Semana On

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Pelos bigodes do Sarney

Em sua carta de despedida Mino Carta expõe em algumas linhas seu cansaço diante do Brasil e, ao abordar os desmandos do poder político aqui na terrinha, refere-se da seguinte forma a José Sarney: “...senhor feudal do estado mais atrasado da Federação, estrategista da derrubada da emenda das diretas-já e mesmo assim, graças ao humor negro dos fados, presidente da República por cinco anos.”.

Marcelo Tas, por sua vez, descreve o senador de forma crua e direta: “Ele está no poder há exatos 54 anos. Deu ao Brasil a maior taxa de inflação do mundo. Voraz como uma cobra caninana, repartiu com a escória política verde-amarela o maior lote de canais de rádio e TV da história. Matreiramente, montou um império de comunicação no Maranhão, onde atingiu status de semi-deus imortal (lá, até sua tumba já foi construída com dinheiro público!). Com a morte de Tancredo, chegou à Presidência da República. Depois, diante de queda moral vertiginosa, teve a cara-de-pau de criar domicílio falso no Amapá para poder continuar aboletado no carguinho de senador em Brasília.”.

Finalmente, Paulo Bicarato lista o culto “as personalidades” no Maranhão dos Sarney.

Frases - LIV

“Provavelmente precisaremos nos livrar do peso da tradicional visão que vê os líderes como portavozes do destino”
Marina Silva

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Coronelismo eletrônico

Em 2002 Israel Fernando de Carvalho Bayma – então assessor da bancada petista na Câmara Federal, hoje integrante do Conselho Consultivo da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) - realizou uma pesquisa a partir de um cruzamento de dados da Anatel, Ministério das Comunicações e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que resultou em informações chocantes sobre o domínio que parlamentares mantinham sobre a radiodifusão no Brasil.

A pesquisa avaliou 3.315 concessões de emissoras revelando que 37,5% do total (mais de 1.220) eram exploradas por políticos do PFL. Membros do PMDB apareciam em segundo lugar: eram sócios de 17,5% das emissoras. Na seqüência vinha o PPB, com 12,5%. PSDB e PSB, empatados, tinham cada qual 6,25%. Todos os demais partidos não superavam 5% do total. Ou seja, a chamada base aliada do governo Fernando Henrique Cardoso dominava 73,75% do total de emissoras de radiodifusão do país.

O autor procura mostrar, por meio dos números que obteve na pesquisa, a persistência do caráter político na distribuição de concessões de radiodifusão. ‘Se non è vero, è bene trovatto’, diriam os italianos. Ou há argumento ‘técnico’ para que o sobrenome Sarney apareça como sócio de 56 emissoras de rádio e TV? Ou para que Elcione Barbalho – a ex de Jader– seja sócia de 5 das 15 concessões pertencentes à família?”, questiona o jornalista Luiz Antônio Magalhães em entrevista feita com Bayma para o Observatório da Imprensa.

De lá para cá pouco mudou e a bandalheira do coronelismo eletrônico, que esmiucei aqui em dezembro no artigo “Concessões de TV e rádio: velhas práticas e o conformismo”, voltou à baila nesta semana graças a uma bela reportagem do jornal Folha de S.Paulo de ontem (8) que, a partir de um relato de uma conversa gravada pela Polícia Federal, mostra o novo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), dando instruções ao seu filho Fernando sobre matérias que deveriam ser veiculadas na TV Mirante e no jornal O Estado do Maranhão, ambos de propriedade da família Sarney, com denúncias contra o governo de Jackson Lago (PDT), rival de Sarney no estado.

Isso é vedado: TV é uma concessão pública, o concessionário não pode ser um parlamentar e, o pior, não pode usar uma concessão em benefício próprio”, afirma Alberto Dines no artigo “A oligarquia eletrônica”.

No artigo “Como funciona o coronelismo eletrônico”, Magalhães aponta fontes interessantes para quem quer entender melhor este fenômeno que coloca na mesma cesta de lixo comunicação e poder político-econômico, como “as pesquisas promovidas pelo Instituto Projor e coordenadas por Venício A. de Lima ("Rádios comunitárias: coronelismo eletrônico de novo tipo (1999-2004)", com Cristiano Lopes; e "Concessionários de radiodifusão no Congresso Nacional: ilegalidade e impedimento".

Assim como Sarney comanda a mídia do Maranhão, há coronéis eletrônicos por todo o país fazendo da comunicação uma extensão de seus impérios e interesses particulares.

Leia mais sobre este tema:
- Concessões de TV e rádio: velhas práticas e o conformismo

Crise

A crise no mercado jornalístico é mundial. Lendo o blog do Gjol, deparei-me com a notícia da demissão de três mil profissionais na Espanha e de cerca de 700 no Chile. Por aqui, o Jornal do Brasil demitiu 26 em sua redação além de profissionais de outras áreas. A diretoria do jornal alega que as demissões foram causadas pela crise, que dificultou o acesso ao crédito.

Jornalistas podem candidatar-se a curso de jornalismo digital em português

O Centro Knight para o Jornalismo nas Américas abriu inscrições para o disputado curso Introdução ao Jornalismo 2.0: Oportunidades e Desafios na Era Digital, que está sendo oferecido pela terceira vez. Trata-se de um curso especial para jornalistas brasileiros, que será ministrado entre os dias 9 de março e 5 de abril de 2009. Veja mais aqui.

A paz condenada

Bush Júnior, quando perguntado sobre a possibilidade de negociar com o Hamas, disse a frase: "Você acredita que venceríamos Hitler com diálogo e diplomacia?". Que este amálgama tenha saído da boca de Bush Júnior, bem, isto não impressiona ninguém, mas que intelectuais inteligentes operem com ele, eis algo de inaceitável.

