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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A ditadura da fé e da ausência de razão contra a orientação sexual

O preconceito é uma doença silenciosa. Ele se instala nas mentes, nas consciências e lá se agarra com unhas e dentes contaminando convicções. Em poucas questões este vírus tem se mostrado mais resistente que na questão da homossexualidade. Assim como um vírus se manifesta em qualidades diversas, determinando os sintomas da doença, o preconceito de sexualidade também possui facetas diversas, todas elas malignas e fatais ao desenvolvimento de sociedades livres e fraternas.

Uma das formas pela qual esta doença da alma se manifesta é através da classificação da homossexualidade como algo “anormal”. Este é o caminho escolhido por uma miríade de pessoas que não consegue enxergar a diversidade como algo pertinente ao ser humano. Sua base argumentativa trafega pela religiosidade ou pelo que classificam como comportamento natural. Ambas as bases carecem de estrutura argumentativa coerente.

Na religiosidade, parte-se do pressuposto de que existe uma verdade moral absoluta ligada ao comportamento sexual, sem a qual os seres humanos estariam desviados “do caminho”. Estas verdades estão baseadas na fé e não em conceitos científicos. Fé é um caminho pessoal. A minha, serve para mim. A sua, para você. Não cabe ao homem impor sua crença aos demais, visto que ele não detém a verdade absoluta, mas a sua própria verdade, embasada por sua própria fé.

O desprezo desta linha de raciocínio levou a humanidade a todo tipo de desumanidade. A noção de que uma determinada fé – e os conceitos que se julgam pertinentes a ela – deva prevalecer sobre a vontade dos homens causou, entre muitos outros desatinos, as cruzadas, a inquisição e a jihad islâmica.

Há uma diferença fundamental entre - fiel a minha própria fé - fazer a opção pessoal de não aceitar a homossexualidade e o extremo de tentar impor este conceito aos demais.

Argumentar que homossexuais são seres humanos desviados, odiados por Deus, negar a eles direitos civis básicos como o casamento e a partilha de bens tendo como argumento a fé é reforçar o comportamento totalitarista que ciclicamente acompanha as manifestações religiosas. É endossar a ditadura da fé.

Manifestações deste medievalismo não são raras. Embalada por leituras equivocadas dos livros sagrados, ou guiada cegamente por eles, muita gente tem trabalhado para colocar os homossexuais no que consideram ser seu devido lugar, ou seja, o porão, bem escondidos dos olhos da sociedade.

E aqui vou citar observações de duas pessoas que tem feito a diferença nesta Babel que é a internet, quando o assunto é a defesa dos direitos civis diante do assalto da fé: Daniel Lopes (Amálgama) e Lelec (A Terceira Margem do Sena). O que aconteceria se baseássemos nossas leis na Bíblia?

Além apedrejar pessoas até a morte por exercer sua homossexualidade, heresia, adultério, por trabalhar no sábado, adorar imagens, praticar feitiçaria e mais uma ampla variedade de crimes imaginários (Sam Harris, “Carta a uma Nação Cristã”, Cia das Letras, pág. 25), deveríamos, também, bater em nossos filhos com uma vara (Provérbios 13,24; 20,30; e 23, 13 e 14) sempre que eles saíssem da linha, matá-los (Êxodo 21, 15, Levítico 20, 9, Deuteronômio 21, 18-21, Marcos 7, 9-13, Mateus 15, 4-7) quando tivessem a pouca vergonha de nos responder com insolência, reunir escravos (Levítico 25, 44-46), mas não agredi-los tão severamente a ponto de ferir seus olhos ou seus dentes (Êxodo 21, 26-27). Teríamos que aceitar o Pai que lança doenças mortais (II Samuel 24:15), o Iaveh que escolhe e sustenta tiranos (Romanos 13:1), dar loas ao incentivador de genocídios (Deuteronômio 7: 1-5) e até louvar quem consente que duas ursas matem 42 crianças por chamarem de careca um de Seus profetas (II Reis 2: 23-25).

NATURAL OU NÃO?

Assim como a fé é base para o preconceito na questão da sexualidade, a noção do que é ou não “biologicamente normal” ou “socialmente aceitável” também serve de munição para quem não aceita a miríade de opções sexuais que são inerentes ao ser humano, para quem teme a diversidade. Foi com base nesta noção, que Hitler condenou a morte milhões de judeus, doentes mentais, ciganos, comunistas e homossexuais.

Nos últimos dias, no Twitter, me vi em um debate sobre este tema com @joaocampos_ms. Ele defendia o direito de opção sexual, mas condenava a sua exposição pública por meio de eventos como passeatas gays. Disse ele “No caso dos homossexuais, a rejeição baseia-se em ser natural ou não. Aceitação, idem. É natural ou não.”. Reforçando o conceito, @GeraldoMTomas disse o seguinte: “E acho também que, se não banirmos tais pudores (do debate), um dia ensinarão nas escolas que homosexualismo é correto” e arrematou “Claro...não estamos tratando de coisa natural, tipo cor, raça, beleza, nem de matéria religiosa...portanto.

A primeira vista estas manifestações podem passar despercebidas. No entanto, são construídas sobre o que há de pior no pensamento da intolerância sexual. Classificar a orientação sexual como algo “anormal” é afrontar a ciência.

Esse tipo de argumento – de que o sexo com indivíduos do mesmo gênero não é natural –, muito usado no século 19, é recorrente até os dias de hoje e permeia o debate do tema em vários países. As observações científicas, no entanto, demonstram que o argumento não tem base, já que são vários os exemplos de animais que mantêm relações sexuais e até mesmo de parceria com indivíduos do mesmo gênero.

Os biólogos Nathan Bailey e Marlene Zuk, da Universidade da Califórnia em Riverside, publicaram no mês passado um estudo que é uma revisão de várias outras pesquisas sobre o tema. O trabalho, publicado no periódico Trends in Ecology and Evolution (Tendências em Ecologias e Evolução), reforça que o sexo homossexual é muito comum no mundo animal e é motivado por diferentes razões, como a falta de um parceiro do outro sexo, a necessidade de formar alianças, praticar e reforçar a hierarquia, por engano e até para criar um filhote. Ou seja, natural entre os animais, nada impede que o mesmo comportamento se repita entre nós, seres-humanos.

Da mesma forma, classificar o comportamento homossexual como um desvio de conduta moral ou psicológico é, também, uma postura condenada pela ciência séria. Um caso recente, o da psicóloga Rozângela Alves Justino, que prometia “curar” homossexuais em sua clínica, é emblemático.

Ao comemorar – no dia 22 de março - os dez anos da resolução que orientou os psicólogos brasileiros a adotarem posturas que contribuam para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual, o presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Humberto Cota Verona, disse que “a resolução proíbe o psicólogo de tratar a escolha homoafetiva como um problema de saúde e muito menos oferecer tratamento e cura para isso”. Para Verona, o papel dos psicólogos não é o de reprimir esta opção, mas de fazer com que os homossexuais enfrentem o preconceito. “A psicologia tem ajudado essas pessoas a encarar esse sofrimento, a aprender a lidar com esse enfrentamento social da sua escolha.”.

O psicólogo Claudecy de Souza lembra que, sob o ponto de vista legal, a homossexualidade também não é classificada como doença no Brasil. “Sendo assim, os psicólogos não devem colaborar com eventos e serviços que se proponham ao tratamento e cura de homossexuais, nem tentar encaminhá-los para outros tratamentos. Quando procurados por homossexuais ou seus responsáveis para tratamento, os psicólogos não devem recusar o atendimento, mas sim aproveitar o momento para esclarecer que não se trata de doença, muito menos de desordem mental, motivo pelo qual não podem propor métodos de cura.”.

Souza reafirma o entendimento da Psicologia moderna, segundo o qual a homossexualidade é um estado psíquico. “O indivíduo homossexual não faz opção por ser homossexual. Ele apenas é e não pode, ainda que queira, mudar isso. Ele pode sim, fazer uma opção no sentido de negar esse impulso e tentar viver como heterossexual. Mas isso tem um impacto negativo para o pleno desenvolvimento emocional do indivíduo. Trata-se de uma situação muito mais comum do que se imagina. O impulso sexual que um heterossexual tem por sua parceira é o mesmo que um homossexual tem por seu parceiro do mesmo sexo. O que muda é o objeto.”, explica.

Em dezembro de 1973, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) aprovou a retirada da homossexualidade da lista de transtornos mentais, deixando de considerá-la uma doença. Em 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) retirou a homossexualidade da condição de desvio sexual. Nos anos 90, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), onde são identificados por códigos todos os distúrbios mentais - e que serve de orientador para classe médica, principalmente para os psiquiatras - também retirou a homossexualidade da condição de distúrbio mental. Em 1993, a Organização Mundial de Saúde (OMS) deixou de utilizar o termo "homossexualismo" (que da idéia de doença), adotando o termo homossexualidade. Em 22 de março de 1999 o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou nacionalmente uma resolução estabelecendo normas para que os psicólogos brasileiros contribuam, através de sua prática profissional, para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual.

ESTRATÉGIA PRECONCEITUOSA

De fato, seja com base na fé ou no conceito de normalidade, o que se pretende ao questionar a homossexualidade é condená-la aos subterrâneos. Na melhor das hipóteses querem dizer que não importa se alguém opte pela condição homossexual, desde que isso não seja claro, desde que seja entre quatro paredes, às escondidas. É como se pregassem uma burca para os gays, de modo a que este comportamento, que lhes agride de forma tão impactante, não pudesse ser exercido de forma livre.

Recentemente publiquei no Amálgama o artigo “As três faces obscuras do regime de Mahmoud Ahmadinejad”, versando, entre outras coisas, sobre o preconceito exercido no Irã contra os gays. O texto recebeu mais de 100 comentários, alguns de fortíssimo caráter homofóbico. Há os fanáticos religiosos – como a turma da União de Blogueiros Evangélicos – que tem feito barulho contra o PLC 122/06, que torna crime a discriminação contra idosos, deficientes e homossexuais, e há também os que simplesmente não querem ter o desprazer de conviver com a igualdade de direitos na sexualidade. Ambos apelam para a falácia segundo a qual sua postura homofóbica não agride direitos básicos de milhares de pessoas. As vítimas são eles mesmos, os preconceituosos, obrigados a conviver com a homossexualidade.

Ora, este é um argumento rasteiro, beira a ignorância. Um casal gay que se beija em praça pública está exercendo um direito pessoal e irrevogável de exprimir sua sexualidade da mesma forma que a exprime um casal heterossexual. Se este beijo incomoda alguém, este alguém pode simplesmente ignorar o casal ou, se o choque for demasiado, afastar-se. O que não pode é exigir que o casal gay seja proibido de exercer sua liberdade da mesma forma que um casal hetero a exerceria. Não se pode legitimar a coerção física ou moral sobre a cidadania com base em conceitos de cunho religioso ou pessoal.

