Vale a pena ler a entrevista com o poeta Mário Quintana - de 1988 - publicada hoje no blog do Geneton.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
A Era Digital
O blog The Huffington Post, fundado pela norte-americana Arianna Huffington, superou o valor de algumas empresas de jornais impressos dos Estados Unidos. Após receber um investimento de 25 milhões de dólares de uma empresa de venture capital, a Oak Investment Partners, da Califórnia, o blog passou a valer 100 milhões de dólares. Pinçado do Portal Imprensa UOL.
Frases - XIX
“A história é uma dama imprevisível. Não quero irritá-la, portanto, vamos deixar esta pergunta para ela mesma responder”
Mikhail Gorbachev (respondendo como gostaria de ser lembrado no futuro)
Mikhail Gorbachev (respondendo como gostaria de ser lembrado no futuro)
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Artigo no OI
Publicado aqui no dia 27 de novembro, meu artigo “Concessões de tevê e rádio: velhas práticas políticas e o nosso conformismo” foi publicado hoje no Observatório de Imprensa. O artigo trata do uso das concessões de TV e rádio como moedas de troca política.
O governador, os vadios e a imprensa
O governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), não é conhecido por seu tato. O estilo “patrola” o acompanha desde o início da vida pública e ganhou força nos oito anos em que “o italiano” – como é conhecido no Estado – governou a capital de MS, Campo Grande. Ocorre que a falta de tato do governador passou dos limites no dia 21 de novembro, quando, em entrevista à Rede Brasil de Televisão e à Agência Brasil, disse que o aumento do tempo de planejamento de aulas para 1/3 da carga horária de trabalho dos professores seria “vadiagem”.
Durante a desastrosa entrevista, Puccinelli disse que o tempo para o planejamento, previsto pela Lei Federal 11.738/08, era demasiado e exemplificou misturando alhos com bugalhos: “Eu fui cirurgião de trauma. Aí um doido te atropela, foge, você está sangrando e entra em choque. Eu vou planejar 13 horas como fazer a cirurgia? Não tem necessidade de aumentar horas de planejamento e diminuir o essencial, que é ensinar o aluno. O que precisa é dar aula para a gurizada”.
Subestimando a importância das horas para o planejamento, sugeriu também que os professores deveriam usar a internet para preparar aulas de forma mais rápida: “Há 30 anos quando não tinha internet, não tinha Google (site de buscas), não tinha tanta modernidade, os professores planejavam e tinham que pesquisar em livros. Hoje você entra no Google e o professor de Geografia passa a aula com maior tranqüilidade”, disse, deixando claro que, para ele, um professor pode entrar na Internet, copiar uma aula, e apresentá-la aos seus alunos.
Foi no fim da entrevista que Puccinelli soltou a pérola maior: “Pela intimidade que eu tenho com eles (com os professores), eu disse: vocês não vão ficar com horas a mais de vadiagem, vão ficar só com dez horas de planejamento/vadiagem”.
O mais grave é que o fato gerou pouquíssima repercussão na mídia local. Salvo uma matéria publicada pelo jornalista Oswaldo Júnior no site de notícias Midiamax, no dia 23 de novembro - reproduzida no site Cassilândia News, no dia 24 - e notas tímidas escondidas em alguns jornais, a imprensa sul-mato-grossense passou ao largo do tema. Esta omissão ocorreu mesmo diante da comoção causada entre os professores e parte da sociedade civil, que pode ser atestada pelos comentários feitos na seção Espaço do Leitor do Midiamax, ou em manifestações pontuais, como a do professor Rogério Tenório de Moura, com sua carta de repúdio publicada no Centro de Mídia Independente.
Uma relação pode ser traçada com o episódio no qual o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, agrediu e chamou de vagabundo um cidadão, em fevereiro de 2007. Tal foi à repercussão negativa de sua atitude, amplamente divulgada pela mídia que, no dia seguinte, Kassab “optou” por recuar e pedir desculpas publicamente. Enquanto em São Paulo a imprensa cumpriu o seu papel, expondo o fato e fazendo com que um governante passasse a mensurar com mais cuidado suas palavras, em MS a omissão reforçou o caráter autoritário do governador, passando a mensagem de que tudo é permissível.
