Semana On

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Olho por olho, pedra por pedra e todos se lixando

O Supremo Tribunal Federal (STF) “se lixou” para o deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), que queria voltar a relatar o processo por quebra de decoro parlamentar contra o deputado Edmar Moreira (sem partido-MG) depois de ter dito que “está se lixando” para a opinião pública.

Liberman vem aí... em que ele se difere de Ahmadinejad?

O ministro das relações exteriores de Israel, Avigdor Liberman, visitará o Brasil em julho. O anúncio foi feito ontem pelo chanceler Celso Amorim. Liberman é o líder do partido ultra-direitista Yisrael Beitenu (Israel é nosso lar), que prega abertamente a segregação dos árabes, entre outras barbaridades, e que tem no sionismo a sua base ideológica ao defender o caráter judaico de Israel como um país governado por judeus para judeus e não um país no qual a diversidade – base de qualquer democracia – seja cultivada.

Como o Paquistão e a Arábia Saudita, Israel é um Estado cujo mundo mental é, em larga medida, limitado pela religião, pela raça e pela origem étnica. Israel é produto do nacionalismo estreito do século 19, um nacionalismo fechado e excludente, baseado na origem étnica e racial, em sangue e terra. Israel é um ‘Estado judeu’ e só é judeu quem nasça judeu ou converta-se conforme a lei judaica (Halakha)”, disse recentemente o jornalista israelense Uri Avnery, no artigo "On The Wrong Side" (aqui, em português). Para ele “o partido de Liberman, que em qualquer país normal seria identificado como partido fascista, cresce” na preferência dos israelenses, pois "Liberman fala como Mussolini, oferece a imagem de um Mussolini israelense, odeia árabes, é capaz de todas as brutalidades.”, explica o jornalista.

Avnery não esta sozinho nesta análise. Logo depois das eleições de fevereiro, Shulamit Aloni, 80 anos, veterana da guerra de 1948 (que levou à criação de Israel), fundadora do partido social democrata Meretz e ministra da Educação no governo de Itzhak Rabin disse disse à jornalista basileira Guila Flint, correspondente da BBC em Tel Aviv, que a força adquirida por Liberman e seu partido é um pesadelo. "O resultado das eleições me deixaram com raiva, medo e vergonha, ao ver que um fascista e racista como Liberman tem as chaves para a composição do novo governo. Em 1948, eu lutei para construir um país democrático, com igualdade de direitos para todos os cidadãos. É como um pesadelo para mim ver que um discurso fascista como o de Mussolini passa a ter tanta legitimidade no nosso mapa político".

Também entrevistado por Guila, o sociólogo Lev Grinberg, da Universidade Ben Gurion, afirmou que "Liberman baseou toda a sua campanha em sentimentos de medo e ódio aos árabes, e foi favorecido pelo clima de guerra que se criou em Israel durante a recente ofensiva à Faixa de Gaza. Como um fascista clássico, ele se aproveitou dos medos da população e incentivou o ódio".

Liberman representa uma tendência preocupante da opinião pública israelense, que tem adotado uma postura permissiva e até mesmo simpática aos discursos belicistas e racistas. Recentemente apontei este fato no artigo “É lícito aos israelenses apoiarem o racismo e a intolerância?”, no qual citei um relatório (de março de 2008) da ONG israelense Mossawa, que já destacava este fenômeno.

Além de acusar líderes políticos israelenses de criarem um clima de "legitimação ao racismo" contra os cidadãos árabes - que representam 20% da população do país – o relatório mostrava que 75% dos cidadãos judeus israelenses não estavam dispostos a morar no mesmo prédio com um vizinho árabe e que 61% deles não receberiam a visita de árabes em sua casa. O estudo indicava também que 55% dos entrevistados defendiam a separação entre judeus e árabes nos espaços de lazer e 69% dos estudantes secundários achavam que os árabes "não são inteligentes".

No documento são citados ministros e parlamentares que "baseiam sua força em posições de ódio e incitam ao racismo". O político mais citado é Avigdor Liberman.

E o que defende o ministro das Relações Exteriores de Israel?

Em suas próprias palavras: "Os árabes israelenses são um problema ainda maior do que os palestinos e a separação entre os dois povos deverá incluir também os árabes de Israel... por mim eles podem pegar a baklawa (doce árabe típico) deles e ir para o inferno".

Para Liberman, Israel deve "trocar" as aldeias árabes israelenses pelos assentamentos nos territórios ocupados, ou seja, as aldeias árabes passariam a fazer parte de um estado palestino e os assentamentos seriam anexados a Israel.