Leia mais sobre este tema:

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

As três faces obscuras do regime de Mahmoud Ahmadinejad

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, chega ao Brasil nesta segunda-feira para uma visita oficial de um dia. Além de encontros com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os presidentes do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), Ahmadinejad virá acompanhado de 200 empresários. Mas não é o roteiro de Ahmadinejad que chama a atenção. O que tem eriçado a opinião pública são as políticas adotadas pelo presidente iraniano. Ahmadinejad executa homossexuais, frauda eleições, tortura opositores políticos, sustenta economicamente países falidos como Cuba e Nicarágua, para transformá-los em massa de manobra geopolítica. Ahmadinejad preside um país onde os direitos humanos não são respeitados, onde minorias religiosas e as mulheres são discriminadas.

De todas as questões que podem ser levantadas contra o regime de Ahmadinejad, entre elas o desenvolvimento de armas nucleares e a negação do holocausto judeu, três são irrefutáveis e odiosas: a perseguição aos homossexuais, a discriminação das mulheres e o cerceamento da liberdade de expressão e de pensamento.

Na entrevista concedida ao jornalista William Waack, quando indagado sobre suas declarações contra homossexuais, Ahmadinejad sorriu e disparou a seguinte insanidade: “Eu não espero que todas as pessoas do mundo concordem com minhas opiniões. As pessoas têm visões diferentes. Mas pensamos que homossexualidade é contra a natureza. Penso que se a homossexualidade se expandir a humanidade vai deixar de existir. É o caminho errado. É perverso. Todas as profecias divinas condenam esse caminho. Isso vai causar uma série de doenças físicas e sociais.

Não foi a primeira vez que o presidente do Irã expôs de forma tão clara sua posição totalitarista. Em 2007, durante um evento na Universidade Columbia, em Nova York, ele já havia desafiado a lógica ao dizer que não existem homossexuais no Irã. “Nós não temos isto em nosso país. No Irã, nós não temos homossexuais como no seu país (os EUA).

Em entrevista à BBC Brasil, pouco depois das declarações de Ahmadinejad em Columbia, o ativista Arsham Parsi, diretor executivo da IRQO (Iranian Queer Organization), uma organização iraniana que luta pelos direitos dos homossexuais, disse que os gays do Irã vivem sob constante ameaça não apenas da polícia e do governo, como também da sociedade: “A vida para um gay iraniano é muito dura, por falta de informação sobre o assunto e falta de segurança também. Ele tem que usar uma máscara 24 horas por dia. Você não pode ser jovem e gay no Irã.

Vivendo atualmente no Canadá, Parsi fugiu do Irã em 2005 quando descobriu que a polícia pretendia prendê-lo por suas atividades em devesa dos homossexuais: “Comecei a organização no Irã através de uma rede de e-mails. Ela foi crescendo e em 2005 recebi ameaças por ser ativista. Eu trabalhava em casa, tinha meu telefone divulgado, e a polícia havia me rastreado. Quando descobri, deixei o Irã em dois dias, e nunca mais voltei.

Segundo Parsi, de acordo com a sharia (conjunto de leis e regras de comportamento prescritas para os muçulmanos), os homossexuais podem ser perseguidos e condenados à morte por apedrejamento, forca, corte por espada ou sendo jogados do alto de um penhasco. Um juiz da corte islâmica decide como ele deve ser morto. “É impossível saber os números de execuções por homossexualidade, porque eles não são divulgados pelo Ministério da Justiça.

A QUESTÃO FEMININA

A questão feminina no Irã é outro ponto importante quando analisamos o regime representando por Ahmadinejad. Poucas são as mulheres iranianas que ousam desafiar as leis impostas desde a Revolução Islâmica. Algumas, no entanto, levantaram sua voz, como Azar Nafisi. Professora de literatura inglesa na Universidade Johns Hopkins, em Washington, ela é autora do livro Lendo Lolita em Teerã, um retrato sensível e chocante da situação das mulheres no Irã no início do século 21, que relata a experiência de Nafisi e de sete alunas da época em que ela lecionava na Universidade de Teerã. Por dois anos elas desafiaram a repressão do regime em encontros semanais onde discutiam autores proibidos no país, como Henry James e Vladimir Nabokov.

Os relatos de Nasifi sobre as condições do Irã logo após a revolução são um retrato melhorado do que ocorreu em outros países nos quais o fundamentalismo islâmico assumiu o poder, como o Afeganistão, onde um grupelho transformou em lei uma versão tacanha da sharia.

"A idade mínima para o casamento passou de 18 para 9 anos. O apedrejamento até a morte se tornou o castigo para o adultério e a prostituição. Nos ônibus, adotou-se a segregação. Destinaram-se às mulheres a porta traseira e os assentos no fundo do veículo… Um vestígio de maquiagem, uma mecha de cabelo para fora do véu e eles vinham, implacáveis. Prendiam-nos, arremessavam-nos para dentro de carros, deixavam-nos em prisões imundas, chicoteavam-nos. Por fim, jogavam-nos nas ruas. A situação era pior para as solteiras. Muitas de minhas alunas tiveram de passar por coisa pior, como o teste de virgindade. Não havia nada mais humilhante e nojento do que aquilo, feito em qualquer lugar, sem nenhuma assepsia, a qualquer hora. Quantas jovens não foram presas e chicoteadas só porque, sem querer, cruzaram o olhar com o de um guarda?"

A situação iraniana hoje é menos sufocante, as mulheres podem se dar ao luxo de usar véus coloridos e batom – mas as leis discriminatórias continuam as mesmas. Uma mulher vale a metade de um homem em depoimentos no tribunal e em casos de indenização. Na divisão da herança, uma filha pode levar apenas metade da quantia recebida por seus irmãos. Uma menina pode ser forçada a se casar a partir dos 13 anos, e seu marido pode proibi-la de trabalhar fora de casa ou estudar quando quiser. Para viajar ao exterior, é necessária uma permissão por escrito do marido. Caso se divorciem, ele ganha a custódia dos filhos com mais de 7 anos. Elas são proibidas de ser magistradas e não ocupam o posto de ministra há três décadas.

REPRESSÃO

O ex-vice-presidente reformista do Irã, Mohammad Ali Abtahi, acusado de fomentar protestos de rua após a eleição presidencial de junho, foi solto ontem (domingo, 22) depois do pagamento de uma fiança de 700 mil dólares. Ele havia sido condenado a seis anos de prisão. O Judiciário do Irã disse na semana passada que cinco pessoas foram condenadas à pena de morte e 81 à permanência de até 15 anos na prisão devido aos protestos e atos violentos após as eleições.

Esta é uma faceta macabra do regime iraniano, a total ausência de liberdade de exprimir convicções. Teerã não tolera a diferença. Durante os protestos de junho, o Twitter foi uma importante ferramenta de interação e de manifestação política, sustentando os opositores de Mahmoud Ahmadinejad, driblando a censura e levando ao mundo imagens da repressão.

Incapaz de conter as manifestações em massa da oposição, o governo iraniano ampliou o cerco à veiculação dos protestos. A Guarda Revolucionária emitiu um alerta a blogueiros e usuários de outras ferramentas de mídia online exigindo que todo conteúdo que “crie tensão” fosse eliminado de suas páginas na Internet. O ambiente virtual foi o refúgio das centenas de milhares de opositores diante da expulsão dos jornalistas estrangeiros e do silêncio da mídia estatal sobre a crise política no país.

Leia mais sobre este tema:

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Política em 140 caracteres

O Twitter tem se configurado como uma importante ferramenta de interação e de manifestação política. No Irã, em junho, a plataforma sustentou os opositores do presidente Mahmoud Ahmadinejad, driblando a censura e levando ao mundo imagens da repressão. No Brasil, um movimento pela renúncia do presidente do Senado, José Sarney ganhou espaço a partir da tag #forasarney. Grupos sociais dos mais diversos matizes têm usado o microblog para divulgar suas idéias, angariar aliados, debater suas propostas. Trata-se de uma ágora virtual que, em meio à babel de mensagens em 140 caracteres, possibilita que “cada um seja o seu próprio Roberto Marinho”, conforme definiu o jornalista/blogueiro Marcelo Tas recentemente, durante o Seminário INFO – Twitter, Orkut e Flickr.

Um estudo da agência americana Interpret - citado em reportagem do Wall Street Journal – revela que os usuários do Twitter são mais receptivos a publicidade que os integrantes de outras redes sociais. Segundo o levantamento, os tuiteiros fazem mais resenhas, dão mais notas a produtos através da internet (24% contra 12% dos usuários de outras redes sociais), visitam mais perfis online de empresas (20% contra 11%) e clicam em mais anúncios ou patrocínios (20% contra 9%). Uma mina de ouro para quem quer promover um produto, ou a si mesmo.

O resultado é que esta imensa rede, na qual multidões circulam diariamente, tem atraído a atenção de políticos e instituições governamentais. Vereadores, deputados estaduais e federais, senadores e governadores aderiram ao microblog, ao lado de uma miríade de pré-candidatos às eleições de 2010. A maioria ainda não entendeu a vocação e o potencial das mídias sociais, mas os que compreenderem os seus meandros poderão obter vantagens ao estreitarem de forma transparente as suas relações com a população.

O Governo do Estado de São Paulo, por exemplo, deu um importante passo ao liberar o uso de redes sociais pelos servidores e ao possibilitar a criação de perfis das secretarias no Twitter - seu perfil principal, o @governosp, já acumulou mais de 10 mil seguidores. O grande incentivador do uso da ferramenta é o próprio governador José Serra. Ele alimenta diariamente sua página que tem mais de 108 mil seguidores. Uma característica do perfil do governador é a informalidade: uma das condições para que um político obtenha bons resultados com a ferramenta.

Para Bruno Caetano, secretário da Comunicação do Governo de SP, “o uso do Twitter encurtou a distância entre o governo e as pessoas”. Para ele, “agora é mais simples interagir, dizer o que não está sendo feito ou até alertar sobre algo que deveria estar funcionando e não está”.

Um exemplo dessa aproximação está no perfil da Secretaria de Agricultura. O objetivo é atingir quem está dentro e fora da internet. “Muitos dos nossos seguidores são estudantes de agronomia. Eles levam para os pais, que muitas vezes são agricultores, as dicas que damos no perfil”, afirma Vinícius Dias, responsável por gerenciar os perfis de mídias sociais da secretaria. No Twitter há links para o perfil do Flickr, que exibe espécies de peixes com descrições científicas, e do Youtube, com vídeos com explicações práticas de como plantar mudas, por exemplo.

