Semana On

segunda-feira, 23 de março de 2009

O SUS como patrimônio da humanidade

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) abriu dois livros de assinaturas de apoio à Regulamentação da Emenda Constitucional nº 29 e à proposta do Sistema Único de Saúde (SUS) como Patrimônio da Humanidade. As assinaturas da EC 29 serão encaminhadas ao Congresso Nacional, onde tramita o processo de regulamentação. E a manifestação popular de apoio ao SUS como Patrimônio da Humanidade será enviada a Unesco, responsável pela concessão do título de Patrimônio.

Livro de Assinatura - Sou a favor da Regulamentação - EC 29

Livro de Assinatura - Sou a favor: SUS Patrimônio da Humanidade

Para quem tem horror a simples menção da sigla, peço um momento de reflexão. O SUS, apesar de todos os problemas, é uma belíssima estratégia de saúde, baseada em princípios nobres e funcionais, melhor, por exemplo, do que o sistema de saúde estadunidense onde 40 milhões de pessoas simplesmente não têm acesso algum a saúde e outras tantas torcem para não ter que usar os planos de saúde capengas, repletos de armadilhas que endividam seus usuários até a alma. Há um longo caminho a ser traçado para que o SUS atinja um nível de excelência, grande parte deste caminho deve ser percorrido pelos próprios usuários. Por isso aconselho: antes de criticar o SUS, procure saber o que ele propõe, ajude a construí-lo.

Lavanderia

se o gelo é de água idosa, o uísque tão amadeirado se prosa
se na máquina de lavar o branco vai com o colorido, de palhaça me visto
se o tempo é de um sim e tantos nãos, o peito like a rolling stone

Poema de Rebecca Loise, em seu blog.

Fotojornalismo


O fotógrafo Julian Abram Wainwright ficou com a terceira colocação da categoria Sports Action Stories do 2008 World Press Photo of the Year contest, com esta foto do atleta brasileiro Hugo Parisi competindo na plataforma de 10 metros nas preeliminarres dos Jogos Olímpicos de Beijing 2008.

sábado, 21 de março de 2009

Carta aberta aos jornalistas do Brasil, de Leandro Fortes

Carta aberta escrita pelo jornalista Leandro Fortes, da Carta Capital.

No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado “Comitê de Imprensa”, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do “Comitê de Imprensa”, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.
Nesta carta, contudo, falo somente por mim.
Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalista, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico – de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.
Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.
Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.
Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?
Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.
Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.
Leandro Fortes
Jornalista

Carta ao Rei da Jordânia

No dia 27 de Janeiro de 2009, foi publicado no New York Times, um artigo assinado por Thomas L. Friedman (Prémio Pulitzer 2002 e colunista do NYT) intitulado “Abdullah II: The 5-State Solution”, onde o autor realizava uma avaliação/previsão estratégica a partir da simulação de uma carta de Abdullah II, Rei da Jordânia, dirigida ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, propondo-lhe uma solução para o conflito entre israelenses e palestinos baseada em 5 pontos e 5 anos.

Israel se retiraria dos territórios ocupados, com a possibilidade de ajustes territoriais, dentro do princípio terra por terra; a Palestina, sob uma Autoridade Nacional Palestina renovada na reconciliação e unidade, aceitaria um programa de assistência na manutenção da segurança, a ser operacionalizado através de um número limitado de forças militares e policiais do Egito, em Gaza, e da Jordânia, na Cisjordânia, que garantiriam a segurança e o controlo das fronteiras; o Egito garantiria o contingente de forças militares e policiais necessárias ao cumprimento da sua missão de interposição e segurança na Faixa de Gaza; a Jordânia, de igual modo, o faria para a Cisjordânia; a Arábia Saudita pagaria a fatura e os EUA seriam o único árbitro.

O plano teria por base as Resoluções das Nações Unidas, 242, de 22 de Novembro de 1967, e 338, de 22 de Outubro de 1973, e a aprovação do Conselho de Segurança.

Eis o cenário arquitetado por Friedman, num texto interessante e que merece ser lido.

Poesia

enquanto saio correndo pelo entorno da baía
a vergar o corpo de cal, suor e chuva
porque também chove e porque também os olhos
são graves de tarefas, plenos de ataques a crediários,
encostas, ementas, trens e teorias.

