Semana On

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Madrugada

Meus lábios romperão madrugada
E te encontrarão pela manhã
Num coro de mil vozes

Te cobrirei de melodias
Até que minha alma
Se curve sobre a tua
Até que minha voz
Se perca na penumbra

E sob aurora que te invade o rosto
Ficarei em silêncio
Aguardando o despertar

Sobre o diploma

Contundente o artigo “Sobre o diploma para jornalistas”, de Rafael Galvão. Vale a leitura.

Insignificado

Não sei guardar poemas
Não sei organizar
Não sei metrificar
Não sei rimar rima com lima
Escrevo, assim, num canto qualquer de papel de amendoim torrado,
meu verso guardado,
moído,
transmutado.
Jamais insignificado.

Belo poema de Alyne Costa, em seu blog.

Fotojornalismo

Seguranças do general afegão Abdul Rashid Dostum se preparam para revistar visitantes no seu complexo, em Cabul (Afeganistão). Foto de Mary F. Calvert para o jornal The Washington Times, premiada no concurso Best of Photojournalism 2009.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Paul Pots

Um guerrilheiro vale a vida de 10 civis?

No Afeganistão, assim como em Gaza e em Israel, a vida de civis não vale muito, em especial se estes vivem entre militantes palestinos, guerrilheiros islâmicos ou soldados israelenses. Disparar um míssil contra uma casa palestina repleta de civis para matar um militante do Hamas é tão odioso quanto explodir o próprio corpo entre civis em um ônibus em Tel Aviv. Bombardear um abrigo antiaéreo no qual poderia estar escondido Saddam Hussein e de quebra matar 400 civis inocentes é tão revoltante quando lançar um avião contra um prédio e matar três mil pessoas.

Embora este raciocínio seja compartilhado por muitos, civis continuam morrendo como moscas no Oriente Médio, esmagados entre guerrilhas armadas com foguetes e kalishnikovs e exércitos dotados de tanques e mísseis guiados por laser. Na última segunda-feira, foi a vez de mais um punhado de afegãos pagarem o preço da insanidade.

O grande número de civis mortos e feridos durante operações militares contra o Taliban e outros grupos islâmicos são, hoje, um dos principais pontos de tensão entre as autoridades afegãs e militares dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estacionados no Afeganistão.

Autoridades afegãs e vítimas atribuíram aos bombardeios aéreos realizados nesta semana pela Otan a morte de seis civis e ferimentos em outros 14 no Afeganistão. Os militares disseram, por sua vez, que oito “soldados inimigos” foram mortos no ataque. "Entre quatro a oito soldados inimigos foram mortos" durante uma operação na província de Kunar, afirma um relatório da International Security Assistance Force (ISAF).

Segundo a ISAF, “fontes de inteligência forneceram identificações positivas de insurgentes” em uma área conhecida por abrigar guerrilheiros afegãos na região nordeste do Afeganistão. “Interceptações da inteligência indicaram posições hostis com intenção de atacar postos da ISAF. Devido à localização remota dos alvos, a ISAF pediu suporte aéreo e eliminou a ameaça inimiga”, afirma o relatório.

No entanto, o governador do distrito de Watapour, Zalmai Yousufzai e o chefe da polícia local, Mirza Mohammad afirmaram que os alvos atingidos foram residências de civis, localizadas a 15 km a noroeste da capital da província, Asadabad. “Entre os seis mortos há duas crianças, uma mulher e três homens”, garantiu Yousufzai. Sete crianças, uma mulher e seis homens foram feridos, todos civis, segundo o governador e o policial.

Um repórter da AFP ouviu uma mulher de 25 anos, um menino de 14 e dois homens, todos feridos, no hospital de Asadabad. “Nós estávamos dormindo e de repente o teto desabou”, disse Zakirullah, de apenas 14 anos. “Não lembro de nada. Fiquei sabendo aqui que meu pai, minha mãe, meu irmão e minha irmã foram mortos e eu ferido”.

"Estávamos dormindo e ouvimos um barulho estranho e então o teto desabou sobre nós. As pessoas me tiraram dos escombros e algumas continuam aqui. Me disseram que nove pessoas da minha família foram mortas ou feridas. Não sei ainda quem morreu ou quem se feriu”, disse uma mulher, identificada como Shahida.

Segundo a Otan, o caso será investigado: “Nós sentimos profundamente qualquer possível ferimento a civis causados por nossas operações contra o inimigo. Vamos investigar e, se for verdade, proveremos assistência para as pessoas afetadas”, disse o porta voz da IASF, capitão Mark Durkin.

As denúncias de mais civis mortos e feridos surgem quatro dias depois das forças armadas dos Estados Unidos terem admitido que tropas sob seu comando mataram cinco civis – duas mulheres, uma criança e dois funcionários do governo - durante um ataque a província de Khost, no leste do Afeganistão, na semana passada.