O governo paulista ainda está aprendendo a se relacionar de uma maneira mais interativa com os cidadãos, diz Roberto Agune, coordenador de inovação do Governo José Serra. “A idéia é criar um espaço para o cidadão comunicar do ponto de vista dele como estão os resultados dos nossos serviços. É preciso estar inserido onde a população se relaciona. Desde janeiro, 23 órgãos do governo de São Paulo criaram seus blogs. Trata-se de uma mudança cultural que surge com estas novas ferramentas, novas formas de falar com a população e ouvi-la”.

Para Agune, a presença do governo nas redes sociais é um caminho sem volta: “Se você não está presente, outros farão isso por você”, afirma e vai além: “Ou o governo entra e usa estas linguagens ou se afasta da sociedade. Temos que usar estas ferramentas para nos aproximarmos do cidadão e para ouvi-lo. Isso é importante”.

Outro exemplo é o Governo da Bahia, que inaugurou sua conta no Twitter em maio do ano passado divulgando notícias sobre o Estado. De acordo com a assessoria de imprensa do Estado, o profile passou por uma fase de testes e só começou mesmo a ser divulgado a partir de dezembro de 2008. Hoje, conta com mais de 10 mil seguidores.

A Prefeitura Municipal de Campo Grande (MS) também está prestes a adentrar o espaço virtual com um perfil no Twitter. O prefeito da cidade, Nelson Trad Filho (PMDB-MS), já tem o seu. Com cerca de 1800 seguidores, Trad Filho recebe elogios e sugestões e responde - via assessoria - críticas, sugestões e reclamações de seus munícipes. De olho no perfil, a assessoria – que auxilia o prefeito no microblog - identifica as dúvidas e reclamações dos followers, encaminha para as secretarias responsáveis – ou para o próprio prefeito quando necessário – e responde o mais rápido possível. “Isso cria um vínculo entre a administração pública e a população plugada. É importante na medida em que o internauta sente que não está falando para o vazio”, explica o coordenador de comunicação da Prefeitura de Campo Grande, Ico Victorio.

O deputado estadual Paulo Duarte (PT-MS) também aposta na interatividade. Usuário contumaz do Twitter, vai se reunir na próxima terça-feira, 13, com um grupo de seguidores para debater um projeto de sua autoria que prevê a proibição do uso de sacolas plásticas no estado: “Em função das manifestações dos tuiteiros, quero ouvir suas sugestões sobre o projeto. Quero mais ouvir do que falar”, disse Duarte, para quem o microblog é uma ferramenta que possibilita às pessoas “opinar sobre assuntos que dizem respeito diretamente às suas vidas”.

Talvez esteja aí, na interação com a população, o grande segredo das mídias sociais para políticos. Mas, é preciso muito mais que informalidade para criar uma relação de confiança entre um político e a população via Twitter. Mais importante é a transparência. Marcelo Tas diz que o Twitter é uma “ferramenta de ouvir”. Correto.

Tiago Cordeiro, analista de mídias sociais da consultoria Pólvora, aposta nisso: "Há muitos políticos que usam o Twitter como megafone, como se fossem celebridades, querendo contar o que quiserem. Mas ele funciona melhor, sim, como uma espécie de telefone, que te permite conversar e trocar idéias e não apenas ficar recebendo conteúdo que você muitas vezes não vai nem ler direito. O político que esperar até 2010 para abrir seu Twitter já terá perdido espaço”, afirma.

Eles descobriram a mina

Um bom exemplo de uso do Twitter por político foi dado pelo senador Delcídio do Amaral (PT-MS) – cujo perfil acumula mais de cinco mil seguidores. Em maio, durante viagem inaugural do Trem do Pantanal, o senador usou o próprio celular para contar o que acontecia no vagão das autoridades, fechado à imprensa, onde viajava o presidente Lula. As mensagens acabaram divulgadas em blogs e sites do estado que cobriam a visita do presidente.

É uma forma muito mais direta de se comunicar com as pessoas. Abre um amplo espectro para a conversa sobre as atividades do dia-a-dia e até para falar de música, política, esportes. Sou um cara que gosta de compartilhar isso com as pessoas”, diz.

O líder do Democratas na Câmara Federal, deputado Ronaldo Caiado (GO), tem mantido atualizado o perfil no Twitter. “É muito importante, principalmente para nós da oposição, para expor nossos argumentos. O Twitter é um resumo sucinto. Não detalha, mas pauta as matérias. E depois, as pessoas buscam mais detalhes no blog”, diz.

O senador Renato Casagrande (PSB-ES) também está no microblog e considera o espaço imprescindível para estreitar o contato com os eleitores: “Com o nível de acessibilidade do eleitor nestas eleições, não há a menor chance de nós, candidatos, ficarmos camuflados. Quem não entender isso vai ficar para trás. Estou contratando dois assessores só para me ajudar a alimentar esses instrumentos”.

Outro senador presente no Twitter é Cristovam Buarque (PDT-DF) - mais de 20 mil seguidores em seu perfil. Ele também não abre mão das mídias sociais: “Já tenho equipe e estou usando todos os instrumentos que posso. Torpedo eu recebo mais do que mando. Mas tuito toda hora que posso. Recomendo livros, comento notícias”.

O presidente do Democratas, deputado Rodrigo Maia (RJ), acha que a chave do bom uso do Twitter está na polêmica e no bom humor. "Quando você põe uma frase mais polêmica e sacaneia um adversário, tem resposta. Tem que ter bom humor, sem agressividade, mas é uma ferramenta que se encaixa bem para quem quer ser mais econômico. Os comentários ganham atenção na mídia também porque às vezes você está em casa, pensando na vida, e vem uma idéia boa. O Twitter te permite usá-la.", disse, em entrevista a Maurício Savarese do Uol Notícias.

O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), também em entrevista ao Uol, apostou na descontração: "Pelo dinamismo, é algo que te força a ser conciso, te permite ironias, provocações e reflexões. Dá capacidade uma de interação muito grande, sem dúvida vamos utilizar nas eleições e será uma arena importante".

Pela culatra

Seja qual for a estratégia, sem o binômio transparência/informalidade, usando estratégias estranhas às mídias sociais, o Twitter pode se transformar em uma armadilha para o político. Exemplos recentes foram protagonizados pelo líder do Partido dos Trabalhadores no Senado, Aloízio Mercadante, e pelo governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB).

O mico de Mercadante ocorreu às 12h15, do dia 20 de agosto, quando tuitou a seguinte mensagem: “Eu subo hoje à tribuna para apresentar minha renúncia da liderança do PT em caráter irrevogável.” Às 12h28, a Folha Online publicava a notícia: Mercadante usa Twitter para anunciar renúncia à liderança do PT. Às 14h16, o Estadão divulgou a mesma informação (Mercadante diz que deixará liderança do PT em twitter) que, três minutos depois, foi reproduzida pelo G1: Mercadante diz que deixará liderança do PT em twitter. No dia seguinte, voltou atrás patrocinando o primeiro efeito cascata negativo de um político brasileiro no Twitter.

"O erro foi meu, não foi do Twitter. Depois usei a ferramenta para explicar as razões que me demoveram. Houve manifestações boas, outras que foram duras, mas acho que são válidas. Me expor no Twitter é o mesmo que me expor à rua. Eu não deixo esse expediente para minha assessoria de imprensa, como fazem alguns. O Twitter está para a modernidade como a praça estava para a Grécia antiga. As reações estão em um nível normal", afirmou Mercadante posteriormente, mostrando que é possível aprender com os erros na net.

O exemplo do governador André Puccinelli, por sua vez, exemplifica como um político não deve usar um perfil de Twitter. No turbilhão gerado por suas ofensas ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, a quem chamou de “viado” e “maconheiro”, Puccinelli foi alvo de críticas e pedidos de esclarecimento em seu perfil no microblog. Alheio ao estilo e necessidades das redes sociais, limitou-se a responder com “frases oficiais”. Resultado: o perfil está abandonado desde o dia 30 de setembro.

Segundo Roberto Agune, administrar as críticas recebidas no Twitter é fundamental: “Há críticas interessantes, construtivas, e há quem extrapole.” Para ele, os críticos trazem ferramentas, informações necessárias para fazer ajustes em procedimentos de governo. “É fundamental criar espaços onde se possa ouvir o cidadão. A sugestão de um cidadão pode nos ajudar a melhorar nosso trabalho”, afirma.

Este duplo pilar de sustentação, transparência/informalidade, esta ausente na maioria dos perfis políticos no Twitter. O erro está em se relacionar com as mídias sociais da mesma forma como se relaciona com as mídias tradicionais: na qual o discurso era uma via de mão única. “Antes nós falávamos com um milhão de pessoas. Hoje, um milhão de pessoas falam com você num instante”, resumiu Rodrigo Byrro, gerente de produtos da HTC América Latina, durante o Seminário INFO – Twitter, orkut e Flickr.

É como diz Edney Souza, gestor do Interney.net, referindo-se a políticos que se armam das mídias sociais sem prepararem-se para isso: “Ter a oportunidade de falar não significa nada se não tiver avanços”. Para ele, apesar das iniciativas para aproximar população e esfera política, ainda é cedo para dizer que há algum tipo de proximidade. “Tudo que temos são indícios de boas intenções que na prática parecem mais campanha eleitoral antecipada do que algo de efetivamente produtivo para o cidadão brasileiro. Não bastam iniciativas isoladas para ouvir a população, é preciso começar a priorizar, dar satisfações e entregar resultados. Tudo isso acompanhado de uma comunicação contínua e bilateral.“.

Babel Inútil?

Há quem questione a presença de políticos no Twitter. O diretor executivo da Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, é um deles. No artigo “Babel inútil”, resume estes perfis como um “nunca acabar de trivialidades, auto-elogios, roteiros de visitas, elogios aos companheiros de partido e espetadelas previsíveis nos adversários”.

O cientista político da Universidade Federal Fluminense (UFF), Afonso de Albuquerque, em entrevista ao jornal O Globo, alerta para a repercussão instantânea de "gafes virtuais" à Mercadante. Outro problema é a dificuldade em se adaptar o discurso a espaços onde a informalidade é a regra. “Neste caso, o efeito pode ser contrário: em vez de atrair, afasta o eleitor”, afirma.

Para Albuquerque, o Twitter pode servir para mostrar o lado humano, mas até isso é complicado para o político. “Na política é preciso tomar decisões que contrariam princípios pessoais. O jogo político não é centrado na opinião pública. É preciso muitas vezes tomar atitudes que surgem nos bastidores”, argumenta.

A força da rede

Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília, o professor Venício A. de Lima explicitou recentemente, no artigo “Internet e eleições: só não vê quem não quer”, o inevitável avanço da rede sobre a política. Citando duas pesquisas, Lima traça um panorama desta presença inexorável.

