Semana On

terça-feira, 3 de março de 2009

A questão humanitária definitiva do nosso tempo

Avassalador o artigo “A questão humanitária definitiva do nosso tempo”, de Idelber Avelar, onde o acadêmico relata a hipocrisia do “calendário cíclico” que Israel mantém em relação aos territórios palestinos ocupados. Avelar é, no Brasil, a voz de maior intensidade moral a tratar do tema e referência básica para quem quer entender o sofrimento dos palestinos e sua luta por um Estado soberano.

A seguir, os trechos finais do artigo:

A causa palestina não é somente, por todas as suas ramificações, a questão humanitária definitiva do nosso tempo. Considerando-se a carta branca que Israel tem historicamente recebido dos EUA, a monstruosa influência do lobby sionista mais bélico dentro do meio político americano e a completa incapacidade das Nações Unidas, ela é também a de mais difícil solução. Um exame detalhado do mapa da Cisjordânia, picotado por gigantescos assentamentos colonizadores e por postos policiais de controle, retalhado pelo muro do Apartheid, mostra quão longe estamos do ideal de um estado palestino viável. Sem qualquer força política que obrigue Israel a respeitar as leis internacionais – especialmente a resolução 242, de 1968, que determina o fim da ocupação do território palestino --, a tendência inercial é que a situação se arraste como está. Massacrar palestinos, desde que com a justificativa de combater o ‘terrorismo’, é uma fácil e eficaz plataforma eleitoral no estado sionista, onde uma minoria lúcida ainda protesta, em condições cada vez piores.

A esquerda ocidental não pode se dar ao luxo da omissão. O trabalho deve ser incessante, começando-se pelo questionamento dos termos. Não é possível continuar chamando de ‘conflito israelo-palestino’ uma sucessão de massacres contra uma população que não tem Forças Armadas. Não é possível continuar aceitando o rótulo ‘terrorista’ para qualificar qualquer organização da resistência palestina, enquanto o estado de Israel diariamente perpetra, contra a população civil, crimes qualificáveis como terrorismo de estado no sentido clássico. Não é aceitável consumir boletins de imprensa do exército israelense travestidos de ‘jornalismo’ cada vez que as agências de notícias relatam um massacre como uma ‘operação’ ou ‘incursão’, situando-se sempre, claro, não no lugar onde o massacre acontece, mas onde ele é planejado. Não é decente nem digno continuar repetindo mentiras como a tal ‘
oferta generosa’, que Yasser Arafat supostamente teria recusado em Camp David, em 2000, uma miragem de criação da imprensa e dos porta-vozes israelenses, naquilo que Robert Fisk chamou de ‘um dos maiores triunfos de relações públicas de Israel’.

Em meio à atrocidade absoluta, o dicionário também é um campo de batalha.

Frases - LXXI

"No jornalismo, a imparcialidade não conduz ao âmago dos grandes conflitos da atualidade. Como ser imparcial ante a fome, o desemprego, o desamparo social, o analfabetismo, a roubalheira, o uso imoral (quando não criminoso) das benesses do poder, os conceitos e preconceitos que esmagam minorias e excluídos?"
Carlos Chaparro

Fotojornalismo

O fotógrafo Giulio Di Sturco, basedo na Itália, venceu a categoria Arts and Entertainment Singles do 2008 World Press Photo of the Year contest com esta foto do backstage da Fashion Week, em Nova Delhi, Índia.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Webmanário

Essencial para quem quer compreender os caminhos e descaminhos da mídia, o blog webmanário, do jornalista Alec Duarte, completou um ano ontem, dia 1º. Desejo que permaneça ativo por muito mais que isso.

