Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.
Paulo Leminski
sábado, 31 de janeiro de 2009
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Abraji lança site de mapeamento temático para jornalistas
Com o objetivo de apoiar o trabalho dos jornalistas, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) lançou o site "Mapas Temáticos Sobre o Brasil", uma ferramenta para a produção de reportagens que contém mapas sobre educação, criminalidade, eleições, população, meios de comunicação, entre outros, segundo divulgação da própria Abraji. Todos os mapas, que estão disponíveis em alta resolução, podem ser reproduzidos para fins jornalísticos, desde que citada a fonte.
De acordo com a Abraji, a ferramenta permite visualizar, por exemplo, a distribuição geográfica da nova base municipal de cada partido político, o crescimento da população por município, as avaliações que os municípios tiveram no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), e a distribuição dos meios de comunicação, incluindo TV, rádio e mídia impressa, em todos os Estados brasileiros. Em breve, serão adicionados mapas interativos e sobre novos temas.
A iniciativa faz parte do projeto internacional "Mapeamento dos Meios de Comunicação da América Latina", que busca investigar a relação entre democracia e meios de comunicação no Canadá e 11 países da América Latina. Dica pinçada do site Jornalismo nas Américas.
De acordo com a Abraji, a ferramenta permite visualizar, por exemplo, a distribuição geográfica da nova base municipal de cada partido político, o crescimento da população por município, as avaliações que os municípios tiveram no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), e a distribuição dos meios de comunicação, incluindo TV, rádio e mídia impressa, em todos os Estados brasileiros. Em breve, serão adicionados mapas interativos e sobre novos temas.
A iniciativa faz parte do projeto internacional "Mapeamento dos Meios de Comunicação da América Latina", que busca investigar a relação entre democracia e meios de comunicação no Canadá e 11 países da América Latina. Dica pinçada do site Jornalismo nas Américas.
Blogs.com: estudos sobre blogs e comunicação
O livro "Blogs.com: estudos sobre blogs e comunicação", organizado por Adriana Amaral, Raquel Recuero e Sandra Montardo, está disponível para baixar de forma gratuita. Segundo Raquel, “a intenção do livro era fazer um apanhado do 'estado da arte’ da pesquisa sobre blogs no Brasil, fornecendo algumas pistas para quem quer conhecer mais sobre o assunto”. São 12 artigos, divididos em dois capítulos: “o primeiro, referente a ‘definições, tipologias e métodos’ buscou fazer um apanhado de formas de pesquisa e do objeto ‘blog’. O segundo, ‘usos e apropriações’, discute as várias formas dos blogs através de várias pesquisas”. A obra é de leitura obrigatória para quem tem interesse no tema. Dica pinçada do Blog do Gjol.
Carta de André Nouschi ao embaixador de Israel em Paris
Carta do historiador francês de origem judaica André Nouschi ao embaixador israelense em Paris durante os bombardeios na Faixa de Gaza. Nouschi combateu os nazistas na França, tem 86 anos e é ex-professor da Universidade de Tunis e professor honorário da Universidade de Nice.
Senhor Embaixador:
Para vós é shabat, que devia ser um dia de paz, mas que é o da guerra. Para mim, e desde há vários anos, a colonização e o roubo israelense das terras palestinas exasperam-me. Escrevo-vos como francês, judeu de nascimento e artesão dos acordos entre a Universidade de Nice e a de Haifa.
Não é mais possível calar diante da política de assassinatos e de expansão imperialista de Israel.
Vós vos conduzis exatamente como Hitler se conduziu na Europa com a Áustria, a Tchecoslováquia (hoje República Tcheca e Eslováquia). Desprezais as resoluções da ONU tal como ele as da Sociedade das Nações e assassinais impunemente mulheres e crianças; não invoqueis os atentados, a Intifada. Tudo isso resulta da colonização ilegítima e ilegal; o que é roubo.
Vós vos conduzis como ladrões de terras e virais as costas às regras da moral judia. Vergonha para vós! Vergonha para Israel!
Cavais a vossa tumba sem vos dar conta. Pois estais condenados a viver com os palestinos e os estados árabes.
Se vos falta esta inteligência política, então sois indigno de fazer política e vossos dirigentes deveriam ir para a cadeia.
Um país que assassina Rabin, que glorifica seu assassino, é um país sem moral e sem honra. Que o céu e que o vosso Deus leve à morte Sharon, o assassino.
