Semana On

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Jornalistas podem candidatar-se a curso de jornalismo digital em português

O Centro Knight para o Jornalismo nas Américas abriu inscrições para o disputado curso Introdução ao Jornalismo 2.0: Oportunidades e Desafios na Era Digital, que está sendo oferecido pela terceira vez. Trata-se de um curso especial para jornalistas brasileiros, que será ministrado entre os dias 9 de março e 5 de abril de 2009. Veja mais aqui.

A paz condenada

Bush Júnior, quando perguntado sobre a possibilidade de negociar com o Hamas, disse a frase: "Você acredita que venceríamos Hitler com diálogo e diplomacia?". Que este amálgama tenha saído da boca de Bush Júnior, bem, isto não impressiona ninguém, mas que intelectuais inteligentes operem com ele, eis algo de inaceitável.

Primeiro, deveríamos parar de vez com esta tendência nefasta, presente em ambos os lados do conflito, de comparar o opositor aos nazistas. Assim, o Hamas é igual a Hitler e o "Estado sionista" age como o "Estado nazista".

Francamente, esta é uma maneira de simplesmente não querer discutir o problema. E se for para apoiar-se nas infames declarações racistas de radicais palestinos, deveríamos lembrar da profusão de racismo que ultimamente sai da boca de políticos israelenses influentes, alguns comparando os árabes a "vermes" e "povo que tem a mentira no sangue".

Melhor seria assumir o conflito por aquilo que ele é: não um conflito de civilizações, uma reedição das cruzadas ou uma luta do bem contra o mal radical, mas um conflito territorial que assumiu proporções que nunca deveria ter assumido.

Vladimir Safatle

domingo, 8 de fevereiro de 2009

The Birth of Israel

Muito interessante esta dica de documentário que pincei no blog O biscoito fino e a massa, de Idelber Avelar. Trata-se do documentário “The Birth of Israel”. Com uma hora de duração, o material foi produzido pelo editor de Oriente Médio da BBC, Jeremy Bowen, e reconta a história da fundação de Israel. As legendas para o português é cortesia da comunidade de piratas CPturbo.

Idelber faz um adendo ao filme, que tomo a liberdade de reproduzir a seguir: "Aquilo que eles traduzem por 'gangue inflexível' é a Stern Gang. Trata-se da Lehi, um grupo terrorista judaico de extrema-direita que operou na Palestina britânica entre os anos 1930 e 40. Seu líder era Avraham Stern e, por isso, os ingleses apelidaram de 'a gangue de Stern'. A Lehi é responsável por um dos piores massacres impetrados contra os palestinos, aquele de Deir Yassin.".




BBC The Birth of Israel 2008 legendado from olhocosmico on Vimeo.

A fome dos alternativos

Muito pertinente o artigo “À publicidade o que é da publicidade”, de Eugênio Bucci. Tratei do tema aqui no último dia 3 com o artigo “O saco sem fundo das verbas oficiais e a mídia alternativa”. Em pauta, a tentação da chamada mídia alternativa em abocanhar fatias das verbas oficiais de publicidade sob o argumento da democratização da informação.

Bucci resume a ópera: “A publicidade é uma atividade legítima e necessária. Jamais neguei o lugar essencial que ela ocupa e deve ocupar. Sem publicidade, a imprensa livre não poderia ter se viabilizado e, sem ela, não haveria democracia. Mas quando a publicidade é estatizada, sobretudo por vias obscuras, inconfessas, e quando essa estatização se dá segundo critérios partidários ou governistas, aí não temos mais o cultivo dos valores próprios da liberdade e da democracia. É a isso que temos, cada vez mais, que prestar a nossa atenção.”.

O mito do ódio milenar

Os advogados da “tese do ódio milenar” (entre árabes e judeus) deveriam primeiramente explicar como foi possível, em plena época de dominação muçulmana na Península Ibérica, haver algo como a “idade de ouro do pensamento judeu” (a respeito da qual Maimônides é o representante mais conhecido). Diga-se de passagem, foi apenas com a cristianização da península no final de séc. XV que os judeus foram expulsos de lá.