Importante dizer que os árabes israelenses a que se refere o ministro são cidadãos israelenses, da mesma forma que eram cidadãos alemães muitos dos judeus expulsos de suas casas por Hitler e enviados para o exílio forçado e para os campos da morte.

O jornalista Paulo Moreira Leite, no artigo “Ministro israelense tem ideias que lembram nazismo”, faz uma brilhante relação entre o que está ocorrendo em Israel e um passado tenebroso. “Em 1935, dois anos depois da ascensão de Hitler ao poder, foram aprovadas as primeiras leis de Nuremberg. Elas não criaram campos de concentração nem câmaras de gás, mas dividiam a população alemã em duas categorias. A dos cidadãos de ‘puro sangue alemão’, que tinham todos os seus direitos assegurados. Os outros, que não tinha a mesma origem, eram considerados ‘súditos do Estado’.”.

Quem é melhor, Liberman ou Ahmadinejad?

Diante de um currículo como este, seria interessante questionar aos que levantaram cartazes e publicaram artigos contra a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil, se não seria de bom tom fazer o mesmo agora, em relação à visita de Liberman.

A pergunta é apenas uma provocação, pois estes que condenaram a vinda de Ahmadinejad, costumam usar dois pesos e duas medidas e certamente encontrarão caminhos tortuosos para demonizar o iraniano e absolver o israelense. Mas, por mais que se tente, é tarefa hercúlea apontar diferenças éticas entre os dois.

Ahmadinejad preside um país onde os direitos humanos não são respeitados, onde minorias religiosas, homosexuais e mulheres são discriminadas. Lierberman integra um governo que não respeita os direitos humanos dos palestinos, que lhes nega o direito a um Estado e que prega a ampliação de assentamentos ilegais.

No entanto, fechar as portas ao debate é vantagem apenas para os que precisam maquiar a história para atingerem seus objetivos. O isolamento nunca foi uma boa estratégia para quem busca os fatos. Portanto, que venham os dois. E que nossos jornalistas sejam hábeis com as perguntas, que lhes dirijam questionamentos sobre assuntos que lhes são ingratos, e não se transformem em assessores de imprensa de seus entrevistados, como ocorreu com André Petry na edição da revista da Veja desta semana, em sua entrevista com Elie Wiesel.

Conselho de Segurança mostra preocupação com relatório da ONU sobre Gaza

O Conselho de Segurança (CS) da ONU expressou nesta quarta-feira preocupação com as conclusões do relatório de uma comissão do organismo no qual se acusa a Israel de "negligência e imprudência" pelo bombardeio de instalações da organização durante o conflito de Gaza. Veja mais na Folha.

Fotojornalismo

Tirei esta foto em 2002, no ponto de checagem de Al-Ram, na Cisjordânia. Todos os pontos de checagem haviam sido fechados por tropas israelenses e estas mulheres protestavam pela sua abertuta, de modo que comida e medicamentos pudessem ser transportados. Uma hora antes, um grupo de homens havia protestado, mas os soldados sacaram seus bastões. Então, as mulheres – palestinas e israelenses – tomaram a dianteira.

À esquerda há uma linha de soldados israelenses; o homem que está à frente, com as mãos nos bolsos, é um policial. Eu estava atraído pela segunda jovem do lado direito, com a mão erguida formando com os dedos um V de vitória. Ela manteve o braço erguido desta maneira por um longo tempo, ao menos 30 minutos – até que os soldados começaram a disparar gás lacrimogêneo.

Pode-se ver a imprensa ao fundo. Não gosto de trabalhar em posições seguras como esta. Tenho fotografado em Israel e na Cisjordânia desde 1967. Esta foto é simbólica para mim e no ano passado eu a inclui em meu filme Nakba (Catástrofe), que reúne centenas de fotografias e entrevistas com palestinos desalojados após 1948.

Como estudante, no Japão, eu era muito idealista. Li o filósofo judeu Martin Buber e decidi trabalhar em um kibbutz israelense. Um dia, achei alguns projéteis em um campo nas proximidades do kibbutz e perguntei de onde eles teriam vindo. Ninguém soube responder – então um jovem judeu mostrou-me um velho mapa que apresentava um nome palestino para o local onde nós estávamos trabalhando.

Comecei a fotografar as ruínas dos vilarejos palestinos e exibi as fotos em Jerusalém, em uma mostra chamada “Segurança”. Houve uma resposta raivosa: pessoas queriam saber sobre a segurança de quem eu me referia. No entanto, um registro no livro de visitas da mostra, de autoria de um estudante israelense, dizia: "Em israel nós só ouvimos um lado da história; estas fotografias nos mostram o outro lado”. Estive na Palestina 30 ou 40 vezes, mais recentemente em Gaza, em janeiro. Isso é o que tenho tentado mostrar.