Haveis sofrido derrota no Líbano em 2006. Sofrereis outras, espero, e enviais à morte os jovens israelenses porque não tendes a coragem de fazer a paz.
Como os judeus que tanto sofreram podem imitar os seus carrascos hitlerianos? Para mim, desde 1975, a colonização recorda-me velhas lembranças, aquelas do hitlerismo. Não vejo diferença entre vossos dirigentes e os da Alemanha nazi.
Pessoalmente, vou combater-vos com todas as minhas forças como o fiz entre 1938 e 1945 até que a Justiça dos homens destruísse o hitlerismo que está no coração do vosso país.
Vergonha a Israel!!
Espero que o vosso Deus lançará contra os seus dirigentes a vingança que eles merecem. Tenho vergonha como judeu, antigo combatente da II Guerra Mundial, por vós. Que o vosso Deus vos maldiga até o fim dos séculos!
Espero que sejais punidos!
Senhor Embaixador:
Para vós é shabat, que devia ser um dia de paz, mas que é o da guerra. Para mim, e desde há vários anos, a colonização e o roubo israelense das terras palestinas exasperam-me. Escrevo-vos como francês, judeu de nascimento e artesão dos acordos entre a Universidade de Nice e a de Haifa.
Não é mais possível calar diante da política de assassinatos e de expansão imperialista de Israel.
Vós vos conduzis exatamente como Hitler se conduziu na Europa com a Áustria, a Tchecoslováquia (hoje República Tcheca e Eslováquia). Desprezais as resoluções da ONU tal como ele as da Sociedade das Nações e assassinais impunemente mulheres e crianças; não invoqueis os atentados, a Intifada. Tudo isso resulta da colonização ilegítima e ilegal; o que é roubo.
Vós vos conduzis como ladrões de terras e virais as costas às regras da moral judia. Vergonha para vós! Vergonha para Israel!
Cavais a vossa tumba sem vos dar conta. Pois estais condenados a viver com os palestinos e os estados árabes.
Se vos falta esta inteligência política, então sois indigno de fazer política e vossos dirigentes deveriam ir para a cadeia.
Um país que assassina Rabin, que glorifica seu assassino, é um país sem moral e sem honra. Que o céu e que o vosso Deus leve à morte Sharon, o assassino.
Haveis sofrido derrota no Líbano em 2006. Sofrereis outras, espero, e enviais à morte os jovens israelenses porque não tendes a coragem de fazer a paz.
Como os judeus que tanto sofreram podem imitar os seus carrascos hitlerianos? Para mim, desde 1975, a colonização recorda-me velhas lembranças, aquelas do hitlerismo. Não vejo diferença entre vossos dirigentes e os da Alemanha nazi.
Pessoalmente, vou combater-vos com todas as minhas forças como o fiz entre 1938 e 1945 até que a Justiça dos homens destruísse o hitlerismo que está no coração do vosso país.
Vergonha a Israel!!
Espero que o vosso Deus lançará contra os seus dirigentes a vingança que eles merecem. Tenho vergonha como judeu, antigo combatente da II Guerra Mundial, por vós. Que o vosso Deus vos maldiga até o fim dos séculos!
Espero que sejais punidos!
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
O melhor do fotojornalismo em 2008
A seleção que você vai ver abaixo foi feita pelo jornal The Boston Globe. São 120 fotos, entre elas algumas verdadeiramente chocantes. A apresentação está dividida em três partes, com 40 fotos cada. Clique nos links a seguir.Parte 1
Parte 2
Parte 3
O holocausto como propaganda
“Durante décadas, acostumamo-nos a ver os judeus apenas como vítimas do Holocausto. E, de fato, eles foram vítimas de um massacre terrível e abominável. Mas, as centenas de filmes e documentários sobre os horrores do Nazismo, talvez impedissem muita gente de notar que os judeus - de vítimas na Segunda Guerra - haviam-se tornado agressores, invasores e algozes do povo palestino.”
De Rodrigo Vianna, no artigo “Israel massacra e perde politicamente; chamar judeu de ‘nazista’ é desrespeito”
De Rodrigo Vianna, no artigo “Israel massacra e perde politicamente; chamar judeu de ‘nazista’ é desrespeito”
Frases - LI
"Pelo menos na tribo dos peemedebês, o homem brasileiro parou de evoluir. Pior: tomou um caminho inverso ao que fora esboçado na grande teoria."
