Semana On

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

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Ando enojado do Jornalismo. Não do ofício, mas do que ele se transformou. Hoje, se pudesse, escreveria apenas por hobby. Está tudo tão carcomido, tão apodrecido, tão cheio de sorrisos amarelos e hálitos fétidos. Estou de saco cheio.

Evoluímos?

O debate envolvendo criacionistas e evolucionistas, que freqüentou as páginas de grandes jornais recentemente, está sendo alvo de um confronto de idéias muito interessante no espaço dedicado aos comentários do artigo “A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo”, no blog Laudas Críticas, do jornalista Maurício Tuffani. Os interessados sobre o tema não devem deixar de acompanhar.

Leia mais sobre o mesmo tema
- Criacionismo e Evolucionismo

domingo, 21 de dezembro de 2008

Livros Usados

O site Gojaba, onde pode-se vender livros usados e encontrar livros raros, chegou à marca de 1 milhão de livros disponíveis para venda. Muito interessante o projeto. Dica pinçada do excelente blog literário Livros e Afins.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Frases - XXIV

“Se resolver continuar repetindo o que os outros meios informam mais rapidamente e com mais vibração, haja peixe e banana para embrulhar”
Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo, referindo-se ao futuro dos jornais impressos.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Esperança para nosso etanol?

Os produtores brasileiros de etanol estão cruzando os dedos para que o Governo Obama seja menos protecionista que a administração de George W. Bush. A indicação de Tom Vilsack para o departamento de Agricultura estadunidense animou o setor, já que ele tem um histórico de defesa do álcool como fonte alternativa de energia e seria favorável à derrubada da barreira para importação do etanol brasileiro – segundo afirmação feita à rádio Iowa, em 2007.

O fato é que o setor não vai nada bem devido a prejuízos acumulados, falta de crédito, custos altos, ameaça de falências e de calotes, conforme aponta reportagem da jornalista Denise Carvalho, publicada no início do mês na Revista Exame.

Colocar as fichas de uma possível reviravolta neste setor na boa vontade de Obama pode não ser uma boa idéia. No artigo “Obama e o biocombustível”, publicado aqui no dia 12 de novembro, traço um panorama histórico pouco convincente sobre os interesses do novo governo estadunidense sobre o nosso etanol. Torço para estar errado.

Leia mais sobre o mesmo tema:
- Obama e o biocombustível

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O atirador de sapatos e a pasmaceira

É tentador cair em um discurso fácil de retidão e manutenção da ordem pública quando se está sentado sob a pasmaceira ideológica em que se transformou o Brasil. Que ordem é esta que deve ser defendida com unhas e dentes? Devemos, mesmo, fazer careta diante de qualquer manifestação popular mais exaltada? Será que está tudo andando sobre os trilhos da dignidade e da lisura a ponto de clamarmos pela manutenção da ordem?

O jornalista Guilherme Fiúza publicou hoje em seu blog um artigo intitulado “A ética do sapatão” no qual critica a atitude do repórter iraquiano que arremessou um sapato contra George Bush e dos que sentiram-se um pouco representados pela atitude. É a lógica do conformismo acima de tudo na qual, em nome da legalidade, toda perversão é aceitável.

Na década de 30 cidadãos espanhóis e de várias nações pegaram em armas contra a tirania de Franco. Logo depois, durante a segunda guerra mundial, para combater as atrocidades do fascismo, grupos de cidadãos combateram na clandestinidade em diversos países europeus. Em todas as ditaduras que vieram em seguida, de esquerda ou de direita, cidadãos se armaram e responderam violência com violência.

Os fundamentos ideológicos de todas estas lutas foram diferentes uns dos outros, diferentes também dos fundamentos da sapatada proferida pelo jornalista iraquiano em Bush. No entanto, todas estas manifestações de violência surgiram como respostas a violências maiores, em especial contra os direitos civis, contra a liberdade de expressão, de associação, de respirar.

Volto a perguntar: é possível condenar estas reações sob o ponto de vista fácil de quem está sentado confortavelmente em meio a uma pasmaceira ideológica? Acho que, especialmente no Brasil, há uma falta danada de gente com coragem de atirar sapatos.

