Semana On

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O verdadeiro alvo

Afinal de contas, quem exatamente o governo de Israel quer atacar, quando avança sobre a Faixa de Gaza? É este o subtítulo do ensaio publicado pelo filósofo Vladimir Safatle no UOL. O texto expõe o assunto de forma aprofundada, desvendando dogmas que têm impedido o debate.

“De fato, encontramos todos os dias artigos e mais artigos sobre o problema. Mas a grande maioria está bloqueada pela profusão infindável de preconceitos toscos, assim como amálgamas intelectualmente desonestos e apressados, produzidos por ambos os lados. Isto, quando não se entra no mais raso psicologismo”, afirma Safatle.

Em três páginas, o autor desfia os principais paradigmas do tema, lançando uma luz sobre idéias pré-concebidas que têm sido repetidas à exaustão por ambos os lados. A seguir, um resumo do artigo:

Direito de Defesa

O direito de defesa é inquestionável. Israel, como qualquer nação, tem o direito e o dever de defender sua soberania, como ocorreu legitimamente nas guerras de 1967 e de 1973. O crescimento do caráter beligerante do fundamentalismo islâmico, representado na região pelo Hamas, é outro fator que deve ser levado em conta. No entanto, deve-se perguntar se a manutenção do conflito é a maneira mais inteligente de os israelenses sentirem-se seguros.

O direito de defesa seria correto se aplicado à relação entre Israel e Palestina, dois estados soberanos. “No entanto, este direito não pode ser aplicado quando se trata de ações referentes à gestão de um território ocupado ilegalmente”. É o que ocorre hoje diante do direito internacional. A ONU (mesma instituição que criou o Estado de Israel) reconhece à Palestina o estatuto jurídico de "território ocupado", ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 há mais de 40 anos.

Além disso, como apontou o ex-presidente estadunidense Jimmy Carter, o caminho para a paz passaria por negociação direta com o Hamas e com a suspensão do bloqueio a Gaza. Estas duas medidas colocariam Israel no caminho da legalidade e impediriam que a humilhação palestina se transformasse em “solo fértil para o crescimento do apoio ao grupo islâmico”.

O exemplo está ao lado: o Irã estava em um claro movimento de abertura de seu regime e normalização de relações internacionais quando, em 2005, a invasão no vizinho Afeganistão interrompeu o processo. “O desejo iraniano de transformação em potência nuclear foi resultado de um cálculo simples: os EUA invadiram o Iraque mesmo sem mandato da ONU e não invadiram a Coréia do Norte (com suas ameaças à "ordem mundial") porque o primeiro não tinha armas nucleares”.

Fundamentalismos e terrorismos

Um dos principais argumentos utilizados pelos israelenses para não negociar com o Hamas é que o grupo não reconhece o Estado de Israel. É fato, é difícil negociar com quem não o reconhece como interlocutor. Isso acontece com o Hamas em relação a Israel, mas também ocorre com o partido israelense Likud (que lidera as pesquisas eleitorais), cuja carta programática simplesmente não reconhece o direito à existência de um Estado palestino.

Ainda assim, durante o governo do likudista Benjamin Netanyahu, Yasser Arafat negociou com Israel. “Se Arafat fez, os políticos israelenses também podem fazer. Diga-se de passagem, mesmo aquilo que o atual partido governista Kadima propõe aos palestinos, além de ignorar frontalmente todas as resoluções da ONU a respeito dos territórios ocupados, dificilmente pode ser chamado de ‘Estado’, pois não leva em conta princípios fundamentais de autonomia e autodeterminação”.

Os israelenses costumam, ainda, alegar que não negociarão com terroristas, repetindo "as mesmas palavras usadas pela administração colonial britânica na Palestina, referindo-se a grupos judaicos de luta armada, atuantes nos anos 40, como o Irgun e o grupo Stern”. Em uma carta ao New York Times, datada de 4 de dezembro de 1948, Albert Einstein e Hannah Arendt referiram-se ao futuro primeiro-ministro de Israel, Menachen Begin, como terrorista. Begin era o líder do futuro Likud, do qual saiu o atual primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert.

Fortalecendo o islamismo radical

“Cada palestino morto significa a consolidação de um sentimento de humilhação e descrença em relação à negociação política. E o que é expulso do campo simbólico da política retorna sob a forma de violência real. Por sinal, esta foi a equação que sempre alimentou o Hamas e que continuará a alimentá-lo. Pois não se destrói um grupo armado aumentando seu apoio popular.”.

De fato, as tentativas de "aniquilar" militarmente o Hamas aumentaram sua força: “... pois tais ações militares criaram o quadro narrativo ideal para que ele aparecesse, aos olhos dos palestinos, como representante legítimo da resistência à ocupação”.