Josias de Souza, usando Darwin para entender o PMDB
Josias de Souza, usando Darwin para entender o PMDB
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Livro conta a saga do povo palestino através da história de herói da resistência
Em um campo de refugiados perto de Beirute, o velho Yunis encontra-se em coma profundo. Khalil, médico e filho espiritual do doente, recusa-se a aceitar o fato de que talvez ele nunca volte a consciência e mantém-se ao lado dele, contando-lhe a sua própria história, que nada mais é que a saga do povo palestino. Quando jovem, Yunis casou-se com Nahila, uma moça que se torna cidadã israelense e fica na Galiléia, enquanto ele envolvido na Resistência, vive no campo de refugiados de Chatila, no Líbano. Yunis tinha de atravessar a fronteira clandestinamente para encontrar-se com sua esposa.
Esta é a história do livro Porta do Sol, da Editora Record. Valendo-se de histórias contadas no campo de refugiados, o autor Elias Khoury entrelaça à vida de Yunis aos muitos fatos importantes aconteceram no Oriente Médio: a Diáspora, o aperto de mãos de Arafat e Rabin em Washington, a invasão israelense ao Líbano e o massacre de Sabra e Chatila.
Leia abaixo trecho do primeiro capítulo do livro.
PARTE I
Hospital Galiléia
Umm-Hassan morreu.
Vi as pessoas correndo nos becos do campo e ouvi o pranto. As pessoas saíam de suas casas, agachavam-se para catar suas lágrimas e corriam.
Nabila, a esposa de Mahmud Alqássimi, que foi a nossa mãe, morreu. Costumávamos chamá-la de "nossa mãe" porque todos que nasceram no campo Chatila haviam caído dos úteros de suas mães diretamente nas mãos dela.
Eu também caí nas mãos dela, e no dia em que ela morreu, corri.
Umm-Hassan veio de Kweiket, seu vilarejo na Galiléia, para ser a única parteira do campo Chatila - uma mulher sem idade e sem filhos. Eu a conheci sempre velha; ombros curvados, rosto coberto de rugas e carquilhas: olhos grandes brilhando num quadrado branco e um xale branco cobrindo-lhe o cabelo branco.
Saná, sua vizinha, mulher de Karim Aljachi, o vendedor de knefe,* disse que Umm-Hassan passara por ela na noite anterior e lhe dissera que a morte chegaria.
"Ouvi sua voz, minha filha, a morte sussurra e tem a voz baixa."
Falou com seu sotaque beduíno para contar a Saná sobre o chamado da morte.
"A voz me chegou de manhã e disse: 'esteja pronta'."
"Fez as recomendações de como devia ser amortalhada."
"Pegou-me pela mão", disse Saná, "e levou-me para sua casa, abriu o guarda-roupa de madeira marrom e me mostrou a mortalha de seda branca; contou-me que tomaria banho antes de dormir. 'Assim morro pura, e não quero que ninguém me lave a não ser você.'"
UMM-HASSAN morreu.
Todo mundo sabia que a manhã dessa segunda-feira, 20 de outubro de 1995, era a data do encontro de Nabila, filha de Fátima, com a morte.
Todos acordaram e esperaram. Ninguém, porém, teve coragem de ir à sua casa para certificar-se de sua morte, pois Umm-Hassan avisara a todos, e todos acreditaram nela.
Apenas eu fui surpreendido.
Fiquei com você até as onze horas da noite; depois, exausto, fui para meu quarto e dormi. A noite do campo dormia; ninguém me avisou.
Mas as pessoas sabiam.
Não há ninguém que não acreditasse em Umm-Hassan, pois ela só falava a verdade.
Não foi ela a única que chorou na manhã de 5 de junho de 1967, enquanto todos dançavam nas ruas preparando-se para o retorno à Palestina? Ela chorou. Disse a todos com quem se encontrara que decidira vestir-se de luto. Todos riram dela e disseram que perdera o juízo. Durante os seis dias de guerra* não abriu as janelas de sua casa. No sétimo dia, saiu para enxugar as lágrimas dos outros. Disse que sabia que a Palestina não voltaria antes de todos nós morrermos.
