Semana On

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sob a sombra do fascismo

"Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado."
Benito Mussolini


A suposta agressão promovida por três jovens skinheads neonazistas à advogada brasileira Paula Oliveira, 26, funcionária em Zurique, na Suiça, do maior conglomerado econômico da Dinamarca - A P Moeller/Maersk, líder mundial em transporte marítimo de contêineres – é mais um tentáculo do monstro do fascismo, que emerge novamente das profundezas da história. O renascimento desta ideologia repugnante, que coloca os interesses do Estado sobre os interesses do indivíduo fomentando o racismo e a xenofobia, está ocorrendo sem que se tome qualquer iniciativa para esmagá-la no berço.

No artigo “O fantasma do fascismo”, publicado no último dia três, no Observatório da Imprensa, o jornalista Luciano Martins Costa expressa o temor de que o monstro que assolou o mundo por décadas no século passado, inspirou ditadores de esquerda e de direita e levou a morte de milhões de seres humanos esteja novamente abrindo suas mandíbulas.

O suposto ataque à Paula Oliveira expôs uma faceta macabra da Suíça. O País, que é conhecido por sua neutralidade, parece estar sob as lentes do filósofo Max Weber, para quem “neutro é aquele que já optou pelo lado do mais forte”.

Tenha sido o ataque verídico ou não, o fato é que a Suiça está desenvolvendo fama de país perigoso para estrangeiros. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, uma pesquisa divulgada em junho de 2006 mostra que um terço dos suíços é declaradamente xenófobo. “Doudou Diène, relator especial da ONU para o racismo, afirmou recentemente que o racismo é uma grave questão na Suíça, principalmente porque as autoridades locais não acreditam que o problema seja sério”, afirma a reportagem.

Também em entrevista ao Estadão, a diretora da Comissão Federal Suíça contra o Racismo, Doris Ansgt, comentou o comportamento da polícia suiça em seu trato com casos de racismo: "A polícia suíça é parcialmente cega quando se trata de casos de extremistas e de neonazistas”. Segundo ela, há de fato um mal-estar no país em relação à xenofobia: “O comportamento de jovens extremistas contra os estrangeiros é um reflexo dos sentimentos que vive a sociedade suíça".

Irene Zwentsch, brasileira que trabalha para o Conselho Brasil-Suíça - entidade com sede na Suiça e que ajuda a integração dos brasileiros vai além: "O público em geral não se importa com as vítimas dos extremistas. Qualquer um que se pareça estrangeiro ou que tenha pele escura tem razão de ter medo da violência. Racismo, antissemitismo, islamofobia são inerentes às ideologias de extrema direita".

Além dos Alpes

Levantamento feito por duas juntas de Direitos Humanos da Comissão Europeia, em Viena e Estrasburgo, baseando-se em dados recentes, apontou que o número de denúncias de violência racial aumentou drasticamente em oito dos 11 países-membros da União Europeia desde os atentados de 11 de Setembro e o início da chamada "Guerra ao Terror".

Os relatórios mostram que o número de crimes antissemitas cresceu no Reino Unido e na França, enquanto outras manifestações de violência de extrema direita são cada vez mais frequentes na Alemanha. A Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia, com sede em Viena, na Áustria, apontou – por meio de dados atualizados até 2006 – que as denúncias, investigações e crimes raciais e xenofóbicos aumentaram na Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Áustria, Irlanda, Reino Unido, França e Eslováquia.

Segundo os levantamentos, o País com maior númerio de crimes raciais e ligados a xenofobia é a Alemanha, com 18,1 mil crimes cometidos em 2006, alta de 5,3% na década. É a Dinamarca, país que acolhe grande contingentes de novos imigrantes, apresenta, no entanto, os maiores índices porcentuais. Lá, incidentes do gênero tornaram-se 59,1% mais comuns entre 2000 e 2006. Entre as nações mais populosas do bloco, a França, com aumento de 27,7%, e o Reino Unido, de 27,3%, também foram destaques negativos.