Por isto, tais advogados deveriam também tentar nos explicar porque, ao serem expulsos da península ibérica, os judeus procuraram refúgio no Império Otomano, onde, durante a história do império, puderam aceder a cargos importantes na administração pública e no parlamento (séc. XIX): fatos simplesmente impensáveis na grande maioria dos países europeus.

Todos os estudos históricos sérios são unânimes em afirmar que as condições de vida dos judeus no Império Otomano eram, em grande parte, muito melhores do que em qualquer outro país europeu. Diga-se, de passagem, se há um procedimento ideologicamente suspeito chamado “anti-historicismo” e fundado na recusa em levar em conta os condicionantes históricos na determinação de fatos presentes, há também o não menos suspeito “hiper-historicismo” que consiste em remeter a causa de todo conflito presente ao paleolítico e, com isto, esvaziar toda possibilidade de resolução.

Vladimir Safatle

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Populares na frente

Saiu a consolidação anual feita pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC) e os jornais brasileiros encerraram o ano de 2008 com uma circulação 5% maior daquela registrada em 2007, embora o aumento de 2006 para 2007 tenha sido bem mais significativo: 11,8%. Mesmo assim, o aumento na circulação no país é bem maior do que o registrado pela World Association of Newspapers (WAN) em todo o planeta: 2,7% em 2007 relativos à taxa registrada em 2006.

A novidade, no entanto, é a confirmação do enorme crescimento dos jornais populares (ver "Jornais, classe média e redução da miséria"). Entre os 10 jornais de maior circulação no Brasil, quatro são populares e um é um jornal de notícias esportivas. E entre os cinco primeiros, três são populares.

A circulação média diária dos três principais jornais populares – Super Notícia, Meia Hora e Extra –, de 738.377 exemplares, já é quase igual à dos chamados jornais "nacionais" – Folha de S.Paulo, O Globo e Estado de S.Paulo: 812.746 mil exemplares.

Dica pinçada do blog Jornal de Debates de Venício A. de Lima

Ranking dos títulos nacionais (em termos de circulação) - mil exemplares/dia

1º Folha de S. Paulo (SP) 299.427
2º O Globo (RJ) 293.287
3º Super Notícia (MG) 282.213
4º Meia Hora (RJ) 234.253
5º Extra (RJ) 221.911
6º O Estado de S. Paulo (SP) 220.032
7º Zero Hora (RS) 187.220
8º Diário Gaúcho (RS) 167.125
9º Correio do Povo (RS) 157.543
10º Lance! (RJ) 121.820

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O verdadeiro alvo

Afinal de contas, quem exatamente o governo de Israel quer atacar, quando avança sobre a Faixa de Gaza? É este o subtítulo do ensaio publicado pelo filósofo Vladimir Safatle no UOL. O texto expõe o assunto de forma aprofundada, desvendando dogmas que têm impedido o debate.

“De fato, encontramos todos os dias artigos e mais artigos sobre o problema. Mas a grande maioria está bloqueada pela profusão infindável de preconceitos toscos, assim como amálgamas intelectualmente desonestos e apressados, produzidos por ambos os lados. Isto, quando não se entra no mais raso psicologismo”, afirma Safatle.

Em três páginas, o autor desfia os principais paradigmas do tema, lançando uma luz sobre idéias pré-concebidas que têm sido repetidas à exaustão por ambos os lados. A seguir, um resumo do artigo:

Direito de Defesa

O direito de defesa é inquestionável. Israel, como qualquer nação, tem o direito e o dever de defender sua soberania, como ocorreu legitimamente nas guerras de 1967 e de 1973. O crescimento do caráter beligerante do fundamentalismo islâmico, representado na região pelo Hamas, é outro fator que deve ser levado em conta. No entanto, deve-se perguntar se a manutenção do conflito é a maneira mais inteligente de os israelenses sentirem-se seguros.

O direito de defesa seria correto se aplicado à relação entre Israel e Palestina, dois estados soberanos. “No entanto, este direito não pode ser aplicado quando se trata de ações referentes à gestão de um território ocupado ilegalmente”. É o que ocorre hoje diante do direito internacional. A ONU (mesma instituição que criou o Estado de Israel) reconhece à Palestina o estatuto jurídico de "território ocupado", ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 há mais de 40 anos.