Durante seus longos anos, Umm-Hassan enterrou seus quatro filhos, um após o outro. Chegavam carregados numa tábua com as roupas ensangüentadas. Sobrou-lhe apenas um filho chamado Naji, que vivia na América. Naji não é seu filho verdadeiro, mas é seu filho. Catou-o debaixo de uma oliveira no caminho de Kabri-Tarchiha, amamentou-o de seus secos seios, depois o entregou à sua mãe verdadeira no vilarejo de Qana, no Líbano.
Hoje morreu Umm-Hassan.
Ninguém teve coragem de entrar na sua casa. Mais de vinte mulheres aglomeraram-se na frente da casa e aguardaram. Saná chegou e bateu à porta; ninguém atendeu. Empurrou-a, abriu; correu até o quarto e viu Umm-Hassan dormindo; sua cabeça coberta pelo lenço branco. Saná aproximou-se, tocou seus ombros, a frialdade do seu corpo passou para as palmas da mulher do vendedor do knefe, que gritou. As mulheres então entraram e o choro se levantou, as pessoas correram.
Eu também queria correr com os que correram e entrar com os que entraram para ver Umm-Hassan dormir em sua cama para sempre, respirando o aroma de azeitona que exalava de sua pequena casa.
Mas não chorei.
Há três meses sinto-me incapaz de me emocionar. Apenas este homem suspenso sobre seu leito me faz sentir a tremura das coisas. Há três meses está deitado sobre esta cama no Hospital Galiléia, onde trabalho como médico, ou onde faço de conta que sou médico. Sento-me ao seu lado e tento. Ele está morto ou vivo? Eu não sei. Eu o estou ajudando ou fazendo-o sofrer? Amo-o ou o odeio? Conto-lhe histórias ou o escuto?
Faz três meses que estou no seu quarto.
E hoje, Umm-Hassan morreu, e quero que ele saiba, mas ele não ouve; quero que venha comigo para o funeral, mas ele não se levanta.
Disseram que estava em coma.
Um derrame cerebral que causou dano irreversível. Um homem deitado na minha frente, e eu aqui estou, sem saber o que fazer. Apenas tento não deixá-lo apodrecer vivo, pois estou certo de que ele está dormindo, não morto.
Mas que diferença faz?
Será que é verdade o que me dizia Umm-Hassan, que alguém dormindo é igual a um morto - que a alma abandona o corpo de quem dorme e a ele retorna quando acorda, enquanto a alma do morto parte porém não volta?
Onde estará a alma de Yunis, filho de Ibrahim, filho de Sleiman Alassadi?
Terá ido para muito longe, ou estará pairando sobre nós neste quarto de hospital, pedindo me para não abandonar o lugar, porque o homem está imerso em distantes trevas, temendo o silêncio?
Juro que não sei.
Esta é a história do livro Porta do Sol, da Editora Record. Valendo-se de histórias contadas no campo de refugiados, o autor Elias Khoury entrelaça à vida de Yunis aos muitos fatos importantes aconteceram no Oriente Médio: a Diáspora, o aperto de mãos de Arafat e Rabin em Washington, a invasão israelense ao Líbano e o massacre de Sabra e Chatila.
Leia abaixo trecho do primeiro capítulo do livro.
PARTE I
Hospital Galiléia
Umm-Hassan morreu.
Vi as pessoas correndo nos becos do campo e ouvi o pranto. As pessoas saíam de suas casas, agachavam-se para catar suas lágrimas e corriam.
Nabila, a esposa de Mahmud Alqássimi, que foi a nossa mãe, morreu. Costumávamos chamá-la de "nossa mãe" porque todos que nasceram no campo Chatila haviam caído dos úteros de suas mães diretamente nas mãos dela.
Eu também caí nas mãos dela, e no dia em que ela morreu, corri.
Umm-Hassan veio de Kweiket, seu vilarejo na Galiléia, para ser a única parteira do campo Chatila - uma mulher sem idade e sem filhos. Eu a conheci sempre velha; ombros curvados, rosto coberto de rugas e carquilhas: olhos grandes brilhando num quadrado branco e um xale branco cobrindo-lhe o cabelo branco.
Saná, sua vizinha, mulher de Karim Aljachi, o vendedor de knefe,* disse que Umm-Hassan passara por ela na noite anterior e lhe dissera que a morte chegaria.
"Ouvi sua voz, minha filha, a morte sussurra e tem a voz baixa."
