Semana On

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Ensino a distância e universidades

Para os que se escandalizam com a qualidade do nosso ensino superior, sua versão EAD (Ensino a Distância) é ainda mais nefanda. Contudo, o Enade (o novo Provão) trouxe novidades interessantes. Em metade dos cursos avaliados, os programas a distância mostram resultados melhores do que os presenciais! Por quê? Sabe-se que a aprendizagem "ativa" (em que o aluno lê, escreve, busca, responde) é superior à "passiva" (em que o aluno apenas ouve o professor). Na prática, em boa parte das nossas faculdades, estudar é apenas passar vinte horas por semana ouvindo o professor ou cochilando. Mas isso não é possível no EAD. Para preencher o tempo legalmente estipulado, o aluno tem de ler, fazer exercícios, buscar informações etc. Portanto, mesmo nos cursos sem maiores distinções, o EAD acaba sendo uma aprendizagem interativa, com todas as vantagens que decorrem daí.

Do economista Claudio de Moura Castro, em interessante artigo na Veja. Grifo meu.

Fotojornalismo

O americano Justin Maxon flagra um momento de carinho entre uma criança e sua mãe vietnamita contaminada pelo vírus da AIDS.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mendes e Barbosa



Não é novidade alguma, visto que quem não acompahou ao vivo teve centenas de opções para assistir na internet. No entanto, o bate boca de ontem no Supremo Tribunal Federal entre o presidente da casa, ministro Gilmar Mendes, e o ministro Joaquim Barbosa, foi chocante demais e merece ser reproduzida aqui também. Perde o Supremo como instituição.

Vitimização judaica

Por duas horas o ator Jon Voight (pai da atriz Angelina Joli), Alan Dershowitz e outros militantes sionistas tentaram explicar para a audiência que compareceu a sua palestra, ontem, durante a “Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância” - conhecida como Durban 2 - que acontece em Genebra (Suíça), como o Hamas e o Hezbollah se equiparam aos nazistas; como o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad é um clone de Hitler e, finalmente, suas argumentações de que os judeus passam hoje por um novo holocausto.

Presente à palestra, Cecilie Surasky, diretora de comunicação do grupo Jewish Voice for Peace (JVP), fez um paralelo entre este discurso e a “esquizofrenia moral” que domina o imaginário judaico em relação ao auto-estabelecimento de uma condição de “eternos perseguidos”, que os leva a uma incapacidade de enxergar o sofrimento em outros povos, como se isso diminuísse ou invalidasse o seu próprio sofrimento.

A mera menção ao sofrimento dos palestinos lança estas pessoas em paroxismos, deixa-os na defensiva e até com raiva. Eles se agarram à negação do holocausto, mas este fenômeno é resultado de uma mesma patologia. É virtualmente impossível para eles manterem paralelamente a narrativa de seu próprio sofrimento à narrativa do sofrimento palestino. É como se, fazendo isso, eles se quebrariam em duas partes bem diante de nós”, afirmou a ativista.

No artigo “Jewish Humanists Remembered: I.F. STONE (1907-1989)”, publicado na revista eletrônica “Outlook, Humanistic Judaism and Jewish Currents”, o pensador Bennett Muraskin (do mesmo autor, veja também o artigo “Anti-Zionism and Non-Zionism in Jewish Life—Past and Present”), cita as origens desta “esquizofrenia moral”, levantada originalmente pelo jornalista estadunidente de origem judaica I.F. Stone.

Disse Stone em 1967, no artigo "Holy War": "Israel está criando um tipo de esquizofrenia moral no mundo judaico. No mundo lá fora, o bem estar dos judeus depende da manutenção de sociedades pluralistas, seculares e não-raciais. Em Israel, os judeus vêem a si mesmos defendendo uma sociedade cujo ideal é racial e excludente. Os judeus devem lutar em todos os lugares, para a sua segurança, contra os princípios e práticas que eles têm defendido em Israel”.

Trata-se de uma crítica contundente ao sionismo, ao que ele tem de mais horrendo: a defesa de um Estado baseado na questão racial, um Estado que exclui as demais raças e credos. É também, um vislumbre do que viria em seguida, a criação desta mentalidade que coloca o judeu no patamar mais alto do martírio.