Não é a primeira vez que o governador André Puccinelli conflita com os professores do Estado. Em novembro de 2007 ele foi alvo de uma representação no Ministério Público Estadual (MPE) apresentada pelo presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (Fetems), Jaime Teixeira, por ter determinado que a PM-2 (serviço reservado de inteligência da Polícia Militar) espionasse uma assembléia de professores em Campo Grande.
O caso também não obteve destaque na mídia local, a não ser por algumas reportagens do site de notícias Campo Grande News (aqui, aqui e aqui) e breve matéria no Midiamax. Na ocasião, falando ao jornalista Graciliano Rocha (atualmente correspondente da Folha de S. Paulo em Porto Alegre), o secretário de Justiça e Segurança Pública do Estado, Wantuir Jacini (ainda no cargo), defendeu a espionagem alegando “segurança de Estado”.
Durante a desastrosa entrevista, Puccinelli disse que o tempo para o planejamento, previsto pela Lei Federal 11.738/08, era demasiado e exemplificou misturando alhos com bugalhos: “Eu fui cirurgião de trauma. Aí um doido te atropela, foge, você está sangrando e entra em choque. Eu vou planejar 13 horas como fazer a cirurgia? Não tem necessidade de aumentar horas de planejamento e diminuir o essencial, que é ensinar o aluno. O que precisa é dar aula para a gurizada”.
Subestimando a importância das horas para o planejamento, sugeriu também que os professores deveriam usar a internet para preparar aulas de forma mais rápida: “Há 30 anos quando não tinha internet, não tinha Google (site de buscas), não tinha tanta modernidade, os professores planejavam e tinham que pesquisar em livros. Hoje você entra no Google e o professor de Geografia passa a aula com maior tranqüilidade”, disse, deixando claro que, para ele, um professor pode entrar na Internet, copiar uma aula, e apresentá-la aos seus alunos.
Foi no fim da entrevista que Puccinelli soltou a pérola maior: “Pela intimidade que eu tenho com eles (com os professores), eu disse: vocês não vão ficar com horas a mais de vadiagem, vão ficar só com dez horas de planejamento/vadiagem”.
O mais grave é que o fato gerou pouquíssima repercussão na mídia local. Salvo uma matéria publicada pelo jornalista Oswaldo Júnior no site de notícias Midiamax, no dia 23 de novembro - reproduzida no site Cassilândia News, no dia 24 - e notas tímidas escondidas em alguns jornais, a imprensa sul-mato-grossense passou ao largo do tema. Esta omissão ocorreu mesmo diante da comoção causada entre os professores e parte da sociedade civil, que pode ser atestada pelos comentários feitos na seção Espaço do Leitor do Midiamax, ou em manifestações pontuais, como a do professor Rogério Tenório de Moura, com sua carta de repúdio publicada no Centro de Mídia Independente.
Uma relação pode ser traçada com o episódio no qual o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, agrediu e chamou de vagabundo um cidadão, em fevereiro de 2007. Tal foi à repercussão negativa de sua atitude, amplamente divulgada pela mídia que, no dia seguinte, Kassab “optou” por recuar e pedir desculpas publicamente. Enquanto em São Paulo a imprensa cumpriu o seu papel, expondo o fato e fazendo com que um governante passasse a mensurar com mais cuidado suas palavras, em MS a omissão reforçou o caráter autoritário do governador, passando a mensagem de que tudo é permissível.
Não é a primeira vez que o governador André Puccinelli conflita com os professores do Estado. Em novembro de 2007 ele foi alvo de uma representação no Ministério Público Estadual (MPE) apresentada pelo presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (Fetems), Jaime Teixeira, por ter determinado que a PM-2 (serviço reservado de inteligência da Polícia Militar) espionasse uma assembléia de professores em Campo Grande.
O caso também não obteve destaque na mídia local, a não ser por algumas reportagens do site de notícias Campo Grande News (aqui, aqui e aqui) e breve matéria no Midiamax. Na ocasião, falando ao jornalista Graciliano Rocha (atualmente correspondente da Folha de S. Paulo em Porto Alegre), o secretário de Justiça e Segurança Pública do Estado, Wantuir Jacini (ainda no cargo), defendeu a espionagem alegando “segurança de Estado”.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Livre exercício do Jornalismo ameaçado em MS
A relação entre o poder público em Mato Grosso do Sul e a imprensa está se deteriorando de forma preocupante neste final de ano. Hoje pela manhã a jornalista Fernanda Brigatti, do jornal O Estado de MS, foi proibida de acompanhar a coletiva do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (TCE), Cícero Antônio de Souza, após a cerimônia em que ele foi reconduzido ao cargo. “Fui informada que após a posse haveria uma coletiva no gabinete da presidência, mas que eu - na verdade o jornal O Estado - não estava convidada”, afirma Fernanda e completa: “Foi feita a ressalva de que o plenário é público, logo, eu poderia ficar lá, mas no gabinete, não”.