Para os Schvartzmans, Ghivelders e Azevedos proporção é coisa de esquerdista e terrorista

A grosso modo, define-se proporção como a igualdade entre duas razões. No caso dos conflitos humanos, no entanto, em especial no recente ataque israelense sobre a Faixa de Gaza, encontrar as razões que justifiquem a proporção do massacre perpetrado contra a população civil palestina é um desafio digno dos grandes matemáticos. Para lembrar aos mais esquecidos: cerca de 1300 palestinos (entre 40 e 50% crianças) morreram, assim como 13 israelenses. Uma proporção de 100 para um.

Salomão Schvartzman e Zevi Ghivelder tentaram desvendar o enigma em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, no dia 13 de janeiro. Segundo eles, não há critério para definir proporção em um conflito armado: “Há algum critério, alguma tabela, que a caracterize? Será que existe um consenso universal segundo o qual Israel teria o direito de matar ‘y’ palestinos se contasse ‘x’ mortos por foguetes?”, questionaram.

Da mesma forma, Reinaldo Azevedo molda argumentos como peças de lego para convencer a si mesmo - e aos incautos - que os palestinos merecem a chibata e que os israelenses estão em seu direito ao ocuparem territórios que desde 1946 a ONU pede que sejam devolvidos aos verdadeiros donos: os palestinos.

Azevedo, propositalmente, assim como os que cultivam urticária ao pensar na possibilidade de que os palestinos (os palestinos, não o Fatah, o Hamas ou o Hezbollah) possam constituir seu Estado, induz seu leitor a imaginar que todos os habitantes da Faixa de Gaza ou da Cisjordânia são terroristas-suicidas prontos a explodir ônibus ou pizzarias repletas de civis. Irresponsabilidade, para ser comedido.

Um dos principais argumentos de Azevedo, Schvartzman e Ghivelder para defender que não existe desproporcionalidade nos cíclicos massacres de civis palestinos é que, por terem eleito o Hamas (um grupo extremista islâmico) nas últimas eleições, os habitantes de Gaza não teriam crédito para negociar com Israel. Afinal, o Hamas prega a destruição de Israel. Quer dizer que, por terem transformado o partido de extrema-direita Israël Beiteinu – que propõe a expulsão dos árabes-israelenses de Israel – na terceira força política de Israel nas últimas eleições os israelenses também não devem ser dignos de crédito? Ora, se o problema são os extremistas, que tal Israel retirar os grileiros da Cisjordânia já que lá os palestinos são governados pelo moderado Fatah?

A verdade é os Schvartzmans, Ghivelders e Azevedos da vida não tem coragem de dizer, de fato, o que pensam a respeito da questão palestina. O que eles pensam é o seguinte: Israel deve continuar incrementando a invasão de terras na Cisjordânia por meio de “assentamentos” ilegais (sim, são ilegais, vide as resoluções 181 e 242 da ONU ou os termos do acordo de paz de 1993) até que os palestinos não tenham outra opção que migrar para a Jordânia, o Egito ou seja lá para onde for.

Mas voltemos a falar de proporção.

No último dia 17 o jornal Folha de S.Paulo publicou um editorial no qual classificava a ditadura militar no Brasil (1964-1985) de “ditabranda”. Em meio ao confronto de idéias que se seguiu ao editorial, a proporção dos crimes cometidos no Brasil pelo regime autoritário foi comparada ao número de vítimas de outras ditaduras para, digamos, abrandar o terror.

Foi o que fez Azevedo, novamente ele: “Os militares argentinos mataram 30 mil pessoas. Se o Brasil tivesse seguido aquele padrão, os mortos aqui teriam sido 150 mil! Fidel Castro, o maior assassino em massa do continente, responde por 100 mil vítimas. Na ditadura brasileira, morreram 424! Se fizermos as contas por 100 mil habitantes, Fidel é 2.700 vezes mais assassino do que o regime brasileiro.”, afirma.

Diga-se (para evitar o principal argumento de Azevedo e Cia, segundo o qual todos que o contrariam são esquerdistas ou terroristas): ditadura, seja de esquerda ou de direita, é algo a ser combatido, sejam as vítimas poucas centenas ou muitos milhares. Simplesmente não é aceitável que um governo seja imposto a uma população ou que suas liberdades básicas de expressão, de ir e vir etc sejam tolhidas.