Os resultados da pesquisa realizada pelo DataSenadorevelam que a internet (19%) já é o segundo meio de comunicação mais usado pelo eleitor brasileiro para informar-se sobre política, atrás apenas da TV (67%). Jornais e revistas aparecem em terceiro lugar, com 11% e o rádio é preferido por apenas 4% dos entrevistados. Além disso, quase metade dos eleitores (46%) acredita que a principal vantagem da internet nas eleições será a troca de informações e idéias. A possibilidade de facilitar a comunicação entre candidatos e eleitores aparece em segundo lugar, com 28%. Os entrevistados que disseram usar a internet diariamente somaram 58%; 78% acessam sites de notícias e 53% participam de alguma rede social, como Orkut ou Twitter.

Outra pesquisa, realizada pelo Vox Populi, mostra que a proporção de eleitores que usam a internet para se informar sobre política já chega a 36%: "Quase dois terços dessas pessoas se informam exclusivamente em sites de notícias e blogs jornalísticos, enquanto que 7% utilizam somente as redes sociais, como Orkut, Facebook e Twitter com essa finalidade. Os 29% restantes combinam as duas possibilidades. São eleitores que acessam a rede com muita intensidade: cerca de 70% dos que procuram nela essas informações dizem que navegam `todo dia ou quase todo dia´ com esse intuito."

Não há volta.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Congresso decide hoje se apóia liberdade de expressão na internet

O Senado adiou para as 13h (de MS) desta quinta-feira a votação dos pontos polêmicos da reforma eleitoral, como as restrições para os sites jornalísticos atuarem no período das eleições. A votação estava prevista para a manhã de hoje, mas, por falta de quorum, o plenário vai analisar somente à tarde mais de 80 emendas ao texto principal da reforma eleitoral - que foi aprovado ontem pelos senadores. Para valer já para as eleições em 2010, o projeto precisa de sanção presidencial e publicação no Diário Oficial até o dia 3 de outubro.

Os senadores vão analisar hoje emenda dos senadores Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e Marco Maciel (DEM-PE) que restringe a atuação de sites jornalísticos durante o período eleitoral. A emenda proíbe sites e portais de jornalismo de "fazer propaganda eleitoral de candidato, partido político ou coligação". Pela emenda, fica vedado aos sites "dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação, sem motivo jornalístico que justifique". Proíbe, também, que sites divulguem pesquisas eleitorais com "manipulação de dados, ainda que sob a forma de entrevista jornalística". A multa para quem desrespeitar a regra varia de R$ 5.000 a R$ 30 mil.

A emenda não explica, porém, como será realizada a propaganda eleitoral ou tratamento privilegiado na internet. Também não diz o que seria motivo jornalístico justificável para privilegiar numa reportagem ou entrevista um determinado candidato. Isso poderá dar margem a que a Justiça Eleitoral restrinja a cobertura jornalística na rede. O texto concede ampla liberdade aos blogs e sites de relacionamento, como o Twitter, para a livre expressão de pensamento durante as campanhas.

Uma emenda apresentada pelo líder do PT, Aloízio Mercadante (SP), retira do texto qualquer restrição à web. “Na democracia, a internet é como a praça, a rua. Não temos que tentar controlar o que não se pode e o que não se deve controlar. A nova proposta (dos relatores) continua tentando controlar, restringir. Eu prefiro acreditar na liberdade da informação”, disse o petista.

Mercadante comparou a votação sobre a internet às Diretas Já, quando se discutiu, em plena ditadura militar, a eleição direta para presidente da República. “Assim como nas Diretas Já se dizia que o povo não estava preparado para votar, agora o argumento é que o eleitor não está preparado para ter acesso à informação”.

O líder do PT argumenta ainda que as restrições aos portais proposta pelos relatores não atende nem aos objetivos deles. “O problema da internet não são os grandes portais. As questões de calúnia, injúrias e difamações vão acontecer em blogs, em outros sites, como é próprio da rua, da praça. Temos que ter tolerância e fazer o debate. O homem público que não aprender a conviver com as críticas da internet é como um guarda noturno que não quer trabalhar à noite. Tem que procurar outra coisa para fazer”.

Romero Jucá (PMDB-RR), Arthur Virgílio (PSDB-AM) e Marina Silva (PV-AC) são alguns dos senadores que já declararam posições semelhantes à de Mercadante. “É irreal é inexequível querer cercear a internet. Não adianta tentar proibir. Eu defendo a liberação total da internet”, disse Jucá.

O texto-base dá liberdade total aos candidatos na internet. Fica permitido a eles utilizar todas as ferramentas, como blogs, mensagens instantâneas e redes sociais. Será permitido também que os candidatos à Presidência da República comprem espaço em portais de conteúdo jornalístico.

A proposta permite também a doação eleitoral por meio da internet e do telefone. Os candidatos poderão receber recursos por cartões de crédito e débito, transferências on-line, boletos bancários e até pode desconto em conta telefônica. As doações poderão ser feitas diretamente aos candidatos ou de forma indireta, por meio dos comitês partidários.

Em julho, quando a possibilidade de restrição à liberdade de expressão na internet já dava seus primeiros sinas, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Ayres Britto, definiu a situação. “Entendo que não há como regulamentar o uso da internet... A imprensa regula o Estado, e a internet se contrapõe à própria versão da imprensa sobre as coisas. A internet é o espaço da liberdade absoluta, para além da liberdade de imprensa”.

Leia mais sobre este tema:
- Ele fala, mas não ouve
- O poder e seu pesado olhar sobre a internet
- Rede de espionagem do Irã na internet conta com tecnologia ocidental
- A internet é o espaço da liberdade absoluta, para além da liberdade de imprensa
- Ahmadinejad sucumbe ao pavor da internet
- Iranianos apelam para a internet

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O poder e seu pesado olhar sobre a internet

Para que tanto controle, tanta ganância, será que não percebem que quanto mais fecham a mão, mais lhes escorre entre os dedos.
Stella Croesy Caribe

A recente decisão da Amazon de apagar determinado conteúdo do kindle sem informar seus clientes traz à tona um temos comum a quem vê na internet e no mundo digital um mecanismo democrático e de liberdade de expressão. George Orwell, no livro “1984”, traça um panorama sombrio de uma sociedade baseada no controle. Em um futuro por ele imaginado, censores do governo apagavam quaisquer traços de artigos que fossem constrangedores para o Grande Irmão, colocando-os em um incinerador chamado "buraco da memória". Foi exatamente o que fez a Amazon com 1984 e outro livro de Orwell, "A Revolução dos Bichos".

Mais emblemático, impossível. Impossível.”, diz meu amigo Luiz Felipe Vasques no excelente O Mal Humorado. Eu concordo.

A Amazon garantiu que os livros foram adicionados à loja Kindle pela MobileReference, uma empresa que não detinha os direitos autorais das obras, utilizando uma função "self-service" e que, ao serem notificados pelos detentores dos direitos, removeram as cópias ilegais dos sistemas e dos aparelhos dos consumidores, reembolsando-os.

A explicação parece lógica, mas suscita uma questão interessante: a Amazon tem o direito, a autoridade, ou mesmo a capacidade de deletar algo que alguém já havia comprado? Qual o limite para este controle exercido por uma empresa sobre um aparelho particular que utiliza a rede para fazer circular obras literárias?

Não é a primeira vez que a Amazon “tropeça” na manipulação de conteúdo adquirido por seus clientes. Em abril, "um erro de catalogação embaraçoso e grosseiro" havia levado milhares de livros em seu site a perder sua classificação no ranking de vendas, o que os tornou mais difíceis de ser encontrar em buscas. Ocorre que o problema parecia ter tido efeito desproporcional sobre livros com temas homossexuais, o que gerou protestos quanto a uma possível censura por parte da empresa.

As explicações da Amazon não convenceram a todos. Daniel Mendelsohn, escritor cujas memórias, “The Elusive Embrace”, estavam entre as obras “desaparecidas” questionou, em entrevista ao New York Times: "Há erros e erros. Em algum ponto do processo, que eu não compreendo por não ser um gênio da computação, as palavras 'gay' e 'lésbica' foram classificadas como se fossem pornografia. E eu me pergunto se gostaria que alguém considerasse meu livro como pornográfico, e a resposta é não".

O controle do conteúdo do que circula pelo meio virtual é um pavor que permeia meus sonhos mais obscuros. E ele é possível. Basta lembrar o que ocorreu recentemente no Irã, quando o regime desenvolveu, com o auxilio de empresas de telecomunicação européias, um dos mais sofisticados mecanismos de controle e censura para a internet, que permite ao governo examinar o conteúdo de comunicações individuais online em escala maciça. Uma monitoração de conteúdo que vai muito além do simples bloqueio de acesso a sites ou do corte de conexões.

Reportagem publicada recentemente no Wall Street Journal cita especialistas segundo os quais o governo iraniano adquiriu a capacidade não apenas de bloquear as comunicações, mas, também, monitorá-las a ponto de colher informações individuais dos usuários, além de alterá-las em uma guerra de contra-informação. Ou seja, o controle sobre a rede e sobre os mecanismos que provém dela é uma realidade.

Meu amigo Luiz Felipe revela em seu blog um temor que é também o meu. Diz ele: “Recebi, com entusiasmo até, a notícia de que na Califórnia, por decreto do Governator, todo o sistema público de ensino iria adotar uma forma semelhante ao kindle como livro didático. A idéia é: assim que confirmadas fossem novas descobertas, a disponibilização in promptu aos alunos. Achei isso muito legal, mesmo. Mas comecei a divagar, pelas obscuras ruelas mal-iluminadas dos meus achismos, de que um belo dia os alunos poderiam ligar seu kindle e ‘plim’: ‘A Terra tem 6.000 anos de idade. Tenha um bom dia, cidadão’.

João Carlos Caribe, que coordena o coletivo Ciberativismo, complementa: “Imagine agora que os governos resolvam criar dispositivos de vigilância típicos da obra 1984 de George Orwell, basta que ele intercepte esta nova artéria da sociedade, a Internet, mas ainda bem que a Internet é um mundo de pontas, e os controles só se dão nas pontas, e rapidamente são entendidos como defeitos e rapidamente são roteados. Mas este controle nas pontas é possível”.

O outro lado da net

Não resta dúvida de que a expansão maciça das comunicações por meio da internet constitui uma importante revolução nas relações sociais. Trata-se, também, de uma importante ferramenta política. Se por um lado as possibilidades que a internet oferece têm permitido a organização social com propósitos importantes, também possibilitam um aspecto obscuro ao converter-se em instrumentos de vigilância e repressão.

Assim como o Irã tem desenvolvido mecanismos para controlar o livre fluxo de informação na rede, muitos outros países também têm investido nesta questão. A China, por exemplo, possui um sofisticado sistema de vigilância e censura na internet conhecido como “A grande muralha de fogo da China”. Todos os computadores vendidos no país após 1º de julho incluem um software chamado “Green Dam”, que dará ao governo ainda mais controle sobre os usuários da rede.

