Semana On

sábado, 28 de fevereiro de 2009

No dos outros é refresco

Interessante o artigo “Virando a Folha”, de Sergio Leo. Trata-se de uma resposta ao artigo “Folha de São Paulo, cínica e mentirosa. Todo o apoio a Fabio Konder e Maria Victoria Benevides”, de Idelber Avelar, no qual Leo questiona as críticas feitas pelo último em relação a grande imprensa no Brasil. Concordo com Avelar, mas entendo a saia justa de Leo.

Afinal, Avelar chuta o pau da barraca (em defesa a Fabio Konder e Maria Victoria Benevides) dizendo aquilo que muita gente pensa, mas guarda para si, quando os assuntos são a hipocrisia e o baixo nível intelectual que reinam nas nossas redações. Cita “o paupérrimo, o assombrosamente rasteiro nível intelectual da grande mídia brasileira", diz que os jornalistas "além de mentirosos, venais e pouco transparentes, são fraquíssimos" e que os donos dos jornais têm "suas corjas de servidores". Pura (e doída) verdade quando observamos a regra.

Leo e sua esposa atuam nos jornalões (que não são melhores ou piores que os veículos de pequeno porte, visto que a crise moral na profissão é geral) e se doeu com as críticas. Confesso que também me sinto ferido. É que, em meio à hipocrisia reinante, há quem tente encaixar aqui e ali pinceladas de jornalismo de verdade na labuta diária. Como disse Leo, “esse tipo de ataque maniqueísta, virulento, totalizante deixa pouco espaço aos que, dentro dos jornais, tentam e muitas vezes conseguem fazer um trabalho de qualidade”.

É, há exceções. Melhor, há momentos de exceção durante a pasmaceira.

Ocorre que, logo depois, ele insiste em um argumento que me soa, realmente, típico de quem, como o próprio Leo diz, é “parte de uma corja que se acumplicia no projeto conspiratório dos jornais contra o interesse do povo”.

Diz ele: “Trabalho num jornal que é propriedade, em partes iguais, das famílias Frias e Marinho, que nunca me censuraram e me estimularam a trabalhar com bastante liberdade”. Diz também que os patrões não são os “vilões do imaginário daqueles que só enxergam manipulação nas empresas jornalísticas”.

Será? Fico com a leitura do Avelar.

Ah tá, agora entendi – X

Espera aí, deixa ver se entendi.
Quer dizer que o senador Leomar Quintanilha (PMDB-TO), presidente do Conselho de Ética do Senado – um cargo que deveria ser ocupado por alguém acima de qualquer suspeita – é acusado pelo Ministério Público de já ter recebido propina de empreiteiras?
Sim.
Ah, tá, agora entendi.

Fotojornalismo

Vincent Laforet, fotógrafo da Newsweek baseado nos Estados Unidos, venceu a categoria Sports Action Stories do 2008 World Press Photo of the Year contest, com esta foto.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A transformação autoritária de Israel

A transformação autoritária de Israel
Por Sharon Weill e Valentina Azarov (tradução Victor Barone)
Publicado originalmente no site Eletronic Intifada

Uma das principais questões levantadas durante o recente conflito na Faixa de Gaza – além do considerável número de denúncias de violações das leis humanitárias internacionais, que não trataremos neste artigo – diz respeito ao funcionamento da lei em Israel nos casos relacionados à liberdade de expressão, opinião e acesso a informação. O Estado fez tudo que estava ao seu alcance (e além dele) para silenciar as vozes que se opuseram as políticas de governo e a recente operação militar na Faixa de Gaza.

Estes eventos foram componentes primordiais no processo que levou ao resultado das eleições para o parlamento israelense, onde um partido, o Yisrael Beiteinu, cujo líder defende uma agenda racista e autoritária, tornou-se a terceira força política no País. As políticas de Estado, que serão examinadas neste artigo – o banimento dos protestos, as restrições à liberdade de expressão e a desqualificação dos partidos árabes – são parte da transformação de Israel em um regime autoritário baseado na segregação.

O banimento dos protestos

Durante as operações militares em Gaza, manifestantes pacifistas se defrontaram com a brutalidade da polícia e do exército. De acordo com relatórios de 12 de janeiro de 2009, de autoria do jornal Haaretz, e de 2 de janeiro de 2009, de autoria da organização de direitos humanos Adalah, em 230 protestos, 801 manifestantes foram presos, 277 deles crianças ou adolescentes. O motivo das prisões: “perturbação da paz”, “acenar com bandeias palestinas”, e “ferir o moral da nação”.