Grato

Recebi estes dias um e-mail da turismóloga e pesquisadora Louise Prado Alfonso, autora da dissertação de mestrado intitulada “Embratur: Formadora de imagens da nação brasileira”, citada no artigoToda brasileira é bunda?”, que publiquei aqui dia 12.

Fiquei muito grato pelo incentivo e pela sua gentileza em se propor a me enviar a tese via correio. A seguir as palavras da pesquisadora:

“Escrevo este e-mail para parabenizá-lo pelo artigo intitulado “Toda brasileira é bunda?”. Dentre muitas citações ao meu trabalho considero este artigo um dos mais interessantes”.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia em MS

A jornalista Adriana Santana desenvolve como tese de doutorado uma pesquisa sobre o que classifica como “Jornalismo Cordial”. O termo, como ela explica em seu blog, remete ao conceito de “homem cordial” do historiador Sérgio Buarque de Holanda, e quer retratar “aquele profissional que, relegando apuração e compromisso com a busca dos fatos, numa postura de agradar a todos (ou não desagradar a ninguém), acaba por não cumprir sua função social de investigador e responsável por levantar e disseminar informações do interesse dos cidadãos”.

A concessão do título de Utilidade Pública para a Associação dos Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS), que deveria ocorrer nesta quarta-feira, 17, serve de objeto para a análise deste tipo de jornalismo que - aliado ao domínio do poder econômico sobre a definição das pautas e ao que o jornalista Washington Araújo classifica como “jornalismo insano” - está nos condenando a uma morte lenta e dolorosa.

Resumindo a ópera: desde dezembro de 2005 alguns vereadores tentam fazer aprovar no legislativo municipal campo-grandense um projeto de Lei que concederia o título à ATMS. Em 2006 a proposta foi reprovada por um placar de nove votos a oito, apesar de a entidade preencher os preceitos legais para receber o título. A oposição maciça de vereadores evangélicos e ligados a Igreja Católica foi o fator decisivo.

O debate se estendeu por 2007, desta vez sob a batuta do vereador Athayde Nery (PPS), que reapresentou a proposta sob o projeto de Lei 6353/07, argumentando que a associação é responsável por cursos, convênios e campanhas de prevenção à Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. Ontem, em uma manobra burocrática, o vereador Pastor Sergio (PMDB), integrante da bancada evangélica da Casa, pediu vistas ao projeto, impossibilitando que ele seja votado neste ano e virtualmente condenando-o novamente ao arquivamento. O projeto tramitava há quase dois anos, mas só ontem Sergio alegou desconhecer seus detalhes técnicos...

Presentes na sessão, militantes e simpatizantes da ATMS, pastores evangélicos e religiosos quase partiram para as vias de fato, coroando um drama de caráter social que poderia render muito material de qualidade além do factual óbvio e ululante.

Poderia-se, por exemplo, aproveitando o gancho dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, questionar se os motivos que levaram as bancadas evangélica e católica da Casa a obstruírem mais uma vez a aprovação do projeto teve caráter homofóbico. Uma leitura rápida da Declaração mostra, inequivocamente, que pelo menos seus Artigos I, II, VI e VIII foram violados.

Também seria possível analisar o fato de a Câmara Municipal de Campo Grande ter aprovado inúmeros títulos de Utilidade Pública nos últimos meses (inclusive um, hoje – Projeto de Lei 6557/08). Se a ATMS tinha requisitos legais para requerer a utilidade pública municipal, qual o motivo de este benefício estar sendo sistematicamente negado a ela, quando foi garantido a inúmeras outras associações?

Indo mais longe, os veículos de comunicação de Mato Grosso do Sul poderiam ligar o que ocorreu ontem na capital do Estado com os movimentos nacionais e internacionais de combate ao preconceito e pela discriminação aos homossexuais. Poderia-se ter usado como gancho fatos recentes, como a declaração do porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, de que a Igreja Católica é a favor da descriminalização do homossexualismo.

O fato é que o tema poderia ter sido abordado de muitas formas, todas elas fugindo do que o jornalista Luis Weiss, no artigo “Desafio ao leitor - e ao jornalista”, classifica como “a saída pelo facilitário”, isto é, pela abordagem óbvia e pouco desafiadora para o leitor.