Para Luciano Costa, porém, “o caso mais grave acontece na Itália, onde o governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi quer estimular os médicos a denunciar pacientes que sejam imigrantes em situação irregular.”. Em seu artigo, o jornalista destaca estratégias do governo italiano que muito se assemelham ao que as milícias fascistas que perseguiam opositores, judeus, homossexuais e outros desafetos do regime de Mussolini faziam nos anos 30 e 40: “... o governo italiano autoriza a criação de ‘patrulhas de cidadãos para supostamente controlar a segurança nas ruas.”.

A medida foi aprovado pelo Senado italiano com um placar de 156 votos a favor, 132 contra e uma abstenção. Ela faz parte da Lei de Segurança também aprovada pelo governo e reduz os médicos a condição de delatores. A Lei também estabelece pena de quatro anos de prisão para imigrantes com ordem de expulsão, mas que mesmo assim permanecem na Itália; eleva a taxa para permissão de residência no país de 80 para 200 euros por ano e taxa oficialmente de “vagabundos” todos os imigrantes “sem teto”.

Palco de intensos protestos nas últimas semanas, o Reino Unido também demonstrou tendências xenófobas nos últimos dias quando centenas de trabalhadores britânicos protestaram carregando placas cujos dizeres pediam “empregos do Reino Unido para trabalhadores britânicos”. Uma greve envolvendo trabalhadores em uma refinaria, cujos postos eram ocupados por italianos e portugueses, foi o estopim da crise. Sindicatos protestaram contra o governo, dizendo que trabalhadores nativos estavam sendo minados por estrangeiros com salários mais baixos. O primeiro ministro inglês, Gordon Brown, ao invés de apaziguar os ânimos, repetiu o grito de guerra dos grevistas, acirrando ainda mais o clima de confronto.

Vale lembrar notícia que pipocou nesta semana pela internet, segundo a qual o Príncipe Harry vai frequentar um curso anti-xenofobia promovido pelo exército inglês. Segundo o jornal Daily Mail a decisão surgiu depois dalgumas gaffes racistas do filho mais novo do Príncipe Charles terem sido reveladas ao público.

Na Espanha, onde o desemprego chega a quase 16%, os estrangeiros também têm sofrido. Segundo Ivan Briscoe, do Centro de Pesquisa para a Paz, Fundação para as Relações Internacionais e o Diálogo Externo, na Espanha, por trabalharem com menos garantias, os estrangeiros ficam no front do desemprego.

Parelelos

Em reportagem publicada no JB Online, Antônio Inácio Andrioli, professor do Instituto de Sociologia da Universidade Johannes Kepler, de Linz, na Áustria, considerou que há paralelos entre o que ocorre hoje na Europa e a crise de 1929, que possibilitou a ascensão do nazismo.

O aumento da desigualdade social e do desemprego, as principais conseqüências visíveis do desmonte das políticas de privatização das últimas décadas, contribuiu para produzir um antigo fenômeno social: a xenofobia. Em períodos marcados pela recessão e pela ausência de movimentos e utopias revolucionários, abre-se o espaço para a interpretação simplista e populista da realidade, que culpa os estrangeiros pelos problemas sociais. A ausência de alternativas políticas e o conseqüente sentimento de impotência e desesperança social são um terreno fértil para o aumento da xenofobia”, afirmou.

O primeiro ministro espanhol, José Luís Rodríguez Zapatero, pediu nesta semana que a Europa esteja “unida e forte para combater sintomas inquietantes de nacionalismo, xenofobia e tentações protecionistas”. No entanto, de forma geral, esta não parece ser uma preocupação dos dirigentes europeus que, em junho de 2008, por meio do Parlamento Europeu, aprovaram uma diretiva de retorno de imigrantes ilegais, que entrará em vigor em 2010 e que pode gerar a expulsão de cerca de oito milhões de imigrantes irregulares da Europa, grande parte deles latino-americanos.

Tempestade em copo d´água?

