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terça-feira, 16 de junho de 2009

A longa noite iraniana

Na noite de ontem, ruas, avenidas e praças de Teerã estavam vazias devido ao toque de recolher e a disposição das tropas iranianas de disparar contra a população civil. No entanto, o silêncio na capital persa foi interrompido por gritos vindos de dentro das casas em diversos bairros da cidade: “Allah o Akbar" (Deus é grande), foi o brado que quebrou o silêncio na noite de Teerã, o mesmo grito de guerra que embalou a Revolução Islâmica de 1979 (que derrubou o regime do xá Reza Pahlevi, um monarca apoiado pelos Estados Unidos que liderou uma modernização ocidentalizante e autoritária no país). O relato, feito pela professora de matemática Vida Ladan, 52, à Folha de S.Paulo, mostra os ânimos dos iranianos diante da reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad (que está na Rússia, em visita oficial) na sexta-feira.

Os protestos, que chegam hoje ao quarto dia, são os mais violentos distúrbios da capital desde a revolução de 79. A rádio e a TV estatal do país noticiam que ao menos sete pessoas foram mortas durante as manifestações de ontem (no twitter fala-se em mais mortes hoje), quando milhares de manifestantes (algumas fontes falam em um milhão) favoráveis ao candidato opositor reformista Mir Hossein Mousavi foram às ruas de Teerã para denunciar uma possível fraude. Hoje, Mousavi pediu que a população não volte às ruas, temendo um banho de sangue. No entanto, o movimento popular parece ter transbordado e mihares de iranianos voltaram a protestar pelas ruas e praças de Teerã após Mousavi ter recusado a proposta de recontagem de votos feita pelo regime.


As manifestações da oposição levaram o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei a pedir uma investigação sobre as denúncias. O Conselho dos Guardiões (um corpo de 12 integrantes que é pilar da teocracia iraniana) anunciou hoje que está disposto a recontar os votos. O anúncio representa uma mudança radical de posição. O porta-voz do Conselho, Abbas Ali Kadkhodai, ressaltou, contudo, que a recontagem será apenas das urnas em que existam denúncias de irregularidades. A proposta não agradou os reformistas, que queriam a anulação das eleições.

Com ou sem fraude, o apoio fiel do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, a Ahmadinejad é o maior perigo para os reformistas. Khamenei vê qualquer tipo de abertura - seja na política externa ou nos costumes - como ameaça à própria teocracia que lidera desde 1989, quando substituiu o fundador da República Islâmica do Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989).

A advogada Nasrin Sotodeh, que participou da campanha de Mousavi e é especialista em direitos humanos (e integrante da entidade Iran Humans Rights Voice), aponta – em entrevista à Folha, para o perigo de um endurecimento do regime: "Parece que estamos vivendo um golpe militar, com mais repressão e tiros que nos últimos anos, nunca tivemos uma situação parecida. Se a batalha sobre o resultado da eleição for perdida, acho que mais e mais jovens ficarão céticos sobre o desejo do regime de se abrir e seguirão o caminho de outros 5 milhões de iranianos, deixar o país.".

Um sinal deste recrudescimento ocorreu hoje com a decisão do Ministério de Guia e Orientação Islâmica que anulou todas as permissões de trabalho de jornalistas estrangeiros e agências de notícia no país e advertiu que não podem cobrir nenhuma manifestação ou concentração popular que não conte com a autorização do órgão. Em nota oficial, o Ministério explica que os jornalistas podem continuar trabalhando de seus escritórios, mas não terão credenciais para cobrir os protestos in loco. "Nenhum jornalista tem permissão para reportar, filmar ou tirar fotografias na cidade", disse um funcionário do ministério à agência de notícias Reuters.

Outro sinal é a prisão do ex-vice-presidente reformista Mohammad Ali Abtahi, que foi braço direito do ex-presidente Mohammad Khatami. Ele foi detido nesta terça-feira, em sua própria casa, em Teerã, por um grupo de homens que o levou a um lugar desconhecido. Um funcionário do político confirmou a notícia à agência de notícias Efe. Abtahi escrevia em um blog usado para fazer campanha a favor do candidato reformista Mehdi Karroubi.

O protesto na rede

Manifestantes estão usando o Twitter para disseminar informações sobre os protestos, apesar dos esforços das autoridades iranianas em bloquear notícias e dados sobre o assunto. Houve, por exemplo, bloqueio das mensagens de texto dos sites que apóiam Mousavie e do site de relacionamentos Facebook. Quando finalizei este artigo, o tag "#iranelection" dava conta de que as ligações por celular haviam sido bloqueadas em Teerã.

Tags como "#iranelection", "#Tehran", "#Iranians" e #Change_for_Iran estão entre os mais comentados do Twitter. Segundo medição do site twist.flaptor.com, na manhã desta terça-feira a tag "iranelection" estava presente em 1,29% dos textos publicados no Twitter - no pico, esse índice já foi de 2,03%. Já "Teheran" chegou a 0,95% dos posts e "Iranians", a 0,8%. Por meio destes tags é possível acompanhar momento a momento o confronto no Irã.

Para onde vai o Irã?

Pedro Doria nos oferece um panorama interessante. Gustavo Chacra, por sua vez, pensa que Ahmedinejad e Khamanei devem estar se perguntando sobre a longevidade do regime islâmico e cita o veteraníssimo Robert Fisk, correspondente do The Independent no Oriente Médio, “que comparou, na rede de TV Al Jazeera, as manifestações de ontem com as ocorridas durante a Revolução Islâmica, em 1979, que ele cobriu. Mas o repórter afirma que os atos são apenas contra Ahmadinejad e o resultado eleitoral, considerado uma fraude. Os manifestantes não buscam, segundo Fisk, derrubar o regime.”.

Fisk está em Teerã. Seu artigo publicado hoje no The Independent é um testemunho da febre renovadora que tomou conta dos iranianos e que pode, sim, dar um novo caminho ao país caso consiga escapar do punho forte do regime. Em meio ao milhão de pessoas que – degundo o jornalista - foram para as ruas da capital iraniana, Fisk pergunta: “Poderá (os protestos) mudar a arrogância do poder demonstrado por Mahmoud Ahmadinejad?”.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Obama joga para a torcida

O discurso do premiê israelense Benjamin Netanyahu, ontem, não causou surpresas. Pressionado pelos Estados Unidos a demonstrar um pouco de jogo de cintura sobre a questão palestina no melhor estilo “me ajuda a te ajudar”, “Bibi” falou o que Obama queria ouvir, mas, de fato, não disse absolutamente nada. Ao condicionar a criação de um Estado Palestino a imposições que dizem respeito à soberania dos palestinos, deixou o debate encalacrado no mesmo atoleiro em que sempre esteve. O mais grave não foi o que disse ou deixou de dizer Netanyahu, mas a reação de Obama que, segundo o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, celebrou o discurso do premiê israelense. É um sinal grave de que – assim como ocorreu com Guantanamo e a tortura – o presidente dos Estados Unidos joga mesmo é para a torcida.

Lula surta em declarações sobre o Irã

O presidente Lula é débil mental, ou somos nós os estúpidos? Suas declarações sobre a eleição iraniana são de envergonhar. Diante dos cada vez mais óbvios sinais de fraude, e das manifestações (reprimidas pelo governo) de gente desiludida com o que poderia ser uma demonstração de democracia, nosso presidente confundiu (mais uma vez) alhos com bugalhos e disse o seguinte: “Ele (o presidente reeleito Mahmoud Ahmadinejad) recebeu mais de 60% dos votos. Isso é algo expressivo. Essas manifestações são de quem perdeu. Eu mesmo já participei de muitas assim”. Reduzindo assunto sério a piadinhas que devem levar as gargalhadas os barnabés que o cercam, Lula disse ainda que não conhecia ninguém que contestasse a eleição iraniana, “a não ser a oposição” e foi além: “Por enquanto é apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos”. Lamentável.

Diplomacia de resultados e a arte de se equilibar sobre muros

"O Brasil não tem de ficar distribuindo certificados de bom comportamento ou de mau comportamento pelo mundo afora. Não é essa a tradição da política externa brasileira", disse ontem o assessor especial do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, ao chegar a Genebra (Suíça), onde o presidente proferiu, nesta segunda-feira, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, um discurso no qual confirma a lamentável posição brasileira de se manter sobre o muro quando tem que se posicionar sobre violações dos direitos humanos mundo afora.