Além disso, como apontou o ex-presidente estadunidense Jimmy Carter, o caminho para a paz passaria por negociação direta com o Hamas e com a suspensão do bloqueio a Gaza. Estas duas medidas colocariam Israel no caminho da legalidade e impediriam que a humilhação palestina se transformasse em “solo fértil para o crescimento do apoio ao grupo islâmico”.

O exemplo está ao lado: o Irã estava em um claro movimento de abertura de seu regime e normalização de relações internacionais quando, em 2005, a invasão no vizinho Afeganistão interrompeu o processo. “O desejo iraniano de transformação em potência nuclear foi resultado de um cálculo simples: os EUA invadiram o Iraque mesmo sem mandato da ONU e não invadiram a Coréia do Norte (com suas ameaças à "ordem mundial") porque o primeiro não tinha armas nucleares”.

Fundamentalismos e terrorismos

Um dos principais argumentos utilizados pelos israelenses para não negociar com o Hamas é que o grupo não reconhece o Estado de Israel. É fato, é difícil negociar com quem não o reconhece como interlocutor. Isso acontece com o Hamas em relação a Israel, mas também ocorre com o partido israelense Likud (que lidera as pesquisas eleitorais), cuja carta programática simplesmente não reconhece o direito à existência de um Estado palestino.

Ainda assim, durante o governo do likudista Benjamin Netanyahu, Yasser Arafat negociou com Israel. “Se Arafat fez, os políticos israelenses também podem fazer. Diga-se de passagem, mesmo aquilo que o atual partido governista Kadima propõe aos palestinos, além de ignorar frontalmente todas as resoluções da ONU a respeito dos territórios ocupados, dificilmente pode ser chamado de ‘Estado’, pois não leva em conta princípios fundamentais de autonomia e autodeterminação”.

Os israelenses costumam, ainda, alegar que não negociarão com terroristas, repetindo "as mesmas palavras usadas pela administração colonial britânica na Palestina, referindo-se a grupos judaicos de luta armada, atuantes nos anos 40, como o Irgun e o grupo Stern”. Em uma carta ao New York Times, datada de 4 de dezembro de 1948, Albert Einstein e Hannah Arendt referiram-se ao futuro primeiro-ministro de Israel, Menachen Begin, como terrorista. Begin era o líder do futuro Likud, do qual saiu o atual primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert.

Fortalecendo o islamismo radical

“Cada palestino morto significa a consolidação de um sentimento de humilhação e descrença em relação à negociação política. E o que é expulso do campo simbólico da política retorna sob a forma de violência real. Por sinal, esta foi a equação que sempre alimentou o Hamas e que continuará a alimentá-lo. Pois não se destrói um grupo armado aumentando seu apoio popular.”.

De fato, as tentativas de "aniquilar" militarmente o Hamas aumentaram sua força: “... pois tais ações militares criaram o quadro narrativo ideal para que ele aparecesse, aos olhos dos palestinos, como representante legítimo da resistência à ocupação”.

Em 1994, na época dos acordos de Oslo, a popularidade do grupo não passava de 15%. Hoje, ela é assustadoramente alta.

Israel: a única democracia

É comum o argumento de que Israel é a única democracia da região, cercada por um mar de estados autocráticos e baseados no fundamentalismo religioso. Ocorre que desde a década de 50 o Ocidente vem minando todas os movimentos de auto-determinação dos países do Oriente Médio e aliando-se a ditaduras vergonhosas por simples interesse político-econômico.

A conspiração contra o líder nacionalista iraniano Mossadegh é um caso emblemático desta estratégia. “Por outro lado, os regimes mais corruptos e totalitários da região são apoiados de maneira irrestrita pelo Ocidente (Paquistão, Arábia Saudita, Jordânia, Tunísia, Egito - cujo "presidente" Hosni Mubarak está no poder há meros 37 anos). Ou seja, a experiência cotidiana de um árabe em relação aos valores modernizadores e democráticos ocidentais é que eles servem apenas para justificar o contrário do que pregam.”.

