Semana On

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Para desanuviar

Clara Nunnes - Conto de Areia

Colégio Militar: fábrica de ditadores?

Há coisas no Brasil que ficam escondidas debaixo do tapete sem que a sociedade tenha conhecimento. Assuntos de âmbito das forças armadas, por exemplo, estão sempre cobertos por uma manta invisível, através da qual não se pode enxergar muito bem. São detalhes de uma leitura social do Brasil que relegam os militares ao nível das sociedades secretas embaraçadas na teia social fomentando valores e verdades esquecidas no tempo.

Conversando neste final de semana com um rapaz, ex-aluno do Colégio Militar de Campo Grande (MS), fiquei sabendo – sim, para mim foi novidade – que os professores desta instituição referem-se ao Golpe de 64 como Revolução Democrática e que a simples menção à palavra ditadura causa reações adversas ao aparelho digestivo destes mestres.

É claro, não esperava que uma instituição como o Colégio Militar abordasse o tema sob o ponto de vista da esquerda de antanho, mas, dada a excelência que se atribui ao ensino oferecido nos Colégios Militares, imaginei em minha inocência que hoje em dia o tema fosse abordado com isenção nestes estabelecimentos.

Afinal, faz parte da “missão” do Colégio Militar (segundo os seus sites) “Desenvolver no aluno a visão crítica dos fenômenos políticos, econômicos, históricos, sociais e científico-tecnológicos, objetivando-os, pois, a aprender para a vida e não mais, simplesmente, para fazer provas”.

Ao que parece esta atribuição é só para “inglês ver”. Pergunto: que tipo de cidadão está sendo formado nos Colégios Militares? É de dar medo.

Victor Barone

Comércio x Informação

Muito interessante a avaliação do Alberto Dines em comentário sobre o noticiário dos três maiores jornais do Brasil no domingo. O comentário, publicado no Observatório de Imprensa nesta segunda aponta a força da comercialização em detrimento da informação no jornalismo. Vale conferir.

domingo, 12 de outubro de 2008

A melhor análise sobre a crise

The Last Laugh - Crisis Subprime - Subtitulos Castellano

O jornalismo e a ética do marceneiro

Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria. Gosto de fazer móveis, cadeiras, e minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista – não tenho duas. Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão. Suponho que não se vai esperar que, pelo fato de ser jornalista, o sujeito possa bater carteira e não ir para a cadeia.

Onde entra a ética? O que o jornalista não deve fazer que o cidadão comum não deva fazer? O cidadão não pode trair a palavra dada, não pode abusar da confiança do outro, não pode mentir. No jornalismo, o limite entre o profissional como cidadão e como trabalhador é o mesmo que existe em qualquer outras profissão. É preciso ter opinião para poder fazer opções e olhar o mundo da maneira que escolhemos. Se nos eximimos disso, perdemos o senso crítico para julgar qualquer outra coisa. O jornalista não tem ética própria. Isso é um mito. A ética do jornalista é a ética do cidadão. O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista.

Evidentemente, a empresa tem a sua ética, que é a dos donos. Pode variar de jornal para jornal, mas o que os jornalistas deveriam exigir seria um tratamento mais ético da empresa em relação a eles e seus colegas. Isso não tem acontecido. É preciso uma atitude muito ética dentro da redação: os chefes e os responsáveis pelo jornal têm de dar o exemplo ao pessoal mais novo, senão é o caos. Um chefe de redação que tolera hipocrisia e golpes baixos contra funcionários do jornal perde a ética e o direito de usar essa palavra.

A resolução da questão ética depende também do que o jornalista considera como seu dever de cidadão. Caso ele saiba de algo que põe em perigo a pátria, que põe em perigo o povo brasileiro, o dever de cidadão deve se refletir na profissão. O limite do jornalista é esse, ou seja, o limite do cidadão. Se um médico souber que estão preparando um golpe de Estado, ele tem obrigação de contar, se for contra. Se for a favor, ele não tem obrigação. A ética do jornalista, portanto, é um mito que precisa ser desfeito.

O jornalista não pode ser despido de opinião política. A posição que considera o jornalista um ser separado da humanidade é uma bobagem. A própria objetividade é mal-administrada, porque se mistura com a necessidade de não se envolver, o que cria uma contradição na própria formulação política do trabalho jornalístico. Deve-se, sim, ter opinião, saber onde ela começa e onde acaba, saber onde ela interfere nas coisas ou não. É preciso ter consciência. O que se procura, hoje, é exatamente tirar a consciência do jornalista. O jornalista não deve ser ingênuo, deve ser cético. Ele não pode ser impiedoso com as coisas sem um critério ético. Nós não temos licença especial, dada por um xerife sobrenatural, para fazer o que quisermos.

Por Cláudio Abramo (do livro “Regra do Jogo – o jornalismo e a ética do marceneiro”)

sábado, 11 de outubro de 2008

Ética... onde?

