Semana On

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Vítima não, responsável

O texto abaixo é uma tradução livre da belíssima reflexão feita por Yoani Sánchez em seu blog Generarión Y, intitulado Vítima não, responsável. Sua coragem frente ao autoritarismo em Cuba tem se refletido em todo o mundo. Recomendo o blog.

“Poderia passar o dia assustada, escondendo-me destes homens lá em baixo. Encheria páginas com o custo pessoal que me trouxe este blog e com os testemunhos dos que foram “avisados” de que sou uma pessoa perigosa.

Bastaria decidir e cada um dos meus textos seria uma denúncia ou um longo dedo acusador para aqueles que buscam culpados. Mas acontece que eu não sou uma vítima, sou responsável.

Estou ciente de que me calei, que permiti a alguns o direito de governar minha ilha como se fosse uma fazenda. Fingi e aceitei que outros tomassem por mim as decisões que nos cabiam a todos, me escondia por detrás do fato de ser muito jovem, muito frágil. Sou responsável por ter colocado a máscara, por ter usado meu filho e minha família como argumento para não me atrever. Aplaudi – como quase todos – e deixei meu país quando estava farta, dizendo a mim mesma que era mais fácil esquecer que tentar mudar algo.

Também carrego o peso de ter me deixado levar – algumas vezes – pelo rancor ou pela suspeita. Tolerei que me incutissem a paranóia e em minha adolescência uma balsa no meio do mar foi um desejo frequentemente acariciado.

No entanto, como não me sinto vítima, ergo um pouco a saia e mostro minhas pernas aos dois homens que me seguem por toda a parte. Não há nada mais paralisante que uma panturrilha de mulher quando o sol bate em meio à calçada. Como também não tenho vocação para mártir, tento não desmanchar o sorriso, visto que a gargalhada é uma pedra dura para os dentes dos autoritários. Assim prossigo em minha vida, sem deixar que me convertam em puro gemido, em apenas um lamento. Afinal de contas, tudo isso que vivo hoje tem sido produto do meu silêncio, fruto direto da minha passividade anterior.”

Prêmio Philip Meyer de Jornalismo

Foram divulgados no último dia 23 os vencedores do prêmio Philip Meyer de Jornalismo que, segundo a descrição oficial, “reconhece os melhores usos de métodos da ciência social no jornalismo". São reportagens que combinam levantamento de informações públicas, por meio do Freedom of Information Act, análise de estatísticas e, como bem disse Marcelo Soares (de onde pincei a dica e os comentários sobre os premiados), “a sempre eficaz arte de sujar os sapatos”.

Vencedores de 2009

1º LUGAR: "Salvando bebês: expondo mortes repentinas de crianças", Scripps Howard News Service
"Os repórteres Thomas Hargrove, Lee Bowman e Lisa Hoffman fizeram um trabalho magistral ao expor lapsos burocráticos que impedem a busca pelas causas de mortes repentinas de bebês. Fazendo bom uso de fortes ferramentas estatísticas, a equipe analisou as agudas diferenças nos diagnósticos de causas de morte entre os estados e produziu a primeira prova rigorosa do valor das câmaras de revisão locais e estaduais sobre mortes de crianças, presentes em algumas jurisdições. Alguns meses após a publicação do projeto, o então senador Barack Obama apresentou um projeto de lei federal que exige dos examinadores médicos que façam investigações do local da morte em todos os casos de morte inesperada de bebês."

2º LUGAR: "Falhas Fatais", Kansas City Star
"Os repórteres Mike Casey e Rick Montgomery analisaram 1,9 milhão de registros da Administração Nacional de Segurança no Tráfego em Auto-Estradas para descobrir a falha da entidade em considerar a falta de airbags como um problema significativo de segurança. O trabalho de Casey e Montgomery sugere que quase 300 pessoas são mortas anualmente em acidentes pelo fato de seus airbags não terem inflado quando deviam. Inicialmente, a NHTSA contestou fortemente as conclusões, mas acabou fazendo sua própria análise dos dados e chegou às mesmas conclusões. Este projeto combinou o melhor das técnicas que Philip Meyer defende com o estado mental investigativo que se recusa a aceitar um não como resposta quando o que está em jogo (neste caso, vida e morte) é muito alto."

