Semana On

terça-feira, 28 de abril de 2009

Poesia

"Afrouxa o nó
liberta o rio
que teus olhos foram feitos
pra ser água"

Trecho de poema de Assis de Mello, em seu blog

Fotojornalismo

Damon Winter (The New York Times) venceu a categoria Feature Photography do Pulitzer 2009 com seu ensaio sobre a campanha de Barack Obama.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Compro

Compro uma vitrolinha. Quero ouvir meus vinis.

Depois da Guerra contra o Terror, sionistas apostam nos herdeiros de Hitler

O texto abaixo é uma análise sobre a palestra de Anne Bayefsky, Jon Voight, Elie Wiesel, Alan Dershowitz, Natan Sharansky e Shelby Steele, proferida na terça-feira durante a “Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância” - conhecida como Durban 2 - que acontece em Genebra (Suíça). A autoria é de Cecilie Surasky, do grupo Jewish Voice for Peace (JVP) e a tradução é minha.

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Isso foi o que um amigo palestino da Cisjordânia me disse, tremendo, depois de duas horas de ódio durante a palestra proferida por Anne Bayefsky, Jon Voight, Elie Wiesel, Alan Dershowitz, Natan Sharansky e Shelby Steele: “Eu apenas escutei durante duas horas a demonização dos palestinos e muçulmanos, alimentada por racismo e ódio”.

Eu já havia postado algumas notas sobre Jon-o-novo-Holocausto-Voight, mas o prato principal da palestra - que trataria do anti-semitismo, mas que na verdade tratou-se de uma promoção de anti-arabismo e de ódio aos árabes, palestinos e muçulmanos – era Alan Dershowitz.

Dershowitz é um pavão, muito inteligente e raivoso. Ao observá-lo você se sente como se ele estivesse prestes a explodir. Como todo bom demagogo, ele sabe como atiçar a platéia até os mais calorosos aplausos. Admito, tenho medo dele.

Na era de Obama e da exaustão da Guerra do Iraque, a Guerra ao Terror claramente não provê mais a base que o lobby de Israel precisa para deslegitimar as reivindicações dos palestinos por justiça ou, francamente, apenas por decência. Na palestra, Dershowitz lançou um novo argumento ocupar esta lacuna. Desde algum tempo Netanyahu e sua turma têm se apoiado sobre uma comparação entre Hitler e Ahmedinejad. Mas foi a primeira vez que eu ouvi uma comparação entre palestinos e nazistas (com poucas exceções, é claro, pois Dersh “não gosta de generealizar”). Veja algumas transcrições do vídeo acima:

A dolorosa verdade sobre o Holocausto hoje está sendo suprimida dos campi universitários, ela está sendo suprimida onde quer que o conflito palestino seja discutido. Meu doloroso trabalho hoje é falar sobre uma destas verdades históricas que muitos preferem ver ignorada.

A terrível, terrível, terrível tragédia é que existia uma linha direta entre Hitler e (o Mufti palestino anti-semita) Husseini, assim como há com o Hamas e a Jihad Islâmica. Eles são os herdeiros de Hitler. Ahmedinejad é herdeiro de Hitler. Estes, que têm sido cúmplices deste mal, são cúmplices do nazismo. O nazismo não desapareceu do mundo de hoje. Eles têm os mesmos objetivos genocidas…

Ai de vocês que apóiam o Hamas! Vocês estão apoiando os herdeiros de Hitler. Não importa se você se considera uma pessoa de esquerda ou de centro, você está sendo cúmplice do maior mal do século vinte. E não há como quebrar este vínculo. Enquanto o Hamas mantiver suas atitudes genocidas contra o povo judeu...


Há muito a ser dito sobre esta linha de raciocínio. Em posts futuros.

Frases

“Quem tem raça é cachorro”
João Ubaldo Ribeiro, sobre a questão racial.