Na Malásia, denúncias dão conta de que o governo implementou um filtro similar ao “Green Dam” para vigiar blogs e sites de seus cidadãos. O governo alega que o mecanismo será utilizado para bloquear sites de pornografia. No entanto, a oposição garante que o objetivo é controlar a dissidência política.

No Iraque, após a onda de liberação nas comunicações pós-queda de Saddan Hussein, as portas da internet começam a se fechar novamente. Medidas do governo têm sido adotadas para bloquear sites considerados prejudiciais ao público e cibercafés precisam ser registrados junto às autoridades. O governo, que vinha trabalhando discretamente nas novas leis de censura, diz que as proibições são necessárias porque o material atualmente disponível no país tem o efeito de encorajar a violência sectária, em meio a uma democracia ainda frágil, e pode perverter as mentes dos jovens. Em julho, um comitê do governo recomendou que fosse acelerada a redação de uma lei que permite vigilância oficial da internet e processo contra quem viole as normas oficiais. Entre os sites proibidos, de acordo com o relatório do comitê, estariam aqueles com temas como "drogas, terrorismo, jogos de azar, declarações negativas sobre o islamismo e pornografia".

Controle

No artigo “Ameaça à Liberdade de expressão dos usuários de Internet no Brasil”, que Caribé assina com Ana Paula Gravina, há uma definição muito clara de privacidade, liberdade de expressão e direitos civis e dos limites que o poder constituído deve observar no controle a estes direitos básicos.

Liberdade de expressão é o direito de manifestar opiniões livremente. É um conceito basilar nas democracias modernas nas quais a censura não tem respaldo moral. O discurso livre é também apoiado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, especificamente no seu artigo 19, e pelo artigo 10 da Convenção Européia dos Direitos Humanos, embora esse direito não seja exercido em vários países e, em geral, não seja ilimitado.

Os governos podem, sob a égide das Organização das Nações Unidas e dos países que dela fazem parte, limitar formas particulares de expressão, tais como aquelas que promovam o incitamento ao ódio racial, nacional ou religioso ou ainda o apelo à violência contra um indivíduo ou uma comunidade (o que coloca em contradição de legitimidade o próprio conceito desta, visto que não existe liberdade sem a plenitude das livres idéias; o direito mais básico de um ser humano é o de gostar ou não de algo em específico, e algo tão instintivo não pode ser sequer oprimido pelo estado anti-natural de coisas; a censura parcial e a censura plena são partes de um mesmo todo; duas faces de uma mesma moeda neuropressoróide - facto).

Segundo a legislação internacional, as limitações ao discurso livre devem atender a três condições: ser baseadas na Lei, perseguir um objetivo reconhecido como legítimo e ser necessárias à realização desse objetivo.

Dentre os objetivos considerados legítimos está a proteção dos direitos e da integridade moral de outros (proteção contra a difamação, calúnia ou injúria); a proteção da ordem pública, da segurança nacional, da saúde e do bem comum.


No Brasil

A decisão do desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, de suspender a veiculação dos arquivos de áudio relacionados à Operação Faktor no portal do jornal O Estado de S.Paulo é exemplo de como as oligarquias também podem ingerir na rede. Trata-se de censura. Ponto. Proibiu-se um site de manter no ar o áudio das negociatas da família Sarney, amplamente divulgadas em todos os principais veículos de comunicação do país.

O professor da Universidade do Texas e diretor do Knight Center para o Jornalismo nas Américas, Rosental Calmon Alves, disse que a censura ao Estadão é o "retrocesso em uma democracia em construção". Para Alves, especialista em liberdade de expressão na América Latina, a ação é uma amostra de que parte do Judiciário vive no passado. "Está difícil das autoridades judiciais brasileiras entenderem, tanto que algumas vezes caíram no ridículo de tentar bloquear o YouTube, o que acaba virando piada".

Em entrevista ao jornal paulista, destacou que a a internet possui uma arquitetura feita para contornar a censura e alertou: “Os chineses têm aperfeiçoado a tecnologia da censura, mas essa é uma guerra que nunca acaba. Eles criam a censura, e as pessoas criam jeitos de burlá-la. A ideia de censurar os áudios no site do Estadão não vai impedir que as pessoas saibam ou recebam os áudios através de outros meios, outros servidores em outros países, o que torna inócua a decisão judicial”.

Outro aspecto que remete a tentativa de controlar o que vai pela rede se deu recentemente, com a aprovação pela Câmara Federal das regras da propaganda política na internet. Na avaliação de profissionais de comunicação e estudiosos das campanhas eleitorais elas se aproximam da censura e estão longe da realidade da rede mundial de computadores. Embora permita a criação de sites e blogs em defesa de candidaturas e ampla discussão nos portais de relacionamento, como Facebook, Orkut e Twitter, a lei cria amarras tão rígidas quanto as válidas para rádio e TV, que são concessões públicas.

O AI5-Digital

Em 2001, diversos países da Europa fundamentaram a chamada Convenção de Budapeste, apresentando um modelo de legislação que institui um rígido controle no acesso à Internet, ferindo a liberdade de expressão, direitos civis e a privacidade. No Brasil, em 2005, o Senador Eduardo Azeredo reuniu três projetos que tramitavam no Senado, e os adaptou de acordo com a Convenção de Budapeste. Hoje, o texto do PL 84/1999 (a Lei Azeredo) tem sido apontado como uma grave ameaça à liberdade de expressão na internet brasileira. Gente mais qualificada do que eu já expôs as armadilhas que podem estar escondidas sob um manto de boas intenções.

João Carlos Caribe, que é responsável pela petição online que já reuniu mais de 145 mil assinaturas contra o projeto, diz que “os artigos previstos no substitutivo do senador Azeredo implantam uma situação de vigilantismo que não impede a ação dos hackers, mas abrem espaço para violar direitos civis básicos, reduzir as possibilidades da inclusão digital e transferir para toda a sociedade os custos de segurança que cabem aos que lucram com a eficácia proporcionada pela rede.”.

Em recente entrevista ao Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), disse o seguinte: “Na prática, o projeto de lei afetaria a política de ampliação das redes abertas de banda larga; a liberdade de compartilhamento; a liberdade de expressão; a liberdade de criação; a liberdade de acesso; a privacidade e o anonimato. Mais do que isso, a criminalização de milhares de jovens e adultos que compartilham MP3, imagens, fotos; centenas de ativistas e pesquisadores da cibercultura; qualquer pessoa que queira abrir o sinal Wireless em seu condomínio; pessoas comuns que tiveram suas máquinas 'escravizadas' por rackers e não possuem conhecimento técnico para se defender.”.

A jornalista guatemalteca Carol Zardetton no artigo “La cara oscura del internet”, define as perspectivas: “O sistema legal dos países onde prevalece o estado de direito terá que desenvolver ferramentas para a proteção dos direitos dos cidadãos a livre expressão do pensamento e de sua privacidade. Onde o estado não se sujeita às limitações que lhe deveriam impor as liberdades civis e os direitos humanos, a internet pode se constituir em um grave risco.”.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Entrevista: Idelber Avelar fala das novas mídias, de política e Jornalismo

Mineiro, torcedor do Galo, apreciador de uma boa cerveja, figura extremamente generosa ao dividir seu tempo com quem propõe idéias instigantes, Idelber Avelar é mestre em literatura brasileira pela Universidade da Carolina do Norte, Ph.D em literatura latino-americana pela Duke University e professor titular de literaturas latino-americanas e teoria literária na Tulane University, em New Orleans. Além disso, Idelber também é blogueiro. Toca O Biscoito Fino e a Massa desde 2004, um dos mais importantes representantes da blogosfera brasileira. Ali ele aborda assuntos os mais variados, de futebol ao conflito entre israelenses e palestinos, navega pela política, música e literatura, aponta os descaminhos da mídia e também seus acertos, tudo isso com uma crítica fundamentada e embasada pela participação atenta de seus leitores. Entre os dias 24 e 26, Idelber Avelar esteve em Mato Grosso do Sul, mais especificamente em Dourados, onde participou de um congresso internacional de literatura na Universidade Federal da Grande Dourados. Na noite de sexta-feira, entre um e outro gole de uma Original gelada, ele concedeu a seguinte entrevista ao Escrevinhamentos.

Em janeiro, os blogs foram os principais canais de comunicação para que o mundo soubesse o que ocorria na Faixa de Gaza. Nas últimas semanas, no Irã, a informação circulou por meio do twitter. Qual a sua análise sobre estas novas ferramentas de comunicação que, diante do totalitarismo, têm forçado as fronteiras da comunicação para além dos seus canais tradicionais? Elas terão impacto decisivo nestas sociedades?

Acho que elas já estão impactando de alguma forma. No caso, por exemplo, da China, do Irã, há o interesse dos governos de censurar estas novas mídias que formam uma espécie de termômetro. Acho que o impacto será cada vez maior, porque são ferramentas extremamente baratas. Um blog, literalmente, não custa nada, ele custa só o preço de sua conexão na internet a partir da qual você pode usar várias ferramentas como o blogspot, o wordpress. Nos Estados Unidos foi fundamental. Lá, o que houve não foi um caso de censura, mas de grande concentração da mídia. Na época da Guerra do Iraque, a mídia conservadora e liberal falou com uma voz única. Não havia diferença entre a Fox, que é uma emissora de direita, e a CNN, que supostamente é uma emissora de centro. O Washington Times, que é um jornal de direita, e o New York Times, que é mais liberal, não mostravam diferenças. Todos estavam batendo os tambores da guerra. A chegada das novas mídias teve um impacto tremendo depois da Guerra do Iraque, no desmascaramento da mentirada que levou à guerra, e depois, na campanha do Obama. Foi chave na campanha. A diferença entre a campanha do Obama e a campanha da Hillary nas primárias democratas foi que ela estava trabalhando, ainda, com um modelo unidirecional de informação. Um modelo de informação pré-internet. E quando se deu conta desta diferença já era tarde, o Obama já tinha levado. Então, o impacto é não só no sentido de liberalizar sociedades que têm governos autoritários, mas, também, de democratizar o acesso à informação em sociedades que têm governos democráticos.

Governos têm se armado de tecnologia para fazer frente às ameaças que estas novas ferramentas apresentam. Quem vence este cabo de guerra em longo prazo?

Isso vai depender muito do contexto. Por exemplo, estou um pouco cético quanto a certas coisas que foram ditas sobre o Irã. Não acho que esteja sendo feita uma revolução via twitter no Irã. Acho que estamos muito longe disso. E acho que o mais provável, no caso do Irã, é que um outro tipo de situação se produza logo, logo, ali. Passando este período, o mais provável é que a república islâmica se mantenha sólida, com dissidências pró-ocidentais se articulando via redes sociais, conquistando algum espaço. Mas, eu não vejo, de forma alguma, uma mudança social via twitter no Irã. Acho que o caso de Cuba é diferente, inclusive porque é uma população com um nível de alfabetização altíssimo. A tendência é que se produza algum tipo de abertura muito em breve, há vários sinais disso. E com estas mídias tendo algum tipo de papel neste processo.