3º LUGAR: "Pegando pesado? - Táticas de policiamento suburbano", Philadelphia Inquirer
"Mark Fazlollah, Dylan Purcell, Melissa Dribben e Keith Herbert, da equipe do Inquirer, estudaram dados de prisão e Justiça de departamentos de polícia nos subúrbios que cercam a Filadélfia e encontraram cidades onde negros eram presos em números extraordinários por ofensas menores, como vadiagem e atravessar a rua sem observar as regras. Reportagem subseqüentes expuseram prisões onde milhares de revistas vexatórias ilegais eram conduzidas, cães policiais sendo usados para controlar crianças negras que iam a pé da escola para casa e ocorrências por tráfico sendo preenchidas com antecedência às prisões."

2008
1º LUGAR: "Falsificando as notas", Dallas Morning Herald
A pauta é parecida com a do jornal da Filadélfia que ganhou o terceiro lugar em 2007, mas a execução foi mais ambiciosa. A série de três dias mostrou sérias evidências de fraude nos testes-padrão, por mais de 50 mil estudantes de escolas públicas e particulares do estado do Texas. O jornal foi o primeiro a fazer uma reportagem sobre isso, em 2004, quando ainda sequer havia o prêmio Philip Meyer. Desta vez, os repórteres Joshua Benton e Holly Hacker analisaram um gigantesco banco de dados de notas e respostas de testes de centenas de milhares de estudantes individuais que fizeram os testes ao longo de dois anos. O rigor empregado pela série fez com que o estado anunciasse controles mais fortes sobre as condições em que os testes são feitos nas escolas do Texas, para se adaptarem aos métodos estatísticos de detecção de fraudes usados pelo jornal.

2º LUGAR: "Questão de vida ou morte", Atlanta Journal-Constitution
A pena de morte ainda é lei em vários pontos dos Estados Unidos. Em alguns estados, porém, ela é mais cruel. Em 1972, uma decisão da Suprema Corte americana classificou a aplicação da pena no estado da Geórgia – o mesmo onde se passa o filme “E o Vento Levou” – como “arbitrário e capcioso”. Nessa série de quatro duas, os repórteres Bill Rankin, Heather Vogell, Sonji Jacobs e a analista de bancos de dados Megan Clarke mergulharam em dados de 2.300 condenações por assassinato registradas desde 1995. Paralelamente, a pesquisadora Alice Wertheim fez um banco de dados com as condenações a pena de morte desde 1982. Os jornalistas fizeram diversas análises nos dados e conseguiram demonstrar que as condenações à pena de morte variavam de acordo com características demográficas dos réus e com o lugar onde viviam. Com isso, o Legislativo estadual decidiu considerar mudanças nas leis de pena de morte e o Judiciário local tomou iniciativas para melhorar o processo de revisão dos casos.

3º LUGAR: "Empresas de Seguro - Serviço ou Safadeza", Kansas City Star
Três repórteres passaram quase um ano analisando um banco de dados com mais de 35 milhões de registros de reclamações contra mais de 2.400 companhias de seguros dos Estados Unidos. A idéia era verificar quais são as reclamações dos clientes dessas empresas e como elas respondem a isso. A preocupação com o consumidor, segundo descobriram os repórteres Mike Casey, Mark Morris e David Klepper, varia muito conforme a empresa, o lugar do país e o tipo de cobertura. Logo na primeira reportagem, era mostrado o caso de uma mulher cujo plano de saúde não cobria internação hospitalar – e ela só descobriu isso ao receber uma conta de US$ 16 mil. Na última reportagem, o jornal demonstrava que as empresas de seguros passam por virtualmente nenhuma supervisão pública e que os encarregados pela pouca supervisão que há vêm das próprias empresas em que devem ficar de olho. A partir da análise do jornal, o Legislativo Americano passou a propor mudanças na regulamentação dos planos de seguros.