Fotojornalismo

Índios das etnias Guarani, Terena, Guató, Kadwéu e Caiuá participam do juramento do atletas, ontem, durante a abertura dos IV Jogos Urbanos Indígenas de Campo Grande. Foto de Denilson Secreta.

sábado, 25 de abril de 2009

Chuva

Cai água penetrando dia
Alimentando terra
Enquanto aqui
Me abrigo em saudades

Despencopingo
Sobre a telha morta
Enquanto aqui
Entorno letras retas

Lágrima cristalina
Germina em mim
Enquanto lá fora
Se afogam formigas

Fotojornalismo

Foto de Stanley Greene mostra um plano de ataque desenhado no chão de uma cabana em Darfur, fronteira entre o Chad e o Sudão.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cotas, raças e preconceito

O jornalista José Roberto Guzzo fez recentemente, em artigo publicado na revista Veja, uma contundente crítica à política de cotas raciais nas universidades brasileiras. Segundo ele, o Brasil está fazendo o possível para criar algo que não possui: um problema racial.

Se tantos outros países importantes têm questões sérias de racismo, por que o Brasil também não poderia ter a sua? Parece um motivo de desapontamento, na visão das pessoas que foram nomeadas pelo governo para defender os interesses da ‘população negra’, ou nomearam a si mesmas para essa tarefa, que o Brasil seja possivelmente o país menos racista do mundo.”, afirma Guzzo.

E vai além: “Como poderia haver (racismo), num país onde a grande maioria da população não sabe dizer ao certo qual é a sua cor, nem demonstra maior interesse em saber? ‘Moreno’ é a sugestão de resposta mais freqüente, quando a pergunta é feita para a imensa massa de brasileiros que não se identificam claramente como brancos, nem pretos, nem qualquer outra coisa... Criar um racismo que se preze, num país assim, não é trabalho fácil – mas é possível. Uma das ferramentas mais utilizadas para isso é distribuir aos ‘brancos' uma espécie de culpa geral por tudo o que ocorre de errado aqui dentro.”.

É uma leitura corajosa em tempos que hipocrisia generalizada. É muito mais simples adotar o discurso fácil da “defesa das minorias excluídas”, mesmo que esta defesa se transforme em algo funesto para toda a nação, criando um sentimento de exclusão e, ao mesmo tempo, uma falsa sensação de raça.

Duas ou três décadas atrás, quando o movimento negro no Brasil começou a adotar modelos estadunidenses passando a utilizar termos como “afro-descendentes”, a idéia de separação racial se fortaleceu, criando nestes mesmos grupos uma postura racista sob a desculpa da luta contra o racismo.

Como eu, um brasileiro com o pé na Itália, na Alemanha, em Portugal e, também, em alguma etnia indígena, devo me definir etnicamente? Ítalo-germano-luso-tupi-descendente? Ora, sou brasileiro, cria do caldeirão étnico que compõe este país. Ao adotar o termo afro-descendente, os que se reconhecem nesta definição optam por se separarem deste núcleo étnico que forma o Brasil.

Valorizar e cultivar identidades culturais é importante e desejável. Transformar isso em uma cruzada racial é pernicioso.

Um exemplo interessante deste racismo às avessas ocorreu ano passado em um dos muitos posts sobre o tema no blog Liberal, Libertário, Libertino, de Alex Castro. Em um dado momento, ao analisar o comentário de um leitor, segundo quem “Se alguém usa uma camisa escrita 100% negro, ninguém reclama, é lindo, mas se eu sair na rua usando uma camisa 100% branco vão fazer o maior alarde, vou ser chamado de nazista, skinhead, preconceituoso, o escambau!”, Castro diz o seguinte: “Uma camisa ‘100% Branco’ é de profundo mau-gosto, ao mostrar quem está por cima celebrando sua hegemonia. ‘100% Negro’, por outro lado, é a celebração de uma identidade subalterna tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.”.

Complicado...

