Semana On

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Israel não atacou escola da ONU, mas continua oprimindo palestinos

Antes tarde do que nunca. Sinto-me na obrigação de colaborar com a disseminação desta notícia datada do último dia 4 e que só agora encontrei tempo de postar: “Onu recua e diz que Israel não atacou escola na Faixa de Gaza”.

A notícia, que circulou durante o ataque israelense sobre a Faixa de Gaza correu o mundo como exemplo dos horrores perpetrados pelo exército de Israel aos palestinos. De acordo com a ONU os disparos não atingiram a escola, mas uma rua próxima a ela.

No entanto, diferentemente dos que insistem em confundir a opinião pública sobre a diferença entre o direito dos Palestinos sobre Gaza e Cijordânia e a ação de extremistas islâmicos, devo lembrar que a notícia não inocenta Israel de outros atos bárbaros, como o uso de fósforo branco em áreas povoadas, a morte de civis inocentes e a política de ocupação sistemática dos territórios palestinos que apenas serve para entregá-los de mão beijada para os fundamentalistas.

Fósforo Branco

Aproveitando o tema, vale ler a entrevista de Luiz Carlos Azenha com Marc Garlasco, analista militar sênior da Human Rights Watch, uma organização não-governamental, independente que se dedica há 30 anos à defesa e à proteção dos direitos humanos. Ele acompanha em Gaza as investigações sobre a guerra.

Frases - LVII

“Entendi que fosse meu dever praticar o jornalismo em um país submetido à ditadura imposta pela classe dominante com a inestimável ajuda dos seus gendarmes, e que se uma única, escassa linha da minha escrita sobrasse para o futuro, teria conseguido conferir um mínimo de importância à minha profissão. Faço questão de sublinhar que não agia desta maneira pelo Brasil, e sim por mim mesmo.”
Mino Carta

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Racistas podem comandar o governo em Israel

Macabro o horizonte que se revela nas bandas do Oriente Médio. Após as eleições desta semana, a indefinição pelo poder poderá colocar nas mãos da extrema direita um poder perigoso. O partido centrista Kadima, liderado pela chanceler Tzipi Livni, obteve a maior bancada no Parlamento, com 28 deputados, seguido pelo conservador Likud, de Benjamin Netaniahu, com 27 cadeiras.

O equilíbrio poderá deixar nas mãos dos racistas xenófobos do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu a definição do comando do Governo. Com 15 deputados, a legenda liderada por Avigdor Lieberman já se movimenta para isso. O bloco de partidos de direita e extrema-direita (seculares e religiosos), com 65/66 cadeiras, é bem mais amplo do que as agremiações de centro e esquerda (54/55 cadeiras). O Likud pode apostar neste “blocão direitista”, o que seria péssimo para qualquer esperança de paz na região, além de contrário à tendência de Washington.

Diante deste quadro, começa-se a pensar no “menos pior”, E ele seria uma coalizão entre Kadima, Likud e o Partido Trabalhista, com um esquema rotativo de poder entre Livni e Netanyahu, o que vem ocorrendo desde os anos 80 entre Likud e Partido Trabalhista.

Poema Dia

O projeto Poema Dia continua navegando pelos bravios mares da poesia. Nossa anárquica-nau venceu tempestades, driblou rochedos e mantém-se deslizando rumo ao desconhecido. Neste mês ampliamos nossa tripulação escalando dois poetas por dia. De 28 remadores passamos para 56, um aumento quantitativo e, principalmente, qualitativo. Muita gente boa uniu forças aos veteranos neste projeto que nasceu de uma brincadeira e, agora, ganha vida própria. Para quem gosta de poesia, trata-se de uma para obrigatória.

Novos de Ferreira Gullar

Desordem

meu assunto por enquanto é a desordem
o que se nega
à fala

o que escapa
ao acurado apuro
do dizer
a borra
a sobra
a escória
a incúria
o não-caber

ou talvez
pior dizendo
o que a linguagem
não disse
por não dizer
porque
por mais que diga
e porque disse
sempre restará
no dito o mudo
o por dizer
já que não é da linguagem
dizer tudo

ou é
se se
entender
que
o que foi dito
é o que é
e por isso
nada há mais por dizer

portanto
o meu assunto
é o não-dito não
o sublime indizível
mas o fortuito
e possível
de ser dito
e não o é
por descuido
ou por intuito
já que
somente a própria coisa
se diz toda
(por ser muda)

é próprio da palavra
não dizer
ou
melhor dizendo
só dizer

a palavra
é o não ser
isto porque
a coisa
(o ser)
repousa
fora de toda
fala
ou ordem sintática

e o dito (a
não-coisa) é só
gramática
o jasmim, por exemplo,
é um sistema
como a aranha
(diferente do poema)
o perfume
é um tipo de desordem
a que o olfato
põe ordem
e sorve
mas o que ele diz
excede à ordem
do falar
por isso
que

desordenando
a escrita
talvez se diga
aquela perfunctória
ordem
inaudita

uma pêra
também
funciona
como máquina
viva
enquanto quando
podre
entra ela (o sistema)
em desordem:
instala-se a anarquia
dos ácidos
e a polpa se desfaz
em tumulto
e diz
assim
bem mais do que dizia
ao extravasar
o dizer

dir-se-ia
então
que
para dizer
a desordem
da fruta
teria a fala
— como a pêra —
que se desfazer?
que de certo
modo
apodrecer?

