Ventos de novembro
trazem cheiro de pão novo
e café servido às pressas
na padaria chique da esquina
onde coroados comentam
falcatruas da vez entre nacos
de massa e manteiga.
Ventos de novembro
sopram mornos
na tarde modorrenta
levando para longe
o que me restava de fé.
Ventos de novembro
elevam teu perfume
às minhas narinas inflamadas
me impregnando com teu cheiro
inundando minha boca d´água
maquiando o fedor reinante.
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sábado, 14 de novembro de 2009
sábado, 7 de novembro de 2009
Poesia aos sábados
henry escreve para anais
anais,
quando você chegou
parecia que algumas batalhas
sempre seriam perdidas
ganhei a percussão do teu inglês
quando me restavam somente palavras
quando nada importa mais
podemos fazer bom uso
de um baralho
de uma adaga doméstica
e de um pombo-correio
somos, de verdade, da família da Lua
corações vestindo trapos
te estendo minha mão mais cuidadosa
já que meu maior medo
é o ruído de porcelana se partindo em mil pedaços
love, henry
Audemir Leuzinger, esta semana, no Poema Dia.
anais,
quando você chegou
parecia que algumas batalhas
sempre seriam perdidas
ganhei a percussão do teu inglês
quando me restavam somente palavras
quando nada importa mais
podemos fazer bom uso
de um baralho
de uma adaga doméstica
e de um pombo-correio
somos, de verdade, da família da Lua
corações vestindo trapos
te estendo minha mão mais cuidadosa
já que meu maior medo
é o ruído de porcelana se partindo em mil pedaços
love, henry
Audemir Leuzinger, esta semana, no Poema Dia.
domingo, 1 de novembro de 2009
sábado, 31 de outubro de 2009
Poesia aos sábados
Ópera-rock sobre o cárcere de Abaetetuba
1 – os fatos
Tinha quinze anos e subtraíra um Rolex made
in China ou um CD by Zona Franca de Manaus.
Por isso fora jogada
numa cela úmida de suor e porra.
Uma cela ocupada por homens exemplares,
educados na arte da pederastia e da extorsão
– onde trocava um copo d’água por uma chupada.
Tinha quinze anos e roubara pouco mais
de uns reais, que não lhe pagavam a fome.
Por isso fora jogada
numa cela feita de aço, músculo, testosterona.
Uma cela abarrotada de orações sinceras,
de sífilis, de gonorréia
– onde trocava fiapos de colchão por tapas na cara.
Tinha quinze anos e roubara um pedaço de pão
ou uma carteira de couro de avestruz.
Por isso fora jogada
numa cela fedendo a desinfetante de menta e cu.
Uma cela decorada com frases de ódio
e estelares bocetas globais
– onde trocava um prato de comida por uma trepada.
2 – o carcereiro
Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.
(O trânsito é um problema que o incomoda:
busina, semáforo, lhe tiram do sério.)
Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.
(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)
Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.
(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)
Nada perturba o seu sono.
3 – os detentos
Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu couve.
Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.
Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos
– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.
Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas
– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.
Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.
Aqui o sol é o mesmo para todos
e o interruptor o apaga.
4 – fim
cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível
(talvez seja o vizinho
ou nós mesmos – algo nos diz)
e rua a rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum
Rafael Nolli, esta semana, no Poema Dia
1 – os fatos
Tinha quinze anos e subtraíra um Rolex made
in China ou um CD by Zona Franca de Manaus.
Por isso fora jogada
numa cela úmida de suor e porra.
Uma cela ocupada por homens exemplares,
educados na arte da pederastia e da extorsão
– onde trocava um copo d’água por uma chupada.
Tinha quinze anos e roubara pouco mais
de uns reais, que não lhe pagavam a fome.
Por isso fora jogada
numa cela feita de aço, músculo, testosterona.
Uma cela abarrotada de orações sinceras,
de sífilis, de gonorréia
– onde trocava fiapos de colchão por tapas na cara.
Tinha quinze anos e roubara um pedaço de pão
ou uma carteira de couro de avestruz.
Por isso fora jogada
numa cela fedendo a desinfetante de menta e cu.