Em 1994, na época dos acordos de Oslo, a popularidade do grupo não passava de 15%. Hoje, ela é assustadoramente alta.

Israel: a única democracia

É comum o argumento de que Israel é a única democracia da região, cercada por um mar de estados autocráticos e baseados no fundamentalismo religioso. Ocorre que desde a década de 50 o Ocidente vem minando todas os movimentos de auto-determinação dos países do Oriente Médio e aliando-se a ditaduras vergonhosas por simples interesse político-econômico.

A conspiração contra o líder nacionalista iraniano Mossadegh é um caso emblemático desta estratégia. “Por outro lado, os regimes mais corruptos e totalitários da região são apoiados de maneira irrestrita pelo Ocidente (Paquistão, Arábia Saudita, Jordânia, Tunísia, Egito - cujo "presidente" Hosni Mubarak está no poder há meros 37 anos). Ou seja, a experiência cotidiana de um árabe em relação aos valores modernizadores e democráticos ocidentais é que eles servem apenas para justificar o contrário do que pregam.”.

O retorno à tradição religiosa com suas promessas de revitalização moral é sempre uma tendência. Por isto, os movimentos islâmicos contam com forte apoio popular, “e este é o caráter verdadeiramente dramático da situação. Desmontar este apoio popular só é possível criando alternativas políticas reais e com forte potencial de transformação social”.

A esquerda e o sócio do Hamas

Outra crítica persistente dos que querem colocar uma pedra sobre o debate é dizer que a esquerda apóia o Hamas contra Israel por enxergar neste último um posto avançado do imperialismo. Safatle desfaz esta visão rasa com um parágrafo consistente:

“... se houver esquerdistas dispostos a admitir certa complacência ideológica perigosa com grupos como o Hamas, devemos dizer claramente: não há compromisso possível entre a esquerda e um grupo claramente antissemita e reacionário. Ao contrário, ele representa tudo aquilo contra o qual lutamos, já que foi a esquerda que elevou o antissemitismo a um dos crimes mais inaceitáveis”.

Por outro lado, é possível traçar um paralelo entre os interesses do Hamas e da direita israelense, que se perpetua no poder desde a época de Netanyahu.

Graças ao fundamentalismo islâmico, a direita têm conseguido atingir seus antagonistas: os judeus esquerdistas, anticomunitaristas e pacifistas de Israel e do mundo. Desde o acordo de Oslo, estes radicais direitistas vêm minando os esforços pela paz com enfrentamentos entre colonos judeus (que ocupavam ilegalmente terras palestinas) e o exército israelense que culminaram no assassinato de Yitzhak Rabin por um colono judeu.

“... ficou claro que o avanço do processo de paz só seria possível através de uma confrontação corajosa com este núcleo teológico-político que sempre serviu de alimento para uma parte de seu imaginário como nação. No entanto, isto seria simplesmente a morte da direita israelense com seu comunitarismo indisfarçável e seus partidos religiosos que visam colonizar o campo social com narrativas mítico-religiosas.”.

Portanto, para manter sua visão do estado, a direita israelense optou por boicotar o processo de paz e enfraquecer qualquer movimento social que lhe oferecesse oposição. Para isso, “alimentou a popularidade de um grupo de fanáticos islâmicos através de uma escalada de provocações, ações militares e humilhações ao governo da Autoridade Palestina. Foi assim que a direita israelense e o Hamas cresceram juntos a partir do final do governo Rabin. Um precisa do outro para existir. Foi assim também que os grupos judaicos pela paz, espalhados pelo mundo, foram impiedosamente esvaziados.”.

Dois povos, um estado

Safatle faz uma leitura interessante sobre a solução para o conflito: a criação de um Estado binacional reunindo judeus e palestinos. Para ele, a criação de um Estado palestino não é viável economicamente “e serviria apenas de dormitório para mão-de-obra barata e sem direitos trabalhistas a ser explorada por seus vizinhos”.

Gaza é uma faixa de terra árida com 11 km de largura e 44 km de extensão. A Cisjordânia é do tamanho do Distrito Federal. “Não se constrói um Estado com tão pouco”, sustenta filósofo.

A proposta de um estado binacional levaria a criação de “uma dinâmica sociopolítica realmente transformadora, com poder irradiador para toda a região”. Os críticos desta visão unificadora sustentam que um estado binacional significaria uma derrota para ambos os lados. “Bem, neste caso, devemos dizer claramente: nenhum povo tem direito a ter um Estado, pois o ímpeto fundamental do Estado moderno é a dissociação radical entre Estado, nação e povo”, rebate Safatle.