Curioso que Azevedo, tão preocupado em desvincular o conceito de proporção do belicismo israelense, faz questão de levantar esta bola quando o tema é o terrorismo de Estado imposto pelos militares no Brasil nas décadas de 60 e 70.

Lei de talião

Talvez esta relação entre número de vítimas e crimes de guerra, entre pesos e medidas, tenha um pé fincado em um passado remoto, lá atrás, na Lei de talião, “aquela do olho por olho, dente por dente”. De origem babilônica, foi incorporada pelos hebreus e pode ser vista ainda hoje em relatos sobre o modo como o qual alguns israelenses observam o conflito com os palestinos.

O jornalista e escritor Robert Fisk, por exemplo, em algumas passagens de sua obra “A grande Guerra pela civilização - A conquista do Oriente Médio”, mostra sua incompreensão pelo modo com o qual pedras são respondidas com tiros em Gaza e na Cisjordânia. Uma passagem, especialmente interessante relata um encontro de Fisk com um judeu nova-iorquino em Tel Aviv. Em meio à conversa, o estadunidense diz que se lhe atiram uma pedra, responderá com um tiro. Fisk responde: “Se você me atira-se uma pedra eu não lhe daria um tiro”. Seu interlocutor responde: “Então você deve estar ficando louco”.

É a Lei de talião mantida viva na cultura hebraica, mantendo no campo da normalidade o uso de balas contra pedras e de tanques, mísseis e metralhadoras contra foguetes de fundo de quintal. Única potência nuclear no Oriente Médio, o que impedirá Israel de usar ogivas contra seus inimigos ou desafetos, já que, para Schvartzmans, Ghivelders e Azevedos, proporção é assunto para esquerdistas e terroristas?

Novo Jornalismo

Em novembro do ano passado, no artigo “Um financiamento público para o Jornalismo?”, abordei as experiências estadunidenses de um novo e alternativo campo de trabalho para jornalistas no qual, ao invés de atuar como empregados na grande mídia, os profissionais pudessem ser “financiados” por seus próprios leitores. No artigo, analisei algumas destas experiências, como o Spot.us e o Representative Journalism.

Agora (dica pinçada do blog Webmanário, do jornalista Alec Duarte), jornalistas do Arizona (USA), demitidos de jornais impressos que fecharam as portas ou estão prestes a isso, criaram seus próprios veículos on-line, conforme reportagem de Megan Taylor, no Midiashift.

O Arizona Guardian e o Heat City são dois exemplos. O primeiro é tocado por quatro jornalistas de Phoenix, recentemente demitidos do East Valley Tribune. O Guardian cobre assuntos do legislativo e outros aspectos da capital do Estado.

O Heat City, por sua vez, é dirigido por Nick Martin, outro jornalista egresso do Tribune. O website cobre pautas policiais, jurídicas e, também, a mídia. Mas a peça de resistência é a cobertura do julgamento do serial-killer Dale Hausner.

Frases - LXX

“Tudo na política externa israelense sugere que o país já é presa, ele próprio, da lógica bélica que determina que os palestinos serão agredidos e massacrados periodicamente por razões que têm a ver com o calendário eleitoral israelense, norte-americano, ou com qualquer outra conveniência das forças de ocupação...”
Idelber Avelar

Fotojornalismo

O fotógrafo Carlos Cazalis, baseado no México, venceu a categoria Contemporary Issues Stories do 2008 World Press Photo of the Year contest com a foto deste sem-teto, em São Paulo.

domingo, 1 de março de 2009

Fotojornalismo

O fotógrafo Philip Jones Griffiths moreu no dia 19 de março. Uma de suas grandes fotos, datada de 1958, mostra um grupo de pessoas aguardando na porta da prisão de Pentonville, onde um amigo seria enforcado.

Música aos domingos

Think - Aretha Franklin