Uma cela decorada com frases de ódio
e estelares bocetas globais
– onde trocava um prato de comida por uma trepada.
2 – o carcereiro
Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.
(O trânsito é um problema que o incomoda:
busina, semáforo, lhe tiram do sério.)
Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.
(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)
Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.
(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)
Nada perturba o seu sono.
3 – os detentos
Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu couve.
Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.
Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos
– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.
Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas
– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.
Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.
Aqui o sol é o mesmo para todos
e o interruptor o apaga.
4 – fim
cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível
(talvez seja o vizinho
ou nós mesmos – algo nos diz)
e rua a rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum
Rafael Nolli, esta semana, no Poema Dia
sábado, 24 de outubro de 2009
Poesia aos sábados
O Tigre
E o tigre de mil bocas rolou, estilhaçando o solo.
E a cotovia cantou em algum lugar do Norte.
E a fumaça subiu enquanto assavam búfalos
E os galos fugiram do amanhecer, mudos de espanto
E Pedro negou dez, Judas beijou quarenta,
E todos os jornais negaram infinitas vezes.
E o ouro escorreu pelas mãos ávidas dos poderosos
Enquanto o tigre de mil bocas, faminto
Levantou seu dorso esquálido
E com uma só patada,
destruiu, engoliu, arrasou
E comeu
Ricos e pobres, brancos e negros, judeus e palestinos
americanos e árabes, europeus e latinos,
oriente e ocidente
oceanos e nuvens
O tigre de mil bocas digeriu o mundo
Depois dormiu cem anos esperando o Messias.
Maria Helena Bandeira, esta semana, no Poema Dia.
E o tigre de mil bocas rolou, estilhaçando o solo.
E a cotovia cantou em algum lugar do Norte.
E a fumaça subiu enquanto assavam búfalos
E os galos fugiram do amanhecer, mudos de espanto
E Pedro negou dez, Judas beijou quarenta,
E todos os jornais negaram infinitas vezes.
E o ouro escorreu pelas mãos ávidas dos poderosos
Enquanto o tigre de mil bocas, faminto
Levantou seu dorso esquálido
E com uma só patada,
destruiu, engoliu, arrasou
E comeu
Ricos e pobres, brancos e negros, judeus e palestinos
americanos e árabes, europeus e latinos,
oriente e ocidente
oceanos e nuvens
O tigre de mil bocas digeriu o mundo
Depois dormiu cem anos esperando o Messias.
Maria Helena Bandeira, esta semana, no Poema Dia.
sábado, 17 de outubro de 2009
Poesia aos sábados
pelo sim,
pelo não,
foi atropelo.
quem, de nós,
ultrapassou
sinal vermelho?
qual dos dois,
está estendido
no chão?
Valéria Tarelho, esta semana, no Poema Dia
pelo não,
foi atropelo.
quem, de nós,
ultrapassou
sinal vermelho?
qual dos dois,
está estendido
no chão?
Valéria Tarelho, esta semana, no Poema Dia
sábado, 10 de outubro de 2009
Poesia aos sábados
meus sudários
caro tolo, esta tarde para tanta coisa
coisas como pedir desculpas aos mártires
nao sei de que lado da cerca fico
na colônia dos leprosos
o único morador diz temer o contágio
aqui de fora
palmilho os caminhos
estradas menos viajadas
agacho-me na beira dos rios
já que todo rio é Jordão
toda escada sobe aos céus
todo alimento é maná
toda pedra é monte Ararat
e todo vinho foi água um dia
a carpideira sobre seu cavalo
mostra-me as cartas do seu tarô
escolho uma carta
você tem sido um bom guarda dos teus irmãos?
não soube responder
analfabeto da minha face
concentro-me na leitura de sudários
até poder ler meu próprio rosto
e contar a minha estória
Audemir Leuzinger, esta semana, no Poema Dia
caro tolo, esta tarde para tanta coisa
coisas como pedir desculpas aos mártires
nao sei de que lado da cerca fico
na colônia dos leprosos
o único morador diz temer o contágio
aqui de fora
palmilho os caminhos
estradas menos viajadas
agacho-me na beira dos rios
já que todo rio é Jordão
toda escada sobe aos céus
todo alimento é maná
toda pedra é monte Ararat
e todo vinho foi água um dia
a carpideira sobre seu cavalo
mostra-me as cartas do seu tarô
escolho uma carta
você tem sido um bom guarda dos teus irmãos?
não soube responder
analfabeto da minha face
concentro-me na leitura de sudários
até poder ler meu próprio rosto
e contar a minha estória
Audemir Leuzinger, esta semana, no Poema Dia
sábado, 3 de outubro de 2009
Poesia aos sábados
Desespero de Vida
Tentei agarrá-la pelas mãos:
Escorreu-me entre os dedos.