• O trabalho do fotógrafo Ryuichi Hirokawa esteve exposto em Londres este mês, como parte do Palestine Film Festival. O texto acima foi publicado originalmente no The Guardian.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Amira Hass é presa ao deixar Gaza: ela estava em um “país inimigo”

A polícia israelense prendeu na noite de segunda-feira a correspondente do jornal Haaretz, Amira Hass, no momento em que ela saia da Faixa de Gaza, onde vivia e trabalhava nos últimos meses. Hass foi detida e interrogada com base em uma lei que proíbe que israelenses mantenham residência em “países inimigos”. Ela foi liberada após se comprometer a não voltar a Faixa de Gaza pelos próximos 30 dias.

O fato é curioso, visto que não há, de fato, um Estado Palestino, e corrobora a idéia de que o governo de Israel se vê em guerra com os palestinos enquanto povo, e não em conflito com grupos extremistas. Esta filosofia pode explicar o pouco caso que o exército e o governo de Israel têm para com a morte de civis durante os conflitos nos territórios palestinos ocupados.

Hass é a primeira jornalista israelense a entrar na Faixa de Gaza nos últimos dois anos, desde que as Forças de Defesa de Israel impuseram a proibição após o seqüestro do soldado israelense Gilad Shalit, em 2006, durante uma incursão militar contra militantes palestinos.

Em dezembro passado, ela já havia sido presa no ponto de checagem de Erez, ao tentar retornar à Israel após ter entrado na Faixa de Gaza a bordo de um navio guiado por ativistas europeus que trabalham pela paz na região.

Dalia Dorner, do Conselho de Imprensa de Israel, disse que “mesmo jornalistas são sujeitos à lei e que o Conselho não pode defender uma jornalista que viola as leis. Interessante o conceito”.

Novamente fico curioso, desta vez em saber o que pensariam desta frase os jornalistas sul-africanos que combateram o regime do apartheid, ou os brasileiros que atuaram durante a ditadura.

Para um jornalista, obediência cega às leis pode não ser um bom negócio.

Papa defende criação de Estado Palestino e o fim do Muro de Israel

O Papa Bento XVI expressou ontem o seu apoio à criação de um Estado Palestino autônomo e independente. No terceiro dia de visita à Terra Santa, ele reuniu-se a Cisjordânia com o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, onde também condenou o polêmico muro de separação construído por Israel, que isola os povoados palestinos dos assentamentos ilegais (de acordo com a ONU e a Lei Internacional) construídos nos territórios ocupados por Israel depois da guerra dos Seis Dias, em 1967.

"Senhor presidente, a Santa Sé apóia o direito do povo a uma pátria palestina soberana na terra de seus ancestrais, segura e em paz com os vizinhos, dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas... Atualmente este objetivo está longe de ser alcançado, eu os convido com força a manter a chama da esperança, a esperança de que se pode encontrar o meio de satisfazer as legítimas aspirações, tanto de israelenses como de palestinos, a paz e a estabilidade", afirmou o Papa.

O presidente da ANP também ressaltou a necessidade de "dois Estados soberanos, que vivam um ao lado do outro, em paz e estabilidade, e pediu uma solução para o problema dos refugiados".

"Queremos a paz e temos a esperança de que amanhã não haverá ocupação, postos de bloqueio, prisioneiros ou refugiados, mas somente convivência e bem-estar", disse Abbas, que mais uma vez reivindicou Jerusalém Oriental como capital do Estado palestino.

Fotojornalismo

Com seu irmão nas costas, uma jovem refugiada cruza com um tanque M-26 em Haengju, Coréia, em 9 de junho de 1951. Foto do major R.V. Spencer, UAF. A foto faz parte de um interessante acervo sobre o tema que pode ser acessado aqui.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Não vadeia...

O governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), chamou de “vagabundo” o presidente do Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol) do estado, Paulo Flávio Carvalho, durante discurso proferido na noite de segunda-feira, na cidade de Nova Andradina, onde participou de solenidade de entrega de viaturas policiais.

Esta não é a primeira vez que Puccinelli perde a compostura ao usar as palavras. Em 2005, pouco antes de ser eleito governador, disse que iria “chutar na bunda dos deputados vagabundos”, provocando a ira da bancada petista na Assembléia Legislativa de MS.