Em 7 de fevereiro de 2009, 225 pessoas permaneciam detidas, incluindo 89 crianças e adolescentes; 114 pessoas foram levadas a julgamento. Outras foram interrogadas pelos serviços de segurança e alertadas a não tomar parte de outras manifestações; alguns foram mantidos em prisão domiciliar e proibidos de entrar em certas cidades.

A grande maioria destes presos era composta por palestinos com cidadania israelense. Palestinos, israelenses e manifestantes de outros países participaram de protestos pacíficos na Cijordânia e foram violentamente reprimidos pelo exército israelense, inclusive à bala. Estes confrontos causaram a morte de quatro palestinos em Nilin, Qalqiliya e Sawad, além de inúmeros feridos.

A liberdade de expressão e de manifestação e as liberdades pessoais foram sistematicamente violadas pelo Estado.

Violação da liberdade de imprensa

Jornalistas israelenses têm sido proibidos de entrar na Faixa de Gaza nos últimos dois anos. Amira Hass e Shlomi Eldar, dois conhecidos jornalistas que entraram em Gaza antes da ofensiva, foram imediatamente presos e reenviados para Israel. Jornalistas estrangeiros também tiveram acesso negado à região desde o início de novembro de 2008, devido à interrupção do cessar fogo com o Hamas e o fechamento dos pontos de passagem entre Israel e a Faixa de Gaza.

A Foreign Press Association fez uma petição à Suprema Corte de Israel em 24 de novembro de 2008 solicitando livre acesso a região. A petição deixava claro que os repórteres eximiriam Israel de qualquer responsabilidade pela sua segurança ao adentrarem a Faixa de Gaza.

A primeira reação surgiu apenas em 31 de dezembro de 2008, após jornalistas terem pedido pressa na decisão devido ao início da operação militar israelense na Faixa de Gaza. O exército permitiria que oito jornalistas adentrassem a zona do conflito.

No dia 2 de janeiro de 2009 a justiça israelense se pronunciou:

... a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, como o direito do público a informação, mantêm-se inalterados, mesmo em tempos de guerra, e em um período como este têm uma importância especial; no entanto, estes direitos não são absolutos e diante das circunstâncias têm de ser equilibrados diante do risco para vidas humanas como resultado da abertura de pontos de passagem entre Israel e a Faixa de Gaza”.

A corte, inequivocamente, endossou a proposta do Estado de liberar o acesso a apenas oito jornalistas estrangeiros, quando a passagem se tornasse possível para fins humanitários e esta entrada teria que ser coordenada junto às autoridades competentes com um dia de antecedência á data de entrada requerida pelos jornalistas.

Além disso, a corte endossou a posição do Estado de que os procedimentos estariam “sujeitos a mudanças de acordo com as circunstâncias. No entanto, esperamos que sejam tomadas todas as medidas necessárias, de acordo com os procedimentos estabelecidos e em consideração aos direitos e interesses representados pelos peticionários”.

Um dia depois, a operação terrestre em Gaza teve início. O Estado usou este fato como um fator de mudança nas condições expressas pela justiça, impossibilitando a entrada dos jornalistas na Faixa. Assim, a obrigação de viabilizar a entrada dos jornalistas, que havia sido acordada um dia antes, nunca foi implementada pelo exército israelense.

Em 20 de Janeiro de 2009, após o fim da operação, o Estado se predispôs a garantir o acesso dos jornalistas. Ainda assim, a Foreign Press Association protocolou outra petição requerendo acesso total dos jornalistas, como havia feito em novembro de 2008, pois não estava satisfeita com uma mera declaração de intenção por parte do Estado. No curso dos dias Israel concordou em permitir o acesso, mas apenas para jornalistas estrangeiros.

O Estado violou a primeira decisão?

Na sua segunda decisão, a corte afirmou que não iria julgar a violação de sua decisão anterior por parte do Estado, uma vez que a questão não seria relevante ao caso em questão. O Estado, por sua vez, também alegou que não houve violação da primeira decisão, uma vez que todas as restrições foram impostas apenas por razões de segurança.