Tentei bebê-la em doses homeopáticas, a conta-gotas.
Dosada...
Faltou-me os efeitos colaterais.
Enfrentei-a só...
Fez falta a dádiva maior:
Dividí-la.
Decidi a ela doar-me, sem precauções.
Rendida.
Sobrei-me inteira e fértil.
Amei o mistério impalpável:
Vida!
Orgasmo infinito.
E quero-te assim.
Com perigos e riscos.
Em total desassossego.
Alyne Costa, esta semana, no Poema Dia
Tentei agarrá-la pelas mãos:
Escorreu-me entre os dedos.
Tentei bebê-la em doses homeopáticas, a conta-gotas.
Dosada...
Faltou-me os efeitos colaterais.
Enfrentei-a só...
Fez falta a dádiva maior:
Dividí-la.
Decidi a ela doar-me, sem precauções.
Rendida.
Sobrei-me inteira e fértil.
Amei o mistério impalpável:
Vida!
Orgasmo infinito.
E quero-te assim.
Com perigos e riscos.
Em total desassossego.
Alyne Costa, esta semana, no Poema Dia
sábado, 26 de setembro de 2009
Poesia aos sábados
Canibal
Fará mal quem te possuir
se não a chupar até o tutano dos ossos:
será equívoco, errôneo.
Pecará, quem te possuir,
se não a eletrificar com a língua quente,
experimentando teus temperos naturais:
deixá-la trêmula, quase com medo.
E errará duplamente se não a cozinhar bem,
mui bem cozida, antes de comê-la o cu.
(Só as Putas Acreditam em Príncipes Encantados.)
Rafael Nolli, esta semana, no Poema Dia
Fará mal quem te possuir
se não a chupar até o tutano dos ossos:
será equívoco, errôneo.
Pecará, quem te possuir,
se não a eletrificar com a língua quente,
experimentando teus temperos naturais:
deixá-la trêmula, quase com medo.
E errará duplamente se não a cozinhar bem,
mui bem cozida, antes de comê-la o cu.
(Só as Putas Acreditam em Príncipes Encantados.)
Rafael Nolli, esta semana, no Poema Dia
sábado, 19 de setembro de 2009
Poesia aos sábados
Descoberta
Descobri-me caminhando em pedras lisas,
com os pés cobertos por uma fina lâmina de água,
agarrado à grama das margens,
os joelhos levemente dobrados,
as palmas das mãos esfoladas.
Preocupado somente em manter-me de pé,
deixando de admirar toda a paisagem à minha volta.
Diego Rodrigues, esta semana, no Poema Dia
Descobri-me caminhando em pedras lisas,
com os pés cobertos por uma fina lâmina de água,
agarrado à grama das margens,
os joelhos levemente dobrados,
as palmas das mãos esfoladas.
Preocupado somente em manter-me de pé,
deixando de admirar toda a paisagem à minha volta.
Diego Rodrigues, esta semana, no Poema Dia
sábado, 12 de setembro de 2009
Poesia aos sábados
entre bruxos e velas
vomito veneno e vísceras
ensandecida e crédula
no meu último ato místico
e me salvo sem pudor
de seus pecados
Adriana Godoy, esta semana, no Poema Dia
vomito veneno e vísceras
ensandecida e crédula
no meu último ato místico
e me salvo sem pudor
de seus pecados
Adriana Godoy, esta semana, no Poema Dia
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Terroristas e guerrilheiros
Recebi um e-mail recentemente, que começava com a seguinte citação de Olavo de Carvalho: "Todo comunista, sem exceção, é cúmplice de genocídio, é um criminoso, um celerado, tanto mais desprovido de consciência moral quanto mais imbuído da ilusão satânica da sua própria santidade. Nenhum comunista merece consideração, nenhum comunista é pessoa decente, nenhum comunista é digno de crédito. São todos, junto com os nazistas e os terroristas islâmicos, a escória da espécie humana".
