Semana On

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Obama

Diego Viana diz que o dom da oratória é divino. Eu completo dizendo que o dom da escrita é tão divino quanto. Portanto, recomendo o artigo Blood, toil, tears and sweat, do Viana, publicado em seu blog, Para ler sem olhar, onde ele trata das eleições americanas e de Obama. O melhor texto sobre o tema que li até o momento.

Sob o olhar do marxismo

Muito interessante a entrevista com o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, publicada segunda-feira pela Agência Carta Maior. Bandeira faz uma análise da situação político-econômica mundial sob o ponto de vista do marxismo (do marxismo por quem sabe do que está falando).

Índio pode tudo?

Não tenho o hábito de concordar com as opiniões emitidas por Diogo Mainardi, mas um fato ocorrido ontem me fez lembrar seu artigo desta semana na revista Veja, intitulado “O brasileiro Obama”. Argumenta o articulista que a mídia norte-americana procurou abafar todos os fatos que pudessem criar problemas para o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos. Segundo Mainardi, “qualquer pergunta sobre Barack Obama foi caracterizada de racismo, ou de asneira, ou de caipirice”, pela imprensa daquele País.

Ocorre que tive ontem pela manhã um debate acalorado com uma colega jornalista (por quem tenho muito carinho e admiração profissional) cujos argumentos me lembraram um pouco os que Mainardi atribuiu à imprensa pró Obama: àquela tendência de tudo perdoar, de tudo aceitar e relevar por parte de quem defendemos, apoiamos ou dependemos.

Minha concordância com as teses de Mainardi termina aqui, nesta análise pinçada do artigo – cujo conteúdo (aviso aos mais afoitos) repudio. Mas, assim como ele atribuiu à imprensa norte-americana uma leniência para com Obama, da mesma forma setores de nossa imprensa são lenientes para com a questão indígena.

Explico a situação. Recentemente escrevi um artigo intitulado A coerção ao exercício do Jornalismo no MS (reproduzido ontem no Observatório da Imprensa). Nele, faço um apanhado dos casos de agressões e ameaças a jornalistas ocorridas em Mato Grosso do Sul nos últimos oito anos. Entre os casos citados no artigo está o da equipe da MS Record (composta pelo repórter Edson Godoy, pelo repórter cinematográfico Cleiton Bernardi e pelo auxiliar Erick Machado) que foi ameaçada por índios Terena e teve seu material de trabalho confiscado enquanto gravava uma reportagem sobre a ocupação indígena da fazenda Petrópolis (no município de Miranda), de propriedade do ex-governador do estado, Pedro Pedrossian.

Ocorre que minha colega sentiu-se indignada pelo fato de eu ter exposto a agressão e as ameaças cometidas pelos índios como se fossem da mesma categoria das agressões e ameaças cometidas por políticos, mandatários e demais “civilizados”. A argumentação foi de que “índio é diferente”, que “temos que relevar” e que “chegar de mansinho nas aldeias”. Indignada, ela questionava os motivos pelos qais eu havia incluído o fato entre a lista de agressões e ameaças que compunha o artigo.

Foi uma reação típica, fundada no modo como tratamos as populações indígenas no Brasil.

É fato que a política indigenista promovida pelo Governo Federal e pela Funai nas últimas décadas é perniciosa (em especial para os próprios índios). Excluindo as poucas tribos isoladas, com pouco ou nenhum contato com a cultura do homem branco, a maioria das populações indígenas do País está imersa em bolsões entranhados em meio à civilização. Estes índios há muito abandonaram seu modo de vida dependente da coleta e da caça. Vivem, isso sim, do paternalismo governamental, de sub-empregos nas cercanias das tribos ou da devastação de suas terras (basta perguntar quem está entre os maiores contrabandistas de madeira na Amazônia). São espectros vagando entre um passado de tradições e um presente pontilhado pela presença inexorável do homem branco.

Estas populações precisam, sim, ter sua cultura preservada e incentivada, mas isso só é possível com cidadania. Muitas tribos norte-americanas mantém suas tradições imersas na cultura branca e com isso ganham em educação, formação técnico-científica e cultural o que, por conseqüência, leva desenvolvimento e melhores condições de vida a estes mesmos povos.

