica que for) não pode cercear a liberdade - ainda anárquica - que permeia o mundo virtual. Eles podem, sim, e farão isso.
O jornal cubano Juventud Rebelde, do órgão oficial cubano para a Juventude, levantou uma questão interessante ao dizer que "o mais paradoxal é que a medida seja tomada precisamente por uma empresa como a Microsoft". Afinal, ao lançar o MSN uma década atrás, a empresa “espalhou aos quatro ventos que este se dedicaria a fomentar a troca 'livre' entre as pessoas, sem distinção de raça, credo, crenças políticas ou qualquer outro elemento discriminatório". Balela.
Mas, incoerência maior é que o embargo digital tem por objetivo enfraquecer as estruturas de países considerados pelos estadunidenses como ameaças a democracia e ao bem estar entre os países. Ora, ao bloquear o serviço, Washington faz exatamente o contrário, visto que a internet, ainda que controlada nestas ditaduras, é o grande campo para a livre circulação de informações dos que enfrentam o totalitarismo.
A blogeira cubana Yoani Sánchez resumiu a ópera.
“Há cerca de três anos uma amiga me infiltrou no escritório governamental em que trabalhava para que eu pudesse me contatar a internet. Queria escrever um artigo e me faltavam alguns dados, motivo pelo qual lhe pedi alguns minutos no obsoleto computador da empresa. Eram os tempos em que eu fingia ser turista para acessar a rede nos hotéis, mas naquela semana me faltavam os pesos com que pagar uma hora de acesso. Minha amiga me mostrou uma lista de acessos proibidos nesta conexão institucional e alertou que o MSN estava entre eles... Agora a proibição vem de outro lado, exatamente da parte de quem construiu um programa que nos ajudava a escapar do controle. Sinto que com ele (o embargo) saímos perdendo nós, cidadãos, já que nossos governantes têm seus próprios canais de comunicação com o resto do mundo. Trata-se, claramente, de um golpe contra os internautas, contra os ‘foragidos da rede’, nós que acessamos a internet em Cuba. Com certeza, na empresa em que trabalha minha amiga, o censor que monitora as conexões deve estar de férias: a Microsoft acaba de fazer o trabalho por ele”.
Medo do mouse
O pavor que os poderosos e os totalitários nutrem pela informação livre e sem rabo preso é terrível. Os stalinistas costumam condenar este o aquele veículo de comunicação dizendo que ele está comprometido com a direita ou com poder econômico. Os liberalóides, por sua vez, condenam e pedem o empastelamento moral dos veículos que apóiam a esquerda e tudo mais que se encaixe dentro deste rótulo tão pouco claro nos dias de hoje. O fato é que a informação deve ser livre, gostemos dela ou não, e livres devemos ser para constituir veículos de comunicação, desagrade A ou B. O “postal” acima é parte de uma interessante campanha da International Society for Human Rights. Pincei do Ponto Cego, que viu no Brogui.segunda-feira, 1 de junho de 2009
Tupã e Javé: ou, como transformar a religião em arma política
Na semana passada questionei aqui (Somos obrigados a aceitar o catolicismo como religião oficial?) uma Lei aprovada em primeira instância pelo Knesset (Parlamento de Israel) prevendo um ano de prisão aos cidadãos israelenses que se negarem a aceitar Israel como um Estado judaico.
Tenham cuidado com as armadilhas...
Explico: qualquer um que questione o direito de Israel existir enquanto Estado soberano deve ser interpelado, assim como deve ser enquadrado qualquer um que questione este direito ao Brasil, a França, a Chechênia ou ao Uzbequistão. No entanto, alguém pode obrigar um judeu brasileiro a aceitar que o Brasil é um Estado Católico e ameaçar de puni-lo com um ano de prisão caso ele se recuse abrir mão de suas convicções religiosas e nacionais? Alguém pode obrigar um católico francês a aceitar que a França é um Estado budista, ou que o Japão é uma nação oficialmente muçulmana sob a pena de ir para a cadeia caso não assine um documento aceitando esta imposição?
É este tipo de arbitrariedade que o Knesset quer impor aos cidadãos israelenses que professam outra fé que não o judaísmo.
A Lei vai muito além. Quer transformar em crime, também, as comemorações de um fato histórico, reconhecido por historiadores de todo o mundo: a Nakba (tragédia), forma com que os palestinos se referem à expulsão de cerca de 700 mil muçulmanos e cristãos durante a criação do Estado de Israel, em maio de 1948. É, mais ou menos, como se o Estado brasileiro resolvesse proibir as comemorações relativas à Zumbi dos Palmares.