A estratégia brasileira, de se omitir sistematicamente, pode ser politicamente interessante, já que o país espera o apoio dos blocos africano e asiático (que abrigam a maioria dos países que desrespeitam os direitos básicos de civilidade) para conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança. No entanto, moralmente, trata-se de um posicionamento horroroso.

Em seu pronunciamento, Lula defendeu seu governo das criticas sustentadas por diversas organizações ligadas à defesa dos direitos humanos. Disse que a agenda do Conselho deve de pautar por ações positivas, “o que é muito mais eficaz na prevenção de novas violações dos direitos humanos". Segundo o presidente, "devemos promover o diálogo e não a imposição".

Ocorre que, na prática, isso significa fazer vista grossa para assassinatos, seqüestros, estupros em massa entre outras barbaridades.

Recentemente, por exemplo, o Brasil trabalhou e votou a favor de resoluções brandas sobre a situação no Sri Lanka e na Coréia do Norte. Ou seja: o país impediu a investigação sobre crimes de guerra no Sri Lanka, deixado no limbo os milhares de vítimas civis dos 26 anos de guerra entre o governo e os separatistas tâmeis. No caso da Coréia do Norte, enquanto todo o mundo se posicionava contra a expansão nuclear para fins bélicos, o Brasil preferiu se abster.

É a diplomacia de resultados brasileira mostrando o que faz melhor: barganha.

Alvo de críticas

O resultado deste posicionamento pouco nobre foi uma chuva de protestos. Em nota, a ONG Human Rights Watch (HRW) afirmou que o país apóia os algozes ao invés de apoiar as vítimas. "O Brasil parece mais preocupado em não ofender aqueles países que cometem abusos que em implementar o mandato do Conselho para tratar de violações de direitos humanos, o Brasil se alia aos violadores de direitos humanos ao invés de se aliar às vítimas", disse Julie de Rivero, diretora da HRW,

Para Rivero, a alegação brasileira de que é melhor atrair estes países para o Conselho que condená-los publicamente é recheada de equívocos: “O Brasil alega solidariedade, mas essa solidariedade acaba sendo com governos que cometem abusos contra os direitos humanos, e não com as vítimas desses abusos. O apoio do Brasil a governos notórios por seus abusos aos direitos humanos enfraquece a atuação do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Ao invés de defender as vítimas, o Brasil normalmente argumenta que os governos precisam de uma chance e que a soberania das nações é mais importante que os direitos humanos. Um dos limites à soberania são justamente as violações de direitos humanos”, afirmou.

Para a ONG brasileira Conectas, o "fracasso do Brasil em se opor ao desvio dos objetivos do Conselho e às vezes a do seu compromisso com o processo é alarmante". Em nota, a organização disse que "a posição do Brasil no Conselho está marcada por ambigüidades, particularmente em casos graves e persistentes de abusos, em países específicos.". No caso do Sri Lanka, para a Conectas, o Brasil "retrocedeu seis anos ao enaltecer o princípio de não interferência".

A entidade afirma que o Brasil usa o Conselho como um órgão para "redefinir a geopolítica mundial". Diretora internacional da ONG, Lúcia Nader disse à BBC que, “no afã de promover as relações sul-sul, o Brasil acaba apoiando resoluções brandas como um meio termo entre textos mais incisivos propostos pela União Europeia e os Estados Unidos, e textos insípidos levados adiante por aliados regionais dos países em questão”.

Outra ONG internacional que criticou a postura do governo brasileiro foi a Anistia Internacional. A entidade afirmou que "reconhece o potencial benefício do papel mediador que o Brasil deseja desempenhar entre regiões e grupos de Estados no Conselho", mas que "isto não pode vir às custas de tomar posições firmes em favor da proteção dos direitos humanos, particularmente em situação de graves e sistemáticas violações".

De olho

O próximo voto do Brasil no Conselho - ainda nesta semana - se refere à extensão do mandato do relator especial da ONU para o Sudão. Em ocasiões passadas, o país, sob a alegação de cooperação, apoiou resoluções fracas que não se comprometiam com as vítimas do Sudão.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A sombra do fascismo

Os partidos de centro-direita obtiveram bons resultados nas eleições para o Parlamento Europeu, fortalecendo sua posição como o maior bloco da casa, em contraste com o mau desempenho da esquerda. Partidos de extrema-direita e com políticas anti-imigração também obtiveram ganhos preocupantes.

A exemplo do que ocorreu com Partido Nacional Britânico (BNP) na Grã-Bretanha - que obteve duas cadeiras no Parlamento pela primeira vez na história - outros partidos de extrema direita tiveram um bom desempenho em vários países, como a Holanda, Áustria, Dinamarca, Eslováquia e Hungria.

Na Holanda, o partido euro-cético e anti-imigração do neo-fascisa Geert Wilders ficou em segundo lugar.Na Áustria, o partido de extrema-direita Freedom Party recebeu o dobro da porcentagem de votos em comparação com as eleições de 2009.

A expectativa é de que o Partido do Povo Europeu (EPP, na sigla em inglês), mantenha o controle do Parlamento, tendo conquistado 265 das 736 cadeiras. O bloco de centro-esquerda deve ficar com 159 cadeiras, enquanto o bloco liberal deve obter 81 cadeiras.

O Parlamento Europeu é o único órgão da União Europeia eleito diretamente. Seu trabalho é debater, apresentar emendas, rejeitar ou aprovar as leis propostas pelo órgão executivo da EU, a Comissão Europeia. Sua aprovação, no entanto, não é necessária para todas as leis europeias.

Esta foi a maior eleição trans-nacional já realizada. Ao todo, 375 milhões de eleitores estavam habilitados a votar em 27 países. O comparecimento às urnas foi de apenas 43%, o mais baixo desde que as primeiras eleições diretas para o Parlamento, há 30 anos.

A sombra do fascismo

O resultado da eleição para o Parlamento Eurupeu mostra que o renascimento do fascismo está ocorrendo sem que se tome qualquer iniciativa para esmagá-lo no berço. No artigo “O fantasma do fascismo”, publicado em fevereiro, no Observatório da Imprensa, o jornalista Luciano Martins Costa já expressava seu temor de que o monstro que assolou o mundo por décadas no século passado, inspirou ditadores de esquerda e de direita e levou a morte de milhões de seres humanos esteja novamente escancarando suas mandíbulas.

A Suíça, por exemplo, está desenvolvendo fama de país perigoso para estrangeiros. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, uma pesquisa divulgada em junho de 2006 mostrou que um terço dos suíços é declaradamente xenófobo. “Doudou Diène, relator especial da ONU para o racismo, afirmou recentemente que o racismo é uma grave questão na Suíça, principalmente porque as autoridades locais não acreditam que o problema seja sério”, afirma a reportagem.

Também em entrevista ao Estadão, a diretora da Comissão Federal Suíça contra o Racismo, Doris Angst, comentou o comportamento da polícia suiça em seu trato com casos de racismo: "A polícia suíça é parcialmente cega quando se trata de casos de extremistas e de neonazistas”. Segundo ela, há de fato um mal-estar no país em relação à xenofobia: “O comportamento de jovens extremistas contra os estrangeiros é um reflexo dos sentimentos que vive a sociedade suíça".

Irene Zwentsch, brasileira que trabalha para o Conselho Brasil-Suíça - entidade com sede na Suiça e que ajuda a integração dos brasileiros vai além: "O público em geral não se importa com as vítimas dos extremistas. Qualquer um que se pareça estrangeiro ou que tenha pele escura tem razão de ter medo da violência. Racismo, antissemitismo, islamofobia são inerentes às ideologias de extrema direita".

Além dos Alpes

Levantamento feito por duas juntas de Direitos Humanos da Comissão Europeia, em Viena e Estrasburgo, baseando-se em dados recentes, apontou que o número de denúncias de violência racial aumentou drasticamente em oito dos 11 países-membros da União Européia desde os atentados de 11 de Setembro e o início da chamada "Guerra ao Terror".