Apontando a saída

A conclusão do raciocínio lúcido que Safatle nos oferece é baseada na superação dos paradigmas que hoje mantém “ocidente” e “oriente” em campos opostos, unidos apenas pelos frangalhos dos interesses político-econômicos. Recomendo a leitura de todo o artigo, mas especialmente de sua conclusão, uma luz sobre o tema em meio a tanta irresponsabilidade que os “donos da verdade” – de ambos os lados – insistem propagar.


Vladimir Safatle é professor do departamento de filosofia da USP e autor, entre outros, de "A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética" (Unesp, 2006), "Lacan" (Publifolha, 2007) e "Cinismo e Falência da Crítica" (Boitempo, 2008).

O BID e as novelas da Globo

Três economistas vinculados ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) descobriram que as novelas da Rede Globo de Televisão ajudam a moldar as idéias das mulheres brasileiras sobre divórcio e filhos de maneira crítica. A descoberta está em dois estudos divulgados na sexta-feira (30/1): "Novelas e Fertilidade: Evidências do Brasil" e "Televisão e Divórcio: Evidências de Novelas Brasileiras" (ver aqui).

Os economistas analisaram o conteúdo de 115 novelas transmitidas pela Globo entre 1965 e 1999, nos dois horários de maior audiência: 19 e 20 horas. Sessenta e dois por cento das principais personagens femininas não tinham filhos e 21% tinham apenas um filho. Vinte e seis por cento das protagonistas femininas eram infiéis a seus parceiros. Os enredos das novelas com freqüência incluem críticas a valores tradicionais.

Utilizando sofisticados testes econométricos com resultados estatísticos consistentes, dados demográficos, informações sobre a expansão da cobertura da televisão e sobre o conteúdo das novelas da Globo, os estudos concluíram que a redução das taxas de fertilidade foi maior em anos imediatamente seguintes à exibição de novelas que incluíam casos de ascensão social, e para mulheres com idades mais próximas da idade da protagonista feminina da novela. Concluíram também que "quando a protagonista feminina de uma novela era divorciada ou não era casada, a taxa de divórcio aumentava, em média, 0,1 ponto percentual."

As novelas da Globo talvez constituam um dos objetos mais estudados nas dissertações e teses de mestrado e doutorado nas dezenas de cursos de pós-graduação em comunicação que funcionam no país. A relação das novelas com o comportamento da audiência brasileira tem sido estudada há décadas. Não só no que se refere à fertilidade e o comportamento em relação ao casamento, mas, por exemplo, em relação à política.

Os estudos dos economistas do BID, no entanto, certamente vão ajudar a legitimar os resultados que já são conhecidos, faz tempo, dos pesquisadores brasileiros.

Dica pinçada do blog Jornal de Debates de Venício A. de Lima

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Crianças adultas

"O teu filho não é teu filho, é filho do seu tempo" – Confúcio

O desenhista Mauricio de Souza levantou uma questão interessante neste final de semana, em entrevista publicada nas páginas amarelas da revista Veja. Ele explica os motivos que o levaram a lançar uma versão “adolescente” de sua mais conhecida personagem, Mônica, cujas vendas atingiram o dobro do gibi da “Mônica criança”. Segundo Maurício, nos últimos cinqüenta anos houve uma “mudança extraordinária” no público da revista.

Se antes adolescentes de 14 anos ainda liam e gostavam dos meus gibis, hoje eles começam a deixar de lê-los aos sete. Aos poucos, passam a considerar a Turma da Mônica coisa de criança e a comprar mangas japoneses. Quando estão com 10 anos, já se assumem como jovens. São os pré-adolescentes, meninos e meninas com preocupações e vontades diferentes daquelas que havia quando a Mônica foi publicada pela primeira vez. A infância, portanto, encolheu.”, afirmou.

A infância encolheu. É um conceito interessante e assustador, ao mesmo tempo. Maurício de Souza não vê nenhum problema nesta “mutação” que transforma crianças em adolescentes e adolescentes em adultos. “Essa melancolia que vejo em muitos adultos não faz sentido. Nada está sendo perdido. A questão é que tudo ficou mais intenso, condensado. A infância diminuiu em quantidade, mas ganhou em qualidade. As crianças aproveitam mais e melhor o tempo e se tornam cidadãs e se formam como ser humano antes do tempo”, opinou.

Apesar de Maurício de Souza se referir ao tema sob o contexto do gibi publicado por sua empresa, é possível estender o debate para outras mídias que, da mesma forma, podem dirigidas a um público infanto-juvenil, em especial a tevê.

Psicóloga Infantil e Psicopedagoga, Arina Isabel das Chagas sustenta que a o amadurecimento das crianças depende do contexto social em que vivem. “Os jovens europeus e americanos são muito mais estimulados à leitura em comparação com os brasileiros”, aponta.