No dia 21 de novembro do ano passado, em entrevista à Rede Brasil de Televisão e à Agência Brasil, definiu como “vadiagem” as reivindicações de aumento do tempo de planejamento de aulas para 1/3 da carga horária de trabalho dos professores. Na época, poucos veículos de comunicação deram a notícia, justiça seja feita ao sites de notícias Midiamax e Cassilândia News (que reproduziu o material do Mídiamax). Os demais veículos preferiram o silêncio.

Desta vez, o Midiamax e o BBC News noticiaram os impropérios do governador.

Fotojornalismo

O fotógrafo Wank Carmo registra o movimento humano em Boa Vista- Roraima – Amazônia - , com suas festas juninas, a Festa do Divino Espírito Santo 2008 e o Tambor-de -Crioula na adocicada praia grande, em São Luis do Maranhão, além das festas religiosas em Cuiabá. Veja a série aqui.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Elie Wiesel: o discurso da hipocrisia venceu

A revista Veja desta semana trás em suas páginas amarelas uma entrevista com o intelectual Elie Wiesel (aqui, para assinantes). Laureado em 1986 com o Nobel da Paz por sua luta para manter viva a memória do holocausto judeu perpetrado pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, Wiesel é conhecido também por se omitir sistematicamente sobre a questão palestina.

Considerado em alguns círculos como um “grande humanista”, ele parece guardar sua compaixão apenas para os seus. Ícone do que Norman Finkelstein classificou como Indústria do Holocausto (em seu livro homônimo), o nobel da paz já foi classificado pelo pensador estadunidense Noam Chomsky como uma “terrível fraude”.

Certa vez Wiesel disse que “o oposto do ódio não é a violência, mas a indiferença”. No entanto, na entrevista cometida por André Petry a tônica foi exatamente a indiferença. Indiferença por parte do entrevistado, que mais uma vez usou dois pesos e duas medidas para tratar da questão que envolve israelenses e palestinos, indiferença por parte do jornalista, que se omitiu.

O mesmo Elie Wiesel para quem a Veja levantou uma bola atrás da outra em um jornalismo de quinta categoria, mantém-se em silêncio cômodo quando o assunto permeia a criação de um Estado Palestino, as políticas ilegais de expansão colonial sobre territórios palestinos ou as constantes violações de direitos humanos básicos nos territórios ocupados por Israel, como o de ir e vir.

O Wiesel que gostaríamos de ver entrevistado pela Veja é aquele que, apesar de condenar com veemência a indiferença que semeia a terra para os totalitarismos, mantém-se indiferente para com a questão palestina; o que, apesar de se regozijar ao ser apontado como “um dos primeiros oponentes ao apartheid” sul-africano, mantém-se em silêncio conveniente para com o apartheid promovido por Israel.

O que levou André Petry a eximir-se de perguntar a Wiesel os motivos pelos quais ele deplora o terrorismo sem, no entanto, posicionar-se sobre os atos terroristas perpetrados, por exemplo, pelo Irgun e pela Stern Gang? Sobre o massacre no vilarejo palestino de Deir Yassin, em 9 de abril de 1948? Sobre os milhares de civis mortos em Gaza e na Cisjordânia? Por qual motivo Petry deixou de questionar Eli Wiesel sobre sua mudez em relação a estes crimes?

Ao que podemos atribuir o silêncio de Wiesel – e a conivência de Petry – sobre sua recusa a tratar do genocídio promovido contra outros povos que não o judeu? Em 1982, por exemplo, uma conferência sobre o tema foi promovida em Israel, com Wiesel na presidência honorária. Seria mais um evento no qual o mais famoso sobrevivente do holocausto judeu exporia sua indignação, não fossem os grupos armênios que solicitaram um espaço para expor o seu próprio holocausto nas mãos dos turcos.

Assim Noam Chomsky narrou os acontecimentos: “O governo de Israel pressionou (Wiesel) para que ele não fortalecesse a história do genocídio armênio. Ele foi pressionado pelo governo a recuar (a não participar da conferência) e, sendo ele um comissário leal, recuou... pois o governo israelense havia deixado claro que não queria ver o genocídio armênio ganhando espaço.”.

Wiesel foi ainda mais longe, apelando para o famoso historiador do holocausto judeu, Yehuda Bauer, a quem pediu que boicotasse a conferência. “Isso deu uma indicação do modo como pessoas como Elie Wiesel estavam atuando em sua função de servir aos interesses de Israel... ao ponto de negar um holocausto”, explica Chomsky.