Você faz uma crítica ácida à Lei Azeredo. Diz que ela interessa aos lobbies bancário e dos direitos autorais. Este debate está claro para a população, em especial para os 60 milhões de usuários da internet no Brasil?

Acho que uma parcela cada vez maior da população está ligada, a informação está circulando. Agora, enquanto estamos conversando aqui, está acontecendo em Porto Alegre o Fórum Internacional de Software Livre, e o presidente Lula está lá. Acabei de saber via twitter que ele deu uma declaração bem incisiva contra a Lei Azeredo, dizendo que aquilo é estado policialesco, que tem que lutar contra isso. Ou seja: o recado chegou ao Lula. É o tipo de coisa que o Lula não estaria dizendo, não fosse o impacto que a mobilização na internet produziu e que chegou ao Ministério da Cultura, nas áreas mais progressistas do Governo.

Uma das principais características da internet é propiciar o debate, mas qual a qualidade deste debate? Ele é menos qualificado do que o debate que ocorre em outros meios? Ou ele reflete o debate possível em nossa sociedade?

Acho que o que acontece na internet é expressão de uma realidade que existe fora dela. A internet dá vazão a uma série de bate-bocas que nunca chegaram até a grande mídia. Basta você escolher o que quer acompanhar. Não acredito, por exemplo, que a caixa de mensagem do meu blog seja caracterizada por bate-boca. E uma coisa mais reflexiva, com um nível bem razoável. Quando as pessoas criticam os blogs pelos seus erros, ou pela linguagem meio descuidada, me preocupo pouco. Vejo tudo isso como uma espécie de termômetro da realidade e a realidade também é feita de chute na arquibancada, de palpite, de gritaria, de indignação. Este tipo de linguagem - que não costumava entrar nas mídias tradicionais - entra no blog. Mas o bate-boca não me incomoda, a existência de blogs onde eles existem não me incomoda nem um pouco. Sou um pouco como o nosso ex-ministro Gilberto Gil nesta questão. Eu acredito em abraçar o mundo, o bom e a porcaria que tem no mundo.

As mídias sociais poderão ocupar o papel da imprensa na intermediação da informação?

Essa é uma discussão complexa. Às vezes, por causa do meu entusiasmo com as novas mídias, por causa das minhas criticas violentas à grande mídia brasileira, algumas pessoas me acusam de defender a idéia de que os blogs vão acabar com a imprensa. Eu acho que não vão. Eu acho que vai morrer um certo modelo de Jornalismo, a minha crítica esta aí. Este modelo de Jornalismo, onde a notícia é impressa às oito da noite para ser lida, na melhor das hipóteses, às oito da manhã do dia seguinte vai morrer. Acho que este tipo de Jornalismo vai acabar. Vai acabar porque não tem o menor sentido você pagar para ler o que você já leu de graça no dia anterior, na internet. Mas, acho que estamos muito longe de qualquer tipo de cenário no qual os grandes grupos de mídia tendam a desaparecer. É sempre bom lembrar que o Grupo Folha, as Organizações Globo, a família Mesquita, elas não estão nem perto da insolvência, elas estão ganhando ainda uma boa grana. Acho, porém, que a produção de informação está se pulverizando um pouco, democratizou-se bastante o acesso à produção e circulação de informação. Isso está impactando na forma como os grandes grupos de mídia lidam com a informação. Hoje, todos os grandes portais têm blogs, jornalistas ligados à grande mídia estão abrindo seus blogs. Enfim, algumas respostas para esta nova realidade já são visíveis nos grandes grupos de mídia. Não acredito que os blogs, o twitter e as redes sociais, necessariamente, vão substituir a grande imprensa. A grande mídia vai perder um pouco da centralidade que ela tinha, de ser a única intermediadora da informação, mas não vejo nenhuma revolução à vista.

Que papel terá a internet na política brasileira em 2010?

Acho que a internet terá um papel muito importante na eleição brasileira do próximo ano, maior do que teve na última eleição. Em 2006 ela já teve um papel significativo, por exemplo, como aconteceu na véspera da eleição do primeiro turno, quando a Rede Globo colocou no jornal aquelas fotos, aquele pacote de dinheiro. Havia acontecido no mesmo dia o acidente da Gol e a Globo optou por não mostrar no Jornal Nacional.

O que existe de singular em um blog?

O que existe de singular no blog é que ele é movido, em geral, pelo desejo individual do blogueiro. Isso traz uma característica muito particular, que é o fato de muitos blogs se dedicarem a temas que o blogueiro realmente domina. É uma situação um pouco diferente, por exemplo, de uma empresa de Jornalismo onde o jornalista tem que cobrir temas que ele não domina. Claro que existem milhões de blogs onde o sujeito está escrevendo bobagens sobre temas que não domina. Mas, hoje, você tem uma especialização bem grande em muitos blogs. No caso da tecnologia, você tem blogs que te informam muito melhor do que qualquer caderno de tecnologia da imprensa brasileira. Hoje, quem quer estar atualizado sobre tecnologia não vai ler o caderno de informática do Globo ou da Folha, por que sabe que, principalmente nos blogs em inglês, ele vai encontrar informações muito mais atualizadas e especializadas. A grande vantagem é esta. O blog traz problemas no sentido de que é um espaço não editado, um espaço em que a interpretação crítica do leitor é muito importante, porque você tem que avalizar ou não aquela informação. Você tem que aprender a dissociar os blogs que têm credibilidade dos blogs que estão dando tiro para todo lado. Este tipo de triagem é o leitor quem vai fazer. Então, muitas vezes, o blog é criticado por não ter um editor, ou porque ninguém sabe se aquela informação é verdade ou não, mas esta é uma habilidade que o leitor vai desenvolver. No caso da Palestina, eu fiz questão de fazer uma cobertura diária, de plantão mesmo sobre o massacre em Gaza, porque é um tema sobre o qual eu me informo há bastante tempo. Sobre o Irã eu ainda não escrevi. Acho que eu não tenho nada a dizer que seja diferente deste festival de chutes que eu vejo por ai. Então, penso em me pautar com este cuidado. Não escrevo sobre cinema, por exemplo, que é um assunto que eu domino pouco. É claro que eu erro, é evidente, mas acho que eu não dou chute na arquibancada. Então, esse é a primeira singularidade que eu vejo. Existe uma gama enorme de blogs, onde o blogueiro está escrevendo sobre aquilo que ele é apaixonado. Nem sempre este é o caso nos grandes veículos de mídia. Então acho que esta é uma primeira distinção que poderia ser feita.

Os blogs surgiram como diários pessoais e hoje passam por uma transformação, tentando encontrar sua vocação. Qual é esta vocação em sua opinião?

Olha, é muito difícil generalizar a esta altura do campeonato. Ele é uma ferramenta mais ou menos neutra em relação ao conteúdo que veicula. Muitos blogs começaram como diários pessoais, mas nem todos. Um dos blogs pioneiros no Brasil, que é o Catarro Verde, do Sergio Faria, lá de São Paulo - um cara que está blogando desde 2001 - não tem nada de diário. São petardos, frases secas, curtas, como a gente diz: jogando a merda no ventilador. Acho que a vocação é produzir contatos horizontais entre o produtor e o consumidor de conteúdo. Acho que ele não tem uma vocação relacionada ao conteúdo, qualquer conteúdo entra nele. Não dá para rotular. Acho que, em algumas áreas, temos melhores blogs. Por exemplo, os blogs de tecnologia estão muito na frente dos blogs de literatura. Não temos, no Brasil, grandes blogs de literatura, seja de crítica literária, seja de produção ficcional ou poética mesmo. Tem muita gente colocando contos e poesias na internet, mas eu ainda não vejo uma qualidade. Posso estar errado, mas é o que observo de longe. Eu ainda não navego a internet em português procurando literatura. Quando eu quero ler literatura vou aos livros.

Mas isso não te deixa um pouco isolado do que pode estar acontecendo fora das grandes editoras?

Bom, eu estou de olho aberto, ligado. Mas até agora não vi muita coisa não. Assim, têm bons escritores que têm blogs, mas não necessariamente são bons blogs. Bons escritores que usam blogs para divulgar eventos, lançamento de um livro. Este tipo de coisa você encontra com freqüência. Mas, o que eu vejo de interessante em termos de criação são coisas que não são exatamente literatura no sentido estrito. Por exemplo, um dos meus blogs favoritos, o Ao mirante, Nelson!, não é exatamente literatura, mas é literatura de um jeito que funciona naquele espaço. Não é algo que existia antes como literatura e que foi colocada naquele espaço.

Qual o público dos blogs? Blogeiro escreve para blogeiro? Você consegue definir o perfil deste público?

Depende. Eu acho que todo mundo quer ser lido. Não conheço ninguém que escreva para si próprio. Até porque, se for para escrever para si próprio, é melhor deixar na gaveta. Vai colocar na internet pra que? Eu tenho uma idéia bem clara de quem me lê. Mas esta informação depende muito da sua familiaridade com a ferramenta. Hoje, nem olho muito as estatísticas, porque eu tenho já uma noção boa de quantas pessoas são, de onde elas vêm, etc. No caso do meu blog, a grande maioria é formada por um leitor que tende à esquerda, existe uma predominância de leitores com algum tipo de inquietude intelectual, tem uma grande parte de acadêmicos, muita gente da literatura, do direito. Então, tenho uma idéia bem razoável de quem me lê. Mas tem muita gente que não se preocupa com isso, que não está nem aí, e acho isso saudável.

Quais são os seus blogs preferidos?

Eu não vou aos blogs né? Eu uso o RSS, que é uma ferramenta de coleta de feeds, como se fosse uma assinatura. As informações chegam em minha página do google reader e eu só vou quando quero comentar alguma coisa. Então, fico sabendo se tem post novo em cada lugar. Os blogs que checo com mais entusiasmo são o Ao mirante, Nelson!, o Consenso, só no paredão, do Alexandre Nodari, o Descurvo, que é um blog de um jovem leitor do Biscoito, que abriu seu próprio blog, o Hugo Albuquerque. Entre os grandões, eu acompanho muito o blog do Luis Nassif, o Viomundo, do Luiz Carlos Azenha, acompanho o Amálgama, um blog coletivo de uma garotada muito boa. Ultimamente tenho lido com muito interesse o blog da Marjorie Rodrigues. Acho que estes são os que eu leio com mais constância, interesse e entusiasmo, mas tenho uma lista de 200 blogs aos quais estou sempre ligado.

Recentemente você se manifestou sobre um caso de anonimato na internet. Esta prática enfraquece a produção online?