Os relatórios revelam que o número de crimes anti-semitas cresceu no Reino Unido e na França, enquanto outras manifestações de violência de extrema direita são cada vez mais freqüentes na Alemanha. A Agência de Direitos Fundamentais da União Européia, com sede em Viena, na Áustria, apontou – por meio de dados atualizados até 2006 – que as denúncias, investigações e crimes raciais e xenófobos aumentaram na Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Áustria, Irlanda, Reino Unido, França e Eslováquia.

Segundo os levantamentos, o País com maior número de crimes raciais e ligados à xenofobia é a Alemanha, com 18,1 mil crimes cometidos em 2006, alta de 5,3% na década. É a Dinamarca, país que acolhe grandes contingentes de novos imigrantes, que apresenta, no entanto, os maiores índices percentuais. Lá, incidentes do gênero tornaram-se 59,1% mais comuns entre 2000 e 2006. Entre as nações mais populosas do bloco, a França, com aumento de 27,7%, e o Reino Unido, de 27,3%, também foram destaques negativos.

Na Itália do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, estratégias do governo muito se assemelham ao que as milícias fascistas que perseguiam opositores, judeus, homossexuais e outros desafetos do regime de Mussolini faziam nos anos 30 e 40.

Palco de intensos protestos no início do ano, o Reino Unido também demonstrou tendências xenófobas quando centenas de trabalhadores britânicos protestaram carregando placas cujos dizeres pediam “empregos do Reino Unido para trabalhadores britânicos”. Uma greve envolvendo trabalhadores em uma refinaria, cujos postos eram ocupados por italianos e portugueses, foi o estopim da crise. Sindicatos protestaram contra o governo, dizendo que trabalhadores nativos estavam sendo minados por estrangeiros com salários mais baixos. O primeiro ministro inglês, Gordon Brown, reforçou o grito de guerra dos grevistas, acirrando inda mais o clima de confronto.

Na Espanha, onde o desemprego chega a quase 16%, os estrangeiros também têm sofrido. Segundo Ivan Briscoe, do Centro de Pesquisa para a Paz, Fundação para as Relações Internacionais e o Diálogo Externo, no país, por trabalharem com menos garantias, os estrangeiros ficam no front do desemprego.

Paralelos

Em reportagem publicada no JB Online, Antônio Inácio Andrioli, professor do Instituto de Sociologia da Universidade Johannes Kepler, de Linz, na Áustria, considerou que há paralelos entre o que ocorre hoje na Europa e a crise de 1929, que possibilitou a ascensão do nazismo.

O aumento da desigualdade social e do desemprego, as principais conseqüências visíveis do desmonte das políticas de privatização das últimas décadas, contribuiu para produzir um antigo fenômeno social: a xenofobia. Em períodos marcados pela recessão e pela ausência de movimentos e utopias revolucionários, abre-se o espaço para a interpretação simplista e populista da realidade, que culpa os estrangeiros pelos problemas sociais. A ausência de alternativas políticas e o conseqüente sentimento de impotência e desesperança social são um terreno fértil para o aumento da xenofobia”, afirmou.

O primeiro ministro espanhol, José Luís Rodríguez Zapatero, fez um recente apelo para que a Europa esteja “unida e forte para combater sintomas inquietantes de nacionalismo, xenofobia e tentações protecionistas”. No entanto, de forma geral, esta não parece ser uma preocupação dos dirigentes europeus que, em junho de 2008, por meio do Parlamento Europeu, aprovaram uma diretiva de retorno de imigrantes ilegais, que entrará em vigor em 2010 e que pode gerar a expulsão de cerca de oito milhões de imigrantes irregulares da Europa, grande parte deles latino-americanos.

Tempestade em copo d´água?

Este tipo de política pode parecer sem importância. Há quem possa argumentar que é legítima e que os governantes devem defender os interesses de seus cidadãos. Ocorre que estamos falando de algo mais completo, que tem origem na intolerância gerada pela crise e que não é coisa nova. A história já viu situações similares no passado e os resultados são sempre funestos: para dar vazão à insatisfação causada por crises econômicas, populações nativas atacam gente de cor, convicção ou credo diverso dos seus como se isso fosse solucionar o problema.

A xenofobia e o racismo são primos indissociáveis e as reações que suscitam atingem o seio das sociedades onde proliferam. É o caso dos Estados Unidos, por exemplo, onde o anúncio feito pela Microsoft no início do ano, de que demitiria mais de cinco mil funcionários por causa da crise, fez com que o senador republicano Chuck Grassley, de Iowa, escrevesse uma carta à empresa pedindo que seu executivo-chefe dispensasse primeiro trabalhadores estrangeiros com visto H-1B (de trabalho qualificado temporário): "A Microsoft tem uma obrigação moral de proteger os trabalhadores americanos ao priorizar seus empregos durante esses tempos difíceis", disse.

Organizações civis como a Coalizão para o Futuro do Trabalhador Americano (CFAW) - que reúne grupos anti-imigração – seguem na mesma linha. A CFAW iniciou neste ano uma campanha de TV associando o desemprego aos trabalhadores estrangeiros, como os com o visto H-1B.

Do outro lado do mundo, em Israel, o fortalecimento do partido neo-fascista Yisrael Beiteinu, liderado por Avigdor Lieberman, e seus mantras de "morte aos árabes", é outro exemplo de como a intolerância pode proliferar diante de nossos olhos. Contraposta aos radicais islâmicos que, da mesma forma entoam cânticos pela destruição de Israel, a recente guinada política israelense à direita foi igualmente temerosa.

Até nas redes sociais o fenômeno é identificável. As denúncias de xenofobia no site de relacionamentos Orkut, por exemplo, cresceram mais de 150% no segundo semestre de 2008 na comparação com os seis primeiros meses do ano, segundo a ONG SaferNet Brasil, que defende os direitos humanos na web.

No primeiro semestre do ano passado, a ONG recebeu 706 denúncias de crimes relacionados à xenofobia, contra 1.876 recebidas no segundo semestre, o que corresponde a um crescimento de 165,7%. O segundo maior aumento foi nos casos de homofobia, com 47,3% - passou de 567 denúncias (primeiro semestre de 2008) para 835 (segundo semestre). Na mesma comparação, as denúncias de neonazismo cresceram 28,2% e as de apologia e incitação a crimes contra a vida, 18,5%.

São as sementes do fascismo germinando, devagar, mas ininterruptamente.

Finalmente, vale dizer que a história caminha sem que estejamos dando a real importância aos fatos. Olhando o passado, nos chocamos hoje com o que este tipo de atitude permitiu: os holocaustos armênio e judeu, as grandes guerras (e as pequenas), os campos da fome de Stalin e as genocidas ditaduras comunistas do Oriente, as barbáries no continente africano etc. Olhando para trás nos perguntamos como foi possível às massas terem seguido Mussolini, Hitler, Stalin. Como permitiram?

Assim como aquelas pessoas deixaram a irracionalidade guiar seus desatinos, nada impede que, hoje, outros povos façam o mesmo. É fácil esquecermos os precedentes abertos, imaginando que estamos livres de tais barbaridades no futuro, mas o fato é que os crimes do passado tiveram início com os mesmos argumentos que hoje vemos proferidos por líderes mundiais: intolerância, ódio, xenofobia.

Todas as barbaridades começam com uma idéia que a muitos parece aceitável.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Microsoft, Google e AOL ajudam ditadores

As grandes empresas que dominam a internet deram uma grande colaboração aos regimes ditatoriais mundo afora. Na semana passada, a Microsoft anunciou o bloqueio do MSN em países embargados economicamente pelos Estados Unidos. Hoje, empresas como Google e AOL afirmarem que também vão restringir o acesso aos seus produtos para a Síria, Irã, Cuba, Sudão e Coréia do Norte, países que estão na lista negra estadunidense.

Há duas questões interessantes a serem analisadas. A primeira é o caráter ideológico da rede, uma pá de cal sobre os que imaginam inocentemente que o poder político-econômico (seja da matiz ideológica que for) não pode cercear a liberdade - ainda anárquica - que permeia o mundo virtual. Eles podem, sim, e farão isso.

O jornal cubano Juventud Rebelde, do órgão oficial cubano para a Juventude, levantou uma questão interessante ao dizer que "o mais paradoxal é que a medida seja tomada precisamente por uma empresa como a Microsoft". Afinal, ao lançar o MSN uma década atrás, a empresa “espalhou aos quatro ventos que este se dedicaria a fomentar a troca 'livre' entre as pessoas, sem distinção de raça, credo, crenças políticas ou qualquer outro elemento discriminatório". Balela.