Não sou comunista, pelo menos não me enquadro no que se convencionou classificar como comunista: adepto do centralismo democrático e de uma visão na qual o Estado deve regular todas as nuances sociais. Mas sou de esquerda desde menino, um socialista libertário e me reconheço em muitos conceitos que Mino Carta expressa ao separar eticamente direita e esquerda. Por isso, muito me incomodou o referido e-mail, cujo conteúdo que se seguiu à citação trazia noções ainda mais generalistas e preconceituosas.
Não me sinto bem ao lado de fascistas, xenófobos ou gente que discrimina por questões raciais, sexuais ou religiosas. Mas, não ouso classificar todas as pessoas que se enquadram nestas linhas de conduta como cúmplices de genocídio, criminosos, celerados, desprovidos de consciência moral, imbuídos da ilusão satânica, indignos de consideração ou crédito, indecentes, ou que sejam “a escória da espécie humana".
O contexto da missiva era o de uma comparação entre os guerrilheiros que se opuseram ao regime militar nos anos 60 e 70 no Brasil e os torturadores que foram (assim como estes guerrilheiros) beneficiados pela anistia.
Diz um trecho do e-mail: “...na verdade o Sr Franklin Martins, Ministro do Governo da República Federativa do Brasil - embora tenha força para evitar que se publiquem matérias nos jornais escritos ou falados em nosso País - não tem permissão para entrar nos Estados Unidos, pois ali continua arrolado como TERRORISTA! Não adianta o fato de nós os termos anistiado.”. E questiona: “Se o mundo não concede anistia a Bin Laden, por que concederia a Franklin Martins?”.
Discorrendo nesta linha de raciocínio o texto tenta colocar no mesmo saco os conceitos de guerrilha e terrorismo: “Os dois grupos não estavam lutando por uma causa política, usando os mesmos meios para chegar aos seus objetivos? Os dois não estavam praticando terrorismo em nome de ideologias? Os dois não se intitulavam como ‘revolucionários’? Qual a diferença entre o Franklin Martins que escreve uma carta ao país ameaçando um embaixador de morte e Osama Bin Laden que manda um vídeo para o mundo, ameaçando com novos atentados terroristas? Já inventaram o terrorismo seletivo? Pode existir ‘ex-terrorista’, mas não pode existir "ex-torturador"? As vidas são diferentes? Existem categorias de vidas humanas?”.
Será que é tão simples assim?
No dia 11 de setembro de 2001, radicais islâmicos utilizaram aviões comerciais para atingir as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Por trás do ataque estava uma organização islâmica, a Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. O que eles fizeram pode ser classificado como terrorismo? Não conheço quem dissesse que não. Os militantes da Al-Qaeda raptaram aviões civis e atacaram pessoas inocentes com o simples intento de causar o máximo número possível de vítimas espalhando a insegurança e disseminando o terror.
Diz o Aurélio que terrorismo é o “modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas ou de impor-lhes a vontade pelo uso sistemático do terror” ou uma “forma de ação política que combate o poder estabelecido mediante o emprego da violência”. O Wikepedia, por sua vez, diz que o terrorismo “é um método que consiste no uso de violência, física ou psicológica, por indivíduos, ou grupos políticos, contra a ordem estabelecida através de um ataque a um governo ou à população que o legitimou, de modo que os estragos psicológicos ultrapassem largamente o círculo das vítimas para incluir o resto do território.”.