2007
1º LUGAR: "O dia perfeito para receber", Wall Street Journal
Foi uma série de reportagens publicadas ao longo de 2006 que expôs a prática de mudar a data de recibos de compra de ações para beneficiar quem tem informações privilegiadas com um pagamento maior. Os autores, Charles Forelle e James Bandler, usaram um modelo estatístico para calcular as chances selvagemente improváveis de que as datas de pagamento de ações simplesmente fossem muito favoravelmente lucrativas para dezenas de executivos de algumas das empresas mais conhecidas dos EUA. As reportagens sobre o escândalo levaram à abertura de uma investigação do órgão federal que fiscaliza a Bolsa para avaliar sabotagem em títulos de mais de 100 empresas até agora.

2º LUGAR: "Relatório Especial: Avaliando o Tratamento Cardíaco em Hospitais", Gannett News Service
É um pacote de matérias publicado em vários jornais dos EUA, que avaliou como mais de 3 mil hospitais seguiam as recomendações médicas de melhores práticas para tratar pacientes que sofreram ataques cardíacos. As matérias escritas pelo editor de banco de dados Robert Benincasa e pela repórter Jennifer Brooks mostravam que pacientes de áreas pobres e regiões rurais tinham menos chance de receber os cuidados recomendados. Sua análise usou um banco de dados nacional detalhando o tratamento dado a cada paciente e usou uma metodologia de escores compostos para avaliar cada hospital.

3º LUGAR: "Investigação das notas em Camden", Philadelphia Inquirer
Foi uma série de reportagens que expôs um escândalo de fraudes no teste-padrão usado pelo distrito escolar de Camden, em Nova Jersey. O trabalho dos repórteres Melanie Burney, Frank Kummer e Dwight Ott revelou que os resultados de testes aplicados em diversas escolas de Camden eram dramaticamente mais altos do que o que poderia ser esperado com base em performances passadas, e acabou levando à demissão do superintendente do distrito escolar, a uma investigação e ao monitoramento rigoroso do distrito pelo departamento estadual de educação. (O livro Freakonomics cita casos semelhantes para propor um modelo de análise desse tipo de coisa.)

2006
1º LUGAR: "Epidemia desnecessária", The Oregonian
O repórter Steve Suo demonstrou como o Legislativo americano e a DEA (departamento governamental responsável pelo combate às drogas) poderiam ter impedido uma epidemia de uso de metanfetaminas – presentes em drogas como o Ecstasy e em medicamentos controlados, como a Efedrina – se tivessem regulamentado melhor a importação dos produtos químicos necessários para sua produção. Em 1997, cerca de 5 milhões de americanos haviam provado metanfetaminas. Hoje, estima-se que cerca de 13 milhões usem de alguma forma – fumando, inalando, injetando ou ingerido. Apenas nove laboratórios no mundo inteiro produzem esses 12 elementos, e desde os anos 80 os laboratórios que os usam para fabricar medicamentos precisam manter registros de importação atualizados. Brechas legais, estimuladas pela ação de lobbies que usam como argumento a dependência de pacientes desses medicamentos, permitem que fabricantes de tóxicos tenham acesso aos produtos. Suo fez análises de dados sobre internações médicas, prisões, preço e pureza de metanfetaminas e importação de produtos químicos. A reportagem demonstra que, em dois períodos em que as autoridades federais impediram o acesso de cartéis aos produtos químicos, os crimes e internações pelo uso de metanfetaminas caiu na mesma proporção em que o preço da droga no mercado negro aumentou.