Afinal, de que ética estamos falando pelos cotovelos?
A ética do jornalista?
A ética do jornal? A ética do jornalismo?
A ética do jornalismo é ascética e meridiana: a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade.
A ética do jornalista é a ética da consciência.
A ética do jornal é a ética da conveniência.

Joelmir Beting (em 2003 e ainda atual)

Por trás da censura na mídia

"O Project Censored é uma das organizações que devemos ouvir para nos assegurarmos de que nossa imprensa está praticando um jornalism aprofundado e ético” — Walter Cronkite

Fundado em 1976 por Carl Jensen, o Project Censored é um programa de pesquisa que atua em colaboração com numerosos grupos de mídia independente nos Estados Unidos, focando a mídia norte-americana com o intuito de selecionar notícias ignoradas, deturpadas ou censuradas pela imprensa deste país. A cada ano (sempre em setembro), como resultado destas pesquisas, o projeto publica o ranking das 25 mais importantes notícias censuradas nacionalmente.

O trabalho do grupo é examinar a cobertura de notícias e informações importantes para a manutenção de uma democracia saudável e funcional. Fazem, ainda, questão de definir o que classificam como Censura Moderna: “a sutil, porém constante e sofisticada manipulação da realidade nos veículos de comunicação de massa por meio de pressão política (de oficiais governamentais ou indivíduos poderosos), pressão econômica (de anunciantes) e pressão legal (ameaça de advogados que estão no bolso de indivíduos, corporações ou instituições)”.

Ligado a Sonoma State University, o projeto reúne pesquisadores, professores e acadêmicos de diversas áreas e conta com a participação de profissionais de renome como Noam Chomsky, Susan Faludi, George Gerbner, Sut Jhally, Frances Moore Lappe, Michael Parenti, Herbert I. Schiller, Barbara Seaman, Erna Smith, Mike Wallace e Howard Zinn.

Em 2008, a notícia que ocupou o primeiro lugar no ranking do Project Censored foi a Military Commissions Act (MCA), assinada pelo presidente Bush em 17 de outubro de 2006 – como resultado da chamada guerra contra o terror - impondo a lei marcial para cidadãos americanos e estrangeiros, sem direito a hábeas corpus.

Diz a reportagem intitulada No Habeas Corpus for “Any Person”: “Apesar de a mídia, incluindo o editorial de 19 de outubro do New York Times, ter dado o falso conforto de que nós, cidadãos americanos, não seriamos vítimas das medidas draconianas legalizadas por este Ato – como julgamentos militares e prisões perpétuas sem direitos ou proteções constitucionais - Robert Parry aponta trechos do texto do MCA que revelam a instituição de uma alternativa militar ao sistema de justiça constitucional para qualquer pessoa independente da cidadania americana.”.

A reportagem vai além e lembra que “o mais antigo direito humano definido na história dos povos quer compartilham o idioma inglês é o direito a desafiar o poder governamental de prender e deter através do uso das leis de hábeas corpus, considerada a mais importante parte da Carta Magna assinada pelo Rei Joihn em 1215”.

Iraque – O assunto selecionado para 2009 pelo Project Censored como o mais importante entre as reportagens censuradas na América do Norte é o número excessivo de vítimas civis na Guerra do Iraque. A reportagem sustenta que mais de um milhão de civis iraquianos já foram mortos por tropas americanas ou aliadas desde 2003.

Diz o lead da matéria: “Mais de um milhão de iraquianos foram vítimas de mortes violentas em resultado da invasão de 2003, de acordo com estudo conduzido pelo importante instituto de pesquisa britânico Opinion Research Business (ORB). Estes números sugerem que a invasão e ocupação do Iraque rivaliza com as granes matanças do último século – as perdas humanas ultrapassam as 800 a 900 mil pessoas que se crê terem sido assassinadas no genocídio de Ruanda, em 1994, e se aproxima das 1,7 milhões de mortes ocorridas nos infames Campos da Morte do Camboja durante a era do Kmer Vermelho, na década de 70”.

Victor Barone

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Globalizados


Incrível a imagem publicada pelo The Sun e reproduzida no blog do jornalista Fernando Moreira. Vale a pena checar a reportagem que aborda a inserção de mendigos ingleses ao mundo mágico da internet.

A boca voraz

De volta ao mundo virtual, Mino Carta nos alerta para a bocarra escancarada dos computadores nas redações: “Muita gente já foi engolida por esta máquina...”, avisa, diante de sua Olivetti. Vale a pena ver e ouvir.

Acidez

Eis que caí em mim
E me vi raso, seco
Ácido

Eu que sempre
Olhei espelhos
Pra te ver assim
Voante

Que sempre
Atravanquei estantes
Com livros raros
E flores de papel

Eu que sempre
Cantei mentiras
Pra me ter assim
Errante

Que sempre
Entulhei minha alma
De promessas
E revoluções

Agora que caio em mim
Me vejo assim
Raso
Seco
Ácido

VB