Durante o recente conflito entre o exército israelense e palestinos, na Faixa de Gaza, militantes do grupo islâmico Hamas dispararam foguetes contra cidades israelenses. Da mesma forma, o exército israelense matou centenas de civis na tentativa de atingir o Hamas. Qual a diferença entre as duas ações? De um lado militantes palestinos atacam o invasor com a única arma que possuem, de outro um exército moderno tenta conter estes ataques causando centenas de vítimas entre a população civil. Diferente dos ataques de 11 de setembro, baseados em um conceito de guerra santa mantido por uma leitura equivocada do Alcoorão, os militantes palestinos na Faixa de Gaza respondem a uma ocupação ilegal (condenada dezenas de vezes pela ONU e simplesmente ignorada por Israel e seus aliados).
Por guerrilha o Aurélio entende a “luta armada realizada por pequenos grupos constituídos irregularmente, sem obediências as normas estabelecidas nas convenções internacionais...”. Não é isso o que ocorre naquela região do Oriente Médio?
Vou além. Dentro do contexto da ocupação israelense há diferença entre um homem-bomba palestino que ataca uma instalação militar e outro que explode o próprio corpo em meio a civis inocentes? Apesar de ambas as situações serem igualmente horrendas, penso que sim. Qualquer resposta frente a uma ocupação ilegal, se dirigida às forças de ocupação, é legítima. Se dirigida à população civil, no entanto, deve ser tratada como terrorismo.
Nos últimos anos foi comum acompanharmos o seqüestro de ocidentais (e de seus aliados no oriente) em diversos paises do Oriente Médio. Em muitos casos estes seqüestros foram finalizados com covardes e cruéis assassinatos, cujas vítimas tiveram seus últimos momentos filmados por seus algozes e exibidos na internet como um show grotesco. Isso é terrorismo ou guerrilha? É terrorismo da pior espécie e deve combatido sem descanso. Comum também foram os atentados a bomba contra comboios militares, muitos também filmados como propaganda. Terrorismo ou guerrilha? Guerrilha. Trata-se de alvos militares escolhidos por grupos cujo país encontra-se sob ocupação.
Na década de 70 grupos de guerrilha combateram a ditadura militar no Brasil. O Congresso Nacional foi fechado, os jornais censurados, os direitos básicos da civilidade negados. Portanto, estes grupos combateram a ilegalidade. No entanto, nem mesmo o combate à ilegalidade pode ser usado para legitimar o terror, o seqüestro e o assassinato de civis. Da mesma forma, as forças armadas que combateram a guerrilha não podem ser acusadas de nada além de terem tentado legitimar um regime ilegítimo. Mas o que dizer dos que torturaram e assassinaram em nome da “ordem”?.
Podemos concordar ou não com os motivos que levam um grupo de pessoas a se organizarem militarmente para fazer frente a um Estado apoiado por um exército regular, mas não podemos condenar seus métodos quando aplicados contra estas mesmas forças. O argumento de que os guerrilheiros brasileiros combatiam a ditadura de direita para substituí-la por uma ditadura de esquerda, ou de que o Hamas é um grupo radical islâmico não interessa, de fato, visto que esta seria uma crítica do porvir. Ambas as lutas tentam contrapor uma situação de ilegalidade e de opressão.A possibilidade desta luta, vitoriosa, descambar para opressão (com viés ideológico diverso) deve ser alvo de outro debate. Foi o que ocorreu em Cuba. Os guerrilheiros da Sierra Maestra lutavam, sim, por uma causa justa. Combatiam o poder da oligarquia comandada por um ditador que transformou o país em um bordel estadunidense onde a Máfia e a corrupção comandavam. No entanto, ao derrubarem o regime de Fulgêncio Batista, conseguiram apenas substituir uma ditadura por outra. Este fato não desabona, no entanto, a guerrilha propriamente dita. Da mesma forma, os objetivos questionáveis do Hamas não podem ser usados para condenar a luta do povo palestino.
É preciso um distanciamento para olhar os fatos com os olhos da coerência e não com o ponto de vista dos vencedores ou dos derrotados. Como seriam classificados os partisans que combateram os nazistas na França caso estes tivessem vencido a guerra? Certamente seriam apontados como terroristas. Basta observar como são tratados os grupos armados que lutaram pelo estabelecimento do Estado de Israel na década de 40. Muitos utilizaram o terrorismo puro e simples contra civis árabes, mas não se houve dizer isso abertamente, afinal, eles foram os vencedores.