Mas, incoerência maior é que o embargo digital tem por objetivo enfraquecer as estruturas de países considerados pelos estadunidenses como ameaças a democracia e ao bem estar entre os países. Ora, ao bloquear o serviço, Washington faz exatamente o contrário, visto que a internet, ainda que controlada nestas ditaduras, é o grande campo para a livre circulação de informações dos que enfrentam o totalitarismo.

A blogeira cubana Yoani Sánchez resumiu a ópera.

Há cerca de três anos uma amiga me infiltrou no escritório governamental em que trabalhava para que eu pudesse me contatar a internet. Queria escrever um artigo e me faltavam alguns dados, motivo pelo qual lhe pedi alguns minutos no obsoleto computador da empresa. Eram os tempos em que eu fingia ser turista para acessar a rede nos hotéis, mas naquela semana me faltavam os pesos com que pagar uma hora de acesso. Minha amiga me mostrou uma lista de acessos proibidos nesta conexão institucional e alertou que o MSN estava entre eles... Agora a proibição vem de outro lado, exatamente da parte de quem construiu um programa que nos ajudava a escapar do controle. Sinto que com ele (o embargo) saímos perdendo nós, cidadãos, já que nossos governantes têm seus próprios canais de comunicação com o resto do mundo. Trata-se, claramente, de um golpe contra os internautas, contra os ‘foragidos da rede’, nós que acessamos a internet em Cuba. Com certeza, na empresa em que trabalha minha amiga, o censor que monitora as conexões deve estar de férias: a Microsoft acaba de fazer o trabalho por ele”.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Ahmadinejad, não. Karimov também. E Liberman?

Pedro Doria levanta em seu blog uma questão pertinente: Ahmadinejad, não. Mas Karimov pode? Ele quer saber o motivo pelo qual alguns se levantaram contra a visita (abortada) do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil, mas nada falam sobre o encontro que o presidente Lula terá com o presidente do Uzbequistão, Islam Karimov, na próxima quinta-feira. Islam, pelo que circula, costumava ferver seus adversários políticos além de ordenar massacres de civis.

Assim como Doria quis saber sobre o uzbeque, eu tento entender por que ninguém se manifestou até o momento sobre a visita que o racista ministro das relações exteriores de Israel, Avigdor Liberman, fará ao Brasil em julho. Escrevi sobre o tema recentemente no artiguito “Liberman vem aí... em que ele se difere de Ahmadinejad?”.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Tenho medo da Coréia do Norte, mas também de Israel, da Índia, do Paquistão, dos Estados Unidos, da Rússia, etc, etc...

Durante a eclosão da crise atômica iraniana, em 2007, o jornal O Estado de S.Paulo publicou um infográfico no qual pretendia dar aos seus leitores respostas para questões pertinentes ao tema. Uma destas respostas explicava o motivo pelo qual “a comunidade internacional tem uma posição diferente em relação a Israel”, que possui armamentos nucleares. Segundo o Estadão, isso ocorreria, pois “Israel não é membro do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP - que permite aos países signatários enriquecerem seu próprio combustível nuclear apenas para fins de geração de energia) e, portanto, não tem obrigação de obedecê-lo”.

A análise do Estadão continua argumentando que “O mesmo ocorre com a Índia e o Paquistão, que também desenvolveram armas nucleares”, e finaliza dizendo que “A Coréia do Norte deixou o tratado e anunciou que adquiriu capacidade de produzir armas nucleares no final do ano passado (2006)”.

Ao justificar o motivo pelo qual o Brasil, que também enriquece urânio (condição básica para o desenvolvimento armas nucleares), e, assim como o Irã, é signatário do TNP, receberia um tratamento diferente do oferecido aos iranianos, o Estadão diz que “o Brasil não é visto como uma ameaça e todos acreditam no propósito pacífico deste projeto”.

O infográfico diz também que os iranianos garantem estar enriquecendo o urânio para fins pacíficos, dentro do que apregoa o TNP, mas que, segundo as potências ocidentais, “não é possível confiar no Irã”.

Resumindo, Israel não é signatário do TNP, portanto não precisa seguir suas orientações e restrições. Ora, a Coréia do Norte também não é signatária do tratado, no que ela se difere de Israel? A leitura feita pelo jornalão paulista é a síntese do pensamento ocidental: nós somos confiáveis, eles não. Ora, a noção de quem somos “nós” e de quem são “eles” varia de acordo com as alianças. De fato, a confiabilidade depende exclusivamente de que lado do tabuleiro geopolítico cada nação se encontra.

Hoje, a Coréia do Norte anunciou ter realizado com sucesso um novo teste nuclear, provocando reações alarmadas dos Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, Japão, China, Alemanha, Coréia do Sul e União Européia. Na onda dos protestos já surgiram ilações sobre uma possível relação entre o programa nuclear norte-coreano e o do Irã, dando – apesar das negações do presidente do Irã, Mamhoud Ahmadinejad - munição para que Israel volte a alimentar planos de um ataque “preventivo” contra os iranianos.

A proliferação de armas nucleares é preocupante. Em 2007, o Boletim de Cientistas Nucleares afirmava que “o fim do mundo pode estar próximo”. Segundo os especialistas, a humanidade está à beira de uma segunda era nuclear e terá que tomar rapidamente as decisões mais drásticas desde o lançamento das bombas de Hiroxima e Nagasaki. A organização também apontava os perigos de um terrorismo nuclear e a existência de um mercado negro de material físsil que poderia armar grupos radicais mundo afora.

Esta questão não é nova. Em novembro de 2001 – em plena onda de pavor gerada após o 11 de setembro - a revista Veja destacava uma reportagem intitulada “Ameaça nuclear do Islã” (aqui para assinantes), onde alertava para o perigo de o Paquistão, um dos poucos “aliados” muçulmanos dos Estados Unidos, servir de arsenal atômico para grupos fundamentalistas islâmicos que porventura viessem a tomar as rédeas do país.

No entanto, a questão é mais ampla, e não pode estar restrita a demonização deste ou daquele país baseando-se apenas nos temores do ocidente. O fato é que a questão nuclear envolve todos os países que mantém ogivas nucleares.

De acordo com o relatório “Global nuclear stockpiles, 1945-2006” (Estoques nucleares globais, 1945-2006), a distribuição das armas nucleares no mundo é atualmente a seguinte:

EUA – aproximadamente 10.000 ogivas, das quais mais de 5.000 operacionais
Rússia – aproximadamente 5.000 ogivas operacionais
França – cerca de 350 ogivas operacionais
Grã-Bretanha - cerca de 200 ogivas operacionais;
China – aproximadamente 200 ogivas operacionais;
Índia e Paquistão – cerca de 110 ogivas operacionais, considerados os dois arsenais;
Israel* – entre 150 e 190 ogivas operacionais;
Coréia do Norte – cerca de 10 ogivas operacionais.

* Outras fontes estimam que Israel possui entre 200 e 500 ogivas, além de um sofisticado sistema de lançamento. Para saber mais sobre o programa nuclear israelense, leia o artigo de John Steinbach, “Israeli Weapons of Mass Destruction, A Threat to Peace: Israel's Nuclear Arsenal”.

Limitar a questão ao medo do terrorismo e ampliá-la para o temor quanto ao destino que este ou aquele país pode dar ao seu arsenal nuclear devido ao seu posicionamento político é limitar a questão. O debate deve ser focado na eliminação total das ogivas nucleares, este sim um argumento de peso para proibir o desenvolvimento de armas nucleares por qualquer país. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deu recentemente um passo nesta direção, ao menos no discurso.

A eliminação da ameaça nuclear não será possível enquanto prevalecer o discurso que divide os países quanto a sua confiabilidade, como defende Oliver Meier, representante internacional da Associação de Controle Armamentista, segundo quem não é possível juntar num mesmo grupo todos os países que possuem armas nucleares.