Falou com seu sotaque beduíno para contar a Saná sobre o chamado da morte.
"A voz me chegou de manhã e disse: 'esteja pronta'."
"Fez as recomendações de como devia ser amortalhada."
"Pegou-me pela mão", disse Saná, "e levou-me para sua casa, abriu o guarda-roupa de madeira marrom e me mostrou a mortalha de seda branca; contou-me que tomaria banho antes de dormir. 'Assim morro pura, e não quero que ninguém me lave a não ser você.'"
UMM-HASSAN morreu.
Todo mundo sabia que a manhã dessa segunda-feira, 20 de outubro de 1995, era a data do encontro de Nabila, filha de Fátima, com a morte.
Todos acordaram e esperaram. Ninguém, porém, teve coragem de ir à sua casa para certificar-se de sua morte, pois Umm-Hassan avisara a todos, e todos acreditaram nela.
Apenas eu fui surpreendido.
Fiquei com você até as onze horas da noite; depois, exausto, fui para meu quarto e dormi. A noite do campo dormia; ninguém me avisou.
Mas as pessoas sabiam.
Não há ninguém que não acreditasse em Umm-Hassan, pois ela só falava a verdade.
Não foi ela a única que chorou na manhã de 5 de junho de 1967, enquanto todos dançavam nas ruas preparando-se para o retorno à Palestina? Ela chorou. Disse a todos com quem se encontrara que decidira vestir-se de luto. Todos riram dela e disseram que perdera o juízo. Durante os seis dias de guerra* não abriu as janelas de sua casa. No sétimo dia, saiu para enxugar as lágrimas dos outros. Disse que sabia que a Palestina não voltaria antes de todos nós morrermos.
Durante seus longos anos, Umm-Hassan enterrou seus quatro filhos, um após o outro. Chegavam carregados numa tábua com as roupas ensangüentadas. Sobrou-lhe apenas um filho chamado Naji, que vivia na América. Naji não é seu filho verdadeiro, mas é seu filho. Catou-o debaixo de uma oliveira no caminho de Kabri-Tarchiha, amamentou-o de seus secos seios, depois o entregou à sua mãe verdadeira no vilarejo de Qana, no Líbano.
Hoje morreu Umm-Hassan.
Ninguém teve coragem de entrar na sua casa. Mais de vinte mulheres aglomeraram-se na frente da casa e aguardaram. Saná chegou e bateu à porta; ninguém atendeu. Empurrou-a, abriu; correu até o quarto e viu Umm-Hassan dormindo; sua cabeça coberta pelo lenço branco. Saná aproximou-se, tocou seus ombros, a frialdade do seu corpo passou para as palmas da mulher do vendedor do knefe, que gritou. As mulheres então entraram e o choro se levantou, as pessoas correram.
Eu também queria correr com os que correram e entrar com os que entraram para ver Umm-Hassan dormir em sua cama para sempre, respirando o aroma de azeitona que exalava de sua pequena casa.
Mas não chorei.
Há três meses sinto-me incapaz de me emocionar. Apenas este homem suspenso sobre seu leito me faz sentir a tremura das coisas. Há três meses está deitado sobre esta cama no Hospital Galiléia, onde trabalho como médico, ou onde faço de conta que sou médico. Sento-me ao seu lado e tento. Ele está morto ou vivo? Eu não sei. Eu o estou ajudando ou fazendo-o sofrer? Amo-o ou o odeio? Conto-lhe histórias ou o escuto?
Faz três meses que estou no seu quarto.
E hoje, Umm-Hassan morreu, e quero que ele saiba, mas ele não ouve; quero que venha comigo para o funeral, mas ele não se levanta.
Disseram que estava em coma.
Um derrame cerebral que causou dano irreversível. Um homem deitado na minha frente, e eu aqui estou, sem saber o que fazer. Apenas tento não deixá-lo apodrecer vivo, pois estou certo de que ele está dormindo, não morto.
Mas que diferença faz?
Será que é verdade o que me dizia Umm-Hassan, que alguém dormindo é igual a um morto - que a alma abandona o corpo de quem dorme e a ele retorna quando acorda, enquanto a alma do morto parte porém não volta?
Onde estará a alma de Yunis, filho de Ibrahim, filho de Sleiman Alassadi?