Meu querido amigo - e titular do blog O Mal Humorado – Luiz Felipe Vasques, levantou algumas questões sobre o tema sob uma argumentação de que a questão não passa pela religião. Diz ele: “Não dá pra dizer que ser judeu é uma questão de religião”, completando ao afirmar que “há judeus declaradamente ateus e declaradamente judeus - e alguém aqui vai chegar para esse judeu ateu e dizer que ele não é judeu? Não funciona assim, portanto, essa redução.”.
Vasques leva o argumento para uma questão de identidade social ao complementar dizendo que: “A coisa já passa por uma identidade cultural e histórica, com uma linhagem bem estabelecida e reconhecível -- não passa por ai o conceito de Nação, aliás? Se não, um conceito para povo, pelo menos. O povo judeu.”.
Ora, partindo deste ponto, poderíamos comparar brasileiros e judeus. Poderíamos comparar os brasileiros originais, os nativos indígenas, aos judeus. Afinal, assim como os judeus, que possuem “uma identidade cultural e histórica, com uma linhagem bem estabelecida e reconhecível”, os nossos índios também a possuem. Que tal usarmos isso para justificar a implantação de uma sociedade tribal por aqui e ameaçarmos de prisão àqueles que se recusem a aceitar que Tupã é o manda-chuva? Afinal eles estão aqui há muito mais que dois mil anos.
Meu amigo diz também que os judeus formavam “uma nação apátrida, que finalmente encontrou um porto baseado em raízes históricas”. É verdade. O conceito de povo judeu existe há milênios e ter encontrado para este povo uma pátria em que pudesse desenvolver seus valores comuns, longe da perseguição dos que os reprimiam em sua fé, foi uma ação civilizatória. O problema ocorre quando os oprimidos se transformam em opressores, obrigando seus compatriotas a aceitarem que um ente estatal tenha como base a religião, pior, a religião que não professam.
Conceito de nação: povo
Israel é lar de uma população diversificada, com os mais variados antecedentes étnicos, religiosos, culturais e sociais. De seus mais de 5,5 milhões de habitantes, 81% são judeus (mais da metade nascidos no país, os demais provenientes de cerca de 70 países de todo o mundo), 17,3% são árabes (em sua maioria muçulmanos) e os restantes 1,7% incluem drusos, circassianos e outras pequenas comunidades.
A população não-judaica de Israel conta com mais de um milhão de pessoas, que representam 19% da população (a quem diga que este percentual chega a 24%). Definidos coletivamente como “cidadãos árabes de Israel” eles incluem vários grupos distintos que, embora basicamente sejam todos de fala árabe, possuem diferentes características.
Os árabes muçulmanos, que somam hoje mais de 815 mil pessoas, em sua maioria sunitas, constituem 76% da população não-judaica. Os beduínos formam cerca de 10% da população muçulmana. Os árabes cristãos, cerca de 160 mil, são o segundo grupo minoritário de Israel. A maioria deles pertence às igrejas greco-católica (42%), greco-ortodoxa (32%) e católica-romana (16%). Os drussos, cerca de 95 mil, são uma comunidade distinta do ponto de vista cultural, social e religioso. Os circassianos somam pode volta de 3 mil pessoas. São muçulmanos sunitas, embora não compartilhem a origem árabe e cultural da comunidade islâmica de Israel.
Como impor a estas pessoas - que são cidadãos israelenses e não professam a fé judaica - a aceitação de que o estado em que vivem é um “estado judeu” (no sentido religioso mesmo, e não étnico)? Que democracia é esta que os israelenses costumam citar quando se comparam aos seus vizinhos árabes?
Vasques finaliza seu comentário dizendo “viva a diversidade”. Eu assino embaixo.
Tenham cuidado com as armadilhas...
Explico: qualquer um que questione o direito de Israel existir enquanto Estado soberano deve ser interpelado, assim como deve ser enquadrado qualquer um que questione este direito ao Brasil, a França, a Chechênia ou ao Uzbequistão. No entanto, alguém pode obrigar um judeu brasileiro a aceitar que o Brasil é um Estado Católico e ameaçar de puni-lo com um ano de prisão caso ele se recuse abrir mão de suas convicções religiosas e nacionais? Alguém pode obrigar um católico francês a aceitar que a França é um Estado budista, ou que o Japão é uma nação oficialmente muçulmana sob a pena de ir para a cadeia caso não assine um documento aceitando esta imposição?