Uma primeira categoria incluiria a França, o Reino Unido e a China, nações reconhecidas pelo TNP e com as quais seria mais fácil negociar. Outro grupo incluiria Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte, países não reconhecidos formalmente pelo mesmo tratado. Das potências nucleares oficiais, o Reino Unido e a China tendem a ser mais abertos ao desarmamento nuclear global, enquanto a França tem uma postura mais relutante. A coisa muda de figura quando se trata das potências nucleares não oficiais. “Nesse caso, trata-se de um assunto de segurança regional. Em se tratando de Israel, haverá naturalmente o problema do Oriente Médio, do Irã, e tudo vai depender dos progressos na região. A Índia e o Paquistão têm o problema da rivalidade entre si. E, no caso da Coreia do Norte, ninguém sabe que política eles estão seguindo no momento", afirma Meier.

No entanto, quem é confiável quando o assunto é a ameaça nuclear? Melhor, quem é mais confiável? Os Estados Unidos ou a Rússia? Israel ou o Irã? Paquistão ou a índia? A Coréia do Norte ou a China? A Inglaterra, a França ou a Alemanha?

Não há como apostar as fichas neste o aquele país, pois tudo se resume a quem tem nas mãos o poder de escrever a história. Aos derrotados caberá apenas as cinzas de um inverno nuclear. Devemos acreditar em um deles, ou brigar pela eliminação total das armas nucleares em médio e longo prazo?

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Nossos excelentíssimos

“Atualizando-se o currículo dos ocupantes da Câmara, agora se sabe que: há deputado acusado de estupro, há deputado dono de castelo, há deputado que embolsa dinheiro da verba indenizatória, há (muitos) deputados que viajam pelo mundo com dinheiro público. Há também deputado que se lixa para a opinião pública. Esse, no entanto, se deu mal. Sérgio Moraes, do PTB gaúcho, descobriu na semana passada que seus sentimentos em relação ao que pensam os eleitores e os contribuintes que lhe pagam o salário e as mordomias são correspondidos. Relator do processo de cassação do deputado Edmar Moreira, aquele que escondeu do Fisco um castelão de 25 milhões de reais, Moraes havia sugerido que iria pedir o arquivamento do caso: "Estou me lixando para a opinião pública! Vocês batem, batem e nós nos reelegemos mesmo assim". O desprezo do deputado é compartilhado, em segredo, por numerosos parlamentares. Moraes pecou por sua verborrágica sinceridade. Seus colegas mais ladinos – e hipócritas – perceberam que a opinião pública ficou magoada e queria que o deputado se lixasse. Na quarta-feira, eles afastaram Moraes da relatoria do caso. Episódios assim não acontecem por acaso. Os deputados sabiam que Moraes era o homem certo no lugar certo. Sabiam que ele já foi processado por agressão, favorecimento à prostituição e outros crimes pesados. Eles também se lixam para o eleitor. A diferença é que não são sinceros.”

Diego Escosteguy, fazendo uma radiografia de nossos parlamentares, na Veja.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Jefferson, Lula e o mensalão

Autor das denúncias sobre o mensalão, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) disse na semana passada, em entrevista ao jornalista Kennedy Alencar, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não sabia do esquema antes de ser denunciado. A declaração foi dada durante a gravação do "É Notícia", exibido pela RedeTV!. Em de 2006 tive a oportunidade de entrevistá-lo durante uma visita ao MS. Na oportunidade, Jefferson afirmou ter arrolado o presidente como testemunha no processo.

Apresentei um requerimento na Casa Civil, cujo prazo de resposta se esgota na próxima semana, indagando do presidente quais as medidas que ele tomou a partir de janeiro, quando eu o informei da existência provada e comprovada do mensalão. Quero saber que atitudes ele tomou na prática. Ele vai confirmar. Ele já disse isso à imprensa. Ele não pode fugir à verdade em seu depoimento.”, me disse o ex-deputado.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Olho por olho, pedra por pedra e todos se lixando

O Supremo Tribunal Federal (STF) “se lixou” para o deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), que queria voltar a relatar o processo por quebra de decoro parlamentar contra o deputado Edmar Moreira (sem partido-MG) depois de ter dito que “está se lixando” para a opinião pública.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Não vadeia...

O governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), chamou de “vagabundo” o presidente do Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol) do estado, Paulo Flávio Carvalho, durante discurso proferido na noite de segunda-feira, na cidade de Nova Andradina, onde participou de solenidade de entrega de viaturas policiais.

Esta não é a primeira vez que Puccinelli perde a compostura ao usar as palavras. Em 2005, pouco antes de ser eleito governador, disse que iria “chutar na bunda dos deputados vagabundos”, provocando a ira da bancada petista na Assembléia Legislativa de MS.

No dia 21 de novembro do ano passado, em entrevista à Rede Brasil de Televisão e à Agência Brasil, definiu como “vadiagem” as reivindicações de aumento do tempo de planejamento de aulas para 1/3 da carga horária de trabalho dos professores. Na época, poucos veículos de comunicação deram a notícia, justiça seja feita ao sites de notícias Midiamax e Cassilândia News (que reproduziu o material do Mídiamax). Os demais veículos preferiram o silêncio.

Desta vez, o Midiamax e o BBC News noticiaram os impropérios do governador.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Imagens de tortura do set do filme Standard Operation Procedure recontam a história de Abu Ghraib

Publicado originalmente no The Huffington Post no dia 5
Fotografias:
Nubar Alexanian
Texto: Katharine Thomas
Tradução: Victor Barone


Uma das primeiras decisões do presidente Barack Obama foi a proibição do uso de técnicas de tortura em prisioneiros suspeitos de terrorismo, até então permitidas pelo Departamento de Justiça sob a administração Bush.

Memorandos (do governo estadunidense) publicados em 16 de abril de 2009 descrevem em detalhes “técnicas avançadas de interrogatório” usadas nestas pessoas. Apesar de alguns americanos terem tido contato com a controvérsia que cercava os abusos cometidos contra as pessoas detidas na prisão de Abu Ghraib, poucos tinham noção, de fato, do tipo de técnicas que eram usadas pelas autoridades.

Estas fotos foram criadas no set de Standard Operating Procedure, um filme de Errol Morris que conta o que aconteceu em Abu Ghraib.

As imagens são remontagens acuradas dos acontecimentos que ocorreram naquela prisão. O objetivo é o de tornar clara a idéia do que é a tortura e provocar o observador para que se coloque no lugar das pessoas que foram torturadas.

Em um memorando, John Rizzo, assistente do advogado geral Jay S. Bybee, escreveu: "...A prancha d’água não causa dor ou danos reais, não causa, em nossa opinião, ‘dor forte ou sofrimento’... A prancha d’água é uma intervenção controlada e não se pode dizer que, mesmo em um longo período de tempo, gere sofrimento”.
Algumas pessoas que não acreditavam que a prancha d’água fosse uma forma de tortura, mudaram suas opiniões após experimentarem elas mesmas o procedimento. Escritor e analista político, Christopher Hitchens foi desafiado a passar pela experiência, depois do que disse o seguinte: “Se a prancha d’água não se constitui em uma tortura, então não existe nada que possa ser descrito como tortura”.

A prancha d’água é um procedimento no qual um pano é colocado sobre o nariz e a boca de um indivíduo enquanto água é derramada sobre sua face por um período inferior a um minuto. A maca em que o indivíduo é amarrado é colocada em uma posição inclinada, mantendo a cabeça do detento em nível inferior de modo a impedir que a água vá para os pulmões e cause um afogamento de fato.

Juntamente a técnicas coercitivas como a prancha d’água, o Gabinete de Conselho Jurídico (do Governo estadunidense) prescreveu o uso de outras técnicas destinadas a mostrar aos detentos que eles não tinham "qualquer controle sobre suas necessidades humanas básicas”. Entre estas técnicas, estavam a nudez forçada, manipulação da dieta e privação de sono. Cães foram usados para intimidar os prisioneiros. Em um caso, um detido sofreu múltiplas mordidas.

Tratadores destes cães relataram uma competição para ver quem poderia fazer os prisioneiros urinarem devido ao medo.

Uma das imagens mais infames documentadas por soldados em Abu Ghraib mostra um homem encapuzado, de pé sobre uma caixa. As mãos do detido foram presas a fios e lhe disseram que se ele as baixasse ou descesse da caixa, seria eletrocutado.