2º LUGAR: "Dispensados e desonrados", Knight-Ridder
Chris Adams e Alison Young, da sucursal de Washington da rede de jornais, mostram como a burocracia emperra as solicitações de veteranos que voltaram de guerras com deficiências físicas. Mais de 13.700 deles morreram antes de serem atendidos, e até 572 mil ex-combatentes podem não estar até hoje recebendo pensão por invalidez causada por guerras. Hoje, cerca de um terço do orçamento do VA (órgão do governo dos EUA que atende os ex-combatentes) é destinado a pagar pensões por invalidez a ex-combatentes. Os registros analisados pelos repórteres mostram as diferenças regionais no atendimento às demandas dos veteranos. Também revelam os tipos de doenças mais comuns enfrentadas pelos ex-combatentes: esquizofrenia e demência associada a trauma cerebral. A lentidão da burocracia não discrimina idade. Os repórteres encontraram um veterano da 2ª Guerra Mundial que teve o estômago rasgado por uma bala aos 19 anos, em 1945, e apenas em 1981 descobriu que sua pensão não cobria todos os danos que sofreu. A partir daí, passou 21 anos em uma batalha legal por seus direitos.

3º LUGAR: "O sumiço dos pântanos", St.Petersburg Times
Os repórteres Matthew Waite e Craig Pittmann demonstraram como 84 mil acres (quase 340 km²) de área pantanosa foram devastados por construções na Flórida após o governo George Bush (pai) anunciar uma política nacional para evitar perdas de áreas pantanosas, em 1990. Os repórteres usaram imagens de satélite de vários anos e sistemas de informações geográficas para calcular o tamanho exato da perda de área. Também analisaram os registros de permissão para exploração imobiliária de áreas pantanosas. Segundo a investigação, entre 1999 e 2003, foram aprovadas mais de 12 mil permissões de exploração – e apenas uma foi negada. A série de reportagens também contabilizou alguns prejuízos sofridos pelos governos com as construções nessas áreas. O condado de Collier, por exemplo, gastou US$ 30 milhões para indenizar moradores de bairros inundados que um dia foram áreas pantanosas.

Frases - L

"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar..."
Martin Niemöller

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Entrevista com Fischer, no OI

Publicada aqui no Escrevinhamentos, no dia 22, minha entrevista com o diretor do grupo Mix Brasil, André Fischer, foi publicada hoje no Observatório da Imprensa. A entrevista trata da relação entre a mídia e a comunidade gay no Brasil.

Historiador de origem judaica faz crítica ao movimento sionista

O historiador americano de origem judaica Norman Finkelstein faz uma crítica contundente à estratégia e aos argumentos do sionismo e também ataca fortemente a política israelense atual no livro "Imagem e Realidade no Conflito Israel-Palestina".

No trecho que pode ser lido abaixo, do primeiro capítulo do livro, há uma definição do empreendimento sionista e de três tendências - sionismo político, sionismo trabalhista e sionismo cultural - que estavam comprometidas com a exigência de um Estado de maioria judaica.

Orientações Sionistas - Teoria e prática do nacionalismo judaico

Gorny começa identificando o "consenso ideológico" do qual brotou a maior parte do pensamento sionista, se não mesmo toda a sua gama. Um dos elementos deste consenso, frisa ele ao longo de seu estudo, estava no centro da crença sionista e se revelou o principal obstáculo para qualquer reconciliação com os árabes - a saber, que a

Palestina deveria um dia abrigar uma maioria judaica. No interior do consenso ideológico sionista coexistiam três tendências relativamente distintas - o sionismo político, o sionismo trabalhista e o sionismo cultural. Todos estavam comprometidos com a exigência de uma maioria judaica, mas não exatamente pelas mesmas razões.

A pedra de toque do ideal liberal da França revolucionária estava na convicção de que era possível e desejável construir uma ordem social racional e justa com base em valores políticos compartilhados, vale dizer, democráticos. Deste modo, o Estado-nação foi concebido acima de tudo como uma forma consensual de relacionamento, sendo o cidadão sua unidade irredutível e seu alicerce. Originando-se numa reação do período pós-revolucionário francês ao racionalismo e ao liberalismo do Iluminismo, ponto de partida do sionismo político era a suposta falência do ideal democrático.