O motivo da proibição foi matéria publicada hoje na página 3 do jornal, assinada pela jornalista Sandra Luz, sob o título “Assessor é investigado por dar assistência a câmaras”, que trata do uso indevido de vantagens por parte de funcionários do TCE-MS. A reportagem desagradou Cícero que, por sua vez, achou-se no direito de vetar a presença de jornalistas do referido veículo de comunicação em seu gabinete.
Fernanda, então, pediu que o jornalista Celso Bejarano Junior, do site de notícias Midiamax, fizesse a Cícero uma pergunta sobre a reportagem em questão, ao que o presidente do TCE respondeu dizendo que “o jornal mente e que deveria pagar suas contas, porque deve R$ 59 milhões ao Estado". Cícero referiu-se a dívidas que outras empresas do grupo O Estado, comandadas pelo empresário Jaime Valler, possui com o Estado de Mato Grosso do Sul.
Não é a primeira vez que jornalistas de O Estado passam por constrangimentos deste tipo. No dia 13 de novembro o repórter Humberto Marques viveu situação parecida na Assembléia Legislativa.
Não entro no mérito se os donos do jornal devem ou não impostos ao Estado, se as reportagens publicadas têm ou não embasamento. Não faço aqui uma defesa do jornal o Estado - do qual integrei a equipe inicial entre 2002 e 2004 - até por que tive sérios problemas com sua diretoria. Por isso mesmo me sinto muito à vontade para abordar o tema. O que está em jogo no Mato Grosso do Sul é o livre exercício do Jornalismo.
O motivo da proibição foi matéria publicada hoje na página 3 do jornal, assinada pela jornalista Sandra Luz, sob o título “Assessor é investigado por dar assistência a câmaras”, que trata do uso indevido de vantagens por parte de funcionários do TCE-MS. A reportagem desagradou Cícero que, por sua vez, achou-se no direito de vetar a presença de jornalistas do referido veículo de comunicação em seu gabinete.
Fernanda, então, pediu que o jornalista Celso Bejarano Junior, do site de notícias Midiamax, fizesse a Cícero uma pergunta sobre a reportagem em questão, ao que o presidente do TCE respondeu dizendo que “o jornal mente e que deveria pagar suas contas, porque deve R$ 59 milhões ao Estado". Cícero referiu-se a dívidas que outras empresas do grupo O Estado, comandadas pelo empresário Jaime Valler, possui com o Estado de Mato Grosso do Sul.
Não é a primeira vez que jornalistas de O Estado passam por constrangimentos deste tipo. No dia 13 de novembro o repórter Humberto Marques viveu situação parecida na Assembléia Legislativa.
Não entro no mérito se os donos do jornal devem ou não impostos ao Estado, se as reportagens publicadas têm ou não embasamento. Não faço aqui uma defesa do jornal o Estado - do qual integrei a equipe inicial entre 2002 e 2004 - até por que tive sérios problemas com sua diretoria. Por isso mesmo me sinto muito à vontade para abordar o tema. O que está em jogo no Mato Grosso do Sul é o livre exercício do Jornalismo.
Poema Dia no Blog do Noblat
O blog Poema Dia foi destacado hoje no Blog do Noblat como dica do dia. Para quem não sabe, diariamente, o jornalista Ricardo Noblat indica um blog aos seus leitores. O Poema Dia foi inaugurado ontem, segunda-feira. Trata-se de um blog no qual cada dia do mês é adotado por um poeta ou mini-contista que, neste dia específico, posta um trabalho de sua autoria.
É a formação superior a única saída para a inclusão social?
Um dia destes, sentado em um bar com cinco amigos, um doutor, duas doutorandas, um professor universitário envolvido em políticas educacionais e um advogado de ponta debati, entre goles de chopp, questões relativas ao ensino superior no Brasil. O ponto interessante do bate-papo foi perceber o que pensam alguns acadêmicos sobre temas como inclusão social e ensino.
