Semana On

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Jornalistas e assessores

O jornalista Alec Duarte tem levantado uma questão interessante em seu blog, Webmanário. Pergunta ele: “Agora me diz: assessoria de imprensa é jornalismo?”. Ele sustenta que não e eu concordo. Para embasar a opinião, cita os planos da Secretaria de Comunicação da Presidência da República para a agência CDN, ganhadora de licitação da conta de assessoria de comunicação do órgão, que “evidenciam claramente como o trabalho tem tudo a ver com relações públicas _ e quase nada de afinidade com jornalismo”.

Discordo dele, no entanto, quando afirma que trabalhar em assessoria de imprensa é mais fácil que em jornalismo, como atestou no post “A culpa é da assessoria”. Tenho atuado nesta área há três anos e digo que é um trabalho duro como qualquer outro relacionado com a comunicação social. Há especificidades, diferenças, momentos mais tranqüilos e mais complicados, como no jornalismo. Tratei do tema no ano passado no artigo “Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade”.

Leia mais sobre este tema:
- Jornalismo e assessoria de imprensa

Irresponsável

Irresponsável como sempre quando o assunto é Oriente Médio, Reinaldo Azevedo continua confundindo palestino com terrorista em comentário sobre recente declaração da líder do Partido Kadima, Tzipi Livni, segundo quem o país precisa desistir de uma parte considerável de território em troca da paz com os palestinos. "Nós precisamos desistir de metade da Terra de Israel", disse ela, durante uma convenção de líderes de organizações judaicas norte-americanas, usando um termo que se refere às fronteiras bíblicas de Israel, que incluíram, durante períodos na Antiguidade, o atual território e a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

Para Azevedo, “Israel não tem de desistir de um palmo de terra enquanto os palestinos não desistirem do terror. Sem isso, é melhor Israel desistir da paz ... em troca de terra.”. Se pensassem assim há quarenta anos atrás os terroristas judeus do Irgun e do Stern (entre eles os ex-primeiros ministros Menachim Begin e Yitzhak Shamir) teriam pressionado o mundo a ceder-lhes a terra dos palestinos?

Assim como a maioria dos judeus não é terrorista, apesar do Irgun e do Stern, a maioria dos palestinos também não o é, apesar do Hamas. No entanto, diante da intolerância, é mais fácil colocar uma venda sobre o passado e olhar apenas para a direção que se quer.

Frases - LXII

“Certa vez, até brinquei com meus colegas de governo, dizendo que a diferença entre jornalismo e propaganda é bem simples. Jornalismo é tudo aquilo que a imprensa divulga e a gente acha ruim. Propaganda é tudo aquilo que a imprensa divulga e a gente gosta.”
Ricardo Kotscho

Fotojornalismo

A partir desta quinta-feira, diariamente, os "trabalhos" no Escrevinhamento serão abertos com fotojornalismo.

Foto: Flora Egécia

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Conduzindo a boiada

O plebiscito é uma ferramenta de democracia direta a partir da qual a população, mediante o voto, pode decidir sobre políticas vitais para o seu futuro. No entanto, aliado a ele, é necessário democratizar a informação para que o voto seja embasado por conhecimento de causa. A máxima segundo a qual “a voz do povo é a voz de Deus”, as artimanhas que atribuem ao povo sabedoria suficiente para decidir sobre todos os campos do conhecimento, são balelas perigosas.

Defendo a democracia direta, mecanismos nos quais a população possa decidir diretamente sobre as coisas que lhe dizem respeito, que lhes permita exercer autoridade sobre o executivo e o legislativo, que de ao povo a chance de ser protagonista de seu destino.

No entanto, sem informação, de nada valem estas ferramentas de empoderamento popular. Que valor tem uma decisão popular se os que decidem não conhecem, de fato, as propostas em questão? Se não podem ser informadas com isenção sobre este ou aquele caminho?

Em uma sociedade dominada pela corrupção ou pelo poder político-econômico, uma consulta popular pode, até mesmo, ser um tiro pela culatra. De posse da máquina pública, com o poder midiático sob seu controle (ou amordaçado), determinadas forças podem, facilmente, manipular os fatos, criar mecanismos onde o autoritarismo se fortaleça sob o disfarce da democracia.