Este tipo de política pode parecer sem importância. Há quem possa argumentar que é legítima e que os governantes devem defender os interesses de seus cidadãos. Ocorre que estamos falando de algo mais completo, que tem origem na intolerância gerada pela crise e que não é coisa nova. A história já viu situações similares no passado e os resultados são sempre funestos: para dar vazão à insatisfação causada por crises econômicas, populações nativas atacam gente de cor, convicção ou credo diverso dos seus como se isso fosse solucionar o problema.

A xenofobia e o racismo são primos indissociáveis e as reações que suscitam atingem o seio das sociedades onde proliferam. É o caso dos Estados Unidos, por exemplo, onde o anúncio feito pela Microsoft no último dia 22, de que demitiria mais de cinco mil funcionários por causa da crise, fez com que o senador republicano Chuck Grassley, de Iowa, escrevesse uma carta à empresa pedindo que seu executivo-chefe dispensasse primeiro trabalhadores estrangeiros com visto H-1B (de trabalho qualificado temporário): "A Microsoft tem uma obrigação moral de proteger os trabalhadores americanos ao priorizar seus empregos durante esses tempos difíceis", disse.

Organizações civis como a Coalizão para o Futuro do Trabalhador Americano (CFAW) - que reúne grupos anti-imigração – seguem na mesma linha. A CFAW iniciou neste ano uma campanha de TV associando o desemprego aos trabalhadores estrangeiros, como os com o visto H-1B.

Do outro lado do mundo, em Israel, o fortalecimento do partido neo-fascista Yisrael Beitenum, liderado por Avigdor Lieberman, com seus seguidores que entoam gritos de "morte aos árabes", é outro exemplo de como a intolerância pode proliferar diante de nossos olhos. Contraposta aos radicais islâmicos que, da mesma forma entoam cânticos pela destruição de Israel, a guinada política israelense à direita é temerosa.

Até nas redes sociais o fenômeno é identificável. As denúncias de xenofobia no site de relacionamentos Orkut, por exemplo, cresceram mais de 150% no segundo semestre de 2008 na comparação com os seis primeiros meses do ano, segundo a ONG SaferNet Brasil, que defende os direitos humanos na web.

No primeiro semestre do ano passado, a ONG recebeu 706 denúncias de crimes relacionados à xenofobia, contra 1.876 recebidas no segundo semestre, o que corresponde a um crescimento de 165,7%. O segundo maior aumento foi nos casos de homofobia, com 47,3% - passou de 567 denúncias (primeiro semestre de 2008) para 835 (segundo semestre). Na mesma comparação, as denúncias de neonazismo cresceram 28,2% e as de apologia e incitação a crimes contra a vida, 18,5%.

São as sementes do fascismo germinando, devagar, mas ininterruptamente.

Finalmente, vale dizer que a história caminha sem que estejamos dando a real importância aos fatos. Olhando o passado, nos chocamos hoje com o que este tipo de atitude permitiu: os holocaustos armênio e judeu, as grandes guerras (e as pequenas), os campos da fome de Stalin e as genocidas ditaduras comunistas do Oriente, as barbáries no continente africano etc. Olhando para trás nos perguntamos como foi possível às massas terem seguido Mussolini, Hitler, Stalin. Como permitiram?

Assim como aquelas pessoas deixaram a irracionalidade guiar seus desatinos, nada impede que, hoje, outros povos façam o mesmo. É fácil esquecermos os precedentes abertos, imaginando que estamos livres de tais barbaridades no futuro, mas o fato é que os crimes do passado tiveram início com os mesmos argumentos que hoje vemos proferidos por líderes mundiais: intolerância, ódio, xenofobia.

Quando um primeiro ministro inglês – país que lutou contra o nazismo e que sofreu as conseqüências desta opção – levanta a voz contra trabalhadores estrangeiros, devemos parar para pensar.

Todas as barbaridades começam com uma idéia que a muitos parece aceitável.