O assunto realmente me interessou quando se desviou para o sistema de cotas. Sou contrário a elas. Explico: considero que o País perde quando se entrega uma vaga de curso superior a uma pessoa menos capacitada, simplesmente por ela ter a cor da pele ou a situação econômica adequada para receber este benefício. Tirar esta vaga de um aluno com mais capacidade é um erro, na minha concepção.
Defendo que a luta deva ser por um ensino básico de qualidade para que, daqui a uma ou duas gerações, alunos provenientes de escolas públicas ou particulares disputem vagas de igual para igual, prevalecendo o mais capacitado. Quanto à geração que ficará de fora dos cursos superiores por não ter condições de disputar a vaga agora, paciência (entendo que é necessário investir em cursos técnicos para absorver os que não chegarão aos bancos das universidades).
Meus colegas acadêmicos não aceitaram o argumento. Não admitiram a hipótese de que um brasileiro prejudicado por políticas públicas de exclusão racial e social pudesse ser colocado de lado - mesmo com o objetivo de evitar que estas situações se repitam no futuro. Não levaram em conta que, ao dar uma vaga a um estudante despreparado, tirando desta vaga alguém com melhor preparo, pode-se estar prejudicando gravemente o País e, pior, perpetuando as mesmas situações de exclusão que se quer combater.
Em interessantíssimo artigo no blog Laudas Críticas, o jornalista Maurício Tuffani abordou tema similar. Por meio de seu artigo, travei contato o novo livro de Charles Murray, “Real Education: Four simple truths for bringing America’s schools back to reality” (Educação Real: Quatro verdades simples para trazer as escolas da América de volta à realidade), que, entre outras coisas, sustenta que “não há necessidade — e se trata até de desperdício — de obrigar todos os estudantes a cursar uma faculdade”. Murray sustenta que avaliações educacionais nos EUA mostram que 80% dos jovens estão abaixo da média de “competência cognitiva” necessária para refletir sobre questões intelectualmente complexas. E não é isso que vemos hoje nas universidades brasileiras? Gente que, sabe-se lá como conseguiu chegar ali tal a ausência de condições mínimas de intelectualidade.
- Importante frisar que, apesar de pinçar este raciocínio específico de Murray, com o qual concordo, tenho reservas abissais quanto aos seus argumentos sobre o estudo grupal do papel do coeficiente de inteligência (QI) na sociedade (veja mais aqui e aqui), defendido por ele -
Em entrevista a Martha San Juan França, publicada no caderno “Eu & Fim de Semana”, do jornal Valor Econômico, Murray diz o seguinte: “Vamos ser realistas. O diploma normalmente comprova que a pessoa teve uma educação liberal clássica. Significa que tem condições de ler e entender textos difíceis. Mas centenas de jovens nunca conseguirão ler e entender, por exemplo, a Ética de Aristóteles. O resultado é que temos faculdades que oferecem cursos fracos, aumentam as notas e fingem que os seus alunos estão fazendo atividades de nível universitário quando, de fato, não estão. De todas as contribuições que meu livro pode trazer, a que mais me agradaria ver seria o reconhecimento da fraude que o diploma representa.”.
É fato que, como disse o economista e especialista em educação Gustavo Ioschpe, no artigo “Pelo direito à ruindade”, publicado na Veja, “os países que buscavam o desenvolvimento rápido entenderam que a qualificação de suas populações era um caminho obrigatório e trataram de criar mecanismos que permitissem a massificação do conhecimento em seu nível mais alto”. Apesar disso, no Brasil, a taxa de matrículas no ensino superior é de apenas 24%, contra 48% no Chile, 44% no Panamá, 42% no Uruguai e 41% na Venezuela.
Entre os motivos da estagnação brasileira, aponta Ioschpe, está a péssima qualidade do ensino fundamental e médio, “que gera um número pequeno de concluintes aptos a entrar no ensino superior”.
Dito isso, volto à questão central deste artigo, e questiono: em um País onde tão poucos conseguem chegar ao ensino superior é lícito tirar uma vaga de uma pessoa para dar esta vaga à outra, menos qualificada, usando como argumento nosso histórico de exclusão social e racial?