Os nacionalistas românticos sustentavam que vínculos mais profundos da mesma forma "natural" uniam certos indivíduos e excluíam outros. Idealmente, concluíam, cada uma dessas comunidades organicamente constituídas deveria dotar-se de um Estado independente. Tendo identificado o pensamento de Theodor Herzl, o fundador do moderno sionismo, nessas "fontes alemãs", Hans Kohn, provavelmente a mais eminente autoridade em nacionalismo moderno (ele próprio um sionista a certa altura), observa:

"Segundo a teoria alemã, as pessoas de ascendência comum (...) deviam formar um Estado comum. O pangermanismo baseava-se na idéia de que todas as pessoas de raça, sangue e ascendência alemães, onde quer que vivessem e qualquer que fosse o Estado a que pertencessem, deviam lealdade primeiro que tudo à Alemanha e deveriam tornar-se cidadãos do Estado alemão, sua verdadeira pátria. Eles e mesmo seus pais e antepassados podiam ter crescido debaixo de céus "estrangeiros" ou em ambientes "alienígenas", mas sua "realidade" interior fundamental continuava sendo alemã."

Pressupostos análogos imbuíam a característica abordagem sionista da questão judaica. Ao longo da diáspora, sustentavam seus participantes, os judeus constituíam uma presença "alienígena" em Estados "pertencentes" a outras nacionalidades, numericamente preponderantes. O anti-semitismo era o impulso natural de um todo orgânico "infectado" por um organismo "estrangeiro" (ou por um corpo "estrangeiro" por demais presente).

Com efeito, a análise sionista da questão judaica replicava o raciocínio do anti-semitismo, que invocava o mesmo argumento para justificar o ódio aos judeus. Na realidade, a receita que propunha para o problema judaico também estava inscrita na lógica do anti-semitismo. O sionismo político não pretendia combater o anti-semitismo - que na melhor das hipóteses era encarado como um empreendimento quixotesco -, mas chegar a um modus vivendi com ele. Propunha que a nação judaica resolvesse a questão judaica se (re)estabelecendo num Estado que a ela "pertencesse".

Para isso, os judeus teriam de se constituir em algum lugar como a maioria - pois não decorria a situação de ausência de Estado dos judeus precisamente do fato de que, onde quer que se encontrassem na diáspora, formavam uma minoria numérica? A condição de maioria, conseqüentemente, ratificaria o direito constitucional dos judeus a um Estado. Assim é que o dirigente revisionista Vladimir Jabotinsky, bem-situado no contexto do consenso ideológico sionista (p. 165; todas as páginas mencionadas são do livro de Gorny), declarou que "a criação de uma maioria judaica (...) era o objetivo fundamental do sionismo", já que "a expressão 'Estado judaico' (...) significa maioria judaica", e a Palestina "haverá de tornar-se um país judeu no momento em que tiver uma maioria judaica" (p. 169, 170-1, 233).

Para o sionismo trabalhista, a questão judaica não era apenas a ausência de um Estado, mas a estrutura de classe da nação judaica, que se havia tornado desequilibrada e deformada ao longo da longa dispersão: o Galut (exílio) havia criado um excesso de comerciantes, pequenos negociantes marginais e Luftsmenschen judeus, e um déficit de trabalhadores judeus. O sionismo tinha em parte como missão lançar as bases de um Estado sadio, reconstituindo a classe trabalhadora judaica. Como os interesses desta classe (e aqui o sionismo trabalhista evidentemente tomava de empréstimo uma página de Marx, adaptando-a para suas finalidades) exigiam um Estado judaico socialista, era esta a única verdadeira solução para o problema judaico. Deste modo, o sionismo trabalhista representava menos uma alternativa do que um complemento ao sionismo político. Em termos ideais, a luta de classes e o desenvolvimento econômico haveriam de desdobrar-se num campo purificado de elementos "alienígenas". Nas palavras de Ben-Gurion:

"O direito à existência nacional independente, à autonomia nacional, que nenhuma pessoa razoável poderia considerar conflitante com a solidariedade entre os povos, significa acima de tudo: existência nacional independente com base numa economia nacional independente (p. 137-8)."