O retorno à tradição religiosa com suas promessas de revitalização moral é sempre uma tendência. Por isto, os movimentos islâmicos contam com forte apoio popular, “e este é o caráter verdadeiramente dramático da situação. Desmontar este apoio popular só é possível criando alternativas políticas reais e com forte potencial de transformação social”.

A esquerda e o sócio do Hamas

Outra crítica persistente dos que querem colocar uma pedra sobre o debate é dizer que a esquerda apóia o Hamas contra Israel por enxergar neste último um posto avançado do imperialismo. Safatle desfaz esta visão rasa com um parágrafo consistente:

“... se houver esquerdistas dispostos a admitir certa complacência ideológica perigosa com grupos como o Hamas, devemos dizer claramente: não há compromisso possível entre a esquerda e um grupo claramente antissemita e reacionário. Ao contrário, ele representa tudo aquilo contra o qual lutamos, já que foi a esquerda que elevou o antissemitismo a um dos crimes mais inaceitáveis”.

Por outro lado, é possível traçar um paralelo entre os interesses do Hamas e da direita israelense, que se perpetua no poder desde a época de Netanyahu.

Graças ao fundamentalismo islâmico, a direita têm conseguido atingir seus antagonistas: os judeus esquerdistas, anticomunitaristas e pacifistas de Israel e do mundo. Desde o acordo de Oslo, estes radicais direitistas vêm minando os esforços pela paz com enfrentamentos entre colonos judeus (que ocupavam ilegalmente terras palestinas) e o exército israelense que culminaram no assassinato de Yitzhak Rabin por um colono judeu.

“... ficou claro que o avanço do processo de paz só seria possível através de uma confrontação corajosa com este núcleo teológico-político que sempre serviu de alimento para uma parte de seu imaginário como nação. No entanto, isto seria simplesmente a morte da direita israelense com seu comunitarismo indisfarçável e seus partidos religiosos que visam colonizar o campo social com narrativas mítico-religiosas.”.

Portanto, para manter sua visão do estado, a direita israelense optou por boicotar o processo de paz e enfraquecer qualquer movimento social que lhe oferecesse oposição. Para isso, “alimentou a popularidade de um grupo de fanáticos islâmicos através de uma escalada de provocações, ações militares e humilhações ao governo da Autoridade Palestina. Foi assim que a direita israelense e o Hamas cresceram juntos a partir do final do governo Rabin. Um precisa do outro para existir. Foi assim também que os grupos judaicos pela paz, espalhados pelo mundo, foram impiedosamente esvaziados.”.

Dois povos, um estado

Safatle faz uma leitura interessante sobre a solução para o conflito: a criação de um Estado binacional reunindo judeus e palestinos. Para ele, a criação de um Estado palestino não é viável economicamente “e serviria apenas de dormitório para mão-de-obra barata e sem direitos trabalhistas a ser explorada por seus vizinhos”.

Gaza é uma faixa de terra árida com 11 km de largura e 44 km de extensão. A Cisjordânia é do tamanho do Distrito Federal. “Não se constrói um Estado com tão pouco”, sustenta filósofo.

A proposta de um estado binacional levaria a criação de “uma dinâmica sociopolítica realmente transformadora, com poder irradiador para toda a região”. Os críticos desta visão unificadora sustentam que um estado binacional significaria uma derrota para ambos os lados. “Bem, neste caso, devemos dizer claramente: nenhum povo tem direito a ter um Estado, pois o ímpeto fundamental do Estado moderno é a dissociação radical entre Estado, nação e povo”, rebate Safatle.

Apontando a saída

A conclusão do raciocínio lúcido que Safatle nos oferece é baseada na superação dos paradigmas que hoje mantém “ocidente” e “oriente” em campos opostos, unidos apenas pelos frangalhos dos interesses político-econômicos. Recomendo a leitura de todo o artigo, mas especialmente de sua conclusão, uma luz sobre o tema em meio a tanta irresponsabilidade que os “donos da verdade” – de ambos os lados – insistem propagar.