O que deve diferenciar terrorismo e guerrilha não é o lado do campo de batalha, mas uma combinação entre o que motiva estas ações e os métodos que estes grupos utilizam.
Veja mais sobre este tema:
- Um guerrilheiro vale a vida de 10 civis?
Não sou comunista, pelo menos não me enquadro no que se convencionou classificar como comunista: adepto do centralismo democrático e de uma visão na qual o Estado deve regular todas as nuances sociais. Mas sou de esquerda desde menino, um socialista libertário e me reconheço em muitos conceitos que Mino Carta expressa ao separar eticamente direita e esquerda. Por isso, muito me incomodou o referido e-mail, cujo conteúdo que se seguiu à citação trazia noções ainda mais generalistas e preconceituosas.
Não me sinto bem ao lado de fascistas, xenófobos ou gente que discrimina por questões raciais, sexuais ou religiosas. Mas, não ouso classificar todas as pessoas que se enquadram nestas linhas de conduta como cúmplices de genocídio, criminosos, celerados, desprovidos de consciência moral, imbuídos da ilusão satânica, indignos de consideração ou crédito, indecentes, ou que sejam “a escória da espécie humana".
O contexto da missiva era o de uma comparação entre os guerrilheiros que se opuseram ao regime militar nos anos 60 e 70 no Brasil e os torturadores que foram (assim como estes guerrilheiros) beneficiados pela anistia.
Diz um trecho do e-mail: “...na verdade o Sr Franklin Martins, Ministro do Governo da República Federativa do Brasil - embora tenha força para evitar que se publiquem matérias nos jornais escritos ou falados em nosso País - não tem permissão para entrar nos Estados Unidos, pois ali continua arrolado como TERRORISTA! Não adianta o fato de nós os termos anistiado.”. E questiona: “Se o mundo não concede anistia a Bin Laden, por que concederia a Franklin Martins?”.
Discorrendo nesta linha de raciocínio o texto tenta colocar no mesmo saco os conceitos de guerrilha e terrorismo: “Os dois grupos não estavam lutando por uma causa política, usando os mesmos meios para chegar aos seus objetivos? Os dois não estavam praticando terrorismo em nome de ideologias? Os dois não se intitulavam como ‘revolucionários’? Qual a diferença entre o Franklin Martins que escreve uma carta ao país ameaçando um embaixador de morte e Osama Bin Laden que manda um vídeo para o mundo, ameaçando com novos atentados terroristas? Já inventaram o terrorismo seletivo? Pode existir ‘ex-terrorista’, mas não pode existir "ex-torturador"? As vidas são diferentes? Existem categorias de vidas humanas?”.
Será que é tão simples assim?
No dia 11 de setembro de 2001, radicais islâmicos utilizaram aviões comerciais para atingir as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Por trás do ataque estava uma organização islâmica, a Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. O que eles fizeram pode ser classificado como terrorismo? Não conheço quem dissesse que não. Os militantes da Al-Qaeda raptaram aviões civis e atacaram pessoas inocentes com o simples intento de causar o máximo número possível de vítimas espalhando a insegurança e disseminando o terror.
Diz o Aurélio que terrorismo é o “modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas ou de impor-lhes a vontade pelo uso sistemático do terror” ou uma “forma de ação política que combate o poder estabelecido mediante o emprego da violência”. O Wikepedia, por sua vez, diz que o terrorismo “é um método que consiste no uso de violência, física ou psicológica, por indivíduos, ou grupos políticos, contra a ordem estabelecida através de um ataque a um governo ou à população que o legitimou, de modo que os estragos psicológicos ultrapassem largamente o círculo das vítimas para incluir o resto do território.”.
Durante o recente conflito entre o exército israelense e palestinos, na Faixa de Gaza, militantes do grupo islâmico Hamas dispararam foguetes contra cidades israelenses. Da mesma forma, o exército israelense matou centenas de civis na tentativa de atingir o Hamas. Qual a diferença entre as duas ações? De um lado militantes palestinos atacam o invasor com a única arma que possuem, de outro um exército moderno tenta conter estes ataques causando centenas de vítimas entre a população civil. Diferente dos ataques de 11 de setembro, baseados em um conceito de guerra santa mantido por uma leitura equivocada do Alcoorão, os militantes palestinos na Faixa de Gaza respondem a uma ocupação ilegal (condenada dezenas de vezes pela ONU e simplesmente ignorada por Israel e seus aliados).