Sacos de cimento foram usados muitas vezes como capuz para cobrir o rosto dos detentos, uma de muitas técnicas utilizadas para fazê-los se sentirem sem controle sobre os acontecimentos.

Os detentos eram constantemente deixados por horas em posições desconfortáveis. Posições estressantes e privação de sono eram usadas para amaciá-los antes dos interrogatórios.

A imagem que mostra militares se beijando em uma sala de interrogatório junto a um detento amarrado, explicita o abuso sexual e o comportamento desregrado dos militares, documentados em fotografias tiradas pelos próprios soldados.

Esta fotografia foi tirada de um monitor ligado a uma mini-câmera posicionada no fundo de um tambor de 50 litros com fundo de vidro. Ela mostra o rosto de um indivíduo cuja cabeça foi afundada na água para simular afogamento.

Na descrição das técnicas de tortura com água, usadas na guerra filipino-americana, o tenente Grover Flint disse, "seu sofrimento deve ser o de um homem que está se afogando, mas sem que ele se afogue”.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Do jeitinho que eles gostam

A maioria dos parlamentares não vê problema algum em usar dinheiro público para passear com a família no exterior, pagar a conta de telefone celular dos filhos ou abrigar parentes e empregados domésticos nos gabinetes. Um grupo – felizmente menor – ainda se permite acrescentar ao rol de facilidades contratar fantasmas, embolsar parte do salário dos funcionários e até receber propina. Portanto, se há alguém que tem motivos de sobra para chorar são os eleitores.”

Trecho da reportagem “Chore por nós, senador”, de Otávio Cabral, na Veja.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

As similaridades entre Sionismo e Nazismo

Um câncer vem se alastrando e corroendo os alicerces do debate sobre as políticas israelenses no Oriente Médio, em especial sobre sua postura em relação aos palestinos. Este câncer tem como objetivo destruir a fundamentação de qualquer argumento que contenha em seu bojo uma crítica a esta postura, classificando estes argumentos, sejam eles quais forem, como anti-semitas. Nos estágios mais avançados desta doença, a mais simples menção crítica a Israel é classificada como um ataque direto ao judaísmo, como uma atitude calcada na reafirmação do nazismo, como uma apologia ao anti-semitismo.

Este mal se alastrou de tal forma que até mesmo gente mais antenada com a questão refreia a língua na tentativa de ser “politicamente correto” e se adequar ao que convencionou-se como postura adequada na tratativa de assuntos que espetem Israel em suas feridas mais purulentas.

Dois temas são particularmente evitados: críticas ao sionismo e comparações entre este pensamento e o nazismo. Durante a última ofensiva israelense sobre a Faixa de Gaza, alguns levantaram a lebre, apontando as similaridades entre sionistas e nazistas. Prontamente seus argumentos foram condenados publicamente, não por falta de base, mas com a intenção correlacioná-los ao rol das idéias anti-semitas.

Este receio é a mola mestra das políticas israelenses de domínio sobre os palestinos. É a partir dela que os sionistas tomam a dianteira neste conflito, condenando os palestinos a uma existência a margem da civilização e entregando-os de bandeja para o fundamentalismo islâmico. Esta estratégia do quanto pior melhor, na qual Israel alimenta o ódio e a divisão entre os palestinos para justificar a ocupação ilegal da Cisjordânia, de parte de Jerusalém e do cerco à Faixa de Gaza, é a estratégia sionista para alcançar o objetivo final: a manutenção de todo o território onde hoje se encontra Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza sob o domínio do povo judeu e somente dele. O sionismo não prevê dois povos naquela região e isso já foi claramente explicitado por diversos políticos israelenses, entre eles o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro das relações exteriores, Avigdor Lieberman.

No entanto, não se pode condenar judeus ou israelenses por isso. Nem todos são adeptos declarados do sionismo. Muitos querem apenas (e tem todo o direito) de viver em segurança em sua pátria. Portanto, é preciso diferenciar claramente judaísmo e sionismo.

Penso que o judaísmo, como qualquer outra religião, deve ser respeitado e seus seguidores devem ter garantido o direito de professar sua fé. O sionismo, por outro lado, não é uma religião, mas um pensamento que se utiliza de um pilar religioso para alcançar objetivos políticos. Ora, sendo uma linha política, o sionismo é passível de controvérsias no campo ideológico. Haverá quem o defenda e quem o combata. E isso, de forma alguma, sigifica defender ou combater o judaísmo. É preciso separar as questões. Judaísmo é uma religião e seus praticante devem ser protegidos de quaisquer ações repressoras, racistas ou difamadoras. Sionismo é linha política, e como tal é passível de contestação.

Não podemos, então, aceitar a auto-censura que o lobby sionista tenta impor ao mundo, em especial quando elege assuntos proibidos, temas tabus.

SIONISMO E NAZISMO

Portanto, tracemos um paralelo entre o sionismo e o nazismo. Isso é possível? Vejamos. Quanto a seus objetivos, o sionismo preconiza a preservação e prosperidade do povo judeu, afastando a possibilidade de seu extermínio ou assimilação. Os nazistas, por sua vez, lutavam pela preservação e prosperidade da raça ariana, afastando a possibilidade de miscigenação com outras raças.

Para o sionismo, o Estado não é um fim, mas um meio para alcançar os seus objetivos. "Após nos tornarmos uma força poderosa, como resultado da criação do estado, nós aboliremos a partilha e nos expandiremos para toda a Palestina. (...) O estado será apenas um estágio na realização do sionismo e sua tarefa é preparar a base para nossa expansão por toda a Palestina", Ben Gurion, citado por Noam Chomsky, The Fateful Triangle: The United States, Israel and the Palestinians, Pluto Press, London, 1999.

Estado e Democracia

Da mesma forma, para os nazistas o Estado não era um fim, mas um meio para alcançar os seus objetivos. "Em geral, não se deve esquecer que a finalidade suprema da razão de ser dos homens não reside na manutenção de um Estado ou de um governo; sua missão é conservar a raça. E se esta mesma se achar em perigo de ser oprimida ou até eliminada, a questão da legalidade passa a plano secundário", Adolf Hitler, Minha Luta, cap. III.

Outro paralelo pode ser traçado sobre o conceito de democracia. A mídia sionista tem apresentado o Estado de Israel como a única democracia do Oriente Médio. Seria verdade se for considerado como democracia um sistema que privilegia grupos de cidadãos em relação a outros, como, por exemplo, a antiga democracia ateniense restrita aos eupátridas, a democracia branca sul-africana da época do apartheid e a estadunidense antes dos anos 60. A "democracia" sionista exige de antemão que os cidadãos não judeus reconheçam o Estado de Israel como sendo um estado judeu, ou seja, que reconheçam a si mesmos como cidadãos de segunda categoria. Isso implica em aceitar a "lei do retorno" a qual concede a qualquer judeu do mundo (que é assim reconhecido segundo as normas do judaísmo ortodoxo), independentemente de onde tenha nascido, o direito à cidadania israelense.

Em outras palavras, todos os milhões de judeus do mundo (que somam muito mais que a população judia do próprio Estado de Israel) podem tornar-se eleitores em caso de necessidade. É assim intolerável para o Sionismo a existência de uma maioria não-judia no Estado de Israel, exceto se dominada e submetida como eram os negros pelos brancos cristãos e judeus durante a vigência do apartheid sul-africano. O projeto original de Theodor Herzl era o de um estado administrado como uma empresa com um comando centralizado e restrito a judeus. Herzl, em sua obra O Estado Judeu, explicitamente rejeitou o sistema democrático para o Estado de Israel.

Ao contrário dos sionistas, que estabeleceram uma democracia de casta, os nazistas foram assumidamente antidemocratas ou, no dizer de Adolf Hitler, defendiam a "genuína democracia germânica de livre eleição do Führer, que se obriga a assumir toda a responsabilidade por seus atos". O sistema nazista baseava-se no militar, em que o líder tem todo o poder de decisão e comando em relação a seus subordinados e assume os méritos dos alvos alcançados e todas as responsabilidades pelos fracassos. Para o Nazismo só deve governar quem for capaz de arriscar sua própria vida para garantir sua posição de comando. A democracia para o Nazismo é a "ditadura do número", em que os mais simpáticos e não os mais capazes comandam. Para os nazistas, a democracia é um sistema em que os mais espertos e não os mais capazes, corajosos e honestos são os favorecidos.