Frases - LVIII

“Um dos golpes mais baixos (e mais idiotas) que alguém pode fazer durante uma discussão é criticar a gramática, ortografia ou sintaxe do outro.”
Alex Castro

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Pedra e telhado

Belo raciocínio do jornalista Otávio Cabral na Veja desta semana, sobre o comentário do deputado Cândido Vaccarezza (PT), segundo quem “É preciso ir devagar e separar fatos e denúncias contra o corregedor”. Ele se referia ao deputado Edmar Moreira (DEM), o dono do castelo, que renunciou à corregedoria da Câmara.

Diz Cabral: “Nos tempos de pedra na mão, o petista seria capaz de fazer uma greve de fome acorrentado a uma árvore no meio da Esplanada dos Ministérios só para protestar contra a escolha do novo corregedor. Mas quando se é telhado, a visão fica turva, e torna-se bastante aceitável que um corregedor possua um castelo, e melhor ainda se o reino dele for o da fantasia”.

Terror?

...a opção que a esquerda italiana fez pela luta armada foi um erro político crasso. A Itália não passou por uma ditadura como o Brasil. Aqui, nós nos envolvemos na luta armada porque enfrentávamos um governo ilegítimo, que tomou o poder à força. Podemos ter cometido um erro político, mas nossa ação era legitimamente justificável. Na Europa não, lá ninguém rasgou a Constituição. Optaram pela luta armada em um período de democracia, o que, por si só, é moralmente condenável”.

O comentário é do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, em entrevista à Veja desta semana. O tema é interessante, a diferença entre terroristas e guerrilheiros. Escrevi sobre ele estes dias: veja aqui.

Israel não atacou escola da ONU, mas continua oprimindo palestinos

Antes tarde do que nunca. Sinto-me na obrigação de colaborar com a disseminação desta notícia datada do último dia 4 e que só agora encontrei tempo de postar: “Onu recua e diz que Israel não atacou escola na Faixa de Gaza”.

A notícia, que circulou durante o ataque israelense sobre a Faixa de Gaza correu o mundo como exemplo dos horrores perpetrados pelo exército de Israel aos palestinos. De acordo com a ONU os disparos não atingiram a escola, mas uma rua próxima a ela.

No entanto, diferentemente dos que insistem em confundir a opinião pública sobre a diferença entre o direito dos Palestinos sobre Gaza e Cijordânia e a ação de extremistas islâmicos, devo lembrar que a notícia não inocenta Israel de outros atos bárbaros, como o uso de fósforo branco em áreas povoadas, a morte de civis inocentes e a política de ocupação sistemática dos territórios palestinos que apenas serve para entregá-los de mão beijada para os fundamentalistas.

Fósforo Branco

Aproveitando o tema, vale ler a entrevista de Luiz Carlos Azenha com Marc Garlasco, analista militar sênior da Human Rights Watch, uma organização não-governamental, independente que se dedica há 30 anos à defesa e à proteção dos direitos humanos. Ele acompanha em Gaza as investigações sobre a guerra.

Frases - LVII

“Entendi que fosse meu dever praticar o jornalismo em um país submetido à ditadura imposta pela classe dominante com a inestimável ajuda dos seus gendarmes, e que se uma única, escassa linha da minha escrita sobrasse para o futuro, teria conseguido conferir um mínimo de importância à minha profissão. Faço questão de sublinhar que não agia desta maneira pelo Brasil, e sim por mim mesmo.”
Mino Carta

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Racistas podem comandar o governo em Israel

Macabro o horizonte que se revela nas bandas do Oriente Médio. Após as eleições desta semana, a indefinição pelo poder poderá colocar nas mãos da extrema direita um poder perigoso. O partido centrista Kadima, liderado pela chanceler Tzipi Livni, obteve a maior bancada no Parlamento, com 28 deputados, seguido pelo conservador Likud, de Benjamin Netaniahu, com 27 cadeiras.

O equilíbrio poderá deixar nas mãos dos racistas xenófobos do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu a definição do comando do Governo. Com 15 deputados, a legenda liderada por Avigdor Lieberman já se movimenta para isso. O bloco de partidos de direita e extrema-direita (seculares e religiosos), com 65/66 cadeiras, é bem mais amplo do que as agremiações de centro e esquerda (54/55 cadeiras). O Likud pode apostar neste “blocão direitista”, o que seria péssimo para qualquer esperança de paz na região, além de contrário à tendência de Washington.