Por guerrilha o Aurélio entende a “luta armada realizada por pequenos grupos constituídos irregularmente, sem obediências as normas estabelecidas nas convenções internacionais...”. Não é isso o que ocorre naquela região do Oriente Médio?
Vou além. Dentro do contexto da ocupação israelense há diferença entre um homem-bomba palestino que ataca uma instalação militar e outro que explode o próprio corpo em meio a civis inocentes? Apesar de ambas as situações serem igualmente horrendas, penso que sim. Qualquer resposta frente a uma ocupação ilegal, se dirigida às forças de ocupação, é legítima. Se dirigida à população civil, no entanto, deve ser tratada como terrorismo.
Nos últimos anos foi comum acompanharmos o seqüestro de ocidentais (e de seus aliados no oriente) em diversos paises do Oriente Médio. Em muitos casos estes seqüestros foram finalizados com covardes e cruéis assassinatos, cujas vítimas tiveram seus últimos momentos filmados por seus algozes e exibidos na internet como um show grotesco. Isso é terrorismo ou guerrilha? É terrorismo da pior espécie e deve combatido sem descanso. Comum também foram os atentados a bomba contra comboios militares, muitos também filmados como propaganda. Terrorismo ou guerrilha? Guerrilha. Trata-se de alvos militares escolhidos por grupos cujo país encontra-se sob ocupação.
Na década de 70 grupos de guerrilha combateram a ditadura militar no Brasil. O Congresso Nacional foi fechado, os jornais censurados, os direitos básicos da civilidade negados. Portanto, estes grupos combateram a ilegalidade. No entanto, nem mesmo o combate à ilegalidade pode ser usado para legitimar o terror, o seqüestro e o assassinato de civis. Da mesma forma, as forças armadas que combateram a guerrilha não podem ser acusadas de nada além de terem tentado legitimar um regime ilegítimo. Mas o que dizer dos que torturaram e assassinaram em nome da “ordem”?.
Podemos concordar ou não com os motivos que levam um grupo de pessoas a se organizarem militarmente para fazer frente a um Estado apoiado por um exército regular, mas não podemos condenar seus métodos quando aplicados contra estas mesmas forças. O argumento de que os guerrilheiros brasileiros combatiam a ditadura de direita para substituí-la por uma ditadura de esquerda, ou de que o Hamas é um grupo radical islâmico não interessa, de fato, visto que esta seria uma crítica do porvir. Ambas as lutas tentam contrapor uma situação de ilegalidade e de opressão.A possibilidade desta luta, vitoriosa, descambar para opressão (com viés ideológico diverso) deve ser alvo de outro debate. Foi o que ocorreu em Cuba. Os guerrilheiros da Sierra Maestra lutavam, sim, por uma causa justa. Combatiam o poder da oligarquia comandada por um ditador que transformou o país em um bordel estadunidense onde a Máfia e a corrupção comandavam. No entanto, ao derrubarem o regime de Fulgêncio Batista, conseguiram apenas substituir uma ditadura por outra. Este fato não desabona, no entanto, a guerrilha propriamente dita. Da mesma forma, os objetivos questionáveis do Hamas não podem ser usados para condenar a luta do povo palestino.
É preciso um distanciamento para olhar os fatos com os olhos da coerência e não com o ponto de vista dos vencedores ou dos derrotados. Como seriam classificados os partisans que combateram os nazistas na França caso estes tivessem vencido a guerra? Certamente seriam apontados como terroristas. Basta observar como são tratados os grupos armados que lutaram pelo estabelecimento do Estado de Israel na década de 40. Muitos utilizaram o terrorismo puro e simples contra civis árabes, mas não se houve dizer isso abertamente, afinal, eles foram os vencedores.
O que deve diferenciar terrorismo e guerrilha não é o lado do campo de batalha, mas uma combinação entre o que motiva estas ações e os métodos que estes grupos utilizam.