A visão paternalista que temos sobre os povos indígenas, esta tendência de achar que tudo é permissível para o “bom selvagem”, apenas colabora para lançar estes povos no fosso da pobreza e da desagregação. É necessário repensar o tema. Para isso, no entanto, é preciso mexer em um vespeiro no qual poucos homens públicos (e jornalistas) querem colocar a mão.

Dez propostas de Michael Moore para Obama

Vitorioso Obama, Michael Moore tem algumas propostas a fazer.

1. Retorno do alistamento militar obrigatório. Alega que as guerras do Iraque e do Afeganistão teriam terminado há tempos, caso tivesse sido restaurado o alistamento obrigatório. A novidade é que se chamaria apenas a filhos dos 5% mais ricos do país. “Permitiríamos invadir um país que não representa nenhuma ameaça para nós, se nessa ação tivessem que morrer os filhos dos ricos?” Como eles gostam de seguir vivos, porque sua vida é boa. “Neste momento nosso exército conta com 1.372.905 soldados.” “Nos EUA há 1.305.675 jovens de famílias ricas em idade para alistar-se! Ou seja que só com os filhos dos ricos já teríamos umas forças armadas com praticamente o mesmo numero de efetivos atuais. Quem poderia estar mais motivado para ir ao Iraque e defender a pátria , senão essa mesma juventude que mais vai se beneficiar de toda a operação?”

2. Quem tente lucrar com a assistência de saúde será detido pelas forças da ordem. “Ir ao médico quando alguém está doente deveria ser um dos direitos humanos. É a nossa vida que está em jogo, da mesma forma que se nossa casa tivesse sido incendiada ou se fossemos vitimas de um delito. Da mesma forma que a proteção oferecida a qualquer cidadão pelos bombeiros e pela policia é completamente grátis e universal, a assistência de saúde deveria ser proporcionada GRATUITAMENTE PARA TODO MUNDO.” “...não será permitido que uma empresa obtenha lucros às custas da doença alheia”.

3. Proibir o xarope de milho com alto conteúdo de frutose. Para comercializar um excedente de produção de milho, Richard Nixon deu subsídios à produção de xarope de milho com alto conteúdo de frutose, altamente prejudiciais à saúde. Graças a ele os fabricantes de refrigerantes e de comida rápida puderam aumentar o dobro o tamanho do que produzem, multiplicando varias vezes a obesidade dos norte-americanos. “É o nosso napalm interno.”

4. Os norte-americanos não pagarão mais impostos que os franceses. “Teoricamente um casal de franceses com dois filhos paga em média 22% de seus rendimentos como imposto, enquanto que nos EUA um casal similar paga 19%, menos que os franceses.” Mas há uma enorme diferença entre o que têm direito uma família francesa e uma norte-americana. A francesa tem direito a:- assistência de saúde grátis;- creche infantil gratuita ou praticamente gratuita;- matrícula grátis no ensino universitário;- licenças maternidade com duração mínima de 4 meses, com salário integral;- férias obrigatórias de 30 dias, com salário integral;- licenças por doença sem limite de tempo com salário integral para todos os cidadãos.Nada disso tem os norte-americanos, que gastam muitas vezes mais para ter acesso ao que os franceses tem direito gratuitamente, pagando por tanto muito menos impostos que os norte-americano, pelo que recebem de retorno.

5. Proibir todas as publicidades nos cinemas. “Em 2007 as salas de cinema ganharam 217 milhões de dólares com publicidade, 15% a mais que no ano anterior.” “Mas por que reservar a publicidade para os minutos prévios à projeção de um filme? Que tal se colocamos um anuncio de Pepsi todos os dias antes de começar as sessões do Congresso? Não se poderiam exibir os spots de Viagra numa tela antes das sessões da Broadway? Ou passar, antes da missa e aproveitando que os fieis estão congregados, algum produto da marca Victoria´s Secret?”