Leia mais sobre este tema:
- Sabedoria popular?

Fascismo

A crise econômica global, que já levou governos na Europa a adotar medidas protecionistas, pode aumentar a xenofobia no continente, disse o sociólogo Marc Jacquemain, em entrevista a Samy Adghirni publicada na edição da Folha de S.Paulo da última segunda-feira. Os sinais estão por toda a parte. Na Alemanha, um confronto entre membros da central sindical DGB e neonazistas causou transtornos e deixou feridos em um posto de gasolina situado à beira de uma rodovia no leste da Alemanha na noite de sábado, 14.

Leia mais sobre este tema:
- Sob a sombra do fascismo

Chomsky: Terrorismo de Estado ameaça a segurança de Israel

O poder dos homens do Hamas permanece intacto e a maior parte dos que sofreram em Gaza é de civis: um resultado positivo, segundo uma doutrina bem difundida, a do terrorismo de Estado. Israel calculou que seria vantajoso parecer que “estava ficando louco”, causando terror largamente desproporcional à população. O recado era claro: deixem de apoiar o Hamas. Enquanto isso, observamos calmamente um evento raro na história, que o velho sociólogo israelense, Baruch Kimmerling, chamou de “politicídio”, o assassinato de uma nação. Confira o artigo de Noam Chomsky.

Sabedoria popular?

No último domingo o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, conseguiu emplacar via referendo popular a proposta de reeleição contínua para presidente da República. As análises políticas sobre o fato são facilmente separadas por um muro ideológico. De um lado, a esquerda mais idealista aponta os avanços da consulta popular que legitimaria a mudança, enquanto a esquerda pragmática assina embaixo das estatizações, do controle sobre a educação e a imprensa além de outras barbaridades. Do outro lado, liberais e direitistas apontam rastros de um populismo-ditatorial que estaria condenando o país ao atraso.

Na agência Carta Maior, Emir Sader aponta os motivos da vitória de Chavez: “A pobreza extrema foi reduzida de 17,1 a 7,9. Cresceu a taxa de escolaridade, que subiu de 40 a 60%. O analfabetismo foi erradicado. A taxa de mortalidade infantil caiu pela metade. O consumo de alimentos subiu 170%”, afirma.

Na última edição da Veja, no entanto, os números do atraso gerados pelos dez anos de Chavez são claros. Entre 1998 e 2008 a produção de Petróleo no país foi reduzida em reduziu 32% (de 3,4 para 2,3 milhões de barris/dia), o investimento externo reduziu 77% (de 4,9 bilhões de dólares para 1,1 bilhão), o número de indústrias reduziu 36% (de 11.117 para 7.093), a inflação aumentou 10% (de 29% para 32%), a criminalidade aumentou 166% (de 18 homicídios - para cada 100 mil habitantes - para 48), o déficit habitacional aumentou 108% (de 1,2 milhão de casas para 2,5 milhões), os gastos militares aumentaram 175% (1,2 bilhão de dólares para 3,3 bilhões), o número de funcionários públicos aumentou 50% (de 1,4 milhão para 2,1 milhões), o emprego na indústria reduziu 23% (de 449.636 empregados para 345.168) e os gastos públicos aumentaram 85% (de 21% do PIB para 39%).

Em seu blog, Conversa Afiada, Paulo Henrique Amorim diz que Chavez é o mais democrático dos líderes latino-americanos. Para corroborar isso, sustenta que, desde que chegou ao poder, o líder venezuelano submeteu-se a 15 consultas populares, que ganhou no voto e que não se pode acusá-lo de ser o único a usar a máquina estatal para convencer os eleitores de caminhar na direção que ele deseja.

“A máquina estatal condiciona a opinião do eleitor? Claro que sim. Como aqui em São Paulo, onde Zé Pedágio e os tucanos usam a máquina para se perpetuar no poder. Chávez está no poder há dez anos. Os tucanos, em São Paulo, estão há 14 anos. A eleição de Chávez é menos legítima do que a Gilberto Taxab?”, questiona o jornalista, esquecendo-se de dizer que o presidente Lula (a quem PHA apóia em seu blog) também tem o hábito de usar a máquina em proveito político próprio – vide o assistencialismo que impera no Governo e a campanha precoce de Dilma Roussef.