Acho que este é um fenômeno mais ou menos inevitável. Este anonimato se quebra, é muito fácil descobrir quem é o anônimo. Com a polarização política, este tipo de coisa vai acontecer. No caso em questão era um blog anônimo que trazia ataques bem pesados, difamatórios, o conteúdo era calunioso. E aí depende de cada um se aciona a justiça, se não aciona. A minha tendência é sempre deixar para lá. Prefiro deixar passar batido. Neste caso, o Luiz Nassif achou que tinha ataques à honra ali, que ele queria resolver na justiça. É um direito dele. Era um negócio barra pesada. Até agora, inclusive, não está na justiça. Ele simplesmente acionou o Google para que os dados daquela pessoa fossem entregues, inclusive para que ele pudesse decidir se iria processar ou não. Judicialmente o procedimento dele foi corretíssimo. Primeiro ele acionou o Google para ter os dados, obteve os dados e agora sabe quem foi. Se ele quiser processar ele pode. Mas o fato é que faz parte da vida, entra no rol daquelas coisas que são componentes da realidade e que a internet apenas dá vazão. Ataques anônimos sempre existiram desde que o mundo é mundo. O caso é que a internet amplifica isso.

Qual a sua análise sobre a qualidade do Jornalismo praticado hoje nos Estados Unidos e no Brasil, e no que eles diferem?

Eu acho que a imprensa brasileira é muito ruim. Quando eu falo imprensa, estou pensando nos grandes oligopólios de mídia. Acho até que fora dos grandes centros há boas iniciativas locais. Mas o Jornalismo brasileiro tem uma característica que em outras sociedades latino-americanas você não vai encontrar: a concentração em quatro ou cinco famílias. São quatro ou cinco famílias que decidem no Brasil o que é notícia. O que acontece aqui, e que diferencia, eu acho, o Jornalismo brasileiro do americano, é que no Jornalismo americano existe algum tipo de confronto, algum tipo de embate. Então, na campanha eleitoral – diferente do que ocorreu na Guerra do Iraque, quando todo mundo disse o que o Bush queria – você via, por exemplo, certo tipo de generalização sobre o Obama na Fox, e você via, imediatamente, o contraponto na MSNBC, e, ainda, a CNN fazendo o meio de campo. Este tipo de embate de idéias não acontece no Brasil. O que acontece no Brasil é uma espécie de efeito manada. A Folha inventa um escândalo, a Veja e a Globo repercutem, o Estadão repercute e todos dizem a mesma coisa. O caso da Operação Satiagraha é um exemplo. O que aconteceu com o delegado Protógenes Queiroz foi absurdo. Aquela história dos grampos que ninguém nunca viu, os áudios que nunca apareceram. Gilmar Mendes simplesmente disse que foi grampeado, acusou a Abin e a Polícia Federal. Nenhum indício de grampo foi encontrado, o princípio mais básico do direito, que é a presunção de inocência, não foi respeitado. A imprensa bateu tambores com aquilo durante semanas, meses, em cima de nada, de um factóide.

Alguns blogs de esquerda utilizam o termo Partido da Imprensa Golpista (PIG) para se referirem aos representantes da grande mídia. Você crê neste tipo de articulação?

Não acho que seja, necessariamente, um partido organizado e golpista contra o Lula, nem que haja uma conspiração. É simplesmente o fato de que a concentração do capital midiático chegou a tal ponto que o os grandes grupos pensam mais ou menos da mesma forma. É como a gente diz em inglês: money thinks alike. O dinheiro pensa mais ou menos de forma parecida. Então, na questão política, eu acho que temos um Jornalismo cada vez mais fundamentado em factóides, em escândalos, em assassinatos de reputação, em uma escandalização da política que é muito daninha.

E nas demais áreas do Jornalismo?

Há também, nas outras áreas, problemas graves. Eu acompanho muito futebol, e o jornalismo esportivo que se faz no Brasil é péssimo. Você vê em alguns veículos, claramente, que as matérias têm dedo de empresário que quer vender tal jogador. Você vê repórter concominado com cartola. O que aconteceu com meu clube, por exemplo, o Atlético Mineiro, que no começo dos anos 80 tinha um dos maiores patrimônios do Brasil, é exemplo. Ele foi completamente dilapidado, hoje tem uma das maiores dividas do Brasil. Nos anos 80 vendeu meia seleção brasileira, aquele timão do Telê Santana. Todos estes nomes foram vendidos e ninguém viu o dinheiro. Se você abrir o Estado de Minas no caderno de esportes, você vê claramente o dedo do cartola. O jornalismo cultural é de qualidade cada vez mais baixa, cada vez mais centrado em fofoca, histórias do galã da novela, muito pouco conteúdo real. O caderno supostamente intelectual do maior jornal brasileiro, que é a Folha, é um negócio, sinceramente, vergonhoso. A grande maioria do que está lá são traduções de coisas já publicadas em inglês ou em francês que, quem tem condições de ler aquilo e entender, já leu na língua original. Quem não leu não tem interesse e nem quer acompanhar.

Falta uma produção original?

Sim, e não falta gente capaz de fazer isso no Brasil. No caso do Mais!, é uma opção por um determinado tipo de modelo de capital simbólico, de capital cultural, um certo tipo de expectativa sobre o que é que vai trazer distinção para o jornal. Fica um negócio completamente vazio. É um modelo de caderno cultural que não tem o menor sentido.

E o Jornalismo americano?

Não acho o jornalismo americano grande coisa, não. Mas acho que pelo menos lá você tem embate de idéias, você tem o contraponto.

É possível fazer um jornalismo de qualidade no Brasil dentro do mainstream? Ou não é possível e a saída poderia estar, inclusive, nas novas ferramentas que a internet está propiciando?

Eu acho que o mainstream pode mudar, ele está mudando. Acho que uma revista como a Carta Capital, com todos os problemas dela, faz uma coisa um pouco diferente do que você vê na Veja. Muitas vezes você se refere à Carta Capital e alguém vai dizer: “ah, mas é uma revista do PT, a única diferença é que ela é de esquerda e a Veja é de direita, é uma revista chapa branca, etc”. Eu não entendo muito esta crítica, pois a Carta Capital foi a revista que denunciou a armação do PT para sufocar o escândalo do chefe da Polícia Federal que torturou uma empregada doméstica. Foi a Carta Capital quem fez uma matéria sobre o Luis Eduardo Greenhall, mostrando como este sujeito que era advogado dos trabalhadores sem terra, ligado aos direitos humanos, virou advogado do Daniel Dantas. Foi esta revista que investigou a fundo o que foi o mensalão, além da bateção de tambor. Então, não vejo a Carta Capital como uma revista chapa branca. Vejo muitas críticas ao Governo Federal lá. Agora, é muito diferente do que se vê na Veja. Acho que o mainstream pode mudar, mas, sem dúvida, a transformação do Jornalismo brasileiro passa pela internet. Não só pelo que se produz na internet, mas pelo impacto que se dará sobre a mídia impressa, televisiva e radiofônica.

Qual sua posição sobre a inserção da chamada mídia alternativa na distribuição de recursos públicos de publicidade?

A primeira coisa que tem que ser dita é que o grosso do dinheiro público que vai para a mídia vai para a grande mídia. Se você tirar o dinheiro público da Veja, da Globo, da Folha de S.Paulo, se você tirar os anúncios da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa, estes grandes grupos de mídia vão tomar um baque tremendo, eu não sei se eles se sustentam sem dinheiro público. Quando o dinheiro público vai para alguma iniciativa menor, alternativa, sempre tem gritaria. Mas pouca gente fala dos anúncios do governo nas páginas da Veja. É uma revista que bate no governo sistematicamente, e nove em cada dez vezes bate a partir de factóides ou de escandalização. Então, acho que esta foi uma das mudanças positivas do Governo Lula, mas podia ter mudado ainda mais. Diversificou-se muito o destinatário deste dinheiro público. Hoje o número de veículos de mídia que recebe publicidade oficial é muito mais alto do que era oito anos atrás. Houve uma certa democratização desta distribuição. E aí eles chiaram né? A Folha e a Globo chiaram. Fizeram matérias totalmente manipuladas, do tipo ”aumenta em 560% os veículos que recebem publicidade oficial”. É algo que não faz o menor sentido, porque para o leitor fica parecendo que houve aumento de gastos na publicidade, o que não houve. Simplesmente aumentou o número de veículos que recebem estas publicidades. Mas acho o Governo Lula ainda muito tímido quanto a isso.

Você pensa, então, que deveria haver uma pluralidade maior na distribuição destes recursos?

Maior, maior. Acho que a Veja, não tem nada que receber dinheiro público...

Alguém na mídia deveria, de fato, receber dinheiro público? Não seria mais adequado se o leitor bancasse a mídia? Ou é utópico?

Olha Barone, é difícil responder no abstrato assim. Se for para ser capitalista, vamos ser capitalistas de verdade. Que a dona Veja, que a dona Folha de S.Paulo renunciem a verba pública e se banquem com anúncios privados e com as assinaturas. Por que eles chiam tanto quando o governo investe, por exemplo, R$ 2 milhões em um projeto como o Overmundo, que informa milhões de internautas – ou centenas de milhares - sobre manifestações culturais brasileiras que jamais teriam espaço na grande mídia? Acho que o Overmundo é um site de qualidade muito irregular, têm coisas muito boas e têm coisas muito ruins, muito mal escritas. Mas é isso mesmo, a vida é isso mesmo. Você vai lá e faz sua triagem. O governo investiu R$ 2 milhões ali. Pode parecer muito dinheiro, mas no mar de verba publicitária do Governo Federal não é absolutamente nada. Quando abriram o Overmundo foi uma chiadeira tremenda. Acho que, se for para usar verba pública para mídia, que se estabeleçam critérios. Interesse público? Definido de que forma? Quem vai ser o comitê gestor disso? Que seja claro. Do jeito que está é muito fácil para os grandes veículos de mídia usar isso como chantagem. “Não tira o anúncio da Petrobras não, senão vamos cair de pau”.

O que é melhor, uma imprensa travestida do manto da isenção, mas que opera seus interesses nas entrelinhas, ou uma imprensa abertamente engajada?