Analisando o excelente artigo “Must Jews always see themselves as victims?”, de Antony Lerman, publicado no dia 7 de março no jornal “The Independet” (cuja leitura recomendo veementemente), Judith Norman e Alistair Welch - integrantes do grupo Jewish Peace News - disseram o seguinte:

Antony Lerman, diretor do Institute for Jewish Policy Research, questionou os motivos pelos quais tantos judeus, em Israel e no mundo afora, demonstram uma cegueira para com o sofrimento dos palestinos. A resposta que ele deu - que muitos judeus vêem a si mesmos como vítimas permanentes – não é particularmente nova, mas seu artigo nos dá uma análise lúcida deste senso de vitimização e de seus efeitos sobre a legitimação de políticas que causam grande sofrimento aos palestinos.

Além de muitos judeus verem a si mesmos como vítimas, a natureza deste sofrimento judaico é pensada como algo único, profundo e intenso. O sofrimento judeu é encarado de uma forma quase (ou francamente) religiosa; transcendendo a experiência e de forma irrefutável. Cada incidente de viés anti-semita é observado de forma mais sinistra do que aparenta – um sintoma da epidemia global do ódio aos judeus. Dadas estas razões, é impossível para Israel relevar qualquer sinal de hostilidade por parte dos palestinos, visto que cada ataque palestino é um sintoma de ameaça global que os judeus têm encarado (supostamente) por milênios.

Não é necessário dizer que esta mentalidade tem causado enormes danos, não apenas para os judeus de Israel, que são incapazes (mesmo que queiram) de contextualizar os eventos atuais ou de expressar qualquer demonstração de simpatia para com o sofrimento palestino (Lerman cita evidências empíricas disso), e são, portanto, levados a apoiar uma agenda beligerante que bloqueia qualquer solução para o conflito.

O antídoto que Lerman oferece é um ato básico e corajoso de empatia: não há nada de exclusivo no sofrimento judeu e isso deve ser usado como a chave para entender o sofrimento palestino, e não como justificativa para piorá-lo.
”.

Em seu artigo, Antony Lerman aponta para um sentimento de impunidade justificada que toma conta do imaginário judaico, especialmente, dos judeus israelenses. Uma sensação de que qualquer ação lhes é permissível, justificada pelas perseguições que sofreram no passado.

O artigo cita também uma pesquisa efetuada pelo professor Daniel Bar Tal, da Universidade de Tel Aviv – um dos mais conceituados psicólogos políticos da atualidade – que analisa como os judeus israelenses classificam o conflito árabe-israelense. Sua conclusão foi de que sua "consciência é caracterizada por um sentimento de vitimização, uma mentalidade de cerco, um patriotismo cego, beligerante, um sentimento de desumanização dos palestinos e de insensibilidade para com o seu sofrimento". Os pesquisadores descobriram, também, uma ligação estreita entre a memória coletiva e a memória "das antigas perseguições aos judeus" e do holocausto, “o sentimento de que o mundo inteiro está contra nós”.

Esta mentalidade, que hierarquiza o sofrimento, é a base para a justificativa de todas as ações beligerantes promovidas por Israel, de suas políticas de expansão territorial, de limpeza étnica, de manutenção do domínio e da ocupação ilegal que mantém sobre os territórios palestinos.

Leia Mais sobre este tema:
- Asneiras de Ahmadinejad absolvem Israel?
- Afinal, que horrores disse o presidente do Irã?
- Boa fonte sobre a Conferência Mundial contra o Racismo
- Os "mocinhos" abandonaram a Conferência

Fotojornalismo

Foto do atentado que matou a primeira-ministra do Paquistão, Benazir Bhutto, em 2007. De John Moore.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Jogo de palavras

Vale a pena ler o artigo “Jogos de palavras”, de Gideon Levy, publicado hoje no jornal israelense Haaretz. A tradução é de Caia Fittipaldi para o blog Amálgama. Levy faz uma leitura ácida da hipocrisia que rege o debate sobre a questão palestina no governo israelense.

A sua crítica sobre a estratégia israelense de bater monotonamente na tecla de uma exigência que já é fato – o reconhecimento de Israel – aponta o que de fato há por trás deste discurso: uma intenção inequívoca de manter as coisas como estão na certeza de que no futuro Israel ocupará majoritariamente os territórios tomados dos palestinos.

São questões terríveis. Só quem se dedique a impedir o progresso ocupa-se hoje nesse reconhecimento, que é pura vaidade. Só um país cuja autoconfiança seja muito capenga precisa de que outros reconheçam seu caráter nacional. Passa pela cabeça de alguém que a França exigiria de alguém que a reconhecesse como Estado? Ou a Itália, como Estado italiano? E de quem, afinal, Israel exige reconhecimento? Dos mesmos que há mais de 40 anos gemem sob os coturnos da ocupação… por Israel.”, afirma Levy.