A resposta está na nossa tendência de supervalorizar o ensino superior, de apontá-lo como única alternativa de inclusão, como panacéia para todos os problemas. Viabilizar a formação de profissionais competentes, especialmente nas áreas vitais para o desenvolvimento de uma nação, como ciência e tecnologia, é vital. Ocorre que, no Brasil, o diploma de curso superior se tornou sinônimo de melhor qualificação para o mercado de trabalho. Por isso de defende o sistema de cotas como fator de inclusão social, olha-se apenas o momento, o agora, sem vislumbrar o que isso pode gerar para o futuro da nação.
Com um canudo nas mãos uma pessoa ganha cerca de três vezes mais do que outra que tenha cursado apenas alguns anos do ensino superior, e quase cinco vezes mais do que aquela que cursou somente o ensino secundário. Tenha o diplomado capacidade para exercer sua função ou não.
“Faz sentido imaginar que um empregador busque, no meio da incerteza do mercado de trabalho, um indicador para garantir a competência e a confiabilidade do futuro empregado. Um diploma seria esse indicador. A escola não agregaria muito em termos de conteúdo, mas seria mera ferramenta de sinalização, como que dizendo: pode me contratar”, afirma Ioschpe.
Vejam, estamos falando das vantagens imediatas do diploma de curso superior para algumas pessoas, não para o futuro do País e, em conseqüência, de milhões de pessoas.
Enfocando os interesses do País, o assunto muda de rumo. Afinal, um País não é construído apenas de pesquisadores nas áreas de ciência e tecnologia, além do que nem todos têm capacidade intelectual para se desenvolverem nestas áreas. O inchaço em áreas de atuação como Direito, Engenharia e Comunicação Social - para citar apenas algumas – é o resultado imediato deste endeusamento do diploma.
Não seria melhor, então, desafogar o mercado investindo em cursos técnicos? É o que fazem países como Finlândia, Alemanha, Coréia, Suíça e Estados Unidos onde a maioria dos jovens faz este tipo de opção ao invés do ensino superior. Respectivamente, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o percentual de jovens destes países optando pelos cursos técnicos é de 82%, 72%, 65%, 65% e 60%. No Brasil, apenas 9% dos jovens optam desta forma, até por que não haveria como absorver a demanda por simples ausência de escolas técnicas em número suficiente para isso.
Além disso, os países com boas escolas técnicas de nível superior são aqueles onde a população alcança os melhores índices de escolaridade. Numa comparação com 34 países, o Brasil é o que envia menos jovens às escolas técnicas - e também tem a população menos instruída. A média de anos de estudo da população (ainda segundo o OCDE) dos países citados anteriormente demonstra isso de forma clara: Finlândia (12,4 anos), Alemanha (13,4anos), Coréia (11,7 anos), Suíça (11,5 anos), Estados Unidos (12,7 anos), Brasil (6,1 anos).
Para finalizar e retomar o tema do meu bate-papo regado a chopp com amigos acadêmicos deixo a seguinte questão: ao invés de lutarmos por cotas para sanar séculos de exclusão social e racial – mas que levarão gente desqualificada ao ensino superior, projetando um País ainda mais atrasado científica e tecnologicamente e, em conseqüência, mais desigual – que tal brigarmos por políticas sérias de implementação de cursos técnicos - para abrigar quem não consegue chegar às universidades e formar gente qualificada – e por um ensino básico de verdade – o que permitiria, no futuro, que brancos, negros, índios, ricos, remediados e pobres disputassem os espaços de excelência de igual para igual?
O assunto realmente me interessou quando se desviou para o sistema de cotas. Sou contrário a elas. Explico: considero que o País perde quando se entrega uma vaga de curso superior a uma pessoa menos capacitada, simplesmente por ela ter a cor da pele ou a situação econômica adequada para receber este benefício. Tirar esta vaga de um aluno com mais capacidade é um erro, na minha concepção.
Defendo que a luta deva ser por um ensino básico de qualidade para que, daqui a uma ou duas gerações, alunos provenientes de escolas públicas ou particulares disputem vagas de igual para igual, prevalecendo o mais capacitado. Quanto à geração que ficará de fora dos cursos superiores por não ter condições de disputar a vaga agora, paciência (entendo que é necessário investir em cursos técnicos para absorver os que não chegarão aos bancos das universidades).