Os estímulos constantes, a cultura da competição e as novas formatações familiares são fatores apontados como motores deste desenvolvimento acelerado. “As mães que se descobrem na sua profissão estimulam a independência dos seus filhos que vão amadurecer mais rápido. Atingem mais cedo a puberdade. Inicialmente ocorrem as transformações físicas, forçando esses jovens a uma maturidade emocional”, afirma Chagas no artigo “Por que os jovens amadurecem mais cedo nos dias de hoje?”.

Para a doutora em Psicologia e coordenadora do Núcleo de Análise de Comportamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Lídia Weber, é possível traçar um paralelo entre o que acontece com as crianças hoje em dia e o que ocorreria com elas durante a Idade Média, quando eram tratadas como “mini-adultos imperfeitos”.

Chagas também reconhece nesta “nova infância” resquícios de outros tempos: “Nos séculos passados, jovens de 10 a 12 anos já trabalhavam, com 15 anos iam para a guerra. Etapas eram puladas até porque a expectativa de vida era menor na época. Tanto tempo se passou e a estória se repete nos casos do trabalho infantil; crianças que trabalham nas minas de carvão ou nas lavouras de cana de açúcar. Infelizmente são exemplos de um amadurecimento mais precoce”, afirma.

A Mídia

Mas até que ponto a mídia deve ser responsabilizada por esta mudança de comportamento por parte das crianças?

Na reportagem “Crianças assumem responsabilidades mais cedo”, publicada pelo jornal Paraná Online em julho de 2008, Weber sustenta que a mídia tem um papel importante no amadurecimento precoce de crianças e aponta os programas infantis e danças como modelos sexualizados que influenciam muito a criança, inclusive na sexualidade. “A pressão da mídia está fazendo com que a adolescência seja antecipada. Até a menarca (primeira menstruação) está sendo antecipada. A mídia influencia até na maneira da criança se vestir, com traços adultos, como minissaias e sapatos com salto”, avalia.

Na entrevista concedida à revista Veja, Maurício de Souza discorda. Diz que “os pequenos não entendem que uma roupa curta ou um decote têm algo a ver com sexualidade”. Para o desenhista, “Eles interpretam isso como algo fashion, colorido, quase uma mensagem gráfica”. Para reforçar seu ponto de vista, sustenta que a linha argumentativa do gibi segue o que ocorre na sociedade: “Nas casas de hoje se pode conversar sobre tudo: sexo, drogas, violência. Se o pai não puxa esses assuntos, o filho de cinco anos faz isso por ele”.

Em 1998 o jornal Folha de S. Paulo promoveu um debate sobre a violência na TV e educação. Na oportunidade, a educadora Heloísa D. Penteado (então professora de pós-graduação da Faculdade de Educação da USP), disse que "a tevê está, em qualquer sociedade, a serviço daquele modelo de sociedade” e que “como toda instituição reflete contradições dessa sociedade". No contraponto, Ciro de Figueiredo, então presidente do Grupo-Associação de Escolas Particulares, defendeu o ponto de vista segundo o qual: "Ela (a tevê) não transmite o mundo, fabrica mundos, passa a ser a própria realidade e por isso o processo crítico da tevê deve estar presente em todos os setores da sociedade, principalmente na escola e na família".

Segundo dois estudos recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as novelas brasileiras ajudaram a moldar as idéias das mulheres sobre divórcio e filhos de maneira crítica. Se os folhetins eletrônicos têm o poder de influenciar o comportamento de adultos, outras mídias não teriam a mesma ação sobre crianças e adolescentes?

Diante deste conflito de leituras relativas ao poder da mídia sobre a formação da criança, a grande dúvida é que limites devem ser impostos pelos pais no intuito de permitir que seus filhos vivenciem a infância de forma saudável? Há limites?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Tempo

Meu sobrinho espanhol/alemão/brasileiro, Luan, acaba de ganhar seus dois primeiros dentinhos. Eu extrairei dois sisos semana que vem (restam-me dois). Tempo que vem e que vai.

Fez “jornalismo” e foi demitido no Paraná

O jornalista Gladmir Nascimento, ex-diretor de jornalismo da Rádio Band News de Curitiba, foi demitido pelo empresário Joel Malucelli por ter denunciado a aprovação - na Assembléia Legislativa do Panará - de um plano de aposentadoria que beneficiava os próprios deputados estaduais e funcionários da Casa. Aprovada na última sessão legislativa de 2008, a matéria entrou na pauta subitamente e foi aprovada sem o registro dos votantes pró e contra, já que o painel eletrônico fora desligado. A imprensa chapa-branca calou-se e o único profissional que colocou a boca no trombone pagou o pato.