mas a fala
é só rumor
e idéia
não exala
odor
(como a pêra)
pela casa inteira

a fala, meu amor,
não fede
nem cheira


Dentro

“O um é um e não é dois”
Parmênides, de Platão

estamos dentro de um dentro
que não tem fora

e não tem fora porque
o dentro é tudo o que há

e por ser tudo
é o todo:
tem tudo dentro de si

até mesmo o fora se,
por hipótese,
se admitisse existir


Insônia

É alta madrugada. A culpa
joga dama comigo
no entressono. Cismo
que ela me engana
mas não bispo o seu logro.
Ganho? Perco? Blefo?
Afinal, qual de nós rouba no jogo?


Uma Corola

Em algum lugar
esplende uma corola
de cor vermelho-queimado
metálica

Não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
da sala
ou na janela

Não cheira
não atrai abelhas
não murchará

apenas fulge
em alguma parte algumada vida.

Bom senso e convicção

O debate de idéias é vital para a democracia. Saber expor sua opinião e ouvir a opinião alheia é premissa básica de civilidade. Há momentos, no entanto, em que é preciso um exercício de paciência e humildade para não ceder à tentação de mandar às favas quem pisa sobre questões básicas de humanidade e bom senso, preferindo ofertar com as mãos cheias porções de desfaçatez.

Lendo os blogs de Pedro Doria e Reinaldo Azevedo neste final de semana, pude traçar uma clara linha divisória entre a boa intenção e o puro espírito de porco.

No dia 29 de janeiro, na postagem “Aqueles próximos de nós”, Doria mostra o motivo pelo qual seu blog é ponto de parada obrigatória dos que querem informação e sagacidade. Ao comentar a tendência em radicalizar o discurso e transformá-lo em um castelo argumentativo a ser defendido com unhas e dentes diante dos que empunham contra nós as armas do contraditório, ele aponta o caminho para, no mínimo, a adoção de uma postura de respeito mútuo que deve permear as relações humanas.

Podemos e devemos ter opiniões diferentes. A conversa tem melhor qualidade porque opiniões diferentes convivem. Podemos nos emocionar. Podemos defender nossos pontos de vista apaixonadamente. Mas devemos sempre ter em mente que aqueles do outro lado da discussão também têm opiniões, também têm paixões. E que, às vezes, estão muito mais próximos da realidade do que imaginamos.”, afirma.

Alguns dias depois, na postagem “VEJA 2 - Reinaldo Azevedo - "Um homem sem (certas) qualidades", o colunista do semanário mais amado e odiado do Brasil escolhe a contramão e desanca a nos oferecer seu estilo desdenhoso e pouco afeito ao diálogo.

Falando sobre as reações contrárias que recebe em relação as suas opiniões sobre o conflito entre Israel e palestinos, Azevedo chuta os argumentos e se encastela sobre a colina avisando de longe que ninguém se aproxime com ramos de oliveira. E, pior, classifica como “convicção” sua dificuldade para dialogar. Diz ele – referindo-se aos que ponderam que palestino e terrorista são duas coisas diferentes:

Durante um bom tempo, a convicção viverá dias de desprestígio, e a afirmação que não apelar a zonas de ambiguidade e teorias da incerteza, para afetar tolerância e paixão pela especulação intelectual, será tachada de radical – e o radicalismo, claro, deve ser monopólio dos nossos inimigos... Tudo nos será permitido, exceto ter algumas velhas certezas. Você mesmo, leitor, deve ficar atento à orientação moral máxima destes tempos: ‘A virtude está no meio’ – ainda que esse ‘meio’, de fato, tenha lado. Fuja se alguém o ameaçar com uma moeda: ‘Cara ou coroa?’. Ele é um sabotador da virtude. Na praia, quando o sorveteiro lhe perguntar o sabor do picolé, pense no que você pode perder ao ser obrigado a fazer uma escolha. Opte pela incerteza e responda: ‘Qualquer um’. Diante de um sorveteiro, do aborto, dos foguetes do Hamas, da eutanásia, da comida japonesa, da pena de morte, do pagode, do Bolero de Ravel ou da ditadura cubana, prefira a dúvida que faz a fama dos sensíveis à certeza que faz a má fama dos dogmáticos. Não seja um lobo da estepe. Não provoque os outros com suas convicções. Não seja desagradável!”.