Portanto, da mesma forma que o Sionismo, o Nazismo vê o Estado como um meio e não como um fim - no que os dois se distinguem do Fascismo, em que a instituição do Estado é posto como o alvo e o único capaz de administrar os conflitos internos. No Nazismo o alvo do Estado é a preservação da raça ariana, considerada ameaçada de destruição pela miscigenação com as demais raças, classificadas como inferiores pelos nazistas; no Sionismo o alvo é a preservação do povo judeu, ameaçado de destruição pelos gentios (os não judeus), seja pelo extermínio físico, seja pela assimilação.

Militarismo e Expansionismo

Outra similaridade entre nazismo e sionismo está no militarismo de sua sociedade. Para manter sua dominação, os sionistas necessitam de um poderoso sistema de dominação militar sobre a maioria palestina muçulmana, cristã e laica, somada a armas de propaganda. O Estado de Israel é o único país do Oriente Médio a ter armamentos nucleares e recebe anualmente dos EUA, além de apoio e proteção militar, bilhões de dólares.

Da mesma forma, uma das bases do Nazismo foi a crença de que o direito nasce da força e que a própria força já prova a quem pertence o direito de dominar: quem se deixa escravizar merece ser escravizado, defendiam. Os nazistas construíram para isso uma enorme máquina de guerra e o próprio Estado estruturou-se como uma organização militar.

Nazistas e sionistas compartilham a mesma estratégia expansionista. O ideal dos sionistas é refazer os limites que, segundo o Judaísmo, a Torá estabelece para o povo judeu viver. Esses limites hoje implicariam em tomar territórios que vão do Egito ao Iraque. Guerras expansionistas já foram empreendidas com este fim. Os nazistas, por sua vez, eram essencialmente expansionistas e defendiam que a segurança do Estado é tanto maior quanto for seu território. Como no Nazismo não há lugar para escrúpulos no que se refere a acumular poder.

Racismo: Semitismo e Arianismo

O Sionismo, como o Nazismo, defende que os judeus são uma raça. Embora os sionistas costumem declarar que o Sionismo seja um movimento não-religioso, o Judaísmo aceitar pessoas de todas as raças e terem os hebreus e os judeus durante sua história se miscigenado com muitas raças, isso pode estar ligado às crenças cabalísticas (a mística desenvolvida no Judaísmo da diáspora) de que os judeus possuem uma alma adicional, ao contrário dos gentios que só possuiriam uma alma animal e a outras tradições racistas - que não são aceitas por todos os judeus.

Jabotinsky, um líder de extrema-direita, defendia a superioridade racial do semita em relação aos demais povos do Oriente Médio. A luta contra o "anti-semitismo" é também, para alguns sionistas, uma luta de preservação racial. Em 1975, a Resolução 3379 Assembléia Geral das Nações Unidas classificou o Sionismo como racismo, entre outros motivos pelo forte apoio sionista ao apartheid sul-africano. Esta resolução, porém, foi revogada em 1991, por pressão dos EUA onde os sionistas têm forte presença meio à maior população judia do mundo e junto a várias igrejas cristãs que acreditam no direito judeu à Palestina.

Os nazistas acreditavam na superioridade racial ariana em relação às demais raças. Defendiam que entre os povos germânicos a raça ariana foi mais preservada da miscigenação com as "raças inferiores" do que em outras populações arianas da Europa e do mundo. Afirmavam que a superioridade da raça ariana manifesta-se nas várias civilizações que teriam criado no mundo antigo e no progresso científico e intelectual que as civilizações arianas conseguiram no mundo moderno.

O fato de os povos germânicos terem permanecido num estado próprio das sociedades pré-históricas até entrarem em contato com povos como os romanos e os semitas árabes e seu pouco progresso científico se comparado a povos ameríndios como os incas, maias e astecas, é justificado apelando-se para argumentos como as condições geográficas onde esses povos teriam vivido. O Nazismo propõe-se exatamente a impedir que a miscigenação do ariano continue a se dar, e vê nos judeus agentes interessados em promover essa "degradação" da única raça que, segundo acreditam, poderia impedi-los de dominar o mundo.

Limpeza étnica

Uma das bases do Sionismo é a crença de que judeus e gentios não podem viver em paz. Isso justifica para eles a expulsão sumária de não judeus. Golda Meir assim se expressou sobre isso: "Nós devemos perguntar a nós mesmos: 'Que tipo de Israel nós desejamos?' Eu digo: um Israel judeu, sem interrogações ou dúvidas. Um Israel judeu, sem o medo diário [de saber] se a minoria constitui agora cinco por cento ou não", citado em Davar, 6 de junho de 1969.

A propaganda sionista dissimula esse desprezo e xenofobia disfarçando-o como "valorização da diversidade" e estimulando outras sociedades a dividirem-se e isolarem-se em etnias.

Para o Nazismo todas as demais raças ameaçam a raça ariana, em especial pela miscigenação. O Estado deve garantir a homogeneidade da população: "(...) A organização de uma comunidade de seres moral e fisicamente homogêneos, com o objetivo de melhorar as condições de conservação de sua raça e assim cumprir a missão com que esta foi assinalada pela Providência. Esta e não outra coisa significam a finalidade e a razão de ser de um Estado", Hitler, MInha Luta, Cap. IV.

E então...?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sarney, Stalin e Saddan: três bigodes e egos inflados

Conheça o Maranhão: para nascer, Maternidade Marly Sarney; para morar, escolha uma das vilas: Sarney, Sarney Filho, Kiola Sarney ou, Roseana Sarney; para estudar, há as seguintes opções de escolas: Sarney Neto, Roseana Sarney, Fernando Sarney, Marly Sarney e José Sarney; para pesquisar, apanhe um táxi no Posto de Saúde Marly Sarney e vá até a Biblioteca José Sarney, que fica na maior universidade particular do Estado do Maranhão, que o povo jura que pertence a um tal de José Sarney; para inteirar-se das notícias, leia o jornal O Estado do Maranhão, ou ligue a TV na TV Mirante, ou, se preferir ouvir rádio, sintonize as Rádios Mirante AM e FM, todas do tal José Sarney. Se estiver no interior do Estado ligue para uma das 35 emissoras de rádio ou 13 repetidoras da TV Mirante, todas do mesmo proprietário, do tal José Sarney; para saber sobre as contas públicas, vá ao Tribunal de Contas Roseana Murad Sarney (recém batizado com esse nome, coisa proibida pela Constituição, lei que no Estado do Maranhão não tem nenhum valor); para entrar ou sair da cidade, atravesse a Ponte José Sarney, pegue a Avenida José Sarney, vá até a Rodoviária Kiola Sarney. Lá, se quiser, pegue um ônibus caindo aos pedaços, ande algumas horas pelas “maravilhosas” rodovias maranhenses e aporte no município José Sarney. Não gostou disso e quer reclamar? Vá, então, ao Fórum José Sarney, procure a Sala de Imprensa Marly Sarney, informe-se e dirija-se à Sala de Defensoria Pública Kiola Sarney.

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O texto acima circula na internet há algum tempo, uma sátira sobre o culto à personalidade que o coronel José Sarney patrocina por todo o Maranhão. Além de todos estes logradouros públicos ostentando o sobrenome de família - que caracteriza sua persona política - Sarney também possui seu próprio mausoléu, preparado para receber seu corpo um dia (provavelmente fardado com a indumentária acadêmica), tal qual um faraó moderno. O Mausoléu do Sarney surgiu em 1990, quando o então governador Epitácio Cafeteira doou à família do imortal o Convento das Mercês, um prédio do século XVII tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. O local passou então a se chamar Convento das Mercês Memorial José Sarney e pode, conforme já apregoou o próprio Sarney, se transformar em um "ponto de peregrinação".

Este culto à personalidade, além do farto bigode, é um interessante elo entre as figura de Sarney, do ditador soviético Joseph Stalin – o Deus do PC do B – cuja trajetória política foi marcada pela tirania e por espalhar por todo o “reino” sua imagem messiânica, e a do ex-ditador iraquiano Saddan Hussein, que obrigou a população a se defrontar diariamente com seu sorriso sinistro em cartazes espalhados por ruas e avenidas.