No entanto, o que se viu na mídia sul-mato-grossense entre ontem e hoje foi somente pasmaceira e omissão.

O jornal Correio do Estado foi o veículo que mais destaque deu ao tema, dedicando a ele manchete secundária de capa (“Homossexuais, evangélicos e vereadores colidem”) e reportagem (na página 9A) intitulada “Projeto pró-homossexuais gera bate-boca na Câmara”, expondo o factual e os dois lados da questão sem, no entanto, questionar o seu mérito. O jornal O Estado de MS, por sua vez, deixou o tema de fora da capa, dando o mesmo tratamento que o Correio em matéria interna sob o título “Votação sobre utilidade pública de associação é suspensa após tumulto”. Outros dois jornais diários da capital, Diário do Pantanal e Folha do Povo não dedicaram uma linha sequer à polêmica.

Ontem, o site de notícias Campo Grande News noticiou com a matéria “Bate-boca entre evangélicos e travestis suspende sessão”. Mais tarde, deu espaço a uma vereadora evangélica eleita: “Evangélica, Rose votaria contra Associação das Travestis”. O Midiamax não deu uma linha sequer sobre o tema, apesar de ter noticiado no dia 15 que o projeto seria votado. Na mesma linha, o site TVMorena, braço virtual da TV Morena (repetidora da TV Globo em MS), deixou o fato passar em branco, embora tenha incluído a votação da Lei em nota sobre a pauta da Câmara Municipal.

As emissoras de tevê locais também ignoraram o projeto e as suas repercussões. A TV Morena, ontem, citou apenas que a Câmara Municipal havia aprovado o orçamento municipal de 2009. A TV Record e a repetidora do SBT no Estado, TV Campo Grande, também passaram batidas.

Recentemente, no artigo “Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade”, citei uma análise do professor Venício A. de Lima, pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (Nemp) da Universidade de Brasília, segundo a qual: “...imparcialidade e objetividade são princípios irrealizáveis na prática concreta da apuração e da redação de notícias, sejam elas de política ou de outra editoria”. Para Lima, “o que se busca no jornalismo sério e responsável é minimizar a contaminação da cobertura pelas preferências pessoais do(a) repórter e pelos interesses dos donos dos jornais, expressos nos editoriais e nas colunas de opinião dos respectivos veículos”.

Em sua resenha do livro “Políticas Públicas Sociais e os Desafios para o Jornalismo”, o jornalista Luciano Milhomem aponta um caminho similar ao dizer que, apesar de estabeleceram as regras para o setor, os grandes meios de comunicação de massa não são totalmente impermeáveis a mudanças e que é nesse nicho que “o jornalista de sólida e vasta formação pode e deve atuar, de maneira a promover a criatividade, a inovação, a consciência crítica, a cidadania”. Segundo ele, “se, hoje em dia, jornalismo engajado é visto como de qualidade duvidosa ou, no mínimo, de baixa credibilidade, o jornalismo neutro é considerado um mito”.

Talvez esteja aí o principal paradigma a ser quebrado no Jornalismo para que ele volte a cumprir um papel mais importante que a mera reprodução de notícias velhas, mornas e descomprometidas com a sociedade. Não sugiro que os jornalistas devam rasgar o código de ética, mas que busquem um equilíbrio entre um fazer-jornalístico imbuído de seriedade, que busca a verdade antes de tudo, e o que poderia ser chamado de função social da profissão.

Um dos relatórios do Fórum dos Cursos de Jornalismo realizado em São Paulo, em 2002, resume este pensamento: “O compromisso do jornalismo é com a cidadania e com os interesses gerais e públicos da sociedade, especialmente na defesa dos setores marginalizados, excluídos e sem espaço no sistema de comunicação. A defesa da liberdade de informação e da cidadania está acima dos interesses comerciais do mercado”.

Voltando a citar a análise de Milhomem, o jornalismo tem, inevitavelmente, responsabilidade social, seja quando se omite, seja quando assume posições, e contribui, de forma significativa, para o estabelecimento de prioridades, seja no âmbito público ou privado, sendo um fator decisivo para a formulação de políticas públicas sociais.