Diante deste quadro, começa-se a pensar no “menos pior”, E ele seria uma coalizão entre Kadima, Likud e o Partido Trabalhista, com um esquema rotativo de poder entre Livni e Netanyahu, o que vem ocorrendo desde os anos 80 entre Likud e Partido Trabalhista.

Poema Dia

O projeto Poema Dia continua navegando pelos bravios mares da poesia. Nossa anárquica-nau venceu tempestades, driblou rochedos e mantém-se deslizando rumo ao desconhecido. Neste mês ampliamos nossa tripulação escalando dois poetas por dia. De 28 remadores passamos para 56, um aumento quantitativo e, principalmente, qualitativo. Muita gente boa uniu forças aos veteranos neste projeto que nasceu de uma brincadeira e, agora, ganha vida própria. Para quem gosta de poesia, trata-se de uma para obrigatória.

Novos de Ferreira Gullar

Desordem

meu assunto por enquanto é a desordem
o que se nega
à fala

o que escapa
ao acurado apuro
do dizer
a borra
a sobra
a escória
a incúria
o não-caber

ou talvez
pior dizendo
o que a linguagem
não disse
por não dizer
porque
por mais que diga
e porque disse
sempre restará
no dito o mudo
o por dizer
já que não é da linguagem
dizer tudo

ou é
se se
entender
que
o que foi dito
é o que é
e por isso
nada há mais por dizer

portanto
o meu assunto
é o não-dito não
o sublime indizível
mas o fortuito
e possível
de ser dito
e não o é
por descuido
ou por intuito
já que
somente a própria coisa
se diz toda
(por ser muda)

é próprio da palavra
não dizer
ou
melhor dizendo
só dizer

a palavra
é o não ser
isto porque
a coisa
(o ser)
repousa
fora de toda
fala
ou ordem sintática

e o dito (a
não-coisa) é só
gramática
o jasmim, por exemplo,
é um sistema
como a aranha
(diferente do poema)
o perfume
é um tipo de desordem
a que o olfato
põe ordem
e sorve
mas o que ele diz
excede à ordem
do falar
por isso
que

desordenando
a escrita
talvez se diga
aquela perfunctória
ordem
inaudita

uma pêra
também
funciona
como máquina
viva
enquanto quando
podre
entra ela (o sistema)
em desordem:
instala-se a anarquia
dos ácidos
e a polpa se desfaz
em tumulto
e diz
assim
bem mais do que dizia
ao extravasar
o dizer

dir-se-ia
então
que
para dizer
a desordem
da fruta
teria a fala
— como a pêra —
que se desfazer?
que de certo
modo
apodrecer?

mas a fala
é só rumor
e idéia
não exala
odor
(como a pêra)
pela casa inteira

a fala, meu amor,
não fede
nem cheira


Dentro

“O um é um e não é dois”
Parmênides, de Platão

estamos dentro de um dentro
que não tem fora

e não tem fora porque
o dentro é tudo o que há

e por ser tudo
é o todo:
tem tudo dentro de si

até mesmo o fora se,
por hipótese,
se admitisse existir


Insônia

É alta madrugada. A culpa
joga dama comigo
no entressono. Cismo
que ela me engana
mas não bispo o seu logro.
Ganho? Perco? Blefo?
Afinal, qual de nós rouba no jogo?


Uma Corola

Em algum lugar
esplende uma corola
de cor vermelho-queimado
metálica

Não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
da sala
ou na janela

Não cheira
não atrai abelhas
não murchará

apenas fulge
em alguma parte algumada vida.

Bom senso e convicção

O debate de idéias é vital para a democracia. Saber expor sua opinião e ouvir a opinião alheia é premissa básica de civilidade. Há momentos, no entanto, em que é preciso um exercício de paciência e humildade para não ceder à tentação de mandar às favas quem pisa sobre questões básicas de humanidade e bom senso, preferindo ofertar com as mãos cheias porções de desfaçatez.