Terá ido para muito longe, ou estará pairando sobre nós neste quarto de hospital, pedindo me para não abandonar o lugar, porque o homem está imerso em distantes trevas, temendo o silêncio?
Juro que não sei.
Vozes silenciadas no OI
Meu artigo "Gaza: as vozes silenciadas", publicado aqui no Escrevinhamentos no dia 20, foi publicado ontem no Observatório da Imprensa. O artigo é uma compilação dos depoimentos e narrativas do documentário “Occupation 101: Vozes da Maioria Silenciada”, acrescida de comentários e informações adicionais cujo objetivo é tornar mais claro o tema.
Vítima não, responsável
O texto abaixo é uma tradução livre da belíssima reflexão feita por Yoani Sánchez em seu blog Generarión Y, intitulado Vítima não, responsável. Sua coragem frente ao autoritarismo em Cuba tem se refletido em todo o mundo. Recomendo o blog.
“Poderia passar o dia assustada, escondendo-me destes homens lá em baixo. Encheria páginas com o custo pessoal que me trouxe este blog e com os testemunhos dos que foram “avisados” de que sou uma pessoa perigosa.
Bastaria decidir e cada um dos meus textos seria uma denúncia ou um longo dedo acusador para aqueles que buscam culpados. Mas acontece que eu não sou uma vítima, sou responsável.
Estou ciente de que me calei, que permiti a alguns o direito de governar minha ilha como se fosse uma fazenda. Fingi e aceitei que outros tomassem por mim as decisões que nos cabiam a todos, me escondia por detrás do fato de ser muito jovem, muito frágil. Sou responsável por ter colocado a máscara, por ter usado meu filho e minha família como argumento para não me atrever. Aplaudi – como quase todos – e deixei meu país quando estava farta, dizendo a mim mesma que era mais fácil esquecer que tentar mudar algo.
Também carrego o peso de ter me deixado levar – algumas vezes – pelo rancor ou pela suspeita. Tolerei que me incutissem a paranóia e em minha adolescência uma balsa no meio do mar foi um desejo frequentemente acariciado.
No entanto, como não me sinto vítima, ergo um pouco a saia e mostro minhas pernas aos dois homens que me seguem por toda a parte. Não há nada mais paralisante que uma panturrilha de mulher quando o sol bate em meio à calçada. Como também não tenho vocação para mártir, tento não desmanchar o sorriso, visto que a gargalhada é uma pedra dura para os dentes dos autoritários. Assim prossigo em minha vida, sem deixar que me convertam em puro gemido, em apenas um lamento. Afinal de contas, tudo isso que vivo hoje tem sido produto do meu silêncio, fruto direto da minha passividade anterior.”
“Poderia passar o dia assustada, escondendo-me destes homens lá em baixo. Encheria páginas com o custo pessoal que me trouxe este blog e com os testemunhos dos que foram “avisados” de que sou uma pessoa perigosa.
Bastaria decidir e cada um dos meus textos seria uma denúncia ou um longo dedo acusador para aqueles que buscam culpados. Mas acontece que eu não sou uma vítima, sou responsável.
Estou ciente de que me calei, que permiti a alguns o direito de governar minha ilha como se fosse uma fazenda. Fingi e aceitei que outros tomassem por mim as decisões que nos cabiam a todos, me escondia por detrás do fato de ser muito jovem, muito frágil. Sou responsável por ter colocado a máscara, por ter usado meu filho e minha família como argumento para não me atrever. Aplaudi – como quase todos – e deixei meu país quando estava farta, dizendo a mim mesma que era mais fácil esquecer que tentar mudar algo.
Também carrego o peso de ter me deixado levar – algumas vezes – pelo rancor ou pela suspeita. Tolerei que me incutissem a paranóia e em minha adolescência uma balsa no meio do mar foi um desejo frequentemente acariciado.
No entanto, como não me sinto vítima, ergo um pouco a saia e mostro minhas pernas aos dois homens que me seguem por toda a parte. Não há nada mais paralisante que uma panturrilha de mulher quando o sol bate em meio à calçada. Como também não tenho vocação para mártir, tento não desmanchar o sorriso, visto que a gargalhada é uma pedra dura para os dentes dos autoritários. Assim prossigo em minha vida, sem deixar que me convertam em puro gemido, em apenas um lamento. Afinal de contas, tudo isso que vivo hoje tem sido produto do meu silêncio, fruto direto da minha passividade anterior.”
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