Revolta

As constantes mortes e ferimentos de civis causaram reação ácida do parlamento afegão. Senadores da província de Khost querem que os responsáveis pelas agressões sejam julgados por cortes internacionais. Os senadores afegãos acusam as tropas da Otan, lideradas pelos Estados Unidos, de violar os tratados assinados para prevenir baixas entre não-combatentes.

No final do ano passado, o Ministério da Defesa do Afeganistão e a ISAF chegaram a um acordo para evitar alvos que pudessem causar baixas civis durante as operações militares contra os guerrilheiros muçulmanos.

Viva o fascismo indigenista!

Antes tarde que nunca. Ótima a entrevista concedida pelo professor universitário Victor Hugo Cárdenas ao jornalista Duda Teixeira, publicada recentemente na revista Veja. Cárdenas é uma das mais consistentes vozes da oposição ao presidente da Bolívia, Evo Morales, e deve candidatar-se à presidência do país em dezembro.

O professor foi uma das primeiras vítimas do texto constitucional aprovado em janeiro, que deu a 36 etnias indígenas autonomia judiciária para julgar e punir segundo as leis tribais. No início de março, sua casa no Lago Titicaca foi saqueada por indígenas partidários de Morales. Sua mulher, seus filhos e outros parentes foram agredidos violentamente com paus e chicotes.

Cárdenas, que é índio Aimará, denuncia o caráter racista e excludente das políticas promovidas por Morales. “A primeira vítima (da nova constituição) foi a democracia, pois essa nova Carta criou uma dupla cidadania, em que uns têm mais direitos que outros.”, afirma.

Segundo o professor, o Movimento para o Socialismo (MAS), partido do presidente Evo Morales, “inaugurou um racismo ao revés, em que os indígenas leais ao partido ou moradores de área rural têm mais direitos que os outros. Com isso, eles ganham privilégios e são usados como massa de manobra. Pessoas que não são indígenas passaram a ser odiadas porque são consideradas perversas por natureza.”.

Etnocentrismo

Durante a entrevista, Cárdenas faz um comentário apavorante mostrando como a manipulação da população - em especial das populações menos favorecidas – por governantes populistas pode transformar valores humanistas em protótipos de um fascismo com falsas cores socialistas.

“Na Bolívia, o MAS criou a imagem de que os indígenas são pequenos anjos. Uma espécie de reserva moral e ética da humanidade. É uma visão etnocentrista, segundo a qual a cultura aimará é superior às outras. Isso é falso. Essa ideia desmoronou, com os múltiplos casos de corrupção e assassinatos que estremeceram o país. Muitos indígenas que entraram no governo se apropriaram inescrupulosamente dos recursos públicos.”.

Leia mais sobre o tema:
- Venezuela: socialismo ou barbárie?
- Minha esquerda está mais à esquerda?
- Chavez, direita, esquerda e fascismo
- Conduzindo a boiada
- Sabedoria popular?
- Democracia caudilhesca

Fotojornalismo

O fotógrafo argentino Walter Astrada levou o prêmio de Fotojornalista do Ano no concurso Best of Photojournalism 2009 promovido pela Associação de fotógrafos de Imprensa dos Estados Unidos, a NPPA.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Quando olhamos além das aparências

Em meio a um dia de trabalho embrutecedor, um post me fez chorar aqui na redação. É isso mesmo, podem me considerar um emotivo de marca maior. Chorei mesmo. O post em questão, simples na aparência, traz um conteúdo maravilhoso. Mostra como julgamos as pessoas pela aparência, pela “casca” e, de quebra, nos brinda com duas performances musicais arrepiantes. O autor do post é meu amigo Daniel, do blog Mausoléu do Gárgula (que baseou-se em uma notícia do G1), a quem peço permissão para reproduzi-lo quase na íntegra:

Vale assistir o que Susan Boyle - uma mulher escocesa simples, de 47 anos, feia com voz de um anjo - fez aos duros apresentadores do programa Britain’s Got Talent (A Grã-Bretanha Tem Talento). Mesmo a platéia desacreditou ao vê-la, assim como os apresentadores. Todos riram ao ouvir seu sonho de ser uma cantora profissional. Tudo caminhava para um desastre, até que a ouviram. Clique aqui para assistir, pois vale a pena!

O mesmo já tinha acontecido na temporada anterior, com Paul Potts, que totalmente desacreditado, cantou Nessun dorma. Ele, também um homem simples, chegou igualmente desacreditado e arrancou lágrimas de todos! Clique aqui e assista!

A grande guerra pela civilização: a conquista do Oriente Médio - Robert Fisk

Terminei de ler no domingo o livro “A grande guerra pela civilização: a conquista do Oriente Médio” do jornalista inglês Robert Fisk, que por mais de 30 anos cobre os conflitos na região e conhece como ninguém os meandros culturais e religiosos das sociedades que a compõem. Suas 1.495 páginas formam um documento imprescindível para quem quer compreender os motivos pelos quais o Oriente Médio transformou-se em um caldeirão sempre pronto a transbordar, além da origem do rancor e da desconfiança que estes povos mantém para com o Ocidente.