Meus colegas acadêmicos não aceitaram o argumento. Não admitiram a hipótese de que um brasileiro prejudicado por políticas públicas de exclusão racial e social pudesse ser colocado de lado - mesmo com o objetivo de evitar que estas situações se repitam no futuro. Não levaram em conta que, ao dar uma vaga a um estudante despreparado, tirando desta vaga alguém com melhor preparo, pode-se estar prejudicando gravemente o País e, pior, perpetuando as mesmas situações de exclusão que se quer combater.
Em interessantíssimo artigo no blog Laudas Críticas, o jornalista Maurício Tuffani abordou tema similar. Por meio de seu artigo, travei contato o novo livro de Charles Murray, “Real Education: Four simple truths for bringing America’s schools back to reality” (Educação Real: Quatro verdades simples para trazer as escolas da América de volta à realidade), que, entre outras coisas, sustenta que “não há necessidade — e se trata até de desperdício — de obrigar todos os estudantes a cursar uma faculdade”. Murray sustenta que avaliações educacionais nos EUA mostram que 80% dos jovens estão abaixo da média de “competência cognitiva” necessária para refletir sobre questões intelectualmente complexas. E não é isso que vemos hoje nas universidades brasileiras? Gente que, sabe-se lá como conseguiu chegar ali tal a ausência de condições mínimas de intelectualidade.
- Importante frisar que, apesar de pinçar este raciocínio específico de Murray, com o qual concordo, tenho reservas abissais quanto aos seus argumentos sobre o estudo grupal do papel do coeficiente de inteligência (QI) na sociedade (veja mais aqui e aqui), defendido por ele -
Em entrevista a Martha San Juan França, publicada no caderno “Eu & Fim de Semana”, do jornal Valor Econômico, Murray diz o seguinte: “Vamos ser realistas. O diploma normalmente comprova que a pessoa teve uma educação liberal clássica. Significa que tem condições de ler e entender textos difíceis. Mas centenas de jovens nunca conseguirão ler e entender, por exemplo, a Ética de Aristóteles. O resultado é que temos faculdades que oferecem cursos fracos, aumentam as notas e fingem que os seus alunos estão fazendo atividades de nível universitário quando, de fato, não estão. De todas as contribuições que meu livro pode trazer, a que mais me agradaria ver seria o reconhecimento da fraude que o diploma representa.”.
É fato que, como disse o economista e especialista em educação Gustavo Ioschpe, no artigo “Pelo direito à ruindade”, publicado na Veja, “os países que buscavam o desenvolvimento rápido entenderam que a qualificação de suas populações era um caminho obrigatório e trataram de criar mecanismos que permitissem a massificação do conhecimento em seu nível mais alto”. Apesar disso, no Brasil, a taxa de matrículas no ensino superior é de apenas 24%, contra 48% no Chile, 44% no Panamá, 42% no Uruguai e 41% na Venezuela.
Entre os motivos da estagnação brasileira, aponta Ioschpe, está a péssima qualidade do ensino fundamental e médio, “que gera um número pequeno de concluintes aptos a entrar no ensino superior”.
Dito isso, volto à questão central deste artigo, e questiono: em um País onde tão poucos conseguem chegar ao ensino superior é lícito tirar uma vaga de uma pessoa para dar esta vaga à outra, menos qualificada, usando como argumento nosso histórico de exclusão social e racial?
A resposta está na nossa tendência de supervalorizar o ensino superior, de apontá-lo como única alternativa de inclusão, como panacéia para todos os problemas. Viabilizar a formação de profissionais competentes, especialmente nas áreas vitais para o desenvolvimento de uma nação, como ciência e tecnologia, é vital. Ocorre que, no Brasil, o diploma de curso superior se tornou sinônimo de melhor qualificação para o mercado de trabalho. Por isso de defende o sistema de cotas como fator de inclusão social, olha-se apenas o momento, o agora, sem vislumbrar o que isso pode gerar para o futuro da nação.
Com um canudo nas mãos uma pessoa ganha cerca de três vezes mais do que outra que tenha cursado apenas alguns anos do ensino superior, e quase cinco vezes mais do que aquela que cursou somente o ensino secundário. Tenha o diplomado capacidade para exercer sua função ou não.