Os três estão separados pelo tempo, pela geografia e pelos credos políticos, mas se equiparam na estratégia autoritária de inflar o próprio ego na tentativa de impor aos outros suas vontades e seus objetivos. Se equiparam também, dentro da boa tradição personalista, na eliminação das vozes discordantes. Se Stalin e Saddan esmagaram seus opositores na base da bala e do desterro, Sarney os eliminou por meio das ferramentas que lhe foram oferecidas pela democracia de grotão que impera no Brasil. Uma democracia na qual o poder se perpetua – ou troca de senhor em um revezamento promíscuo – nas mãos de patriarcas, grupos políticos ou econômicos.

Assim como Stalin e Saddan se colocavam acima da razão, a oligarquia Sarney encara o Maranhão como propriedade particular e utiliza o poder para se autopromover ao arrepio da Lei, que proíbe a colocação de nomes de personalidades vivas em logradouros públicos.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mendes e Barbosa



Não é novidade alguma, visto que quem não acompahou ao vivo teve centenas de opções para assistir na internet. No entanto, o bate boca de ontem no Supremo Tribunal Federal entre o presidente da casa, ministro Gilmar Mendes, e o ministro Joaquim Barbosa, foi chocante demais e merece ser reproduzida aqui também. Perde o Supremo como instituição.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Empreiteiras e Poder Público

Um levantamento feito pela revista Veja com base nas doações eleitorais de 2002 a 2008 e em repasses feitos aos diretórios nacionais dos partidos em 2006 e 2007 revela que as cinco maiores empreiteiras do país – Camargo Corrêa, OAS, Andrade Gutierrez, Odebrecht e Queiroz Galvão - doaram de forma legal pelo menos 114 milhões de reais a políticos no período. Em troca da generosidade, as mesmas cinco empreiteiras assinaram dezenas de contratos públicos. Só em obras do PAC, desde 2007, levaram 1,4 bilhão de reais.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Um guerrilheiro vale a vida de 10 civis?

No Afeganistão, assim como em Gaza e em Israel, a vida de civis não vale muito, em especial se estes vivem entre militantes palestinos, guerrilheiros islâmicos ou soldados israelenses. Disparar um míssil contra uma casa palestina repleta de civis para matar um militante do Hamas é tão odioso quanto explodir o próprio corpo entre civis em um ônibus em Tel Aviv. Bombardear um abrigo antiaéreo no qual poderia estar escondido Saddam Hussein e de quebra matar 400 civis inocentes é tão revoltante quando lançar um avião contra um prédio e matar três mil pessoas.

Embora este raciocínio seja compartilhado por muitos, civis continuam morrendo como moscas no Oriente Médio, esmagados entre guerrilhas armadas com foguetes e kalishnikovs e exércitos dotados de tanques e mísseis guiados por laser. Na última segunda-feira, foi a vez de mais um punhado de afegãos pagarem o preço da insanidade.

O grande número de civis mortos e feridos durante operações militares contra o Taliban e outros grupos islâmicos são, hoje, um dos principais pontos de tensão entre as autoridades afegãs e militares dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estacionados no Afeganistão.

Autoridades afegãs e vítimas atribuíram aos bombardeios aéreos realizados nesta semana pela Otan a morte de seis civis e ferimentos em outros 14 no Afeganistão. Os militares disseram, por sua vez, que oito “soldados inimigos” foram mortos no ataque. "Entre quatro a oito soldados inimigos foram mortos" durante uma operação na província de Kunar, afirma um relatório da International Security Assistance Force (ISAF).

Segundo a ISAF, “fontes de inteligência forneceram identificações positivas de insurgentes” em uma área conhecida por abrigar guerrilheiros afegãos na região nordeste do Afeganistão. “Interceptações da inteligência indicaram posições hostis com intenção de atacar postos da ISAF. Devido à localização remota dos alvos, a ISAF pediu suporte aéreo e eliminou a ameaça inimiga”, afirma o relatório.

No entanto, o governador do distrito de Watapour, Zalmai Yousufzai e o chefe da polícia local, Mirza Mohammad afirmaram que os alvos atingidos foram residências de civis, localizadas a 15 km a noroeste da capital da província, Asadabad. “Entre os seis mortos há duas crianças, uma mulher e três homens”, garantiu Yousufzai. Sete crianças, uma mulher e seis homens foram feridos, todos civis, segundo o governador e o policial.

Um repórter da AFP ouviu uma mulher de 25 anos, um menino de 14 e dois homens, todos feridos, no hospital de Asadabad. “Nós estávamos dormindo e de repente o teto desabou”, disse Zakirullah, de apenas 14 anos. “Não lembro de nada. Fiquei sabendo aqui que meu pai, minha mãe, meu irmão e minha irmã foram mortos e eu ferido”.

"Estávamos dormindo e ouvimos um barulho estranho e então o teto desabou sobre nós. As pessoas me tiraram dos escombros e algumas continuam aqui. Me disseram que nove pessoas da minha família foram mortas ou feridas. Não sei ainda quem morreu ou quem se feriu”, disse uma mulher, identificada como Shahida.

Segundo a Otan, o caso será investigado: “Nós sentimos profundamente qualquer possível ferimento a civis causados por nossas operações contra o inimigo. Vamos investigar e, se for verdade, proveremos assistência para as pessoas afetadas”, disse o porta voz da IASF, capitão Mark Durkin.

As denúncias de mais civis mortos e feridos surgem quatro dias depois das forças armadas dos Estados Unidos terem admitido que tropas sob seu comando mataram cinco civis – duas mulheres, uma criança e dois funcionários do governo - durante um ataque a província de Khost, no leste do Afeganistão, na semana passada.

Revolta

As constantes mortes e ferimentos de civis causaram reação ácida do parlamento afegão. Senadores da província de Khost querem que os responsáveis pelas agressões sejam julgados por cortes internacionais. Os senadores afegãos acusam as tropas da Otan, lideradas pelos Estados Unidos, de violar os tratados assinados para prevenir baixas entre não-combatentes.

No final do ano passado, o Ministério da Defesa do Afeganistão e a ISAF chegaram a um acordo para evitar alvos que pudessem causar baixas civis durante as operações militares contra os guerrilheiros muçulmanos.

Viva o fascismo indigenista!

Antes tarde que nunca. Ótima a entrevista concedida pelo professor universitário Victor Hugo Cárdenas ao jornalista Duda Teixeira, publicada recentemente na revista Veja. Cárdenas é uma das mais consistentes vozes da oposição ao presidente da Bolívia, Evo Morales, e deve candidatar-se à presidência do país em dezembro.

O professor foi uma das primeiras vítimas do texto constitucional aprovado em janeiro, que deu a 36 etnias indígenas autonomia judiciária para julgar e punir segundo as leis tribais. No início de março, sua casa no Lago Titicaca foi saqueada por indígenas partidários de Morales. Sua mulher, seus filhos e outros parentes foram agredidos violentamente com paus e chicotes.

Cárdenas, que é índio Aimará, denuncia o caráter racista e excludente das políticas promovidas por Morales. “A primeira vítima (da nova constituição) foi a democracia, pois essa nova Carta criou uma dupla cidadania, em que uns têm mais direitos que outros.”, afirma.

Segundo o professor, o Movimento para o Socialismo (MAS), partido do presidente Evo Morales, “inaugurou um racismo ao revés, em que os indígenas leais ao partido ou moradores de área rural têm mais direitos que os outros. Com isso, eles ganham privilégios e são usados como massa de manobra. Pessoas que não são indígenas passaram a ser odiadas porque são consideradas perversas por natureza.”.

Etnocentrismo

Durante a entrevista, Cárdenas faz um comentário apavorante mostrando como a manipulação da população - em especial das populações menos favorecidas – por governantes populistas pode transformar valores humanistas em protótipos de um fascismo com falsas cores socialistas.

“Na Bolívia, o MAS criou a imagem de que os indígenas são pequenos anjos. Uma espécie de reserva moral e ética da humanidade. É uma visão etnocentrista, segundo a qual a cultura aimará é superior às outras. Isso é falso. Essa ideia desmoronou, com os múltiplos casos de corrupção e assassinatos que estremeceram o país. Muitos indígenas que entraram no governo se apropriaram inescrupulosamente dos recursos públicos.”.

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