Mestre Dines fala

Excelente a entrevista concedida por Alberto Dines ao Observatório do Direito à Comunicação. A jornalista Cristina Charão extraiu do mestre opiniões interessantes sobre a formação profissional dos jornalistas no Brasil, a questão do diploma, situação do mercado jornalístico no país e no mundo e a respeito do fechamento do Conselho de Comunicação Social no Senado.

Despedida de Mino

Mino Carta se despede do Jornalismo. Vai se dedicar a um livro sobre o Brasil. O aviso está em seu blog. Para quem acompanha diariamente as suas análises sobre política, Jornalismo e sobre a própria vida será uma perda.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O saco sem fundo das verbas oficiais e a mídia alternativa

“O ecossistema da publicidade oficial é uma distorção que partidariza o Estado e inibe a alternância de poder.” - Eugênio Bucci

No dia três de abril de 2007, em um artigo intitulado “A morte anunciada da Agência Carta Maior”, Venício A. de Lima perguntava que caminhos deveria seguir o cidadão para garantir o seu direito de expressão em uma sociedade na qual a liberdade de imprensa seria exercida, de fato, apenas pelos grandes veículos de comunicação, dotados de alcance e poder de fogo. Menos de dois anos depois, ele mesmo respondeu a pergunta, dando a deixa para que muita gente apontasse a mesma saída para a redenção da chamada mídia alternativa.

No artigo “Liberdade de expressão e mídia alternativa: dois anos depois”, Lima cita o Manifesto do Fórum Mídia Livre que se reuniu pela primeira vez em junho de 2008 no Rio de Janeiro (e pela segunda vez nos últimos dias 26 e 27 de janeiro, durante o Fórum Social Mundial de Belém entre 23 e 28 de janeiro), segundo o qual, apoiado no princípio de que “um Estado democrático precisa assegurar que os mais distintos pontos de vista tenham expressão pública” reivindica que “as verbas de publicidade e propaganda sejam distribuídas levando em consideração toda a ampla gama de veículos de informação e a diversidade de sua natureza; que os critérios de distribuição sejam mais amplos, públicos e justos, para além da lógica do mercado”.

Trocando em miúdos, a proposta é que a chamada mídia alternativa possa abocanhar uma fatia das centenas de milhões de reais que são anualmente endereçados como publicidade oficial aos veículos de comunicação Brasil afora.

Não é pouca coisa. O Orçamento da União para 2009 prevê um total de R$ 547,4 milhões para gastos de publicidade da Presidência da República e dos ministérios, um aumento de 35% em relação a 2008. É o que diz a reportagem de Regina Alvarez, publicada dia 12 no jornal O Globo. Este montante não engloba as estatais. Eugenio Bucci, no artigo “O Estado-anunciante”, aponta que a Caixa Econômica Federal, a Petrobras e o Banco do Brasil (os três maiores anunciantes do setor público), veicularam, em 2007, campanhas que custaram R$ 1,35 bilhão.

O relatório anual Mídia Dados, editado pelo Grupo de Mídia São Paulo, mostra que em 2007, entre os setores que mais anunciaram, estava o de "serviços públicos e sociais", no qual se encontram as propagandas de governos: totalizaram R$ 1,44 bilhão em publicidade.

Esta idéia (de que a mídia alternativa deva abocanhar o seu quinhão neste montante) foi amplamente apoiada nesta semana pelos participantes do Fórum, como o professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, Marcos Dantas: “Em função de sua natureza essencialmente antidemocrática, é preciso se buscar novos caminhos e espaços a fim de com ela (com a mídia) disputar a agenda do debate público. Um desses caminhos seria a definição de políticas públicas capazes de financiar a multiplicação de vozes representadas pelo movimento de Mídia Livre”, afirmou.

No artigo “Uma outra mídia é possível (e necessária)”, escrito antes dos debates do Fórum Mídia Livre, Dantas clamava pela “construção de uma mídia alternativa, de uma mídia livre dos compromissos políticos e econômicos da mídia hegemônica” e apontava os caminhos para a sua construção no movimento popular e no uso de ferramentas alternativas: “Através da rede mundial de computadores e graças ao barateamento generalizado dos meios de reprodução das idéias, o movimento popular não precisa mais depender de custosos equipamentos e instalações para colocar suas propostas em debate na sociedade”.

Pouco depois, após os debates, no artigo "Para construir a mídia hegemônica”, a saída apontada por Dantas para a viabilização da mídia alternativa encontrou no financiamento estatal sua solução. Diz ele: “É necessário ter dinheiro de verdade. Só existem duas fontes de recursos dignas desse nome: grandes anunciantes corporativos ou o Estado... A publicidade paga pelos grandes anunciantes não visa apenas vender produtos ou serviços, visa também moldar comportamentos e idéias... não se destina e não pode se destinar a sustentar a mídia contra-hegemônica... Sobra, pois, o Estado”.