Fragmento de poema de Tatiana Pequeno, no Poema Dia

Fotojornalismo

Franck Robinchon ficou em terceiro lugar na categoria Sports Action Singles do 2008 World Press Photo of the Year contest com esta foto do atleta cubano Alexis Copello competindo durante a qualificação do salto triplo nas Olimpíadas de Beijing 2008.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Bebês palestinos mortos e mesquitas bombardeadas: Coleção 2009 do exército israelense

Chocante a reportagem “Dead Palestinian babies and bombed mosques - IDF fashion 2009”, do jornalista Uri Blau, publicada hoje no site do jornal israelense Haaretz. A camiseta que você vê acima, que mostra uma palestina grávida com uma mira telescópica sobre o ventre e os dizeres, “um tiro, duas mortes”, é um dos designs escolhidos pelos atiradores de elite israelenses para marcar o término de seu período de treino ou uma “temporada de caça” em Gaza.

Jornal israelense denuncia assassinatos de civis palestinos na Faixa de Gaza

O Jornal israelense Haaretz publicou em sua edição de quarta-feira reportagem do jornalista Amos Harel com relatos de soldados do exército de Israel que participaram dos 22 dias de ofensiva na Faixa de Gaza – ocorrida sob o pretexto de atacar o movimento islâmico Hamas. Os soldados admitiram ter matado civis que não representavam ameaça às tropas e de terem destruído intencionalmente suas propriedades, "simplesmente porque podiam". Realizada entre os dias 27 de dezembro e 18 de janeiro deste ano, a ofensiva deixou ao menos 1.300 palestinos mortos, dos quais ao menos 900 civis.

Os militares, entre eles pilotos de combate e soldados de infantaria, fizeram as revelações em relatórios do curso preparatório militar Yitzhak Rabin, na cidade de Tivon. O que eles dizem é chocante.

Havia uma casa com uma família dentro... Nós os colocamos em um quarto. Mais tarde, nós saímos da casa e outro pelotão entrou. Poucos dias depois recebemos uma ordem para deixar a família sair. Eles (N.R.: os soldados) se posicionaram no piso superior. Havia um atirador em posição no telhado. Disseram para que fossem (N.R.: a mãe e os filhos) pela direita. Uma mãe e os dois filhos não entenderam (N.R.: a ordem do comandante) e foram à esquerda, mas esqueceram de dizer ao atirador de elite no telhado que deixasse eles irem, que tudo estava normal e que não devia atirar. O atirador viu a mulher e os dois filhos se aproximando dele além das linhas que ninguém devia atravessar. Ele atirou neles. De toda forma o que houve foi que, no fim, ele os matou. Não acho que ele (N.R: o atirador) tenha se sentido mal com o caso, pois, até onde ele sabia, estava seguindo ordens. E a atmosfera de modo geral, do jeito que eu entendo e a partir do que conversei com muitos dos meus homens... não sei como descrever isso... Digamos que a vida dos palestinos seja muito menos importante que a vida dos nossos soldados”, disse o líder de um pelotão de infantaria sobre um incidente no qual um atirador de elite disparou contra uma mulher palestina e seus dois filhos.

Outro líder de pelotão da mesma brigada falou sobre um incidente no qual o comandante de sua companhia ordenou que uma senhora palestina fosse baleada e morta; ela estava caminhando por uma estrada a cerca de 100 metros da casa onde estava o comando da companhia.

O mesmo líder de pelotão disse ter argumentado com seu comandante sobre as regras de combate que permitiam aos soldados “limpar” as casas palestinas, disparando em seu interior sem avisar aos moradores. Depois que esta prática foi modificada, os soldados reclamaram dizendo que "deveriam matar todo mundo em Gaza, pois todo mundo é terrorista". O mesmo líder de pelotão continua: "Você não tem a impressão dos comandantes de que há qualquer lógica nisso, mas eles não dizem nada. Nós escrevíamos ‘morte aos árabes’ nas paredes, pegávamos as fotos de família e cuspíamos nelas, apenas porque podíamos. Eu acho que isso é o principal aspecto: entender o quanto as Forças Armadas israelenses caíram no âmbito de ética. Isso é o que eu mais me lembrarei".