O sionismo trabalhista imbuía a exigência de uma minoria judaica de um duplo significado: primeiro, ela ratificaria o direito dos judeus de reivindicar o Estado e, segundo, assinalaria seu direito de alterar radicalmente o equilíbrio demográfico na Palestina, abrindo caminho para a concentração territorial da nação judaica. Para citar novamente Ben-Gurion: "A maioria é apenas uma etapa em nosso caminho,embora uma etapa importante e decisiva no sentido político. A partir dela, podemos prosseguir tranqüilamente confiantes em nossas atividades e concentrar as massas de nosso povo neste país e em suas imediações" (p. 216; o itálico é nosso).

De maneira geral, a exigência de uma maioria judaica feita pelo movimento sionista escorava-se num conjunto de pressuposições que iam de encontro ao ideal liberal. Já o sionismo cultural não negava explicitamente a conveniência (ou viabilidade) de uma organização política democrática. Sua exigência de uma maioria judaica não representava tanto uma rejeição categórica do liberalismo, mas uma solução para certos limites nele supostamente contidos, especialmente no terreno da cultura.

Os sionistas culturais não queriam resolver "o problema dos judeus", mas "o problema do judaísmo" no mundo moderno. A seus olhos, a sobrevivência do judaísmo e do povo judeu era menos ameaçada pelo antisemitismo do que por uma civilização cada vez mais secularizada que os transformava num anacronismo. O verdadeiro problema não estava na fria rejeição dos gentios, e sim em seu abraço tentador. A tarefa mais urgente do sionismo, assim, era elaborar uma Weltanschauung de acordo com o mundo contemporâneo e ainda assim trazendo a inconfundível marca do resplandecente legado do povo judeu. A sobrevivência da nação judaica seria determinada pelo sucesso ou o fracasso desta empreitada.

Esta nova síntese nacional não poderia efetivar-se, entretanto, enquanto o povo judeu permanecesse dispersado na diáspora. Ela exigia um "centro espiritual" capaz de concentrar e unificar as energias da nação judaica e, em última análise, servir-lhe de força centrípeta. Para criar este centro, os judeus precisavam constituir-se como maioria numérica em algum Estado, pois as instituições culturais cruciais de qualquer sociedade estão subordinadas ao Estado, que sempre traz a marca da nação majoritária. Mesmo nos Estados mais democráticos, a vida cultural da minoria só pode ser "tolhida e confinada", na formulação do eminente teórico do sionismo cultural Ahad Ha'am (p. 102-3).

O sionismo cultural encarava portanto a maioria judaica como conditio sine qua non não de um Estado dos judeus, mas do livre renascimento espiritual da nação judaica. A Palestina, com sua maioria judaica, acabaria servindo como ponto de referência espiritual para os judeus de todo o mundo; não seria, no entanto, um Estado ao qual todos os judeus teriam de vincular-se politicamente. Ainda assim, o caráter da exigência de uma maioria judaica era definido, em termos práticos, pelos setores hegemônicos do movimento sionista. Para eles, a maioria judaica e o Estado judaico estavam indissoluvelmente vinculados: a maioria judaica eram os meios, e um Estado constitucionalmente vinculado aos judeus de todo o mundo, o fim.

A exaustiva e meticulosa análise dos registros documentais empreendida por Gorny demonstra que, não obstante toda a sua flexibilidade tática, a liderança sionista nunca recuou em seu apego à idéia de um Estado da nação judaica. O que esta liderança oferecia à população árabe da Palestina era, na melhor das hipóteses, um conjunto de salvaguardas institucionais no sentido de que seus direitos "civis" não seriam violados após o estabelecimento do Estado judaico; todavia estas garantias para a futura minoria árabe não impediam - na realidade, pressupunham - que, em princípio, o pretendido Estado pertenceria ao povo judeu.