“Faz sentido imaginar que um empregador busque, no meio da incerteza do mercado de trabalho, um indicador para garantir a competência e a confiabilidade do futuro empregado. Um diploma seria esse indicador. A escola não agregaria muito em termos de conteúdo, mas seria mera ferramenta de sinalização, como que dizendo: pode me contratar”, afirma Ioschpe.
Vejam, estamos falando das vantagens imediatas do diploma de curso superior para algumas pessoas, não para o futuro do País e, em conseqüência, de milhões de pessoas.
Enfocando os interesses do País, o assunto muda de rumo. Afinal, um País não é construído apenas de pesquisadores nas áreas de ciência e tecnologia, além do que nem todos têm capacidade intelectual para se desenvolverem nestas áreas. O inchaço em áreas de atuação como Direito, Engenharia e Comunicação Social - para citar apenas algumas – é o resultado imediato deste endeusamento do diploma.
Não seria melhor, então, desafogar o mercado investindo em cursos técnicos? É o que fazem países como Finlândia, Alemanha, Coréia, Suíça e Estados Unidos onde a maioria dos jovens faz este tipo de opção ao invés do ensino superior. Respectivamente, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o percentual de jovens destes países optando pelos cursos técnicos é de 82%, 72%, 65%, 65% e 60%. No Brasil, apenas 9% dos jovens optam desta forma, até por que não haveria como absorver a demanda por simples ausência de escolas técnicas em número suficiente para isso.
Além disso, os países com boas escolas técnicas de nível superior são aqueles onde a população alcança os melhores índices de escolaridade. Numa comparação com 34 países, o Brasil é o que envia menos jovens às escolas técnicas - e também tem a população menos instruída. A média de anos de estudo da população (ainda segundo o OCDE) dos países citados anteriormente demonstra isso de forma clara: Finlândia (12,4 anos), Alemanha (13,4anos), Coréia (11,7 anos), Suíça (11,5 anos), Estados Unidos (12,7 anos), Brasil (6,1 anos).
Para finalizar e retomar o tema do meu bate-papo regado a chopp com amigos acadêmicos deixo a seguinte questão: ao invés de lutarmos por cotas para sanar séculos de exclusão social e racial – mas que levarão gente desqualificada ao ensino superior, projetando um País ainda mais atrasado científica e tecnologicamente e, em conseqüência, mais desigual – que tal brigarmos por políticas sérias de implementação de cursos técnicos - para abrigar quem não consegue chegar às universidades e formar gente qualificada – e por um ensino básico de verdade – o que permitiria, no futuro, que brancos, negros, índios, ricos, remediados e pobres disputassem os espaços de excelência de igual para igual?
Frases - XVIII
“Um político, por mais hábil que seja, sempre acaba cometendo alguma sinceridade.”
Josias de Souza
Josias de Souza
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Entrevista: Maria da Penha, imprensa e mulher
A biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, cuja luta deu origem à Lei Maria da Penha – sancionada pelo presidente Lula em 2006, esteve em Campo Grande (MS) no dia 27 de novembro participando do seminário “Maria da Penha: história de luta que inspirou a Lei”, promovido pela Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul. Após o evento, que reuniu cerca de 500 pessoas no plenário do legislativo estadual, pude fazer uma rápida entrevista com ela focando o papel da imprensa no combate à violência doméstica contra a mulher e sobre a forma como a tevê trata a figura feminina no Brasil.
Como a senhora analisa o papel da imprensa no combate à violência contra a mulher?
Acho que a imprensa é muito importante para levar informação para as mulheres que moram em lugares mais distantes, mulheres que não têm a felicidade de ter em sua cidade a implementação concreta da lei (Lei Maria da Penha). É importante para informar esta mulher, para levá-la a seu orientar, para saber sobre os seus direitos. Eu tenho falado muito pela Radiobras para o alto-amazonas.
A imprensa tem trabalhado esta questão de forma correta?
Eu tenho encontrado um apoio muito bom na imprensa, tanto na falada como na escrita. As revistas femininas têm me procurado. Estive, recentemente, em um encontro da Editora Abril, da revista Cláudia, falando sobre a Lei.
Uma análise do Instituto Patrícia Galvão concluiu que, embora a imprensa considere importante o tema da violência doméstica contra as mulheres, ela quer trabalhar com dados e estatísticas e dá preferência às fontes institucionais. Poucas reportagens usaram como fonte as PLPs (as promotoras legais populares) e mulheres em situação de violência. Isso afasta do noticiário a face mais humana deste problema, ou seja, as próprias mulheres?