6. Derrotar a Al Qaeda e a próxima geração de inimigos dos EUA na base de construir poços? Não haveria forma de evitar que algum maluco faça algum atentado. “Nestes momentos existem no mundo mais de um bilhão de pessoas sem acesso a água potável e dois bilhões vivem sem qualquer tipo de saneamento. Um terço da população do mundo! Estas duas tragédias são a primeira causa de doenças e de morte no Terceiro Mundo.” “...garantiremos que todos os cidadãos do mundo tenham acesso a água potável e saneamento básico até 2020.” Custará 10 dólares por pessoa nos EUA e se estará fazendo o bem para todos eles.

7. A partir de agora, quando alguém disque o numero de informação telefônica, será atendido por uma pessoa do seu próprio lugar.

8. Conseguir que o sistema de proteção social estadunidense seja solvente até o século XXII fazendo com que os ricos paguem os que lhes corresponde. “...os ricos e os quase ricos NÃO PAGAM UM CENTAVO PARA A SEGURIDADE SOCIAL POR NADA DA RENDA QUE SUPERE OS 102.000 DOLARES.” “Se todos os estadunidenses – também os ricos – tivessem que pagar ao nosso sistema de proteção social 6,2% dos seus rendimentos, HAVERIA DINHEIRO SUFICIENTE NA SEGURIDADE SOCIAL QUASE ATÉ O COMEÇO DO SÉCULO XXII!”

9. Atualizar o juramento da lealdade. Que o juramento de lealdade passe a ser: JURO LEALDADE AO POVO DOS ESTADOS UNIDOS E À REPUBLICA QUE REPRESENTAMOS, UMA NAÇÃO QUE É PARTE DO MUNDO E EM QUE REINAM A LIBERDADE E A JUSTIÇA PARA TODOS.

10. HBO grátis para todos! “A HBO demonstra que nos EUA ainda sabemos fazer bem algumas coisas.”

Do livro "O guia de Michael para presidente", no original. Mike for president!, na edição de Temas de Hoy, Buenos Aires, 2008

Obama lá


Se os EUA querem reconquistar o respeito dos outros povos do mundo, se querem resgatar a imagem do país que se deteriorou, devem se considerar como uma nação entre outras, e a eles igual, não como uma potência eleita para a missão de impor a ordem imperial e os interesses capitalistas no mundo. Devem dar espaço para que progrida o espaço de um mundo multipolar, em que todos os países participem das decisões fundamentais e tenham respeitadas suas autonomias.

Foto e texto da Agência Carta Maior

Frases - II

“Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo”
Voltaire (1694-1778)

Gotas poéticas - I

"o olhar de dentro não falava atento ao olhar que de fora parecia cheio de vento"
Pinçado de um poema de Alice Salles

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Poesia de Rafael Nolli

A um toque das mãos ter as pessoas,
poder ver na vida delas nossa vida continuada.
Pioneiras que antes de todos foram ao fundo
e dele regressaram com avisos, precauções.

A um toque das mãos ter as pessoas,
ser feliz com elas enquanto transitam –
estendendo a fronteira de nossa alegria
às ruas onde não eram aceitos os nossos passos.

A um toque, para o bem ou para o mal –
ter algo quebrado quando se embrutecem,
ser ferido quando se atracam,
quando se estilhaçam, ter algo partido.

A um toque das mãos ter as pessoas,
poder viver nelas o que não nos foi possível –
em seus pulmões o ar que nos foi recusado.
Seus sonhos e os nossos em uma mesma sala.

A um toque das mãos ter as pessoas,
ver nossa vida em suas vidas continuada.

Belíssimo poema de L. Rafael Nolli

Artigo no OI

Meu artigo A coerção ao exercício do Jornalismo no MS foi publicado nesta terça-feira no Observatório da Imprensa. Quem não opinou aqui pode fazê-lo por lá.

Encontro libertário em Fortaleza

De 08 a 11 de dezembro, a Organização Resistência Libertária (ORL) estará realizando em Fortaleza o I Encontro Libertário: Anarquismo e Movimentos Sociais. O Encontro contará com a participação de militantes de organizações políticas anarquistas de várias cidades do país, militantes de movimentos sociais, pesquisadores e simpatizantes. Veja mais no Blog do evento.