Consideremos, por exemplo, as fórmulas de "compromisso" apresentadas pelo movimento sionista após os distúrbios árabes de 1929, quando as perspectivas do empreendimento sionista encontravam-se em seu ponto mais baixo até então. Weizmann propôs o princípio da paridade - vale dizer, igualdade total na representação administrativa dos dois povos -, mas sua intenção (nas palavras de Gorny) era "assegurar o status civil dos árabes" no interior de um Estado que seria de "propriedade" judaica (p.206). Da mesma forma, o "compromisso" então favorecido por Ben-Gurion não era um Estado binacional, mas um regime binacional, no qual (na formulação de Gorny) "o povo judeu teria direitos de propriedade sobre a Palestina e a comunidade árabe teria o direito de nela residir" (p. 212).10 Finalmente, Jabotinsky prometeu aos habitantes árabes da Palestina direitos plenos e iguais como entidade nacional, de acordo com as melhores tradições do pensamento socialista austro-húngaro, mas na questão do princípio de uma maioria judaica/Estado judaico ele não aceitava compromissos (p. 233-4).

O apego da liderança sionista ao princípio de um Estado judaico da nação judaica encontrou expressão concreta e inequívoca em sua insistência em que os judeus da diáspora desfrutassem de situação privilegiada em relação ao futuro Estado. Ben-Gurion, por exemplo, negava que a existência de um Estado judaico significasse necessariamente a dominação da minoria (árabe) (p. 306-7). A minoria poderia continuar desfrutando de plena igualdade civil e nacional, além de autonomia na educação, na cultura e na religião; com efeito, um membro da minoria poderia até mesmo ser eleito presidente ou primeiro-ministro do Estado. É verdade que a maioria judaica determinaria a "imagem" do Estado, mas isso também era (ou podia ser) um fato em todos os Estados democráticos. Todavia o que haveria de distinguir o Estado judaico, em sua opinião, seria sua orientação para todo o povo judeu: "O Estado não existirá apenas para seus habitantes (...) mas para atrair massas de judeus da diáspora, para reuni-los e enraizá-los em sua pátria."

Identificamos até aqui as correntes do sionismo que se encaixam no consenso ideológico sionista mencionado por Gorny. Ele também dedica considerável espaço aos elementos do movimento sionista que não se enquadravam no consenso ideológico mas ainda assim estavam comprometidos com alguma versão do sionismo.

De maneira geral, o que atraía esses dissidentes para o sionismo era sua dimensão cultural; politicamente, eles eram favoráveis a uma solução binacional do conflito em torno da Palestina, na qual fosse reconhecida "a total igualdade dos direitos políticos dos dois povos" (p. 119). O que nos interessa sobretudo aqui, entretanto, não são seus programas e perspectivas em si mesmos (que foram em grande número, todos eles sofrendo cruciais revisões ao longo do tempo). Pois o fato é que, embora os círculos sionistas dissidentes (exemplos: o Brit-Shalom, o Ihud) pudessem ter em suas fileiras alguns dos mais eminentes membros do movimento, entre eles o respeitado sociólogo Arthur Ruppin, primeiro presidente da Universidade Hebraica Judah Magnes, e o renomado filósofo Martin Buber, não deixavam de ser numericamente fracos e politicamente marginais. Nosso interesse se volta antes para sua crítica - às vezes implícita, com maior freqüência explicíta - das correntes centrais do sionismo. Esta crítica é digna de nota porque era ao mesmo tempo interna no movimento sionista, não podendo, assim, ser facilmente descartada, e também excepcionalmente convincente e incisiva, sob todos os aspectos. Na verdade, mostra-se tão pertinente hoje quanto no momento em que era feita.