Vladimir Safatle é professor do departamento de filosofia da USP e autor, entre outros, de "A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética" (Unesp, 2006), "Lacan" (Publifolha, 2007) e "Cinismo e Falência da Crítica" (Boitempo, 2008).

O BID e as novelas da Globo

Três economistas vinculados ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) descobriram que as novelas da Rede Globo de Televisão ajudam a moldar as idéias das mulheres brasileiras sobre divórcio e filhos de maneira crítica. A descoberta está em dois estudos divulgados na sexta-feira (30/1): "Novelas e Fertilidade: Evidências do Brasil" e "Televisão e Divórcio: Evidências de Novelas Brasileiras" (ver aqui).

Os economistas analisaram o conteúdo de 115 novelas transmitidas pela Globo entre 1965 e 1999, nos dois horários de maior audiência: 19 e 20 horas. Sessenta e dois por cento das principais personagens femininas não tinham filhos e 21% tinham apenas um filho. Vinte e seis por cento das protagonistas femininas eram infiéis a seus parceiros. Os enredos das novelas com freqüência incluem críticas a valores tradicionais.

Utilizando sofisticados testes econométricos com resultados estatísticos consistentes, dados demográficos, informações sobre a expansão da cobertura da televisão e sobre o conteúdo das novelas da Globo, os estudos concluíram que a redução das taxas de fertilidade foi maior em anos imediatamente seguintes à exibição de novelas que incluíam casos de ascensão social, e para mulheres com idades mais próximas da idade da protagonista feminina da novela. Concluíram também que "quando a protagonista feminina de uma novela era divorciada ou não era casada, a taxa de divórcio aumentava, em média, 0,1 ponto percentual."

As novelas da Globo talvez constituam um dos objetos mais estudados nas dissertações e teses de mestrado e doutorado nas dezenas de cursos de pós-graduação em comunicação que funcionam no país. A relação das novelas com o comportamento da audiência brasileira tem sido estudada há décadas. Não só no que se refere à fertilidade e o comportamento em relação ao casamento, mas, por exemplo, em relação à política.

Os estudos dos economistas do BID, no entanto, certamente vão ajudar a legitimar os resultados que já são conhecidos, faz tempo, dos pesquisadores brasileiros.

Dica pinçada do blog Jornal de Debates de Venício A. de Lima

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Crianças adultas

"O teu filho não é teu filho, é filho do seu tempo" – Confúcio

O desenhista Mauricio de Souza levantou uma questão interessante neste final de semana, em entrevista publicada nas páginas amarelas da revista Veja. Ele explica os motivos que o levaram a lançar uma versão “adolescente” de sua mais conhecida personagem, Mônica, cujas vendas atingiram o dobro do gibi da “Mônica criança”. Segundo Maurício, nos últimos cinqüenta anos houve uma “mudança extraordinária” no público da revista.

Se antes adolescentes de 14 anos ainda liam e gostavam dos meus gibis, hoje eles começam a deixar de lê-los aos sete. Aos poucos, passam a considerar a Turma da Mônica coisa de criança e a comprar mangas japoneses. Quando estão com 10 anos, já se assumem como jovens. São os pré-adolescentes, meninos e meninas com preocupações e vontades diferentes daquelas que havia quando a Mônica foi publicada pela primeira vez. A infância, portanto, encolheu.”, afirmou.

A infância encolheu. É um conceito interessante e assustador, ao mesmo tempo. Maurício de Souza não vê nenhum problema nesta “mutação” que transforma crianças em adolescentes e adolescentes em adultos. “Essa melancolia que vejo em muitos adultos não faz sentido. Nada está sendo perdido. A questão é que tudo ficou mais intenso, condensado. A infância diminuiu em quantidade, mas ganhou em qualidade. As crianças aproveitam mais e melhor o tempo e se tornam cidadãs e se formam como ser humano antes do tempo”, opinou.

Apesar de Maurício de Souza se referir ao tema sob o contexto do gibi publicado por sua empresa, é possível estender o debate para outras mídias que, da mesma forma, podem dirigidas a um público infanto-juvenil, em especial a tevê.

Psicóloga Infantil e Psicopedagoga, Arina Isabel das Chagas sustenta que a o amadurecimento das crianças depende do contexto social em que vivem. “Os jovens europeus e americanos são muito mais estimulados à leitura em comparação com os brasileiros”, aponta.