Estes são os dois relatos publicados na quarta-feira pelo Haaretz. O jornal diz que publicará outros testemunhos nos próximos dias.

Reação

O chefe do serviço jurídico do Exército israelense, general Avichai Mendelblit, ordenou a abertura de uma investigação sobre as circunstâncias dos fatos relatados pelos soldados, que considera "errôneos" e "inaceitáveis" para as Forças Armadas de Israel.

O diretor do curso militar, Danny Zamir, disse que não sabia o que os soldados haviam escrito nos relatórios entregues à academia e que as declarações o deixaram chocado. Depois de ouvir os soldados, ele afirmou ter alertado o chefe das Forças de Defesa, Gabi Ashkenazi, sobre seu temor por uma “séria falha moral” entre os militares. Segundo Zamir, o escritório da chefia das Forças de Defesa pediu a transcrição dos relatos dos soldados e uma reunião foi marcada para esta semana para debater o tema. "Eles não pretendem evitar a responsabilidade", disse.

O ministro de Defesa de Israel, Ehud Barak, respondeu as declarações publicadas pelo jornal dizendo estar confiante de que as Forças de Defesa lidarão com o tema "com toda a seriedade", e emendou: "Eu passei dezenas de anos em uniforme. Sei o que aconteceu na Iugoslávia, Afeganistão, Iraque e digo a você que ao chefe das Forças de Defesa ao último soldado, o Exército mais moral do mundo está pronto para receber ordens do governo de Israel. Eu não tenho dúvidas de que cada incidente será analisada individualmente".

É possível negar?

No artigo “Can Israel dismiss its own troops' stories from Gaza?”, Amos Harel afirma que os testemunhos dos soldados possibilitam um olhar sem censura sobre algumas das unidades de combate que atuaram na ofensiva. Para o jornalista, os depoimentos mostram as coisas como elas são no campo de batalha e não através de uma ótica preparada pelos comandantes para o público e para a mídia.

Os soldados não estavam mentindo, pela simples razão de que não haveria motivo para isso. Se você ler a transcrição que aparecerá no Haaretz nesta sexta-feira (N.R.: dia 20), você não verá qualquer julgamento ou vanglória. Aquilo foi o que os soldados, a partir de seus pontos de vista, viram em Gaza. Há uma continuidade nestes depoimentos, vindos de diferentes setores, que reflete um retrato perturbador e deprimente.”, afirma Harel.

O jornalista lembra que os relatos são provenientes de soldados israelenses e não apenas de testemunhas palestinas ou da “mídia hostil”.

É possível que, em algum ponto, tenha havido alguns erros ou exageros, já que um líder de pelotão muitas vezes não vê o quadro todo. Mas isso é evidência, em primeira mão, do que muitos israelenses preferem refutar. É assim que o exército conduz esta guerra contra terroristas armados, com uma população de 1,5 milhão de pessoas presas no meio”, continua Harel.

Crimes de Guerra

Na última terça-feira (17), o analista de direitos humanos das Nações Unidas para os territórios palestinos, Richard Falk, disse que a ofensiva israelense contra o Hamas em uma área densamente povoada constituiu-se em um crime de guerra de “grande magnitude”.

Para ele, a Convenção de Genebra exige que as forças em conflito distingam entre alvos militares e os civis que habitam as áreas de combate. “Se isso não for possível, então lançar um ataque é ilegal e se constitui crime de guerra de grande magnitude sob as leis internacionais”, afirmou. Falk pediu a formação de um grupo independente de especialistas para provar os possíveis crimes de guerra cometidos tanto pelo exército israelense como pelo Hamas.

Os mortos

O Palestinian Center for Human Rights publicou nesta semana os nomes de 1417 palestinos mortos nos confrontos. Segundo o relatório, 926 eram civis, 236 combatentes e 255 membros das forças de segurança palestinas na Gaixa. Muitos dos policiais foram mortos em uma série de bombardeios no dia 27 de dezembro, o primeiro dia do conflito. O grupo diz estar investigando a morte de cada civil. A lista dos mortos pode ser encontrada no website do grupo.