É este tipo de arbitrariedade que o Knesset quer impor aos cidadãos israelenses que professam outra fé que não o judaísmo.
A Lei vai muito além. Quer transformar em crime, também, as comemorações de um fato histórico, reconhecido por historiadores de todo o mundo: a Nakba (tragédia), forma com que os palestinos se referem à expulsão de cerca de 700 mil muçulmanos e cristãos durante a criação do Estado de Israel, em maio de 1948. É, mais ou menos, como se o Estado brasileiro resolvesse proibir as comemorações relativas à Zumbi dos Palmares.
Meu querido amigo - e titular do blog O Mal Humorado – Luiz Felipe Vasques, levantou algumas questões sobre o tema sob uma argumentação de que a questão não passa pela religião. Diz ele: “Não dá pra dizer que ser judeu é uma questão de religião”, completando ao afirmar que “há judeus declaradamente ateus e declaradamente judeus - e alguém aqui vai chegar para esse judeu ateu e dizer que ele não é judeu? Não funciona assim, portanto, essa redução.”.
Vasques leva o argumento para uma questão de identidade social ao complementar dizendo que: “A coisa já passa por uma identidade cultural e histórica, com uma linhagem bem estabelecida e reconhecível -- não passa por ai o conceito de Nação, aliás? Se não, um conceito para povo, pelo menos. O povo judeu.”.
Ora, partindo deste ponto, poderíamos comparar brasileiros e judeus. Poderíamos comparar os brasileiros originais, os nativos indígenas, aos judeus. Afinal, assim como os judeus, que possuem “uma identidade cultural e histórica, com uma linhagem bem estabelecida e reconhecível”, os nossos índios também a possuem. Que tal usarmos isso para justificar a implantação de uma sociedade tribal por aqui e ameaçarmos de prisão àqueles que se recusem a aceitar que Tupã é o manda-chuva? Afinal eles estão aqui há muito mais que dois mil anos.
Meu amigo diz também que os judeus formavam “uma nação apátrida, que finalmente encontrou um porto baseado em raízes históricas”. É verdade. O conceito de povo judeu existe há milênios e ter encontrado para este povo uma pátria em que pudesse desenvolver seus valores comuns, longe da perseguição dos que os reprimiam em sua fé, foi uma ação civilizatória. O problema ocorre quando os oprimidos se transformam em opressores, obrigando seus compatriotas a aceitarem que um ente estatal tenha como base a religião, pior, a religião que não professam.
Conceito de nação: povo
Israel é lar de uma população diversificada, com os mais variados antecedentes étnicos, religiosos, culturais e sociais. De seus mais de 5,5 milhões de habitantes, 81% são judeus (mais da metade nascidos no país, os demais provenientes de cerca de 70 países de todo o mundo), 17,3% são árabes (em sua maioria muçulmanos) e os restantes 1,7% incluem drusos, circassianos e outras pequenas comunidades.
A população não-judaica de Israel conta com mais de um milhão de pessoas, que representam 19% da população (a quem diga que este percentual chega a 24%). Definidos coletivamente como “cidadãos árabes de Israel” eles incluem vários grupos distintos que, embora basicamente sejam todos de fala árabe, possuem diferentes características.
Os árabes muçulmanos, que somam hoje mais de 815 mil pessoas, em sua maioria sunitas, constituem 76% da população não-judaica. Os beduínos formam cerca de 10% da população muçulmana. Os árabes cristãos, cerca de 160 mil, são o segundo grupo minoritário de Israel. A maioria deles pertence às igrejas greco-católica (42%), greco-ortodoxa (32%) e católica-romana (16%). Os drussos, cerca de 95 mil, são uma comunidade distinta do ponto de vista cultural, social e religioso. Os circassianos somam pode volta de 3 mil pessoas. São muçulmanos sunitas, embora não compartilhem a origem árabe e cultural da comunidade islâmica de Israel.
Como impor a estas pessoas - que são cidadãos israelenses e não professam a fé judaica - a aceitação de que o estado em que vivem é um “estado judeu” (no sentido religioso mesmo, e não étnico)? Que democracia é esta que os israelenses costumam citar quando se comparam aos seus vizinhos árabes?
Vasques finaliza seu comentário dizendo “viva a diversidade”. Eu assino embaixo.
Os 10 mais de Maio
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