Os peticionários não pediram que o Estado fosse confrontado pela corte. Eles ainda não tinham a informação - publicada um dia após a segunda petição ter sido feita pelo jornal Haaretz – revelada por uma carta do Ministério da Defesa endereçada ao assessor jurídico do Gabinete do primeiro-ministro, segundo a qual as condições de segurança não eram impedimentos para a entrada de jornalistas na Faixa de Gaza e que o bloqueio ao acesso dos jornalistas foi mantido por motivo de relações públicas. A questão da segurança teria sido uma desculpa.

Na carta, o conselheiro jurídico do Ministério da Defesa alertava que se o gabinete do primeiro-ministro continuasse a bloquear o acesso dos jornalistas, o Estado poderia se ver em confronto com a corte. Deve-se notar que o Estado israelense nunca negou a existência desta carta ou seu conteúdo (O artigo foi originalmente publicado em hebreu no dia 21 de janeiro de 2009 na edição impressa do Haaretz. Uma tradução parcial foi publicada na edição online do jornal).

Banindo partidos árabes das eleições israelenses

A repressão sobre a minoria palestina em Israel é uma reminiscência da história sócio-política do poder militar israelense e das suas políticas de limpeza étnica. Para destacar apenas um dos muitos problemas representados pela estrutura do autoritário sistema jurídico do país seria necessário lançar uma luz sobre sua própria natureza discriminatória, que visa a erosão da identidade dos palestinos que vivem dentro das fronteiras de Israel, através da proibição da bandeira palestina e da sistemática negação dos direitos à propriedade por parte de palestinos em Israel.

Em 12 de Janeiro de 2009, a Comissão Eleitoral Central (CEC) do parlamento israelense desqualificou a candidatura dos dois partidos árabes - United Arab List-Ta'al e Balad (ou Aliança Democrática Nacional (NDA) - que representam mais de 160 mil eleitores israelenses. Estes partidos se viram proibidos de disputar as eleições para o Knesset (Parlamento), a ser realizada em 10 de Fevereiro de 2009. A desqualificação foi seguida de uma denúncia apresentada ao CEC por Avigdor Lieberman, chefe do partido da extrema-direita Yisrael Beiteinu.

De acordo com a secção 7A da Lei Básica de Israel, o Knesset permite a desqualificação de um partido quando seus objetivos ou os de seus candidatos envolvem: (i) a destruição do Estado de Israel como um Estado judeu e democrático, (ii) incitamento racismo, ou (iii) apoio a um estado inimigo ou de uma organização terrorista durante um conflito. Além disso, a lei foi recentemente alterada para incluir todos aqueles que visitaram um país inimigo nos últimos sete anos antes da apresentação da sua candidatura, como se tais ações pudessem ser vistas como suporte a um conflito armado contra Israel.

A moção de desqualificação foi proposta por partidos de direita e defendidos por uma maioria dos membros da comissão, incluindo membros do partido Kadima e os trabalhistas. Vários membros da CEC equipararam o apoio dos partidos árabes aos palestinos residentes na Faixa de Gaza durante as recentes incursões, ao apoio ao terrorismo. A maior preocupação dos membros da Comissão foi a intenção destes partidos em alterar a definição da constituição de Israel de um Estado "judeu e democrático" para um Estado “democrático de todos os seus cidadãos.".

A Adalah, uma organização não governamental dedicada a proteger os direitos dos palestinos em Israel, submeteu uma petição legal contra a decisão do Knesset.

A principal alegação foi de que a decisão fere os direitos dos candidatos serem eleitos e que impede o direito constitucional dos cidadãos votarem nestes partidos para elegerem seus representantes para o Knesset. Além disso, a ONG alegou que maioria dos membros do CEC levou em conta argumentos irrelevantes, negligenciando a legislação e a jurisprudência existentes. As plataformas destes partidos já haviam sido avaliadas e aprovadas por uma extensa banca de juízes nas eleições anteriores e desde então não houve nenhuma mudança na sua agenda política.

A ONG Adalah salientou que os debates na CEC foram violentos e descontrolados, não permitindo um encaminhamento construtivo sobre a questão e isolando uma das partes. A situação ficou tão fora de controle que Eliezer Rivlin, presidente da Comissão de Justiça declarou: "tendo em conta a situação que foi criada, eu decidi não votar" (Ata dos debates de 12 de Janeiro de 2009, p. 60).