Outro que apoiou, no Fórum, a visão do Estado como mantenedor da mídia alternativa foi Luis Hernández Navarro, do jornal mexicano La Jornada, segundo quem “os meios alternativos de comunicação devem almejar a disputa da agenda do debate público com a mídia tradicional e não abrir mão de lutar pela definição de políticas públicas capazes de manter a informação como um bem público”. Leia-se em “políticas públicas” a briga por um naco das verbas oficiais de publicidade.

Na mesma linha, Jonas Valente, do Intervozes, afirmou que “abdicar dos recursos do Estado, isto é da riqueza produzida pela população, significa deixar estes recursos nas mãos dos conglomerados”. Maria Pia Matta, da Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC), complementou dizendo que a comunicação é um "direito humano que envolve todos os outros e sobre o qual não é possível avançar sem um trabalho direto com os governos.".

Para Renato Rovai, da Revista Fórum, “a ampliação da Mídia Livre como movimento unificado passa necessariamente pelo apoio do Estado, mas não de acordo com a lógica que até então regulou sua relação com a mídia tradicional”.

Todas estas leituras apontam para a figura centralizadora, típica da esquerda, que enxerga no Estado o regulador de todas as coisas, o mantenedor de todos os âmbitos sociais, o regulador mor da sociedade. Dantas deixa clara esta visão:

(O Estado) é uma instituição permanente da sociedade, embora mutável como a própria sociedade, que reúne um grande conjunto de instituições a serviço dessa mesma sociedade: Executivo, Legislativo, Judiciário, Forças Armadas, sistema de ensino, sistema de saúde, Previdência pública etc., inclusive os meios de comunicação. Sim, os meios de comunicação não passam de aparelhos ideológicos do Estado.”.

É exatamente aí que a porca torce o rabo.

Os urras dos participantes do Fórum Mídia Livre comemoram uma proposta que, teoricamente, contraporia à grande mídia – comprometida pela dependência do poder político e econômico – uma nova mídia, alternativa, livre das pressões a que sua prima rica estaria exposta e comprometida com as causas da população e com um jornalismo mais próximo dos problemas sociais. Ocorre que, segundo a proposta dos midialivristas, esta mídia alternativa passaria a ser financiada pelo Estado. Será que, dependente dos financiamentos publicitários governamentais, esta imprensa não estaria, também, amarrada a compromissos, da mesma forma que ocorre com o mainstream?

Patinamos aqui sobre a fina camada de gelo das suposições. Do que deveria ser, e não do que, de fato, é. Diz Dantas: “Numa sociedade democrática (ainda não é bem o caso do Brasil), o Estado é público: é instrumento do público na efetivação de ações de interesse público. E, nesse caso, os recursos que esse Estado recolhe da sociedade para executar as suas ações, serão recursos tratados como res publica, cuja destinação será publicamente decidida.”.

Infelizmente, entre a teoria e a realidade há um abismo.

Ex-diretor do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet sustenta que o poder econômico e a mídia dominam a sociedade e controlam o poder político e que a aliança com os meios financeiros e a adoção dos seus métodos por parte da mídia são a causa da decadência da imprensa. Ora, se esta é a causa da decadência da imprensa tradicional será inteligente clamar que este mesmo poder político, encastelado no Estado, seja o financiador de uma imprensa livre e alternativa? Não seria inocência considerar que este poder político, por meio do Estado, se eximirá de tentar obter controle sobre a mídia alternativa da mesma forma que pode fazê-lo com a grande mídia?

A independência, que seria a essência da mídia – e premissa sine qua non de uma imprensa que se apresenta como alternativa – não seria ameaçada por uma dependência financeira para com o Estado?

O jornalista Maurício Tuffani aponta esta armadilha e amplia o debate: “No Brasil, é muito grande a participação do Estado na receita publicitária geral. Ou seja, ele provê grande parte da receita publicitária da própria grande mídia. No entanto, parece ser claro que esta é bem mais imune à ingerência do Estado em sua política editorial do que a mídia alternativa, que tende a ser mais dependente, vulnerável e, conseqüentemente, manipulável. Mas essa é uma equação genérica, e cada caso tem de ser considerado em particular. Acho que mais importante é a questão que se coloca para as mídias sobre quais financiadores podem ser aceitos. Se uma mídia se propõe a ser independente editorialmente, deve receber financiamentos de origens diversas para não depender exclusivamente de nenhuma.”.