Veja mais sobre este tema:
- Um guerrilheiro vale a vida de 10 civis?
sábado, 5 de setembro de 2009
Poesia aos sábados
abre o meu coração
nele encontrarás o verde pulsar
da súplica clandestina dos versos que não disse
porque os escrevo em todas as manhãs bem cedo
nos espelhos
na justeza dos girassóis
que urgência trago aqui?
que trajectória ?
que preciosíssimas ilhas?
o mundo é dos pássaros.
Maria Gomes, esta semana, no Poema Dia
nele encontrarás o verde pulsar
da súplica clandestina dos versos que não disse
porque os escrevo em todas as manhãs bem cedo
nos espelhos
na justeza dos girassóis
que urgência trago aqui?
que trajectória ?
que preciosíssimas ilhas?
o mundo é dos pássaros.
Maria Gomes, esta semana, no Poema Dia
sábado, 29 de agosto de 2009
Poesia aos sábados
Vento
Peguei o lampião, auscultei a alma.
Marido dormia no sofá quando o vento veio.
Perfume de homem, com canela.
Entrou pelas narinas, percorreu o ventre.
Abri porta, pernas, montei no seu cavalo de cheiros, me perdi.
Quando voltei, marido se acordou.
- Você está diferente.
- Bestagem. Dorme.
No meio das pernas latejava, borboleta negra da lembrança.
Maria Helena Bandeira, esta semana, no Poema Dia.
Peguei o lampião, auscultei a alma.
Marido dormia no sofá quando o vento veio.
Perfume de homem, com canela.
Entrou pelas narinas, percorreu o ventre.
Abri porta, pernas, montei no seu cavalo de cheiros, me perdi.
Quando voltei, marido se acordou.
- Você está diferente.
- Bestagem. Dorme.
No meio das pernas latejava, borboleta negra da lembrança.
Maria Helena Bandeira, esta semana, no Poema Dia.
sábado, 22 de agosto de 2009
Poesia aos sábados
eu queria para ti um deus que desenhasse
a pedra o fogo o trigo o sal
- o som diáfano que persigo
nas entranhas misteriosas
uma canção que fosse de desvelo - uma planície.
Maria Gomes
a pedra o fogo o trigo o sal
- o som diáfano que persigo

nas entranhas misteriosas
uma canção que fosse de desvelo - uma planície.
Maria Gomes
sábado, 15 de agosto de 2009
Poesia aos sábados
de sol a cio
amo você
pelo avesso
e [confesso]
pelo verso:
o torto
e reto
afora
adentro
amo você
a quilo
a metro
a quilômetros
e perto
s e p a r a d o
bemjuntodopeito
amo você
água & vento
de fato
de feito
mundo & átomo
fogo-fátuo
astro
por você:
léu & cardo
chuva & chama
brando & árduo
eu ardo
Valéria Tarelho , esta semana, no Poema Dia
amo você
pelo avesso
e [confesso]
pelo verso:
o torto
e reto
afora
adentro
amo você
a quilo
a metro
a quilômetros
e perto
s e p a r a d o
bemjuntodopeito
amo você
água & vento
de fato
de feito
mundo & átomo
fogo-fátuo
astro
por você:
léu & cardo
chuva & chama
brando & árduo
eu ardo
Valéria Tarelho , esta semana, no Poema Dia
sábado, 8 de agosto de 2009
Poesia aos sábados
Genuflexório
Tento, pendo
E eu aqui no genuflexório
Peço, grito
Rezo
Grito, choro
E eu aqui no genuflexório
Rezo, peço
Tento
Tanto peço
E eu aqui no genuflexório
Tento, grito
Pendo
Pendo o grito
E eu aqui no genuflexório
Peço o preço
Rezo
Fabio Terra, esta semana, no Poema Dia
Tento, pendo
E eu aqui no genuflexório
Peço, grito
Rezo
Grito, choro
E eu aqui no genuflexório
Rezo, peço
Tento
Tanto peço
E eu aqui no genuflexório
Tento, grito
Pendo
Pendo o grito
E eu aqui no genuflexório
Peço o preço
Rezo
Fabio Terra, esta semana, no Poema Dia
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