Os representantes das partes não tiveram a oportunidade de apresentar seus argumentos e foram várias vezes interrompidos (ver págs. 20-25 da ata). No curto período de tempo que foi concedido a MK Ahmed Tibi, líder da United Arab List (UALAMC), ele declarou claramente que "os partidos árabes se opõe a uma política e não a um país" e confirmou que as suas agendas políticas buscam uma solução comum para que os dois povos possam "viver em conjunto e não morrer juntos" (pp 31-33 da ata).

Assim, a decisão tomada pela CEC foi tendenciosa e baseada em informações incompletas, colhidas muitas vezes da mídia. Mesmo que as alegações feitas pelos que pediram a desqualificação dos partidos árabes fossem verdadeiras, ainda assim não constituiriam motivo suficiente para esta desqualificação. No entanto, uma maioria esmagadora aprovou a medida: 21 votaram a favor da inelegibilidade do UALAMC, sete membros votaram contra e dois abstiveram, 26 membros votaram a favor da retirada da NDA, três membros votaram contra e um absteve-se.

Em 21 de Janeiro de 2009 o Supremo Tribunal de Israel, com uma bancada de nove juízes, aceitou por unanimidade a petição que invalidou a decisão da CEC e reintegrou o direito de ambos os partidos disputarem a eleição para o Knesset.

Caminhando para um regime autoritário

Uma vez que o Estado comece a dificultar a criação e desenvolvimento de uma opinião pública; uma vez que a mídia é silenciada ou transforma-se em uma ferramenta de propaganda; uma vez que manifestações e partidos políticos são colocados na clandestinidade por se oporem ao governo, a sociedade passa a se transformar lenta mas inexoravelmente, movendo-se ao largo dos regimes democráticos rumo ao autoritarismo.

Os alegados crimes de Guerra cometidos pelo exército israelense na Faixa de Gaza, as violações de direitos básicos de cidadãos israelenses e o resultado das eleições de 2009 são exemplos desta transformação. O que ocorreu nos dois meses que antecederam as eleições em Israel explica, em certo ponto, o voto de muitos israelenses que fizeram de um partido racista a terceira força política em Israel.

O partido de Avigdor Lieberman advoga o banimento dos partidos árabes que clamam por um “Estado democrático para todos os cidadãos” e a repressão do que vê como “traição” por parte dos cidadãos árabes em Israel. De acordo com seu site, o Yisrael Beiteinu reivindica um “patriotismo incondicional” e exige que os cidadãos “afirmem sua lealdade ao Estado e estejam prontos a servir ao exército ou ao Serviço Nacional para poderem se tornar elegíveis para qualquer benefício estatal”.

O partido declara em sua plataforma a intenção de fazer de Israel um Estado puramente judeu e, ao mesmo tempo, “aumentar a Presença Judia em Yehuda, Shomron, (Cijordânia em outras palavras), Golan (Colinas de Golas, território sírio ocupado) e Jerusalém Leste, assim como trabalhar para a separação entre Gaza e Cijordânia".

De acordo com o site do partido, "Idealmente, o lobo habitará com o carneiro, mas nós não vivemos tempos ideais. A história tem mostrado que há um perigoso potencial para a eclosão de conflitos em regiões habitadas por povos que professam religiões diferentes. ...Membros desta minoria (árabe) tendem a servir como agentes terroristas sob o comando da Autoridade Palestina. Muitos já tornaram pública sua falta de lealdade para com o Estado. Esta situação pode levar ao colapso de Israel como um Estado Judeu e democrático e, talvez, como entidade coesa. Além disso, em nossa opinião, a única solução possível é a troca de territórios e de população, com o objetivo de separar as nações judia e árabe respectivamente”.

Lieberman tem feito incitações racistas contra palestinos com nacionalidade israelense. Em uma recente coletiva de imprensa organizada pelo seu partido em Haifa, impediu a participação de jornalistas árabes. Como o Haaretz noticiou em 6 de fevereiro, durante recente visita a escolas no norte de Israel, Lieberman foi saudado com gritos de “morte aos árabes” e propostas de “revocar a nacionalidade israelense dos árabes”. O Haaretz revelou também que Lieberman foi seguidor do movimento Kahane Kach, de extrema-direita, banido em 1988.

Idéias que já foram consideradas extremamente racistas para serem legitimamente expressas são agora parte do discurso político em Israel, enquanto outras opiniões são silenciadas. Trata-se de um sério sinal de que a situação em Israel lembra mais e mais a era do apartheid na África do Sul.