Às vezes sim, mas depende do momento, dó veículo e de cada profissional. O fato é que existe uma preocupação da imprensa em divulgar o tema.
Durante o seminário “Democratizar a Comunicação para democratizar a vida social”, realizado em agosto, em Recife, as conclusões apontaram para a necessidade de as mulheres ocuparem ainda mais espaços de produção de conteúdo e representação na comunicação e também de ocupar espaços de tomada de decisão política neste setor. O que a senhora pensa disso?
Elas estão procurando estes espaços, assim como também estão fazendo isso na política. Mas, ainda é muito pouco em relação aos homens. Uma mulher que tem filhos pequenos e não tem com quem deixá-los, ela opta por se dedicar à família, deixando de fora a vida profissional, até a possibilidade de ela ser uma parlamentar, de atuar no movimento das mulheres. Nesta conjuntura a mulher ainda fica limitada.
Como a senhora analisa a abordagem da figura feminina na tevê?
Olha, em relação às novelas, inclusive esta que está passando agora (“A Favorita”, da Rede Globo), eu faço uma crítica, pois a violência doméstica, do homem contra a mulher, acontece daquela maneira, mas a resposta que a novela está dando não é aquela.
Como assim?
Deveriam mostrar que aquela mulher (a personagem Catarina, vivida pela atriz Lília Cabral) deveria procurar uma delegacia e garantir seus direitos. Mulher que sofre violência doméstica do jeito que aquela mulher sofre na novela tem que procurar seus direitos.
Como a senhora analisa o papel da imprensa no combate à violência contra a mulher?
Acho que a imprensa é muito importante para levar informação para as mulheres que moram em lugares mais distantes, mulheres que não têm a felicidade de ter em sua cidade a implementação concreta da lei (Lei Maria da Penha). É importante para informar esta mulher, para levá-la a seu orientar, para saber sobre os seus direitos. Eu tenho falado muito pela Radiobras para o alto-amazonas.
A imprensa tem trabalhado esta questão de forma correta?
Eu tenho encontrado um apoio muito bom na imprensa, tanto na falada como na escrita. As revistas femininas têm me procurado. Estive, recentemente, em um encontro da Editora Abril, da revista Cláudia, falando sobre a Lei.
Uma análise do Instituto Patrícia Galvão concluiu que, embora a imprensa considere importante o tema da violência doméstica contra as mulheres, ela quer trabalhar com dados e estatísticas e dá preferência às fontes institucionais. Poucas reportagens usaram como fonte as PLPs (as promotoras legais populares) e mulheres em situação de violência. Isso afasta do noticiário a face mais humana deste problema, ou seja, as próprias mulheres?
Às vezes sim, mas depende do momento, dó veículo e de cada profissional. O fato é que existe uma preocupação da imprensa em divulgar o tema.
Durante o seminário “Democratizar a Comunicação para democratizar a vida social”, realizado em agosto, em Recife, as conclusões apontaram para a necessidade de as mulheres ocuparem ainda mais espaços de produção de conteúdo e representação na comunicação e também de ocupar espaços de tomada de decisão política neste setor. O que a senhora pensa disso?
Elas estão procurando estes espaços, assim como também estão fazendo isso na política. Mas, ainda é muito pouco em relação aos homens. Uma mulher que tem filhos pequenos e não tem com quem deixá-los, ela opta por se dedicar à família, deixando de fora a vida profissional, até a possibilidade de ela ser uma parlamentar, de atuar no movimento das mulheres. Nesta conjuntura a mulher ainda fica limitada.
Como a senhora analisa a abordagem da figura feminina na tevê?
Olha, em relação às novelas, inclusive esta que está passando agora (“A Favorita”, da Rede Globo), eu faço uma crítica, pois a violência doméstica, do homem contra a mulher, acontece daquela maneira, mas a resposta que a novela está dando não é aquela.
Como assim?
Deveriam mostrar que aquela mulher (a personagem Catarina, vivida pela atriz Lília Cabral) deveria procurar uma delegacia e garantir seus direitos. Mulher que sofre violência doméstica do jeito que aquela mulher sofre na novela tem que procurar seus direitos.
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