Por que não receber os armênios? Há dois motivos que se inter-relacionam: a necessidade de monopolizar a imagem do holocausto e a realidade geopolítica que colocava a Turquia (responsável pelo genocídio armênio) como um raro e necessário aliado muçulmano de Israel.

Wiesel defende que Auschwitz "representa um sério desafio teológico para o cristianismo”. A implicação desta afirmação é de que os cristãos criaram o holocausto judeu e devem se desculpar para com eles repetidamente, sem jamais criticar ou questioner Israel. Esta é a essência do pensamento de Wiesel: nós, judeus, podemos, um dia, perdoar o que vocês, cristãos, fizeram a nós (e somente a nós) durante o holocasto (de preferência soletrado com H maiúsculo), se vocês prometerem ignorar o que fizemos e continuamos fazendo com os palestinos em nossa missão sionista de construir um Estado puramente judeu.

Wiesel apoia o direito de retorno para os judeus, mas somente para eles. Um judeu brasileiro que possa rastrear seus ancestrais até suas origens judaicas tem o direito de retornar a Israel, obter dupla nacionalidade, financiamento governamental para construir sua casa em território expropriado de palestinos e dirigir em estradas privativas onde apenas judeus podem trafegar. Um palestino que pode rastrear a presença de seus ancestrais nestas mesmas terras por séculos, que possuem um título de propriedade – e até mesmo a chave – da casa de que foi expulso em 1948, não conta com o apoio de Wiesel para retornar ao lar. Por que não? Porque, como explica Wiesel, isso “é impensável; a face dos jovens palestinos é contorcida pelo ódio; seria suicídio para o Estado judeu”. Trata-se de uma posição de extrema hipocrisia, em especial para um ganhador do Prêmio Nobel da Paz.

É mais que provável que já não seja factível para todos os palestinos retornarem para as suas casas perdidas em 1948. Mas isso não pode servir de pretexto para que Wiesel mantenha um discurso mentiroso sobre as causas da diáspora palestina. Ele continua disseminando o mito insidioso, sustentado pelos sionistas, segundo o qual “incitados por seus líderes, 600 mil palestinos deixaram o país convencidos de que, uma vez que Israel fosse destruído, eles poderiam voltar para as suas casas”.

Wiesel sabe que os líderes árabes jamais disseram ao seu povo para partir, mentira apontada por muitos historiadores. Ele sabe que pelo menos 750 mil palestinos fugiram de suas terras em 1948, sendo que um terço deles não fugiu, de fato, mas foi expulso pelos grupos terroristas para quem Wiesel trabalhou como propagandista. O massacre de Deir Yassin foi um ato emblemático deste período de terror.

Mesmo quando Wiesel esteve em Jerusalém, hospedado no Hotel Rei David, não encarou seus fantasmas (o que ele pensou ao encostar a cabeça no travesseiro, no hotel explodido por seus amigos do Irgun, onde dezenas de ingleses e 15 judeus inocentes perderam a vida?). Quando foi ao mais importante memorial sobre o holocausto judeu, o Yad Vashem, regozijavasse por estar em uma Jerusalém judia? Ou era assombrado pelo fato de o museu ter sido construído sobre as terras árabes de Ein Karem? Ao caminhar através do tunnel de Yad Vashem para emergir sob a luz do sol e deparar-se com o assentamento judeu de Har Nof, não teria lembrado das casas do vilarejo de Deir Yassin? Ele lembrou-se dos rostos dos palestinos empilhados e queimados na pedreira localizada do outro lado do museu? E quando ele foi ao assentamento de Gilo, teria conversado com Moshe Ben Eitan, o homem que ordenou que uma mulher e uma criança árabes, feridas, fosem executadas para que não dissessem ao mundo o que os companheiros terroristas de Wiesel haviam feito ali?

Estas são algumas das perguntas que André Petry poderia ter feito a Elie Wiesel. Mas a Veja colaborou para a manutenção de um silêncio incompreensível vindo de um homem que escreveu uma trilogia (Against Silence) na qual, apaixonadamente, incentivou seus leitores a lutarem contra todas as formas de opressão.

Wiesel dedicou sua vida a escrever sobre a opressão contra o povo judeu, sobre o genocídio e a desumanidade promovida pelo homem contra outros homens. No entanto, sempre que argüido sobre a opressão e as desumanidades cometidas por Israel ele se absteve, descartando o debate. Parafraseando Daiel A. McGowan, diretor do grupo Deir Yassin Remembered, Elie Wiesel se tornou um símbolo da hipocrisia que envolve a questão israelense-palestina.