Sharon Weill is a PhD candidate in International Humanitarian Law, University of Geneva, Research Assistant with the Rule of Law in Armed Conflicts project and lecturer in IHL. Valentina Azarov is a Legal Researcher with HaMoked - Center for the defence of the individual and author with the International Law Observer and the Alternative Information Center.

Democracia caudilhesca

Antonio Ledezma, eleito prefeito de Caracas com apoio de uma coligação de pequenos partidos, governa a capital da Venezuela de uma sala alugada em um prédio comercial. Não pode entrar na Prefeitura, invadida por chavistas. Motivo: recusou-se a renovar o contrato de 8 mil funcionários fantasmas.

Frases - LXIX

“Fiquei chocada com aquela loucura apaixonada acontecendo ao ar livre no Brasil, enquanto nós, fãs da música americana, ficávamos presos como ovelhas anestasiadas no curral comercial de shows de estádio, caros e cheios.”
Camille Paglia, referindo-se a Daniela Mercury em entrevista a Veja

Fotojornalismo

Zhao Qing, fotógrafo chinês do China Youth Daily venceu a categoria Sports Features Stories do 2008 World Press Photo of the Year com esta foto dos jojos olímpicos sendo exibidos em um telão, em Beijing.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Plug n’ Play

Plug n’ Play
(Ctrl C, Ctrl V em um tema de M. Bandeira)
Para Ricardo Wagner


Não me venham com uma poesia que não esteja inflamada de morte: onde nem todo antibiótico do mundo possa surtir efeito; não me venham com uma poesia que não esteja intoxicada, que seja análoga às mensagens dos suicidas, aos bilhetes dos seqüestradores e as cartas-bombas dos que resistem

– e que da boca prefira o beijo à mordida.

Não me venham com uma poesia que não esteja em guerra: esses pequenos anúncios sobre biomas familiares, infestados de bactérias da moral conservadora, que veio escondida no bolor das bíblias e na sujeira da cueca dos padres

– e toda a merda sobre o amor adolescente, que culminou em frustração irreversível, visitas aos psiquiatras behavioristas e horas de onanismo diante do espelho embaçado do banheiro.

Não me venham com uma poesia que não esteja de pé, caminhando pela boca negra da madrugada, cheirando o cio dos que sofrem por não estarem se matando para alimentar os donos de __________, o proprietário da ___________, e os arrendatários dos ___________; uma poesia que não esteja agora farejando o fedor do sangue dos que foram mastigados pela fome,
que não possuem sequer a terra debaixo das unhas

– e toda a bobagem umbilical, encharcada de nostalgia hanna-barberiana: o campo de futebol de terra batida e o jardim privado, que deveriam ter sido varridos da história, sobretudo com seus personagens: futuros técnicos e operadores da moenda capitalista, esfomeada por braços.

Não me venham com uma poesia artificial, criada no semi-árido dos dicionários, no glacial coercivo das gramáticas: essas invenções laboratoriais sintetizando o som das caixas registradoras e o canto das máquinas de refrigerantes

– e tudo aquilo que acalma: o verso que não esteja envenenado para matar the dear president; e tudo aquilo de inútil e irrelevante: adultérios bem- omportados que causam sono nos confessionários e levam ao bocejo os telespectadores das novelas das 6; e tudo aquilo de covarde: o poema que pede por favor para que as pessoas tumultuem.

Não me venham com uma poesia que possa ser lida nos salões sem despertar o pânico e instaurar o caos: essa poesia que o rádio transmite sem tirar o sono de ninguém, que tenha uma pátria e atenda por um nome

– e que da cama prefira o sono ao sexo.

Rafael Nolli, mais uma pérola do Poema Dia

Chavez, direita, esquerda e fascismo

No último domingo, 22, postei aqui uma frase de Pedro Doria, pinçada de uma reflexão feita pelo jornalista em seu blog, a respeito das origens autoritárias das constituições de Venezuela, Bolívia e Equador. Dizia Doria: “Há um conceito novo de revolução de esquerda sendo testado na América Latina, uma revolução constitucional idealizada por um ex-fascista tornado comunista.”.

O post recebeu o seguinte comentário do jornalista e blogeiro Pedro Ayres: “É bem engraçado esse tipo de pensamento, além de ser ter como base a opinião de alguém simpático ao direitismo e estar à leguas do que seja a verdade dos fatos e da história política daquele país.”.