Em sua edição de dezembro de 2006 o Jornal da ABI traz editorial no qual reforça a necessidade de um jornalismo focado nos temas de caráter social, nas questões que dizem respeito à situação da gente comum e à grande massa de deserdados. “É esse jornalismo de superior qualidade ética, política e social que eleva os profissionais e seus veículos a merecido destaque na copiosa massa de informações que todo santo dia se oferecem aos leitores, ouvintes e espectadores”.

Para isso, no entanto, é preciso fugir do óbvio.

Leia mais sobre o mesmo tema:
- Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande
- Campo Grande pode dar exemplo contra homofobia
- Melhor ser ladrão que viado

Artigo no OI

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Obscurantismo ganha espaço em Campo Grande

A Câmara Municipal de Campo Grande perdeu nesta terça-feira a oportunidade de dar um exemplo de tolerância aprovando o projeto de Lei 6353/07, de autoria do vereador Athayde Nery (PPS), que concederia o título de utilidade pública para a Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS). O vereador Pastor Sergio (PMDB), integrante da bancada evangélica da Casa, pediu vistas ao projeto com o intuito de postergar sua votação para o ano que vem.

A manobra causou descontentamento entre representantes e simpatizantes da ATMS, e alegria em meio aos evangélicos presentes na sessão. Os vereadores Athayde e Edmar Neto (PSDB) argumentaram contra o pedido de Sérgio e a Mesa Diretora optou por colocar a solicitação sob a votação do plenário.

O clima esquentou quando, durante a defesa pela imediata votação da Lei, Athayde foi vaiado pelos evangélicos. Indignado, o vereador do PPS disse que “fé cristã e discriminação são duas coisas que não combinam” e, diante da pressão dos religiosos, soltou uma frase que fez ir pelos ares o clima que já era de confronto: “Evangélico que apóia a discriminação está a serviço do capeta e não de Jesus Cristo”, alfinetou.

Foi o bastante para que a vereadora petista Thais Helena mostrasse sua indignação acusando Athayde de ter quebrado o decoro parlamentar. O bate boca se prolongou no plenário e na platéia até que a sessão foi interrompida. Ainda não se sabe qual será o destino do projeto. Provavelmente será arquivado.

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A notícia poderia findar aqui, seca, isenta, morna. Ocorre que, para qualquer um dotado de compromisso social, isso não é possível.

O que se viu na Câmara Municipal de Campo Grande nesta terça-feira foi uma demonstração camuflada de homofobia digna de grupos como o God Hate Fags.

Homofobia

Em 1971 o psicólogo George Weinberg cunhou o termo homofobia, um neologismo combinando a palavra grega phobos ("fobia") com o prefixo homo para definir a aversão ou repulsa aos homossexuais. Ou seja, preconceito.

Preconceito é um juízo preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes ou "estranhos". Costuma indicar desconhecimento pejorativo de alguém ao que lhe é diferente. As formas mais comuns de preconceito são: social, racial e sexual. De modo geral, o ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, chamada estereótipo: "todos os alemães são prepotentes", "todos os americanos são arrogantes", "todos os ingleses são frios", "todos os baianos são preguiçosos", "todos os paulistas são metidos", etc.

Pode-se atribuir a origem da homofobia às mesmas motivações que fundamentam o racismo e qualquer outro preconceito. Uma oposição instintiva a tudo o que não corresponde à maioria com que o indivíduo se identifica e a normas implícitas e estabelecidas por essa mesma maioria. Pode-se até mesmo dizer que a homofobia é uma forma de xenofobia na sua definição mais estrita: medo a tudo o que seja considerado estranho.

Vale tudo?

A pergunta que deve ser feita é se há níveis de preconceito e de homofobia aceitáveis. É lícito uma pessoa ser agredida ou assassinada pelo simples fato de ter uma opção sexual diferente de outra? É aceitável que um casal homossexual tenha que implorar na justiça por direitos básicos de cidadania? É correto negar um título de utilidade pública a uma associação apenas porque se discorda da orientação sexual que ela se propõe defender?

A homofobia pode ser explicitada de diversas maneiras, algumas sutis, outras violentas. Palavras com conotação discriminatória, gestos e mímicas obscenas, falta de cordialidade, antipatia no convívio social, insinuações, ironia, sarcasmo e agressão física não são piores que a negação de direitos civis através do poder político.