O fato é que população escolheu apoiar a reeleição infinita. Cerca de 54% dos venezuelanos votaram pelo “sim”, contra 45% que optaram pelo “não” e 30% preferiram a abstenção. Isso é suficiente para legitimar a opção? Sim. A população votou e fez sua escolha. Tudo o que a população escolhe é isento de erro e deve ser “abençoado” como a melhor opção? Não. A história está repleta de momentos em que, com apoio popular, governos erraram e até mesmo implementaram ações autoritárias e violentas. O nazismo é apenas um destes momentos (Hitler não chegou ao poder por meio de um golpe, mas com o apoio popular).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A pesada mão suíça

A nota a seguir é do jornalista Ricardo Noblat, reproduzo:

“Há 20 anos, um brasileiro ilegal na Suíça foi preso por falsificar cartões de crédito. Saiu da prisão tetraplégico – segundo ele, de tanto apanhar, segundo a polícia, de tanto bater com a cabeça na parede. No final dos anos 90, o mordomo de Celso Lafer, embaixador do Brasil na Suíça, foi preso por engano. Apanhou. Depois, recebeu uma condecoração e visto permanente para trabalhar na Suíça. Na semana passada, os dois episódios foram relembrados nos corredores do Itamaraty devido à má vontade inicial da polícia suíça com a advogada Paula Oliveira.”

Jornalismo e assessoria de imprensa

Interessante o artigo “Imprensa: os dois lados do balcão”, de Ricardo Kotscho. Nele, o experiente jornalista analisa as diferenças e semelhanças entre jornalismo e assessoria de imprensa.

Segundo Kotscho, ambas as atividades são jornalismo: “...tudo tem que ser bem feito, tem que ser honesto _ e não importa se estou trabalhando numa redação ou numa assessoria de imprensa... A matéria prima é a mesma: a informação de qualidade, quer dizer, bem checada e confiável para divulgação... Caso contrário, meu trabalho não serviria nem para o governo, nem para a imprensa.”, afirma.

Diz ainda que quando ocupou a secretaria de Imprensa e Divulgação do Governo Lula, nunca tirou jornalistas “do caminho certo, mesmo quando a pauta era inconveniente ao governo”, mas completa em seguida: “Posso não ter sido muito eficiente neste meu papel de assessor-repórter, não fornecendo todas as informações que eles queriam, mas posso garantir a vocês que nunca passei uma informação errada a nenhum deles.”.

Kotscho diz ainda que o “jornalismo é, por natureza, uma atividade crítica, investigativa, que procura denunciar o que há de errado para que seja consertado”, e logo depois atesta: “Antes que me perguntem se no governo poderia fornecer todas as informações de que dispunha, inclusive as que eram contra os interesses do governo, já vou logo respondendo que não.”.

Falei sobre o tema, aqui no Escrevinhamentos, no ano passado, no artigo “Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade”. Discordo de Kotscho. Jornalismo e assessoria de imprensa não são a mesma coisa (isso não fica claro nas suas próprias afirmações). Em Jornalismo espera-se que a notícia tenha isenção e transparência. Em assessoria de imprensa isenção e transparência são filtradas sempre pelo interesse do patrão.

Em seu raciocínio Kotscho diz: “Também nunca escrevi nada contra os interesses do Estadão, do JB, da revista Istoé, da Folha, da Globo, da Bandeirantes, do SBT, da revista Época, nem de nenhum outro veículo onde já tenha trabalhado.”.

Ora, não o fez, pois, diferentemente do que se ensina das universidades, a ética é um objetivo a ser alcançado e não um parâmetro a ser seguido de olhos fechados. Escrever contra o interesse do patrão é assinar bilhete azul, em qualquer lugar. Cabe a cada um consultar sua consciência (e as contas a serem pagas no final do mês) e tomar a decisão que melhor lhe caber.

Em assessoria de imprensa este conflito inexiste. Não é função de assessor de imprensa se digladiar moralmente sobre se um fato que prejudica seu patrão deve ou não ser divulgado. Ele, simplesmente, não deve.