Fico com a definição de Guzzo. “A grande vitória da humanidade contra a discriminação racial foi excluir das leis a palavra ‘raça’; o objetivo era estabelecer que todos têm direitos idênticos, sejam quais forem as suas origens, dentro da idéia de que todos os homens pertencem a uma ‘raça’ apenas – a raça humana. No Brasil de hoje, em vez de proibir o uso da noção de raça para dar ou negar direitos, tenta-se ressuscitar a tese de que os indivíduos são diferentes uns dos outros, em termos de cidadania, segundo a cor que têm.”.

No conceito de raça repousa o germe da intolerância e para comprovar isso não é preciso olhar muito longe. Se analisarmos os últimos 200 anos pinçaremos inúmeros casos onde a questão racial foi o ponto de eclosão para situações que nos envergonham enquanto seres humanos que somos. Ao admitirmos que o conceito de raça seja o ponto de partida para políticas de inclusão, estaremos abrindo precedentes perigosos, que podem gerar resultados graves em longo prazo.

No manifesto “Cento e treze cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”, intelectuais, sindicalistas, empresários e ativistas dos movimentos negros e de outros movimentos sociais expõem sua preocupação com esta tendência de “racializar a vida social no país.”.

Raças humanas não existem segundo já comprovou a genética. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, é expressa em menos de 10 genes. Não foi a existência de raças que gerou o racismo, mas o racismo que fabricou a crença em raças. A distribuição de privilégios segundo critérios etno-raciais inculcou a raça nas consciências e na vida política, semeando tensões e gestando conflitos que ainda perduram.

Cotas

Tratei deste tema específico recentemente (aqui, aqui e aqui) e a idéia central é que a experiência tem mostrado que a aplicação das políticas de cotas raciais pode gerar mais efeitos negativos que positivos na tentativa de abrandar as desigualdades de oportunidades que, não se pode negar, existem.

No Brasil, difunde-se a promessa sedutora de redução gratuita das desigualdades por meio de cotas raciais para ingresso nas universidades. Nada pode ser mais falso: as cotas raciais proporcionam privilégios a uma ínfima minoria de estudantes de classe média e conservam intacta, atrás de seu manto falsamente inclusivo, uma estrutura de ensino público arruinada”, afirma o documento dos 113. A meta nacional deveria ser proporcionar a todos um ensino básico de qualidade e oportunidades verdadeiras de acesso à universidade.

Citado no artigo de Guzzo, o advogado José Roberto Militão, especialista em antidiscriminação na OAB de São Paulo, disse o seguinte: "Os defensores de leis raciais ludibriam a boa-fé alegando que cota racial é ação afirmativa... Ao estado cabe atuar para destruir a crença em raças... Leis raciais não servem para a redução das desigualdades entre brancos e pretos, pois atacam os efeitos, mas aprofundam as causas.".

Pobres e remediados

Há pobres e remediados de todas as cores no Brasil. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006, entre 43 milhões de pessoas de 18 a 30 anos de idade, 12,9 milhões tinham renda familiar per capita de meio salário mínimo ou menos. Neste grupo mais pobre, 30% classificavam-se a si mesmos como “brancos”, 9% como “pretos”, e 60% como “pardos”. Desses 12,9 milhões, apenas 21% dos “brancos” e 16% dos “pretos” e “pardos” haviam completado o ensino médio, mas muito poucos, de qualquer cor, continuaram estudando depois disso. Basicamente, são diferenças de renda, com tudo que vem associado a elas, e não de cor, que limitam o acesso ao ensino superior.

Portanto, critérios sociais – estes sim – seriam benéficos para uma política de inclusão. Iniciativas em favor de jovens de baixa renda de todas as cores, como a oferta de cursos preparatórios gratuitos e a eliminação das taxas de inscrição nos exames vestibulares das universidades públicas, seriam bem vindas.

Leia mais sobre este tema:
- Ainda, as cotas
- Cotas
- É a formação superior a única saída para a inclusão social?
- Brasis
- Índio pode tudo?
- Quem é quem na questão indígena?