No artigo “A crise dos grandes jornais”, o jornalista e professor Bernardo Kucinski analisa a crise dos grandes jornais citando as opiniões de Ramonet no Fórum de Mídia Livre, segundo quem há uma “estreita relação, quase que orgânica, entre o capital financeiro e os grandes grupos de mídia”. Argumenta que “é como se os bancos fornecessem o combustível dos conglomerados midiáticos” e que, “quando advém ao estrangulamento do crédito, principal mecanismo desta crise depois do colapso dos grandes bancos americanos e alguns europeus, precipita-se uma situação de insolvência que já vinha tomando forma desde que a internet começou a comandar a dinâmica do jornalismo.”.

Na seqüência de seu raciocínio, Kucinski sustenta que as funções editoriais principais dos grandes jornais vêm se deteriorando com o tempo e aponta a cobertura da mídia estadunidense sobre a Guerra do Iraque como exemplo: “A grande mídia americana tornou-se uma disseminadora de mentiras geradas pelo governo”, afirma.

Se nos Estados Unidos o Governo – por meio da máquina do estado e do poder político-econômico - utiliza as ferramentas do Estado para obter resultados sobre a grande imprensa, o que ocorreria com a mídia alternativa no Brasil, dependente de recursos oficiais? Se transformaria em um apêndice do poder?

Imprensa alternativa remete, antes de tudo, a um posicionamento independente, sua importância reside na necessária independência de opinião, que por sua vez pode garantir uma informação menos comprometida com o poder político-econômico. Trabalhar por esta independência, livrar-se do jugo destes poderes que podem, por meio da publicidade, impor ou vetar pautas, deveria ser o objetivo a ser alcançado pelos midialivristas.

Eugênio Bucci, no artigo “O ecossistema da propaganda oficial”, é outro que expõe os perigos de o Estado ser aceito pela mídia como fonte primordial de receita.

Governar virou sinônimo de anunciar. Antes, o bom governante era aquele que transformava a polis em canteiro de obras. Agora, é aquele que transforma as supostas obras em espetáculo audiovisual. Antes, a imagem ideal de um governante era a do engenheiro, de capacete de plástico na cabeça, vistoriando as construções. Agora, o bom governante tem a imagem de exímio comunicador. Faz mais aquele que sabe comunicar que faz mais. E dá-lhe publicidade custeada com dinheiro público. Essa publicidade não é de utilidade pública, salvo raríssimas exceções. É proselitismo puro. Ora, isso é razoável? Qualquer pessoa em seu juízo normal diria que não. O dinheiro público, que é de todos, jamais poderia servir para que um ponto de vista parcial – o de quem governa – prevaleça sobre os demais.”.

Para Bucci, esta dependência financeira da mídia resulta em que “a sociedade perde em pluralidade, pois a propaganda oficial é essencialmente partidária. Ela monologa e nunca dialoga. Não dá voz aos que pensam diferente. Pior: procura neutralizar as vozes discordantes.”. Este papel, essencialmente político, se coaduna perfeitamente com a noção de que “os meios de comunicação não passam de aparelhos ideológicos do Estado”, como afirmou Dantas anteriormente.

O jornalista Carlos Castilho não considera ser papel do Estado financiar a mídia alternativa: “O Estado simplesmente não teria recursos para financiar, mesmo parcialmente, as iniciativas de comunicação situadas fora do âmbito da chamada Grande Imprensa. O numero de projetos é enorme e cresce sem parar”. Indo além, ele questiona, inclusive a necessidade deste tipo de financiamento diante das novas tecnologias: “... já está provado que a participapção e colaboração dos usuários são suficientes para garantir a sobrevivência de páginas informativas na Web. Há vários exemplos disto nos Estados Unidos, Europa e Asia”, opina.

Os efeitos perniciosos da dependência de verbas públicas sobre o Jornalismo é o que pode restar das propostas colhidas no Fórum Mídia Livre realizado em Belém. Sob o argumento da busca pelo fortalecimento de uma imprensa alternativa, os que defendem que estes veículos dêem também uma colherada no caldeirão de recursos públicos estão caminhando por searas perigosas, cujos resultados Eugênio Bucci delineou em sua análise sobre os as verbas de publicidade governamentais e a grande mídia:

A própria instituição da imprensa sai perdendo, por mais que isso não seja dito. Há quem alegue que a publicidade dos governos ajuda os órgãos de imprensa e, consequentemente, estimula o jornalismo. Mentira. O que essa indústria vem criando entre nós é uma força que, em lugar de fortalecer, conspira contra o exercício da liberdade de imprensa... Enfim, quem mais perde é a democracia”, afirma.

Bucci joga uma luz, também, sobre uma fatia da imprensa pouco abordada, a que está fundeada no interior: “Que ninguém se engane. Nas cidades médias, o peso da publicidade oficial local é tamanho que, muitas vezes, os veículos passam a depender delas para sobreviver. Ficam na mão do poder. Não é exagero afirmar que, muitas vezes, os recursos públicos injetados no mercado anunciante são recursos de constrangimento, aliciamento, coerção e chantagem contra a imprensa.”.