E finaliza: “Parafraseando David Ben-Gurion, é preciso dizer ao presidente dos EUA que não dê atenção ao que os judeus dizem; só dê atenção ao que os judeus fazem.

Asneiras de Ahmadinejad absolvem Israel?

Outras leituras sobre o discurso do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, na Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância - conhecida como Durban 2 -, em Genebra (Suíça). O Humans Right Watch e o grupo Jewish Voive for Peace consideraram o pronunciamento “um desastre”.

Ahmadinejad teve sua cota de asneiras, como o questionamento ao Holocausto, mas disse algumas verdades dolorosas. A grande questão surge quando observamos o pavor que gera qualquer possibilidade de confronto com Israel. É como se isso fosse um tabu, um dogma inviolável. Muitos países – inclusive o Irã – agridem diariamente os direitos humanos e deveriam ser alvos de manifestações contundentes. Isso não inocente, no entanto, os crimes de Israel.

Leia Mais sobre este tema:
- Afinal, que horrores disse o presidente do Irã?
- Boa fonte sobre a Conferência Mundial contra o Racismo
- Os "mocinhos" abandonaram a Conferência

Fotojornalismo

O fotógrafo suiço Jean Revillard registrou as condições em que vivem imigrantes ilegais africanos em Calais (França).

terça-feira, 21 de abril de 2009

O roto e o maltrapilho

O ministro das Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman, criticou no domingo (19) a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Outras Formas Relacionadas de Intolerância, que teve início ontem, em Genebra (Suíça). Segundo ele, o evento conta com a participação de líderes "racistas", como o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

"Uma conferência internacional na qual um racista como Ahmadinejad, que defende dia e noite a destruição de Israel, é convidado a palestrar expõe quais são seus objetivos e seu caráter", disse o ministro israelense.

Certo... Ahmadinejad não é exemplo a ser seguido por ninguém. No entanto, quem é Avigdor Lieberman para acusar quem quer que seja de racista?

Líder dos racistas xenófobos do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu, Lieberman advoga abertamente o banimento dos árabes-israelenses de Israel. O partido declara em sua plataforma a intenção de fazer de Israel um Estado puramente judeu e, ao mesmo tempo, “aumentar a Presença Judia em Yehuda, Shomron, (Cijordânia em outras palavras), Golan (Colinas de Golas, território sírio ocupado) e Jerusalém Leste, assim como trabalhar para a separação entre Gaza e Cijordânia".

Lieberman é conhecido por suas constantes incitações racistas contra palestinos com ou sem nacionalidade israelense. Em uma recente coletiva de imprensa organizada pelo seu partido em Haifa, ele impediu a participação de jornalistas árabes. Como o jornal israelense Haaretz noticiou em 6 de fevereiro, durante recente visita a escolas no norte de Israel, Lieberman foi saudado com gritos de “morte aos árabes” e propostas de “revocar a nacionalidade israelense dos árabes”. O Haaretz revelou também que Lieberman foi seguidor do movimento Kahane Kach, de extrema-direita, banido em 1988.

Idéias que já foram consideradas extremamente racistas para serem legitimamente expressas são agora parte do discurso político em Israel, enquanto outras opiniões são silenciadas. Trata-se de um sério sinal de que a situação em Israel lembra mais e mais a era do apartheid na África do Sul.

E ele fala em racismo...

Leia mais sobre este tema:
- Quem é Lieberman, Ministro das Relações Exteriores de Israel? 13/04/09
- É lícito aos israelenses apoiarem o racismo e a intolerância? 18/03/09
- A transformação autoritária de Israel 27/02/09
- Chomsky: Terrorismo de Estado ameaça a segurança de Israel 18/02/09
- Sob a sombra do fascismo 14/02/09
- Racistas podem comandar o governo em Israel 12/02/09
- Israelenses mantém o caminho da direita 11/02/09
- O que ocorre em Gaza é genocídio? 08/01/09
- Terrorismo de Estado 30/12/08

Fotojornalismo

O fotógrafo Denílson Secreta, de Campo Gande (MS), recebeu menção honrosa por esta no 3° Concurso Avistar Itaú BBA de Fotografia – “Aves Brasileiras”.