Ayres discorda da análise feita por Doria que, por sua vez, inspirou-se em um artigo do jornalista Joshua Partlow, publicado no dia 17 de fevereiro no The Washington Post, e em reportagem do jornal espanhol ABC, de novembro de 2007, segundo a qual a constituição dos três países foi escrita (ou profundamente influenciada) por um grupo de acadêmicos espanhóis – reunidos no Centro de Estudos Político e Sociais (CEPS), da Universidade de Valença - encabeçado por Roberto Viciano Pastor.

Professor de Direito Constitucional na Universidade de Valencia (titular da Cátedra Jean Monnet sobre Instituições Comunitárias), Pastor é ex-militante do grupo fascista Fuerza Nova, que na década de 60 apoiava o ditador Francisco Franco na Espanha.

Não é a primeira vez que o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, se envolve com ideólogos de origem fascista. Basta uma rápida pesquisa no google para relacionar seu nome ao do sociólogo e cientista político argentino Norberto Ceresole.

Ora, perguntará o leitor menos avisado, mas que diabos têm a ver as mudanças políticas na América Latina com fascismo? A pergunta seria bem colocada, visto que todos estes movimentos sociais procuram se alinhar com a esquerda. Não é “socialista” a revolução proposta por Chavez e seus companheiros de Equador e Bolívia?

Benito Mussolini resumiu a doutrina fascista numa regra concisa: "Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.". Se alguém lembrar dos totalitarismos de esquerda ao ouvir este conceito não poderá ser condenado por isso. De fato, o empoderamento do Estado é comum a várias linhas políticas - de esquerda e direita - que se relacionam pelo seu viés totalitário. Mussolini, Hitler, Franco, Stalin, Perón, Vargas, etc, etc, etc. Todos se alimentaram da leitura fascista na qual o poder se concentra nas mãos do Estado.

Em comum, as três Cartas (Venezuela, Bolívia e Equador) tratam da re-fundação de seus países para corrigir injustiças históricas em torno de um ideal mítico, seja a memória de Simón Bolívar, seja a cultura das populações indígenas locais. Na prática, as Cartas sob orientação do CEPS promovem a concentração de poder nas mãos do Executivo.”, afirma Pedro Doria. Nada mais do que a verdade.

Não ocorre o mesmo na ilha de Fidel, na China de Hu Jintao, na Coréia do Norte de Kim Jong-il?

No artigo “Sombras no avanço da esquerda”, publicado no jornal O Estado de S.Paulo no último dia 22, o sociólogo José de Souza Martins vai à fundo na questão. Segundo ele, as políticas implementadas por esta nova mobilização na América Latina “são demandas de esquerda porque questionam as estruturas sociais injustas, as iniqüidades que se renovam, a economia que não gesta transformações nem viabiliza uma sociedade nova, de desigualdades sociais no mínimo atenuadas”. No entanto, continua Martins, suas respostas são “oriundas desse neo-autoritarismo, que se materializa nos governos da nova esquerda latino-americana”, e “tem sido, na verdade, respostas de direita”.

Não faço, aqui, uma defesa da democracia representativa. Tenho cá minhas dúvidas sobre sua funcionalidade. No entanto, substituí-la por um simulacro de democracia direta de cunho autoritário, como têm feito Chavez, é solução pior.

Penso que continuamos nos digladiando sobre a mesma dicotomia que coloca liberdade e igualdade em campos opostos. Os conceitos de esquerda e de direita, longe de se configurarem em temas desgastados, estão inseridos em todos os debates que travamos. O grande perigo, que se fortaleceu com a destruição dos totalitarismos de esquerda no século passado, é a noção de que esquerda é apenas, única e exclusivamente o fortalecimento do Estado. É este pensamento que permite chamarmos de revolução socialista um regime fascista e condenarmos ao lixo histórico conceitos sócio-políticos que, ao contrário, deveriam estar sendo debatidos diante da crise estrutural que as sociedades contemporâneas vivenciam.

Leia mais sobre este tema:
- Conduzindo a boiada
- Sabedoria popular?
- Economia faria maioria dos brasileiros trocar democracia por ditadura

Frases - LXVII

“Neste processo de reinventar o jornalismo, a primeira coisa que temos que fazer é reconquistar a confiança de leitores e espectadores”.
Pedro Doria