Em Mato Grosso do Sul esta afirmação é particularmente verdadeira. Pode-se afirmar que no Estado, os jornais diários - assim como a quase totalidade dos veículos de periodicidade semanal - são financiados em grande parte por publicidade oficial (não só proveniente dos Executivos, mas dos Legislativos e demais órgãos das administrações municipal, estadual e federal). Afirmar que possuem independência jornalística seria uma leviandade que eu não cometeria.

Deve-se questionar, ainda, se a questão do financiamento é, mesmo, o grande gargalo da mídia alternativa. Em agosto de 1988, no artigo “Imprensa alternativa: alcances e limites” (publicado na Revista Tempo e Presença, nº 233) Perseu Abramo analisava o tema e apontava outras questões, como a pouca quantidade de leitores que a imprensa alternativa, cujo alvo primordial deveria ser os setores excluídos da sociedade, arrebanhava. Analisando as origens desta imprensa no País, Abramo mostra que o público destes veículos era, na verdade, muito diverso do seu alvo original.

Quem foram, de modo geral, os leitores das numerosas publicações alternativas que nasceram, floresceram e pereceram, a partir do início dos anos 60? Certamente não a grande massa. Dessa, como se sabe, infelizmente a grande maioria não tinha e continua não tendo os meios materiais e culturais, o tempo, a paciência, a disposição e o hábito de ler coisas impressas, entre as quais, os jornais e as revistas. Sobram as minguadas camadas mais esclarecidas e politizadas da grande massa, a chamada aristocracia operária dos grandes centros industriais, setores médios não alienados, os políticos, os ativistas sindicais, os quadros intermediários e centrais, os dirigentes e militantes de organizações políticas revolucionárias. Um público bastante diversificado na sua heterogeneidade, mas exíguo em número.”.

Este cenário mudou da década de 60 para cá? Esta é uma dúvida que mereceria investigação mais aprofundada, visto que a conquista de um público leitor pode constituir-se, por si só, de garantia de independência financeira para um veículo de comunicação.

Karl Marx atribuía aos jornais o papel de arma de combate à opressão e à exploração e não o de um veículo neutro. “A função da imprensa é ser o cão-de-guarda, o denunciador incansável dos opressores, o olho onipresente e a boca onipresente do espírito do povo que guarda com ciúme sua liberdade”. O filósofo alemão disse ainda que “o dever da imprensa é tomar a palavra em favor dos oprimidos a sua volta”. Creio que esta visão norteou muitos conceitos debatidos pelos midialivristas em Belém. No entanto, trazendo à baila um viés mais libertário da esquerda, seria de bom tom argüir se, após tantas experiências fracassadas do socialismo real, não seria hora de imprimir nesta estratégia leituras menos burocráticas e mais criativas.

A mídia alternativa não pode negar as questões econômicas. Pelo contrário, elas são vitais para a sua existência. O grande desafio, portanto, é o de viabilizar projetos administrativos que não dependam exclusivamente de verbas oficiais ou do poderio político e econômico. Talvez, o grande desafio desta importante fatia da mídia não seja o de estabelecer estratégias para assegurar uma fatia da publicidade oficial, mas o de dar voz ao sonho de justiça social sem esquecer o empreendedorismo e as soluções criativas e talentosas que podem garantir a estes veículos um público leitor que o sustente.

Frases - LIII

"Neutro é quem já se decidiu pelo mais forte."
Max Weber

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

29 Fragmentos - Alyne Costa

Belíssimo o livro "29 fragmentos" (Editora Cispoesia), da poetisa baiana Alyne Costa. Dona de versos simples, mas que rasgam a alma, ela nos brinda com feminilidade poética, com sua "meiguice talhada a canivete" e uma visão muito especial do que ocorre a sua volta.

"Não quero meus versos em molduras
Quero-os nas bocas das mais vis criaturas
Quero-os férteis, clandestinos e cretinos
No requebro das moças, no assobio dos meninos..."


O livro é repleto de momentos deliciosos, como no poema Parto da Poesia, onde Alyne define a essência do poeta:

"É que a alma do poeta é feita de retalhos
Da multidão que ele carrega"

Alyne nos brinda, também, com um lirismo cheio de inspiração, como o que vemos no poema Meus ombros não suportam mais nada:

"Mas minhas mãos são jardineiras enfeitadas
De uma esperança nova que eu mesma teci."


Ela pincela seus poemas com frases e versos que dizem fundo, mostrando "que a vida nasce nova quando qualquer poema rasga a alma..." e revelando um "mundo cheio de falsos profetas e ocultos poetas...".