Lendo os blogs de Pedro Doria e Reinaldo Azevedo neste final de semana, pude traçar uma clara linha divisória entre a boa intenção e o puro espírito de porco.

No dia 29 de janeiro, na postagem “Aqueles próximos de nós”, Doria mostra o motivo pelo qual seu blog é ponto de parada obrigatória dos que querem informação e sagacidade. Ao comentar a tendência em radicalizar o discurso e transformá-lo em um castelo argumentativo a ser defendido com unhas e dentes diante dos que empunham contra nós as armas do contraditório, ele aponta o caminho para, no mínimo, a adoção de uma postura de respeito mútuo que deve permear as relações humanas.

Podemos e devemos ter opiniões diferentes. A conversa tem melhor qualidade porque opiniões diferentes convivem. Podemos nos emocionar. Podemos defender nossos pontos de vista apaixonadamente. Mas devemos sempre ter em mente que aqueles do outro lado da discussão também têm opiniões, também têm paixões. E que, às vezes, estão muito mais próximos da realidade do que imaginamos.”, afirma.

Alguns dias depois, na postagem “VEJA 2 - Reinaldo Azevedo - "Um homem sem (certas) qualidades", o colunista do semanário mais amado e odiado do Brasil escolhe a contramão e desanca a nos oferecer seu estilo desdenhoso e pouco afeito ao diálogo.

Falando sobre as reações contrárias que recebe em relação as suas opiniões sobre o conflito entre Israel e palestinos, Azevedo chuta os argumentos e se encastela sobre a colina avisando de longe que ninguém se aproxime com ramos de oliveira. E, pior, classifica como “convicção” sua dificuldade para dialogar. Diz ele – referindo-se aos que ponderam que palestino e terrorista são duas coisas diferentes:

Durante um bom tempo, a convicção viverá dias de desprestígio, e a afirmação que não apelar a zonas de ambiguidade e teorias da incerteza, para afetar tolerância e paixão pela especulação intelectual, será tachada de radical – e o radicalismo, claro, deve ser monopólio dos nossos inimigos... Tudo nos será permitido, exceto ter algumas velhas certezas. Você mesmo, leitor, deve ficar atento à orientação moral máxima destes tempos: ‘A virtude está no meio’ – ainda que esse ‘meio’, de fato, tenha lado. Fuja se alguém o ameaçar com uma moeda: ‘Cara ou coroa?’. Ele é um sabotador da virtude. Na praia, quando o sorveteiro lhe perguntar o sabor do picolé, pense no que você pode perder ao ser obrigado a fazer uma escolha. Opte pela incerteza e responda: ‘Qualquer um’. Diante de um sorveteiro, do aborto, dos foguetes do Hamas, da eutanásia, da comida japonesa, da pena de morte, do pagode, do Bolero de Ravel ou da ditadura cubana, prefira a dúvida que faz a fama dos sensíveis à certeza que faz a má fama dos dogmáticos. Não seja um lobo da estepe. Não provoque os outros com suas convicções. Não seja desagradável!”.

Azevedo é um mestre da retórica. O desavisado que o lê corre sério risco de ser cooptado e levantar os olhos pensando: “Não é que ele está certo?”. Mas em suas análises não é difícil encontrar o fio de linha que leva ao novelo da intolerância. Ainda comparando-o com Pedro Doria, é possível exemplificar isso com muita consistência. O assunto, o Irã.

Enquanto Doria faz uma leitura aprofundada e isenta de preconceitos sobre a situação irianiana no artigo “O Irã entre Ahmadinejad e Khatami”, Azevedo apela para o que sabe fazer: diatribes histéricas de quem elegeu um inimigo e transformou-o em meio de vida. Os artigos “Ahmadinejad, os EUA e a lógica” e “Jimmy Carter, o cretino filoterrorista” são bons exemplos de como a agressão em forma de palavra escrita, quando exercida por quem domina a arma, pode ser perigosa e nefasta aos mais simples esforços de entendimento e de desnudamento do que, de fato, ocorre a nossa volta.