De fato, não há níveis aceitáveis de preconceito e discriminação. Eles existem ou não.

Trazendo o assunto novamente para o que ocorreu nesta terça-feira no legislativo municipal campo-grandense, seria de bom tom se todos os parlamentares – como sugeriu Athayde Nery – manifestassem abertamente seu posicionamento sobre o tema e os explicassem em detalhes. Representar a igreja católica ou evangélica não pode ser motivo para que um homem público assuma posições homofóbicas. Quem assim se porta está na contramão da história.

No Brasil, além da Constituição de 1988 proibir qualquer forma de discriminação de maneira genérica, várias leis estão sendo discutidas neste momento a fim de proibirem especificamente a discriminação aos homossexuais. Uma delas é o PLC 122/06, que criminaliza a homofobia em nível nacional.

Em pesquisa realizada pelo instituto Data Senado - entre 6 e 16 de junho, a partir de entrevistas com 1.222 pessoas com idade superior a dezesseis anos - 70% dos entrevistados se declararam favoráveis ao projeto. No que se refere à religião, a criminalização de atos de preconceito contra homossexuais foi defendida por 55% dos evangélicos. Entre os entrevistados de outras religiões, o que inclui a católica, mais de 70% defendem a aprovação da proposta.

Eu não

É curioso perceber que os mesmos vereadores que optaram por não trabalhar pela aprovação do projeto de Lei 6353/07, que concederia o título de utilidade pública para a ATMS, não se consideram homofóbicos.

O fenômeno de atribuir os preconceitos aos outros sem reconhecer o próprio é comum e esperado, já que, por definição, a atitude preconceituosa é politicamente incorreta. No Brasil esta característica pode ser percebida por meio da pesquisa “Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil, Intolerância e respeito às diferenças sexuais nos espaços público e privado” – da Fundação Perseu Abramo, em parceria com a alemã Rosa Luxemburg Stiftung – realizada em junho passado.

A pesquisa mostra que 93% da população brasileira acredita que existe preconceito contra travestis (muito preconceito para 73% e pouco para 16%), 91% contra transexuais (respectivamente 71% e 17%), 92% contra gays (70% e 18%), 92% contra lésbicas (para 69%, para 20%) e 90% contra bissexuais (para 64% muito, para 22% um pouco).

No entanto, quando perguntados se são preconceituosos, apenas 29% admitem ter preconceito contra travestis (só 12% admitem ter muito preconceito), 28% contra transexuais (11% muito), 27% contra lésbicas e bissexuais (10% muito para ambos) e 26% contra gays (9% muito).

Atitudes como esta – de negação ao preconceito - apenas acirram a discriminação contra os homossexuais, colaborando para ampliar a violência que coloca o Brasil como um dos líderes mundiais em agressões homofóbicas. É o que assegura o professor Luiz Mott, do departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia – e autor do estudo “Homofobia: A Violação dos Direitos Humanos de Gays, Lésbicas & Travestis no Brasil” - para quem a homofobia no Brasil é uma "epidemia nacional".

Obscurantismo

Ainda caminhamos por searas obscuras no que se refere aos direitos civis básicos para homossexuais, apesar de distante o ano de 1870, quando o psiquiatra alemão Carl Westphal, em seu trabalho intitulado "As Sensações Sexuais Contrárias", definiu a homossexualidade em termos psiquiátricos como um desvio sexual, uma inversão do masculino e do feminino, abrindo as portas para que a homossexualidade fosse descrita como uma degeneração.

Esta visão esteriotipada da sexualidade foi questionada desde o século passado. Em abril de 1974 a Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association, APA) retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais e em 1992 a Organização Mundial da Saúde seguiu o mesmo exemplo.

Ainda assim, ser homossexual ainda é crime em 75 países. Em sete (Afeganistão, Arábia Saudita, Iémen, Irã, Sudão, Mauritânia e Paquistão) o “crime” é punido com a pena de morte e em quase duas dezenas as penas ultrapassam os dez anos de cadeia.

Será este o objetivo inconvessável dos homofóbicos campo-grandenses?

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