Os dissidentes sionistas negavam que o êxito do projeto sionista - ou pelo menos tal como o definiam - dependesse do fato de os judeus se constituírem em maioria na Palestina. Eles não se opunham em princípio a que os judeus se tornassem em dado momento o elemento numericamente preponderante; o que não aceitavam era o significado atribuído à idéia de uma maioria judaica por seus adversários no movimento sionista. Os dissidentes argumentavam que por trás da exigência de uma maioria judaica se escondia a intenção de estabelecer uma alegação de direitos superiores sobre o pretendido Estado, conferindo aos judeus uma "vantagem em matéria de direitos" e presumindo a dominação e a supressão dos árabes da Palestina (p. 120, 145, 284). Hugo Bergmann, do Brit-Shalom, resumiu muito bem as pressuposições das correntes centrais do sionismo:

"A contradição entre os perfis políticos do Brit-Shalom e de seus opositores não se baseia apenas em nossa posição a respeito dos árabes. É algo muito mais fundamental e profundamente enraizado. Nossas convicções políticas decorrem das percepções do judaísmo. Queremos que a Palestina seja nossa para que as crenças morais e políticas do judaísmo deixem sua marca no modo de vida deste país, e para que aqui possamos pôr em prática a mesma fé que se manteve viva em nossos corações durante dois mil anos. E nossos oponentes têm pontos de vista diferentes. Quando falam da Palestina, de nosso país, estão se referindo ao "nosso país", e não ao "país deles". Este ponto de vista foi derivado da Europa em seu período de declínio. Baseia-se no conceito de um Estado que seja propriedade de um povo. (...) Desse modo, vários Estados europeus atuais consideram que a existência de um Estado significa que determinado povo, entre os povos que nele residem, deve desfrutar de direitos prioritários. (...) Eles justificam esta injustiça invocando o sagrado egoísmo do Estado" (p. 122-3; itálico no original).

Bergmann também criticava o conceito de "povo do país", que segundo ele "atribui direitos prioritários a um povo em detrimento de outro, como se um deles fosse o filho natural, e o outro, o enteado" (p. 123). Com efeito, o conceito contradizia o princípio democrático da cidadania.

As entrahas da Rede Globo

Imperdível o post “Beyond Citizen Kane”, o filme que a Globo não deixou exibir, no blog do Paulo Henrique Amorim. Para quem quer conhecer as entranhas do império dos Marinho trata-se de um documentário essencial.

Corretor com as novas regras

Muito bacana o Ortografa!, um corretor ortográfico online adaptado para as novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A coisa é simples: digite sua frase (até 500 caracteres) e o sistema procurará trocar as palavras para a ortografia correta. Caso ele não consiga — certamente por haver alguma ressalva — ele mostrará uma dica para você se guiar nos seus textos. Pinçado do blog Dicas de um Fuçador, do jornalista Marcelo Soares.

A esquerda israelense e Gaza

Interessante o artigo “Ofensiva militar divide opiniões na esquerda israelense” (aqui para quem assina a Folha Uol), do enviado especial da Folha ao Oriente Médio, Marcelo Ninio, no qual expõe as opiniões rachadas da esquerda israelense sobre o ataque sobre Gaza.

Ateus

“É um clichê dizer que quando não se acredita em Deus se acredita em qualquer coisa. É um clichê que não faz jus à profundidade dessa discussão, que Umberto Eco e o cardeal Martini já travaram num livrinho com mais sofisticação do que eu seria capaz. Mas ateus têm mais dificuldade em acreditar em coisas do que religiosos, não o contrário. O que ateus talvez tenham é mais conforto com a existência de dúvidas e com o fato de que algumas não serão respondidas jamais. Os que crêem atribuem uma explicação ao mistério, lhe atribuem um nome e, às vezes, dizem até que o mistério vem à Terra, tem filhos, fala com gentes. Ateus dizem: não sei.”

De Pedro Doria no imperdível post “Reinaldo Azevedo e como ele vê Obama”. Recomendo a leitura.

Poesia

interseções

Ralei osso madrugada toda.
Amanheci diagrama.
Interseções da gente
são nossos ideais.
As outras partes
nossas distâncias:
solidão cheia de sol.
Chover pra que se tenho lágrimas?
Inundo palavra-rio-arredores.
Razão não é ter água pelas canelas.
São profundezas fósseis de minhas dores.
Cultivo o tempo em jardins públicos de praças.
meu regador é aquilo que sou:
restos mortais
chão de clarear estrelas...

Flávia Muniz