Isenção no sentido de imparcialidade política não existe né? isso é bobagem. Eu gosto muito desta tradição americana, por exemplo, de fazer suas escolhas em editorial. Quer dizer: o New York Times fez uma escolha pelo Obama e deixou isso claro em editorial. No caso das eleições brasileiras de 2006, a Carta Capital foi a única que fez isso e fez uma cobertura das eleições muito mais isenta do que os veículos de mídia que supostamente eram neutros, mas que estavam claramente fazendo campanha para o Geraldo Alckmin. Pega as capas da Veja. É a manipulação insidiosa que é irritante, eu acho, para a inteligência do leitor. Você pega a capa com o Lula: é uma charge do Lula, com uma viseira, uma roubalheira acontecendo em volta dele, e ele sem ver nada. A capa com o Alckmin é iluminada, com um close up e a legenda: “a alternativa”. Tem que ser imbecil para não ver que aquela revista está manipulando. E aí depois eles reclamam de que a internet está acabando com os leitores deles, mas são eles que estão acabando com os leitores. Ninguém é burro, as pessoas não são burras. Eu insisto muito nisso na internet. Não subestime a inteligência das pessoas. É um principio pelo qual eu me pauto, que eu uso para criar meus filhos. É melhor ser honesto, contar a verdade. Dizer assim: a Carta Capital acha que a candidatura Lula é melhor por isso, por isso e por isso. Isso é no editorial, matérias jornalísticas são matérias jornalísticas. A credibilidade não tem nada a ver com neutralidade. São coisas completamente diferentes. Todo mundo que lê o meu blog sabe que eu não sou neutro, todo mundo sabe disso. Agora, a credibilidade vem do fato deles saberem que eu chequei a informação que eu estou passando. É evidente que eu posso errar, mas eles sabem que eu chequei a informação. Eles sabem que tem ali, embutido no argumento, o contraditório. Eles sabem quem eu sou, de onde eu escrevo, quais são as minhas escolhas políticas. A credibilidade vem disso, ela não vem de uma pretensa neutralidade. A Folha de S.Paulo tenta passar a impressão de que é um jornal eqüidistante das forças políticas deste país, quando todo mundo sabe as relações da Folha com o José Serra. Todo mundo conhece. Qualquer um que saiba o beabá da política brasileira sabe das relações da família Frias com José Serra. Os escândalos que se sucederam no governo paulista. Eles fizeram um contrato sem licitação para o metrô, abriu-se uma cratera no centro de São Paulo, uma cratera do tamanho deste quarteirão, morreu um monte de gente, o contrato era sem licitação, era superfaturado, todo mundo sabe disso. E não teve uma matéria que investigasse isso.

Dá para levar a sério uma imprensa assim?

Recentemente publiquei no meu blog os números da grande imprensa brasileira mostrando que todos os grandes jornais estão perdendo leitores de ano para ano. De 2000 a 2008 a Folha de S.Paulo perdeu 30% dos seus leitores. Você junta a falta de transparência com o fato de que estas escolhas políticas não ficam claras, com o fato de que a internet vai oferecendo cada vez mais opções plurais, instantâneas, e você tem a receita da crise da mídia. Não é muito difícil de entender.

Alguns apontam como saída para o Jornalismo impresso um aprofundamento da pauta, da análise. Isso não é o que estão fazendo os blogs, apesar da crítica de que eles apenas repercutem o que é publicado nos jornais?

É, é. Eu acho que esta critica procede em um certo sentido. Os blogs no Brasil ainda não produzem informação. A informação primária, da qual os blogs se nutrem, vem da imprensa mesmo. Eu não tenho um representante no Senado procurando informação para mim. Não tenho condição de ter isso. No caso da política é muito raro você ter blogs que realmente produzam a informação primária. Um blog que eu leio com assiduidade e que é um dos melhores blogs do Brasil - e que é uma exceção a esta regra - é o RS urgente. Eles produzem informação primária. O Marco Aurélio Weissheimer tem contatos na Câmara dos Vereadores, na Assembléia Legislativa, no Governo do Rio Grande do Sul, e quem segue o colapso, a crise profunda do governo Yeda Crusius sabe de tudo desde 2007. A imprensa começou a cobrir agora. A Veja fez uma matéria - porque a Yeda Crusius estava se transformando em um peso para a candidatura Serra – e a grande mídia brasileira resolveu rifá-la. Mas o escândalo está lá desde 2007. Eles levaram dois anos para descobrir que tinha superfaturamento no Detran, que tinha venda de carteira no Detran. É um escândalo que já tem cadáver. E o Zero Hora não dava nada. O Zero Hora, que passou quatro anos inventando um escândalo atrás do outro na época do Governo Olívio Dutra. Você pode olhar os artigos do Zero Hora nestes quatro anos do governo do PT no Rio Grande do Sul. Era um escândalo atrás do outro. Todos eles, no geral, inventados. Voltando a sua pergunta, é verdade que a grande maioria dos blogs não produz informação primária no caso da política, com algumas poucas exceções como o RS Urgente. O papel dos blogs tem sido aprofundar, checar dados, o que é muito importante. A informação em geral vem da grande mídia, mas a gente vai lá checar e muitas vezes achamos matérias mentirosas.

Este papel de aprofundar o debate não deveria estar sendo ocupado pelo impresso, até para a sua sobrevivência?

É claro. A história dos grampos, por exemplo, mostra isso. A imprensa toda noticiava os grampos sem prova nenhuma. O sujeito diz que foi grampeado pela Abin. Ele encontrou algum vestígio? Não. Qual é a prova? É o depoimento dele, que a própria revista que ele chamou foi lá e transcreveu e depois ele mesmo foi lá e disse que a transcrição era correta. É um negócio absolutamente delirante. E aí o que a internet fez? Vários leitores meus, por exemplo, que são engenheiros, demonstraram que, para que o tal grampo tivesse acontecido, determinado aparelho deveria ter sido instalado em tal lugar, o que, naquele prédio, era impossível por isso, por isso e por isso. Isso se dá com informação especializada, que muitas vezes não vem nem do blogeiro, vem dos leitores. No meu blog, modéstia à parte - e não é mérito meu, é mérito dos leitores - posso colocar qualquer coisa, dizer: “preciso que vocês chequem isso”. Não vai demorar duas horas e eles vão dar a resposta. Se eu coloco uma informação errada, o nome do goleiro que jogou a Copa de 38 por Cuba, não demora meia hora e alguém aponta este erro. É transparência.

Qual sua opinião sobre as possibilidades de financiamento de um Jornalismo blogueiro?

Há esta esperança de que a internet ocupe um pouco do espaço da grande mídia. A questão chave para isso é saber quem vai pagar a conta. Para que os blogs, portais, sites de internet ocupem este espaço, eles precisam ser financiados. Alguém precisa pagar os custos da produção de notícia. Esta ainda é uma questão que está no ar no Brasil. Os blogs brasileiros que conseguem algum tipo de renda que permita ao blogueiro viver daquilo são, em geral, blogs de tecnologia.

Você acha que o modelo de conteúdo pago não funcionaria no futuro?

O modelo de conteúdo pago não funciona. Esta história de você colocar uma grade no seu site na qual o sujeito tenha que pagar para ler este ou aquele artigo não funciona, pois a oferta é muito grande. É uma simples questão de oferta e procura. Como a oferta é muito grande, quem começar a botar grade paga vai dançar. O modelo do add sense, propagandas via Google, rendem uma mixaria que não sustenta ninguém. Outro dia estava conversando com o Miguel do Rosário, jornalista carioca que tem um blog muito bom, o Óleo do diabo, um blog de esquerda, e ele disse que tirou o add sense porque rendia R$ 30 por mês. Nos Estados Unidos a coisa esta um pouco mais adiantada. Aconteceu há seis meses uma coisa muito promissora. O Hunffington Post, que é um dos melhores blogs de política do país, conseguiu uma bolsa em uma fundação privada de US 1,2 milhão para fazer jornalismo investigativo. Mas esta é uma coisa bem americana, esta história das fundações que têm grana e investem.

Sem este respaldo fica mais difícil produzir conteúdo de qualidade?

Para ser o mais honesto possível, eu posso manter o Biscoito sem propaganda porque eu tenho um salário muito bom como professor universitário. Sou professor titular, já conquistei o que eu queria na minha carreira e posso dedicar uma boa parte do meu tempo ao blog, porque é importante e prioritário para mim neste momento. Se eu dependesse de trabalhar oito horas por dia, eu não teria o Biscoito do jeito que ele é.

Há um caminho neste sentido no Brasil, um vislumbre para o financiamento deste trabalho na internet?

Eu acho que no Brasil, os empresários e grupos empresariais que fizerem uma aposta inteligente vão se dar bem. O grupo empresarial que fizer um investimento em um grupo de meia dúzia de bons blogs - que estabeleça um contrato com eles em que fique claro o que se espera destes blogs, até a freqüência de posts, que permita que estes blogueiros preservem sua liberdade e independência - pode obter bons resultados. A burguesia brasileira é muito medrosa e pouco criativa, mas o cara que perceber que ali tem um filão, ele vai gastar dinheiro nos primeiros seis meses, no primeiro ano, mas se ele mantiver esta idéia e fizer uma boa seleção de blogs, uma boa aposta, ele vai se dar muito bem, pois a visibilidade é enorme. Pode até fazer uma escolha plural: um blogueiro de esquerda, um de centro, outro de direita, para atingir um espectro maior. Faltam ainda no Brasil modelos de financiamento para o jornalista que está na internet, mas estes modelos existem, estão aí.

Como você analisou a reação pública à decisão do Supremo Tribunal Federal pela não obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão no Brasil?

Foi interessante. Eu senti nos jornalistas um pânico que foi absolutamente revelador. No final das contas, o Supremo não proibiu nenhum grupo de mídia de exigir o diploma, ele não proibiu o diploma, ele não acabou com a faculdade de jornalismo, ele não fez absolutamente nada, a não ser dizer que uma obrigatoriedade que já nem era respeitada deixaria de existir na letra da lei. Se você olha, por exemplo, o futebol. Quem são os jornalistas esportivos mais respeitados e de credibilidade no Brasil? Eu diria Juca Kfouri, que é formado em Sociologia, e Tostão, que é formado em Medicina. Alguém duvida que estes caras estão entre os três ou quatro melhores comentaristas de futebol do Brasil? Então, eu vi muito pânico, uma mostra da situação de crise do jornalismo brasileiro, a incerteza do jornalismo. Às vezes eu tiro sarro, pois tenho uma critica muito aguda à mídia, e os jornalistas foram muito arrogantes durante muito tempo. Agora é a nossa vez de tirar um sarrinho. Nós, os leitores de jornais, que passamos 20 anos escrevendo cartas para painel de leitor sendo ignorados, às vezes com correções importantes. Então, estamos agora, realmente, tirando um sarrinho com a reação dos jornalistas. No caso das reações negativas à decisão do STF, a única que realmente chegou perto de me fazer refletir foi a do Leandro Fortes, que eu considero o grande jornalista brasileiro de hoje. O Leandro argumentava que, com a queda da obrigatoriedade do diploma, os donos de veículos de comunicação do interior do Brasil estariam livres para contratar capangas. A manipulação ficaria mais fácil. Eu não conheço a realidade do interior do Brasil para dizer se o Leandro está certo ou não. Mas foi o único argumento que eu levei a sério. O resto foi desespero. Não vi nenhuma defesa da obrigatoriedade do diploma sendo feita por quem não fosse jornalista. Curioso.