Os estímulos constantes, a cultura da competição e as novas formatações familiares são fatores apontados como motores deste desenvolvimento acelerado. “As mães que se descobrem na sua profissão estimulam a independência dos seus filhos que vão amadurecer mais rápido. Atingem mais cedo a puberdade. Inicialmente ocorrem as transformações físicas, forçando esses jovens a uma maturidade emocional”, afirma Chagas no artigo “Por que os jovens amadurecem mais cedo nos dias de hoje?”.

Para a doutora em Psicologia e coordenadora do Núcleo de Análise de Comportamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Lídia Weber, é possível traçar um paralelo entre o que acontece com as crianças hoje em dia e o que ocorreria com elas durante a Idade Média, quando eram tratadas como “mini-adultos imperfeitos”.

Chagas também reconhece nesta “nova infância” resquícios de outros tempos: “Nos séculos passados, jovens de 10 a 12 anos já trabalhavam, com 15 anos iam para a guerra. Etapas eram puladas até porque a expectativa de vida era menor na época. Tanto tempo se passou e a estória se repete nos casos do trabalho infantil; crianças que trabalham nas minas de carvão ou nas lavouras de cana de açúcar. Infelizmente são exemplos de um amadurecimento mais precoce”, afirma.

A Mídia

Mas até que ponto a mídia deve ser responsabilizada por esta mudança de comportamento por parte das crianças?

Na reportagem “Crianças assumem responsabilidades mais cedo”, publicada pelo jornal Paraná Online em julho de 2008, Weber sustenta que a mídia tem um papel importante no amadurecimento precoce de crianças e aponta os programas infantis e danças como modelos sexualizados que influenciam muito a criança, inclusive na sexualidade. “A pressão da mídia está fazendo com que a adolescência seja antecipada. Até a menarca (primeira menstruação) está sendo antecipada. A mídia influencia até na maneira da criança se vestir, com traços adultos, como minissaias e sapatos com salto”, avalia.

Na entrevista concedida à revista Veja, Maurício de Souza discorda. Diz que “os pequenos não entendem que uma roupa curta ou um decote têm algo a ver com sexualidade”. Para o desenhista, “Eles interpretam isso como algo fashion, colorido, quase uma mensagem gráfica”. Para reforçar seu ponto de vista, sustenta que a linha argumentativa do gibi segue o que ocorre na sociedade: “Nas casas de hoje se pode conversar sobre tudo: sexo, drogas, violência. Se o pai não puxa esses assuntos, o filho de cinco anos faz isso por ele”.

Em 1998 o jornal Folha de S. Paulo promoveu um debate sobre a violência na TV e educação. Na oportunidade, a educadora Heloísa D. Penteado (então professora de pós-graduação da Faculdade de Educação da USP), disse que "a tevê está, em qualquer sociedade, a serviço daquele modelo de sociedade” e que “como toda instituição reflete contradições dessa sociedade". No contraponto, Ciro de Figueiredo, então presidente do Grupo-Associação de Escolas Particulares, defendeu o ponto de vista segundo o qual: "Ela (a tevê) não transmite o mundo, fabrica mundos, passa a ser a própria realidade e por isso o processo crítico da tevê deve estar presente em todos os setores da sociedade, principalmente na escola e na família".

Segundo dois estudos recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as novelas brasileiras ajudaram a moldar as idéias das mulheres sobre divórcio e filhos de maneira crítica. Se os folhetins eletrônicos têm o poder de influenciar o comportamento de adultos, outras mídias não teriam a mesma ação sobre crianças e adolescentes?

Diante deste conflito de leituras relativas ao poder da mídia sobre a formação da criança, a grande dúvida é que limites devem ser impostos pelos pais no intuito de permitir que seus filhos vivenciem a infância de forma saudável? Há limites?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Tempo

Meu sobrinho espanhol/alemão/brasileiro, Luan, acaba de ganhar seus dois primeiros dentinhos. Eu extrairei dois sisos semana que vem (restam-me dois). Tempo que vem e que vai.