Fisk surge como analista e testemunha implacável dos fatos e os tempera com indicações de como a história destes povos é recheada de falsidades e traições - em parte, traições infligidas pelos líderes destas nações sobre seu próprio povo, mas, principalmente, traições promovidas pela ganância e arrogância do Ocidente para com o Oriente Médio.

Desde o início do século passado, logo após a Primeira Grande Guerra, o Oriente Médio vem sendo tratado pelo Ocidente como um feudo. Nações foram criadas e destruídas, regimes foram instaurados e derrubados, ditadores foram aclamados e condenados seguindo os interesses das potências ocidentais. Ingleses, franceses e, agora, estadunidenses e seus prepostos têm sua parcela de culpa nesta política colonial que enfraqueceu a identidade dos povos árabes e persas e desaguou na situação de insegurança e violência que hoje se apresenta ao mundo. Nós, jornalistas, temos também nossa parcela de culpa. Somos, como diz Fisk, “cúmplices da selvageria” por aceitarmos de pronto as versões oficiais sobre o que ocorre na região.

O autor apresenta-se corajosamente como testemunha ocular das conseqüências desta longa política de domínio ocidental, cobrindo de perto a resistência afegã à ocupação soviética e o banho de sangue da guerra entre Irã e Iraque na década de 80, a guerra civil na Argélia e as invasões israelenses ao Líbano, nos anos 90, a Segunda Intifada palestina, em 2000 e as duas guerras travadas entre os Estados Unidos e o Iraque. Fisk também nos oferece uma análise aprofundada dos conflitos que, no passado, criaram o panorama político que hoje incendeia a região. Juntos, os relatos pessoais colhidos in loco e as análises históricas contidas na obra formam um panorama assustador do que ainda pode advir como resultado das omissões e dos erros cometidos no passado.

A postura de Fisk como jornalista se destaca em meio aos fatos minuciosamente descritos no livro, ao oferecer um pano de fundo aos relatos dos campos de batalha, de modo que a carnificina, a covardia e a intolerância – características compartilhadas por todos os conflitos armados - surgem revestidas de suas sementes históricas. Da mesma forma, seus relatos são realistas, isentos das figuras de linguagem próprias dos “jornalistas encaixados” que desde o acirramento dos conflitos no Oriente Médio seguem o roteiro das forças armadas e dos governos ocidentais. Em seus relatos, os protagonistas não são tachados de “terroristas”, o conflito entre israelenses e palestinos não é classificado como “milenar”, não existem “efeitos colaterais”, mas destruição física e mental em uma seqüência de horror que ajuda o leitor a se colocar no lugar de quem o sofre e entender que reações este horror pode provocar no futuro.

Ao ler os relatos de Fisk, não se pode dar as costas aos imensos custos humanos gerados pelas decisões tomadas nos gabinetes de governo e nos centros de comando militar, decisões que a grande mídia costuma reproduzir sem questionamentos.

É impossível olhar com normalidade para posições como a da Secretária de Estado do governo Bill Clinton, Madeleine Albright, para quem a morte de um milhão de crianças iraquianas como decorrência das sanções econômicas impostas ao país foi um preço justo a ser pago para punir Saddam Hussein pela invasão do Kuwait.

Da mesma forma é inconcebível imprimirmos qualquer tipo de justificativa para a morte de 17.500 pessoas - quase todos civis, a maioria mulheres e crianças - quando Israel invadiu o Líbano, em 1982; para a morte de 1.700 civis palestinos no massacre de Sabra-Chatila; para o massacre de 1996, em Qana, quando 106 refugiados libaneses civis, mais da metade dos quais crianças, foram assassinados em uma base da ONU; para o assassinato dos refugiados de Marwahin, que receberam ordens de Israel para sair de suas casas, em 2006, e foram assassinados na rua pela tripulação de um helicóptero israelense; ou para os mil mortos no mesmo bombardeio de 2006, na mesma invasão do Líbano, praticamente todos civis. É impossível justificar a morte de civis inocentes em Gaza ou na Cisjordânia sob a justificativa de que “o alvo eram os terroristas” do Hamas, do Hizbóllah ou de outro grupo qualquer.

Igualmente, é inconcebível justificar os pavorosos assassinatos de reféns no Iraque – muitos dos quais cruelmente filmados e divulgados pela internet; os milhares de assassinatos na guerra civil da Argélia; os muitos atentados contra civis cometidos em nome do islã; o assassínio de civis israelenses por franco-atiradores ou homens-bomba; as atrocidades do 11 de setembro que causou a morte de 3 mil inocentes. Não é possível aceitarmos qualquer tipo de justificativa para a barbárie.

No entanto, como aponta Robert Fisk, é possível – e necessário – compreendermos os motivos pelos quais esta verdadeira insanidade coletiva se abateu sobre estas nações. Estes motivos estão expostos página a página desta fabulosa obra de jornalismo investigativo, um relato ácido sobre como podemos transformar seres-humanos em nada em nome do poder e da cobiça.