Primeiro, deveríamos parar de vez com esta tendência nefasta, presente em ambos os lados do conflito, de comparar o opositor aos nazistas. Assim, o Hamas é igual a Hitler e o "Estado sionista" age como o "Estado nazista".

Francamente, esta é uma maneira de simplesmente não querer discutir o problema. E se for para apoiar-se nas infames declarações racistas de radicais palestinos, deveríamos lembrar da profusão de racismo que ultimamente sai da boca de políticos israelenses influentes, alguns comparando os árabes a "vermes" e "povo que tem a mentira no sangue".

Melhor seria assumir o conflito por aquilo que ele é: não um conflito de civilizações, uma reedição das cruzadas ou uma luta do bem contra o mal radical, mas um conflito territorial que assumiu proporções que nunca deveria ter assumido.

Vladimir Safatle

domingo, 8 de fevereiro de 2009

The Birth of Israel

Muito interessante esta dica de documentário que pincei no blog O biscoito fino e a massa, de Idelber Avelar. Trata-se do documentário “The Birth of Israel”. Com uma hora de duração, o material foi produzido pelo editor de Oriente Médio da BBC, Jeremy Bowen, e reconta a história da fundação de Israel. As legendas para o português é cortesia da comunidade de piratas CPturbo.

Idelber faz um adendo ao filme, que tomo a liberdade de reproduzir a seguir: "Aquilo que eles traduzem por 'gangue inflexível' é a Stern Gang. Trata-se da Lehi, um grupo terrorista judaico de extrema-direita que operou na Palestina britânica entre os anos 1930 e 40. Seu líder era Avraham Stern e, por isso, os ingleses apelidaram de 'a gangue de Stern'. A Lehi é responsável por um dos piores massacres impetrados contra os palestinos, aquele de Deir Yassin.".




BBC The Birth of Israel 2008 legendado from olhocosmico on Vimeo.

A fome dos alternativos

Muito pertinente o artigo “À publicidade o que é da publicidade”, de Eugênio Bucci. Tratei do tema aqui no último dia 3 com o artigo “O saco sem fundo das verbas oficiais e a mídia alternativa”. Em pauta, a tentação da chamada mídia alternativa em abocanhar fatias das verbas oficiais de publicidade sob o argumento da democratização da informação.

Bucci resume a ópera: “A publicidade é uma atividade legítima e necessária. Jamais neguei o lugar essencial que ela ocupa e deve ocupar. Sem publicidade, a imprensa livre não poderia ter se viabilizado e, sem ela, não haveria democracia. Mas quando a publicidade é estatizada, sobretudo por vias obscuras, inconfessas, e quando essa estatização se dá segundo critérios partidários ou governistas, aí não temos mais o cultivo dos valores próprios da liberdade e da democracia. É a isso que temos, cada vez mais, que prestar a nossa atenção.”.

O mito do ódio milenar

Os advogados da “tese do ódio milenar” (entre árabes e judeus) deveriam primeiramente explicar como foi possível, em plena época de dominação muçulmana na Península Ibérica, haver algo como a “idade de ouro do pensamento judeu” (a respeito da qual Maimônides é o representante mais conhecido). Diga-se de passagem, foi apenas com a cristianização da península no final de séc. XV que os judeus foram expulsos de lá.

Por isto, tais advogados deveriam também tentar nos explicar porque, ao serem expulsos da península ibérica, os judeus procuraram refúgio no Império Otomano, onde, durante a história do império, puderam aceder a cargos importantes na administração pública e no parlamento (séc. XIX): fatos simplesmente impensáveis na grande maioria dos países europeus.

Todos os estudos históricos sérios são unânimes em afirmar que as condições de vida dos judeus no Império Otomano eram, em grande parte, muito melhores do que em qualquer outro país europeu. Diga-se, de passagem, se há um procedimento ideologicamente suspeito chamado “anti-historicismo” e fundado na recusa em levar em conta os condicionantes históricos na determinação de fatos presentes, há também o não menos suspeito “hiper-historicismo” que consiste em remeter a causa de todo conflito presente ao paleolítico e, com isto, esvaziar toda possibilidade de resolução.

Vladimir Safatle

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Populares na frente

Saiu a consolidação anual feita pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC) e os jornais brasileiros encerraram o ano de 2008 com uma circulação 5% maior daquela registrada em 2007, embora o aumento de 2006 para 2007 tenha sido bem mais significativo: 11,8%. Mesmo assim, o aumento na circulação no país é bem maior do que o registrado pela World Association of Newspapers (WAN) em todo o planeta: 2,7% em 2007 relativos à taxa registrada em 2006.

A novidade, no entanto, é a confirmação do enorme crescimento dos jornais populares (ver "Jornais, classe média e redução da miséria"). Entre os 10 jornais de maior circulação no Brasil, quatro são populares e um é um jornal de notícias esportivas. E entre os cinco primeiros, três são populares.

A circulação média diária dos três principais jornais populares – Super Notícia, Meia Hora e Extra –, de 738.377 exemplares, já é quase igual à dos chamados jornais "nacionais" – Folha de S.Paulo, O Globo e Estado de S.Paulo: 812.746 mil exemplares.

Dica pinçada do blog Jornal de Debates de Venício A. de Lima

Ranking dos títulos nacionais (em termos de circulação) - mil exemplares/dia

1º Folha de S. Paulo (SP) 299.427
2º O Globo (RJ) 293.287
3º Super Notícia (MG) 282.213
4º Meia Hora (RJ) 234.253
5º Extra (RJ) 221.911
6º O Estado de S. Paulo (SP) 220.032
7º Zero Hora (RS) 187.220
8º Diário Gaúcho (RS) 167.125
9º Correio do Povo (RS) 157.543
10º Lance! (RJ) 121.820