Azevedo é um mestre da retórica. O desavisado que o lê corre sério risco de ser cooptado e levantar os olhos pensando: “Não é que ele está certo?”. Mas em suas análises não é difícil encontrar o fio de linha que leva ao novelo da intolerância. Ainda comparando-o com Pedro Doria, é possível exemplificar isso com muita consistência. O assunto, o Irã.

Enquanto Doria faz uma leitura aprofundada e isenta de preconceitos sobre a situação irianiana no artigo “O Irã entre Ahmadinejad e Khatami”, Azevedo apela para o que sabe fazer: diatribes histéricas de quem elegeu um inimigo e transformou-o em meio de vida. Os artigos “Ahmadinejad, os EUA e a lógica” e “Jimmy Carter, o cretino filoterrorista” são bons exemplos de como a agressão em forma de palavra escrita, quando exercida por quem domina a arma, pode ser perigosa e nefasta aos mais simples esforços de entendimento e de desnudamento do que, de fato, ocorre a nossa volta.

Frases - LVI

“O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica".

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Como salvar seu jornal?

Ex-editor administrativo da revista Time, diretor-presidente do Aspen Institute e autor de “Einstein: His Life and Universe”, lançado recentemente, Walter Isaacson faz observações interessantes no artigo “Como salvar seu jornal”, publicado ontem no Observatório da Imprensa.

Analisando a crise no mercado jornalístico, em especial nos impressos, ele dá alguns caminhos para escapar no naufrágio que se avizinha e faz uma abordagem interessante sobre a relação entre jornalismo e sua sustentabilidade. Os dois trechos a seguir me chamaram a atenção.

Henry Luce, fundador da revista Time, desprezava a idéia de publicações gratuitas que dependem exclusivamente de anúncios. Para ele, tratava-se de uma fórmula ‘moralmente repugnante’ e ‘economicamente auto-destrutiva’. Isso porque ele acreditava que o bom jornalismo exigia que o principal dever de uma publicação fosse com seus leitores, e não com seus anunciantes.

Num modelo de arrecadação baseado exclusivamente na publicidade, o incentivo é perverso. E também auto-destrutivo, pois eventualmente é enfraquecido o vínculo com os leitores, caso não se dependa diretamente deles para a arrecadação.

Uso inteligente do Google Maps no jornalismo online

O Estadão a integrar o Google Maps a algumas matérias. Veja esta aqui, sobre os PMs que ficaram de guarda na favela de Paraisópolis depois do confronto de ontem. Esta dica foi pinçada do excelente blog Dicas de um Fuçador, do jornalista Marcelo Soares.

Israelenses mantém o caminho da direita

Os pouco mais de cinco milhões de israelenses que foram às urnas ontem confirmaram o que os analistas anunciavam durante toda a semana: uma guinada para a direita. O partido Kadima, de centro, do atual premiê Ehud Olmert e liderado por Tzipi Livni, obteve 28 dos 120 assentos no Knesset (o parlamento israelense), seguido pelo Likud, de direita, liderado por Benjamin Netaniahu, que conquistou 27 assentos. A agremiação de extrema-direita Yisrael Beiteinu, liderada por Avigdor Lieberman, líder racista e anti-árabe, ficou em terceiro lugar com 15 assentos seguido pelo Partido Trabalhista, de centro-esquerda, com 13 assentos. Em quinto lugar vem o Shas (ultraortodoxo), com 11 parlamentares eleitos.

O cenário que se apresenta para o futuro da região é sombrio. De um lado os expansionistas da direita israelense, que nunca tiveram interesse em permitir o surgimento de um estado palestino ou de incorporar os palestinos a Israel na hipótese de um estado binacional. Do outro lado, os radicais islâmicos do Hamas, que de forma alguma são melhores que seus antagonistas entrincheirados do outro lado da fronteira. Para os que sonham com a paz, o pesadelo é terrível: um governo chefiado pelo Likud e sustentado pelo Yisrael Beiteinu de um lado, com o Hamas do outro.

Antes das eleições, o jornalista Gustavo Chacra entrevistou o historiador e escritor israelense Tom Segev, um dos autores mais importantes de Israel. Para ele, a guinada para a direita na política israelense, com o fortalecimento de Lieberman, deve-se à decepção dos israelenses com a política e o processo de paz. O historiador afirma que esse movimento rumo ao conservadorismo pode ser alterado no futuro, mas o momento não foi bom para Israel, devido a situação política nos Estados Unidos: "Os americanos acabaram de eleger Barack Obama. Está claro que querem superar as barreiras raciais. Em Israel, com o fortalecimento de Lieberman, acontece o oposto, porque o racismo está em crescimento", disse, e foi além: "Acho essa tendência muito perigosa. Não sabemos o quanto para a direita ainda poderemos ir", afirmou.

Segev disse, no entanto, que a possibilidade de uma aliança na qual Yisrael Beiteinu fique de fora não está descartada. "Talvez a coalizão junte os principais partidos, como o Likud, o Trabalhista e o Kadima. Precisamos saber como será composto o governo", concluiu.